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sábado, 17 de setembro de 2011

Os 10 mais - Fa-tal - Gal não é nenhuma Danni Carlos mais é leGal

Uma amiga minha super inteligente e simpática, além de bonita, postou hoje um texto (“Salve a língua portuguesa”) curto, mas engraçado sobre os incríveis e assustadores erros de português que todo mundo comete. É de assustar!

Isso é preconceito
Quando li eu confesso que dei risada, mais logo me penitenciei, porque a gente não deve rir dos outros. Se as pessoas cometem erros, não é porque elas sejem ignorantes, elas só não sabem escrever. As vezes as pessoas não falam direito, mais não é porque elas não são pessoas direitas. O que importa é o que as pessoas são por dentro. Não adianta querer que uma pessoa seje igual a noz. 
Acho que as pessoas estão ficando muito elitistas e preconceituosas. Se você, que está lendo, pertence a esse “todo mundo” que comete erros, não se chateie, saiba que eu te acolho, e agradeço de todo coração sua visita a este blógui e saiba que não pretendo expulsá-lo daqui, porque até outro dia eu também já fui um elitista, mas eu mudei por dentro.
Um dia desses veio um cara no blogui que ficou muito ofendido porque eu não gosto do Seu Jorge. Caso você não conheça o Seu Jorge, saiba que não é aquele cara de roupa surrada, barriga de fora e palito de dente na boca, que é dono do boteco da esquina. Seu Jorge é um cantor que canta aquela música super-bacana com a Ana Carolina: eu não vou parar de te amar eu não vou parar de te amar eu não vou parar de te amar eu não vou parar de te amar eu não vou parar de te amar eu não vou parar de te amar eu não vou parar de te amar eu não vou parar de te amar eu não vou parar de te amar eu não vou parar de te amar eu não vou parar de te amar eu não vou parar de te amar. Lendo assim você pode até achar que a música é chata, como eu achava, quando eu era elitista e pseudo... Bom, deixa eu dizer: o cara que entrou no blógui me chamou, com toda razão, de pseudo intelectual. E aí eu resolvi mudar, com certeza!!! J
Porisso, amigo, se você não teve oportunidade de falar e escrever como os intelectuais e como os pseudos escrevem, fique tranqüilo, que não vou te expulsá-lo do meu blógui só por causa disso. Pelo ao contrário, este pôsti leGal (é um trocadilho, você já vai entender, se não entender, me escreve que eu te explico) sobre um disco de música de MPB, é em sua homenagem, e tentarei estar há sua altura.
Como fazer um disco que todo mundo gosta?
Todo mundo gosta do que é fácil e simplesinho? Com certeza!!! Então prá que fazer um disco que ninguém gosta, ou que só uns caras nada haver gostam? Só prá ser diferente? Há, me poupe! Fazer um disco que todo mundo gosta não é tão difícil: ponha músicas conhecidas e todo mundo vai cantar junto. Pra que inventar moda? É só seguir o exemplo da Danni Carlos, aquela loira super charmosa e sensual, principalmente quando contracena no palco com aquele poste metálico que as pessoas costumam chamar de pole-dance (deve ser porque dança lá quem chegar primeiro nos treinos de classificação).
Mas a Danni Carlos fez isso (juntou um monte de músicas conhecidas, em inglês) e ficou famosa, vendeu um monte! Você não gosta de ouvir músicas que fizeram sucesso? Com certeza!!!  Todo mundo gosta. Só não tenho certeza se a Danni ficará inscrita nos anais da boa música. E quem precisa ficar nos anais? Se você pensou em sexo quando falei de anais, saiba que não tem nada haver. Só pensa nisso? Não seja libertário!
Aliás, acho linda a grafia do nome da Danni, com dois “enes”. Mais bem que podia acabar com “y”. Danny!!! J Também gosto de Francielly com dois eles e “y” no final. Eu se recuso a escrever com i, com certeza!!!  J
A Gal não é tão boa quanto a Danni, mas é bem legal
A Danni me lembra muito a Gal Costa (ficaria melhor assim: Ghal Kosta), porque a Gal tem um disco que é exatamente como o da Danni: cheio de música boa e conhecida. A Gal não é muito moderna como a Danni (se pelo ao menos usasse Ghal Kosta...), mas na época do disco que vou falar eu acho que talvez ela era. O disco também não é em inglês, que fica bem melhor de ouvir, mas é legal mesmo assim. A Gal também não é poeta como a Danni. Vejem este trecho de uma música composta pela Danni no seu último disco:
“para amar não é preciso estar perto, é preciso estar dentro”.
Lindo, não? Com certeza!!! J 
Essa poesia assim tão delicada e sensível me lembra até daquela música do Rei Roberto:
“coincidência total do côncavo e convexo, assim é nosso amor no sexo”.
Não é sempre que gosto de poesia, mais quando é boa assim, com certeza!!! J
Não sei se tem haver, mais talvez seje importante frizar que a moça (a Gal) gravou esse disco quando ainda era moça, e quando as músicas e vários dos autores ainda eram desconhecidos...
Não fique ancioso, já já eu falo que músicas tem no disco da Gal.
FA – TAL – GAL A TODO VAPOR é o nome do disco, lançado em 1971. É um disco duplo. Aliás, era duplo quando era em vinil (imagina, aquele trambolhão!). Na verdade, o disco veio depois. Gal ainda era desconhecida de todo mundo quando fez esse show, dirigido por Roberto Menescal (que 3 anos depois produziria Loki, do Arnaldo Baptista, que me lembra muito o Amado Batista, só que gosto mais do Amado – o outro é legal, mas é meio louco - só os intelectuais e os pseudos gostam dele).
Só depois de fazer muito esse show foi que alguém resolveu levar um gravador e a gravação do show virou esse disco, bem legal J, mais cheio de pobremas sonoros: tem uns chiados, às vezes o microfone não pega bem e tem até um momento em que o microfone cai. E aí você pergunta: e isso presta? E eu respondo: Com certeza!!! J 
Meia-culpa
Foi um terrível lápis da minha parte não incluir FA-TAL entre os dez maiores discos brasileiros de todos os tempos, que são vinte. Mas aqui faço a meia-culpa!!! Com certeza!!! J
Deixando todo mundo de lado, vamos ao disco
Tente passar pelo que estou passando: o disco tem Pérola Negra antes de o Luiz Melodia gravá-la.
A primeira metade é só ela, com aquela voz límpida, perfeita, impecável, e um violão. Músicas sensacionais. Começa com Fruta Gogóia, do folclore baiano, música curta, cantada à capela, seguida do início de Charles Anjo 45, tudo isso para introduzir Como 2 e 2, um dos diamantes do Caetano. Veja a referência que Caetano faz ao samba “Chão de Estrelas”, de Orestes Barbosa e Silvio Caldas, citado no pôsti anterior.
Tudo vai mal, tudo
Tudo mudou não me iludo e contudo
A mesma porta sem trinco, o mesmo teto
E a mesma lua a furar nosso zinco
Depois vem Coração vagabundo
E fez dos olhos meus
Um chorar mais sem fim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim
Se você ainda não ouviu “Antonico”, de Ismael Silva, cantada pela Gal de forma tão tocante quanto a letra, você ainda não recebeu este presente que a humanidade tem para dar aos que carregam uma alma.   
Cheio de humanidade: taí uma boa forma de descrever o disco. Delicadeza, elegância e beleza também. Disco para se ouvir levitando.
A segunda metade do disco, que tem outro clima, mais agitado, também abre com Fruta Gogóia, seguida de Vapor Barato, quando entram os demais instrumentos, entre eles a ótima e muito particular guitarra de Lanny Gordin (um baita guitarrista, que tocou até com o Aguillar!).
Voltando a todo mundo
O disco é fabuloso? Com certeza!!! J No entanto que está entre os melhores em qualquer lista que se faça. Mais pena que muita gente não conhece o disco. Atualmente eu estou focado em tudo o que existe. A gente deve ampliar os nossos horizontes estratégicos. A gente deve se focar em tudo.

Porisso essa é uma oportunidade para mim fazer essa indicação e ficar com menas culpa de não ter colocado o Fa-tal entre os 10 mais que são 20. Eu acho que agente deve ajudar as pessoas a conhecerem as coisas, des de que elas estejem com vontade de aprender. Com certeza!!! J

quinta-feira, 28 de julho de 2011

OS 10 MAIS - JARDIM ELÉTRICO IS VERY NICE PRÁ CHUCHU!

Mutantes foi, e ainda é, a mais importante banda do Brasil. Ainda hoje é a banda brasileira mais conhecida fora do país. Seus discos ainda são atuais, portanto sustentáveis, e plurais... ih, não sei o que escrever agora. Desculpe, mas "sustentável" e "plural" são as palavras da moda e como prezo muito a moda, tentei incluí-las. É o vício da redação empresarial: se você não sabe como convencer a anta do seu chefe a aprovar alguma proposta sua, basta colocar no relatório as palavras sustentável e plural, que ele aprova, por mais absurda que seja. 

Saindo da moda, que é mutante posto que tudo passa, tudo sempre passará, menos a importância dos Mutantes, voltemos a eles, depois dessa inútil digressão.

Talvez todos os seus cinco discos com a formação original devessem estar na lista dos 10 mais. Mas como sou humano e, portanto, injusto, resolvi colocar um só disco. Mas qual escolher?

“Mutantes”, de 1969, é maravilhoso, deslumbrante e tem “Caminhante Noturno”, “Dia 36” e “Qualquer Bobagem”, esta última tão tocante que Arnaldo, impossível, resolveu inventar e cantar como gago, o que, por incrível que pareça, não tirou em nada o peso da música. Mas é o "Jardim Elétrico", de 1971, que vai figurar na disputadíssima lista do Tio Moa dos 10 melhores discos brasileiros de todos os tempos. Como Tio Moa mata a cobra e mostra o pau, vamos aos motivos: 



 § Jardim é um disco injustiçado, e eu detesto injustiças. Fui criado vendo Batman, o paladino da justiça, aquela série meio comédia, que o Robin é, digamos, bem avançado para seu tempo. Um dia eu irei ao dicionário para descobrir o que significa paladino.

 § Jardim é provavelmente o mais completo e bem acabado de todos;

 §  Jardim tem a ousadíssima e lisérgica capa do Alan Voss, um gênio dos quadrinhos. Aliás, a capa ficou em segundo lugar em recente concurso de melhor capa de todos os tempos, promovido pelo site da MTV. Se quiser dar uma olhada nas outras maravilhas: http://mtv.uol.com.br/projetos/panamericana.

 §  Jardim começa com uma sonzeira do órgão do Arnaldo e do baixo do Liminha na introdução de Top Top

§  Ousadia: naquele tempo a expressão (e o gesto - ao lado) top top correspondia ao atual fuck you, ou ao brasileiro e sutil vá se fudê (sutileza que se estende ao delicado gesto da mão fechada e dedo médio esticado). Agora, imagina naquela época de censura militar moralista o disco começar com um sonoro "Eu quero que você se top top top... uh!” (veja na foto do Batman a coincidência: Robin tinha um gesto típico muito parecido com o top top)

§  Em Benvinda Arnaldo canta como Tim Maia. “Eu sem você não sou ninguém”. Detalhe: na capa do disco está escrito: qualquer semelhança com Tim Maia é mera coincidência. 

§  Porque tem a declaração de amor mais rasgada e debochada da história da humanidade, cantada pelo Arnaldo com voz gutural arranhada: “O que você me dá é lindo de morrer, é lindo. Oh, oh, oh, yeah… It’s very nice prá chuchú, baby” 

§  O disco tem Virgínia

§  Quando termina a melódica e sentimental Virgínia vem o alucinante riff da guitarra do Sérgio Dias, muito bem acompanhado pelo baixo de Liminha e pela majestática bateria, numa performance maravilhosa do Dinho. Tudo isso em “Jardim Elétrico”, a faixa título, a mais pesada do disco. Falando na batida da batera do Dinho, ela certamente inspirou Charles Gavin no fenomenal Cabeça Dinossauro.

§  Depois dessa pedrada tem a delicada “Lady, Lady”, com um hipnótico solo da guitarra do Sérgio Deus, digo, Dias.

§  A badalada balada mexicana “El Justiciero”, teatral, engraçada e impiedosa. 

§  Além de Arnaldo, Sérgio e Rita, os agregados Liminha e Dinho dão um show. Baixo e bateria ainda não haviam tido tanto peso nos mutantes. Ali eles conquistaram seu lugar fixo na banda.

§  Jardim é a transição entre as loucuras tropicálicas dos discos anteriores e o caminho que nos discos posteriores começaram a trilhar para um rock mais progressivo (que, dizem, desagradava Rita). Não que os anteriores e os posteriores perdessem um mínimo de qualidade, mas é que o Jardim, nessa transição, parece que acabou ficando mais pop, e como sou pop... 

§  Antes de J.E. ainda não haviam aparecido com tanta clareza os solos de guitarra do Sérgio Dias como em “Jardim Elétrico”, “Lady, Lady” e “Saravá”. Ele ainda mostra neste disco que é a grande voz, o grande cantor do grupo (Tecnicolor e Virgínia, por exemplo). Tanto que, no disco posterior Rita queria cantar a Balada do Louco, mas Arnaldo, felizmente, não deixou. E Sérgio Dias a cantou divinamente e a imortalizou.

§  Porque Rita está ótima cantando solo em “Baby”, e nas demais fazendo seus vocais criativos que colocam as músicas num outro nível, mais etéreo. Arnaldo disse que eles são diferentes dos Beatles porque tinham a Rita, que dava o tom circense.

§  E Arnaldo, o gênio criativo, ora com seu órgão maravilhoso dando o clima, ora como personagem, com interpretações viscerais, como em “It’s Very Nice...”.  

§  Porque, como o salgado queijo e a doce goiabada formam Romeu e Julieta, a irônica interpretação de Arnaldo a deliciosa voz de Sérgio Dias fazem de “Portugal de Navio” uma jóia rara.  

É impressionante como não só neste, mas em todos os discos da banda, as gravações, o conceito, a riqueza dos arranjos, as diversas camadas e as performances, tudo permanece original, atual, moderno, pós-moderno, pós-tudo.

Tudo lembra nossas vidas
Nossas noites de ilusão
Suas roupas estão vazias
Lady ainda estou aqui...

domingo, 17 de julho de 2011

OS 10 MAIS - AVOHAI E O SEGUNDO ANDAR DA SUA CASA

Neste estranho mundo em que você é diariamente pressionado para conseguir as coisas que você quer, ou pensa que quer, já que é a sociedade que lhe impõe as vontades sem que você perceba, quase não há chances de respirar. A correnteza louca desta vida te arrasta para bem longe de você mesmo.

Imagine-se na sua casa, com muita gente, num domingo muito quente e cheio de homens bebendo muito e falando alto com suas vozes grossas, crianças correndo pela casa e gritando com suas vozes finas, e a TV em alto volume ecoando o chato do Faustão gritando PORRA MEU com sua voz de Faustão . 

Você pode até pensar que gosta dessas coisas isoladamente, mas quando todas são colocadas juntas e exacerbadas aí já são outros quinhentos. E você lá no meio, com vontade de respirar e de ouvir silêncio, para poder se conectar com algo ou simplesmente com nada, torcendo que chegue logo a hora de todos irem embora, mas quando vão, você tem que arrumar tudo e tem que tomar banho e tem que se preparar para o trabalho no dia seguinte. Você definitivamente não consegue respirar. Assim é a sufocante vida moderna: um domingão desses. 

Agora imagine que na sua casa tivesse um segundo andar mágico, para onde você pudesse subir. Imagine que nesse andar não chegasse barulho nenhum, nenhum, nenhum, a não ser o das asas dos pássaros batendo de quando em quando e o leve roçar das folhas das árvores ao vento. Imagine que houvesse uma poltrona bem gostosa num quarto bem amplo, de frente para a varanda, onde você se sentasse e sentisse a vida calma correndo pelas suas veias e pelos seus alvéolos. Esse andar seria mágico não por causa disso tudo de que até agora falei, mas porque ele seria refratário a todos os pensamentos mundanos e cotidianos, a todos os seus barulhos internos, que você levaria contigo se o seu segundo andar não fosse mágico.

Eu sei que você não tem o seu segundo andar mágico... Mas saiba que eu tenho. Morra de inveja... Tudo bem: como eu sou uma pessoa boa, além de inteligente, sensível, compassiva e modesta, não vou tripudiar com a exclusividade do meu segundo andar mágico. Vou dividi-lo com você, não sem um certo custo, evidentemente. 

Você terá o seu segundo andar mágico, basta que para isso saia agora mesmo de sua casa, ou melhor, basta que para isso você acabe de ler este pôsti e depois saia imediatamente de sua casa e vá correndo, sem ultrapassar os limites de velocidade, para o shopping mais próximo e entre na primeira boa loja de CDs que você encontrar e compre o disco gravado em 1978 por um paraibano esquisito que atende pelo nome de Zé Ramalho. O nome do disco é Zé Ramalho, mas é mais conhecido como Avohai.

Voltemos ao domingão insuportável que é a sua vida. Não se ofenda, porque a minha vida também é assim, mesmo que meus domingos sejam, infelizmente, solitários. Creio, caro sobrinho, que você entendeu que o Tio Moa usou o domingão apenas metaforicamente, certo? 

Pronto, está lá você no domingão de sua vida. Agora ligue ponha um fone de ouvido e ligue o CD recém comprado. Você imediatamente vai visualizar uma escada toda branca, hollywodiana, larga e em curva, como nos musicais. Não digo que seja como a escada pela qual desce Norma Desmond na cena final de Crepúsculo dos Deuses, o melhor filme da existência, desde que a existência foi criada por deus, por que naquela escada havia uma escuridão crepusucular e a escada de que falo, que aparecerá à sua frente assim que colocar o CD na vitrola (!), é branca, clara, matutina.

Com os primeiros acordes, sem que você faça o menor esforço, sem que você coloque um pé diante do outro, você já estará subindo os primeiros degraus. Esses acordes... Meu deus, o que são esses acordes?  Uma viola inicia o caminho e te faz subir o primeiro degrau, aí entra um sintetizador que toca algo que te faz subir mais uns 4 degraus de uma vez só. O sintetizador é do tecladista Patric Moraz, que acabava de gravar seu último disco pelo Yes, banda seminal do rock-pop-viajandão (e aqui não vai, embora você não acredite, nenhuma ironia – como poderia eu ironizar uma banda que influenciou decisivamente Arnaldo Baptista, meu deusinho particular?) 

Enfim, só com os primeiros acordes de Avohai, primeira música do disco, você já subiu toda a escada e está no seu segundo andar mágico. Aí vem a voz de Zé Ramalho, que parece vir direto do coração do mundo, “do orbe oriundo” (ah, os poetas românticos).

Um velho cruza a soleira
De botas longas, de barbas longas, de ouro o brilho do seu colar
Na laje fria onde coarava sua camisa e seu alforje de caçador
Oh meu velho e invisível Avôhai
Oh meu velho e indivisível Avôhai

A participação de Moraz termina em Avohai, a música, mas não precisava de mais nada, afinal, você já está no seu segundo andar. Já o fantástico baixo de Chico Julien pontua o disco todo e é como se ele esticasse os teus intestinos e tocasse com eles; sim, os teus intestinos, leitor incrédulo. Não há nada melhor do que algo que reverbere diretamente em nossos intestinos.

Gente de bem, críticos musicais, entre outros, dizem que Zé Ramalho trouxe o psicodelismo, moda no final dos anos 70, para suas letras. Nada mais enganoso pensar assim. Ah, essa gente do sul... Zé Ramalho, o paraibano que canta como se fosse o dedo de deus, traz aquilo que a cultura de nordeste tem de mais profundo, de mais atávico: as míticas lutas entre o bem e o mal, expressas no universo mágico e encantado do cordel, manifestação popular secular, enquanto que a psicodelia, embora influenciada por universos anteriores, pertence ao final dos anos 60.

Pares de olhos tão profundos que amargam as pessoas que fitar

E depois de Avohai vem Vila do Sossego, que deixa pequeno, caro leitor, todo os probleminhas e barulhinhos dos andares de baixo da sua vida, porque aquele coro com as vozes de Amelinha e Elba Ramalho te remetem ao fundo do seu ser, conectando-o com toda a beleza e sofrimento humanos. Diz o dedo de deus: os meus gametas se agrupam no meu som, explicando tudo.

Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam
Eu seus papiros Papillon já me dizia
Que nas torturas toda carne se trai
E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
Displicentemente o nervo se contrai
Ô, ô, ô, ô, com precisão!

Zé Ramalho é um trovador que conta histórias que vão, como histórias em quadrinhos, entrecortando a linha reta, apagando todos os sons do domingão da sua vida, pra você não reclamar.  

Meus vinte anos de boy, that’s over baby! Freud explica
Não vou me sujar fumando apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom


E assim, com Avohai, Vila do Sossego e Chão de Giz, fez-se a mais impressionante seqüência de 3 músicas iniciais de um disco de estréia da história da humanidade e do universo e da constelação e de toda a existência. Mas o disco não acaba aí; pelo contrário, seus momentos mais delirantes vêm depois. Alucinação é o que desperta A Dança das Borboletas, que giram a sua cabeça, te desconectam deste mundo do domingão, e, isso é segredo nosso, meu e teu, cúmplice leitor,  criam um terceiro andar, cujas características não são contáveis por palavras. Ouça, suba, e sinta. O mestre da guitarra Sérgio Dias, guitarrista dos Mutantes, foi quem construiu a escada que vai do segundo ao terceiro andar, num dos mais delirantes travelings de guitarra de toda a história da múzica, assim, com Z, universal, fechando com um interminável, porque não termina nunca, solo hipnótico.

As borboletas estão invadindo
Os apartamentos, cinemas e bares
Esgotos e rios e lagos e mares
Em um rodopio de arrepiar

Derrubam janelas e portas de vidro
Escadas rolantes e nas chaminés
Se sentam e pousam em meio à fumaça
De um arco-íris se sabe o que é....
Se sabe o que é.... se sabe o que é!

A alucinação não para por aí não. Paulo Moura, maestro, saxofonista e clarinetista que morreu há um ano, surge, em Meninas de Albarã, como um espectro, como se tivesse morrido 30 anos antes de morrer, como se viesse de algum lugar totalmente desconhecido pela razão humana.

De noite acendo a tocha do meu olho
Farol do Cabo-Branco secular
Desato as correntes do meu grito
E falo dos mistérios desse mar
Escuto a gargalhada de Netuno
Que no Atlântico me abrigou
A correnteza louca dessa vida
Me arrasta para bem longe do meu amor

Estréia avassaladora. Recentemente o Estadão lançou uma coleção: “Os 25 Discos que Fizeram História”. Este Zé Ramalho está lá. Para gravar o disco, Zé Ramalho não tinha um tostão furado e a gravadora não punha fé, ou seja, dinheiro. Todos os músicos, famosos e requisitados, provavelmente sem saber o porquê, tocaram de graça para um músico paraibano estreante. Talvez ungidos por algo desconhecido no universo material, Zé e os músicos proporcionaram a você, que está aí, de cara, lendo este fabuloso pôsti, uma passagem de primeira classe para o segundo andar mágico e, como bônus, para o terceiro andar, sobre o qual eu me recuso, veemente e terminantemente, a comentar e mesmo a ilustrar... Notaram que este pôsti não tem imagens?

terça-feira, 12 de julho de 2011

LOKI - A NONA SINFONIA DO ROCK BRASILEIRO


"O amor sempre foi o causador da queda da trapezista" (Aldir Blanc)

"O amor são impulsos elétricos lançados pelo cérebro, que percorrem toda a medula e os neurônios do abdômen, ou seja, o amor não passa de um frio na barriga".  

Esta última é do descrente dramaturgo Humberto Laraia, irmão sepulto em mim. Veja que ele não falou do coração.
Cê tá pensando que eu sou loki, bicho? Eu sou velho mas gosto de viajar por aí. 
E olha que Laraia ainda não conhecia Nöel Rosa, muito menos o amor; só conhecia, mal e mal, a paixão, aquela deliciosa, que dá frio na barriga, maravilhosa, sensacional, mas também rasa e fugaz, incapaz, portanto, de trazer dor duradoura ou muito profunda. Mas o amor é capaz, e como.

Voltando ao Nöel, para ele, o coração não tinha nada a ver com amor, tanto que o Poeta da Vila nunca usava a palavra coração para falar de amor e quando usou, foi para contrariar: “Coração grande órgão propulsor, transformador do sangue venoso em arterial. Coração, não és sentimental, mas entretanto dizem que és o cofre da paixão". Veja como ele demole a ideia de coração sentimental, restringindo-o à importância sanguínea. “(Coração) Tu és pro bem-estar do nosso sangue o que a casa de correção é para o bem da humanidade”. Ainda que o amor não estivesse localizado no coração, sabemos o quanto o amor causou dor a Nöel Rosa (se você, leitor ocasional, não viu, está no pôsti de 30 de junho).

O amor dói. O amor sulca. O amor definha. O amor transcende.

Eu me amo... 
Como eu amo você... 
É fácil... É fácil

Facil que nada, ele bem queria que fosse. E não me venha me falar do amor realizado, aquele que deu certo, o amor dos casais, esse amor que logo de cara proporciona aquela felicidade fácil e corriqueira. Xô! Nada disso. Viver é sofrer.

Com meu bem fui ao cinema... não me deixe tão sozinho. 

O que me interessa, e interessa aos poetas e também interessa a hollywood, pelo menos até perto do fim do filme, enfim, o que nos interessa a todos, por toda a eternidade, é o amor não realizado, aquele que é o causador da queda da trapezista.
Sinto o pulso de todos os tempos comigo, até quando eu não sei. 
Não confundir com o amor não correspondido, que esse não é amor verdadeiro, é encanação, obsessão, enganação. O desejo de ter alguém que nem liga prá você está mais prá fraude do que prá amor. Amor não correspondido é estelionato. Quem diz que ama sem ser correspondido, não ama coisa nenhuma. Se um ama e o outro não, um dos dois está mentindo e normalmente esse alguém é você.  

Amor, amor mesmo, é aquele que é (ou foi em algum momento) correspondido: o amor nunca, jamais será unilateral. O amor é como o fogo: não se propaga na ausência de ar; a reciprocidade é o ar, que gera a combustão. 

E todos juntos somos nós... uma pessoa só.  

Pode-se amar e decidir viver o amor por muito tempo, casando, ficando, namorando, enfim, realizando-o na prática. Mas quando, por algum motivo, o amor não se realiza, quando não há (ou ainda não) final feliz, ele se transforma em dor, em dor descomunal, dor em estado puro.
Ainda assim, se há algo sublime nessa vida é sofrer por amor. O amor não realizado é algo capaz de se manter vivo em você por anos, por décadas.
Vivo a pensar prá trás, quando sozinho na cidade, você me deu adeus. 
Como? Se nós somos de Deus! 
E você me disse adeus, ao vento, à cidade, à chuva e à saudade...

Você sofre, mas sabe que está vivendo algo grandioso; sofre, mas alterna mergulhos ao abismo e vôos fantásticos. Você se encanta com o céu, com os pássaros, com um poste, com fios elétricos, com o desenho da fumaça da chaminé. Quando você sofre por amor, o mundo fica mais belo, parece uma partitura clássica, uma pintura renascentista.

A cidade e as serras me deslumbram, baby.

Mais do que o amor imediatamente realizado, o amor não realizado nos eleva e enobrece, porque nos dá a dimensão do herói épico, nos coloca perto de Deus, ou de Jesus, que, segundo reza a lenda, ou a bíblia, sofreu por amor à humanidade.

O que é isso, meu amor?
Será que eu vou morrer de dor... será que eu vou virar bolor?

O amor não realizado, além de responsável pela queda da bailarina, é cúmplice dos melhores vôos poéticos (“longe de ti são ermos os caminhos, longe de ti não há lua, nem rosas, longe de ti há noites silenciosas, há dias sem calor, beirais se ninho"-Florbela Espanca), pelas mais belas sinfonias e pelos melhores discos. E é aqui, no terreno etéreo da música, que vamos pousar. Porque tudo o que sobe tem que descer!

Foi numa época da minha vida em que alternava vôos e mergulhos da sublime dor, que caiu em mim o Loki, como uma espécie de revelação. Parecia que eu é que havia composto aquilo. Loki é esse disco aí acima.  

Se você, desinformado leitor, está achando que se trata daquele cantor, o Amado Batista, saiba que sua confusão é comum. Mas sugiro que saia imediatamente deste blógui, porque entre as modernagens colocadas nele, está a destruição do computador impuro dos que confundem Arnaldo com Amado. É verdade. Saia já... Ufa, menos um.  

Venho me apegando aos meus sonhos
E à minha velha motocicleta
Não gosto do pessoal da Nasa
Cadê meu disco voador?
Arnaldo, com razão idolatrado por seus fãs espalhados pelo mundo, foi o líder dos Mutantes e, segundo consta, estava mergulhado numa profunda depressão, na dor do amor não realizado, na solidão e no abandono quando compôs Loki, um retrato espiritual daquele momento. O fim do casamento com a Rita Lee (a "desrealização" do amor idealizado), o fim dos Mutantes, a incompreensão da mídia e o isolamento fizeram com que toda a genialidade alegremente psicodélica que ele impunha ao som dos Mutantes fosse canalizada para a dor e, felizmente, para a beleza. Muitas das grandes obras da humanidade foram compostas sob a égide do sofrimento (basta lembrar da 9a sinfonia de Beethoven - a que, paradoxalmente, tem a Ode à Alegria no quarto movimento). Arnaldo, tempos depois, internado num hospitalzinho daqueles que dizem que tratam da sua mente, não aguentou e saiu voando pela janela.
Ontem me disseram que um dia eu vou morrer
Mas até lá eu não vou me esconder
Porque eu não estou nem aí pra morte
Não estou nem aí pra sorte
Eu quero mais é decolar toda manhã

Como ele não tinha asas senão as da imaginação... Bem, ele ficou meses em coma e anos e anos se recuperando. HOje está bem, feliz, curtindo a vida na paz, com sua mulher, ainda envolvido com arte (música, pintura). A sorte da humanidade é que ele já tinha composto sua obra-prima e outra maravilhas que o tornaram um ícone cultuado no mundo todo. 
Veja o emocionante “Loki”, o filme, ou compre o DVD (que é prá se ver e rever) e tenha ideia da importância de Arnaldo e sobre a admiração que ele desperta planeta afora. 


Vivo a pensar pra frente
Quando não mais houver cidade
Eu vou te achar
Com mil anos de idade
Eu vou te achar...


Loki exala, por todos os "sulcos", a dor profunda e a grande beleza. Não pense que o disco é magnífico só pelo clima que transmite. Musicalmente é um disco sofisticadíssimo, com melodias boas de cantar, interpretação fantástica do Arnaldo e arranjos arrojados. Loki equilibra ousadia e elegância, com o piano clássico de Arnaldo conduzindo rocks deliciosos (sem guitarra, diga-se) e baladas sangrentas. 

Se a obra máxima de Beethoven é a nona sinfonia, cheia de dor mas que tem seu ponto máximo justamente na “ode à alegria”, Arnaldo Van Baptista criou a sua ode à dor, Loki: a nona sinfonia do rock brasileiro.

Sinta o barato de ser ser humano, comigo. 
Até quando deus quiser.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

OS 10 MAIS - CHICO SCIENCE, MUITA FUMAÇA NO AR!

Afrociberdelia é um disco para se ouvir, ouvir muito, para se dançar, dançar muito. Disco para chacoalhar a cabeça. Por isso quase não vou falar.
O disco já começa a milhão, com uma chocante profissão de fé (coisa de quem tem o que dizer ao mundo):

Eu vim com a nação zumbi!
Ao seu ouvido falar
Quero ver a poeira subir
E muita fumaça no ar
Cheguei com meu universo
E aterriso no seu pensamento
Trago as luzes dos postes nos olhos
Rios e pontes no coração
Pernambuco em baixo dos pés
E minha mente na imensidão

Você não será mais o mesmo. "Afrociberdelia", o segundo disco de Chico Science e Nação Zumbi, chegou ao 5º lugar na World Music Charts da Europa. Entre 11 e 27 de julho de 96, a banda faz nova turnê européia, percorrendo 13 cidades. Lá, tocaram com Coolio, Beck, Ministry e Nick Cave. No Festival de Montre. O Paralamas fez abertura de shows do Chico Science, e não o contrário

Folha de São Paulo, domingo, 2 de fevereiro de 1997

O líder do movimento manguebeat, Chico Science, e o comediante e músico Antônio Nóbrega estarão unidos no Carnaval pernambucano para combater músicas como "Segura o Tchan" e defender os ritmos locais, como o frevo e o maracatu. Os dois vão se apresentar juntos pela primeira vez amanhã e terça-feira a partir das 20h, na praia da Boa Viagem, em Recife (PE). Estarão sobre um trio elétrico, durante o desfile do bloco Na Pancada do Ganzá, criação de Nóbrega. Chico Science vai apresentar músicas dos seus dois CDs, "Da Lama ao Caos" e "Afrociberdelia", que misturam rock com maracatu, pop com tradição.

"O maracatu, que é eletrizante, vai combinar bem com o trio elétrico", disse ele.

"Um passo à frente
E você não está mais no mesmo lugar"
Eu só quero andar
nas ruas do Brasil
Andar no mundo livre,
Sem ter sociedade
Andar com as meninas, de eletricidade
Segura essa levada, segura o maracatu!






Folha de São Paulo, segunda, 3 de fevereiro de 1997
Science morre à beira do mangue
Chico Science, 30, morreu a poucos metros de um mangue, o símbolo do movimento que criou e liderou
.
Macô, com Gilberto Gil, é uma delícia.
De zambo nada tu só quer mamata
Tu só quer ficar na minha
Porque eu tô de mão cheia
Olha só que menina bonitinha
Pra poder ficar comigo
Tem que saber de cozinha
Ô menina, Ô menina, Ô menina, Ô!
Macô! Macô! Macô! Macô! Macô!

Folha de São Paulo, segunda, 3 de fevereiro de 1997
O corpo do cantor e compositor pernambucano Chico Science, morto domingo à noite em um acidente de carro, entre Olinda e Recife, foi velado ontem no centro de convenções do Memorial Arcoverde, em frente ao local onde ocorreu o acidente.O caixão com o corpo do artista deixou o centro de convenções, na divisa de Olinda e Recife, às 15h30 (16h30 em Brasília), transportado por policiais da guarda de honra.Até aquela hora, dez mil pessoas haviam passado pelo local para homenagear o cantor, segundo avaliação da PM. Cerca de mil pessoas permaneceram no prédio até a saída do corpo.O governador Miguel Arraes decretou ontem luto oficial no Estado por três dias.


A estrovenga girou

Passou perto do meu pescoço
Corcoviei, corcoviei
Não sou nenhum besta seu moço

A coisa parecia fria

Antes da luta começar
Mas logo a estrovenga surgia
Girando veloz pelo ar.
Essa aí em cima é o começo de Cidadão do Mundo, uma das músicas mais delirantes que conheço. O jeito de cantar do Chico Science é único, se bem que muito imitado até hoje, quase 15 anos depois de sua morte. A batida da banda vai pontuando a crônica popular que ele canta contando, ou conta cantando...




Chico Science é destaque em edição do "New York Times"
Crítico vê no mangue beat impacto comparável à Tropicalia. Assinado pelo crítico de música Jon Pareles, o artigo apresentou Science como fundador do movimento de maior impacto da música brasileira desde a Tropicália. O texto foi publicado em três colunas, em alto da página. O jornal relata o surgimento do mangue beat e faz referência ao manifesto (Caranguejos com Cérebro) assinado por Science e Fred Zero Quatro. Segundo o jornal, o movimento transformou Recife em um novo centro do rock brasileiro.
A versão de “Maracatu Atômico”, clássico do Jorge Mautner, é antológica. O clipe, ótimo, não parava de tocar na MTV. “O encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont”. Nada como o Firmamento para trazer ao pensamento a certeza de que estou sólido, e a imensidão aérea é ter o espaço do firmamento no pensamento, e acreditar em voar algum dia.  

Folha de São Paulo, terça-feira, 4 de fevereiro de 1997
Um grupo de 12 cortadores de cana da Zona da Mata, vestidos de guerreiros do maracatu, escoltou ontem o corpo de Chico Science, do velório ao carro de bombeiros que o conduziu ao cemitério. O escritor Ariano Suassuna chorou em frente ao caixão. O artista Antonio Nóbrega também homenageou o compositor. “Foi uma perda trágica, brutal”, disse. Apesar da presença de artistas e pessoas famosas no velório, foram os anônimos cortadores de cana dos maracatus da Zona da Mata quem mais emocionaram os fãs e os parentes do cantor.Trajando roupas típicas, coloridas e com guizos presos às vestes, os caboclos-de-lança (nome do personagem do maracatu) foram saudados com gritos de ``Chico, Chico''. Os fãs cantavam músicas de seu ídolo, enquanto os maracatus dançavam em frente ao caixão.

Folha de São Paulo, quinta-feira, 6 de fevereiro de 1997
Vamos parar de morrer, gente inteligente?

JOSÉ SIMÃO

Buemba! Buemba! Macaquito Simão Urgente! Vamos parar de morrer, gente inteligente? A bruxa tá solta! Ficamos três vezes menos inteligentes: Antonio Callado, Chico Science e Paulo Francis. Daria pra morrer um burro de vez em quando? O negócio é começar a tomar pílula pra emburrecer!
Gilberto Gil “Nunca imaginei que poderia sofrer um acidente de carro. Velocidade não se casa com a imagem que tinha dele. Achava-o dócil, manso, suave.”
Fernanda Abreu - "Ele tinha uma presença de palco incrível. Era o Mick Jagger do mangue beat, uma figura importante para a música brasileira, mas ainda iria se tornar muito mais importante. Ele tinha consistência”
Herbert Vianna - "Estou arrasado. Desde que fizemos uma turnê juntos com Chico Science e Nação Zumbi na Europa, passamos a tocar 'Manguetown' em todos os shows. Para mim, foi a melhor música do ano. Chico era o farol da nossa galera, apontavam para a frente e o resto de nós vinha atrás."
Alceu Valença, cantor e compositor - "O Chico fazia um bate-bola entre o maracatu, o rap e o funk. Era um grande artista, com uma presença de palco muito forte. É horrível, uma perda inestimável."
Marcelo Frommer (Titãs) - "Estou chocado. O Chico e o mangue beat trouxeram novidade em meio à banalização da música baiana. Ele fez uma releitura da cultura do nordeste, redimensionando-a como uma coisa rica."
Carla Perez, dançarina da banda É o Tchan - "Fiquei triste, mas não era muito fã dele. Ele criticava muito a música baiana e o É o Tchan."

Esta noite sairei, vou beber com meus amigos... ha!
E com as asas que os urubus me deram ao dia
Eu voarei por toda a periferia
Vou sonhando com a mulher
Que talvez eu possa encontrar
E ela também vai andar na lama do meu quintal...
Manguetown

Sangue de Bairro é um rockão pesado com sotaque pernambucano (tem até triângulo) em que ele vai citando os nomes de todos os cangaceiros do bando de Lampião, que , por fim, é degolado.
Quando degolaram minha cabeça passei mais de dois minutos vendo o meu corpo tremendo. E não sabia o que fazer, morrer, viver, morrer, viver...

O primeiro disco, “Da Lama ao Caos”, também poderia estar na lista, é fantástico e importante para a música brasileira, foi o marco que deslocou o eixo da criação musical brasileira e influenciou toda a geração posterior. Mas o disco seguinte, depois do sucesso internacional, veio carregado de expectativas. Normalmente o segundo disco de qualquer músico ou banda tende a ser menos bom, mesmo que ótimo. Mas até nisso Chico Science mostrou que era singular. “Afrociberdelia” é ainda melhor, tem espectro mais amplo e, nesse sentido, acaba sendo mais rico. Chico Science morreu quando estava se transformando rapidamente na figura mais importante da produção cultutal brasileira, estava navegando em tudo, literatura, cinema teatro. Planejava até uma novela pela internet... Há 15 anos...

Folha de São Paulo, terça, 4 de fevereiro de 1997
Morte encerra os anos 90 no Brasil
PEDRO ALEXANDRE SANCHES
A dimensão da morte de Chico Science não é menor que a de tragédia comparável à morte precoce de Dolores Duran ou ao abandono da cena pelo mutante Arnaldo Baptista. O acidente de Chico faz lembrar que os anos 90, no Brasil, se encerram com três anos de antecipação. O único movimento musical que se pôde produzir aqui desde a tropicália -e lá se vão 30 anos- acaba de ser abruptamente abortado.

Com Chico Science se vai o pedaço mais comunicativo, mais disposto a dialogar com as belezas e mazelas do pop nacional.Por um curto lapso de tempo, nos parecia que finalmente o trem da música popular voltava aos trilhos. Finalmente alguém prestava homenagem à revolução tropicalista tentando superá-la, admitindo que ela era coisa do passado.
Por esparsos instantes, nos parecia que o Brasil se engajava no bonde da história e embarcava na modernidade da descentralização, no reconhecimento da virtude da inteligência fermentada numa cidade excêntrica como Recife, num país excêntrico como o Brasil. Por um pouquinho de tempo, parecia que o futuro existia, que uma história começava a ser contada, que essa história ia ser longa e ia mudar -para melhor- o sentido das coisas. Agora, da lama ao caos, tornam-se ínfimas de novo quaisquer expectativas, quaisquer esperanças.
           
           Deixar que os fatos sejam fatos naturalmente
           Deixar que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente...


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