sábado, 10 de julho de 2010

A RIVIERA É BEM AQUI, SIM SENHOR

Está em cartaz nos cinemas o filme "A Riviera Não é Aqui". Fui ver. Vejam como é a história: numa tentativa desesperada salvar seu casamento com a bela Julie e tirá-la da depressão, o funcionário público Philippe tenta realizar um sonho do casal, com sua transferência para um lugar maravilhoso, a Riviera. Para isso comete uma fraude, é descoberto e transferido para o outro extremo do país, um lugar frio, inóspito e com uma população rude, que mal fala sua língua. Pior: terá que ficar lá por dois anos e sem sua esposa e filho. Com seus sonhos destruídos e sozinho, ele parte para a sombria Berges. O filme aborda ainda outros temas pesados, como o preconceito, a mentira e o alcoolismo.

Você, que já está pensando em fugir do filme, não sabe da maior: o filme é francês! Pronto, fugiu... Esse nunca mais volta a ler o blog!

Falo então para você, que ainda está lendo: continue (já conseguiu até aqui...). Pela história o filme poderia parecer mesmo um dramalhão, mas é um daqueles raríssimos filmes que te fazem rir o tempo todo. Não como a maioria das comédias que você ri muito no começo, depois o ritmo vai diminuindo, diminuindo, até virar uma comedia romântica morninha no final. Este, ao contrário: é engraçado no começo, mas o ritmo vai aumentando cada vez mais e quando passa da metade do filme, aí você pode não parar mais de rir. A não ser em alguns momentos, para chorar com alguns momentos emocionantes.

O filme tira a sua graça primeiramente das ótimas atuações do elenco, que parece talhado para a comédia. Kad Merad, que faz o atrapalhado protagonista, é fantástico e faz rir mesmo quando o texto não traz uma piada.

Depois, a graça vem da incrível familiaridade que sentimos com as pessoas, com a situação e, inclusive, com a empresa em que quase todo o elenco trabalha (La Poste, o correio da França). Parece que estamos em casa, tudo é simples, a gente, o cotidiano, as situações. O cinema também é simples, não há um roteiro complexo ou sinuoso, não há uma direção elaborada, não há, enfim, efeitos ou pirotecnia. É um cinema simples, extremamente simples. E essa simplicidade, que não se opõe à beleza, é uma bela opção para o cômico (lembrar personagens de Chaplin e Jerry Lewis).

Por fim, essa comédia se constrói com o choque cultural. Assim como os aspectos divergentes vão surgindo, dando graça, eles se dissipam, com mais graça ainda: primeiro, a fala muito diferente da região, depois as comidas, os costumes do povo, a bebida, e por aí vai. Com a queda, uma a uma, de todas as diferenças, o preconceito e a visão distorcida que se faz de um povo que mal se conhece, se transformam em cumplicidade, em comunhão.

Como num bom filme do Jerry Lewis, “A Riviera...” é recheado de pequenas pérolas, como a cena da descoberta da fraude, a da multa na estrada ou a do marido contando para a esposa e amigos como é dura a vida no norte. Outras tocam, como a que apresenta os carrilhões de sinos ou a do pedido de casamento. E prepare-se, porque algumas longas seqüências provocam dor no abdômen, daquelas em que toda a platéia ri a plenos pulmões: o chefe acompanhando o carteiro no distrito e a recepção da esposa na cidade.

Mesmo com a melhor qualidade que uma comédia pode ter, fazer rir, “A Riviera Não é Aqui” não se limita a isso: fala de temas como aceitação, amor, amizade e equipe. O sucesso do filme está ligado ainda a outra coisa, tão ou mais importante: ele fala de algo que nos atormenta a todos - a eterna contradição entre nossos sonhos (nossas Rivieras) e a nossa vida real (nossos simples "aquis"). Mas quem diz que nossos sonhos são bons? Nós queremos um lugar ou um estado de espírito? O que é um lugar bom? O Wander Wildner dá a dica: quer um lugar onde a cerveja seja barata, as pessoas ouçam Beatles, sejam loucas e super chapadas - "Um Lugar do Caralho!". O filme, sem pieguice, só com graça e bom humor, parece dizer que algo parecido: a "Riviera" é bem aqui, sim senhor.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

FELIPE MELO E O HOMEM DE NEANDERTAL

Ontem, ao receber a Folha, pela manhã (adoro jornal de papel) vi na capa a foto do criminoso, do fascínora, do inimigo público número 1, Felipe Melo, chegando ao Rio, voltando da África do Sul.

 Não gosto do jogador Felipe Melo, que nem devia ter ido à Copa, mas vejam a foto: não é mais o jogador truculento e nem podia ser. Aqui ele está na vida real, chegando em casa, querendo colo da família, e é cercado por policiais para protegê-lo da ira das pessoas. Aqui, nesta foto, ele não passa de um menino assustado. É ou não é chocante? O que faz as pessoas tomarem sei lá quantos ônibus para agredir um jogador chegando de viagem?

 Ele traiu o país? O Brasil perdeu por causa dele? É claro que não. Ele fez algo que ninguém esperava que fizesse? Não, ele fez exatamente o que se esperava dele. Havia até bolão para apostar em que jogo ele seria expulso. Mesmo se as respostas acima fossem sim, nada justifica a possível agressão, cujo nível, verbal ou físico, e intensidade ninguém poderia prever.

 Costumam dizer que sempre queremos achar um culpado. Eu desconfio que não seja esse o caso. Acho que é algo pior: nosso desejo de violência, nossa natureza bárbara, que, pela evolução e socialização, fica escondida abaixo de nossa superfície, mas que é viva, muito viva. Sempre que podemos apedrejar alguém, damos vazão a essa natureza. Por isso, apedrejar é a melhor diversão do mundo: liberamos energia negativa, tiramos nossas tensões, nos conectamos com nosso mais profundo eu.

O menino Felipe Melo assustado me lembrou cenas do Alexandre Nardoni sendo escoltado pela polícia. Não pelo fato de os dois terem saído protegidos da ira popular, mas pelo que está por trás disso: nossa atração por casos que despertem nossa raiva. Adoramos isso. Quando acontece um caso como esse, temos o que falar no elevador, temos bons motivos para conversa, assistimos o noticiário de todas as redes e àqueles chatíssimos programas de auditório, com entrevistas sobre o caso (chamam psicólogos, criminalistas, etc). Até Fantástico a gente assiste para ver as entrevistas exclusivas. Enfim, ficamos satisfeitos. Indignados, é verdade, mas, sobretudo, satisfeitos.

O que faremos quando a raiva contra o menino Felipe Melo passar? O que vamos fazer para ocupar nosso tempo e estimular nossa ira e desejo de apedrejar? Sossegue: já temos outra diversão: o goleiro Bruno e o sumiço de Eliza Samudio. Chegamos a ficar preocupados com a esfriada que o caso tinha dado nos últimos 3 dias: sem fatos novos e circulando na internet que a menina “não é flor que se cheire” (os “machos” adoras vir com essa - lembram-se da Geisy Arruda, “a vagaba”?). Mas hoje o caso Bruno esquentou de novo, contra ele, e muito. O cerco está se fechando: diversão garantida.

Você pode discordar do tom irônico, tudo bem, mas te proponho um exercício de imaginação, no qual você tem que ser absolutamente sincero, não comigo, mas com suas próprias entranhas: imagina que amanhã a moça apareça, viva e bem de saúde. Seria ou não seria um grande anti-climax? Um tipo de decepção? A gente não murcharia um pouco? Não seria como tirar o prato de feijoada da frente de um glutão faminto.
 Ninguém torce para ela aparecer, mas sim para acharem o corpo e provas que incriminem o cara. Não que a gente deseje a morte de ninguém, é claro que não. Somos humanos e nos indignamos com isso. Mas no fundo, bem lá no fundo, junto com a nossa indignação cristã, o que ansiamos é que a morte e a existência de um culpado liberte o Homem de Neanderthal que temos dentro de nós, e nos possibilite carregar livremente nossas clavas e tochas, devorar carne crua e nos vingar do culpado pelas nossas frustrações e pela falta de significado das nossas vidas.
  Mas, igual a tudo na vida, este caso vai acabar e, como se passasse o efeito da poção do Dr. Jekyll, voltaremos à nossa auto-imagem moderna e poderemos descansar, quem sabe até chorar baixinho no colo da mãe, como deve estar fazendo agora o Felipe Melo.

domingo, 4 de julho de 2010

Copa 2010 – Sorria, o Brasil ganhou!

O Brasil ganhou 5 copas graças ao talento, mas existem 2 bobagens que dizem por aí e que podem iludir você, leitor incauto:

1. Futebol bonito não ganha copa. Os idiotas da objetividade falam da derrota da seleção de 82 (futebol arte) e da vitória em 94 (futebol marcador e guerreiro). Não caia nessa bobagem. Em 94 quem venceu foi o talento, sim, o de Romário, cujos gols nos salvavam jogo a jogo até a final. O futebol marcador quase pôs a perder a copa e a final mais fáceis da história. Na final, contra uma Itália esfacelada, que não ganharia nem da Ponte Preta, o jogo foi para os pênaltis. E olha que o charlatão Parreira não queria convocar o Romário nem por decreto, mas teve que engolir devido à pressão popular. Já o energúmeno Dunga não cedeu e dançou. Resumindo: raríssimas vezes o futebol arte, ou o melhor futebol, perdeu uma Copa. Portanto, abrir mão do talento é burrice.

2. Em 2006 não ganhamos por causa do clima de festa. Bobagem: quem perdeu foi Parreira, que escalou mal. Ronaldo, Adriano, Cafu e Roberto Carlos, em horrível forma física e técnica, eram verdadeiros postes, não tinham condição de jogar nem na Ponte Preta. Seus substitutos estavam em excelente forma: Fred, Robinho, Gilberto e Cicinho (este, com 10 anos a menos que o senhor de meia idade Cafu, estava voando). No jogo que nos eliminou, Parreira deixou em campo os 4 postes. Zidane e a França dominaram todo o jogo. Fizeram o gol no começo do segundo tempo. Parreira só colocou o Cicinho e o Robinho no final do jogo, aos 32 e aos 35 minutos. Resumindo: quem perdeu em 2006 foi o técnico, não a festa (até porque a grande seleção de 2002, que venceu a Copa, era super festeira. Mas a CBF não entendeu e resolveu chamar para técnico um bedel, que nunca havia sido técnico na vida, e falou prá ele: acaba com a bagunça. E o bedel Dunga respondeu "deixa comigo, doutor, craque, só chamo se for de Cristo”.

E perdemos a Copa, é claro! Futebol é simples demais, basta escolher os melhores (inclusive o técnico) e botar prá jogar, sem esquecer nenhuma das funções vitais. Zagalo, limitado no aspecto tático, sabia que Copa do Mundo é o lugar dos melhores. Dunga não. Questionado por não chamar os melhores, despreparado e extremamente limitado como pessoa (coitado, é um bedel), se fechou com um grupo de medíocres. Os bons eram cordeirinhos. Quem não era nem um nem outro, ficou na sua, quietinho. Os medíocres colocam a hierarquia, o grupo e o espírito guerreiro à frente do objetivo maior (ganhar a Copa). Assim o grupelho se fechou. Os números, que significam muito menos do que os idiotas da objetividade acreditam, iludiram a imprensa e a torcida. 



O grupo de guerreiros focados neles mesmos entrou em campo irritado, bravinho, reclamando de tudo. Ainda no primeiro tempo Robinho estava nervosíssimo, Dunga parecia um surtado fora de campo. No segundo tempo, logo no início, Michal Bastos deveria ter sido expulso com uma entrada crimonosa em Snejder, mas o juiz fez vistas grossas. Em seguida, tomaram o gol e, sem maturidade, o time todo se perdeu. Outro problema: a seleção não tinha nenhum meia-armador (que organiza o time). É o que faz Schweinsteiger na Alemanha, Iniesta na Espanha e Snejder na Holanda. Um time não pode ganhar uma Copa sem um jogador que faça isso, como um time de volei não ganha sem levantador. Kaká não faz essa função, nunca fez. Temos craques que fazem isso, como Ganso (um dos melhores do mundo na atualidade), Zé Roberto, Diego e Alex. Juventude também é importante. Dunga não chamou Neymar e Ganso alegando que são novos e inexperientes (como se ele mesmo não fosse com técnico). O técnico alemão chamou Ozil, 21 e Muller, 20, que estão encantando o mundo.


Mas sorria, o Brasil ganhou! Porque quem perdeu para a Holanda não foi o Brasil, foi a seleção da CBF e do Dunga. O futebol brasileiro venceu, pois provavelmente teremos um técnico de verdade. Melhor ainda: perdeu a mediocridade que assola o país, desde o governo, passando pela gestão pública e chegando ao futebol. Morte à imbecilidade da supervalorização do espírito guerreiro, representado pelo primitivo Felipe Melo, eleito no ano passado o pior jogador da Europa, mas adorado por Dunga.


Quem sabe agora cuidaremos mais de valorizar o talento, a competência, a arte e a beleza?
Obrigado, Snejder!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

BRASIL E HOLANDA – EFICIÊNCIA X ARTE

Ôba, um post sobre futebol! Que legal! Copa é Copa, não é hora de filminho, de musiquinha, de elomarzinho.

Então vamos lá: O Brasil ganhou a copa de 1970 (minha primeira copa) jogando o futebol mais lindo que já vi até hoje, junto com outros dois times: a seleção de 1982 e um outro que depois eu conto.

Em 70 tinha Pelé e Tostão. Tinha Rivelino, de quem Maradona diz ter sido fã e o melhor jogador que já viu. Tinha Jairzinho, que marcou gol em todos os jogos daquela Copa.

A seleção tinha também Clodoaldo e Carlos Alberto. Mas também tinha, e é nele que quero chegar, o Gerson, que fazia lançamentos muito, muito longos, e incrivelmente precisos. Alguns dos gols mais lindos daquela copa saíram de seus lançamentos. Gerson lançava curvando o corpo, que ficava côncavo. Uma beleza!

Mas houve um jogador cujos lançamentos eram ainda mais fascinantes: Dicá, da Ponte Preta. Eu cresci vendo Dicá no estádio, ao vivo. O detalhe fascinante de seus lançamentos: eram feitos lá de trás, no campo de defesa, para um atacante 50 metros à frente. E daí? Qual é a graça? Explico: dessa distância, o zagueiro tem toda chance de interceptar. Só que o zagueiro saía correndo para um lado, mais para o meio, onde, pela trajetória, a bola chegaria. Já o ponta direita (Lúcio), corria abrindo pela lateral. A força exata para a bola cair no gramado antes de chegar ao zagueiro, mais o efeito da “trivela” de Dicá, faziam com que a bola, após bater no gramado, mudasse totalmente sua trajetória, indo adivinha para onde? Isso, para a direita, onde Lúcio esperava para fazer a festa, com a defesa adversária descomposta. A torcida aguardava momentos assim, mágicos, o jogo todo. Com Dicá em campo, mais cedo ou mais tarde, eles aconteciam. A torcida ria, aplaudia, delirava. Ali foi que aprendi, ainda antes de mergulhar no teatro, cinema e na música, o que era arte, o que era a beleza.

E o que tem tudo isso a ver com Brasil e Holanda, que jogam pela Copa da África? Tudo. A Ponte Preta, um dos 3 times que jogaram o futebol mais bonito que já vi, no ano em que foi considerada o melhor time do Brasil perdeu a decisão para o Corinthians, um time sem brilho, mas com uma eficiência impressionante (um ano antes, eliminara do campeonato brasileiro outro time que jogava muito mais bonito, o Fluminense, a chamada máquina).

Pois no jogo entre Brasil e Holanda, desta vez somos nós somos o time sem brilho (calma! não é limitado, não é sem técnica, mas não tem o mesmo brilho, ou arte) e a Holanda, na minha opinião, representa o brilho, a arte. Isso porque eles tem o Snejder, que outro dia fez um lançamento de Dicá, o primeiro que vi em 20 anos, desde a aposentadoria do mestre. O mesmo efeito, o mesmo zagueiro perdido, trançando as pernas, e o Robben pegando a bola do outro lado: gol. Em outro jogo, novamente um lançamento quilométrico, mas desta vez mais direto, tipo Gerson, e de novo para Robben, o Jairzinho deles. E de novo gol.

Mas a Holanda não tem só os dois, não. Tem muitos bons jogadores. Apesar disso, e de saber marcar, a Holanda não é o Brasil, que sabe ganhar. Se os brasileiros ficarem como cobra parada, que não engole sapo, contaminados pela soberba da torcida e dos jornalistas, e não se preocuparem muito em marcar essa dupla, como não marcaram Zidane em 2006, poderemos amargar mais uma eliminação precoce. Sem o Brasil, eu torceria para a Holanda chegar à final e devolver e derrota que sofreu para a Alemanha na decisão de 1974, ou para a Argentina, em 1978.

Espero que as pessoas que estiveram comigo, em tantos jogos entre 77 e 81, tenham visto as jogadas do Snejder e viajado no tempo, sentindo de novo a quentura do cimento do Majestoso, só aliviada quando nos levantávamos para aplaudir o Mestre Dicá e companhia, naquela época de fantasia, beleza e alegria.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Tio Moa Recomenda – Nada de luau: leve a gata prá ouvir Elomar na tua casa.

Eu sei que você deve estar pensando que é loucura. “Ih, como é que eu vou chegar prá gata e convidar prá ouvir Elomar. ELOMAR? O que é isso vélho..?”. Olha, só peço que confie. Você não tem nada a perder, não está pegando ninguém mesmo... Estou apenas cumprindo a declaração de intenções publicada anteriormente. (fazer a Scarlet Johanson te olhar daquele jeito). Depois, o resto é contigo (eu só sei até aí...).

Elomar compõe e canta o sertão. Calma, não é aquele “ser - tão chato” que os covers de cowboy americano colocam estourando no som do carro, com as portas abertas (antes era só no interior de SP, MG e Goiás, mas há anos a praga se espalhou e é capaz de, em plena praia de Ipanema, que já ouviu coisas bem melhores, alguém parar o carro, abrir as portas e colocar aquilo para o mundo ouvir).

Voltando: Elomar Figueira Mello, baiano de Vitória da Conquista, estudou arquitetura na cidade grande, mas voltou-se à cultura de seu povo e tornou-se cantador, tocador de viola e trovador. Vive na roça criando bode, fazendo cercas, compondo e escrevendo. Elomar tornou-se historiador de seu povo e sua crença. Passou a cantar a caatinga e o sertanejo. Também já compôs músicas clássicas (várias óperas!) e tocou com a sinfônica de Moscou. Não é fraco não o malungo!

Seu violão é muito bom de ouvir. Bom demais. Milhões de vezes melhor do que aqueles violõezinhos chinfrins que você ouve num luau. Pense bem: prá que luau se você mesmo, eu sei, não gosta? Você vai só prá tentar pegar alguma gata, mas me conta, quantas vezes conseguiu pegar alguém num luau? Você vai lá, vê a menina que você está a fim se derreter pelos carinhas que tocam, não fica com ninguém e ainda tem que ouvir aquelas músicas chatinhas que todo mundo canta junto, com aquele sorrisinho besta na cara. O pior é que você tem que fingir que está gostando, até balança teu seu corpo prá lá e prá cá, mesmo sabendo que está ridículo. Até cantarola junto! Todo esse sacrifício para não ficar com ninguém!

No lugar disso, convida ela prá ouvir Elomar. "Elomar", ela vai perguntar. Responda: "Você vai mudar o seu conceito de música depois que ouvir? é de uma beleza e de uma sensibilidade como você nunca viu". Pronto, falou em beleza e sensibilidade: você se colocou acima daqueles chatinhos do luau. Por isso e pela curiosidade ela concorda e vai ã sua casa, é certo. 

Bom, mas é bom que antes disso você conheça um pouco do Elomar, é claro. Nada tema, com Tio Moa não há problema. Então vamos ao que você deve saber de início: a música do Elomar te leva, numa viagem calma, prá outro lugar, baby, onde a você pode sentir cheiro de assa-peixe (uma arvorezinha do mato que solta um cheirinho delicioso).

Esqueça aquela música dita sertaneja que você não suporta mais. Saiba que é possível cantar o sertão sem aquela insuportável voz de taquara rachada e, melhor que tudo, sem tremer a voz no final de cada frase como se sofresse de Parkinson!

Esqueça aquelas músicas, todas com a mesma melodia, sempre te dando a impressão de que no refrão vão cantar “daquele momento até hoje esperei você...”. Esqueça aquelas duplas (só tem duplas... deve ser proibido por lei cantar aquilo sozinho) que além de cantarem as mesmas melodias, cantam a mesma letra, só trocam as palavras. Esqueçam coisas como “Já não sei o que fazer - Outro amor não sei querer - Preciso tanto te esquecer” , ou “Eu não sei pq que eu fui te amar assim - Te dei meu sonho e você não me deu...”. Uau, não deu o quê? Aquilo? Chama a Cleycianne!!!

Esqueça tudo isso e conheça Elomar, que canta do jeito que realmente se fala lá dentro do Brasil, que não é o país das bundas e do futebol (adoro as duas coisas, mas tem muito mais do que isso no Brasil-zil-zil). Vou dar um exemplo e mostrar a letra de uma das músicas mais tristes e melancólicas que já ouvi, e mais lindas, também. Mas antes saiba que:
 Ritirante: (de retirar-se – retirante) povo que sai de uma região por causa da seca ou pobreza, em busca de uma vida melhor, menos sofrida.
 Incelença: forma de expressão musical típica do nordeste, usada para facilitar a morte dos agonizantes, de modo minimizar seu sofrimento.
 Inhambado: mal sucedido, lascado.
 Derna: desde.

Incelença pro Amor Ritirante
Vem amiga visitar/ A terra, o lugar/ Que você abandonou
Inda ouço murmurar/ “Nunca vou te deixar /Por Deus nosso Senhor”
Pena cumpanheira agora/ Que você foi embora/ A vida fulorô
 Ouço em toda noite escura/ Como eu a sua procura/ Um grilo a cantar
Lá no fundo do terreiro/ Um grilo violeiro/ Inhambado a procurar
Mas já pela madrugada/ Ouço o canto da amada/ Do grilo cantador
Geme os rebanhos na aurora/ Mugindo cadê a senhora/ Que nunca mais voltou
Ao Sinhô peço clemência/ Num canto de incelença/ Pro amor que retirou.

Faz um ano in janeiro/ Que aqui pousou um tropeiro/ O cujo prometeu
De na derradeira lua/ Trazer notícia sua/ Se vive ou se morreu/
Derna aquela madrugada/ Tenho os olhos na istrada/ E a tropa não voltou

Veja o que é ver a vida com poesia: queixar-se de que até a mulher do grilo todo lascado aparece, mas a dele não. Ao dizer que ouve no mugido do rebanho a pergunta “cadê a senhora...?”, o autor, genial, transfere a emoção da saudade do caboclo para os animais, aumentando ainda mais a grandeza de seu sentimento pela mulher que tomou chá de sumiço. O que dizer então da dor de não tirar mais os olhos da “istrada”, esperando já nem mais pela mulher, mas por notícias dela? Assim é a boa poesia: profunda, doída, cheia de imagens, delicada, sutil e sobretudo bela.

Comente isso com a menina.

Elomar talvez seja o exemplo mais representativo da beleza da poética musical do sertão do Brasil, o Brasil que a gente não vê, não conhece, mas que tanto influenciou a nossa cultura. Essa música está no disco “Das Barrancas do Rio Gavião” e em outros de Elomar. O disco tem outras preciosidades, dentre elas “O Violêro”, que fala sobre a felicidade e a opção pela vida simples. Hoje falar disso dá um montão de dinheiro pros autores de livros de auto-ajuda (daí o nome auto-ajuda: ajuda quem escreve!), mas se tiver que gastar meu rico dinheirinho, prefiro ouvir Elomar dizer isto:


Si eu tivesse di vivê obrigado/ um dia inhantes dêsse dia eu morro...
Apois pro cantadô i violero/ só hai treis coisa nesse mundo vão
amô, furria, viola, nunca dinhêro/ viola, furria, amô, dinhêro não


Elomar não é só um grande letrista, não. Suas melodias também são lindas e ele canta/interpreta muito. Enfim, Elomar sabe que cobra parada não engole sapo. Tanto sabe que tem até um site, digo, porteira oficial (http://www.elomar.com.br/). Entra lá e peça lá uns discos. Sugiro, além do que falei, o “Na Quadrada das Águas Perdidas”, de 1978, um disco maravilhoso (o vinil é duplo - eu tenho um velho e um novinho, que garimpei recentemente num sebo e pelo qual paguei um preço bem salgado: nada mais justo) e “Elomar em Concerto” (1989), que tem uma versão fantástica da "Incelença...".


Se antes de comprar, quiser ouvir, procure em blogs e baixe. Ou passe lá em casa que a gente faz um sarau, digo, furria! Pode trazer a gata, ela vai adorar - depois me paga um vinho!



domingo, 27 de junho de 2010

Cafu Mecânico e a Seleção de Dunga: a cara do Brasil

A mais nova propaganda de óleo para motor mostra Cafu com um bigode, se disfarçando para poder jogar num torneio só para mecânicos. Os adversários perguntam se ele é o Cafu, os outros dizem que não, e Cafu explica que entende de partida, mas de motor. Engana os adversários, burlando a regra, e assim que o jogo começa, faz um gol do meio campo, exacerbando a diferença técnica e física entre as equipes devido à inclusão ilegal do jogador travestido de mecânico. A bola foi para as redes e a ética para o ralo!

O que é isso? Porque ninguém reclama? Onde está o CONAR - Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, que inclusive já retirou de uma propaganda Ronaldo segurando um copo de cerveja (beber não pode, mas enganar pode)? E as dezenas de institutos de ética que tem por aí? O Instituto Brasileiro de Ética nos Negócios inclusive tem o seguinte texto na capa de seu site.  

“A Ética é a base da atuação responsável empresarial e o passaporte para a Sustentabilidade”, pois, se os negócios forem conduzidos de maneira ética, íntegra e honesta, a empresa também será socialmente responsável e ecologicamente correta. A missão da nossa instituição é fomentar a Ética no meio empresarial e também junto as crianças, jovens e universitários porque os estudantes de hoje serão os colaboradores, executivos e proprietários das empresas de amanhã. É desta forma, contribuindo para a melhoria da qualidade ética das empresas e para a formação de adultos-cidadãos e líderes eticamente responsáveis que potencializamos a perspectiva de um futuro mais ético e assim, naturalmente Sustentável."

E você, o que achou da propaganda? Vou adivinhar: achou engraçada, nem tinha percebido que elogiava a enganação para benefício próprio. O próprio Cafú nem deve ter percebido. Uma propaganda com gente simples, jogando uma pelada, uns velhos e uns barrigudos contra um jogador de nível profissional usando um bigode postiço engraçado, que faz seu time obter vantagem competitiva ilegal. Você riu, certo?

Calma, você não é diferente da esmagadora maioria do povo brasileiro.Todos acham a propaganda engraçada. E, convenhamos, é só uma enganaçãozinha de nada, uma falta de ética pequenininha, que só prejudica uns barrigudos com cara engraçada jogando bola no campo do Juventus.

Tudo bem, porque falta de ética mesmo, de verdade, é só aquela que prejudica pessoas magras e saradas jogando bola no Morumbi, certo? É só aquela que arrecadou 3 mil reais ou esta também é pequenininha e devia ser errado só se arrecadasse mais de 100 mil reais? Já sei: talvez o problema seja a falta de regras claras sobre os limites da ética ou da corrupção. Por exemplo, economizar material para a construção de um prédio só deveria ser crime se matasse mais de 10 pessoas. Até 9 seria apenas uma pequena falta de ética.

Mas como não há regras claras sobre a ética, você não tem nada que ficar indignado se um funcionário da área econômica do governo passar informações privilegiadas para que alguém obtenha vantagem competitiva e com isso obtenha lucro. Dê uma risadinha, é o Brasil. Também não se finja de pasmo quando um político sabidamente corrupto é eleito, e com a maior votação de um deputado no Brasil. Se você ficar indignado é um careta, não tem humor, não entende a cara do Brasil, não é patriota.

Simão Bacamarte, o Alienista, personagem de Machado de Assis, achava que a loucura era uma pequena ilha perdida no imenso oceano da razão. Depois, ao ver que, de perto, todo mundo era pelo menos um pouco louco, começou a perceber que a loucura, na verdade, era um imenso continente, e a razão, um pequeno lago. Acaba concluindo que, se o normal é ser louco, então deve ser internado como louco quem é normal.

Conclusão: devemos é calar a boca no lugar de criticar alguém antiético. O Brasil é o país antiético por convicção. É um país corrupto e acabou. Um país que ri das suas desgraças e das suas mazelas. E quem for contra não é brasileiro.

Mas, como estamos na Copa, voltemos ao futebol, e, como cobra parada não engole sapo, vamos juntos, torcer pela seleção de brucutus-focados do coerente-com-a-mediocridade Dunga, contra os verdadeiros artistas (argentinos, alemães, holandeses e até chilenos), afinal, somos todos guerreiros, brasileiros e patriotas, embora um pouco, só um pouquinho, antiéticos e corruptos. "Maish quem não é?"*.

"Sou, mash quem não é?" era o bordão do bêbado Tavares, um engraçadíssimo personagem com que Chico Anísio ironizava o perfil do canalha brasileiro.

sábado, 26 de junho de 2010

Crítica: “TUDO PODE DAR CERTO” SE VOCÊ FOR VER O NOVO WOODY ALLEN


A crítica do Correio Brasiliense sobre “Tudo Pode Dar Certo”, filme do Woody Allen em cartaz nos cinemas, diz que a obra “cabe na prateleira dos filmes em nada sensacionais do diretor...” Somado com o resto da crítica, esse “nada sensacionais” significa algo do tipo “não vá”.

Já a Folha de São Paulo apresentou uma crítica oposta, do Inácio Araújo: “o trabalho mais estimulante do autor ao menos nesta década”. Lembro que esta é a década das porradas “Match Point” e “Sonho de Cassandra”, das comedionas “Escorpião de Jade” e “Scoop” e, afinal, de “Vick...”.

Por que duas análises tão diferentes? Questão de gosto? Pode ser, isso também compõe uma crítica. Mas o gosto pessoal não deveria influenciar a ponto de falar que o filme é pessimista. Como diria minha tia mineira, “de jeito maneira”! O filme é muito, mas muito otimista! A gente sai prá cima, revigorado. Inácio Araújo concorda comigo (ele deve ser interessadíssimo no que eu falo...); diz que é um filme otimista contado por um pessimista. Aí sim. Vejam como um olhar para a sutileza faz toda a diferença.

Personagens pessimistas e neuróticos, aliás, são típicos de Woody Allen, mas Boris, o protagonista, vai muito além: mais que rabugento, ele é grosseiro e ofensivo. Provavelmente por isso Woody Allen não tenha se escalado para o papel; pequeno e com aquela cara engraçada e desprotegida, talvez não conseguisse o efeito que conseguiu brilhantemente o comediante Larry David, que ainda assim é engraçado e simpático.

Outra do crítico do CB: o protagonista olha para a câmera “num recurso extremo, para suplicar a identificação com os espectadores”. Chamo novamente minha tia: “de jeito maneira!”. Falar para a câmera é muito mais um recurso de quebra, usado para acordar e tirar o expectador do torpor da identificação com a historia e despertá-lo para a análise crítica. No filme, esse recurso surge exatamente reforçando a diferença entre Boris e a platéia, até porque quando se dirige a nós, é só para dar porrada! Mete bala no nosso senso comum. Além disso, o recurso traz algo novo: a reação dos demais personagens.

A concordar com o crítico do CB: a “sogra” de Boris é espetacular. A atriz e a personagem. Woody Allen é um dos poucos capazes de construir personagens tão estranhos, engraçados, e colocá-los todos juntos em situações inusitadas. Em TPDC essa mistura é costurada com inteligência e equilíbrio. A metralhadora de Woody Allen na boca de Boris/David dispara piadas a todo instante, em ritmo incrivelmente crescente.

A história fala de coisas que nos atormentam diariamente, como nossos desejos e questiona se o rumo que tomam nossas vidas depende de nossas escolhas, de nossos esforços ou do simples acaso. Isso, aliás já foi tratado no pesadíssimo Match Point. Tratar do mesmo tema, mas de forma deliciosamente irônica mostra que o gênio Woody Allen não está apenas em plena forma, mas cada vez melhor. A cena final, com uma mensagem direta é brilhante. Dizem que é o bom e velho Woody Allen de volta às suas neuroses e a New York. Sim, mas as neuroses são exatamente as nossas, de homens comuns vivendo em grandes cidades. A única diferença é que seus personagens pensam alto.

Falando em altura, faça um favor a você mesmo: vá ver esse filme e experimente a sensação de sair feliz e leve! Depois vá à estante das obras de Woody Allen e coloque este na prateleira dos filmes sensacionais do diretor, aquela que fica mais alta, que só gente com espírito leve e solto consegue alcançar.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Sessão Tio Môa Recomenda – Efeito Woody Allen/Scarlett Johansson ou "não entre no mundo das drogas"


Esta sessão é dedicada a jovens que são assediados o tempo todo para que entrem numa estrada sem volta. Como eu aprendi no catecismo (não falo das revistinhas suecas ou dinamarquesas* – o catecismo aqui é o ensino religioso preparatório para a primeira comunhão, pelo menos na religião católica), a estrada para o céu é toda esburacada, difícil de andar. Já a que leva ao inferno é uma beleza, asfaltada, pista dupla, arborizada.

Quer ver? Em tudo que é canal que você liga, está passando um filme do Steven Seagal (um cara “meio chinês, meio argentino” que dá murro e pontapé até na sombra). Você entra no carro de um cara que se diz seu amigo e ele põe aquele forró bem vagabundo em que a cantora diz, com voz de taquara rachada, “e eu sozinha na cama que tem o teu cheiro, me acabando pensando em você, meu bem querer...” e por aí vai. E ele diz que dançou esse forró com a Michele Suzana.

Outro exemplo: você tá a fim de uma mina, digamos a Michele Suzana, porque, afinal, ela tem uma bunda fantástica. Aí você sai com ela e ela te diz, miando, que gosta de música romântica. Saiba que ela está falando do Daniel ou coisa que o valha. Pior: se um dia você entrar no quarto dela vai encontrar o pôster do Daniel, e esse Daniel vai te atormentar o tempo todo. E se por acaso você chegar às vias de fato (e de direito, é claro), cuidado. Imagina se antes da penetr... digo, se antes de... ah, você é jovem mas já sabe, né? Imagina se no momento crucial ela inventa de por a música do Daniel... Ou um CD do pai dela, do Richard Cleidman (é assim que se escreve? Não, não vou no Google prá saber)... Ou um Kenny G.? Imagina? Você não conseguiria; daria uma brochada fantástica (você não, “ele”; nessas horas a culpa nunca é da gente, é sempre “dele”) e seria a piada do dia seguinte na escola.

Se você chegou até aqui (e principalmente se brochou quando ela pôs o CD do Daniel) é porque você não quer ser um qualquer, fazer o que a maioria faz, falar o que todo mundo fala. Todos temos necessidade de aceitação, eu sei. Mas para isso você certamente já tem um comportamento ético, bons relacionamentos, conhece as leis, as principais, pelo menos, como não matar, não cobiçar a mulher... bom, deixa prá lá. Mas se você conhece as regras sociais, é simpático, legal, amigo, etc, você já é aceito. Não será ouvindo ou assistindo bobagens que você será o rei do pedaço. Ouça o que o Tio Moa diz: arte é outra coisa.

A Grande Arte abre a nossa mente, surpreende e refina nosso espírito, ativa as partes mais malucas do cérebro, dá um barato incrível, faz a gente chorar de emoção ou rir, se arrepiar e amar estar vivo. Dentre as mais importantes razões para estar vivo, numa vida que é basicamente feita de dor, eu citaria ter ouvido “O Homem da Gravata Florida” do Jorge Ben, ter visto os filmes do Billy Wilder, ter rido com o Jerry Lewis, ouvido Pink Floyd, Pat Metheny, Noel Rosa, Chico Science e por aí vai. Além de tudo, a Grande Arte aumenta a nossa ignorância, o que é maravilhoso. Explico: quanto mais conhecemos, maior fica a linha que nos divide do que ainda não conhecemos.

A sessão "Tio Môa Recomenda" quer ajudar a encher a sua mente e a sua alma de coisas legais, ampliar a potência captadora de sua antena, multiplicar suas sinapses (não pretendo nunca explicar isso – teria que saber o que é).

Como faremos isso? Dividindo experiências. A gente sempre se surpreende com algo novo, mesmo sendo velho. Nossas descobertas sempre dependem de alguém que nos apresente e nos dê sua interpretação pessoal. É assim, com as antenas ligadas, inclusive em blogs legais (assim conheci Graveola e o Lixo Polifônico), que venho passando a vida conhecendo coisas, especialmente cinema, e me encantando e lendo tudo sobre elas. Além de Cinema, vai rolar Música, Futebol e talvez até Gestão, que pode ser entendida como a arte de inspirar pessoas a realizarem coisas legais juntas.

Por que Tio Môa? Meus sobrinhos nunca me chamaram assim, mas de tio Juninho. Um amigo, o João Sernaglia, grande alma, é quem, por algum motivo, me chamava de Tio Môa. A Bené ainda chama. Gostei. Acho que vou obrigar meus sobrinhos a me chamarem assim...

Bom, finalizando, quero dizer que além de todos esses motivos nobres para curtir arte da boa, tem um que é demais!! Você pode catar quem quiser. Veja a foto lá no alto da postagem (foi colocada lá em cima para te atrair). Woody Allen, que tem uns setenta e tralalá, ou seja, não é nenhum George Clooney, tem bom gosto, adora cinema e música, lê muito e tem, consequentemente, um bom papo. Dá uma olhada pra Scarlett Johansson olhando prá ele, louca para "trocar fluídos". Você ainda prefere a Michele Suzana? Se liga! Cobra parada não engole sapo!!!

* revistas suecas ou dinamarquesas (pus o “ou” porque não me lembro direito de onde eram) traziam ilustrações de sexo. Eram o máximo na época. Quem conseguia uma ficava com a maior moral com a galera. Eu nunca tive uma... Mas minha memória sempre foi boa...

terça-feira, 22 de junho de 2010

DUNGA E A LIDERANÇA

Sempre que estou em uma sala de aula falando sobre liderança, surgem perguntas sobre grandes figuras da humanidade, como Jesus, Gandhi e até Hitler. Entendo a necessidade de exemplos mais clássicos para fechar os conceitos, mas prefiro cravar um limite: a liderança que nos interessa é aquela envolvida até o pescoço com o bem comum, o bem de uma coletividade maior que o grupo que comanda e cuja conquista tem função nobre e edificante. O mundo corporativo, para o qual ajudo a preparar universitários, precisa, neste momento, muito mais de cooperação e mobilização integrada do que de competição selvagem.


Feita a introdução, e a fim de acalmar os ansiosos leitores da primeira postagem do blog, curiosos com a mistura do assunto do momento (Copa, Seleção, Dunga) com o sempre interessante tema da liderança, lanço-me com uma pergunta ao estilo das de alguns de meus alunos: Dunga é líder?

Em primeiro lugar, temos que lembrar que ele foi contratado para ser o técnico da seleção brasileira, função para a qual ele nunca teve experiência. É sua primeira vez como técnico, justo ele, que disse não convocar o Ganso, do Santos, o melhor jogador brasileiro no momento, por falta de experiência. Mas fugirei dessa discussão porque para levar a seleção brasileira a uma conquista como a Copa, não bastaria, de qualquer forma, ter os melhores jogadores e um técnico experiente.

Podemos traçar, sem forçar a barra, um paralelo entre o que é necessário para conseguir ser campeão de uma Copa do Mundo e liderar com sucesso uma organização. Tão ou mais importante que escalar os melhores (competências profissionais), implantar um esquema tático de jogo (planejamento estratégico), alterar esse esquema durante um jogo (ação estratégica), é preciso fazer com que todos tenham o mesmo objetivo, nobre e estimulante, que no caso poderia ser a felicidade da nação brasileira, para a qual o futebol tanto importa. E é apenas nisso que vou entrar: Dunga, como líder, transmite esses objetivos com clareza?

Dunga, há muito tempo, apresenta um comportamento perturbador: quando das vitórias (felizmente muitas), não comemora com a nação brasileira, a quem elas deveriam ser dedicadas. Pelo contrário, nos seus contatos com a nação, nas entrevistas, tripudia dos jornalistas, que perguntam o que o Brasil quer saber, destila veneno e exalta sua vitória individual contra todos os que duvidaram dele. Foi assim quando ele explicou porque não levou o jogador que os brasileiros queriam, foi assim antes da estréia, e vem sendo assim durante a copa, após as vitórias, com o agravante que seu comportamento vem afrontando jornalistas de todo o mundo. Dunga agora é unanimidade mundial.

Ao contrário do que se deve esperar do líder de um grupo, Dunga dá mostras de perseguir, em primeiro lugar, objetivos pessoais, como usar uma eventual conquista para calar a boca dos jornalistas e de todos os que se opõem a ele. E, como já apontou Juca Kfouri em seu blog, os jogadores, como garotinhos mimados, estão seguindo o mesmo modelo, reclamando de tudo o que a imprensa escreve ou fala.

Por tudo isso, agora, antes do final da Copa e no fervor seguinte à boa atuação contra Costa do Marfim, eu cravo: não seremos hexacampeões. Não temos liderança por parte de quem deveria exercê-la.

Mas há alguma esperança, e novamente cito o mundo corporativo. Uma liderança tóxica pode, é claro, destruir uma empresa. Mas algumas delas acabam sendo salvas por movimentos de lideranças internas, de alta credibilidade, que perseguem objetivos mais nobres e acabam mudando o rumo da prosa. Kaká e Lúcio parecem ser líderes com potencial para assumir a responsabilidade de liderar o grupo, e, sabendo que cobra parada não engole sapo, talvez já estejam fazendo isso, isolando a liderança tóxica do medíocre técnico que temos. Em caso de vitória na Copa, é fácil imaginar as entrevistas do insuportável Dunga vociferando contra o povo brasileiro. Mas quem o ouviria, se todos estaríamos nas ruas comemorando e reafirmando nossa frágil condição de insuperáveis?
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