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sábado, 19 de fevereiro de 2011

A Incrível História do CPNES - Parte 15

PEPPERONI - A MÁFIA E A ENTRADA DO SALAME ITALIANO NO COBRA PARADA

O CPNES, com aquela conturbada e tensa, embora divertidíssima, estréia, de fato passou a existir. Não é por outro motivo que a maioria dos historiadores, os pesquisadores do tempo, os jornalistas e demais vasculhadores culturais e políticos, tem como certa a data de dezoito de maio de 1983 (veja ao lado a prova domunental) como o nascimento do Cobra Parada Não Engole Sapo. Em outros pontos, entretanto, há muita discordância, como quanto ao exato grau de influência do grupo na queda do regime militar e nos movimentos artísticos da época, como o boom do rock brasileiro (nascido, como todos sabem, em Brasília). Uns dizem que foi grande, outros chamam estes de malucos e dizem que não houve influência alguma.



Este autor, escravo dos fatos, prefere não se posicionar, mas apenas, e então somente, levantar os fatos ocorridos durante o período que compreende a gênese, a ascensão e o fim do grupo. Note-se que mencionei ascensão e fim, sem passar pela queda, porque simplesmente não houve queda. Tal qual Pelé, e ao contrário do Ronaldo, o Cobra Parada parou no ápice, não tendo experimentado o amargo sabor da queda. Talvez seja esta a razão de sua transcendência, da sua perpetuação, de ter virado mito.


Por isso a importância deste depoimento, dessas memórias contidas na Incrível História do CPNES, grupo do qual este autor, devo lembrar, foi participante ativo, embora muitos suspeitassem que fosse passivo. Afinal, essa gente de teatro...


Ativo ou passivo, uma coisa é certa: não há nesta “Incrível História do CPNES”, desde o primeiro capítulo, até este, o décimo quinto, e não haverá nos próximos, um único fato que não seja a mais pura acepção da verdade. Assim, pretendem estas modestas e bem escritas memórias servir de base para estudos de historiadores sérios e isentos que, comparando com os fatos da época, determinar a real influência do Cobra Parada, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia...


E por falar em fatos, fato é que a fatídica estréia do Cobra Parada contou com algumas participações especiais. Algumas especialíssimas, como por exemplo, a participação ativa de um gaúcho, por mais paradoxal que possa ser essa frase, vez que gaúchos não constam no imaginário brasileiro exatamente como ativos...



Os juízes em mural - homenagem do povo itliano
 Ativo ou passivo, o fato é que na Itália, no início dos anos 80, os juízes Paolo Borsellino e Giovanni Falcone começam a maior ação de investigação sobre a máfia italiana, que culminou em centenas de prisões e no conseqüente desmantelamento da mais que centenária instituição criminosa. No início dos anos 90 ambos foram mortos em atentados e são considerados heróis na Itália.


Mas voltando ao início dos anos 80, justamente no período em que os juízes iniciavam uma incrível e inédita perseguição aos mafiosos, aportava no Brasil, mudando-se às pressas, trazendo apenas as roupas do corpo, uma família italiana, mais precisamente napolitana, os Pepperoni.


Não vai aqui, Deus (assim, com letra maiusculíssima em sinal de temor e respeito) é testemunha, nenhuma intenção de insinuar que a nobre família Pepperoni fosse mafiosa. Longe disso. Na verdade, os mafiosos, eméritos glutões, adoravam ir ao restaurante, simples, porem digno e acolhedor, dos Pepperoni, onde comiam a se fartar os famosos picantes napolitano do salsiccia, um sausage de carne de porco seco picante de Nápoles, uma espécie de salame que misturava carnes suína e bovina, bastante apimentado. 

Pois como os mafiosos não saíam do restaurante dos Pepperoni, o patriarca, produtor do tal salame e filatelista profissional, temendo ser acusado de acobertar e dar guarida aos chefões do crime organizado, julgou mais prudente fugir para este acolhedor país, até porque não saíam mais da frente de sua casa/restaurante agentes federais italianos, querendo investigá-lo, e matadores da máfia, esperando uma oportunidade para calar definitivamente toda a família, que certamente ouvira muitas conversas e podia vir a ser inconveniente.


Temendo, com toda razão, policiais e bandidos, a família um dia fingiu que ia comprar cigarro no bar da esquina e nunca mais voltou. Além da roupa do corpo, trouxeram apenas um grande carregamento daqueles picantes napolitanos do salsiccia, que haviam despachado para o porto na véspera. Sua intenção era pegar um navio para o Rio de Janeiro, porque era uma cidade alegre, mas ao comprar passagem imaginaram que aquele porto alegre em que desembarcariam seria na cidade maravilhosa. Qual não foi sua surpresa ao desembarcarem a milhares de quilômetros, na capital do Rio Grande do Sul.


Na verdade, tiveram sorte, porque ao abrirem um singelo restaurante, verificaram que os gaúchos adoravam um bom salame...


É bom aqui fazer um parêntese: ao dizer que os gaúchos adoravam um bom salame não faço, em absoluto, qualquer alusão ao aspecto fálico da especiaria, nem tampouco a qualquer eventual característica peculiar do bravo, ativo e viril povo gaúcho.


Ativo ou passivo, o fato é que os gaúchos adoraram o tal picante “napolitano” do salsiccia, mas, achando aquele nome muito comprido, passaram a chamar aquela deliciosa iguaria de pepperoni. Semelhante metonímia ocorreu com iguaria criada por um bauruense conhecido por Bauru, que se transformou no famoso sabduíche Baurú.


Assim, os Pepperoni introduziram o pepperoni no Brasil. Assim foram enriquecendo, ou ao menos ficando em situação confortável. Mas o velho Gaetano, o patriarca, e seus filhos adolescentes, não queriam que se repetisse a história da Itália, não queriam nunca mais calar diante da opressão. Pelo contrário, decidiram que lutariam contra a ditadura. Foi aí que um de seus filhos teve a idéia de ir à Brasília, de entrar como estudante numa escola militar e lá ver o que podia fazer. E lá caiu estava o jovem Pepperoni, ao lado dos membros do Cobra Parada, aos quais resolveu se aliar, fingindo-se de gaúcho, o que, aliás, faz até hoje, vestindo com suposto orgulho uma camisa azul e preta e falando muito, e falando muito alto e falando muito grosso.


E lá estava o Pepperoni, na estréia do Cobra Parada e em tudo mais que fez o grupo. Lá estava o Pepperoni, emprestando ao grupo sua potência vocal, sua inteligência lógica virginiana, sua figura imponente de filho da aristocracia, sua cultura européia, sua musicalidade, seu senso de justiça, sua loucura verborrágica e sua falsa empáfia gaúcha. Lá estava o Pepperoni, primeiro pelo objetivo revolucionário, depois pelo afeto ao grupo e ao autor destas singelas memórias, que, diga-se, lhe tem o mesmo afeto, por sinal ainda crescente.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A Incrível História do CPNES - Parte 14

O MEIO – Mega-sucessos do começo dos anos 80

Toda manifestação artística é influenciada pelo meio cultural, social e político em que está inserida. O que se ouvia no início dos anos 80, época na qual se amalgamou o Cobra Parada Não Engole Sapo, o grupo que, não me lembro se cheguei a comentar, mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia? Quais eram os mega-sucessos musicais?

Sempre tive um pé atrás com grandes sucessos populares. A roda viva da produção musical determina qual música de qual artista será sucesso, segundo um rol de critérios do qual a qualidade não necessariamente faz parte. Portanto, me seduz a teoria de que, se todo mundo ouve alguma coisa, necessariamente essa coisa é uma merda. Mas nem sempre foi assim.

Com vocês, os 3 ultra-mega-sucessos do inicio dos anos 80, quando os membros do Cobra Parada se conheciam:

1. “Tá tudo muito bom... Bom. Tá tudo muito bem... Bem. Mas realmente, realmente, eu preferia que você estivesse... NUA”. Pode não parecer, mas há qualidade nessa letra. Primeiro pelo momento de anseio à liberdade não apenas sexual, como pode sugerir esse trecho da letra, mas, sobretudo, de expressão. Numa época de forte censura, essa música (letra, melodia e forma coloquial de cantar) ousou traduzir a expressão e o desejo de uma juventude que se transformava e exigia a transformação política e social do país. A linguagem pop de Evandro Mesquita e da Blitz em “Você Não Soube Me Amar” marcou uma geração e redefiniu o gosto popular. Segue mais um trechinho, para que vocês não pensem que era só aquilo:
      Foi besteira usar essa tática
      Dessa maneira assim dramática
      (Eu tava nervoso)
      O nosso amor era uma orquestra sinfônica
      (Eu sei)
      E o nosso beijo, uma bomba atômica...

2. “Me toma no crescer de um beijo muito louco, me implodindo aos poucos no universo a desvendar a vastidão do teu amor”. Assim cantava uma explosiva Zizi Possi, que já fizera certo sucesso havia alguns anos, desde 1979, com “Pedaço de Mim”, que cantou em dueto num disco do Chico Buarque. Mas explodiu mesmo 3 anos depois, com essa impactante “Asa Morena” de um compositor gaúcho chamado Zé Caradípia (que nunca emplacou mais nada). Talvez nenhuma outra cantora ou cantor fizesse dessa música o sucesso que foi (e que ainda é). Zizi Possi, com seu registro de voz único, a transformou num sucesso eterno.

3. “Hum... Mas se um dia eu chegar muito estranho, deixa essa água no corpo lembrar nosso banho. Mas se um dia eu chegar muito louco, deixa essa noite saber que um dia foi pouco”. O nome dessa música é “Muito estranho”, de um cara chamado Dalto. Porque fez tanto sucesso? Não faço idéia. Talvez porque Dalto fosse um cara realmente muito estranho. Um anti-cantor, um anti-estrela, anti-celebridade. Um tímido, feio, corpulento e desengonçado, que cantava com estranha leveza essa música romântica, na letra e na melodia. O refrão ele cantava em falsete. A introdução era poderosa (Pararan... pararan... pararãraaaaan...) e, de fato, era muito boa de ouvir.

E os respectivos refrões?
“Você não soube me amar, você não soube me amar, você não soube me amar, você não soube me amar”.
"Me faz pequena, asa morena, me alivia a dor, aliviando a dor que mata, me faz ser teu amor”.
“Cuida bem de mim então misture tudo dentro de nós...”

Os sucessos de Dalto, Zizi Possi e Blitz eram tocados a toda hora, em todo lugar, dentro dos ônibus, nas lojas, nas salas de espera dos consultórios. Cozinheiros, engenheiros, políticos e estivadores os cantavam. E quem há de negar que eram muito bons, cada um a seu modo? Eu não enfrentaria filas para ver um show do Dalto, mas “Muito Estranho” tinha lá suas qualidades. Não há comparação com as mega-bombas de hoje.

Já para ver a Zizi nós enfrentamos fila. Havia no Brasil, naquele momento, o Projeto Pixinguinha, que levava para os mais diferentes pontos do país, a preços simbólicos (algo como 10 reais hoje), shows dos maiores músicos do momento. Para Brasília vieram muitos, inclusive a Zizi Possi em seu momento de maior sucesso da carreira, com o seu mega-hit Asa Morena. Causou-me um impacto brutal vê-la, naquele momento, naquela fase da minha vida, cantar “me toma sem pensar num gesto muito forte, unindo o sul e o norte do meu corpo, frágil corpo, com a mais pura emoção”... Talvez ali eu, sempre frágil e inseguro, tenha percebido que a emoção engrandece e agiganta.

Nem me lembro mais que inesquecíveis (!) maravilhas eu vi no projeto Pixinguinha. Uma que me lembro, porque não daria para esquecer: Belchior fazendo ecoar “teu infinito sou eeeeeeeu...”, para depois finalizar com uma das maiores verdades já ditas sobre a juventude que vivíamos, nós os loucos:

Como é perversa a juventude do meu coração, que só entende o que é cruel e o que é paixão.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A Incrível História do CPNES - Parte 13

A VERDADE NUA E CRUA

A parte 12 acabou com o discurso do coronel, que falou algumas abobrinhas do tipo “eu entendo a juventude transviada”, “liberdade com responsabilidade” e que tais, antes, é claro, de concluir com aquela pérola que encerrou o pôsti anterior, “não tenho filha, mas se tivesse, ela não seria dessas...”

Falando em "liberdade com responsabilidade", trata-se de uma expressãozinha besta inventada pelos militares, mas que até hoje muitos estúpidos, sem coragem para dizer simplesmente “liberdade” (devido ao medo de que vire "anarquia"), complementam com o fétido e brochante “com responsabilidade”. Falar “liberdade com responsabilidade” é destrutivo, além de ridículo, pois quando você trata com adultos no mundo corporativo, já se supõe, de antemão, a existência da responsabilidade. Pedir responsabilidade desacredita quem a ouve, que pensa “Quem é esse babaca para me pedir responsabilidade?”. Aí o feitiço se volta contra o feiticeiro. Portanto, caso você, caro gestor, líder ou chefete, quando quer uma equipe criativa e empolgada e para isso quer dar liberdade, cuidado, não use o tal “com responsabilidade”. Fale “liberdade” e ponto final. O resto vem de fábrica, está no sangue, creia.

Mas, lá nos idos de 1983, o coronel estava na dele. “Liberdade com responsabilidade” na boca dele era legal. Na verdade, o coronel era (não sei se ainda é, espero que esteja vivo e com saúde) um grande bonachão, um paternalista, que queria educar aqueles alunos (pelo menos os que ele quisesse que continuassem ali). Mas isso somente fomos perceber muito tempo depois. Talvez tenha se transformado em bonachão e paizão com nossa ajuda, com a nossa vitória final, quando claramente ganhamos a guerra, não sem algumas baixas, que sentimos até hoje.

Depois daquela apresentação, o CPNES ganhou força. E nós ganhamos cuidados redobrados, investigações pessoais, olheiros por todos os lados. Mas o pior, o terror de verdade, ainda estaria por vir. Os próximos pôstis falarão sobre os momentos mais tensos e as batalhas mais terríveis.

Por enquanto, pulemos um pouco no tempo, para cerca de um ano e meio após aquela apresentação, depois das crises e batalhas pelas quais ainda passaríamos: eis que já no final do curso ele me chama em seu gabinete. Não havia motivo aparente. Era um momento em que não estávamos aprontando nada (pelo menos de domínio público, que ele pudesse saber).

Não entendi porque me chamara. Coisa boa não devia ser. Será que deixou que eu fizesse o curso quase todo, só de castigo, para no final, me expulsar como exemplo? Ele seria tão sórdido?

Acho que se eu tenho uma qualidade, é a coragem. Sempre fui topetudo e enfrentei o desafio. Mas tenho um segredo, que confesso agora: sempre, até hoje, enfrentei esses desafios tremendo, com as pernas bambas, a respiração ofegante, com todas as reações de um grande covardão, que foi o que, na verdade, nua e crua, sempre fui (e continuo sendo). Mas um covardão que, por algum motivo, na hora do pau não arria. De alguma forma eu acabo encarando.

Pois bem, foi assim, tremendo, pálido, borrando as botas, que encarei o longo trajeto que me separava daquele gabinete, que era num outro bloco. Desci o elevador do meu bloco, cujo uso era proibido aos alunos (nunca gostei muito de proibições). Andei calmamente até a entrada do outro bloco (calmamente o cacete: estava nervosíssimo e até com enjôo, mas andei devagar para tentar ganhar fôlego, um andar que, para um estranho que observasse a olho nu, pareceria que eu estava calmo, como um Clint Eastwood ou um Charles Bronson, em Era Uma Vez no Oeste, indo para o duelo).

Entrei no elevador do outro bloco, apertei o número 3 (sorte, demoraria mais – o prédio tinha 3 andares). Na entrada da sala dele, a secretária me falou para me sentar e esperar. Entrou na sala do coronel. Esperei. Ela voltou e pediu que eu esperasse mais. Pensei no que de pior pudesse acontecer comigo: a expulsão, o desligamento. Voltaria para casa de minha mãe, com uma mão na frente e outra atrás, tendo perdido dois anos e meio na vida, sem diploma, sem nada, com quase vinte e dois anos. O que eu diria? Que não me comportei bem? Ou que resisti e lutei contra a ditadura, contra a opressão, que lutei por cada brasileiro, por uma sociedade mais justa, que lutei pela minha mãe também? Tudo bem, havia perdido a luta pessoal, mas havia lançado a semente, havia escavado um pouco e ajudado a desestabilizar os alicerces da ditadura, havia conhecido gente importante, os meninos do Paralamas, do Titãs, a Regina Casé. “Quem é essa gente?” Realmente, eles ainda não eram conhecidos. Mas conheci compositores, filósofos, políticos de esquerda. Cresci muito com isso. “E emprego, que é bom?” Bom, isso a gente vê depois, posso fazer artesanato, posso ir para o Rio de Janeiro... “O que tem lá no Rio de Janeiro?” Ah, tem um monte de gente, artistas, músicos. “Um monte de cariocas, isso é que tem lá!”

Simulei mentalmente aquele papo com minha mãe, minha irmã e meu cunhado, que quebravam alguns galhos financeiros. Não era muito animador. “Pode entrar, Moacir”, anunciou a secretária, inexpressiva, o que não me permitiu decifrar nada. Ao menos a secretária sabia meu nome. Também, tantas vezes eu havia ido lá... Ou seria porque ela estava com o documento da minha expulsão em sua gaveta, com o meu nome em letras garrafais?

Entrei na sala. Lá estava aquela mesma mesa gigante, lindamente opressora, com seus entalhes em relevo. Atrás dela e de alguma fumaça, o coronel e sua indefectível cigarrilha, seus tragos profundos e baforadas lentas e gostosas. Após aquela baforada percebi que o papo (ou a sentença?) ia começar.

Eu também já fui jovem. Eu entendo a juventude”. Acredite, caro leitor, ele repetiu isso pela enésima vez. Mas daquela vez foi diferente. Se tem uma coisa que já havia aprendido naquela época, era ler expressões, como um Dr. Lightman anos 80. E li que tudo estava bem. A baforada não fora provocativa, mas amistosa. Não havia dúvidas, relaxei na hora. Ele falava comigo como a um filho muito querido, que havia sido rebelde, sim, mas que ele "endireitara" com sua educação austera.

Eu gosto muito de você, Moacir. Você tem aquela força, aquele inconformismo da juventude. Eu sei o que é isso, eu já fui assim, e isso foi muito importante para mim”. E contou, durante mais de uma hora, suas diabruras na caserna, suas conquistas, falou sobre sua família, suas crenças, seus sonhos.

Eu sonho em comprar aquele bloco ao lado, e fazer de dormitório para os alunos. Você pensa que eu queria deixar vocês lá naquela vila, longe e empoeirada, que você tanto criticou na primeira peça? Aquilo é horrível, mas eu não podia dizer isso, é claro. Por mim, vocês ficavam aqui do lado, bem instalados. Eu passaria todas as manhãs, enquanto vocês estivessem na aula, em todos os quartos, veria a arrumação, se as camas estavam esticadas, os pratos limpos”.

Não me segurei e ri. Ri não de ironia ou escárnio, nem de provocação. Ri como a gente ri de um pai exagerado em seu amor por nós. Ri de compreensão. Ri com discordância, é claro, mas com compreensão e carinho. “Você ri, né?” É, respondi, não tem como não rir, coronel, porque é desnecessário, é uma invasão de privacidade, mas eu estou entendendo que a intenção é boa. Pode continuar.

Ele sorriu. Estava estava muito carinhoso e deu mais uma baforada. Aí pronunciou mais uma coisa que ficaria guardada em mina memória, como a pérola da filha que ele não tinha. Ele disse “escreva o que estou dizendo: um dia você vai me dar razão”.

Senti como uma revelação aquele seu carinho que transbordava, aquela sua vontade de nos transformar em gente de bem, em homens de caráter, segundo o modelo arcaico que ele aprendera durante toda sua vida, e no qual acreditava e educara seus próprios filhos e netos. Aquilo era amor. Esquisito, anacrônico, mas, sem dúvida, era amor.

Que me desculpe o carrancudo e incrédulo Humberto Laraia, meu amado personagem; desculpem-me os que persegui com meu ódio aos normais, aos medrosos e aos caretas; desculpem-me os amigos que me seguiram nessa cruzada. Mas o fato, a verdade, doa a quem doer, a verdade, não sei se quanto à cama arrumada, mas talvez até a isso, a verdade mesmo, nua e crua, é que o coronel, realmente, tinha toda razão.

Os meios não importam; continuo os achando estúpidos, mas realmente não importam. Constatei naquela tarde inesquecível, naquela longa conversa com um pai que nunca tive, que o amor é a única coisa que realmente constrói e transforma.

Onde estiver, coronel Telmo, sinta-se abraçado e beijado pelo Cobra Parada e pelo filho mais problemático e revoltado que você já teve.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A Incrível História do CPNES - Parte 12

A VIDA É FILOPÉTICA

Alguns dos professores eram ruins, uns deles muito ruins, de um nível assustadoramente... assustador. A única explicação para nós, ingênuos, era o descaso da direção. Não cogitávamos que houvesse, por exemplo, uma indicação política ou militar. O fato é que era imperdoável. Um deles, não recordo o nome (ou prefiro não citar para não constrangê-lo em seu atual emprego, se é que alguém teve a coragem de contratá-lo), não dizia coisa com coisa, e quando tentava dizer, faltavam-lhe as palavras. Provavelmente, julgando-se esperto, improvisava e inventava uma palavra para ocupar o espaço na frase. Outra possibilidade é que ele imaginasse uma palavra e, confundindo, dissesse outra, de estrutura morfológica ou fonética semelhante. Já ouviram quando alguém, distraído, justifica dizendo “é que eu tava intertido”? Sempre que aparecia uma pérola daquelas, procurávamos no dicionário. Em vão. Era um inventor.

Algumas das pérolas que coletamos: planejório, espertício, empresalmente e por aí ia. Às vezes ele apenas queria falar difícil, mas errava, como quando quis dizer que algo que um aluno falara era uma tolice. No lugar de dizer estultícia (achamos esta, correta, no dicionário, notando ser perfeitamente cabível na situação), o tal professor disse: “ora, mas isso é uma espultícia”. Dispensável dizer que a sala caia na gargalhada.

Mas a palavra que mais gostávamos era uma que até perecia existir, tinha uma bela estrutura, era boa de se pronunciar. Todos nos apaixonamos por ela. Pensamos até em usá-la como nome da turma, na formatura. Assim que a disse pela primeira vez, nos entreolhamos, como a perguntar se era mais uma das dele. E era! “Filopética”.

Voltemos ao pôsti anterior, que acabou quando saímos no final da tarde com a decisão pela realização da peça, com pequenas censuras. Estávamos no ônibus, indo embora para a distante, empoeirada e desértica vila em que morávamos. Muitos iam em pé. Estávamos maravilhados. Todo aquele suspense, aquela reação do “sistema” e aquelas ameaças tiveram, ao contrário do intuito que certamente tinham, de nos amedrontar e disciplinar, outra reação completamente diferente. Se nossas intenções sempre foram provocar , havíamos acertado em cheio. Se não dessem a menor pelota para aquela peça, talvez nada acontecesse. Mas aquela reação nos deu muita moral, nos deu importância, nos sentimos chicos e caetanos, nos sentimos teatro de arena, arena canta zumbi, nos elevaram à categoria de importantes lideranças de esquerda. Era tudo o que queríamos.

Voltando ao ônibus, no trajeto Plano Piloto-Vila Desértica, discutíamos as censuras ao texto. Agora queríamos denunciar também a censura que sofrêramos. Resolvemos substituir todas as palavras riscadas pelo coronel não por outras que tivessem o mesmo sentido, mas por “filopética”, sim, a palavra que tanto adorávamos e que todos conheciam como mais uma das pérolas do professor. Isso seria fantástico, porque externaria a intromissão no texto.

Alguém perguntou: externaria mesmo? Ficaria claro que palavras haviam sido censuradas? É claro que não. Talvez algum percebesse e perguntasse depois o que fazia aquela palavra lá no meio, mas em geral, quase ninguém notaria e perderíamos uma bela oportunidade para afrontar, para marcar território, para mostrar força e ousadia, para ser topetudo! Assim, resolvemos explicar de algum modo.

E dois dias depois, a peça. Aqueles acontecimentos, a ameaça de desligamento, a pressão, as alterações no texto , fizeram com que a interpretação dos atores fosse ainda mais zombeteira. A experiência que tive, dois dias antes, de ficar sozinho com o coronel, que tragava com vagar e provocação sua cigarrilha (ele nunca havia feito aquilo em público), me deu munição. Gilsão, gordo como o coronel, fez um rei delicioso de se ver. Quando ia pressionar sua filha, a princesa, ou os súditos, tragava com vagar e provocação seu imenso charuto, segurando da mesma forma. Arletão, o escracho em pessoa, fez a princesa, a filha do rei, que se apaixonava e engravidava de um súdito, o Tiba. Sobral fez, com estranha (!) perfeição, a Ministra das Comunicações, uma evidentérrima paródia da mesma professora que, dois dias, antes nos havia salvado a pele (a minha e a da peça). Norberto parodiou um professor que pedia “dois cafézes” na cantina. Seu texto era curto, mas se alongava por uma eternidade, enxertado por “NÉs”, “TÁs” e “PÔs”. O povo delirava. Os outros professores, nas primeiras fileiras, seguravam as gargalhadas.

Não vou encher este pôsti com detalhes da história e da encenação, mesmo porque não eram, creiam, nenhuma maravilha. Você deve estar curioso é para saber como fizemos para que a palavra “filopética”, colocada três vezes no texto, desse a entender, claramente, que havíamos sido censurados. Pois é, depois de pensarmos muito, mudamos de ideia. Pensamos: se deixarmos claro que fomos censurados, o que vamos ganhar? Nada.

Nós queremos deixar claro que havíamos sido censurados ou queríamos fazer rir e, principalmente, provocar o censor?

Pois bem. Na hora da primeira “filopética”, o ator sai da velocidade normal da fala e pronuncia, pausadamente, “fi-lo-pé-ti-ca”. Isso, é claro, já fazia rir, primeiro intento cumprido. Todos os atores da cena congelaram neste momento. Entrou o Chakur: “a palavra ‘filopética’ substituiu a palavra originalmente colocada no texto, que se contundiu e não pôde vir a campo”. Segundo intento, a provocação, mais que cumprido, certamente.

Na segunda vez, a mesma coisa, só que desta vez é o Valter Jr: “devido a compromissos inadiáveis assumidos anteriormente, a palavra originalmente colocada no texto foi substituída por ‘filopética’, nossa querida curinga”.

Por fim, na terceira vez, entra o Markovitch e explica “a palavra original, desapareceu, há dois dias, a polícia trabalha com a hipótese de seqüestro, as buscas continuam.”

E seguiu-se a peça, até o fim. Aplausos gerais, o povo não acreditava no que tinham visto. Nascia o Cobra Parada Não Engole Sapo, justificando publicamente seu nome. Definitivamente, aqueles sapos de dois dias antes não haviam sido engolidos. Os aplausos não paravam mais. Não eram, evidentemente, pela qualidade do texto nem pelo maravilhoso desempenho dos atores, mas claramente pela nossa coragem de brincar com aquilo, de falar tudo o que estava entalado na garganta. Todos os 500 alunos acabavam de eleger, por aclamação, seus interlocutores: o CPNES.

Mas o espetáculo não terminaria ali. Ansioso por dar a última palavra, e também não engolir seu sapo, o coronel colocou a cereja no bolo. Pediu a palavra e subiu ao palco. Pediu que colocássemos uma mesa e uma cadeira para que ele falasse sentado (e com algo entre ele e os interlocutores - velha mania militar). Sentou-se e puxou uma cigarrilha do bolso. Puxou também seu isqueiro prateado. Olhou para a mesa e, nada vendo, pediu um cinzeiro. O pândego e mostárdico Dijon não se fez de rogado. Na falta de um cinzeiro, não teve dúvidas: pegou uma enorme lixeira de madeira, daquelas antigas de escritório, e colocou sobre a mesa. (Dez anos depois disso, fui conhecer o maravilhoso filme “Do Mundo Nada se Leva”, em que um poderoso vai à casa de “plebeus” e pede um isqueiro. Vem um gaiato com um isquerio do tamanho de um tambor e barulhentíssimo. A cena do filme é praticamente idêntica a esta, do coronel e do cinzeiro do Dijon).

O coronel, vendo aquele “cinzeiro”sobre a mesa, olha grave para o Dijon, que sai de fininho. O homem respira, afasta o cinzeiro para o canto da mesa, acende sua cigarrilha, dá uma longa baforada e, referindo-se à princesa interpretada pela Arlete, profere, grave e solene:

“Fiquem os senhores sabendo que eu não tenho filha, mas se tivesse, ela não seria dessas...”

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A Incrível História do CPNES - Parte 11

O DIA EM QUE A TERRA PAROU


Já falei sobre vários membros do CPNES e em breve falarei de outros tantos. Agora, entretanto, é a vez da primeira vez, da estréia, do primeiro espetáculo, por mais inadequada ao objeto que seja essa palavra.

O Cobra Parada Não Engole Sapo nasceu do desejo, da necessidade e da vontade. Você tem sede de quê?

Desejo de fazer arte. Desejo era fazer arte em grupo, o que é um barato totalmente diferente de fazer arte individualmente.

Necessidade de gritar, de fazer-se ouvir, de marcar território, de resistir. Necessidade de simplesmente preencher o tempo.

Vontade de se divertir. Vontade de aparecer.

Nossa Cidade é uma peça de Thorton Wilder, que tinha (ainda tem, é claro) o poder de expressar coisas maiores da existência humana, por meio de coisas pequenas do cotidiano. Havia visto a peça em Campinas, em 1981, numa noite em que apenas eu e mais cinco testemunhas estávamos na platéia. A peça começou com atraso porque os atores decidiam se a apresentariam ou não, devido à falta de quórum. A força do texto, a qualidade e a garra dos atores diante daquela não-platéia, me arrebataram totalmente. Saí dali perplexo e pensando que se algo nobre existe, seria fazer teatro. Especialmente uma atriz, uma diva, teve uma atuação inacreditável. Ela quem anunciara ao público que a peça iria acontecer e que eles dariam o melhor de si. E deram. Pena que não me recordo o nome da atriz. Espero que alguém, dentre as centenas de milhares de leitores deste blógui, saiba seu nome.

Pois agora (agora, vocês sabem, é outrora) finalmente eu podia descarregar toda aquela impressão. Na nossa universidade quartel eu ouvia o que todos mais criticavam, reclamavam. Resolvi colocar num texto teatral, com o auxílio luxuoso da irmã Rosa (irmã em todos os sentidos, menos no de relação consangüínea). Nascia “Nosso Reino”, a peça. 

Paralelamente, arregimentávamos atores, pessoas que tivessem bom humor, vontade de transgredir e de se expor para dar vida à sanha revolucionária dos cabeças do CPNES, se é o grupo tinha cabeças e se é que algum dos cabeças prezava a cabeça que tinha, se é que algum tinha alguma cabeça.

O texto era bastante crítico, do sistema em que vivíamos ali, dos professores (porta-vozes do poder, para eles tudo estava bem, tipo “é assim mesmo”), das nossas condições financeiras, de transporte e de moradia, do descaso, da distância entre discurso e prática, entre a realidade e a ficção (que insistiam em afirmar ser realidade). Para os nossos donos (assim eles se julgavam), vivíamos em um mundo maravilhoso. Tudo a ver com contos da carochinha, com faz-de-conta. Nada mais apropriado, portanto, para dar uma porradinha do que uma peça tipo era-uma-vez. Assim era “Nosso Reino”.

Para arregimentar e animar as pessoas, Arletão, aquela de quem todos gostavam, a alegre, a divertida, a desbocada (e com tudo isso era a pessoa que mais dava porrada, mais falava a verdade). Se alguém perguntava “ih, o Campineiro é que está montando? Não é perigoso não?” Aí a Arlete falava que o Gilsão estava no grupo. Gilsão dava peso e seriedade, era um dissipador de medos.

Na primeira reunião, a leitura do texto para escolhermos quem faria o quê. Na primeira leitura, entre risos e animação, alguém perguntou, com aquela voz séria e grave, tirando o sorriso do povo e colocando aquela expressãozinha de preocupação. A pergunta era se podíamos fazer crítica assim, publicamente. Para "tranqüilizar" a todos, ponderei que “aquela gente” se pautava pelas normas e regulamentos, e que não havia nada escrito sobre isso, o que nos dava total tranqüilidade... (dei uma pausa)... "para espernearmos caso haja represália". Esse complemento, evidentemente, não ajudou muito a dissipar a preocupação. Gilsão, corintiano e fã do Vicente Matheus, completou: “quem entra na chuva é prá se queimar”, declaração que, por si só, não aliviava nada, mas vindo da boca do Gilsão teve o poder de tranquilizar e ao mesmo tempo energizar a galera. Realmente, naquele clima de censura à livre expressão, de disciplina militar e naquele contexto de “estertores do poder” em que viva o país, não tínhamos a menor idéia do que aconteceria. E olha que aconteceu...

Nas vésperas da estréia, cartazes espalhados, enfim, tudo pronto, a dois dias da apresentação o coronel, o big boss, pediu o texto. Mandei, um pouco temeroso. Era manhã. Passavam as horas e não sabia a resposta. À tarde, o Coordenador, o único civil de toda a cúpula, veio a mim trazendo na face a expressão aflita da gravidade, como a de quem carrega uma bomba. A peça não poderia ser encenada. “O homem tá puto! Como é que você escreve um texto desse?” Como pode? Que absurdo! Que estupidez, bradei, inconformado, dizendo que eu iria naquele instante falar com o homem. “Não adianta, só vai piorar as coisas. Se for só isso que acontecer, dê-se por satisfeito”. Por quê? “Nem te digo, nem te digo”. Saiu esbaforido. Fui ao Gilsão, com a mesma expressão aflita de gravidade. “Gilsão, fudeu!”.

Já era hora da aula, a maioria dos alunos na sala. Alguns do lado de fora, como sempre. E nada de professor, o que era absolutamente incomum, na verdade, inédito, naquele lugar que primava pelo horário. Da sala do fundo, a dos professores, saíram o Coordenador e dois professores, Maria Luiza e Jaime Esteban. Todos com a mesma expressão e passos de quem vai tirar o pai da forca. E a aula? perguntaram os alunos. Esperem.

Meia hora depois volta o coordenador e, sem explicação, dispensa todos, não haveria aula naquela tarde. Por quê? "Problemas..." A mim, depois que todos haviam saído, ele disse que minha situação era crítica. Como crítica, o que ele podia fazer a mim? Mandar embora, expulsar? É, respondeu, consternado.

Parecia que a terra havia parado. Ser expulso era a pior coisa que poderia acontecer a qualquer um ali. Voltar para casa de mamãe, sem dinheiro, sem emprego, sem faculdade, tendo perdido um ano... Por dentro eu tremia que nem vara verde. Nunca vi vara verde, não sei se ela treme ou não, mas posso dizer que eu tremia. Mas onde estava a minha fama de corajoso, que eu estava erigindo?

O último ensaio estava marcado para depois da aula. Arletão, que devido à falta de aula havia antecipado o ensaio, veio a mim: “vamo lá, guri! A turma está esperando”. Falei que não tinha condições de comandar o ensaio. “Larga de ser bundão. Vai deixar esse bando de milico fazer isso com você? Se fizerem alguma coisa, a gente dá um jeito, faz uma revolta, diz que vai todo mundo junto, quebra tudo...”

Fui, fizemos um ensaio delicioso, durante o qual me esqueci que a peça provavelmente não aconteceria e que estava a ponto de ser expulso. Assim que acabou o ensaio, desço ao nosso andar, com Gilsão, Arlete, Tiba e a Rosa. Eles esperaram ali fora. Entro, com o Gilsão, na sala do coordenador. “E aí?” Logo vi, na cara do Chiquinho, que a expressão era outra, bem melhor.

Ele me contou que os professores Maria Luisa e Esteban, além dele próprio, haviam tido uma longa conversa com o coronel, tentando demovê-lo da idéia de impedir a peça e de me expulsar e... conseguiram. Mas o coronel queria falar comigo. Vá agora lá que ele está te esperando.

Era a primeira vez que entrava na sala do Coordenador Geral. Poucos, ao longo daqueles 30 meses, entraram ali, se é que mais alguém além de mim entrou ali. Eu entraria ali outras vezes, em circunstâncias semelhantes, outras piores, outras melhores.

Lá estava ele, escondido atrás daquela enorme mesa de madeira, com desenhos em alto relevo talhados. Não me olhava direto nos olhos. Dava longas e provocativas baforadas na sua cigarrilha.

"Eu já fui jovemeu entendo essa rebeldia".

Na minha cabeça veio imediatamente a maravilhosa música do Luiz Melodia, “eu entendo a juventude transviada”.

Primeiro veio um blá-blá-blá paternalista. Depois um tom ameaçador. Eu pouco ou nada falava. No final, pediu algumas modificações no texto, trocar coisas inconvenientes, como disse ele. Desci e fui direto para o ponto de ônibus, onde todos esperavam ansiosos. Desci festejando. "Esses caras vão ver, cutucaram onça com vara curta!" Durante o trajeto que nos levaria na distante vila onde morávamos, decidimos, em festa, como alteraríamos o texto onde ele pediu. Decidimos pegar ainda mais pesado. Ele pediu para “substituir algumas coisas”, mas não falou por quais coisas... Estávamos endiabrados!

No próximo pôsti, os hilários e transformadores acontecimentos do dia seguinte, o dia em que o Cobra Parada Não Engole Sapo de fato nasceu e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A Incrível História do CPNES - Parte 10

GUERREIRO MENINO
No Capítulo anterior você soube que Cobra Parada pode virar nome de uma big banda de rock (Titãs + Paralamas) por influência do grupo do qual tive a honra de ser um dos mais entusiastas participantes. Mas muita gente duvidou disso. Não de eu ter sido um entusiasta participante, dúvida que até seria aceitável, já que sou meio avesso tanto à participação quanto, e sobretudo, ao entusiasmo. Mas duvidar de que Herbert Vianna tenha sido fã do grupo e que pretenda nos homenagear? Sinceramente, fiquei muito magoado com tais suspeitas. Jamais em toda a minha vida, pública ou privada, especialmente na privada, eu inventei uma só vírgula, um só ponto-e-vírgula, uma só crase, um só travessão. Não preciso aqui redeclarar minha total retidão moral e meu inequívoco apreço à realidade, incapaz que sou de contrariar os ensinamentos de minha santa, purificada e praticamente beatificada mãezinha. A falta de confiança e a dúvida na minha boa fé me abalaram muito. Um homem também chora, já dizia Gonzaguinha na música Guerreiro Menino. Eu chorei.

Chorei e pensei duas vezes, aliás, muito mais: fiquei sete dias e sete noites pensando se publicava ou não a continuação da biografia não muito autorizada do “Cobra Parada Não Engole Sapo”. E não continuaria, não fosse, como diria meu confidente e amigo pessoal, Paulo Coelho (que começou a escrever “Diário de um Mago" ao ver a interpretação do Panta como Mago em “O Homem que Usava Cabeça de Papelão”), o Universo ter conspirado. Quando algo de bom, belo, verdadeiro e justo tem que acontecer, o universo conspira para que aconteça. E assim aconteceu. O universo e o bom Deus conspiraram (o mau Deus, também conhecido como “o coisa ruim”, não é aceito nas rodas que decidem o destino dos homens de bom coração, como eu), e na noite do sábado o Luiz, que andava muito sumido, procurava na Internet o seu passado, quando se deparou com este blógui, virou seguidor e me autorizou a contar sua mini-biografia não autorizada, o que me deu ânimo para continuar a escrever a verdadeira e incrível história do CPNES, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia... Vamos lá.

Luiz Gonzaga, doravante chamado de Gonzaguinha foi, na infância, membro do clube-mirim do DOPS (Delegacia da Ordem Política e Social – pasmem, sobrinhos, isso existiu). Filho de militares (só seu pai era militar, mas valia por dois), freqüentava, nos anos 60, a creche instalada na seccional do DOPS de Recife, que abrigava filhos dos militares, enquanto estes convenciam presos políticos tímidos a falar. Gonzaguinha cresceu praticamente dentro do DOPS. Sua juventude não foi primavera florindo caminhos.

Filho de militar, jeito de militar, cara de militar, bigode de militar, Gonzaguinha era, contudo, era uma flor de pessoa. Seu pai lhe ensinara a ser assim (militar e flor). Militar nacionalista, Gonzagão, o pai, queria um país justo e sem violência, e nunca compactuou com os abusos praticados na época. Praticava-se tortura no DOPS de Recife, que ele dirigia? “Sim”, pensavam todos os militares ligados à repressão. “Não”, sabia a família Gonzaga. Como é possível? O pai de Gonzaga era um agente duplo, que fingia ser da ala dura para, de dentro, minar o sistema.

Os gritos nas salas do subsolo eram, sim, dos presos, mas não passava de teatro. O filho do Gonzagão, o Gonzaguinha, é quem, ainda adolescente, dirigia a cena e maquiava os “torturados”, que saíam da “sala de massagem” com manchas e chagas falsas em tudo que é parte do corpo. Gonzagão passava ao Gonzaguinha fotos de torturados e ele maquiava os presos. Chegaram até a forjar a morte de alguns, ajudando-os a mudar de identidade e fugir para algum lugar seguro.

Quando começou a distensão e o afrouxamento das práticas de exceção, Gonzaguinha ficou sem ter o que fazer por lá. Queria alçar vôo e atuar onde ainda houvesse repressão e injustiça. Assim foi que seu pai conseguiu que ele fosse o informante da repressão (falso informante, é óbvio) na escola militar de administração de coisas que voam de um lugar para outro, onde estávamos nós, os cobraparadistas. Não sabíamos nem que ele era informante da repressão, nem que na verdade não o era, se é que vocês me entendem.

Gonzaguinha nunca contou nada, com receio de que algum de nós fosse um informante real da repressão. Como informante, tudo o que ele contava aos coronéis é que, no geral, éramos apenas um grupo de jovens imaturos, que brincava de ser politizado, mas que só queria se divertir. Contudo, para continuar no grupo, onde ele se divertia como nunca na vida, contava que desconfiava que um de nós fosse ativista de esquerda, e que precisava ficar por perto para descobrir. Nunca descobriu, mas se divertiu e divertiu as platéias.

Eu sei que alguns não acreditarão nisso (os mesmos que não acreditam no telefonema do Herby), mas eu pergunto: por que barba e bigode eram proibidos a todos os alunos, menos ao Gonzaga, que desde o início ostentou seu imenso e austero bigode? Sabem por quê? Agora eu sei: os coronéis eram péssimos fisionomistas e queriam reconhecer de longe seu informante.


E assim o Gonzaguinha chegou, com sua experiência, talento e heroísmo, ao Cobra Parada, do qual foi membro constante, embora não ligado diretamente aos cabeças do movimento, se é que o movimento teve cabeças e, evidentemente, se é que houve um movimento.

Seu primeiro papel foi do médico do reino da Reinolândia, que atendeu o Rei após este ter um mau-súbito ao saber que a princesa estava grávida de um súdito, este interpretado pelo Tiba, que até como personagem era irresistível. Depois, Gonzaguinha fez dois personagens em “O Homem que Usava Cabeça de Papelão” e ainda interpretou o temível e tosco Chico (acho), na mítica “A Morte de Humberto Laraia”.

Gonzaguinha demorou a se encontrar, pensando que não tinha mais contra o que lutar, assim que acabou a ditadura. Mas logo percebeu que mudara apenas a forma de violência. Hoje, o paladino Gonzaguinha, o Guerreiro Menino, ainda luta, com ou sem seu austero e másculo bigode, a favor da beleza e da justiça em algum lugar deste país.






segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Incrível História do CPNES - Parte 9

Hoje é segunda, dia de continuar a biografia não muito autorizada do “Cobra Parada Não Engole Sapo”, grupo cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Mas deixarei a continuação da história para contar algo que acaba de acontecer.


Já falamos de vários membros do grupo. Já vimos que o CPNES influenciou fortemente os principais expoentes do rock brasileiro dos anos 80, como os Paralamas, o Capital Inicial e os Titãs. É sobre isso que quero falar. Sabem quem passou um e-mail pedindo meu telefone? Ele, Herbert. Pouco tempo depois me ligou e falou que descobriu o blógui através de uma assessoria que ele contrata para vasculhar o que dizem sobre ele na internet. Perguntei que tipo de assessoria. Jurídica, respondeu ele. Em seguida disse, em um tom muito amigável, que é sempre bom relembrar coisas distantes, principalmente (aqui já falou em outro tom) quando elas de fato aconteceram.

Concordei e falei que o tempo torna as coisas imprecisas. Falando em imprecisão, tornou Herby, existem algumas diferenças entre o que você falou e o que aconteceu. Pois é, respondi, às vezes a gente esquece alguma coisa da qual outros se lembram perfeitamente bem. Por exemplo, continuei, você pode se lembrar de coisas sobre mim, que eu mesmo não lembro. “Mas como, se eu nunca nem te conheci?”

Sabe quando a gente fica mudo? Eu fiquei. Imagina, o Herbert falando isso para mim. E com uma assessoria jurídica por perto. Se ele falasse que não se lembrava, tudo bem, mas que nem me conhecia? Eu não sabia o que dizer. Fiquei mudo por vários instantes. Susssspirei bem fundo. Aí ele começou a rir solto. “Brincadeirinha!”, acrescentou.

Ufa, que alívio.Mas que brincadeirinha mais tola, pensei. É claro que me lembro, ele continuou. Não exatamente de você. mas da peça, sim. Foi forte. Bom, já são quase trinta anos. Lembro que ouvia falar de vocês e fomos conferir, lá no SESC Garagem. E o que falavam da gente, perguntei. “Sei lá. Coisas do tipo ‘é um grupo político’, ou ‘ é tão ruim que é bom prá caralho’, 'muito engraçados'.” Herbert disse que foi ver a gente sem esperar nada, mas que saiu chapado.

Foi nos ver sem esperar nada, mas saiu chapado? Fiquei sem entender essa parte. Terá saído chapado da peça ou da casa dele para ver a peça? Bem, nada disso tem a menor importância. Eu ainda estava, ao telefone, meio atordoado com a brincadeirinha dele. A seguir conversamos algumas amenidades até que ele finalmente falou o motivo de seu telefonema. Os Paralamas e os Titãs estão pensando em aproveitar o sucesso do show que recentemente fizeram juntos, e que virou CD e DVD, para gravarem, pela primeira vez, um CD de estúdio e só com inéditas compostas em parceria. Se isso se concretizar, irão se apresentar como um grupo com um outro nome, bem estrambótico, com cada um usando um pseudônimo, como os Traveling Wilburys (Roy Orbison, George Harisson, Bob Dylan, Jeff Lane e Tom Petty).

Achei a ideia sensacional, mas me segurei e perguntei, de modo frio, “e daí, que importância isso tem, o que eu tenho a ver com isso”.

Sabe quando o cara do outro lado da linha fica mudo, não sabe o que dizer. Ele susssspirou bem fundo e eu comecei a rir. “Brincadeirinha”, falei. Paguei na mesma moeda.... Ei Herbert, você está aí? Ele desligou o telefone antes que eu falasse “brincadeirinha”. Acho que demorei muito, não dei o tempo certo, sei lá. Meu telefone não tem bina, nem pude retornar para pedir desculpas e falar que era brincadeirinha.

Cinco minutos depois, toca o telefone. "Brincadeirinha", ele diz. Rimos muito daquilo. Herby é um cara legal. Voltou a falar do disco que talvez gravem e pediu a permissão para colocar no grupo o nome Cobra Parada Não Engole Sapo. E disse ainda que alguns já decidiram quais os pseudônimos que usarão. Disse que o Paulinho (Miklos) escolheu "Tiba", que o dele vai ser "Markovich" e que as meninas que farão os backing vocals seriam "Os Arletões". Eu disse a ele que, infelizmente, não tenho direito sobre a marca, nem tenho delegação de competência para assinar autorização nenhuma. Além disso, o grupo prefere o anonimato, e isso fatalmente atrairia a mídia, a imprensa farejaria e chegaria até nós. Por isso tudo, eu evidentemente autorizei na hora.

Por isso, autorizei. Ele riu, agradeceu, disse que para minha própria segurança a conversa havia sido gravada e desligou.

Vou acabar o pôsti já para sair vou correndo comprar um telefone com bina. Semana que vem continuo a incrível história do CPNES, quando falarei do Porreste, do Perroní e do lépido Valter.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A incrível história do CPNES - Parte 8

"Cobra Parada" apresenta Arlete, a guerrilheira que abraçava o mundo

Para quem começa agora a acompanhar a história, esclareço que o Cobra Parada Não Engole Sapo foi um grupo que no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Quem lê com regularidade a história do CPNES e tem curiosidade exacerbada, deve ter notado que nunca me referi a ele como grupo de teatro. É a história do grupo, a atuação do grupo. Nunca do grupo de teatro.

O que esse detalhe significa? Que o CPNES atuou em outras vertentes da arte? Ou será que teve uma atuação política? Quem sabe se o teatro não era apenas uma fachada para ocultar um braço armado de algum movimento de esquerda? Enfim, essa pergunta me fazem diariamente aqueles que não presenciaram os fatos, os meus sobrinhos de sangue e os de estima, visitantes descuidados e curiosos em geral.

Afinal, eram os cobraparadistas guerrilheiros?

Talvez fosse melhor mentir para preservar as pessoas envolvidas, que seguiram suas vidas e hoje têm cargos e famílias a zelar. Mas quem sai na chuva é prá se molhar. A resposta, por mais que isso possa chocar é que sim, éramos guerrilheiros. Pela primeira vez confessamos em público, nesta biografia não muito autorizada. Planejamos muitas vezes colocar bombas em prédios públicos. Pensávamos sempre em organizar atentados terroristas. Sonhávamos em içar o Sarney (que ainda não era presidente) pelos bigodes em praça pública. A idéia de pegar em armas para defender o país da ditadura nos seduzia demais para medirmos os riscos. Lutávamos pela liberdade de ser o que quiséssemos, não o que os outros queriam que fôssemos (embora não tivéssemos a menor idéia do que realmente queríamos ser).

Se temos provas de que éramos guerrilheiros? Infelizmente não. Foto de todo o grupo com armas nas mãos? Não, só essas fotos aí do lado, tem as armas, mas nao tem a gente. Foto com alguns de nós com alguma arma na mão? Não. Foto com pelo menos um de nós com qualquer coisa que pudesse parecer uma arma? Também não. Nem um revolvinho de espoleta? Negativo. Quem sabe um estilingue? Nada. Como é que pudemos não ter ficado com sequer uma prova de que éramos guerrilheiros? Muita incompetência?
Como é que a gente ia adivinhar que aquilo um dia pudesse ser útil prá gente?

Arlete (filha do rei) contracena com o Tiba em "Nosso Reino" 
Tudo bem, sem provas não poderemos ganhar indenizações, mas quem é que liga prá isso? E também, na verdade, não importa saber se pegamos ou não em armas. O que importa é que aquilo que fazíamos com o teatro era, de fato, uma espécie de guerrilha, mais efetiva do que se fossem usadas armas. E como um grupo de meninos, naquele sistema de opressão e controle absoluto, terá conseguido fazer o que fez? Não se faz isso sem uma liderança muito inspiradora. Idéias e vontade de resistir e de gritar nós tínhamos, mas quem teria a coragem de falar “vamos lá, tchê!”. Quem teria a petulância de gritar para quem ficasse inseguro “O que? medo? Larga de ser frouxo, vamos lá”? Quem era a pilha, o exemplo que inspirava, o motor que empurrava, a coragem que faltava?

A Arlete, a nossa guerrilheira. Essa gaúcha foi a nossa Anita Garibaldi, nossa Anahy de las Misiones... Essas gauchas são phoda mesmo, adroam uma gerra! E a Arlete não fugia delas. Por isso era conhecida como Arletão, que era prá meter medo mesmo. Mas não metia. Metia respeito, isso sim. Mesmo sendo uma guerreira forte, corajosa e nem um pouco delicada, Arletão tinha um sorriso e um coração que abraçavam todos que estavam pela frente. Seu jeito de ser conseguia a paradoxal proeza de ser despolido e até grosseiro, mas, ao mesmo tempo, gigantescamente afetivo e acolhedor. Era a pessoa boa e confiável por excelência. Se achasse que alguém era um chato, ela dizia. “Fulano, mas você é muito chato”. E o fulano não achava ruim. Se era prá dizer que alguém era imbecil, ela dizia. E todos continuavam gostando dela, e ela se divertindo com todos.

“Ahn? Fazer a filha do rei na peça e esculachar com o meu pai? É comigo mesmo”.

“Tá com fome? Não tem o que fazer em casa? Tem uma panela vazia aí? Não, essa é pequena, pega a maior. Isso, essa serve. Vem atrás”. E lá saia a Arlete de casa em casa. Entrava dizendo “Tô morrendo de fome. Me dá aí qualquer coisa prá eu botar nessa panela e fazer uma sopa”. “Não tem?” “Deixa eu ver na sua geladeira”. Ia lá e abria. “Ei, tem sim, você não viu direito. Essa berinjela ta ótima, obrigado!”. No final saía uma big sopa. O Sopão da Arlete virou mania. As pessoas já compravam verduras e legumes a mais e já deixavam para quando a Arlete passasse para fazer seus sopões comunitários para os necessitados. Necessitados aqui não eram aqueles que não tinham condições de comprar uma abobrinha, mas aqueles que não tinham a menor idéia de o que fazer com uma abobrinha. Arlete não podia ver uma causa justa que tomava a frente. Não podia ser desafiada, que encarava. Alguém tinha uma idéia legal? “deixa comigo”. Era a energia e disposição em estado puro.

Arlete, onde chegava, chamava atenção, porque além de todo aquele seu jeito, falava alto que só ela. Certa noite, no Beirute, depois de sairmos chapados de uma peça alucinante que havia vindo do Rio, fomos ao Beirute, onde, prá variar, foram também os atores da peça. E naquele ambiente alegre, o jeito da Artele chamou a atenção da Regina e do Luis, atores da peça, sentados na mesa ao lado, uma daquelas mesas mais escondidas, ali no “L” do bar. Logo tudo virou uma mesa só. A Arlete estava atacada. Era apaixonante. Estávamos no me
io da nossa guerrilha, e a Arlete havia assumido a personagem Arletão. Discursava sobre a necessidade de as mulheres largarem aquele jeitinho meiguinho-docinho de Barbie e assumir a guerrilheira, dar as cartas, ser mais natural. Arletão não queria parecer feminina, ela sabia que era, e isso bastava. Arlete falou também da luta contra o poder. Ao ver uns policiais por perto gritou “Prá quê polícia aqui? A gente não precisa de polícia!”. O Luis anotou. Aliás, ele ficava o tempo todo anotando. Falamos da guerrilha que fazíamos. Falamos de brincar com o poder, dar um calor neles, a fim de amolecê-los e derrotá-los por derretimento. Escaldá-los. Os atores cariocas adoraram aquela conversa.


Titãs antes de conhecerem a história do CPNES
Dois anos depois foi lançado o filme Areias Escaldantes, idealizado por Regina Cazé e Luis Fernando Guimarães e que tinha no elenco, alem dos próprios, o Lobão e os Titãs, que por sinal gostaram das anotações do Luis. O filme, livremente inspirado na Arlete e na história do CPNES que a Regina e o Luis ouviram naquela noite, contava a história de um grupo de guerrilheiros lutava contra as forças do mal.


Capa do 1o disco do Titãs pós CPNES

Foi depois disso que os Titãs deram uma guinada do pop para o rock mais em sua melhor forma. Foi depois disso que Lobão largou os seus Ronaldos e lançou sua iconoclasta carreira solo. Foi depois daquele encontro com a Arlete que a Regina Casé, que ainda fazia o estilo comportadinho na peça que vimos (“A Farra da Terra”), mudou a forma de ser e de atuar e incorporou o Arletão. Foi exatamente isso que fez seu sucesso, que por sinal se mantém até hoje.

Os cobraparadistas, inclusive o emérito Panta, que teve a sorte de ter convivido mais tempo com ela (foram casados), não precisam de esforço algum para ter, muito viva na memória, a magnética e fulgurante imagem da Arlete. Mas caso você, sobrinho querido, queira saber aproximadamente como ela era, veja a Regina Casé, que ostenta com dignidade a persona que a inspirou: Arlete, a guerrilheira que abraçava o mundo!




domingo, 26 de setembro de 2010

A incrível história do CPNES - Parte 7

GILSÃO PARTE 2 -  A REDENÇÃO DOS GUERREIROS PANÇUDOS
 
No capítulo anterior você conheceu o Gilsão e o viu colocar umas escaraminholas na cabeça do Dr. Sócrates, antes de desmaiar de fome.
Pois saiba que quando ele abriu os olhos, viu que estava num hospital, com soro no braço. O Doutor Sócrates dava ordens às enfermeiras, mais interessadas no autógrafo do que em ouvir suas prescrições. Quando se despediram, Gilsão agradeceu muito, mas Sócrates disse que ele é quem deveria agradecer.
Osmar Santos ao microfone, com Sócrates, FHC, Casagrande e
Adilson Monteiro Alves (diretor de Fuebol do Corínthians)

Depois daquilo, Sócrates passou a ser um importante ativista político, além do brilhante jogador que sempre fora e, nisso, o Gilsão, emérito perna de pau, em nada influenciou. Sócrates liderou o primeiro movimento efetivamente popular que ocorreu em toda a ditadura. Nenhum outro movimento político tinha colocado o chamado “povão” na história. Naquele início dos anos 80, em plena ditadura militar e justamente no meio mais atrasado e conservador, o futebol, e ainda por cima num dos dois times mais populares do país (o outro é a Ponte Preta ou o Flamengo, não estou bem certo), nasceu a chamada Democracia Corinthiana (o nome foi dado por Washington Olivetto), movimento liderado por Sócrates e diretamente apoiado por Wladimir e Casagrande, os maiores ídolos do time. Foi um período da história do clube onde as decisões importantes, tais como contratações e regras da concentração, eram decididas pelo voto, ou seja, era uma forma de autogestão. Era um movimento interno do time, mas cuja intenção era, evidentemente, suas repercussões e influências externas. O Corinthians foi o primeiro clube a veicular dizeres publicitários na camisa, como "diretas-já" e "eu quero votar para presidente". Isso no período da ditadura militar, quando os movimentos sociais começavam a se rearticular para a instituição de uma democracia.

Vale do Anhangabaú no comício pelas "Diretas Já"
 Os militares pediram moderação ao clube. Imaginem o impacto que tinha aquilo: a camisa do Corinthians pedindo democracia... Os resultados disso? Imensa participação popular no movimento das Diretas Já, especialmente em São Paulo e, para o Corinthians, muitos títulos e impressionantes resultados financeiros.

Nessa época o Gilsão já estava em Brasília, onde, logo no início, instituiu-se a trinca Gilsão, Panta e Tio Moa, que na época era sobrinho. Todas as noites, primeiro no Bar do Ermenegildo e depois no Bar do maravilhoso Carlão, estruturavam suas ideias, que iam do ativismo político-estudantil à filosofia, passando pela astrologia, supra mundo e supra-realidade, deixando Romeu, um observador contumaz, atônito. 

Gilsão era visto pelos militares, mal sabiam eles, como alguém muito confiável, provavelmente devido ao seu jeito circunspecto e responsável, além de sua lábia! No outro extremo, com suas madeixas desalinhadas, bonés, faixas e sua falca cortante, Tio Moa, que na época era sobrinho, era visto pelos homens de farda com muita preocupação. Assim, quando começou a efetivar a idéia de montar uma peça de denúncia e protesto, ainda que disfarçada de comédia despretensiosa, Tio Moa, que na época era sobrinho, sabia que o grupo deveria ser eclético e ter alguém em quem os coronéis pudessem confiar, alguém acima de qualquer suspeita.
 Quem seria esse alguém? Isso mesmo, espertíssimo leitor: o Gilsão. A peça “Nosso Reino” (titulo inspirado na peça “Nossa Cidade” de Thorton Wilder), escrita pelo Tio Moa e pela Rosaflor, ironizaria a instituição e seus comandantes e denunciaria as condições às quais estávamos submetidos. Haveria um Rei, claramente inspirado no coronel-mór, mas quem haveria de ter coragem de interpretá-lo e tirar aquele sarro do Todo Poderoso? Vamos, arguto leitor, quem você acha que falou “deixa comigo, eu faço... Minha pança é igualzinha”? Isso mesmo: o Gilsão.

Mas na hora de fazer os cartazes e folhetos, que para nós tinham a força de panfletos revolucionários, percebemos que aquilo tudo não era apenas uma peça, mas o começo de um ousado, e até um pouco irresponsável, movimento de um grupo que não queria parar por ali, que queria continuar fazendo arte e resistência. Precisávamos, para marcar território e mostrar força e articulação, de um nome para o grupo. Tio Moa, que na época era sobrinho, só sabia que o nome deveria ser forte, interessante, engraçado e provocativo, como, aliás, deveria seria tudo o que fôssemos fazer.

E numa noite, voltando de ônibus para nosso empoeirado campo de concentração, em pé no ônibus, alguém falou: “Que tal ‘Cobra Parada Não Engole Sapo’?”. Tio Moa, que na época era sobrinho, sentiu-se em êxtase. Sensacional, era aquilo, sem dúvida. Agora, sagaz leitor, queria adivinhar quem sugeriu aquele forte, interessante, engraçado e provocativo nome? Acertou de novo: o Gilsão.

E de onde veio o Gilsão? De onde ele tirou toda aquela capacidade de lutar pelo que é justo? De onde tirou toda aquela capacidade de atrair com aquele sorriso amigo e fraternal, para depois influenciar pelo seu discurso? Pois vou dizer de onde: o geográfico leitor certamente sabe que no desenho do estado de Mato Grosso tem um biquinho, ao norte. Pois lá perto existe uma terra mítica chamada Juína, onde, diz a lenda, o espírito da índia Jussara pairava no ar para abençoar os índios pançudos e roliços da aldeia Tanyguá, para que vencessem as batalhas contra os invasores que, em nome do progresso, queriam destruir tudo o que viam pela frente: mata, bicho, gente. Evidentemente, sem a ajuda de Jussara, jamais os roliços pançudos conseguiriam vencer. Jussara os inspirava ao mesmo tempo em que amedrontava os invasores. Com o tempo, entretanto, mais homens brancos do progresso chegavam, cada vez com mais tratores, armas e fogo. Um dia trouxeram uma estrovenga giratória e liquidaram com tudo, ababou-se a guerra.

Os poucos sobreviventes migraram para o interior de São Paulo. Lá, em Dracena, muito antes que eu nascesse, nascia o Gilsão, descendente daqueles bravos, simpáticos, sorridentes, roliços e pançudos guerreiros indígenas. Gilsão nunca esteve em Juína, mas Juína sempre esteve em sua alma (e no corpo também, como se nota). À sua primeira filha, deu o nome de Jussara. Já o Tio Moa chamou de Taniguá a sua primeira filha, em inconsciente homenagem ao seu eterno irmão de luta por justiça. A pança que hoje o Tio Moa ostenta, também é uma homenagem ao Gilsão, ilustre cobraparadista.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A incrível história do grupo CPNES - Parte 6

O EFEITO BORBOLETA  E A HISTÓRIA DO MEMBRO NÚMERO 6

Ontem fui a um show do João Bosco. Ele é um músico elegante e impecável. Só ele e o violão. É pouco? Hum hum. É muito! Só seu violão já bastaria, grande instrumentista que é. Só a sua voz também. Juntos, são mais que eu pensei, é mais que sonhava! Sua voz é aveludada e ele a usa de diversas formas dentro da mesma música, modulando seu canto ao sabor da alma. Ver João Bosco cantando é como ver um saxofone que fala. O show homenageia os 40 anos de parceria com Aldir Blanc, um letrista mágico, capaz de escrever uma coisa assim:

Eu aprendi que a alegria
De quem está apaixonado
Écomo a falsa euforia
De um gol anulado
Se, como diz a letra, o fogo da paixão se apaga rápido, vamos logo aos nossos propósitos, antes que se acabe a minha imaginação... Não parece, mas eu tento colocar nos textos o máximo que eu posso de criatividade e imaginação. Mas vê-se que não consigo. Não sou poeta e fim de papo. Não sou alegre nem sou triste, sou jornalista (essa tentativa de paródia da Cecília Meirelles foi de doer - tá vendo como não sou disso?). Narro os fatos. O pouco de imaginação que tenho, gasto tentando escrever certo as palavras, construir as frases com um mínimo de lógica e separar um texto em parágrafos. Acho que é por isso que o Chico Buarque e o Saramago não ligam muito para parágrafo: não devem ter muita imaginação. Assim, não a gastam estruturando frases e parágrafos e também não ligam muito prá ponto e vírgula, não.

Então eu poderia fazer como eles e guardar minha escassa criatividade para criar histórias legais, inventivas, cheias de criatividade e imaginação. Tentarei:

Quem afinal sou eu para querer dar uma de saramago que por sinal nos deixou há pouco ou mesmo quem sou eu para dar uma de chico buarque que foi com sua poesia sua melodia e principalmente com sua postura o meu ídolo musical na adolescência quando eu tinha um caderno com as letras do chico escritas a mão é claro e só de ouvir as musicas parar e ouvir de novo até entender todas as palavras e ainda tem aquelas que a gente não entende nunca imagina agora você aí sobrinho do tio moa imagina um tempo em que não tinha letras de músicas disponíveis na internet nem em lugar nenhum aliás nem havia internet meu deus do céu como é que podíamos viver daquele jeito só mesmo escrevendo as letras de ouvido parando a musica toda hora para passar para o papel e você passava a vida toda achando que a letra dizia vou comer o amigo e vinte anos depois você descobre que a letra dizia vou com o meu amigo.

Esse parágrafo foi de doer, não foi? Está vendo como não posso me comparar a Saramago e Chico? Tudo bem, você sempre soube que eu não posso me comparar a eles. É exatamente por isso que prefiro gastar a imaginação estruturando o texto, o que mal consigo. Contento-me em narrar os fatos, sem floreios, sem invencionices ou licenças poéticas. A verdade, acima de tudo. Por exemplo, quando penso na história do Cobra Parada, tudo é tão real e concreto que eu posso afirmar que não existe outra maneira de contá-la senão esta que empreendo. E se começo com parágrafos meramente decorativos à primeira vista, saiba que eles nunca estão lá à toa. Sua utilidade é, através de exemplos reais, inserir o leitor atento no contexto em que vivíamos, e contar como o futebol, a arte e a atitude corajosa podem influenciar toda uma cidade, um país e o mundo. Sabe aquela história da borboleta que bate as asas aqui e acontece uma puta ventania do outro lado do mundo? O tal do efeito borboleta? Esquece, bobagem, tolice, dê o fora. Nada disso. Não é qualquer movimento que influencia, não. Precisa haver uma soma muito grande de talento, postura, ousadia e criatividade, além de uma descomunal ajuda do acaso.

O ACASO - E foi por acaso que uma determinada pessoa, após passar o dia inteiro estudando para uma prova que faria no dia seguinte (resistência de materiais, disciplina chatíssima do curso de engenharia civil, que fazia na Unicamp, em Campinas), no fim da tarde e mega-cansado, foi direto para o quarto de pensão onde morava. Dormiu até as 9 da noite, quando acordou para ouvir no rádio o jogo do seu time, o Corinthians, contra a Ponte Preta (ficou 1 a 1, gol de Sócrates). Depois sentiu uma baita fome, pois não havia comido nada o dia inteiro, e uma vontade louca de tomar uma cerveja. Geladeira zerada, acabou no bar do Vadico, na Washington Luiz, famoso pelo seu sanduíche de pernil. Essa determinada pessoa, de quem hoje vou falar, é o sexto membro do CPNES, um grupo cuja atuação, como você sabe, no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.

Membro número 6. O bar do Vadico era o reduto de seresteiros, boêmios e senhores da vizinhança, dentre os quais estava um famoso repórter esportivo de Campinas, o Renato Silva, que fazia, na Rádio Brasil, uma sensacional dupla com Sérgio Salvucci, comentarista dos jogos e âncora do programa esportivo. O bar era também o socorro de famintos da madrugada, e nessa condição estava o nosso estudante da UNICAMP, verde de fome. Aliás, verde não, porque é a cor do inimigo Palmeiras. Gilsão estava roxo de fome. Tomava a segunda cerveja, já meio alegre, e nada de vir o tradicionalíssimo sanduíche de pernil. Naquela noite havia só um chapeiro e muitos pedidos. Mas o astral do bar era bom, e Gilsão estava branco, suando de fome, mas com tanta alegria de viver (quem gosta de cerveja sabe do que estou falando) que chegou a pensar que mesmo que morresse de fome antes de o sanduíche chegar, morreria feliz.

Era prá lá de meia-noite quando Gilsão, tentando matar a fome com o cheiro de pernil que o bar exalava, ouviu o chapeiro gritar “olha o pernil da mesa 8”. Aquilo o deixou mais desesperado ainda de fome. Sabe quando você está super apertado, mas vai conseguindo segurar, mas quando chega pertinho da sua casa o negócio parece que vai sair? Era assim que ele se sentia vendo o seu gigantesco sanduíche de pernil sobe o balcão, à espera do garçom. Quintuplicou sua fome.

Nisso, entra no bar o Renato Silva acompanhado de dois magricelos altos. Os dois de cabelos encaracolados, um deles cheio de buracos na cara. Aquela visão fez o Gilsão engasgar a cerveja geladíssima que tomava. Olhou sua mesa e viu as 3 garrafas vazias, como a se perguntar se era o efeito da cerveja ou se ali realmente estavam entrando, e ocupando a mesa ao lado da sua, o Sócrates e o Casagrande. Os dois eram tão naturais àquele ambiente que mal foram notados, ou talvez aquele fosse um costume do Renato Silva, que, ficando junto ao gramado e entrevistando jogadores, era próximo o bastante dos jogadores para levar os mais boêmios ao Vadico. Naquela época não havia o patrulhamento sobre a vida pessoal dos jogadores como há hoje. E do jeito que o doutor Sócrates e o Casão gostavam de enxugar...

Gilsão, com um olho no sanduíche e outro nos seus ídolos, veio com aquela sua típica expressão de resmungo escandalosamente amistoso: “PÔ, MEU, eu não sou de tietagem, não, mas você vem sentar JUSTO do lado de um corintiano?”. “Corintiano! Viu o jogo?”. “Não, ouvi pelo rádio, o locutor disse que você fez um golaço”. “Golaço nada, até você fazia aquele gol”. “Como até eu? Tá me chamando de gordo?”. “Robusto”. Sócretes tem muito bom humor.

Casagrande tinha ido direto ao banheiro e o Renato Silva estava no balcão pedindo os sanduíches para os três. Enquanto isso e com o Gilsão quase desmaiando, o garçom finalmente pegava o sanduíche do balcão e punha na bandeja. Logo estaria alí, na mesa, à sua frente.

Com a proximidade do momento de abocanhar aquele maravilhoso pernil, Gilsão sentiu a boca se enchendo de saliva; estava literalmente babando quando Renato Silva volta à mesa ao lado e disse que ia demorar um pouco, que o pernil acabou e iam buscar “lá na casa deles”, que ficava “logo ali”.

Nisso o garçom vem chegando com o sanduíche do Gilsão.

Casagrande chega do banheiro, muito agitado, e senta à mesa.

O garçom põe o sanduíche na mesa do Gilsão.

“Será que demora muito?”, perguntou Sócrates, olhando, sem querer, para o sanduíche do Gilsão.

Gilsão, mesmo morrendo de fome, gostaria que a conversa com o ídolo rendesse mais e pensou rápido: o sanduíche é grande, já vem dividido em dois e metade já aplaca a fome e me impede de morrer.

“Pô, rapaz, eu tô morrendo de fome”, comentou o doutor Sócrates.

Foi do que o Gilsão precisava. Ato contínuo emendou ao ídolo: “quer metade do meu?”

“Quero”. “Quero”. Não se iludam, leitores ingênuos. Não foi Sócrates repetindo. Um “quero” foi do Sócrates, sim, mas o outro, simultâneo, foi do Casagrande.

“Fudeu!”, pensou Gilsão, que congelou por alguns segundos. Como recusar a metade a um dos dois? Falar “nada disso, eu ofereci só prá um”? Por instantes Gilsão pensou em dar uma de louco, agarrar seu sanduíche e fugir correndo dalí. Suava de fome. E foi chorando por dentro e entoando para si, como um mantra, “sou um imbecil, sou um imbecil” que o Gilsão esticou os braços, oferecendo uma metade para cada um. Casagrande caiu em cima na hora. Sócrates ainda foi polido: “Não, você vai ficar sem nada?”. “Não tem problema, eu jantei bem”. “Então quando vier o nosso, um é teu”. “Tranqüilo, dá prá esperar”.

Mas não deu. Meia hora depois, Gilsão, fraquíssimo de fome, viu Sócrates, Renato Silva e Casagrande ficarem embaçados, escuros, até que tudo se apagou. Mas antes disso deu tempo para o Gilsão falar, enquanto os dois comiam. Falou do interior, de seus antepassados do norte; disse que nunca os conheceu, nem à região, mas que sonhava com aqueles rios, com Juína, com os barcos; disse que "Ita" são os barcos, que são chamados assim porque seus nomes sempre começavam assim: Itaimbé, Itaberá, Itapuca, Itagiba, Itapuhy, Itassucé. Para ilustrar, cantou, com Renato Silva ao violão, uma música de Dorival Caymmi que ele adorava, “peguei um ita no norte”. Gilsão também cantou o clássico do Belmonte, “Saudade da minha terra” (de que me adianta, viver na cidade, se a felicidade não me acompanhar) e “O bêbado e o Equilibrista”, do João Bosco e Aldir Blanc (lembra dos parágrafos iniciais deste post?). Sócrates se emocionou e começaram a falar de política. Gilsão criticou o pessoal do futebol, que tinha muito poder e influência, mas não era politizado.

“Olha aqui, eu vou te falar uma coisa prá você. Não sei se você tá me entendendo. Ôrra, meu, vocês não sabem a força que têm? Imagina o que vocês podem fazer contra essa ditadura. Ôrra meu! É o cúmulo do absurdo você não fazerem nada!”.

Casagrande riu: “O que a gente pode fazer jogando futebol?”. Gilsão, ainda consciente, mas sem resposta, percebeu que tinha exagerado na sua retórica, mas cravou: “sei lá, não sou eu que sou jogador!”. Renato Silva e Casagrande riram muito, aquele riso solto. Sócrates não. Parece ter ficado pensativo. Estava nascendo ali, naquele instante, dentro da cabeça do doutor, a Democracia Corintiana.

Sabe quando o convidado do Jô é tão importante que ele faz a entrevista em dois blocos? Pois a história do Gilsão continua depois do intervalo. “Willem, solta a vinheta!”

sábado, 11 de setembro de 2010

A Incrível História do CPNES - Parte 5

O CONTEXTO E A GÊNESE

Em 1983, o país estava prontinho para o final da ditadura, mas, como diria o Professor Wagner, vivíamos os estertores do poder, que ocorre quando seus detentores perdem as estribeiras no esforço desesperados para mantê-lo. O problema é que os ares da liberdade já seduziam pessoas de dentro dos círculos do poder. Por isso, cada esfera e cada pequeno órgão do governo eram comandados como se fossem um Grande País, que devia ser protegido do “mal”. Acho que isso era o brinquedinho deles. Para nós, que portávamos a “semente do mal”, aquilo não era nada divertido. O patrulhamento sobre o que pensávamos, vestíamos ou falávamos era insuportável para alguns de nós.

E ali estávamos, naquela escola comandada por militares, com regras rígidas e controle absoluto. Nada de usar barba ou cabelos cumpridos, nada de questionar, nada de se divertir e de preferência, nada de pensar. Faziam de tudo para que fossemos fieis e tementes ao regime.

Como era de se esperar, todas aquelas pessoas de diferentes lugares do país começaram a formar pequenos grupos, aglutinados por região de origem, por lugar que sentavam nas salas, por estilos, etc. Mas alguns menos tranquilos começaram a conversar sobre jogo em que estavam inseridos e passaram a formar um novo grupo de afinidade. Numa noite, conversando com Silvio Romero e com o Gilsão no fundo da casa de alguém, decidimos que era preciso resistir. A palavra de ordem era ficar alerta, não deixar-se soterrar, não deixar-se ludibriar, não deixar-se transformar naqueles civis de alma fardada, amantes do controle e da hierarquia, cuja maior aspiração era ficar atrás de uma mesa controlando pessoas, fichas e processos burocráticos. Muitos alunos achavam aquilo o máximo. Alguns ainda acham.

A necessidade de resistir àquela lavagem cerebral acabou unindo um grupo de pessoas. Senti-me como um membro da resistência francesa na segunda guerra – é claro, com uma boa parcela de exagero romântico, mas no fundamento, realmente não era muito diferente disso, não. Só não corríamos o risco da morte física, substituída pela morte moral, a ameaça de expulsão, sempre lembrada pelos donos daquele Grande País.

Eu, menino recém saído das fraldas tão bem mantidas pela minha santa mãezinha, estava lá, naquele fundo de quintal, naquele lugar ermo e afastado, falando baixinho porque os muros tinham ouvidos, me sentia com um baita medo, mas com uma excitação nunca antes sentida.

A partir dali o grupo de resistentes começou a aumentar. Aos poucos fomos percebendo que tínhamos outras coisas em comum, como a paixão pela boa música, especialmente daqueles grupos independentes, como o Língua de Trapo (ao lado) e o Premê, por festas e pelo teatro. A forma de resistência incluía se divertir, arejar a cabeça, conversar muito, manter a mente sã e independente e, eventualmente, agir
.
Silvio, um intelectual pernambucano de boa família, morava em Recife, na badalada Avenida Boa Viagem, de frente para o mar, o que me impressionava muito; usava uns óculos pequenos e jardineira jeans. Um amigo em comum, o Google, me disse que hoje ele atua na coordenação do Curso de Pós-Graduação em Design, na Universidade Federal de Pernambuco. O Silvio e eu gostávamos muito de teatro e começamos a planejar montar um grupo. O teatro poderia ser usado como um instrumento de expressão de nossas inquietações e de denúncia, tirando os pacatos do seu estado de torpor. O professor Wagner, um alienígena ali, culto, de bom gosto e também resistente àquela forma de “educar”, e a Joana D’Arc, uma aluna paranaense, também eram entusiastas da idéia de fazer teatro. Nós 4 decidimos montar o grupo, mas isso demorou demais e o Silvio e a Joana deixaram Brasília antes de o grupo ter nascido; o professor Wagner foi demitido (sabe-se lá o motivo) pouco tempo depois. Do grupo que teve a idéia original, só sobrou este que agora conta a incrível história do Grupo Cobra Parada Não Engole Sapo, cuja atuação no início dos anos 80, não sei se você já ouviu isso antes, mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.

Dos 4 idealizadores, só sobrou euzinho aqui. Mas, definitivamente, eu não estava só, afinal, ainda havia a “resistência”, aquele grupo de boêmios que discutiam, bebiam, faziam sopas com doações semi-espontâneas (essas sopas merecerão maiores informações mais para frente). Foi jogar a ideia e ela ser abraçada por aqueles lunáticos que nunca antes haviam imaginado pisar num palco.

Ao mesmo tempo em que a resistência ganhava consistência, aumentava a atenção das autoridades sobre seus membros, pelo menos os mais extravagantes. Eu, por exemplo, adorava provocá-los usando boinas e cintos coloridos. Não falávamos grosso, não dávamos porrada, não éramos carrancudos nem reclamávamos de tudo. Éramos alegres e festivos. Essa nossa postura passava uma imagem de destemor, o que nos dava uma aura de poder e instilava certo receio nos que nos olhavam com olhares opressores. Por isso tinham cuidado quando queriam cortar nossas asinhas, que por sinal começavam a crescer. Ficou famoso o episódio da publicação de uma nota com os seguintes dizeres no boletim que definia as normas daquele Grande País. A nota dizia, sem nenhuma explicação: “fica proibido o uso de chapéus, boinas, bonés e faixas coloridas na cintura”. O primeiro que viu aquilo pregado no quadro de avisos me chamou correndo. “Parabéns, você ganhou uma nota só para você”. Não me lembro quem foi, mas me lembro que se seguiu uma algazarra geral. Todos foram lá para ler. Ninguém se cabia de rir. Ali percebi o quanto ter uma postura gerava força: tiveram receio de conversar comigo, o que deveriam fazer, já que apenas eu usava as tais faixas e boinas. Preferiram publicar uma nota, como se a decisão viesse do monte Sinai em forma de leis escritas em tábuas. A alegria por ter provocado aquilo apagou qualquer indignação com a proibição.

Enfim, já estávamos um pouco marcados e observados com atenção. “Estão querendo montar um grupo de teatro? Quem?”. Aí havia um problema. O grupo tinha que ter ao menos um membro acima de qualquer suspeita. Era preciso de alguém com um estofo moral, alguém que eles respeitassem muito. Alguém sério. O incrível é que na própria Resistência havia alguém assim. E é desta pessoa que falarei na parte 6.
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