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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

AQUI É O MEU LUGAR


Pergunta 1: Você já se pegou ouvindo, num filme, numa novela, ou mesmo lendo um livro, algo que te liga diretamente com algo que você já viveu, ou algo que você já sentiu?  


Nunca? Pense bem: é como se, cifrada sob a fala de um personagem, aquilo tivesse sido escrito diretamente para você. Bom, eu já senti isso, algumas vezes. Muitas, na verdade. Ao ouvir, parece que reacende algo bem lá dentro da gente, e nos enchemos de melancolia e nostalgia... 


Normalmente os melancólicos e os estranhos sentem mais esse tipo de coisa. Pessoas normais não tem essas frescuras, não; nem tem tempo para isso. Pessoas normais são práticas, vivem o presente e planejam o futuro. Pessoas normais são mais comuns. Já os estranhos... são estranhos, o que mais dizer? Melancólicos? Sim, os estranhos em geral são melancólicos e andam de abraços com a nostalgia. 


Não sei se sou incomum, estranho ou melancólico, se sou tudo isso junto ou se sou, como a maioria, apenas alguém que,mesmo sem confessar a mim mesmo, sempre invejou os incomuns, os estranhos, os melancólicos e, por consequência ou parentesco, os lunáticos. O fato é que sempre vi mais mérito nos incomuns, nos estranhos, nos alucinados, nos melancólicos, nos desajustados. Ou, no mínimo, sempre me pareceram pessoas mais interessantes. 


Pergunta 2: Como é a sua alma? Não a cor, nem o formato. Aqui não interessa se sua alma é rosa, verde ou azul; nem se ela tem a forma de cubo, tetraedro ou grão-de-bico. O que importa saber é se sua alma voa. Almas que voam são sensíveis aos ventos, afetam-se com a dor alheia, ainda que o alheio seja muito alheio, enxergam poesia em tudo. Quem tem alma voadora, sempre abre primeiro a mensagem daquela que ama, ou que quer amar, mesmo que seja o último dia para pagar suas contas; e, se realmente havia mensagem dela, muito provavelmente vai se esquecer de pagá-las, seja pela distração da dor de uma recusa, seja pelo tresloucar do amor correspondido. 


Pergunta 3: Você gosta de cinema? Gostar que eu digo é admirar, não apenas divertir-se. É admirar e admirar-se, emocionar-se com um belo trabalho. Muita gente diz “eu não entendo de cinema, eu não sei se a câmera é assim ou assado, nem se o diretor é isso ou aquilo, eu só gosto de cinema”. Estão enganadas: entendem sim, porque o cinema é uma arte que pretende tocar o expectador, e não um quiz, um joguinho de conhecimentos. Não precisa saber o que é fade-out para sentir-se tocado pela beleza daquela cena cuja imagem final vai se esmaecendo aos poucos, escurecendo a tela. Também não precisa saber que o Sean Penn usa o método Stanislavski, se é que usa. Não precisa, aliás, nem ao menos saber que aquele personagem é feito pelo Sean Penn. Basta que você saiba que ali há um ator interpretando um personagem e que seja capaz de se emocionar com seu trabalho.


Se você respondeu afirmativamente às 3 questões, não deixe de ver “Aqui é o meu lugar”, filme que acaba de entrar em cartaz. Cheyenne é um roqueiro que fez sucesso nos anos 80, compondo hits depressivos para jovens depressivos. Milionário mesmo após não ter feito mais nada nos 30 anos que se seguiram e ter fugido da mídia devido a uns problemas que você vai descobrir vendo o filme, Cheyenne está decrépito, efeito das drogas e do personagem que criou para si e que até hoje não abandonou: todos os dias maquia-se e usa roupas do mesmo estilo da época em que cantava (e que por sinal remete diretamente a Robert Smith, vocalista e líder do The Cure - veja a semelhança abaixo). Nunca mais saiu da cidade irlandesa em que mora.


Enfim, Cheyenne é um cara muito estranho, daqueles que espanta se cruzar com a gente no corredor do supermercado. Ele tenta unir uma jovem amiga roqueira com um jovenzinho careta que ele mal conhece, mas com quem simpatiza. Atrapalhado, arrastado, decrépito e estranho, ele balbucia frases geralmente curtas, mas sempre espirituosas. E vai vivendo a sua vida... assim, melancolicamente, em puro e essencial tédio. Até que descobre que o pai, que não vê há mais de 30 anos, está à morte. Viaja para Nova York, chega tarde. Descobre que o pai, judeu que passou por campos de concentração, passara a vida toda perseguindo, sem êxito, um nazista que ainda estaria vivo nos Estados Unidos.


Diz a filosofia que a procura de si mesmo é a luta mais dolorosa que um homem pode ter. Passamos boa parte da vida fugindo do que somos. Fingimos ser outro com medo de ser o que realmente somos. Às vezes criamos personagens que nos mantém protegidos. Mas a recusa ao nosso verdadeiro eu traz o tédio. O que é pior, a dor da busca ou a do o tédio? 


Cheyenne, que passa 30 anos escondido atrás de seu personagem, cansado do tédio finalmente começa, embora negue, a sua busca. Imagina você, leitor que já está estranhando essa esquisitice toda: o que vai pensar agora se eu disser aqui que Cheyenne resolve, com toda aquela esquisitice, procurar, pelo interior americano adentro, o tal nazista? Que o filme pode ser uma bomba? Tem razão: esse argumento meio inverossímil é puro risco. Tem que ser muito bom para fazer essa coisa toda dar certo. Precisaria de um grande diretor e do melhor ator da atualidade para interpretar. 


Pois vamos ao resultado: o diretor, Paolo Sorrentino, faz um filme belíssimo, ao mesmo tempo muito engraçado, sem ser comédia, e cheio de poesia e beleza, sem ser nouvelle vague (ufa!). Fazer isso não é pouca coisa. E o ator? Tinha que ser o máximo, tinha que criar um personagem exótico e estranho, mas que fosse crível e com o qual pudéssemos nos identificar. E o maior ator da atualidade, Sean Penn conseguiu: Cheyenne é um pouco de nós mesmos, é humano, puro, engraçado e cativante.


Não há uma cena sem uma beleza específica: diálogos inspirados (o jantar na casa de Cheyenne, o vendedor de armas, o tatuador no bar), situações inusitadas (a gótica gordinha correndo para pegar autógrafo) cenas cômicas às dezenas (a do elevador no navio, a do caçador de nazista preso no banheiro do hotel, a do ping pong), ou profundamente tocantes (quando ele acompanha, ao violão, o garoto, filho da bela neta do nazista, cantando This Must Be the Place – por sinal, o título original do filme, do Talking Heads). Há ainda a cena com David Byrne, compositor da música que dá o título ao filme, com quem Cheyenne tem um desabafo que nos dá um petuxo na goela e avisa que o filme não será “fofo” o tempo todo. 


Alguns amigos, provocados pelo Fábio, discutiam sobre a importância do final para um filme. Uma história bem contada compreende um bom final, o que não significa um final bom; o que importa é fechar a ideia, é completar uma linha de pensamento, passar a sensação de que “tinha mesmo que ser assim”. E assim é o final deste filme. Se uma procura ao fundo de nós mesmos já é complicada, ainda mais o é com um tema forte como o holocausto. E o final, que parece que não podia ser diferente mesmo, fecha tudo, é corajoso, duro, inspirador e emocionante. 
No final das contas, é um filme belo e tocante. Saí nostálgico. Sempre fui meio melancólico. Os jovens dos anos 80 se deprimiam ouvindo o ótimo som agitadinho do The Cure. Eu, ouvindo Arnaldo Baptista e sofrendo por amor (o que, aliás, une Arnaldo, o som do The Cure e eu). O que parece é que pessoas assim estão em busca de algo e talvez seja isso que me atraia nelas. Podem estar meio atrasadas, mas estão no caminho. Melhor assim do que nunca buscar a essência. Esse personagem que nos protege dos outros é o mesmo que nos afasta de nós mesmos e nos dá esse tédio e medo da morte. 


O esquisitíssimo e absolutamente adorável roqueiro Cheyenne (de uma olhadinha nele no trailer aí em cima), que dará o Oscar (ao menos indicação) ao Sean Penn, ouve, de alguém, que há coisas que são como algumas mulheres que amamos, mas que, de tão lindas e especiais, achamos que não estão ao nosso alcance a acabamos não fazendo nada.  


This Must Be the Place tem este trecho, que no filme David Byrne canta, o menino canta e agora eu canto, até pelo adiantado da hora, a você, leitora suspirante:
I got plenty of time
You got light in your eyes
And you're standing here beside me
I love the passing of time
Never for money
Always for love
Cover up and say goodnight

segunda-feira, 23 de julho de 2012

AS TRUFAS BRANCAS E AS MORTES DO BEM AMADO


PREÂMBULO
1 - AS PÉROLAS E OS PORCOS
Falemos de comida: eu, tu e o rabo do tatu sabemos que mesmo que você tenha os melhores ingredientes, temperos finos, forno e fogão de primeira, ainda assim você pode fazer uma comida horrorosa. É ou não é, ou não é, ou não é? “Ééééééé”, você deve estar quase gritando, pois se lembrou de algumas gororobas nojentas que já fez. Esperta é uma amiga, a Fernanda (desculpa, mas é melhor que todos saibam), tão consciente de suas limitações na cozinha, que há 3 anos não tem mais fogão em casa. Diz ela que desistiu depois que não acertou fazer um chá de saquinho (a cordinha entalou na garganta).


Agora veja esta: num filme legal chamado “Gente Grande”, com o chatinho do Adam Sandler, há uma cena em que algumas esposas, longe dos olhos dos maridos, estão nas cadeiras de uma piscina, vendo os homens de sunga (que merda, elas também fazem isso!), quando sai da água um deus nórdico, loiro, tórax bem definido, olhos verdes, azuis ou uma dessas cores que fazem as mulheres delirarem, enfim, um baita homem, que ao vê-las babando por ele, abre um sorriso lindo e começa a andar na direção delas, que ficam ouriçadas (ou seja, molhadas sem entrar na piscina) para saber quem vai pegar o cara (elas sabem que são elas que escolhem, e não nós, homens). Quando o cara chega... Bom, primeiro veja esse trailer curtinho (o pedaço da cena está quase no final), depois a gente continua a conversa.

Um terceiro exemplo: imagina o Barrichello, ou mesmo o Massa, pilotando numa Ferrari. Bem, nem precisa imaginar; hoje mesmo, domingo, 22 de julho de 2012, tivemos mais um exemplo. Com a mesma Ferrari, Alonso está em primeiro no campeonato, com 154 pontos; Massa em 14º, com 23 pontos...

ÂMBULO (AQUILO QUE, AO MENOS DEVERIA SER ASSIM CHAMADO, VEM DEPOIS DO PREÂMBULO)
Paulo Gracindo e Lima Duarte em "O Bem Amado"
2 – FERRARIS E TRUFAS BRANCAS
Pronto: agora vamos andar (ou deambular) com esse pôsti cheio de preâmbulo, já que o leitor mais ansioso deve estar se perguntando “o que é que o cú tem a ver com as calças?” Explico: o canal Max* (não procure nota explicativa no final do pôsti – essa estrelinha aí é mesmo do nome do canal) está exibindo: “O Bem Amado”, baseado na peça homônima do genial Dias Gomes, que também virou novela, talvez a melhor novela de todos os tempos, que unia os gênios Dias Gomes, Paulo Gracindo e Lima Duarte. Odorico Paraguaçu, interpretado, na novela, por Paulo Gracindo, é um dos personagens mais conhecidos e engraçados da nossa cultura popular. Dispenso-me de falar do texto, absolutamente genial - ops, acabei de falar. 


O filme, de 2010, é uma produção brasileira que conta com o time e com o padrão Globo, que um dia significou qualidade, ousadia e criatividade, mas que hoje desafia a qualidade, esmaga a criatividade e foge como o diabo foge da cruz da ousadia. Ih, lá vem os chatinhos defendendo a Globo, dizendo o que eu, tu e o rabo do tatu já sabemos: que lá estão os melhores profissionais, os melhores cenários, o melhor som, os melhores equipamentos, os melhores recursos, enfim; que as novelas globais são como um chocolate que derrete deliciosamente na boca ao final de um dia estressante e etc, etc, etc.

Aqui é o momento de retornar aos exemplos do preâmbulo: tudo isso são as pérolas. A produção da Globo e alguns excelentes atores nas mãos do Guel Arraes (o diretor) ficaram como a Ferrari nas mãos do Barrichello, o deus nórdico naquela voz ridícula, e como trufas brancas, foie gras e açafrão indiano da caxemira nas mãos da Fernanda.

Um pouco, só um pouquinho, de talento e inteligência artística seria suficiente para perceber que o que tinham de principal nas mãos era:
- uma trama ótima e atemporal - o prefeito corrupto e encantador que quer inaugurar o cemitério tentando arrumar, na marra, um morto;
- um texto brilhante, com as inesquecíveis falas recheadas das deliciosas palavras inventadas, embora perfeitamente inteligíveis;
- dois personagens ricos, cheios de contradições e idiossincrasias, que inspiravam amor e ódio. 


3 – RUBENS E FERNANDAS
Pois essas três características, que são exatamente o que há de melhor e de inigualável na história, foram preteridas, jogadas no lixo em nome da hiperatividade, marca da direção histriônica de Guel Arraes. Sabe quando você põe sal no bacalhau? Não há uma única fala que o diretor não queira “temperar” com um movimento exagerado de câmera, com algum exemplo dado pelas mãos dos atores, com cenas sobrepostas que ilustram falas de Odorico, deixando-as em off, como se duvidasse da inteligência do expectador e tivesse que explicar. 


Tudo isso cansa demais e, longe, muito longe de facilitar o entendimento, tira a atenção da fala, ou seja, afasta o expectador exatamente do que há de mais belo no filme, que é o texto. Além disso, o Odorico interpretado pelo Marcos Nanini é sempre afetadíssimo, sempre falando muito, muito rápido e como se tivesse uma batata na boca, deixando as falas quase incompreensíveis e a cena muito irritante. Tudo é visual e auditivamente cansativo. Não sei qual a culpa de Nanini, um fantástico ator, nessa interpretação muito ao estilo frenético do Guel Arraes, mas o fato é que ele, Nanini, derrapa feio, muito feio; perdeu a oportunidade de criar um belo personagem. Nem precisava imitar o Paulo Gracindo, o que certamente seria um erro. Bastava criar um personagem que usasse o magnífico texto ao seu favor, dizê-lo de modo que pudéssemos ouvir, no lugar de vomitar as falas como faz.


Maria Flor no filme
Achou que ia acabar o pôsti sem uma mulher bonita?
E o Zé Wilker? Bem, este, sabidamente, não está no nível do Nanini, mas ainda assim poderia ter feito algo melhor do que começar e terminar o filme naquela interpretação monocórdica, pesada e cansativa de Zeca Diabo, que no texto é interessante e engraçado. Até a maravilha da Maria Flor, linda e talentosa, e as irmãs Cajazeiras, feitas pelas boas comediantes Zezé Polessa, Andréa Beltrão e Drica Moraes, todas elas são puro trejeito e ondulações de voz, cansativas e sem nenhuma graça. Que desperdício!


4 - EPÍLOGO – AS MORTES DE ODORICO PARAGUAÇU E D”O BEM AMADO”
No final da história de Dias Gomes, Zeca Diabo, o pistoleiro contratado por Odorico para matar alguém a fim de inaugurar o cemitério, mata o próprio contratante, que, ironia das ironias, este sim, com sua própria “defuntice”, inaugura o cemitério construído com superfaturamento. 


No filme, quem mata o “Bem Amado” são Guel Arraes e o atual padrão Globo, que menosprezam as pessoas que pretendem atingir, julgando-as incapazes de entender um texto tão popular quanto o de Dias Gomes, e achando que elas são capazes apenas de captar a linguagem de games e vídeo clipes. Pois erraram, e a bilheteria confirmou isso. Por acaso você foi ao cinema ver “O Bem Amado”? Eu fui.

domingo, 8 de julho de 2012

PARA ROMA E NEGRINI, COM AMOR


Eis um dilema universal: 


“E aí, caso com uma mulher tipo A (linda, gostosa e sensual) ou com uma mulher tipo B (inteligente, de bom papo e feita para ser uma boa esposa)?” 


É claro que existem as bonitas e inteligentes, que podemos chamar de tipo C (sendo C=A+B), mas além de serem poucas, elas já estão comprometidas com os Brad Pits, Djokovics e João Wainers da vida (João Wainer, a quem eu desejo a morte - no sentido de transformação, é claro, está trocando fluidos com a Alessandra Negrini, o que me enche de inveja e ódio). Ou seja, eu não tenho chances com essas, do tipo C: não sou famoso (este blógui é, mas o autor não). Também não posso ser chamado de bonito; nem minha mãe dizia que eu era bonito!


Jelena Ristic (namorada de Novak Djokovic)
Deus, se é que ele, ops, Ele, existe e se é que, em existindo, Ele seja responsável por este tipo de coisa, não me proveu com os lindos olhos verdes do Brad Pitt, nem com os azuis do Fábio Assunção, nem com a fama e o tênis do Djokovic, que o faz ter essa namorada aí ao lado. Considero injusto esse descaso divino. A injustiça divina também se manifesta em meu rosto, absolutamente comum; e o comunismo, não o sistema político, mas o fato de ser comum, é, como bem sabem os seguidores deste blógui, um tremendo insulto para mim. Não tenho nem ao menos um corpo como o do Anderson Silva. Bom, pelo menos o criador não me castigou com uma voz horrorosa (tá vendo como Deus castiga quem é de briga? – veja se Gandhi ou a irmã Dulce tinham a voz horrorosa como a do lutador ou a de Hitler... quer saber se uma pessoa é má: ouça sua voz).


Bom, o fato é que, apesar de ser da paz, não sou lindo, nem ao menos bonitinho, nem bem dotado (refiro-me ao aspecto geral dos meus dotes físicos, não ao tamanho do meu membro, assunto do qual prefiro fugir, para não me depreciar ainda mais). Quer mais? Como já disse, não tenho elegância nenhuma. Entretanto, engana-se quem pensa que, por causa disso, não pego ninguém. Minha sorte é que o dilema acima não é exclusividade masculina e que as mulheres, ocasionalmente, optam por homens do tipo B, mulheres que se interessam pela inteligência, e algumas delas realmente acreditam que eu tenho alguma.

"Eu te amo, mas não quero filhos com nariz de batata"
No filme “O Primeiro Mentiroso”, a mocinha bonita gosta muito do Rick Gervais (tipo B), mas como no filme ninguém (exceto o protagonista) sabe mentir, ela responde negativamente ao pedido de casamento: “apesar de gostar muito de você, não quero que meus filhos sejam gordinhos e tenham esse nariz de batata”. Já em “Para Roma, com Amor”, leve e deliciosa comédia do Woody Allen que está em cartaz, um estudante de arquitetura (Jesse Eisenberg, “A Rede Social”) mora com uma boa moça do tipo B que recebe em sua casa, para passar uns dias, sua melhor amiga (Elen Page, a Juno, bem crescidinha), um furacão do tipo A. O dilema do jovem entre os tipos A e B rende ótimos momentos, principalemnte porque ele é orientado por uma espécie de alter ego, seu ídolo e famoso arquiteto (Alec Baldwuin – 30 Rock). Aliás, o personagem lembra o Bogart de "Sonhos de Um Sedutor", filme de Woody Allen de 1972.


A famosa atriz na frente do livreiro de esquina:
“Não se esqueça. Eu sou apenas uma garota, parada
em frente a um garoto… pedindo a ele para amá-la.”
O dilema também pode ser transposto para a crítica cinematográfica. Há filmes que nos divertem, nos grudam na tela e que podemos assistir várias vezes (tipo A) e filmes com grande qualidade artística, densos, com mensagem e que deixam uma marca profunda (tipo B). Exemplos: “Eclipse” (maravilhoso filme do Antonioni), é do tipo B e “Um Lugar Chamado Nothing Hill” (deliciosa comédia romântica com Julia Roberts e Hugh Grant) é do tipo A. Pergunta qual tem maior contribuição artística. “Eclipse". E qual vejo mais e me divirto todas as vezes? "Nothing Hill". Terceira pergunta: qual é o melhor? Não há resposta, os dois tipos podem ser bons ou ruins. No caso dos citados, os dois são ótimos.
  
Mas muitos críticos não pensam assim. Veja este trecho de uma crítica do Correio Brasiliense sobre “Para Roma, com Amor”, com o qual ele fecha a ideia que desqualifica o filme:

“Ainda que o resultado seja agradável (e dê vontade de passar algum tempo em Roma) e divertido de assistir, fica a sensação de que foi realizado ... pra "marcar tabela", como aqueles turistas que passam por 12 capitais em duas semanas pra dizer "eu estive aqui", e não para criar uma memória duradora. 

É como se ele dissesse: eu sei que fulana é linda, gostosa e sensual, mas mulher assim só pode ser vagabunda.  Ora, se o filme “turístico”, como o próprio crítico classifica, é agradável, divertido e inspira vontade de conhecer Roma, então o filme é muito bom, pois cumpre o que promete. Já o crítico, bem... Percebe-se que ele não gostou, que ele preferia que o filme fosse criasse “uma memória duradoura”. Bom, um crítico deve saber que o Woody Allen sabe criar memórias duradouras e se não o fez foi porque não quis. O filme revela claramente que quer brincar com os estereótipos ao utilizar as referências claras ao imaginário sobre Roma e sobre os italianos: cinema de Fellini, música italiana que fica entre o romântico e o brega, fama de conquistadores que os italianos tem, o romantismo, a ópera, as celebridades instantâneas e os paparazzis, e provavelmente mais um monte de referências que eu não detectei enquanto me divertia, mas que um crítico deveria ter enxergado. Quando um crítico desqualifica um filme pelo que não é e pelo que acha que deveria ser, ele age como um frustrado por não ser cineasta, age como nós, que gostamos, ou não, de um filme. Só que nós não somos pagos para trazer informações que ajudem os leitores a interpretar uma obra.

Woody Allen é como as mulheres do Djokovic, Brad Pitt e João Wainer: unem os tipos A e B. Ele, como poucos, pode fazer os dois tipos de filme, os que servem para divertir (como “Scoop”e “Para Roma com Amor”) e os que servem para deixar uma memória duradoura (“Match Point” e “Meia Noite em Paris”). Só para citar um utro capaz disso: o genial Billy Wilder tem o denso, profundo e filosófico “O Crepúsculo dos Deuses”, que está em qualquer lista de melhores filmes da história e “Quanto Mais Quente, Melhor”, a melhor comédia rasgada de todos os tempos. Filmes dos dois gêneros podem ser bons ou ruins.

Os bons críticos jamais confundem contribuição artística e densidade com qualidade. Eles sabem que a qualidade de um filme não se mede pelo objetivo do cineasta (ser divertimento leve ou um filme denso e filosófico), mas pela forma como ele cumpre o que promete. No caso de “Para Roma, com Amor”, que claramente pretende ser uma comédia leve que se propõe a fazer rir com os estereótipos italianos, e não a discuti-los, só tenho a dizer: vá ao cinema e divirta-se, como o grande público tem se divertido.
  
Aos leitores deste blógui esclareço que a diferença entre filmes e mulheres é que quanto aos filmes, o que nos importa a nós, expectadores, é que tenham qualidade. Já quanto às mulheres, o que importa a nós, homens, não é que sejam do tipo A, B ou C, mas simplesmente que nos queiram. Portanto, eu não ouso, e nem estou em posição para isso, recusar nem as lindas e sensuais, nem as inteligentes e de bom papo, muito menos as que reúnem os dois tipos, como a Alessandra Negrini, um ABC completo, a quem imploro que se inspire nos bons críticos e veja se esse fotografozinho de corpinho sarado pode, como eu, que não tenho nada além de um cérebro razoável e um bom coração, fazer aquilo a que um homem "prá você chamar de seu" deveria se propor: dar à sua vida um bom roteiro e enchê-la de luz, de planos, contra-planos e de densidade pictórica.

domingo, 15 de abril de 2012

A VOZ CHATA E RENITENTE DE RAUL


Apesar dessa voz chata e renitente 
Eu não tô aqui Prá me queixar
E nem sou apenas o cantor
Rollo May, em seu livro “O Homem à Procura de Si Mesmo” diz que o grande problema do homem é o vazio. As pessoas não sabem o que desejam, e sim o que os outros dizem que devem desejar. Assim passam a vida, comportando-se da forma dita correta, normal, aceita plenamente pelos outros. Poucos percebem que não passam de um espelho do que os outros esperam deles. Desses, raros são os que tomam a atitude de se perguntar “ei, cadê o meu self?” e sair em busca de si mesmos. 
Entretanto, alguns desses “raros poucos” não conseguem conviver simultaneamente com os dois papéis (o self-hunter, que procura seu eu e o do espelho, que consegue agradar à maioria). Fazer o que a sociedade espera e comportar-se de acordo com o padrão avilta de tal forma o núcleo do ser, que alguns simplesmente não aguentam se comportar como a maioria, abdicando de serem “normais” para não serem sufocados. Somente assim conseguem afirmar-se como indivíduos, e não como espelho. Não que saibam exatamente o que são, mas sabem que não são o que outros querem que sejam, e isto já é um bom começo para encontrar-se.
Não sei onde eu to indo
Mas sei que eu to no meu caminho
Enquanto você me critica, eu tô meu caminho
Os “malucos-beleza” não são as pessoas mais, digamos, desejadas pelas rodas da sociedade, incluindo a roda em que vivemos, eu, tu e o rabo do tatu. Ou vai negar que torce a cara quando vê um cara com barba mal cuidada, jeans todo surrado na rua erguendo os braços e gritando “viva a sociedade alternativa”? Jura por deus, ops, por Deus que você não ri de uma mulher vestida de panos esvoaçantes que entre num espelho d’água, mergulhe a cabeça e saia com as mãos unidas em agradecimento à luz universal? Assim são os seguidores do Raul, ou pelo menos o estereótipo que fazemos deles. “Mergulhar em si mesmo significa assumir as escolhas feitas e principalmente vive-las de modo intenso de forma que exista libertação de toda forma que aliena o homem.” (Rollo May)
Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno
Nesta semana vi “Raul – O Início, O Fim e o Meio” e saí meio grogue. Além da deliciosa experiência que o filme proporcionou a mim, que vivi os anos Raul, e à minha filha adolescente, que viveu os anos Xuxa, que foi comigo ao cinema (minha filha, não a Xuxa), o filme me fez lembrar que Raul não é apenas grande roqueiro, um grande músico, um grande artista. Raul é um mito. A cena que mostra a passeata anual em memória de Raul me intrigou. Não são algumas pessoas, nem 100 nem 200, é uma multidão! Além dos tradicionais Raul-covers e dos contemporâneos do maluco-beleza, tem ali gente muito nova. Todos cantando músicas do Raul. Fazem essa homenagem todos os anos. Que fenômeno é esse? Que outro ídolo brasileiro, de todas as áreas, música, cinema ou esportes, tem tantos fãs, tantos seguidores capazes de fazer algo semelhante?
É hora de confessar: não sou fã e nunca tive um disco do Raul (compilação não vale, pois não passa de um extrato de algumas músicas que mais tocaram). Por isso, após o filme procurei a redenção: ouvi todas as músicas de todos os discos do Raul. Não sei se ele, o Raul, me perdoou. Mas eu sim, me perdoei. É bem verdade que perdi muito não conhecendo antes as maravilhas do Raul, mas explorá-las agora está me permitindo uma paixão absolutamente nova, uma viagem intensa (fiz uma compilação com 30 músicas que eu, e talvez quem não é fã, não conhecia, e as 30 são absolutamente sensacionais, letras, melodias, performance, tudo). Outra vantagem de não ter conhecido antes é que, do jeito que eu sou, poderia estar hoje usando jeans surrado, erguendo os braços e gritando vivas à sociedade alternativa. Isso se eu não estivesse tomando banhos no chafariz da praça e agradecendo à luz universal.
E é por aí que, creio, passei a entender o fenômeno Raul, não sem a ajuda de Rollo May e de outras consultas filosóficas. Veja isto:
Um motorista de ônibus do Bronx, certo dia, saiu à esmo com o ônibus vazio e só foi apanhado pela polícia dias depois, na Flórida. Explicou que, cansado de dirigir na mesma linha diariamente, decidira viajar. Enquanto o traziam de volta, a companhia em que trabalhava não sabia o que resolver a seu respeito – se devia ou não puni-lo. Quando chegou ao Bronx estava célebre. Uma multidão de pessoas, que jamais o vira, estava a sua espera. As pessoas se identificaram com o vazio do motorista do Bronx e vieram confirmar essa identificação formando um grupo solidário, cuja mensagem era nítida: Eu sinto a mesma coisa e sofro pelo mesmo motivo, mas você teve a coragem de dizer fazer alguma coisa diferente. Pronto! O motorista transformou-se em herói.
A angústia é de todos, mas raríssimos se rebelam. Aí que entra o Raul: sua mensagem era libertária, consistente e universal. Raul era um maldito, falava o que bem entendia, inclusive, e especialmente, coisas que eram agressivas ao sistema político e social. Falava de sua busca por si mesmo, da liberdade de ser quem é e não espelho dos outros.
Se você sente receio do inferno
Do fogo eterno, de deus, do mal
Eu sou estrela no abismo do espaço
O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço
Onde eu tô não há bicho-papão
Eu vou sempre avante no nada infinito
Flamejando meu rock, o meu grito
Minha espada é a guitarra na mão
Raul, com sua voz chata e renitente, deu um discurso para os angustiados, para os inconformados, para os tímidos, para os esquisitos, para os rebeldes, para quem não consegue ou não quer se enquadrar. Mas fez muito mais do que isso: como sua música era ao mesmo tempo popular e excepcionalmente criativa, enfim, de altíssima qualidade; como sua personalidade e sua figura era altamente performática e conectada com seu tempo, Raul acabou caindo nos braços da mídia. Ou seja: era ao mesmo  tempo um maldito e um queridinho da mídia.
Desde aquele tempo enquanto o resto da turma se juntava pra bater uma bola!
Eu pulava o muro, com Zézinho no fundo do quintal da escola
Com Raul na crista da onda, os deslocados em geral puderam responder às críticas: “enquanto você me critica eu tô no meu caminho”. A partir de Raul, os angustiados puderam pular o muro do fundo do quintal da escola. "Se o cara que todos gostam, o cara do chacrinha, o cara do Fantástico, fala que a gente tem que ser diferente, quem é você prá me criticar"? Duvidam que Raul era a glória, sobrinhos do Tio Moa? Pois saibam que por muitos anos as músicas novas do Raul eram anunciadas durante toda a semana para estrearem no Fantástico como a atração da semana.
Vai! Vai! Vai!
E grita ao mundo Que você está certo
Você aprendeu tudo Enquanto estava mudo
Agora é necessário Gritar e cantar Rock
E demonstrar o teorema da vida
Raul fez todos cantarem com ele sua busca por si mesmo, sua diferença. Raul deu sentido à vida de muita gente. Deu até uma oração, Ave Maria da Rua:
Não estou cantando só
Cantamos todos nós
Mas cada um nasceu
Com a sua voz,
Pra dizer, pra falar
De forma diferente
O que todo mundo sente
Para quase finalizar: considere-se um lixo se perder o filme, obrigatório para quem gosta de música, de arte, de mídia, de fenômenos sociais e de uma boa história. Não é um filme apenas para quem gosta de Raul. Para vocês, sobrinhos do Tio Moa, que não viveram os anos Raul Seixas e só conhecem algumas de suas músicas mais tocadas, o documentário dirigido por Walter Carvalho é uma diversão garantida; você vai conhecer um cara interessantíssimo, vai rir e, eventualmente, vai chorar. Além da diversão, vocês terão como bônus um tesouro, se sua curiosidade o levar a garimpar as jóias do baú do Raul. Raul, na tela, explode, lindíssimo e poético, em jorros de sons e imagens. Veja o trailer aí em baixo.
A escolha apresenta ao homem uma grande gama de possibilidades, que o leva a viver a angústia mais profunda de todas, a de escolher nas possibilidades. As possibilidades, não se sabendo o resultado de suas escolhas, levam ao desconhecido. Quando ocorre esta entrega real ao desconhecido o homem no final do processo encontra sua felicidade e passa então a viver sua existência feliz e com muito mais intensidade. (Rollo May)
Quer saber de uma coisa? Acho que vou deixar minha barba crescer e pegar no fundo do armário aquele jeans que não tinha mais coragem de usar. Mas sosseguem, que dificilmente usarei panos esvoaçantes e não tenho a mínima vontade de entrar no primeiro chafariz que encontrar.
Não pensa que a cabeça aguenta se você parar
Há uma voz que canta, uma voz que dança, uma voz que gira
Bailando no ar

domingo, 26 de fevereiro de 2012

MELHOR IMPOSSÍVEL


A PRIMEIRA CANÇÃO
Pela manhã, todo pimpão, saiu para passear com os cachorros e fazer coisas chatas que se fazem aos sábados pela manhã, como mandar lavar o carro (porque isso tem que ser tão complicado e tomar tanto tempo das pessoas? Porque a vida é tão dura com quem tem preguiça?).
Uma pergunta lhe veio à cabeça: por que, apesar dos afazeres chatos, estava de bom humor? Porque o ar matutino do sétimo dia é quase que indestrutivelmente agradável? Talvez porque a manhã sabatina seja temperada com a expectativa de passar dois dias inteiros sem precisar ir ao trabalho, aos trabalhos, melhor dizendo, e poder, assim, desfrutar, sem horários nem regras, do aconchego do lar, de uns bons filmes no cinema ou em casa, do jogo do seu time na TV e, sobretudo, da agradável companhia da filha.
Essa possível resposta colocou um sorriso em seus olhos. Sim, porque não se anda pelas ruas sorrindo com a boca, afinal, quem ri sozinho é louco. Já os olhos podem sorrir à vontade, pois pouca gente nota. Além disso, as raras pessoas capazes de notar o sorriso dos olhos alheios não o chamariam de louco, até porque quem reconhece o sorriso dos olhos alheios é porque também sorri com os olhos, o que garante certa cumplicidade. Neste momento veio-lhe uma música à cabeça:
“Eu cheguei em frente ao portão,
Meu cachorro me sorriu latindo”
Se o cachorro do “rei” pode sorrir latindo, porque não podemos, nós, humanos, sorrir com os olhos? Bom, para que outras músicas escondidas nos recônditos de sua memória, fossem elas do Roberto ou de outros similares, não lhe viessem perturbar seus ouvidos cerebrais (quando você cantarola músicas sem som, são seus ouvidos cerebrais que ouvem), resolveu ligar o som do celular. A opção “aleatória”, ou randômica, como devem preferir os doutos, lhe colocou nos ouvidos, físicos e cerebrais, uma jóia de George Harrison: “Beware of Darkness”. Até mesmo com sua quase total ignorância da língua bretã, e apesar de não fazer a menor idéia do que queria dizer o resto da música, sabia perfeitamente o significado do título da canção: “cuidado com a escuridão”.
Deus, ou a Apple em sua infinita sabedoria, colocou a música certa: naquele exato instante sua vista começou a ficar turva, os olhos começaram como a formigar, estrelas foram surgindo por todos os lados, e ele, mais que depressa, encostou o carro. Os cachorros pularam felizes, achando que fariam uma segunda fase do passeio (sorte que na primeira parte já haviam feito aquelas coisas de que necessitamos todos, eles à luz do dia nas praças públicas, nós à qualquer luz, mas dentro de cubículos preferencialmente limpos). Logo o agora preocupado casal de cães percebeu que algo não estava certo com seu amado pai (ele detestava quando nos pet shops usavam a expressão “pai” para se referir ao dono dos cachorros, mas o que fazer se seus próprios cães o chamavam de pai? Dizer “eu não sou seu pai” para os pequenos seres? Como ficaria a cabeça dos bichinhos?)
Depois de coçar os olhos e mantê-los fechados por alguns instantes, abriu-os e viu que nada, ou quase nada, via. Aos lados, acima e abaixo, pura escuridão. Ao centro, como uma câmera com o diafragma quase fechado, enxergava um pouco. E George Harrison continuava a prevenir dentro de seus ouvidos. “Ok, George”, disse em voz baixa. Ligou o carro, deu meia volta e, com todo o cuidado, voltou para casa, que felizmente estava a poucas quadras. Entrou em casa com os filhos, ou melhor, com os dois cães, e foi correndo para o banheiro pegar a caixa de remédios, de onde tirou os destinados à enxaqueca. O turvamento da visão, acompanhados das estrelas, é classicamente conhecido como “aura”, que ávida que uma crise violenta de enxaqueca está prestes a começar. Tomou os remédios, dois, pôs o protetor de olhos (aquilo que entregam em avião), fechou a persiana ao máximo e se deitou. Ali permaneceu durante toda a manhã, levantando de tempos em tempos para tomar novas doses de remédios.
Ali passou também toda a tarde quente de verão, consumido pela dor e pelo suor. Levantou-se, vivo, apenas no início da noite, com aquela dor residual, a cabeça oca, os olhos sensíveis. Começava o jogo de seu time. Um ótimo jogo... para o adversário, que marcou seis gols e só não continuou o massacre por que teve piedade.
COMO TRANSFORMAR UM DIA?
Agora, seguidores ou eventuais passageiros deste prestigioso blógui: vocês que eventualmente conhecem este elíptico autor, respondam, por favor:
O que pode transformar um dia como esse? Não digo transformar para que não seja um dia de sofrimento, mas transformar para que seja um dia fabuloso, inesquecível, um dia que melhor seja impossível?
Ei, responda mesmo... Não é retórica, pode ir lá em baixo e deixar sua resposta no campo “comentários”. Responda o que pode deixar o dia tão bom que melhor seja impossível? Responda agora antes de ler o resto.
MELHOR IMPOSSÍVEL
Se você, obediente leitor, já foi lá e respondeu, e se sua resposta tomou por base o fato de ser este um blógui meio que sobre cinema, e ainda, astuto leitor, notou uma dica no parágrafo anterior, e, finalizando, se você, inteligentíssimo leitor, leu o título deste pôsti e acabou por responder que a forma de transformar o dia poderia ser assistindo ao esplêndido filme Melhor Impossível, de James L. Brooks, você deu uma bela resposta.
O filme é um preciosidade: um escritor Melvin (Jack Nicholson) é um portador de múltiplos TOCs (transtornos obsessivos compulsivos), mal-humorado, homofóbico, grosseiro, solitário e detesta cachorros. Melvin só almoça num restaurante, sentado sempre à mesma mesa, atendido exclusivamente por “sua” garçonete, interpretada pela bela Helen Hunt. Melvin tem um vizinho, Simon (Greg Kinnear), que é gay e tem um cachorrinho. Simon sofre um assalto e fica internado por semanas. Melvin acaba sendo obrigado a hospedar e cuidar do cachorro.
Dispensável dizer que a presença do cachorrinho acaba mudando Melvin, que acaba se apaixonando pelo cão e pela garçonete, e fica o resto filme tentando conquistá-la. Para isso tem que mostrar a ela que não é o ser ultrajante e ignóbil que aparenta. Ela reluta, e muito.
A atuação do quarteto é fantástica (justíssimo Oscar de melhor ator para Nicholson e de melhor atriz para Hunt), e aí incluo o cachorro, que chega inclusive a assimilar alguns TOCs do novo dono (sensacional quando começa a pular, como Melvin, as junções do piso das ruas).
Na cena final, ele vai, de madrugada, até a casa dela, que abre a porta. Ele na escada. Discutem. No meio da discussão ela deixa escapar que tem um namorado maluco. Ele, atento, percebe: venceu sua resistência. São namorados. O filme acaba suavemente, na padaria na frente, onde, às quatro da manhã, vão comer pão da primeira fornada.
A SEGUNDA CANÇÃO
Sua enxaqueca foi se acabando, a dor diminuindo, os olhos voltando ao normal. Apesar de não ter assistido Melhor Impossível, e sim Loki, com sua filha, o dia acabou muito bem, encerrando-se com uma boa (não em quantidade, mas em qualidade) noite de sono e uma manhã que, apesar de clara demais para seus olhos ainda sensíveis, estava especial.
Pegou o aparelho e saiu com seus filhos, ou melhor, seus cães. Já na praça, notou que ainda não havia colocado nenhuma música. E nem sentia falta. O ar da manhã dominical parecia-lhe suficiente. Já na praça, temendo ser assomado por outra música do Roberto, ou mesmo pela do Ronnie Von que fala da praça, resolveu ligar o aparelho. Confiando mais uma vez na infinita sabedoria da Apple, optou pelo modo aleatório. Ouviu, relaxado e tranqüilo, atrás de seus óculos escuros e ao lado dos saltitantes pets, uma pérola de Luiz Bonfá:
Manhã, tão bonita manhã
Na vida, uma nova canção
Cantando só teus olhos
Teu riso, tuas mãos
Pois há de haver um dia
Em que virás
Das cordas do meu violão
Que só teu amor procurou
Vem uma voz
Falar dos beijos perdidos
Nos lábios teus
Canta o meu coração
Alegria voltou
Tão feliz a manhã
Deste amor

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

ENCANTADA - TIO MOA x HUMBERTO LARAIA


Alô alô, galera de responsa, qual é a transa?
Alô alô, malungos pernambucanos, qual é a transa?
Alô alô, sobrinhos do Tio Moa que levaram pito da tia, qual é a transa?
Alô alô, visitantes do Google que acharam que iam encontrar algo útil neste blógui, qual é a transa?
Alô alô, mestre Aguilar e performáticos 30 anos depois, qual é a transa?

O menino de Minha Nada Mole Vida (deliciosa e engraçadíssima série global) está com a recepcionista do lado de fora do quarto e ouve o pai e a namorada arfando, gemendo e “etceterando” no quarto e pergunta à moça o que eles estão fazendo no quarto. Ela, constrangida, responde que devem estar coçando as costas um do outro. O moleque emenda: se estão fazendo esse barulho coçando as costas, imagina quando estiverem transando?

Alô alô, galera do Cobra Parada que espera ansiosamente a continuação da odisséia, qual é a transa?

A transa é que acabaram-se as férias, período em que somos obrigados a ser felizes, como se estivéssemos na Disney, ou como se a vida fosse um facebook. Mas há férias que realmente nos fazem felizes, e este foi o caso das que desfrutou o signatário deste humilde blógui lido por milhões de pessoas em todo o mundo... Sei que muitas pessoas abriam este blógui de hora em hora, quando não de minuto em minuto, na esperança de ter uma nova postagem que lhes trouxesse um novo ar e mais cor em suas vidas. A essas pessoas, na esperança de que tenham sobrevivido à ausência de postagens, peço minhas humildes desculpas. Prometo recompensá-las, neste pôsti, com a tão sonhada luz, com alegria, encantamento e fantasia.

Minha confiança vem do fato de, ao abrir a porta, um vento novo ter afastado daqui deste blógui o mau humorado, o cético, o eremita Humberto Laraia. Mas antes de sair pela porta dos fundos ele me alertou, com aquela voz de Clint em Gran Torino que me soou como uma maldição, que sem ele, os pôstis seriam insuportavelmente otimistas, excessivamente fantasiosos, carregados de exagerada falsa alegria, enfim, mais estúpidos que uma palestra motivacional.

Acho que Humberto Laraia nunca viu um filme da Disney quando pequeno. Nunca viu A Bela Adormecida, Branca de neve, Peter Pan, Cinderella, Bambi, A Dama e o Vagabundo e os outros clássicos da Disney. Deve ter visto só Sindicato de Ladrões, O Vampiro de Dusseldorf, Cidadão Kane, Laranja Mecânica, Meu Ódio será sua Herança. Aí ficou revoltado. Isso o embruteceu e congelou seu coração. Nem Os Brutos Também Amam ele deve ter assistido. Não acho que ele tenha razão, os pôstis não ficarão estúpidos sem ele. Pelo contrário, os pôstis, a começar por este, e isso parece ser inevitável, serão aplaudidos, ganharão o mundo e embora não seja nada disto que eu procure, me trarão sucesso, dinheiro e mulheres, nessa ordem, é claro.

Tanta é minha confiança, que vou deixar a avaliação para ser feita pelos leitores... Bem... talvez não seja bom... Já sei: mais prático, simples e justo será deixar a avaliação para um só leitor, representando todos os demais. A esmo, eu escolho a Fernanda, uma conhecida, amiga em segundo grau de uns amigos, para, representando todos os outros leitores, se pronunciar sobre a extrema beleza e qualidade, ou, caso esteja na TPM, a suposta estupidez do pôsti.

Vamos lá, então, apressado e impaciente leitor: o pôsti (“até que enfim”, dirá você) começa aqui. O tema é o encantamento, a fantasia e o amor (teria já começado no primeiro parágrafo?)

Já te aconteceu, caro (ou barato – sejamos universais) leitor, de você se encantar por alguém durante uma conversa? Já teve você, que prefere as mulheres, a oportunidade de se apaixonar por uma mulher ao longo da primeira conversa? Ficar olhando para ela e, a cada frase, a cada pausa, a cada olhar, ela, como que por encantamento, ficar cada vez mais linda, mais perfeita, mais iluminada? Já sentiu uma mulher se transformar, bem na sua frente, em uma princesa dos filmes da Disney? Ah, a maioria certamente sim, mas não se deprima se isso nunca tiver ocorrido com você. De repente você nunca viu um filme da Disney.

Para você, recomendo fortemente assistir “Encantada”, que é como uma síntese de todos. Sem essa de “ah, não, filme infantil não”, “filminho da Disney? Já passei dessa”. Se passou dessa, morreu e morto não lê blógui (este blógui, que eu saiba, ainda não é lido lá embaixo. Sim, “lá embaixo”, ou você acha que se não gosta de filmes da Disney vai prá cima quando não puder mais ler blóguis nem dar aquela respiradinha de todo dia?).

“Encantada” começa com um desenho animado tradicional, com castelo, uma linda e jovem mulher do povo, que sonha em conhecer o homem ideal que lhe dê um beijo de amor verdadeiro. Tem lá o príncipe, belo e justo. Tem os lindos, amáveis e limpos bichinhos (coelho, veado, esquilo, borboletas e passarinhos do bem) que ajudam a linda e jovem futura princesa a se vestir e a arrumar a casa. Tem o lacaio da rainha e, é claro, a própria, que se transforma em velhinha amável para empurrar a linda e jovem pretendida para dentro de um poço sem fim, para que ela não se case com seu filho.

O problema é que a ex-possível-futura princesa, ao chegar literalmente ao fundo do poço, sai, por um bueiro de rua, bem no meio da encruzilhada do mundo, a Times Square. E sai viva, quero dizer, em carne, não como animação, mas como pessoa, como eu e você, na essência, não na forma, afinal, quem sai de lá é a Amy Adams, em carne (por sinal, de qualidade bastante razoável) e osso, embora estes não vejamos, apenas intuímos que existam para sustentar tamanha formosura. A princesa do desenho animado se transforma em gente e aparece na Nova York atual.

E nisso o filme navega: a princesa, que, como eu na discussão com Laraia, é otimista e amável, vive no faz-de-conta, pensa tudo em termos de desenho animado. Ela é salva da noite escura de NY por um advogado novaiorquino cético e mal-humorado como Humberto Laraia.

Encantada traz referências de todos os grandes clássicos da Disney, que citei lá em cima, mas escapa da armadilha de se transformar em colagem. Faz homenagem ao cinema, aos filmes de fantasia, à nossa infância, mas tem autonomia, unidade, coerência e ênfase, como diria a magnífica professora Maria Ervilha. Mexe com todos os nossos referenciais, quase atávicos, de sonho, poesia e encantamento. Mas é moderno, atual, além de criativo e engraçado. Só algumas provas:

1. Giselle de Andalásia (Amy Adams) acorda na sala do apartamento do cara, vê que está uma bagunça, abre a janela e canta, chamando os bichinhos para ajudá-la a dar uma geral na casa. Bom, em Nova York não tem aqueles bichinhos lindinhos dos desenhos; só tem ratos, baratas, pombos e moscas. Adivinhem quem vem para limpar a casa? Quando o cara acorda ainda vê duas pombas colocando a toalha em Giselle, que sai do banho (sobrinhos do Tio Môa– não todos, é claro: dá prá ver umas partes legais do corpo dela – sugiro que dêem uma pausa e coloca bem lento).

2. Susan Sarandon é a rainha malvada. UAU!!!

3. Amy Adams vale o filme. Está incrível e convincente o tempo todo. É encantadora, carismática e excelente atriz de comédia, que na verdade é que o filme é: uma comédia romântica.

4. O número musical feito no Central Park é inusitado, maravilhoso, antológico e por si só já valeria todo o filme.


5. Toda os filmes que amamos desde pequenos estão lá. Aqueles que assistimos quando pequenos, que re-assistimos com nossos filhos e que ainda vamos assitir com nossos netos.

Com quem Amy ficará? Com o advogado mal humorado ou com o apaixonado príncipe que também veio em carne e osso para NY? O que escolher? O planejado seguro ou o arrebatador e arriscado? A fantasia ou a realidade? Eu não tenho a menor idéia de o que fazer. Como escolher entre fantasia e realidade se nem consigo distinguir uma da outra? Só sei que, por mim, eu agarraria uma princesa que passasse em frente de casa.

Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay. E sempre tem alguma tentando nos ferrar, nos atrapalhar no trabalho, nos afastar da princesa por quem estamos apaixonados. Sorte que existem os maravilhosos filmes da Disney, que nos ensinam que nada é impossível. Felizmente existe o Marcio Greyck, que tão bem cantou que o mais importante é o verdadeiro amor. É provável que alguém que só veja Disney se torne um crédulo chato, mas não ver Disney é um baita desperdício!

“A fantasia, pode ir até onde ela for. O amor é a força motriz e a certeza de que se pode voltar da viagem. O real é rígido, sem liberdade; não é de verdade; parece "faz de conta".” Flávio Gikovate


Toc toc toc. Uau, a porta!!! Dever ser ela... Saio em desabalada carreira e abro, escancaro a porta: "Ah, não, que merda!"

- Achou mesmo que eu ia embora? Ráaaa rá rá rá rá.... (longa risada sinistra)

"Bateram na porta, eu fui atender, ingênuo que sou... Tarde demais... Mas foi o seu nome que me fez abrir a porta. Maldição!" (Itamar Assumpção)

domingo, 11 de dezembro de 2011

A SOLIDÃO E A VACA QUE CAIU DO CÉU

O Fábio me ensinou que o diabo é esperto não por ser diabo, mas por ser velho. Estão certos o Fábio, o diabo e a milenar civilização chinesa. A experiência, que não se adquire sem o tempo, sem o correr dos anos, nos ensina o que é melhor para nós. Funciona como atalhos. Com o tempo tornamo-nos mais seletivos e sem vontade de fazer coisas que, de antemão, e por vivência, sabemos que não nos agrada. Não, não vou naquele bar para ouvir salsa e ver aquela gente dançando. Não me agradam a música e a dança. Não gosto de ver tanta gente sorrindo ao mesmo tempo. Bar de salsa é como o facebook: todos estão “felizes”. Sim, entre aspas, é claro: toda felicidade é entre aspas, especialmente aquela unânime. A felicidade é uma chatice.
A vida eremita tem vantagens incontestáveis. As coisas são como nós, e mais ninguém, queremos que sejam. E quando nos cansamos da solidão, basta sair da porta e procurar algum amigo, um daqueles que nunca desistem de você, por mais razões que tenham para isso.
Além dessas vantagens, as mulheres, ao menos as mais interessantes, enxergam certo ar enigmático nos homens solitários, um charme que as intriga. O solitário não é de qualquer uma, é mais difícil, e nisso reside um encanto. Mulheres interessantes percebem nesses seres obscuros um olhar de mistério e dor. Mulheres adoram curar a dor de um homem.
Mas nem tudo são flores na vida dos eremitas maduros.  O que parece significar uma escolha pode se tornar fuga. O que parece ser uma opção de vida pode esconder uma incapacidade. Hábitos supostamente saudáveis podem ser manias. O charmoso sábio pode ser nada mais do que um chato, um ranzinza, como Clint Eastwood em Gran Torino.
Antes que minha preocupada irmã me ligue, preocupada, de Los Angeles, Miami, Vegas ou seja lá onde esteja, para saber se estou bem, aviso: este não sou eu. Falo de Roberto, interpretado por Ricardo Darin, em “Um Conto Chinês”, que finalmente chegou a Brasília. Roberto está mais, muito mais, para o ranzinza do que para o charmoso. Solitário e dono de uma loja de ferragens, ele conta os parafusos de uma caixa de quinhentos, para ver se não foi enganado. E se, depois da terceira contagem, para ter certeza, percebe que há seis parafusos a menos, surta, liga para o fornecedor, perde a paciência. Paciência que também não tem com clientes ou com amigos.
O que fazer para sair dessa vida? Não leitor, ele não quer sair dessa vida. Metódico, não dorme nem antes nem depois das 23:00h em ponto. Mas o leitor esperto e inteligente (é claro, ou não estaria lendo este semi-humilde blógui) sabe que algo vai acontecer para mudar essa situação, afinal, estou falando de um filme. Mas o que poderia romper com esse padrão de vida que nos coloca como um manequim imóvel dentro de uma vitrine? (calma irmãzinha, estou falando do cara do filme, só dele) O que é preciso? Uma paixão avassaladora? Pouco provável, as mulheres são tão iguais, tão dominadoras, tão desejosas de ir a um bar de salsa... Então o que pode acontecer? Uma vaca cair do céu bem em cima da sua casa?
É mais ou menos isso o que acontece com Roberto (Ricardo Darin) em “Um Conto Chinês”, uma comédia, sim é esta a classificação oficial do filme. É uma boa classificação, afinal, tem o modelo meio que padrão de comédias: uma pessoa solitária e metódica, que não gosta de pessoas, especialmente de estranhos, se vê forçada a receber um chinês (outra cultura, outros modos) que não fala uma única palavra em espanhol. Ter um modelo padrão não significa dizer que não seja original.
É uma comédia, ainda que as piadas sejam extremamente delicadas e sutis em comparação com as comédias mais tradicionais. Tudo bem, é uma comédia, mas carregada de melancolia e de estranheza. É uma comédia daquelas que faz chorar (prepare-se, Fer), mas não de tanto rir.
Mas tenha certeza: nem o riso nem o choro virão de interpretações histriônicas de comédia ou de drama, mas da humanidade que o filme transmite. Darin, que se supera a cada filme, está magnífico, perfeitamente humano e convincente, como na comovente cena em que sua opção eremita é confrontada pela mulher que está interessada nele: ele parece explodir de desejo e angústia por dentro, embora sustentando a opção da solidão por fora.
A direção de Sebastián Borensztein é sutil e criativa. Ainda que baseado em modelo clássico de comédia, ainda que encontre fortes ecos do cinema de Jeunet (Amelie Poulain), ou em Gran Torino (o ranzinza em confronto com orientais), a mistura de tudo é original, sensível e criativa. A ambientação e as interpretações nos colocam lá dentro da casa de Roberto, tão eremita quanto ele, tão carente quanto ele.
Para acabar o pôsti, a cena inicial é uma pérola: num barco, um casal de chineses. Ele a pede em casamento e quando ela, feliz, aceita, uma vaca cai, do céu, sobre ela. Corte para a fachada de uma loja filmada de “cabeça” para baixo, afinal, ela está do outro lado do mundo: Buenos Aires. A câmera se vira, deixando a loja em pé, e lentamente invade a loja de ferragens onde está Roberto, contando parafusos.
O que pode nos fazer sair de um estado de espírito, de um padrão de vida e ir para outro? Uma vaca cair do céu? Sei lá! Mas que hoje eu volto ao cinema para rever Um Conto Chinês, ah, isso eu vou fazer.

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