terça-feira, 20 de julho de 2010

TIO MOA E O MARIDO DA CABELEIREIRA EXPLICAM O AMOR IDEAL

Uma amiga minha disse que é do século passado, que quer achar um cara bacana, casar, ter filhos... Eu também sou do século passado, só que eu tenho um probleminha adicional: idealizo demais o amor. Desde que percebi que “ô ô ô ô... eu gosto é de mulher”, sempre criei, aqui nesse treco cinza que tenho atrás dos meus olhos, mulheres ideais imaginárias, se é que existem mulheres ideais mesmo na imaginação. As mulheres também sonham com o homem perfeito, se é que existem outros homens perfeitos além deste que vos escreve. Perguntei ao Tio Môa se existe mulher ideal. Ele disse que sim e ainda me garantiu que ela sempre aparece, mas só quando estou de olhos fechados.


Esse que é o problema: quando fechamos os olhos não vemos a realidade e idealizamos o amor, achando que vai ser sempre maravilhoso, como o do marido da cabeleireira... Ahn... Você não conhece a fabulosa história do marido da cabeleireira? Absurdo. Mas fique tranqüilo, que cuidarei de saciar sua curiosidade. Depois então eu concluo a imperdível explicação sobre o amor ideal.

“O Marido da Cabeleireira” é um filme que meu amigo/irmão Pinchu, entusiasmadíssimo, um dia me indicou. É um filme francês de 1989, dirigido por Patrice Leconte, que acaba de ser lançado em DVD . É daqueles prá ter no quarto. Acabei de revê-lo por mais duas vezes. Na cena inicial, numa praia, um menino bem magrinho, com uma larga e horrível sunguinha de lã, dança esquisitamente ao som de uma música árabe. As cores da cena são antigas e francesas, se é que as cores têm idade e nacionalidade. O menino é de uma humilde família francesa, se é que existe francês humilde. Ele é totalmente fascinado pela cabeleireira do barro, uma gordinha erótica, se é que... bom deixa prá lá.


E num belo dia ele vai cortar o cabelo. A cabeleireira tem a blusa semi-aberta e quando se inclina o garoto fica paralisado, boquiaberto diante da fartura e da beleza daqueles seios. A cena é belíssima, suave (apesar do tamanho daqueles melões), de uma pureza impressionante, e dita o que será do resto do filme. Mais tarde, à mesa do jantar, o pai pergunta o que ele quer ser quando crescer e ele, sem pensar: quero casar com uma cabeleireira. Leva um tabefe dos grandes, mas incapaz de tirar seu torpor. Acabara de decidir seu futuro.


O resto do filme é todo poesia. Um filme para ser visto com a leveza dos que amam, com a pureza dos que sentem que há algo a mais nesta vida do que lógica e ação. Em alguns momentos da narração em off, vemos o próprio narrador, o marido, parado, com uma feição triste e contemplativa. Não entendemos exatamente o que está acontecendo, mas podemos supor.


O filme mistura lembranças da infância com a fase em que ele, já maduro, finalmente encontra uma cabeleireira. Não é uma cabeleireira, é A Cabeleireira. A facilidade com que ele consegue se casar com ela, fisicamente tão diferente dele, parece dizer que quando se tem foco e determinação, pode-se conseguir tudo. Nada disso: trata-se de uma fantasia, de uma poesia, de uma ode ao amor, ao amor ideal, sem concessões à realidade.

A vida no salão é totalmente dedicada à celebração do amor. O contraste entre eles é tão grande quanto belo. A cabeleireira é jovem, leve, sensual e transbordante de amor e beleza. Seu sorriso é nada menos que divino e praticamente constitui um personagem em si. Já o marido é um idílico romântico apaixonado de meia-idade, nada bonito, mas com uma expressão e um olhar cativantes. Amante da música árabe, sua dança, esquisita e magnética (que o diga o garoto que vai cortar o cabelo), é símbolo de sua constante celebração ao amor ideal e à felicidade.


Bem, até que a realidade surge. Uma “briga” diz aos dois que a tal da realidade, a da banalização da vida a dois, está ali, à espreita. O medo dessa realidade impõe um desfecho forte, mas que eterniza o amor ideal. Na delirante e inesquecível seqüência final, mais uma vez o marido dança, reafirmando seu apreço pela alegria, pelo amor, pela fantasia, e o seu desprezo pela realidade. Entretanto, no take final essa poderosa realidade surge, amarga, soberana, observando-o lá do alto, como a dizer: não adianta, no fim o que vale é a vida real. Trata-se de uma porrada em nosso estômago, que é, como se sabe, o órgão que sente o amor (quem nunca sentiu frio na barriga quando apaixonado?).


Apresentados o marido, a cabeleireira e a linda e tocante fantasia sobre o amor puro e ideal, voltemos ao tema. Tio Môa me disse:


“Para ter o amor ideal, jamais abra mão da fantasia, do romance, da entrega, da paixão. Mas não idealize demais, porque as pessoas são de carne e osso e a vida a dois é de osso e carne. Cozinhando direitinho, colocando os temperos certos, embrulhando com papel alumínio, a carne fica tão tenra e macia, que solta do osso e derrete na boca."
Tem uma música, das antigas, do Jorge Ben que diz que “quem ama quer casa, quem quer casa quer criança, quem quer criança quer jardim, quem quer jardim quer flor, e como já dizia Galileu, isso é que é amor!”. Acho que tem muito mais gente do século passado do que se supõe.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Tio Môa News - Argentina aprova lei e bibas fazem festa

Tio Môa não estava fechado para balanço?

Final do capítulo anterior: tio Moa cai na sua própria armadilha. O moleque, dito cujo, carcará, o tal do B., leu no blog uma dica do Tio Môa, que tudo sabe, para atrair uma gata para seu covil: convidá-la para ouvir Elomar. Numa conversa telefônica com sua filha, tio Moa descobre que ela ouviu Elomar na casa do B. Ao descobrir, Tio Moa fica mudo.

“Meu mundo caiu e me fez ficar assim...” Na voz da Maysa essa música é o máximo. Maysa todos devem conhecer, há pouco tempo teve uma minissérie da Globo sobre a vida dela. A mulher era esculpida em tristeza e amargura. Essa letra é dela. Letra e música. Pode ouvir, é linda e uma excelente opção de trilha sonora para suicídio. Sim, suicídio: era só no que Tio Môa pensava nos dois dias em que ficou curtindo a fossa. “Minha filha, minha filhinha querida, não minha filha não... E ainda por cima por minha culpa. Eu que dei a dica.”

Sem saber o que realmente acontecera no quarto, ao som de “vem amiga visitar...” Tio Môa conjecturava, tentando se tranqüilizar: ela pode ter ido apenas ouvir o CD. Ou apenas conversar. Isso, ela foi apenas conversar. Qual o problema de uma inda menina de 17 anos ir conversar e ouvir um CD, dos bons, na casa de um amiguinho? Tá bom, um cara de 17, 18 anos não é um amiguinho. É um homem, vá lá. Mas e daí? Qual o problema? Nessa idade os meninos mal pensam em sexo, ficam apenas focados nos estudos, no vestibular e em construir o seu futuro... Como diria minha filha, ahan...

Mas tio Moa, tal qual uma fênix, ressurge das cinzas, levanta, sacude a poeira e vai à internet tentar descobrir algo sobre o rapaz. Depois de fuçar aqui e ali, chegou ao Orkut do B. Um sorriso despontou na face do tio Moa. Aquelas fotos do B. não deixavam nenhuma dúvida. Ele é gay!!!

Deus, salve os gays, salve-os de todo o mal, iluminai seus caminhos. Eles ajudam a humanidade a procriar menos, reduzindo a proliferação dos seres humanos, a praga do planeta. Depois, eles deixam o mundo mais leve, mais alegre, menos sisudo, mais colorido, mais vibe. Vejam os filmes do Almodóvar, com aquelas cores e aquela estética gay (com o perdão da cacofonia). Vejam a prefeitura de São Paulo, que acabou com poluição visual dos outdoors.

E por falar em gays, ontem o parlamento argentino aprovou a lei que consente a união entre pessoas do mesmo sexo. Os hermanitos bibas já podem se casar. hehehe. Dá uma vontade de fazer piada, né? E eu faria, se não estivesse com inveja. Depois de eles levarem um divertido Maradona como técnico enquanto nós levamos o medíocre Dunga, mais uma vez a Argentina mostra ser um país mais evoluído. A aprovação dessa lei é uma conquista que abre caminhos para outros avanços, para que a sociedade seja menos atrasada, mais aberta, menos chata e nazista, e mais humana e divertida.

Aqui no Brasil ninguém ainda teve coragem de liderar esse processo (andou passando pelas mãos de um e de outro, mas ninguém que bancasse mesmo). O tema é polêmico, muita gente é contra. A igreja é, como sempre, contra de tudo o que, de perto ou de longe, esteja relacionado ao sexo. Para ela, sexo é uma coisa suja. Ela é a favor de alguma coisa além das orações e dos dízimos? Não regulamentar a união de pessoas do mesmo sexo é não reconhecer que ela existe, de fato, e há milênios. A lei não vai criar nada, só vai facilitar a vida de milhares de pessoas (questões de previdência, de adoção, de herança, etc). Aos que são contra, especialmente os homofóbicos: fiquem tranqüilos, pois a lei não obriga a nada, só permite. Assim, você não será obrigado a casar com aquele carinha que você fica olhando enquanto malha.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

TIO MÔA EM CRISE

No último post, Tio Moa cravou na Holanda. Errou. O Snejder até que fez a sua parte e colocou o Batman, digo, o Robben na cara do gol. Mas o goleiro tinha tornozelo e salvou. E na prorrogação, de tanto fazer preliminares, o tal do Iniesta, sem arrumar uma boa desculpa para não chutar, botou prá dentro, com força. Como disse a Bruna, 110 minutos de preliminares podem ser uma boa. Bem, mas o erro não foi total, afinal o texto acabava dizendo que Tio Môa torcer para a Holanda era uma boa notícia para a Espanha.


Erro mesmo foi no post anterior, em que Tio Môa dava uma dica para os sobrinhos cuecas. O título foi o seguinte: “Tio Môa Recomenda – Nada de luau: leve a gata prá ouvir Elomar na tua casa”. Erro trágico. Porque? Vejam a conversa por telefone entre Tio Moa e sua filha:

- Oi filha!
- Oi pá.
- E aí, tudo bem?
- Ahan.
(É lindo o diálogo entre pai e filhos hoje em dia, um poder de síntese fantástico!)
- Sei... Tem lido o blog?
- Ahan.
- Legal. Você não pode falar agora? Está comendo?
- Não, estou estudando, conversando no msn, penteando o cabelo, pesquisando um negócio prá mãe, passando um torpedo no celular, ouvindo música e fazendo unha.
- Puxa... E você consegue?
- Óbvio.
- Seus amigos estão gostando do blog?
- Ahan, principalmente o B. Ele disse que adora suas dicas.
- E você já ouviu o Elomar?
- Ahan.
- Que bom. Você comprou o CD ou baixou?
- Nenhum dos dois. O B. me chamou prá ouvir na casa dele.
- ...
- Pá... pai... pai... você ta aí? Ih desligou.

Tio Môa fecha para balanço!

domingo, 11 de julho de 2010

Tio Môa não é polvo mas crava: a Holanda vai ganhar!

Depois de um certo afastamento, Tio Môa está de volta, para a alegria das centenas de jovens ávidos por seus preciosos conselhos e orientações. Desta vez vamos falar, de certo modo, de futebol, afinal, hoje é dia de decisão de Copa do Mundo. Todo mundo tá dizendo que a Espanha é melhor e que vai ganhar. Mas você é do tipo que vai com a maioria? Eu sei que não. Ouça o que o Tio Moa diz: a Espanha não é melhor. - Mas Tio Moa, a Espanha tem o melhor toque de bola.


 Caro sobrinho, cuidado com isso. Uma coisa é ter o melhor toque de bola, outra coisa é ter o melhor futebol. Não se faz amor só com carícias e preliminares. Cobra parada não engole sapo! Se você tá lá com a gata, mãozinha prá lá, beijinho prá cá, e não pára nunca mais de fazer isso, logo logo ela vai pegar no sono. Tem que variar, alternar um pouco a pegada, e fazer o gol! A Espanha tem realmente um toque impressionante. Eles saem do campo de defesa para o ataque com toques curtos e vão tocando, tocando, e a defesa adversária vai se abrindo, abrindo, sabe como é... É realmente incrível a habilidade que todos do time têm para fazer isso. E vão mexendo a bola, sem pressa, até surgir, na movimentação, a penetração final. Só que na maioria das vezes isso está demorando muito a acontecer. A equipe adversária se fecha de novo e aí não entra mais, nem a pau, com o perdão da expressão. Por isso a Espanha não me encanta. Toques curtos e envolventes o tempo todo, num mesmo ritmo. Na verdade isso é muito chato. Não há tabelas. Tabela é bonito de ver porque são apenas dois jogadores levando vantagem sobre muitos. Os espanhóis não fazem lançamentos longos, com efeito. Sinto falta de dribles, de finalizações. Nada disso aparece com freqüência no jogo da Espanha. Só o tal do toque de bola envolvente, no mesmo ritmo e aborrecido. A Holanda não é nada de mais, mas é organizada e tem o Snejder, para mim o melhor jogador da Copa. Ele faz, com maestria, muitas coisas diferentes: lançamentos longos com efeito, toques curtos, armação do time alternando o ritmo de jogo. E tem o Robben, muito habilidoso, dono de um chute sensacional. Além disso, ele tem uma história de superação, vencendo incontáveis contusões e até um câncer. A Copa costuma ser generosa com jogadores assim, que o diga Ronaldo em 2002. Snejder e Robben me parecem ter mais o perfil de “jogador que define” do que qualquer um jogador da Espanha, e isso pode ser decisivo se o jogo estiver equilibrado. É claro que a Holanda, ao contrário da Espanha, não tem jogadores habilidosos em todas as posições, mas seu futebol, no geral, me parece mais completo, inclusive quanto àquela pegada mais forte, que não é a da Espanha.


 É claro que qualquer um pode ganhar, mas cravo na Holanda. E, agora que dei publicamente um palpite, preciso torcer por ele. O que é uma boa notícia para a Espanha!

sábado, 10 de julho de 2010

A RIVIERA É BEM AQUI, SIM SENHOR

Está em cartaz nos cinemas o filme "A Riviera Não é Aqui". Fui ver. Vejam como é a história: numa tentativa desesperada salvar seu casamento com a bela Julie e tirá-la da depressão, o funcionário público Philippe tenta realizar um sonho do casal, com sua transferência para um lugar maravilhoso, a Riviera. Para isso comete uma fraude, é descoberto e transferido para o outro extremo do país, um lugar frio, inóspito e com uma população rude, que mal fala sua língua. Pior: terá que ficar lá por dois anos e sem sua esposa e filho. Com seus sonhos destruídos e sozinho, ele parte para a sombria Berges. O filme aborda ainda outros temas pesados, como o preconceito, a mentira e o alcoolismo.

Você, que já está pensando em fugir do filme, não sabe da maior: o filme é francês! Pronto, fugiu... Esse nunca mais volta a ler o blog!

Falo então para você, que ainda está lendo: continue (já conseguiu até aqui...). Pela história o filme poderia parecer mesmo um dramalhão, mas é um daqueles raríssimos filmes que te fazem rir o tempo todo. Não como a maioria das comédias que você ri muito no começo, depois o ritmo vai diminuindo, diminuindo, até virar uma comedia romântica morninha no final. Este, ao contrário: é engraçado no começo, mas o ritmo vai aumentando cada vez mais e quando passa da metade do filme, aí você pode não parar mais de rir. A não ser em alguns momentos, para chorar com alguns momentos emocionantes.

O filme tira a sua graça primeiramente das ótimas atuações do elenco, que parece talhado para a comédia. Kad Merad, que faz o atrapalhado protagonista, é fantástico e faz rir mesmo quando o texto não traz uma piada.

Depois, a graça vem da incrível familiaridade que sentimos com as pessoas, com a situação e, inclusive, com a empresa em que quase todo o elenco trabalha (La Poste, o correio da França). Parece que estamos em casa, tudo é simples, a gente, o cotidiano, as situações. O cinema também é simples, não há um roteiro complexo ou sinuoso, não há uma direção elaborada, não há, enfim, efeitos ou pirotecnia. É um cinema simples, extremamente simples. E essa simplicidade, que não se opõe à beleza, é uma bela opção para o cômico (lembrar personagens de Chaplin e Jerry Lewis).

Por fim, essa comédia se constrói com o choque cultural. Assim como os aspectos divergentes vão surgindo, dando graça, eles se dissipam, com mais graça ainda: primeiro, a fala muito diferente da região, depois as comidas, os costumes do povo, a bebida, e por aí vai. Com a queda, uma a uma, de todas as diferenças, o preconceito e a visão distorcida que se faz de um povo que mal se conhece, se transformam em cumplicidade, em comunhão.

Como num bom filme do Jerry Lewis, “A Riviera...” é recheado de pequenas pérolas, como a cena da descoberta da fraude, a da multa na estrada ou a do marido contando para a esposa e amigos como é dura a vida no norte. Outras tocam, como a que apresenta os carrilhões de sinos ou a do pedido de casamento. E prepare-se, porque algumas longas seqüências provocam dor no abdômen, daquelas em que toda a platéia ri a plenos pulmões: o chefe acompanhando o carteiro no distrito e a recepção da esposa na cidade.

Mesmo com a melhor qualidade que uma comédia pode ter, fazer rir, “A Riviera Não é Aqui” não se limita a isso: fala de temas como aceitação, amor, amizade e equipe. O sucesso do filme está ligado ainda a outra coisa, tão ou mais importante: ele fala de algo que nos atormenta a todos - a eterna contradição entre nossos sonhos (nossas Rivieras) e a nossa vida real (nossos simples "aquis"). Mas quem diz que nossos sonhos são bons? Nós queremos um lugar ou um estado de espírito? O que é um lugar bom? O Wander Wildner dá a dica: quer um lugar onde a cerveja seja barata, as pessoas ouçam Beatles, sejam loucas e super chapadas - "Um Lugar do Caralho!". O filme, sem pieguice, só com graça e bom humor, parece dizer que algo parecido: a "Riviera" é bem aqui, sim senhor.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

FELIPE MELO E O HOMEM DE NEANDERTAL

Ontem, ao receber a Folha, pela manhã (adoro jornal de papel) vi na capa a foto do criminoso, do fascínora, do inimigo público número 1, Felipe Melo, chegando ao Rio, voltando da África do Sul.

 Não gosto do jogador Felipe Melo, que nem devia ter ido à Copa, mas vejam a foto: não é mais o jogador truculento e nem podia ser. Aqui ele está na vida real, chegando em casa, querendo colo da família, e é cercado por policiais para protegê-lo da ira das pessoas. Aqui, nesta foto, ele não passa de um menino assustado. É ou não é chocante? O que faz as pessoas tomarem sei lá quantos ônibus para agredir um jogador chegando de viagem?

 Ele traiu o país? O Brasil perdeu por causa dele? É claro que não. Ele fez algo que ninguém esperava que fizesse? Não, ele fez exatamente o que se esperava dele. Havia até bolão para apostar em que jogo ele seria expulso. Mesmo se as respostas acima fossem sim, nada justifica a possível agressão, cujo nível, verbal ou físico, e intensidade ninguém poderia prever.

 Costumam dizer que sempre queremos achar um culpado. Eu desconfio que não seja esse o caso. Acho que é algo pior: nosso desejo de violência, nossa natureza bárbara, que, pela evolução e socialização, fica escondida abaixo de nossa superfície, mas que é viva, muito viva. Sempre que podemos apedrejar alguém, damos vazão a essa natureza. Por isso, apedrejar é a melhor diversão do mundo: liberamos energia negativa, tiramos nossas tensões, nos conectamos com nosso mais profundo eu.

O menino Felipe Melo assustado me lembrou cenas do Alexandre Nardoni sendo escoltado pela polícia. Não pelo fato de os dois terem saído protegidos da ira popular, mas pelo que está por trás disso: nossa atração por casos que despertem nossa raiva. Adoramos isso. Quando acontece um caso como esse, temos o que falar no elevador, temos bons motivos para conversa, assistimos o noticiário de todas as redes e àqueles chatíssimos programas de auditório, com entrevistas sobre o caso (chamam psicólogos, criminalistas, etc). Até Fantástico a gente assiste para ver as entrevistas exclusivas. Enfim, ficamos satisfeitos. Indignados, é verdade, mas, sobretudo, satisfeitos.

O que faremos quando a raiva contra o menino Felipe Melo passar? O que vamos fazer para ocupar nosso tempo e estimular nossa ira e desejo de apedrejar? Sossegue: já temos outra diversão: o goleiro Bruno e o sumiço de Eliza Samudio. Chegamos a ficar preocupados com a esfriada que o caso tinha dado nos últimos 3 dias: sem fatos novos e circulando na internet que a menina “não é flor que se cheire” (os “machos” adoras vir com essa - lembram-se da Geisy Arruda, “a vagaba”?). Mas hoje o caso Bruno esquentou de novo, contra ele, e muito. O cerco está se fechando: diversão garantida.

Você pode discordar do tom irônico, tudo bem, mas te proponho um exercício de imaginação, no qual você tem que ser absolutamente sincero, não comigo, mas com suas próprias entranhas: imagina que amanhã a moça apareça, viva e bem de saúde. Seria ou não seria um grande anti-climax? Um tipo de decepção? A gente não murcharia um pouco? Não seria como tirar o prato de feijoada da frente de um glutão faminto.
 Ninguém torce para ela aparecer, mas sim para acharem o corpo e provas que incriminem o cara. Não que a gente deseje a morte de ninguém, é claro que não. Somos humanos e nos indignamos com isso. Mas no fundo, bem lá no fundo, junto com a nossa indignação cristã, o que ansiamos é que a morte e a existência de um culpado liberte o Homem de Neanderthal que temos dentro de nós, e nos possibilite carregar livremente nossas clavas e tochas, devorar carne crua e nos vingar do culpado pelas nossas frustrações e pela falta de significado das nossas vidas.
  Mas, igual a tudo na vida, este caso vai acabar e, como se passasse o efeito da poção do Dr. Jekyll, voltaremos à nossa auto-imagem moderna e poderemos descansar, quem sabe até chorar baixinho no colo da mãe, como deve estar fazendo agora o Felipe Melo.

domingo, 4 de julho de 2010

Copa 2010 – Sorria, o Brasil ganhou!

O Brasil ganhou 5 copas graças ao talento, mas existem 2 bobagens que dizem por aí e que podem iludir você, leitor incauto:

1. Futebol bonito não ganha copa. Os idiotas da objetividade falam da derrota da seleção de 82 (futebol arte) e da vitória em 94 (futebol marcador e guerreiro). Não caia nessa bobagem. Em 94 quem venceu foi o talento, sim, o de Romário, cujos gols nos salvavam jogo a jogo até a final. O futebol marcador quase pôs a perder a copa e a final mais fáceis da história. Na final, contra uma Itália esfacelada, que não ganharia nem da Ponte Preta, o jogo foi para os pênaltis. E olha que o charlatão Parreira não queria convocar o Romário nem por decreto, mas teve que engolir devido à pressão popular. Já o energúmeno Dunga não cedeu e dançou. Resumindo: raríssimas vezes o futebol arte, ou o melhor futebol, perdeu uma Copa. Portanto, abrir mão do talento é burrice.

2. Em 2006 não ganhamos por causa do clima de festa. Bobagem: quem perdeu foi Parreira, que escalou mal. Ronaldo, Adriano, Cafu e Roberto Carlos, em horrível forma física e técnica, eram verdadeiros postes, não tinham condição de jogar nem na Ponte Preta. Seus substitutos estavam em excelente forma: Fred, Robinho, Gilberto e Cicinho (este, com 10 anos a menos que o senhor de meia idade Cafu, estava voando). No jogo que nos eliminou, Parreira deixou em campo os 4 postes. Zidane e a França dominaram todo o jogo. Fizeram o gol no começo do segundo tempo. Parreira só colocou o Cicinho e o Robinho no final do jogo, aos 32 e aos 35 minutos. Resumindo: quem perdeu em 2006 foi o técnico, não a festa (até porque a grande seleção de 2002, que venceu a Copa, era super festeira. Mas a CBF não entendeu e resolveu chamar para técnico um bedel, que nunca havia sido técnico na vida, e falou prá ele: acaba com a bagunça. E o bedel Dunga respondeu "deixa comigo, doutor, craque, só chamo se for de Cristo”.

E perdemos a Copa, é claro! Futebol é simples demais, basta escolher os melhores (inclusive o técnico) e botar prá jogar, sem esquecer nenhuma das funções vitais. Zagalo, limitado no aspecto tático, sabia que Copa do Mundo é o lugar dos melhores. Dunga não. Questionado por não chamar os melhores, despreparado e extremamente limitado como pessoa (coitado, é um bedel), se fechou com um grupo de medíocres. Os bons eram cordeirinhos. Quem não era nem um nem outro, ficou na sua, quietinho. Os medíocres colocam a hierarquia, o grupo e o espírito guerreiro à frente do objetivo maior (ganhar a Copa). Assim o grupelho se fechou. Os números, que significam muito menos do que os idiotas da objetividade acreditam, iludiram a imprensa e a torcida. 



O grupo de guerreiros focados neles mesmos entrou em campo irritado, bravinho, reclamando de tudo. Ainda no primeiro tempo Robinho estava nervosíssimo, Dunga parecia um surtado fora de campo. No segundo tempo, logo no início, Michal Bastos deveria ter sido expulso com uma entrada crimonosa em Snejder, mas o juiz fez vistas grossas. Em seguida, tomaram o gol e, sem maturidade, o time todo se perdeu. Outro problema: a seleção não tinha nenhum meia-armador (que organiza o time). É o que faz Schweinsteiger na Alemanha, Iniesta na Espanha e Snejder na Holanda. Um time não pode ganhar uma Copa sem um jogador que faça isso, como um time de volei não ganha sem levantador. Kaká não faz essa função, nunca fez. Temos craques que fazem isso, como Ganso (um dos melhores do mundo na atualidade), Zé Roberto, Diego e Alex. Juventude também é importante. Dunga não chamou Neymar e Ganso alegando que são novos e inexperientes (como se ele mesmo não fosse com técnico). O técnico alemão chamou Ozil, 21 e Muller, 20, que estão encantando o mundo.


Mas sorria, o Brasil ganhou! Porque quem perdeu para a Holanda não foi o Brasil, foi a seleção da CBF e do Dunga. O futebol brasileiro venceu, pois provavelmente teremos um técnico de verdade. Melhor ainda: perdeu a mediocridade que assola o país, desde o governo, passando pela gestão pública e chegando ao futebol. Morte à imbecilidade da supervalorização do espírito guerreiro, representado pelo primitivo Felipe Melo, eleito no ano passado o pior jogador da Europa, mas adorado por Dunga.


Quem sabe agora cuidaremos mais de valorizar o talento, a competência, a arte e a beleza?
Obrigado, Snejder!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

BRASIL E HOLANDA – EFICIÊNCIA X ARTE

Ôba, um post sobre futebol! Que legal! Copa é Copa, não é hora de filminho, de musiquinha, de elomarzinho.

Então vamos lá: O Brasil ganhou a copa de 1970 (minha primeira copa) jogando o futebol mais lindo que já vi até hoje, junto com outros dois times: a seleção de 1982 e um outro que depois eu conto.

Em 70 tinha Pelé e Tostão. Tinha Rivelino, de quem Maradona diz ter sido fã e o melhor jogador que já viu. Tinha Jairzinho, que marcou gol em todos os jogos daquela Copa.

A seleção tinha também Clodoaldo e Carlos Alberto. Mas também tinha, e é nele que quero chegar, o Gerson, que fazia lançamentos muito, muito longos, e incrivelmente precisos. Alguns dos gols mais lindos daquela copa saíram de seus lançamentos. Gerson lançava curvando o corpo, que ficava côncavo. Uma beleza!

Mas houve um jogador cujos lançamentos eram ainda mais fascinantes: Dicá, da Ponte Preta. Eu cresci vendo Dicá no estádio, ao vivo. O detalhe fascinante de seus lançamentos: eram feitos lá de trás, no campo de defesa, para um atacante 50 metros à frente. E daí? Qual é a graça? Explico: dessa distância, o zagueiro tem toda chance de interceptar. Só que o zagueiro saía correndo para um lado, mais para o meio, onde, pela trajetória, a bola chegaria. Já o ponta direita (Lúcio), corria abrindo pela lateral. A força exata para a bola cair no gramado antes de chegar ao zagueiro, mais o efeito da “trivela” de Dicá, faziam com que a bola, após bater no gramado, mudasse totalmente sua trajetória, indo adivinha para onde? Isso, para a direita, onde Lúcio esperava para fazer a festa, com a defesa adversária descomposta. A torcida aguardava momentos assim, mágicos, o jogo todo. Com Dicá em campo, mais cedo ou mais tarde, eles aconteciam. A torcida ria, aplaudia, delirava. Ali foi que aprendi, ainda antes de mergulhar no teatro, cinema e na música, o que era arte, o que era a beleza.

E o que tem tudo isso a ver com Brasil e Holanda, que jogam pela Copa da África? Tudo. A Ponte Preta, um dos 3 times que jogaram o futebol mais bonito que já vi, no ano em que foi considerada o melhor time do Brasil perdeu a decisão para o Corinthians, um time sem brilho, mas com uma eficiência impressionante (um ano antes, eliminara do campeonato brasileiro outro time que jogava muito mais bonito, o Fluminense, a chamada máquina).

Pois no jogo entre Brasil e Holanda, desta vez somos nós somos o time sem brilho (calma! não é limitado, não é sem técnica, mas não tem o mesmo brilho, ou arte) e a Holanda, na minha opinião, representa o brilho, a arte. Isso porque eles tem o Snejder, que outro dia fez um lançamento de Dicá, o primeiro que vi em 20 anos, desde a aposentadoria do mestre. O mesmo efeito, o mesmo zagueiro perdido, trançando as pernas, e o Robben pegando a bola do outro lado: gol. Em outro jogo, novamente um lançamento quilométrico, mas desta vez mais direto, tipo Gerson, e de novo para Robben, o Jairzinho deles. E de novo gol.

Mas a Holanda não tem só os dois, não. Tem muitos bons jogadores. Apesar disso, e de saber marcar, a Holanda não é o Brasil, que sabe ganhar. Se os brasileiros ficarem como cobra parada, que não engole sapo, contaminados pela soberba da torcida e dos jornalistas, e não se preocuparem muito em marcar essa dupla, como não marcaram Zidane em 2006, poderemos amargar mais uma eliminação precoce. Sem o Brasil, eu torceria para a Holanda chegar à final e devolver e derrota que sofreu para a Alemanha na decisão de 1974, ou para a Argentina, em 1978.

Espero que as pessoas que estiveram comigo, em tantos jogos entre 77 e 81, tenham visto as jogadas do Snejder e viajado no tempo, sentindo de novo a quentura do cimento do Majestoso, só aliviada quando nos levantávamos para aplaudir o Mestre Dicá e companhia, naquela época de fantasia, beleza e alegria.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Tio Moa Recomenda – Nada de luau: leve a gata prá ouvir Elomar na tua casa.

Eu sei que você deve estar pensando que é loucura. “Ih, como é que eu vou chegar prá gata e convidar prá ouvir Elomar. ELOMAR? O que é isso vélho..?”. Olha, só peço que confie. Você não tem nada a perder, não está pegando ninguém mesmo... Estou apenas cumprindo a declaração de intenções publicada anteriormente. (fazer a Scarlet Johanson te olhar daquele jeito). Depois, o resto é contigo (eu só sei até aí...).

Elomar compõe e canta o sertão. Calma, não é aquele “ser - tão chato” que os covers de cowboy americano colocam estourando no som do carro, com as portas abertas (antes era só no interior de SP, MG e Goiás, mas há anos a praga se espalhou e é capaz de, em plena praia de Ipanema, que já ouviu coisas bem melhores, alguém parar o carro, abrir as portas e colocar aquilo para o mundo ouvir).

Voltando: Elomar Figueira Mello, baiano de Vitória da Conquista, estudou arquitetura na cidade grande, mas voltou-se à cultura de seu povo e tornou-se cantador, tocador de viola e trovador. Vive na roça criando bode, fazendo cercas, compondo e escrevendo. Elomar tornou-se historiador de seu povo e sua crença. Passou a cantar a caatinga e o sertanejo. Também já compôs músicas clássicas (várias óperas!) e tocou com a sinfônica de Moscou. Não é fraco não o malungo!

Seu violão é muito bom de ouvir. Bom demais. Milhões de vezes melhor do que aqueles violõezinhos chinfrins que você ouve num luau. Pense bem: prá que luau se você mesmo, eu sei, não gosta? Você vai só prá tentar pegar alguma gata, mas me conta, quantas vezes conseguiu pegar alguém num luau? Você vai lá, vê a menina que você está a fim se derreter pelos carinhas que tocam, não fica com ninguém e ainda tem que ouvir aquelas músicas chatinhas que todo mundo canta junto, com aquele sorrisinho besta na cara. O pior é que você tem que fingir que está gostando, até balança teu seu corpo prá lá e prá cá, mesmo sabendo que está ridículo. Até cantarola junto! Todo esse sacrifício para não ficar com ninguém!

No lugar disso, convida ela prá ouvir Elomar. "Elomar", ela vai perguntar. Responda: "Você vai mudar o seu conceito de música depois que ouvir? é de uma beleza e de uma sensibilidade como você nunca viu". Pronto, falou em beleza e sensibilidade: você se colocou acima daqueles chatinhos do luau. Por isso e pela curiosidade ela concorda e vai ã sua casa, é certo. 

Bom, mas é bom que antes disso você conheça um pouco do Elomar, é claro. Nada tema, com Tio Moa não há problema. Então vamos ao que você deve saber de início: a música do Elomar te leva, numa viagem calma, prá outro lugar, baby, onde a você pode sentir cheiro de assa-peixe (uma arvorezinha do mato que solta um cheirinho delicioso).

Esqueça aquela música dita sertaneja que você não suporta mais. Saiba que é possível cantar o sertão sem aquela insuportável voz de taquara rachada e, melhor que tudo, sem tremer a voz no final de cada frase como se sofresse de Parkinson!

Esqueça aquelas músicas, todas com a mesma melodia, sempre te dando a impressão de que no refrão vão cantar “daquele momento até hoje esperei você...”. Esqueça aquelas duplas (só tem duplas... deve ser proibido por lei cantar aquilo sozinho) que além de cantarem as mesmas melodias, cantam a mesma letra, só trocam as palavras. Esqueçam coisas como “Já não sei o que fazer - Outro amor não sei querer - Preciso tanto te esquecer” , ou “Eu não sei pq que eu fui te amar assim - Te dei meu sonho e você não me deu...”. Uau, não deu o quê? Aquilo? Chama a Cleycianne!!!

Esqueça tudo isso e conheça Elomar, que canta do jeito que realmente se fala lá dentro do Brasil, que não é o país das bundas e do futebol (adoro as duas coisas, mas tem muito mais do que isso no Brasil-zil-zil). Vou dar um exemplo e mostrar a letra de uma das músicas mais tristes e melancólicas que já ouvi, e mais lindas, também. Mas antes saiba que:
 Ritirante: (de retirar-se – retirante) povo que sai de uma região por causa da seca ou pobreza, em busca de uma vida melhor, menos sofrida.
 Incelença: forma de expressão musical típica do nordeste, usada para facilitar a morte dos agonizantes, de modo minimizar seu sofrimento.
 Inhambado: mal sucedido, lascado.
 Derna: desde.

Incelença pro Amor Ritirante
Vem amiga visitar/ A terra, o lugar/ Que você abandonou
Inda ouço murmurar/ “Nunca vou te deixar /Por Deus nosso Senhor”
Pena cumpanheira agora/ Que você foi embora/ A vida fulorô
 Ouço em toda noite escura/ Como eu a sua procura/ Um grilo a cantar
Lá no fundo do terreiro/ Um grilo violeiro/ Inhambado a procurar
Mas já pela madrugada/ Ouço o canto da amada/ Do grilo cantador
Geme os rebanhos na aurora/ Mugindo cadê a senhora/ Que nunca mais voltou
Ao Sinhô peço clemência/ Num canto de incelença/ Pro amor que retirou.

Faz um ano in janeiro/ Que aqui pousou um tropeiro/ O cujo prometeu
De na derradeira lua/ Trazer notícia sua/ Se vive ou se morreu/
Derna aquela madrugada/ Tenho os olhos na istrada/ E a tropa não voltou

Veja o que é ver a vida com poesia: queixar-se de que até a mulher do grilo todo lascado aparece, mas a dele não. Ao dizer que ouve no mugido do rebanho a pergunta “cadê a senhora...?”, o autor, genial, transfere a emoção da saudade do caboclo para os animais, aumentando ainda mais a grandeza de seu sentimento pela mulher que tomou chá de sumiço. O que dizer então da dor de não tirar mais os olhos da “istrada”, esperando já nem mais pela mulher, mas por notícias dela? Assim é a boa poesia: profunda, doída, cheia de imagens, delicada, sutil e sobretudo bela.

Comente isso com a menina.

Elomar talvez seja o exemplo mais representativo da beleza da poética musical do sertão do Brasil, o Brasil que a gente não vê, não conhece, mas que tanto influenciou a nossa cultura. Essa música está no disco “Das Barrancas do Rio Gavião” e em outros de Elomar. O disco tem outras preciosidades, dentre elas “O Violêro”, que fala sobre a felicidade e a opção pela vida simples. Hoje falar disso dá um montão de dinheiro pros autores de livros de auto-ajuda (daí o nome auto-ajuda: ajuda quem escreve!), mas se tiver que gastar meu rico dinheirinho, prefiro ouvir Elomar dizer isto:


Si eu tivesse di vivê obrigado/ um dia inhantes dêsse dia eu morro...
Apois pro cantadô i violero/ só hai treis coisa nesse mundo vão
amô, furria, viola, nunca dinhêro/ viola, furria, amô, dinhêro não


Elomar não é só um grande letrista, não. Suas melodias também são lindas e ele canta/interpreta muito. Enfim, Elomar sabe que cobra parada não engole sapo. Tanto sabe que tem até um site, digo, porteira oficial (http://www.elomar.com.br/). Entra lá e peça lá uns discos. Sugiro, além do que falei, o “Na Quadrada das Águas Perdidas”, de 1978, um disco maravilhoso (o vinil é duplo - eu tenho um velho e um novinho, que garimpei recentemente num sebo e pelo qual paguei um preço bem salgado: nada mais justo) e “Elomar em Concerto” (1989), que tem uma versão fantástica da "Incelença...".


Se antes de comprar, quiser ouvir, procure em blogs e baixe. Ou passe lá em casa que a gente faz um sarau, digo, furria! Pode trazer a gata, ela vai adorar - depois me paga um vinho!



domingo, 27 de junho de 2010

Cafu Mecânico e a Seleção de Dunga: a cara do Brasil

A mais nova propaganda de óleo para motor mostra Cafu com um bigode, se disfarçando para poder jogar num torneio só para mecânicos. Os adversários perguntam se ele é o Cafu, os outros dizem que não, e Cafu explica que entende de partida, mas de motor. Engana os adversários, burlando a regra, e assim que o jogo começa, faz um gol do meio campo, exacerbando a diferença técnica e física entre as equipes devido à inclusão ilegal do jogador travestido de mecânico. A bola foi para as redes e a ética para o ralo!

O que é isso? Porque ninguém reclama? Onde está o CONAR - Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, que inclusive já retirou de uma propaganda Ronaldo segurando um copo de cerveja (beber não pode, mas enganar pode)? E as dezenas de institutos de ética que tem por aí? O Instituto Brasileiro de Ética nos Negócios inclusive tem o seguinte texto na capa de seu site.  

“A Ética é a base da atuação responsável empresarial e o passaporte para a Sustentabilidade”, pois, se os negócios forem conduzidos de maneira ética, íntegra e honesta, a empresa também será socialmente responsável e ecologicamente correta. A missão da nossa instituição é fomentar a Ética no meio empresarial e também junto as crianças, jovens e universitários porque os estudantes de hoje serão os colaboradores, executivos e proprietários das empresas de amanhã. É desta forma, contribuindo para a melhoria da qualidade ética das empresas e para a formação de adultos-cidadãos e líderes eticamente responsáveis que potencializamos a perspectiva de um futuro mais ético e assim, naturalmente Sustentável."

E você, o que achou da propaganda? Vou adivinhar: achou engraçada, nem tinha percebido que elogiava a enganação para benefício próprio. O próprio Cafú nem deve ter percebido. Uma propaganda com gente simples, jogando uma pelada, uns velhos e uns barrigudos contra um jogador de nível profissional usando um bigode postiço engraçado, que faz seu time obter vantagem competitiva ilegal. Você riu, certo?

Calma, você não é diferente da esmagadora maioria do povo brasileiro.Todos acham a propaganda engraçada. E, convenhamos, é só uma enganaçãozinha de nada, uma falta de ética pequenininha, que só prejudica uns barrigudos com cara engraçada jogando bola no campo do Juventus.

Tudo bem, porque falta de ética mesmo, de verdade, é só aquela que prejudica pessoas magras e saradas jogando bola no Morumbi, certo? É só aquela que arrecadou 3 mil reais ou esta também é pequenininha e devia ser errado só se arrecadasse mais de 100 mil reais? Já sei: talvez o problema seja a falta de regras claras sobre os limites da ética ou da corrupção. Por exemplo, economizar material para a construção de um prédio só deveria ser crime se matasse mais de 10 pessoas. Até 9 seria apenas uma pequena falta de ética.

Mas como não há regras claras sobre a ética, você não tem nada que ficar indignado se um funcionário da área econômica do governo passar informações privilegiadas para que alguém obtenha vantagem competitiva e com isso obtenha lucro. Dê uma risadinha, é o Brasil. Também não se finja de pasmo quando um político sabidamente corrupto é eleito, e com a maior votação de um deputado no Brasil. Se você ficar indignado é um careta, não tem humor, não entende a cara do Brasil, não é patriota.

Simão Bacamarte, o Alienista, personagem de Machado de Assis, achava que a loucura era uma pequena ilha perdida no imenso oceano da razão. Depois, ao ver que, de perto, todo mundo era pelo menos um pouco louco, começou a perceber que a loucura, na verdade, era um imenso continente, e a razão, um pequeno lago. Acaba concluindo que, se o normal é ser louco, então deve ser internado como louco quem é normal.

Conclusão: devemos é calar a boca no lugar de criticar alguém antiético. O Brasil é o país antiético por convicção. É um país corrupto e acabou. Um país que ri das suas desgraças e das suas mazelas. E quem for contra não é brasileiro.

Mas, como estamos na Copa, voltemos ao futebol, e, como cobra parada não engole sapo, vamos juntos, torcer pela seleção de brucutus-focados do coerente-com-a-mediocridade Dunga, contra os verdadeiros artistas (argentinos, alemães, holandeses e até chilenos), afinal, somos todos guerreiros, brasileiros e patriotas, embora um pouco, só um pouquinho, antiéticos e corruptos. "Maish quem não é?"*.

"Sou, mash quem não é?" era o bordão do bêbado Tavares, um engraçadíssimo personagem com que Chico Anísio ironizava o perfil do canalha brasileiro.
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