Não quero me repetir, por isso, sem delongas, apresento o membro número 5. Lembro apenas que, ao falar de algum membro, acabarei abordando o grupo Cobra Parada não Engole Sapo, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.
Membro número 5. Uma noite, após uma apresentação de “A Morte de Humberto Laraia” que tinha na platéia nada mais nada menos que o Caetano (sim, ele, o Veloso), fomos todos ao Beirute. Eu poderia dizer que o Caetano foi à nossa peça porque estava louco para vê-la, porque sua fama tinha chegado a ele, etc. Mas, como vocês sabem, eu prezo a verdade e prefiro contar o real motivo da ida do Caetano. Na noite anterior ele havia feito um show no Teatro Nacional; o ingresso era caríssimo para nossos padrões. Mas como o Tiba queria catar uma menina que era fã do Caetano, ele tanto fez que conseguiu entrar no camarim para pegar um autógrafo. Sabem como era o Tiba, aquela carinha de caipira desprotegido, aqueles olhos negros como a noite...
Bem, no dia seguinte estava lá o Caetano na platéia do CPNES, louco para ver a peça. Aplaudiu demais, foi ao nosso camarim e depois saímos todos e fomos ao Beirute. Todos não. O Tiba foi atrás da menina, levar o autógrafo. Caetano estava com uma cara péssima. Mas ao seu lado na mesa estava alguém cuja conversa mudou a sua noite e o influenciou a compor seu disco mais moderno e surpreendente, além de um dos mais inspirados.
Quem estava ao lado do Caetano? Vamos lá, desde o início:
Ela ainda era uma semente do que seria quando, descendente direta da linhagem de abastados senhores do café, vivia entre a cruz e a espada. A cruz era a religião, que, como se sabe, era usada pelos senhores para alentar os escravos e convencê-los de que havia algum sentido no fato de trabalhar de sol a sol sem ganhar lhufas, ou, ganhar, no máximo, o que Luzia ganhou atrás da horta (aos sobrinhos: não foi salsa o que Luzia ganhou atrás da horta, nem cebolinha, e certamente também não foi rúcula ou erva doce).
Voltando aos escravos, eles eram negros, como se sabe. Também eram, como se sabe, bem dotados... de força e determinação. Para acalmá-los e desviá-los dessa coisa de justiça terrena, os senhores pregavam a religião, lembrando que após a morte a vida é eterna e, portanto, muito mais duradoura que a vida antes da morte. Lá os escravos seriam ricos e comeriam aquelas branquinhas sem precisar ser jogador de futebol nem cantar pagode. Os pobres seriam ricos e os ricos seriam pobres e lamberiam seus pés chulezentos, o que podia ser considerado o inferno. Assim os mantinham serenamente agradecendo as chibatadas.
Voltando ao membro número 5, na sua adolescência continuava a viver entre a cruz e a espada. A espada era o comprovado, o exato, e a cruz, a religião, que se dizia portadora do moralmente certo. Mas o membro número 5 questionava tudo, a começar pelo seu próprio nome: “Mãe, como eu posso como ter “mar” no meu nome se eu vivo em Minas?” Sua mãe respondia que era prá ela ter a cabeça além daquelas montanhas, no que ela não pode ver.
Questionando tudo o que não podia ver, resolveu entregar-se ao que podia ver e comprovar, entregar-se ao que era o certo, no sentido de exato, concreto. Assim chegou à engenharia civil. Entretanto, ao visitar os prédios mais representativos, percebeu que não ligava a mínima para a resistência dos materiais, nem para as estruturas, pilares e vigas, mas sim pela beleza dos acabamentos. Tanto isso é verdade que até hoje finge fazer exercícios, em Brasília, para admirar obras de arte, como os azulejos de Athos Bulcão (o Correio Brasiliense, que vive atrás de membros do CPNES, a entrevistou numa dessas saídas - pode procurar no Google).
Insatisfeita com a engenharia civil transferiu-se então para a engenharia elétrica na esperança de encontrar as respostas para suas indagações, mas descobriu que, ao subir num poste de alta tensão, o que a encantava não eram os componentes citados pelo Helio Creder em seu livro de instalações, não os campos elétricos mas o campos verdejantes e o horizonte. Na verdade, adorava o que não podia ver, o que estava além, como vaticinara a mãe.
Certa manhã saiu para pensar nas suas dúvidas sobre a vida. Caminhando descalça, afundando os pés na lama gelada das margens do rio Paraibuna, que corta Juiz de Fora, viu Roque, um santeiro (escultor de santos) que tinha uma queda por ela e que havia sido morto 3 dias antes. Ele apareceu para ela e disse: “vá para Brasília, lá você vai encontrar o que procura”.
No dia seguinte ela pegou as malas e sumiu pela estrada. Dito e feito: lá ela se encontrou, e foi no exato instante em que, durante uma aula de contabilidade, dormindo os seus costumeiros e profundíssimos sonos, sonhou que não era uma bíblia e que também não era um capacitor, mas sim uma flor, a mais linda das flores, e que viveria rodeada de outras rosas, cravos, jasmins, violetas, e árvores como as centenárias ceratonas, os ipês e tudo mais o que Burle Marx já inventou. No sonho, a fragrância de suas pétalas inspiraria todos aqueles que lutassem pelo que é belo e pelo que é justo e que seus espinhos sangrariam as mãos dos impuros. Quando o último aluno saiu da sala e bateu a porta, ela acordou. Já não era mais mar. Era Flor.
E seu sonho se cumpriu. Rosaflor, de inteligência invulgar, amante das letras, da poesia e de Guimarães Rosa, ajudava nos textos escritos pelo Tio Moa (que ainda não era tio, mas sobrinho) e nas músicas; nos inspirava a todos na luta contra a injustiça e na busca da beleza, o que faz ainda hoje, com seu jeito mole e sua fala mansa, que diz ao balanço do vento.
Voltando ao início, Caetano estava irritado. Ao lado, a Rosa que, já meio alterada, começou a chamá-lo de Velô (como todos do CPNES, sempre afrontando autoridades...). “O, Velô, você tem que ler o Guimarães Rosa”. E falava sobre Camões, sobre paródias e confusões de prosódia, poesia concreta, flor do Lácio, e todas aquelas coisas que ela sempre dizia prá gente quando estava alta. Só que a gente nunca fez daquilo uma música. Caetano compôs, ali mesmo, na nossa frente, diretamente influenciado pela Rosa, a música “Língua”, que gravou no disco do ano seguinte, chamado “Velô”. Por algum motivo, acho que outra música do mesmo disco, “Podres Poderes”, tem algo a ver com o Tiba. Rosa tem um filho. Adivinhem o nome...
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
A Incrível História do CPNES - Parte 3
Na parte 1 você viu que o “Cobra Parada Não Engole Sapo” (CPNES) foi um grupo que fez arte no início dos anos 80 e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Você viu também o quanto os brasilienses Renato, Bi, Dado e Dinho, ícones do Rock Brasil dos anos 80, viajavam com o CPNES e o quanto foram influenciados.
Na parte 2 você foi lembrado de que o CPNES foi um grupo que fez arte no início dos anos 80 e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Você também conheceu 3 membros do grupo: o Panta, o Sobral e o perseverante Marcovitch
Esta parte 3 terá é dedicada ao único galã, do grupo, desaparecido em circunstâncias misteriosas.
Membro número 4: Um cantor e poeta cearense, autor de Pavão Misteriozo (pavão misteriozo/ pássaro formoso/ tudo é mistério/ neste seu voar), costumava andar por Brasília, cantando em festivais, se deliciando com a cidade planeta e passando horas no Beirute, um bar freqüentado por artistas, gays, pais e mães de família totalmente normais, peladeiros pós-pelada, punks e pats. Era, e ainda é, um bar eclético e de aceitação. Naquela época era comum você conhecer gente nova e de lá sair para uma festa ou mesmo para um singelo passeio pela superquadra, entre a relva e os majestosos fícus benjamins, ceratonas e ipês. Ednardo saiu do bar para dar um desses passeios e encontrou pelo caminho um caipira risonho e viajandão, dando voltas com os braços abertos até deitar no chão e olhar pro céu. Ednardo estava admirado da cena, um cara sozinho no meio da superquadra, brincando de super-homem ou de avião.
- Qual a sua graça?
- Ednardo – que riu da expressão antiga para perguntar seu nome.
- Prazer, Altibano.
Aquele cara não existia, pensou o cearense, achando que o cara tivesse fumado algo. Ele não conhecia mesmo o Tiba... Quando voltou para a mesa, Ednardo pegou uns guardanapos e começou a escrever. A maravilhosa “Serenata prá Brazilia” diz o seguinte:
Quando gravou a música, Ednardo resolveu subsituir Altibano por Altiplano, para evitar comentários maledicentes.
Para quase tudo o que se falasse ao Tiba, ele respondia com “É”, um misto de exclamação e pergunta, como se não soubesse do que se tratava mas devesse concordar. Estava sempre meio perdido, meio deslocado, mas encantava-se por tudo, especialmente por mulheres. Com aquele ar perdido que as mulheres amam, e com seu tipo entre o galã e o jeca, Tiba era irresistível. As meninas, e até um menino, o amavam. Mas Tiba não amava ninguém. No máximo, comia, quero dizer, alentava esperanças. Mas nada, nem ninguém, podia amarrá-lo.
Mas nem tudo são flores na vida, nem na do Tiba. Um dia, Tiba estava num ambiente formalíssimo e sisudo de trabalho (achavam que ser sério era ter compromisso e civilidade – rir era quase uma subversão). Juntando a paixão por desafiar a força da gravidade (mania de voar), a mania de afrontar autoridades (como típico membro do CPNES), sua condição de totalmente perdido e sua genialidade, Tiba viu um tubo no chão e um pedaço de madeira por perto. Não teve dúvidas: pos a madeira sobre o tubo e, tentando equilibrar-se, brincou de surfista. Foi um show. Ele nunca havia surfado, mas o tubo e a madeira ele dominava. Todo mundo parou de trabalhar e se aproximou. O ambiente se encheu de alegria. Começaram a gritar e aplaudir. Uns começaram a marcar o tempo e fazer apostas. Ele se mantinha ali, equilibrado. Às vezes quase caía, mas com incrível destreza e habilidade, curvava o corpo, quase tocava o chão, como se estivesse num tubo tocando as ondas, e se erguia novamente. As 50 pessoas que se juntaram festejavam. Nunca haviam sido tão felizes no trabalho. Quando achou que era o momento de parar... Mentira, ele nunca acharia que era hora de parar... Quando se cansou (agora sim), deu um salto, bem alto, e, ao cair, bateu com o pé na ponta da tábua, que subiu, numa manobra feita com a intenção de pegá-la com a mão sem se abaixar, como os skatistas fazem com o skate. Mas, muito empolgado com seu desempenho espetacular e com o delírio da platéia, bateu forte demais na madeira, que subiu muito e fugiu dele. Todos olharam para cima acompanhando a madeira subindo, girando, subindo, diminuindo a velocidade da subida e do giro, até que lá em cima quase parou no ar antes de descer. Quiçá tivesse parado no ar, como helicóptero, como um beija-flor, como o Dadá Maravilha, ou como se alguém desse uma pausa. Mas não, ela não parou. Pior, caiu, caiu rápido, sem voltinhas, reta, dura, direto na cabeça do chefe-boçal-militar-sem-farda-nem-competência, que caiu desmaiado, ao que o povo urrou de alegria, enfim vingados do déspota inútil. Gritavam em coro “Ei chefia, vai tomar no cu”. Ops, acho que agora fui eu que viajei. Fui emocional e inventei coisa. Volta a fita. A madeira não caiu na cabeça, como os presentes gostaríamos, mas ao lado do manda-chuva, que se levantou e gritou ninguém sabe o quê. Só se sabe que o povo voltou rápido e em silêncio para os seus lugares, com ar de “o que era doce acabou, tudo tomou seu lugar, depois que o Tiba passou, e cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois do Tiba passar surfando ondas de amor”. Depois daquilo Tiba sumiu. Conta-se que foi visto somente vários anos depois, pelas bandas de São Paulo, com os mesmos cabelos negros e lisos caídos para o lado, mas sem se lembrar exatamente de quem era. Quando lhe perguntaram "você é o Tiba?" ele respondeu "É ! ?"
Se alguém souber do paradeiro do Tiba, solicitamos entrar em contato com este blog ou com o jornalista Marcelo Resende, que prepara um programa sério sobre o misterioso desaparecimento. E, já que o achou, aproveite e lhe dê uma noticia: o chefe-boçal-militar-sem-farda-nem-competência dançou, foi decapitado e deportado. Mas não pense que o Tiba vai achar o máximo. Tiba jamais será vingativo. Para ele tudo sempre esteve e sempre estará bem. Quando você disse “o cara dançou” ele dirá respnderá “É ! ?”
P.S. Tiba foi o súdito bebum que desafiou o Rei e traçou a princesa em “Nosso Reino”. Também foi o inesquecível Xerxes, no maior sucesso do grupo, “A Morte de Humberto Laraia”. Xerxes reclamava da sua esposa, a Norma, porque ela era muito certinha. A peça acaba com Xerxes entrando pelo espelho e saindo de cena. Definitivamente. Sumiu dias depois. A peça seguinte do CPNES foi “O Homem que Usava Cabeça de Papelão”, um desafio ao poder constituído e uma homenagem ao Tiba, como se pode constatar no folder.
Na parte 2 você foi lembrado de que o CPNES foi um grupo que fez arte no início dos anos 80 e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Você também conheceu 3 membros do grupo: o Panta, o Sobral e o perseverante Marcovitch
Esta parte 3 terá é dedicada ao único galã, do grupo, desaparecido em circunstâncias misteriosas.
Membro número 4: Um cantor e poeta cearense, autor de Pavão Misteriozo (pavão misteriozo/ pássaro formoso/ tudo é mistério/ neste seu voar), costumava andar por Brasília, cantando em festivais, se deliciando com a cidade planeta e passando horas no Beirute, um bar freqüentado por artistas, gays, pais e mães de família totalmente normais, peladeiros pós-pelada, punks e pats. Era, e ainda é, um bar eclético e de aceitação. Naquela época era comum você conhecer gente nova e de lá sair para uma festa ou mesmo para um singelo passeio pela superquadra, entre a relva e os majestosos fícus benjamins, ceratonas e ipês. Ednardo saiu do bar para dar um desses passeios e encontrou pelo caminho um caipira risonho e viajandão, dando voltas com os braços abertos até deitar no chão e olhar pro céu. Ednardo estava admirado da cena, um cara sozinho no meio da superquadra, brincando de super-homem ou de avião.
Ednardo obedeceu.
- VeR o céu ajuda a abriR a poRta da peRcepção.
Imagine essa última frase dita com um sotaque bem caipira do interior de São Paulo- Qual a sua graça?
- Ednardo – que riu da expressão antiga para perguntar seu nome.
- Prazer, Altibano.
Aquele cara não existia, pensou o cearense, achando que o cara tivesse fumado algo. Ele não conhecia mesmo o Tiba... Quando voltou para a mesa, Ednardo pegou uns guardanapos e começou a escrever. A maravilhosa “Serenata prá Brazilia” diz o seguinte:
É uma ilha solitária, mil sotaques
Uma trilha que descobre uma Babel
Encruzilhada de destinos
Super-homens, super quadras, multi-solidão
Cidade-avião, vôo rasante, aeroplanta, o Altibano do chão
Cidade planeta, um desaguar de viajantes...
Quando gravou a música, Ednardo resolveu subsituir Altibano por Altiplano, para evitar comentários maledicentes.
Para quase tudo o que se falasse ao Tiba, ele respondia com “É”, um misto de exclamação e pergunta, como se não soubesse do que se tratava mas devesse concordar. Estava sempre meio perdido, meio deslocado, mas encantava-se por tudo, especialmente por mulheres. Com aquele ar perdido que as mulheres amam, e com seu tipo entre o galã e o jeca, Tiba era irresistível. As meninas, e até um menino, o amavam. Mas Tiba não amava ninguém. No máximo, comia, quero dizer, alentava esperanças. Mas nada, nem ninguém, podia amarrá-lo.
Mas nem tudo são flores na vida, nem na do Tiba. Um dia, Tiba estava num ambiente formalíssimo e sisudo de trabalho (achavam que ser sério era ter compromisso e civilidade – rir era quase uma subversão). Juntando a paixão por desafiar a força da gravidade (mania de voar), a mania de afrontar autoridades (como típico membro do CPNES), sua condição de totalmente perdido e sua genialidade, Tiba viu um tubo no chão e um pedaço de madeira por perto. Não teve dúvidas: pos a madeira sobre o tubo e, tentando equilibrar-se, brincou de surfista. Foi um show. Ele nunca havia surfado, mas o tubo e a madeira ele dominava. Todo mundo parou de trabalhar e se aproximou. O ambiente se encheu de alegria. Começaram a gritar e aplaudir. Uns começaram a marcar o tempo e fazer apostas. Ele se mantinha ali, equilibrado. Às vezes quase caía, mas com incrível destreza e habilidade, curvava o corpo, quase tocava o chão, como se estivesse num tubo tocando as ondas, e se erguia novamente. As 50 pessoas que se juntaram festejavam. Nunca haviam sido tão felizes no trabalho. Quando achou que era o momento de parar... Mentira, ele nunca acharia que era hora de parar... Quando se cansou (agora sim), deu um salto, bem alto, e, ao cair, bateu com o pé na ponta da tábua, que subiu, numa manobra feita com a intenção de pegá-la com a mão sem se abaixar, como os skatistas fazem com o skate. Mas, muito empolgado com seu desempenho espetacular e com o delírio da platéia, bateu forte demais na madeira, que subiu muito e fugiu dele. Todos olharam para cima acompanhando a madeira subindo, girando, subindo, diminuindo a velocidade da subida e do giro, até que lá em cima quase parou no ar antes de descer. Quiçá tivesse parado no ar, como helicóptero, como um beija-flor, como o Dadá Maravilha, ou como se alguém desse uma pausa. Mas não, ela não parou. Pior, caiu, caiu rápido, sem voltinhas, reta, dura, direto na cabeça do chefe-boçal-militar-sem-farda-nem-competência, que caiu desmaiado, ao que o povo urrou de alegria, enfim vingados do déspota inútil. Gritavam em coro “Ei chefia, vai tomar no cu”. Ops, acho que agora fui eu que viajei. Fui emocional e inventei coisa. Volta a fita. A madeira não caiu na cabeça, como os presentes gostaríamos, mas ao lado do manda-chuva, que se levantou e gritou ninguém sabe o quê. Só se sabe que o povo voltou rápido e em silêncio para os seus lugares, com ar de “o que era doce acabou, tudo tomou seu lugar, depois que o Tiba passou, e cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois do Tiba passar surfando ondas de amor”. Depois daquilo Tiba sumiu. Conta-se que foi visto somente vários anos depois, pelas bandas de São Paulo, com os mesmos cabelos negros e lisos caídos para o lado, mas sem se lembrar exatamente de quem era. Quando lhe perguntaram "você é o Tiba?" ele respondeu "É ! ?"
Se alguém souber do paradeiro do Tiba, solicitamos entrar em contato com este blog ou com o jornalista Marcelo Resende, que prepara um programa sério sobre o misterioso desaparecimento. E, já que o achou, aproveite e lhe dê uma noticia: o chefe-boçal-militar-sem-farda-nem-competência dançou, foi decapitado e deportado. Mas não pense que o Tiba vai achar o máximo. Tiba jamais será vingativo. Para ele tudo sempre esteve e sempre estará bem. Quando você disse “o cara dançou” ele dirá respnderá “É ! ?”
P.S. Tiba foi o súdito bebum que desafiou o Rei e traçou a princesa em “Nosso Reino”. Também foi o inesquecível Xerxes, no maior sucesso do grupo, “A Morte de Humberto Laraia”. Xerxes reclamava da sua esposa, a Norma, porque ela era muito certinha. A peça acaba com Xerxes entrando pelo espelho e saindo de cena. Definitivamente. Sumiu dias depois. A peça seguinte do CPNES foi “O Homem que Usava Cabeça de Papelão”, um desafio ao poder constituído e uma homenagem ao Tiba, como se pode constatar no folder.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
A incrível história do grupo "COBRA PARADA NAO ENGOLE SAPO" - Parte 2
CPNES BEGINS
A incrível história do CPNES seria contada quinzenalmente, mas vários fãs disseram que nesse negócio de blog a velocidade deve ser muito mais rápida. Disseram que a parte 1 foi boa demais, o que causou forte ereção no meu ego. Ainda sob tal efeito, continuo a históC continuo a história do CPNES, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.
Mas como se juntaram essas pessoas em Brasília, todas vindas de fora, em condições tão diferentes, para formar um grupo que deixou um legado sem precedentes na história do Brasil? Antes de falar da obra do grupo, é importante conhecer a história e a formação de alguns membros de grupo. Chamarei de membro 1, membro 2, etc. Não há nenhuma hierarquia nisso (o último que tentou descobrir o cabeça do grupo foi mandado prá Suíça). Hoje vou falar de 3 membros.
Membro 1. Lá pelos anos 60, em Belzonte, os moleques Milton, Lô, Roberto e Fernando moravam na mesma rua, perto de mais um monte de caras super legais. Juntos desde a infancia, eles se encontravam na frente de uma casa de esquina, mais ou menos eqüidistante de onde moravam. Além da conveniência geodésica, a casa tinha uns murinhos legais para sentar. Mas o que o pessoal gostava mesmo é que na casa morava um rechonchudo garotinho que nunca tirava seus imensos óculos, gostava de ouvir as estrelas e falava de mundos paralelos. O menino não fazia parte da galera porque era bem mais novo. Às vezes o pai gritava com os meninos lá fora “isso aqui agora é clube, é?” “Lá vem o clube da esquina de novo”. O garotinho adorava ouvir da janela a conversa dos rapazes. Sabia tudo sobre todos: quando o Milton levou um fora, quando o Lô deu a primeira e como o Betão, que tinha um vozeirão de locutor de rádio, um dia apareceu com a voz fininha e passou a ser chamado de Betinho (só mais tarde ficou conhecido como Beto Guedes). O menino que ouvia tudo pela janela se chamava Pantaleão, sim, ele mesmo, o Panta, aquele que dá uns toques pro Tio Moa e que fez parte do Cobra Parada. Cansados de tanto moleque em frente da sua casa, os Panta se mudaram para Uberaba.
Membro 2. Em outro ponto do país, na desértica e arenosa vila em que morava, e onde não chovia havia 17 anos, o pequenino (de altura, não de cabeça) Sobral, caçula de 12 filhos, espremia um mandacaru, prá ver se saía uma gota d’água. Segundo a tradição, o pai sugava primeiro, a mãe depois, e, em ordem decrescente de idade, os filhos. Ou seja, Sobral era o décimo quarto a chupar aquilo. Todos na vila eram chamados pelo sobrenome e o sobrenome de todas as famílias era o mesmo: Sobral. Mas todos sabiam exatamente quem era quem, pelo tom da voz com que eram chamados ou citados. Mas nosso Sobral sobreviveu a tudo, porque tinha um sonho e, como diria o Shiniashic (blargh), ninguém pode deter um homem que tem um sonho. Sobral queria conhecer Maria Luisa, famosa lingüista da capital federal. Quando, no começo dos anos 80, já aos 18 anos, Sobral embarcou num pau de arara para Brasília, toda sua família foi se despedir. Sua mãe, preocupada: “cuidado com o mar, menino, que você não sabe nadar!” Quando chegou na desértica e arenosa vila em que passou a morar nos arredores de Brasilia, sentiu-se em casa. Sobral não apenas conheceu a lingüista Maria Luiza, como a incorporou, numa de suas mais sstanislawskianas interpretações. Abaixo a foto histórica de Sobral como Maria Luisa. Qualquer semelhança com o Rodrigo San... Ops, prometi não revelar sua identidade...
Membro 3. Uma família com mãe brasileira e pai russo usava uns chapelões peludos em pleno calor de 35 graus de Bauru. Viviam espreitando a rua através das frestas das janelas. Vésperas da copa de 1970. Os pais, ativistas radicais ligados ao comando bolchevique de Moscou, estavam planejando, por mais de 6 anos, um atentado terrorista numa corrida de rua. O atentado, na verdade, seria muito simples, basicamente com bombas colocadas em pontos estratégicos. O problema é que não havia corridas de rua em Bauru, o que os deixou em maus lençóis com o comando em Moscou. Assim, viviam entre a cruz e a espada: ou caíam nas mãos do DOPS por planejar o atentado, ou da Kaos, uma organização Russa, franquia da KGB, por não realizá-lo. No primeiro caso seriam torturados num treco chamado pau de arara, que não era nada bonito. No segundo caso, iriam quebrar gelo na Sibéria (na época as geladeiras não eram Frost Free). Num belo dia, os pais, apressados, levaram os dois filhos, Natalvitch e Markovitch para a casa de uns caras esquisitos de barba e chapéus pretos. Disseram que sairiam de férias (essa passagem recentemente foi narrada em excelente filme). No começo dos anos 80, Markovitch se transformou em ator, com importantes aparições com a cara pintada (sempre preocupado en ser reconhecido pelo DOPS e Kaos) em espetáculos do Cobra Parada . Desfeito o grupo, dedicou-se às corridas de rua, este blogueiro não sabe exatamente com que fim, mas, a contar pelos resultados, não é para correr.
A incrível história do CPNES seria contada quinzenalmente, mas vários fãs disseram que nesse negócio de blog a velocidade deve ser muito mais rápida. Disseram que a parte 1 foi boa demais, o que causou forte ereção no meu ego. Ainda sob tal efeito, continuo a históC continuo a história do CPNES, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.
Mas como se juntaram essas pessoas em Brasília, todas vindas de fora, em condições tão diferentes, para formar um grupo que deixou um legado sem precedentes na história do Brasil? Antes de falar da obra do grupo, é importante conhecer a história e a formação de alguns membros de grupo. Chamarei de membro 1, membro 2, etc. Não há nenhuma hierarquia nisso (o último que tentou descobrir o cabeça do grupo foi mandado prá Suíça). Hoje vou falar de 3 membros.
Membro 1. Lá pelos anos 60, em Belzonte, os moleques Milton, Lô, Roberto e Fernando moravam na mesma rua, perto de mais um monte de caras super legais. Juntos desde a infancia, eles se encontravam na frente de uma casa de esquina, mais ou menos eqüidistante de onde moravam. Além da conveniência geodésica, a casa tinha uns murinhos legais para sentar. Mas o que o pessoal gostava mesmo é que na casa morava um rechonchudo garotinho que nunca tirava seus imensos óculos, gostava de ouvir as estrelas e falava de mundos paralelos. O menino não fazia parte da galera porque era bem mais novo. Às vezes o pai gritava com os meninos lá fora “isso aqui agora é clube, é?” “Lá vem o clube da esquina de novo”. O garotinho adorava ouvir da janela a conversa dos rapazes. Sabia tudo sobre todos: quando o Milton levou um fora, quando o Lô deu a primeira e como o Betão, que tinha um vozeirão de locutor de rádio, um dia apareceu com a voz fininha e passou a ser chamado de Betinho (só mais tarde ficou conhecido como Beto Guedes). O menino que ouvia tudo pela janela se chamava Pantaleão, sim, ele mesmo, o Panta, aquele que dá uns toques pro Tio Moa e que fez parte do Cobra Parada. Cansados de tanto moleque em frente da sua casa, os Panta se mudaram para Uberaba.
Membro 2. Em outro ponto do país, na desértica e arenosa vila em que morava, e onde não chovia havia 17 anos, o pequenino (de altura, não de cabeça) Sobral, caçula de 12 filhos, espremia um mandacaru, prá ver se saía uma gota d’água. Segundo a tradição, o pai sugava primeiro, a mãe depois, e, em ordem decrescente de idade, os filhos. Ou seja, Sobral era o décimo quarto a chupar aquilo. Todos na vila eram chamados pelo sobrenome e o sobrenome de todas as famílias era o mesmo: Sobral. Mas todos sabiam exatamente quem era quem, pelo tom da voz com que eram chamados ou citados. Mas nosso Sobral sobreviveu a tudo, porque tinha um sonho e, como diria o Shiniashic (blargh), ninguém pode deter um homem que tem um sonho. Sobral queria conhecer Maria Luisa, famosa lingüista da capital federal. Quando, no começo dos anos 80, já aos 18 anos, Sobral embarcou num pau de arara para Brasília, toda sua família foi se despedir. Sua mãe, preocupada: “cuidado com o mar, menino, que você não sabe nadar!” Quando chegou na desértica e arenosa vila em que passou a morar nos arredores de Brasilia, sentiu-se em casa. Sobral não apenas conheceu a lingüista Maria Luiza, como a incorporou, numa de suas mais sstanislawskianas interpretações. Abaixo a foto histórica de Sobral como Maria Luisa. Qualquer semelhança com o Rodrigo San... Ops, prometi não revelar sua identidade...
Membro 3. Uma família com mãe brasileira e pai russo usava uns chapelões peludos em pleno calor de 35 graus de Bauru. Viviam espreitando a rua através das frestas das janelas. Vésperas da copa de 1970. Os pais, ativistas radicais ligados ao comando bolchevique de Moscou, estavam planejando, por mais de 6 anos, um atentado terrorista numa corrida de rua. O atentado, na verdade, seria muito simples, basicamente com bombas colocadas em pontos estratégicos. O problema é que não havia corridas de rua em Bauru, o que os deixou em maus lençóis com o comando em Moscou. Assim, viviam entre a cruz e a espada: ou caíam nas mãos do DOPS por planejar o atentado, ou da Kaos, uma organização Russa, franquia da KGB, por não realizá-lo. No primeiro caso seriam torturados num treco chamado pau de arara, que não era nada bonito. No segundo caso, iriam quebrar gelo na Sibéria (na época as geladeiras não eram Frost Free). Num belo dia, os pais, apressados, levaram os dois filhos, Natalvitch e Markovitch para a casa de uns caras esquisitos de barba e chapéus pretos. Disseram que sairiam de férias (essa passagem recentemente foi narrada em excelente filme). No começo dos anos 80, Markovitch se transformou em ator, com importantes aparições com a cara pintada (sempre preocupado en ser reconhecido pelo DOPS e Kaos) em espetáculos do Cobra Parada . Desfeito o grupo, dedicou-se às corridas de rua, este blogueiro não sabe exatamente com que fim, mas, a contar pelos resultados, não é para correr.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
A INCRÍVEL HISTÓRIA DO GRUPO "COBRA PARADA NAO ENGOLE SAPO" - Parte 1
Querem saber o que quero dizer com “Cobra Parada Não Engole Sapo”. O Panta acha que o blog devia explicar as origens do título (ele as conhece de perto). Eu lembrei ao Panta do pacto que o grupo tinha, de não falar de si, de não levantar poeira, de não pedir o crédito de nada que conquistou e de não usar a história do grupo para benefício próprio. Mas o Panta me convenceu a mudar de idéia. “Tio Moa, a gente até já se esqueceu porque queria esquecer. A gente esqueceu até do que a gente queria esquecer".
O Panta (Pantaleão) é uma mistura de Zé Ramalho, Emir Kusturika, Rolando Boldrin e Tim Burton. Se você não conseguiu imaginar essas mistura, tudo bem, ninguém o decifra mesmo. Fazia tanto tempo que eu não tinha contato com o Panta. Estava desconfiando que ele talvez nunca tivesse existido e fosse apenas uma alucinação (nao seria impossível).
Começo pelo significado do nome do blog, citando a atual campanha da Brahma: “Porque lata é branca? Sei lá”. Vai pegar. Deixa uma indagação na cabeça e promove identificação consciente com a marca/lata. Depois da estupidez da campanha da Copa, que associou o futebol à guerra, agora eles dão uma bola dentro, com inteligência. Genial: não respondem a pergunta e deixam tudo na imaginação do povo. Como este blog não é genial, como neste blog matamos a cobra e mostramos o pau, vou dar o significado de Cobra Parada Não Engole Sapo. Muitos tipos de cobra tem como alimento preferido o sapo, como o bacalhau é para o português, churrasco para o gaúcho e por aí vai. Mas ela só come, ou engole, o sapo se for atrás dele. Se ficar parada, sem chance. Quer arte? Vai atrás. Quer música, cinema ou literatura, que estimulem seus neurônios, te façam viajar, ampliem seus horizontes e te ajudem a sair dessa vidinha banal que nos ronda a todos? Se mexa. Arrisque, ouse ver o que niguem viu, ouvir o que ninguém ouviu. Cobra Parada Não Engole Sapo, rapah!
Exposto um possível significado para o título do blog, vamos à melhor parte, a incrível história do grupo que inspirou o nome deste blog. O “Cobra Parada Não Engole Sapo” foi um grupo que fez arte no início dos anos 80 e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. A história oficial não conta isso, mas quem confia na história oficial? O Cobra Parada se dissolveu em meados dos anos 80, mas deixou suas ramificações em todas as áreas. Depois da sua dissolução, se tornou uma lenda. Este blog vai resgatar um pouco do mito do Cobra Parada.
Os componentes do grupo promoveram, através da inovação da liguagem e um pouco de porralouquice, uma revolução cultural que desembocou numa profunda reforma política. Ainda que tudo tivesse acontecido sem nenhuma intenção, o Cobra Parada acabou se transformando no amálgama da luta pelos direitos civis e influenciou toda uma geração. Do Cobra Parada surgiu o Rock de Brasilia, com Renato Russo, Herbert Vianna e Cia, que por sua vez originou a explosão do rock nacional em meados dos anos 80, com Titãs, Ira, etc. Do Cobra Parada surgiram os principais movimentos políticos, como a emenda pelas eleições diretas, o panelaço e, finalmente, a queda da ditadura militar.
Todos devem muito ao Cobra Parada. Hoje, quando se reúnem o Bi Ribeiro e o Dado Villa-Lobos para comer aquela gororoba horrível que o Dinho Ouro preto faz na casa do Herbert Vianna, eles riem muito lembrando daqueles tempos onde mal começavam a tocar, nem tinham idéia sobre o que falar nas músicas, tempos em que eram os cabeludos da 104 sul, e em que, sobretudo, deliravam nos espetáculos do Cobra Parada, apresentados em incógnitos porões e em não menos incógnitos auditórios oficiais.
Herbert é o mais animado: “Lembra daquela que o cara atravessava um espelho?”. “Se lembro... Era aquilo mesmo ou era a gente que tinha fumado muito”. Risos gerais. “E aquela que o cara ia numa loja e trocava a cabeça por outra que melhor, ficava rico mas virava um imbecil?”. “E uma que era só um cara sentado de frente para um relógio, de costas para o público?”. “Não, essa eu não vi”. “Eu vi... (risos)... O nome era Horas bolas, Horas com agá (risos)... O cara só ficava lá, parado... (risos). O despertador toca... (risos)...”. Dado Villas-Boas é impaciente: “Para de rir e conta logo”. Herbert respira fundo: “ O cara levantou, foi lá, desligou a porra do despertador... (risos).” “E aí?”. “E aí acabou, ele saiu e acabou a porra da peça – em nenhum momento o cara olhou prá platéia... Muito louco... Foi ali que eu tive idéia de escrever Óculos”. “Como? Não entendo a conexão”. Herbert, meio bêbado, cantarola: “Porque você não olha pra mim, ô ô” Risos gerais. Dinho chega da cozinha com a gororoba. Eles imediatamente param de rir.
Portanto, leitor incauto, que nem imagina a história por trás do nome do blog, prepare-se, porque nos próximos episódios será revelada a verdadeira história do grupo que se transformou num mito. Não deixe de acompanhar. Cobra parada não engole sapo.
O Panta (Pantaleão) é uma mistura de Zé Ramalho, Emir Kusturika, Rolando Boldrin e Tim Burton. Se você não conseguiu imaginar essas mistura, tudo bem, ninguém o decifra mesmo. Fazia tanto tempo que eu não tinha contato com o Panta. Estava desconfiando que ele talvez nunca tivesse existido e fosse apenas uma alucinação (nao seria impossível).
Começo pelo significado do nome do blog, citando a atual campanha da Brahma: “Porque lata é branca? Sei lá”. Vai pegar. Deixa uma indagação na cabeça e promove identificação consciente com a marca/lata. Depois da estupidez da campanha da Copa, que associou o futebol à guerra, agora eles dão uma bola dentro, com inteligência. Genial: não respondem a pergunta e deixam tudo na imaginação do povo. Como este blog não é genial, como neste blog matamos a cobra e mostramos o pau, vou dar o significado de Cobra Parada Não Engole Sapo. Muitos tipos de cobra tem como alimento preferido o sapo, como o bacalhau é para o português, churrasco para o gaúcho e por aí vai. Mas ela só come, ou engole, o sapo se for atrás dele. Se ficar parada, sem chance. Quer arte? Vai atrás. Quer música, cinema ou literatura, que estimulem seus neurônios, te façam viajar, ampliem seus horizontes e te ajudem a sair dessa vidinha banal que nos ronda a todos? Se mexa. Arrisque, ouse ver o que niguem viu, ouvir o que ninguém ouviu. Cobra Parada Não Engole Sapo, rapah!
Exposto um possível significado para o título do blog, vamos à melhor parte, a incrível história do grupo que inspirou o nome deste blog. O “Cobra Parada Não Engole Sapo” foi um grupo que fez arte no início dos anos 80 e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. A história oficial não conta isso, mas quem confia na história oficial? O Cobra Parada se dissolveu em meados dos anos 80, mas deixou suas ramificações em todas as áreas. Depois da sua dissolução, se tornou uma lenda. Este blog vai resgatar um pouco do mito do Cobra Parada.
Os componentes do grupo promoveram, através da inovação da liguagem e um pouco de porralouquice, uma revolução cultural que desembocou numa profunda reforma política. Ainda que tudo tivesse acontecido sem nenhuma intenção, o Cobra Parada acabou se transformando no amálgama da luta pelos direitos civis e influenciou toda uma geração. Do Cobra Parada surgiu o Rock de Brasilia, com Renato Russo, Herbert Vianna e Cia, que por sua vez originou a explosão do rock nacional em meados dos anos 80, com Titãs, Ira, etc. Do Cobra Parada surgiram os principais movimentos políticos, como a emenda pelas eleições diretas, o panelaço e, finalmente, a queda da ditadura militar.
Todos devem muito ao Cobra Parada. Hoje, quando se reúnem o Bi Ribeiro e o Dado Villa-Lobos para comer aquela gororoba horrível que o Dinho Ouro preto faz na casa do Herbert Vianna, eles riem muito lembrando daqueles tempos onde mal começavam a tocar, nem tinham idéia sobre o que falar nas músicas, tempos em que eram os cabeludos da 104 sul, e em que, sobretudo, deliravam nos espetáculos do Cobra Parada, apresentados em incógnitos porões e em não menos incógnitos auditórios oficiais.
Herbert é o mais animado: “Lembra daquela que o cara atravessava um espelho?”. “Se lembro... Era aquilo mesmo ou era a gente que tinha fumado muito”. Risos gerais. “E aquela que o cara ia numa loja e trocava a cabeça por outra que melhor, ficava rico mas virava um imbecil?”. “E uma que era só um cara sentado de frente para um relógio, de costas para o público?”. “Não, essa eu não vi”. “Eu vi... (risos)... O nome era Horas bolas, Horas com agá (risos)... O cara só ficava lá, parado... (risos). O despertador toca... (risos)...”. Dado Villas-Boas é impaciente: “Para de rir e conta logo”. Herbert respira fundo: “ O cara levantou, foi lá, desligou a porra do despertador... (risos).” “E aí?”. “E aí acabou, ele saiu e acabou a porra da peça – em nenhum momento o cara olhou prá platéia... Muito louco... Foi ali que eu tive idéia de escrever Óculos”. “Como? Não entendo a conexão”. Herbert, meio bêbado, cantarola: “Porque você não olha pra mim, ô ô” Risos gerais. Dinho chega da cozinha com a gororoba. Eles imediatamente param de rir.
Portanto, leitor incauto, que nem imagina a história por trás do nome do blog, prepare-se, porque nos próximos episódios será revelada a verdadeira história do grupo que se transformou num mito. Não deixe de acompanhar. Cobra parada não engole sapo.
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