Crítica: “TUDO PODE DAR CERTO” SE VOCÊ FOR VER O NOVO WOODY ALLEN
A crítica do Correio Brasiliense sobre “Tudo Pode Dar Certo”, filme do Woody Allen em cartaz nos cinemas, diz que a obra “cabe na prateleira dos filmes em nada sensacionais do diretor...” Somado com o resto da crítica, esse “nada sensacionais” significa algo do tipo “não vá”.
Já a Folha de São Paulo apresentou uma crítica oposta, do Inácio Araújo: “o trabalho mais estimulante do autor ao menos nesta década”. Lembro que esta é a década das porradas “Match Point” e “Sonho de Cassandra”, das comedionas “Escorpião de Jade” e “Scoop” e, afinal, de “Vick...”.
Por que duas análises tão diferentes? Questão de gosto? Pode ser, isso também compõe uma crítica. Mas o gosto pessoal não deveria influenciar a ponto de falar que o filme é pessimista. Como diria minha tia mineira, “de jeito maneira”! O filme é muito, mas muito otimista! A gente sai prá cima, revigorado. Inácio Araújo concorda comigo (ele deve ser interessadíssimo no que eu falo...); diz que é um filme otimista contado por um pessimista. Aí sim. Vejam como um olhar para a sutileza faz toda a diferença.
Personagens pessimistas e neuróticos, aliás, são típicos de Woody Allen, mas Boris, o protagonista, vai muito além: mais que rabugento, ele é grosseiro e ofensivo. Provavelmente por isso Woody Allen não tenha se escalado para o papel; pequeno e com aquela cara engraçada e desprotegida, talvez não conseguisse o efeito que conseguiu brilhantemente o comediante Larry David, que ainda assim é engraçado e simpático.
Outra do crítico do CB: o protagonista olha para a câmera “num recurso extremo, para suplicar a identificação com os espectadores”. Chamo novamente minha tia: “de jeito maneira!”. Falar para a câmera é muito mais um recurso de quebra, usado para acordar e tirar o expectador do torpor da identificação com a historia e despertá-lo para a análise crítica. No filme, esse recurso surge exatamente reforçando a diferença entre Boris e a platéia, até porque quando se dirige a nós, é só para dar porrada! Mete bala no nosso senso comum. Além disso, o recurso traz algo novo: a reação dos demais personagens.
A concordar com o crítico do CB: a “sogra” de Boris é espetacular. A atriz e a personagem. Woody Allen é um dos poucos capazes de construir personagens tão estranhos, engraçados, e colocá-los todos juntos em situações inusitadas. Em TPDC essa mistura é costurada com inteligência e equilíbrio. A metralhadora de Woody Allen na boca de Boris/David dispara piadas a todo instante, em ritmo incrivelmente crescente.
A história fala de coisas que nos atormentam diariamente, como nossos desejos e questiona se o rumo que tomam nossas vidas depende de nossas escolhas, de nossos esforços ou do simples acaso. Isso, aliás já foi tratado no pesadíssimo Match Point. Tratar do mesmo tema, mas de forma deliciosamente irônica mostra que o gênio Woody Allen não está apenas em plena forma, mas cada vez melhor. A cena final, com uma mensagem direta é brilhante. Dizem que é o bom e velho Woody Allen de volta às suas neuroses e a New York. Sim, mas as neuroses são exatamente as nossas, de homens comuns vivendo em grandes cidades. A única diferença é que seus personagens pensam alto.
Falando em altura, faça um favor a você mesmo: vá ver esse filme e experimente a sensação de sair feliz e leve! Depois vá à estante das obras de Woody Allen e coloque este na prateleira dos filmes sensacionais do diretor, aquela que fica mais alta, que só gente com espírito leve e solto consegue alcançar.
sábado, 26 de junho de 2010
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Sessão Tio Môa Recomenda – Efeito Woody Allen/Scarlett Johansson ou "não entre no mundo das drogas"
* revistas suecas ou dinamarquesas (pus o “ou” porque não me lembro direito de onde eram) traziam ilustrações de sexo. Eram o máximo na época. Quem conseguia uma ficava com a maior moral com a galera. Eu nunca tive uma... Mas minha memória sempre foi boa...
Esta sessão é dedicada a jovens que são assediados o tempo todo para que entrem numa estrada sem volta. Como eu aprendi no catecismo (não falo das revistinhas suecas ou dinamarquesas* – o catecismo aqui é o ensino religioso preparatório para a primeira comunhão, pelo menos na religião católica), a estrada para o céu é toda esburacada, difícil de andar. Já a que leva ao inferno é uma beleza, asfaltada, pista dupla, arborizada.
Quer ver? Em tudo que é canal que você liga, está passando um filme do Steven Seagal (um cara “meio chinês, meio argentino” que dá murro e pontapé até na sombra). Você entra no carro de um cara que se diz seu amigo e ele põe aquele forró bem vagabundo em que a cantora diz, com voz de taquara rachada, “e eu sozinha na cama que tem o teu cheiro, me acabando pensando em você, meu bem querer...” e por aí vai. E ele diz que dançou esse forró com a Michele Suzana.
Outro exemplo: você tá a fim de uma mina, digamos a Michele Suzana, porque, afinal, ela tem uma bunda fantástica. Aí você sai com ela e ela te diz, miando, que gosta de música romântica. Saiba que ela está falando do Daniel ou coisa que o valha. Pior: se um dia você entrar no quarto dela vai encontrar o pôster do Daniel, e esse Daniel vai te atormentar o tempo todo. E se por acaso você chegar às vias de fato (e de direito, é claro), cuidado. Imagina se antes da penetr... digo, se antes de... ah, você é jovem mas já sabe, né? Imagina se no momento crucial ela inventa de por a música do Daniel... Ou um CD do pai dela, do Richard Cleidman (é assim que se escreve? Não, não vou no Google prá saber)... Ou um Kenny G.? Imagina? Você não conseguiria; daria uma brochada fantástica (você não, “ele”; nessas horas a culpa nunca é da gente, é sempre “dele”) e seria a piada do dia seguinte na escola.
Se você chegou até aqui (e principalmente se brochou quando ela pôs o CD do Daniel) é porque você não quer ser um qualquer, fazer o que a maioria faz, falar o que todo mundo fala. Todos temos necessidade de aceitação, eu sei. Mas para isso você certamente já tem um comportamento ético, bons relacionamentos, conhece as leis, as principais, pelo menos, como não matar, não cobiçar a mulher... bom, deixa prá lá. Mas se você conhece as regras sociais, é simpático, legal, amigo, etc, você já é aceito. Não será ouvindo ou assistindo bobagens que você será o rei do pedaço. Ouça o que o Tio Moa diz: arte é outra coisa.
A Grande Arte abre a nossa mente, surpreende e refina nosso espírito, ativa as partes mais malucas do cérebro, dá um barato incrível, faz a gente chorar de emoção ou rir, se arrepiar e amar estar vivo. Dentre as mais importantes razões para estar vivo, numa vida que é basicamente feita de dor, eu citaria ter ouvido “O Homem da Gravata Florida” do Jorge Ben, ter visto os filmes do Billy Wilder, ter rido com o Jerry Lewis, ouvido Pink Floyd, Pat Metheny, Noel Rosa, Chico Science e por aí vai. Além de tudo, a Grande Arte aumenta a nossa ignorância, o que é maravilhoso. Explico: quanto mais conhecemos, maior fica a linha que nos divide do que ainda não conhecemos.
A sessão "Tio Môa Recomenda" quer ajudar a encher a sua mente e a sua alma de coisas legais, ampliar a potência captadora de sua antena, multiplicar suas sinapses (não pretendo nunca explicar isso – teria que saber o que é).
Como faremos isso? Dividindo experiências. A gente sempre se surpreende com algo novo, mesmo sendo velho. Nossas descobertas sempre dependem de alguém que nos apresente e nos dê sua interpretação pessoal. É assim, com as antenas ligadas, inclusive em blogs legais (assim conheci Graveola e o Lixo Polifônico), que venho passando a vida conhecendo coisas, especialmente cinema, e me encantando e lendo tudo sobre elas. Além de Cinema, vai rolar Música, Futebol e talvez até Gestão, que pode ser entendida como a arte de inspirar pessoas a realizarem coisas legais juntas.
Por que Tio Môa? Meus sobrinhos nunca me chamaram assim, mas de tio Juninho. Um amigo, o João Sernaglia, grande alma, é quem, por algum motivo, me chamava de Tio Môa. A Bené ainda chama. Gostei. Acho que vou obrigar meus sobrinhos a me chamarem assim...
Bom, finalizando, quero dizer que além de todos esses motivos nobres para curtir arte da boa, tem um que é demais!! Você pode catar quem quiser. Veja a foto lá no alto da postagem (foi colocada lá em cima para te atrair). Woody Allen, que tem uns setenta e tralalá, ou seja, não é nenhum George Clooney, tem bom gosto, adora cinema e música, lê muito e tem, consequentemente, um bom papo. Dá uma olhada pra Scarlett Johansson olhando prá ele, louca para "trocar fluídos". Você ainda prefere a Michele Suzana? Se liga! Cobra parada não engole sapo!!!
terça-feira, 22 de junho de 2010
DUNGA E A LIDERANÇA
Sempre que estou em uma sala de aula falando sobre liderança, surgem perguntas sobre grandes figuras da humanidade, como Jesus, Gandhi e até Hitler. Entendo a necessidade de exemplos mais clássicos para fechar os conceitos, mas prefiro cravar um limite: a liderança que nos interessa é aquela envolvida até o pescoço com o bem comum, o bem de uma coletividade maior que o grupo que comanda e cuja conquista tem função nobre e edificante. O mundo corporativo, para o qual ajudo a preparar universitários, precisa, neste momento, muito mais de cooperação e mobilização integrada do que de competição selvagem.
Feita a introdução, e a fim de acalmar os ansiosos leitores da primeira postagem do blog, curiosos com a mistura do assunto do momento (Copa, Seleção, Dunga) com o sempre interessante tema da liderança, lanço-me com uma pergunta ao estilo das de alguns de meus alunos: Dunga é líder?
Em primeiro lugar, temos que lembrar que ele foi contratado para ser o técnico da seleção brasileira, função para a qual ele nunca teve experiência. É sua primeira vez como técnico, justo ele, que disse não convocar o Ganso, do Santos, o melhor jogador brasileiro no momento, por falta de experiência. Mas fugirei dessa discussão porque para levar a seleção brasileira a uma conquista como a Copa, não bastaria, de qualquer forma, ter os melhores jogadores e um técnico experiente.
Podemos traçar, sem forçar a barra, um paralelo entre o que é necessário para conseguir ser campeão de uma Copa do Mundo e liderar com sucesso uma organização. Tão ou mais importante que escalar os melhores (competências profissionais), implantar um esquema tático de jogo (planejamento estratégico), alterar esse esquema durante um jogo (ação estratégica), é preciso fazer com que todos tenham o mesmo objetivo, nobre e estimulante, que no caso poderia ser a felicidade da nação brasileira, para a qual o futebol tanto importa. E é apenas nisso que vou entrar: Dunga, como líder, transmite esses objetivos com clareza?
Dunga, há muito tempo, apresenta um comportamento perturbador: quando das vitórias (felizmente muitas), não comemora com a nação brasileira, a quem elas deveriam ser dedicadas. Pelo contrário, nos seus contatos com a nação, nas entrevistas, tripudia dos jornalistas, que perguntam o que o Brasil quer saber, destila veneno e exalta sua vitória individual contra todos os que duvidaram dele. Foi assim quando ele explicou porque não levou o jogador que os brasileiros queriam, foi assim antes da estréia, e vem sendo assim durante a copa, após as vitórias, com o agravante que seu comportamento vem afrontando jornalistas de todo o mundo. Dunga agora é unanimidade mundial.
Ao contrário do que se deve esperar do líder de um grupo, Dunga dá mostras de perseguir, em primeiro lugar, objetivos pessoais, como usar uma eventual conquista para calar a boca dos jornalistas e de todos os que se opõem a ele. E, como já apontou Juca Kfouri em seu blog, os jogadores, como garotinhos mimados, estão seguindo o mesmo modelo, reclamando de tudo o que a imprensa escreve ou fala.
Por tudo isso, agora, antes do final da Copa e no fervor seguinte à boa atuação contra Costa do Marfim, eu cravo: não seremos hexacampeões. Não temos liderança por parte de quem deveria exercê-la.
Mas há alguma esperança, e novamente cito o mundo corporativo. Uma liderança tóxica pode, é claro, destruir uma empresa. Mas algumas delas acabam sendo salvas por movimentos de lideranças internas, de alta credibilidade, que perseguem objetivos mais nobres e acabam mudando o rumo da prosa. Kaká e Lúcio parecem ser líderes com potencial para assumir a responsabilidade de liderar o grupo, e, sabendo que cobra parada não engole sapo, talvez já estejam fazendo isso, isolando a liderança tóxica do medíocre técnico que temos. Em caso de vitória na Copa, é fácil imaginar as entrevistas do insuportável Dunga vociferando contra o povo brasileiro. Mas quem o ouviria, se todos estaríamos nas ruas comemorando e reafirmando nossa frágil condição de insuperáveis?
Feita a introdução, e a fim de acalmar os ansiosos leitores da primeira postagem do blog, curiosos com a mistura do assunto do momento (Copa, Seleção, Dunga) com o sempre interessante tema da liderança, lanço-me com uma pergunta ao estilo das de alguns de meus alunos: Dunga é líder?
Em primeiro lugar, temos que lembrar que ele foi contratado para ser o técnico da seleção brasileira, função para a qual ele nunca teve experiência. É sua primeira vez como técnico, justo ele, que disse não convocar o Ganso, do Santos, o melhor jogador brasileiro no momento, por falta de experiência. Mas fugirei dessa discussão porque para levar a seleção brasileira a uma conquista como a Copa, não bastaria, de qualquer forma, ter os melhores jogadores e um técnico experiente.
Podemos traçar, sem forçar a barra, um paralelo entre o que é necessário para conseguir ser campeão de uma Copa do Mundo e liderar com sucesso uma organização. Tão ou mais importante que escalar os melhores (competências profissionais), implantar um esquema tático de jogo (planejamento estratégico), alterar esse esquema durante um jogo (ação estratégica), é preciso fazer com que todos tenham o mesmo objetivo, nobre e estimulante, que no caso poderia ser a felicidade da nação brasileira, para a qual o futebol tanto importa. E é apenas nisso que vou entrar: Dunga, como líder, transmite esses objetivos com clareza?
Dunga, há muito tempo, apresenta um comportamento perturbador: quando das vitórias (felizmente muitas), não comemora com a nação brasileira, a quem elas deveriam ser dedicadas. Pelo contrário, nos seus contatos com a nação, nas entrevistas, tripudia dos jornalistas, que perguntam o que o Brasil quer saber, destila veneno e exalta sua vitória individual contra todos os que duvidaram dele. Foi assim quando ele explicou porque não levou o jogador que os brasileiros queriam, foi assim antes da estréia, e vem sendo assim durante a copa, após as vitórias, com o agravante que seu comportamento vem afrontando jornalistas de todo o mundo. Dunga agora é unanimidade mundial.
Ao contrário do que se deve esperar do líder de um grupo, Dunga dá mostras de perseguir, em primeiro lugar, objetivos pessoais, como usar uma eventual conquista para calar a boca dos jornalistas e de todos os que se opõem a ele. E, como já apontou Juca Kfouri em seu blog, os jogadores, como garotinhos mimados, estão seguindo o mesmo modelo, reclamando de tudo o que a imprensa escreve ou fala.
Por tudo isso, agora, antes do final da Copa e no fervor seguinte à boa atuação contra Costa do Marfim, eu cravo: não seremos hexacampeões. Não temos liderança por parte de quem deveria exercê-la.
Mas há alguma esperança, e novamente cito o mundo corporativo. Uma liderança tóxica pode, é claro, destruir uma empresa. Mas algumas delas acabam sendo salvas por movimentos de lideranças internas, de alta credibilidade, que perseguem objetivos mais nobres e acabam mudando o rumo da prosa. Kaká e Lúcio parecem ser líderes com potencial para assumir a responsabilidade de liderar o grupo, e, sabendo que cobra parada não engole sapo, talvez já estejam fazendo isso, isolando a liderança tóxica do medíocre técnico que temos. Em caso de vitória na Copa, é fácil imaginar as entrevistas do insuportável Dunga vociferando contra o povo brasileiro. Mas quem o ouviria, se todos estaríamos nas ruas comemorando e reafirmando nossa frágil condição de insuperáveis?
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