segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A Incrível História do CPNES - Parte 4

Não quero me repetir, por isso, sem delongas, apresento o membro número 5. Lembro apenas que, ao falar de algum membro, acabarei abordando o grupo Cobra Parada não Engole Sapo, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.


Membro número 5. Uma noite, após uma apresentação de “A Morte de Humberto Laraia” que tinha na platéia nada mais nada menos que o Caetano (sim, ele, o Veloso), fomos todos ao Beirute. Eu poderia dizer que o Caetano foi à nossa peça porque estava louco para vê-la, porque sua fama tinha chegado a ele, etc. Mas, como vocês sabem, eu prezo a verdade e prefiro contar o real motivo da ida do Caetano. Na noite anterior ele havia feito um show no Teatro Nacional; o ingresso era caríssimo para nossos padrões. Mas como o Tiba queria catar uma menina que era fã do Caetano, ele tanto fez que conseguiu entrar no camarim para pegar um autógrafo. Sabem como era o Tiba, aquela carinha de caipira desprotegido, aqueles olhos negros como a noite...

Bem, no dia seguinte estava lá o Caetano na platéia do CPNES, louco para ver a peça. Aplaudiu demais, foi ao nosso camarim e depois saímos todos e fomos ao Beirute. Todos não. O Tiba foi atrás da menina, levar o autógrafo. Caetano estava com uma cara péssima. Mas ao seu lado na mesa estava alguém cuja conversa mudou a sua noite e o influenciou a compor seu disco mais moderno e surpreendente, além de um dos mais inspirados.

Quem estava ao lado do Caetano? Vamos lá, desde o início:

Ela ainda era uma semente do que seria quando, descendente direta da linhagem de abastados senhores do café, vivia entre a cruz e a espada. A cruz era a religião, que, como se sabe, era usada pelos senhores para alentar os escravos e convencê-los de que havia algum sentido no fato de trabalhar de sol a sol sem ganhar lhufas, ou, ganhar, no máximo, o que Luzia ganhou atrás da horta (aos sobrinhos: não foi salsa o que Luzia ganhou atrás da horta, nem cebolinha, e certamente também não foi rúcula ou erva doce).

Voltando aos escravos, eles eram negros, como se sabe. Também eram, como se sabe, bem dotados... de força e determinação. Para acalmá-los e desviá-los dessa coisa de justiça terrena, os senhores pregavam a religião, lembrando que após a morte a vida é eterna e, portanto, muito mais duradoura que a vida antes da morte. Lá os escravos seriam ricos e comeriam aquelas branquinhas sem precisar ser jogador de futebol nem cantar pagode. Os pobres seriam ricos e os ricos seriam pobres e lamberiam seus pés chulezentos, o que podia ser considerado o inferno. Assim os mantinham serenamente agradecendo as chibatadas.

Voltando ao membro número 5, na sua adolescência continuava a viver entre a cruz e a espada. A espada era o comprovado, o exato, e a cruz, a religião, que se dizia portadora do moralmente certo. Mas o membro número 5 questionava tudo, a começar pelo seu próprio nome: “Mãe, como eu posso como ter “mar” no meu nome se eu vivo em Minas?” Sua mãe respondia que era prá ela ter a cabeça além daquelas montanhas, no que ela não pode ver.

Questionando tudo o que não podia ver, resolveu entregar-se ao que podia ver e comprovar, entregar-se ao que era o certo, no sentido de exato, concreto. Assim chegou à engenharia civil. Entretanto, ao visitar os prédios mais representativos, percebeu que não ligava a mínima para a resistência dos materiais, nem para as estruturas, pilares e vigas, mas sim pela beleza dos acabamentos. Tanto isso é verdade que até hoje finge fazer exercícios, em Brasília, para admirar obras de arte, como os azulejos de Athos Bulcão (o Correio Brasiliense, que vive atrás de membros do CPNES, a entrevistou numa dessas saídas - pode procurar no Google).

Insatisfeita com a engenharia civil transferiu-se então para a engenharia elétrica na esperança de encontrar as respostas para suas indagações, mas descobriu que, ao subir num poste de alta tensão, o que a encantava não eram os componentes citados pelo Helio Creder em seu livro de instalações, não os campos elétricos mas o campos verdejantes e o horizonte. Na verdade, adorava o que não podia ver, o que estava além, como vaticinara a mãe.

Certa manhã saiu para pensar nas suas dúvidas sobre a vida. Caminhando descalça, afundando os pés na lama gelada das margens do rio Paraibuna, que corta Juiz de Fora, viu Roque, um santeiro (escultor de santos) que tinha uma queda por ela e que havia sido morto 3 dias antes. Ele apareceu para ela e disse: “vá para Brasília, lá você vai encontrar o que procura”.

No dia seguinte ela pegou as malas e sumiu pela estrada. Dito e feito: lá ela se encontrou, e foi no exato instante em que, durante uma aula de contabilidade, dormindo os seus costumeiros e profundíssimos sonos, sonhou que não era uma bíblia e que também não era um capacitor, mas sim uma flor, a mais linda das flores, e que viveria rodeada de outras rosas, cravos, jasmins, violetas, e árvores como as centenárias ceratonas, os ipês e tudo mais o que Burle Marx já inventou. No sonho, a fragrância de suas pétalas inspiraria todos aqueles que lutassem pelo que é belo e pelo que é justo e que seus espinhos sangrariam as mãos dos impuros. Quando o último aluno saiu da sala e bateu a porta, ela acordou. Já não era mais mar. Era Flor.

E seu sonho se cumpriu. Rosaflor, de inteligência invulgar, amante das letras, da poesia e de Guimarães Rosa, ajudava nos textos escritos pelo Tio Moa (que ainda não era tio, mas sobrinho) e nas músicas; nos inspirava a todos na luta contra a injustiça e na busca da beleza, o que faz ainda hoje, com seu jeito mole e sua fala mansa, que diz ao balanço do vento.

Voltando ao início, Caetano estava irritado. Ao lado, a Rosa que, já meio alterada, começou a chamá-lo de Velô (como todos do CPNES, sempre afrontando autoridades...). “O, Velô, você tem que ler o Guimarães Rosa”. E falava sobre Camões, sobre paródias e confusões de prosódia, poesia concreta, flor do Lácio, e todas aquelas coisas que ela sempre dizia prá gente quando estava alta. Só que a gente nunca fez daquilo uma música. Caetano compôs, ali mesmo, na nossa frente, diretamente influenciado pela Rosa, a música “Língua”, que gravou no disco do ano seguinte, chamado “Velô”. Por algum motivo, acho que outra música do mesmo disco, “Podres Poderes”, tem algo a ver com o Tiba. Rosa tem um filho. Adivinhem o nome...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A Incrível História do CPNES - Parte 3

Na parte 1 você viu que o “Cobra Parada Não Engole Sapo” (CPNES) foi um grupo que fez arte no início dos anos 80 e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Você viu também o quanto os brasilienses Renato, Bi, Dado e Dinho, ícones do Rock Brasil dos anos 80, viajavam com o CPNES e o quanto foram influenciados.


Na parte 2 você foi lembrado de que o CPNES foi um grupo que fez arte no início dos anos 80 e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Você também conheceu 3 membros do grupo: o Panta, o Sobral e o perseverante Marcovitch

Esta parte 3 terá é dedicada ao único galã, do grupo, desaparecido em circunstâncias misteriosas.

Membro número 4: Um cantor e poeta cearense, autor de Pavão Misteriozo (pavão misteriozo/ pássaro formoso/ tudo é mistério/ neste seu voar), costumava andar por Brasília, cantando em festivais, se deliciando com a cidade planeta e passando horas no Beirute, um bar freqüentado por artistas, gays, pais e mães de família totalmente normais, peladeiros pós-pelada, punks e pats. Era, e ainda é, um bar eclético e de aceitação. Naquela época era comum você conhecer gente nova e de lá sair para uma festa ou mesmo para um singelo passeio pela superquadra, entre a relva e os majestosos fícus benjamins, ceratonas e ipês. Ednardo saiu do bar para dar um desses passeios e encontrou pelo caminho um caipira risonho e viajandão, dando voltas com os braços abertos até deitar no chão e olhar pro céu. Ednardo estava admirado da cena, um cara sozinho no meio da superquadra, brincando de super-homem ou de avião.
- Quer viajar? Deita aí e olha pro céu.
Ednardo obedeceu.
- VeR o céu ajuda a abriR a poRta da peRcepção.
Imagine essa última frase dita com um sotaque bem caipira do interior de São Paulo
- Qual a sua graça?
- Ednardo – que riu da expressão antiga para perguntar seu nome.
- Prazer, Altibano.
Aquele cara não existia, pensou o cearense, achando que o cara tivesse fumado algo. Ele não conhecia mesmo o Tiba... Quando voltou para a mesa, Ednardo pegou uns guardanapos e começou a escrever. A maravilhosa “Serenata prá Brazilia” diz o seguinte:
É uma ilha solitária, mil sotaques
Uma trilha que descobre uma Babel
Encruzilhada de destinos
Super-homens, super quadras, multi-solidão
Cidade-avião, vôo rasante, aeroplanta, o Altibano do chão
Cidade planeta, um desaguar de viajantes...

Quando gravou a música, Ednardo resolveu subsituir Altibano por Altiplano, para evitar comentários maledicentes.

Para quase tudo o que se falasse ao Tiba, ele respondia com “É”, um misto de exclamação e pergunta, como se não soubesse do que se tratava mas devesse concordar. Estava sempre meio perdido, meio deslocado, mas encantava-se por tudo, especialmente por mulheres. Com aquele ar perdido que as mulheres amam, e com seu tipo entre o galã e o jeca, Tiba era irresistível. As meninas, e até um menino, o amavam. Mas Tiba não amava ninguém. No máximo, comia, quero dizer, alentava esperanças. Mas nada, nem ninguém, podia amarrá-lo.

Mas nem tudo são flores na vida, nem na do Tiba. Um dia, Tiba estava num ambiente formalíssimo e sisudo de trabalho (achavam que ser sério era ter compromisso e civilidade – rir era quase uma subversão). Juntando a paixão por desafiar a força da gravidade (mania de voar), a mania de afrontar autoridades (como típico membro do CPNES), sua condição de totalmente perdido e sua genialidade, Tiba viu um tubo no chão e um pedaço de madeira por perto. Não teve dúvidas: pos a madeira sobre o tubo e, tentando equilibrar-se, brincou de surfista. Foi um show. Ele nunca havia surfado, mas o tubo e a madeira ele dominava. Todo mundo parou de trabalhar e se aproximou. O ambiente se encheu de alegria. Começaram a gritar e aplaudir. Uns começaram a marcar o tempo e fazer apostas. Ele se mantinha ali, equilibrado. Às vezes quase caía, mas com incrível destreza e habilidade, curvava o corpo, quase tocava o chão, como se estivesse num tubo tocando as ondas, e se erguia novamente. As 50 pessoas que se juntaram festejavam. Nunca haviam sido tão felizes no trabalho. Quando achou que era o momento de parar... Mentira, ele nunca acharia que era hora de parar... Quando se cansou (agora sim), deu um salto, bem alto, e, ao cair, bateu com o pé na ponta da tábua, que subiu, numa manobra feita com a intenção de pegá-la com a mão sem se abaixar, como os skatistas fazem com o skate. Mas, muito empolgado com seu desempenho espetacular e com o delírio da platéia, bateu forte demais na madeira, que subiu muito e fugiu dele. Todos olharam para cima acompanhando a madeira subindo, girando, subindo, diminuindo a velocidade da subida e do giro, até que lá em cima quase parou no ar antes de descer. Quiçá tivesse parado no ar, como helicóptero, como um beija-flor, como o Dadá Maravilha, ou como se alguém desse uma pausa. Mas não, ela não parou. Pior, caiu, caiu rápido, sem voltinhas, reta, dura, direto na cabeça do chefe-boçal-militar-sem-farda-nem-competência, que caiu desmaiado, ao que o povo urrou de alegria, enfim vingados do déspota inútil. Gritavam em coro “Ei chefia, vai tomar no cu”. Ops, acho que agora fui eu que viajei. Fui emocional e inventei coisa. Volta a fita. A madeira não caiu na cabeça, como os presentes gostaríamos, mas ao lado do manda-chuva, que se levantou e gritou ninguém sabe o quê. Só se sabe que o povo voltou rápido e em silêncio para os seus lugares, com ar de “o que era doce acabou, tudo tomou seu lugar, depois que o Tiba passou, e cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois do Tiba passar surfando ondas de amor”. Depois daquilo Tiba sumiu. Conta-se que foi visto somente vários anos depois, pelas bandas de São Paulo, com os mesmos cabelos negros e lisos caídos para o lado, mas sem se lembrar exatamente de quem era. Quando lhe perguntaram "você é o Tiba?" ele respondeu "É ! ?"

Se alguém souber do paradeiro do Tiba, solicitamos entrar em contato com este blog ou com o jornalista Marcelo Resende, que prepara um programa sério sobre o misterioso desaparecimento. E, já que o achou, aproveite e lhe dê uma noticia: o chefe-boçal-militar-sem-farda-nem-competência dançou, foi decapitado e deportado. Mas não pense que o Tiba vai achar o máximo. Tiba jamais será vingativo. Para ele tudo sempre esteve e sempre estará bem. Quando você disse “o cara dançou” ele dirá respnderá “É ! ?”

P.S. Tiba foi o súdito bebum que desafiou o Rei e traçou a princesa em “Nosso Reino”. Também foi o inesquecível Xerxes, no maior sucesso do grupo, “A Morte de Humberto Laraia”. Xerxes reclamava da sua esposa, a Norma, porque ela era muito certinha. A peça acaba com Xerxes entrando pelo espelho e saindo de cena. Definitivamente. Sumiu dias depois. A peça seguinte do CPNES foi “O Homem que Usava Cabeça de Papelão”, um desafio ao poder constituído e uma homenagem ao Tiba, como se pode constatar no folder.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Tio Moa e suas reminiscências - Radio Days

Brasília, sexta feira, 21h. Haveria um importante e difícil jogo da Ponte Preta, contra a líder da série B, a Portuguesa, no campo do adversário, o Canindé. A Ponte estava subindo e se aproximava do G4, vinha de 4 vitórias seguidas e apesar de ser improvável a quinta vitória, eu estava louco para ver o jogo. Quando os times entraram em campo, a TV saiu do ar. Fui ao micro pensando ver pela internet, ou em ouvir numa radio on-line, mas a internet também havia caído. Combo é assim, acaba uma coisa, acaba tudo. Liguei do celular e a previsão de retorno do sistema era para depois do final do jogo. Aí lembrei que no radio do carro talvez estivesse transmitindo, afinal, o jogo era em São Paulo e a Jovem Pan de São Paulo tem retransmissora em Brasília. Como diria Nelson Rodrigues, batata! Ouvi o jogo, que foi dificílimo, mas a POnte venceu, com gol de William, 1x0, a quinta vitória seguida do meu time, num jogo eletrizante. Uma informação importante: pelo rádio, todos os jogos são eletrizantes...


Depois do jogo subi para o apartamento, liguei a TV e esperei para ver a reprise, que começou a 1h. Foi incrível! É impressionante o poder que tem o rádio de nos fazer construir imagens. Cada lance que via na TV era como se eu já tivesse visto e não apenas ouvido. Imaginava os lances de forma muito parecida como ocorreram na realidade. Reconhecia os lances. Uma transmissão por rádio utiliza códigos: no rádio ouvi “desce Malaquias pela meia direita, corta, traz para o pé esquerdo, sai da ponta, vai pra meia” e a mente construiu uma imagem. Quando vi o lance na TV, a imagem que minha cabeça havia projetado era quase igual. Ou seja, ver o que ouvi apenas ratificou, não trouxe quase nada a mais. A única diferença fundamental foi a favor do rádio: pela TV é muito menos emocionante. O locutor do rádio dá uma emoção que o da TV jamais chega perto. Pela TV, o cara não pode, tem que se ater ao que aconteceu. No rádio ele cria mais perigo do que existe, ainda que não minta sobre o lance.

Não estou querendo dizer que não verei mais na TV, só “verei” pelo rádio. Mas algo mudou. Se todos os jogos da Ponte fossem, como dizia minha santa mãezinha, "irradiados" onde moro, eu ficaria com muito menos pressa de chegar em casa e ligar a TV. O rádio satisfaz plenamente.

A noite de sexta me provocou muitas recordações da infância e adolescência, o que acabou me levando a um dos meus filmes preferidos do Woody Allen, “Radio Days”, no qual ele traz recordações de infância, que tinham como pano de fundo o rádio, que ocupava o lugar que há poucos anos foi da TV. Sobrinhos do tio Moa, acreditem: as pessoas se juntavam ao redor do rádio para ouvir novela ou futebol!

Em 1969 minha mãe e meu avô estavam nervosíssimos ao lado do rádio. Jogavam, na Vila Belmiro, a pequenina Ponte e o poderoso Santos de Pelé. Naquele ano, a Ponte acabava de subir para a primeira divisão e fazia uma campanha surpreendente. O primeiro tempo acabou 0 x 0. Perto do final do segundo tempo, todos estavam nervosíssimos, torcendo para que o Santos, que pressionava, não conseguisse o gol. A Ponte atacava pouco e parecia muito difícil que fizesse um gol no poderoso Santos de Pelé. Mas não tomar gol já estaria de bom tamanho. O rádio (à válvula, caixa de madeira) estava falhando um pouco, o chiado de estática encobria a voz do narrador, e não sabíamos quem estava no ataque quando finalmente saiu o grito de gol. Não sabíamos de quem era. Um suspense absurdo enquanto o locutor gritava um interminável gooooooool, ao final do qual ele finalmente falou “Santos, em jogada sensacional...” (chiado forte encobrindo a voz do locutor). Meu vô sacramentou "raios que o partam, foi do Santos". Minha mãe, nervosíssima, explodiu com as expressões que usava muito nessas ocasiões de contrariedade: “Lazarento-morfético-filho da puta”. Mas o locutor continuou: “Ponte 1, Santos 0". E a família urrou. "Não foi do Santos, foi da Ponte". Até o meu avô, um carrancudo português que de cada 10 frases oito eram “raios que o partam”, sorriu e berrou de alegria (não me lembro de outra vez que tenha feito isso na vida). Depois me explicaram: Santos era o nome do lateral esquerdo da Ponte Preta que fez uma grande jogada que resultou em gol da Ponte, que ganhou de 1 a 0 do poderoso Santos, de Pelé, em plena Vila Belmiro. Foi neste momento que larguei minha simpatia pelo Palmeiras e virei pontepretano.

Também me lembro das tardes sombrias de sábado, que eu tornava sombrias, pois escurecia o quarto para ouvir um programa que contava histórias de medo, de espíritos e mistérios.

Voltando ao Radio Days, ele começa com dois assaltantes levando tudo o que tinha numa casa. Aí toca o telefone. Com medo de despertar os vizinhos, um deles atende. É um programa de rádio que distribui prêmios para respostas certas. Os ladrões acertam as 3 perguntas e caem fora com o produto do roubo. No dia seguinte, a família está desolada quando chega o caminhão de prêmios, tudo novinho. Esse início já dá o tom: é um filme do bem!

Leve e cheio de poesia, é narrado pelo Woody Allen e o traz menino, em sua família, com suas irmãs mais velhas, seus tios e tias, alguns morando na mesma casa, outros visitando nas festas. Há o namorado da irmã, que o leva ao cinema pela primeira vez. Há a tia cantando Carmem Miranda, com seus típicos trejeitos, no banheiro, quando chegam dois tios e fazem o refrão, num dos momentos mais marcantes do filme. Há uma garçonete fanha que presencia um assassinato e é pega pelo bandido, que antes de matá-la a leva à casa de sua mãe, também “funcionária” da máfia. Acabam gostando dela, resolvem não matá-la e ainda a colocam como cantora no rádio.

Rádio Days provoca identificação muito forte porque é composto de situações cotidianas muito próximas de nós. Ao lembrarmos nossa infância, sempre sentimos aquela nostalgia boa, mas meio doída; sempre vemos tudo como mais leve, mais puro e mais gostoso. Talvez seja porque o tempo elimina as bobagens que no momento em que viemos, inventamos para a nossa vida. Com o tempo, o que fica mais nítido na memória são os momentos de amor, de alegria, as coisas boas que compartilhamos e a parte boa das pessoas que nos rodeiam.

Ver Radio Days é bom porque quase todos tivemos vizinhos chatos, tios, irmãs mais velhas, uma tia que apertava a bochecha da gente; todos nós fomos ao cinema pela primeira vez e em algum momento gostamos de super heróis; todos nós tivemos natais e réveillons.

Aliás, é num réveillon que o filme acaba, me deixando, sempre que vejo, em transe, tocado, sensibilizado, querendo ser poeta e sentindo minha alma imensa e inflada como um balão.

Viva o Rádio!

sábado, 21 de agosto de 2010

Tio Moa vai ao cinema: O Segredo dos Teus Olhos

O HOMEM QUE SUBLIMAVA DEMAIS

Peço desculpas aos leitores modernos, que gostam de textos curtinhos, mas neste terei que ser um pouco mais extenso. Só um pouco.

Há muito tempo li na Folha uma crítica do filme “Um Corpo Que Cai”, do Hitchcock. O título era “o homem que sublimava demais”. Achei o máximo o título remeter a outro filme do diretor (“O Homem Que Sabia Demais”). Me lembrei disso porque não há título melhor para falar de “O Segredo dos Teus Olhos”, que já deve estar nas locadoras (se ainda não viu, saia daí correndo assim que acabar de ler este post, vá a uma locadora, pegue o filme, assista umas duas ou três vezes e depois deposita uns 200 reais na minha conta, como agradecimento).

No dia da estréia do filme no cinema eu saí do trabalho e fui direto. Já entrei na sala sorrindo, feliz por estar prestes a ver um novo do Campanella. Na verdade o nome do diretor é Juan José Campanella, mas uso só um nome para demonstrar a intimidade. Se quiser impressionar alguém, fale, por exemplo, que adora o Almodóvar. Nunca fale do “diretor Pedro Almodóvar”, isso é distante. Fale “do Almodóvar”, como se estivesse falando de um vizinho, um cara qualquer que você vê todo dia. Bom, voltando ao Campanella, ele é Argentino, ou seja, um gringo boludo com mania de grandeza. Sorte nossa.

Falei que entrei na sala do cinema sorrindo de alegria e satisfação. E saí chorando. Não chorando assim pequenininho. Um baita choro, daqueles que você nem sabe bem porque está chorando, mas aquele choro vem forte lá de dentro e deixa a gente meio sem ar (é claro que, machérrimo, escondi das pessoas que estavam comigo).

Que tipo de filme é? É drama, comédia, suspense, thriller, depende da cena. Muitas cenas são tão boas que a gente pode admirá-las como um pequeno filme dentro do filme. Você está rindo e de repente você não está mais na comédia, mas num suspense, depois num thriller. É como se a gente tivesse num daqueles cinemas 3D em que as cadeiras se mexem conforme as subidas e descidas e a gente tem a sensação que vai cair mesmo.

Cada gênero é filmado ao estilo dos melhores: o melodrama tem ares de Almodóvar (até no título); o thriller à Scorcese, com uma cena de ação digna de um Brian de Palma; algumas cenas longas, tensas e sem falas são Hitchcock; a tocada das cenas de investigação lembra as comédias leves de Woody Allen (Scoop e Um Misterioso Assassinato em Manhattan). Visto assim, o filme é um pequeno compêndio de cinema, que se fecha esplendidamente com o take final à Ernst Lubitsch, um diretor de filmes leves e elegantes, que tinha a mania de esconder cenas atrás de uma porta. Apesar de tantas referências, tudo é bem costurado por um roteiro brilhante e por uma direção sensível, inventiva e humana: assinatura do diretor de “O Filho da Noiva”, “Clube da Lua” e “O Mesmo Amor, a Mesma Chuva”. É um filme para quem gosta de cinema se deliciar: cada tomada tem uma sutileza, uma elegância, um ponto de vista revelador. Isso tudo com uma tensão e angústia que atravessam todo o filme.

Falei tudo? Não, falta a história. Espósito (Ricardo Darin) tenta escrever um livro sobre uma investigação da qual participou há vinte anos e acaba viajando ao passado, quando além da história do crime, tinha a sua história com sua chefe, Irene (Soledad Villamil), que era louquinha por ele, mas o babaca (você vai ter uma raiva dele...) não tem coragem de chegar junto, e fica remoendo o resto da vida, até aqui, é claro.

Algumas cenas fantásticas (só algumas, o filme é cheio delas):

1. Logo no início, Espósito vai à cena de crime, conversando com um parceiro, numa conversa animada, cheia de palavrões, que é cortada um close em Darin quando ele entra numa casa e vê algo. A câmera está fechada em seu rosto, e é por ele que sabemos que o que está ali não é nada bom de ser visto. Coisa de ator dos bons e de diretor invulgar (a expressão invulgar é em homenagem à Fernanda, a quem o Inácio Araújo complicou toda – não entendeu? É piada interna, esquece). Em seguida um momento mágico de puro cinema: seus olhos percorrem o quarto, mostrando ora os fragmentos/sinais de uma vida feliz que enxerga pela sala, ora a horrível visão do corpo de mulher morta com muita violência. Viajamos com seus olhos e vivemos sua experiência. Fui enganado pelo gringo boludo: até ali, tudo levava a crer que era uma comédia.

2. Espósito examina uma foto e acha estranha a expressão de um sujeito. O movimento de câmera aproximando-se da foto, aliado à música, conta prá gente aquilo que para Espósito é leve suspeita.

3. A Hilária cena em que Espósito e seu amigo e colega de trabalho invadem uma casa à procura de pistas.

4. Logo depois, a genial cena do chefe passando uma descompostura em Espósito por ter feito aquela invasão. Incrível o timing de comédia (agora fui fundo: “timing de comédia”... Mas ao ver a cena você vai saber o motivo, quando o chefe soletrar “Es-po-si-...).

5. A cena em que o assassino, já solto, entra no elevador em que estão Esposito e Irene. Alí, numa descida de elevador, sem falas, Darin consegue relatar toda a nossa impotência diante da opressão da ditadura.

6. A cena do estádio é dos melhores planos-sequência da história do cinema: você se aproxima do estádio como se estivesse num helicóptero, depois acompanha o ataque, a bola na trave e desce para a arquibancada, onde, encontra Espósito e seu colega procurando alguém na multidão. Sai o gol na hora inacreditavelmente errada. Depois, a fuga e o desfecho da cena. Para os sobrinhos do tio Moa: plano-seqüência é uma cena feita sem cortes, com uma única câmera que vai filmando direto. O filme podia parar ali, para aplausos.

7. A linda e lacrimejante despedida, em flash back, me fez pensar “cena linda, mas maio apelativa”. Na cena seguinte, época atual, a própria protagonista ironiza a cena. O gringo boludo me enganou de novo. Campanella costura, brinca, mexe, diverte e até aterroriza (mas não vou falar das cenas de horror).

E os atores? Ricardo Darin é um monstro, não parece ator, de tão demasiadamente humano (frágil e impotente para mudar o rumo da sua vida). Ele sempre foi ótimo, mas neste filme subiu alguns degraus. O comediante Guillermo Francella, compõe Sandoval, um alcoólatra, com equilíbrio entre o humor e o drama pessoal. Soledad Vilamil faz sua Irene dizer tudo sem precisar falar nada, ou quase nada (“que no es lo mismo pero es igual”).

Numa cena, brilhante, Sandoval, meio borracho, explica sua tese para achar o suspeito, segundo a qual o homem pode abdicar de tudo, menos da paixão. A explicação fica na cabeça de Espósito, não apenas porque pode ajudar a encontrar o assassino, mas porque o lembra de sua própria fuga. O assassino do filme não foge, como previu Sandoval, de sua paixão, mas Espósito tentou fugir, no passado, quando deixou Irene na estação. Terá conseguido? Ele sabe que não.

Por que nós, os fracos, relutamos tanto quando chegamos perto de alcançar algo importante? Os mais fortes e determinados avançam. Mas os fracos, e desconfio que sejamos a maioria, fugimos e depois, para esconder a frustração, sublimamos, substituindo por algo nobre e inadiável: eu só não segui a carreira no teatro porque meu filho nasceu, foi por causa do meu casamento que não pude fazer aquela faculdade que eu tanto queria e que teria mudado minha vida. Fica mais fácil colocar a culpa em uma circunstância. No caso de Espósito, o homem que sublimava demais, a fuga foi justificada por um trabalho honroso que virou obsessão: pegar o assassino.

Viva a sua vida, diz o marido da vítima, quase no final do filme, mais de 20 anos depois. A ficha começa a cair e Espósito retorna, com angústia e esperança, para repensar, reviver e tentar de novo. A viagem de Espósito me fez viajar em mim mesmo. Descobri que meu choro no final do filme não foi só pela beleza do desfecho, pelas cenas bem feitas, mas principalmente pela angústia, pelo tempo perdido, por tudo de que já fugi.

Finalmente, o choro também foi de felicidade. Primeiro porque acho que as nossas fraquezas reafirmam mais a nossa humanidade do que o comportamento determinado e firme dos fortes. Segundo, porque percebi que ainda há tempo para, como diz Irene, deixar de ser lerdo, e buscar coisas que ainda quero, com as quais ainda sonho. Como disse Espósito, vai ser complicado, mas e daí?

A arte não faz milagres, mas um belo e poderoso filme pode economizar uma baita grana com terapia...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A incrível história do grupo "COBRA PARADA NAO ENGOLE SAPO" - Parte 2

CPNES BEGINS

A incrível história do CPNES seria contada quinzenalmente, mas vários fãs disseram que nesse negócio de blog a velocidade deve ser muito mais rápida. Disseram que a parte 1 foi boa demais, o que causou forte ereção no meu ego. Ainda sob tal efeito, continuo a históC continuo a história do CPNES, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.

Mas como se juntaram essas pessoas em Brasília, todas vindas de fora, em condições tão diferentes, para formar um grupo que deixou um legado sem precedentes na história do Brasil? Antes de falar da obra do grupo, é importante conhecer a história e a formação de alguns membros de grupo. Chamarei de membro 1, membro 2, etc. Não há nenhuma hierarquia nisso (o último que tentou descobrir o cabeça do grupo foi mandado prá Suíça). Hoje vou falar de 3 membros.

Membro 1. Lá pelos anos 60, em Belzonte, os moleques Milton, Lô, Roberto e Fernando moravam na mesma rua, perto de mais um monte de caras super legais. Juntos desde a infancia, eles se encontravam na frente de uma casa de esquina, mais ou menos eqüidistante de onde moravam. Além da conveniência geodésica, a casa tinha uns murinhos legais para sentar. Mas o que o pessoal gostava mesmo é que na casa morava um rechonchudo garotinho que nunca tirava seus imensos óculos, gostava de ouvir as estrelas e falava de mundos paralelos. O menino não fazia parte da galera porque era bem mais novo. Às vezes o pai gritava com os meninos lá fora “isso aqui agora é clube, é?” “Lá vem o clube da esquina de novo”. O garotinho adorava ouvir da janela a conversa dos rapazes. Sabia tudo sobre todos: quando o Milton levou um fora, quando o Lô deu a primeira e como o Betão, que tinha um vozeirão de locutor de rádio, um dia apareceu com a voz fininha e passou a ser chamado de Betinho (só mais tarde ficou conhecido como Beto Guedes). O menino que ouvia tudo pela janela se chamava Pantaleão, sim, ele mesmo, o Panta, aquele que dá uns toques pro Tio Moa e que fez parte do Cobra Parada. Cansados de tanto moleque em frente da sua casa, os Panta se mudaram para Uberaba.
Membro 2. Em outro ponto do país, na desértica e arenosa vila em que morava, e onde não chovia havia 17 anos, o pequenino (de altura, não de cabeça) Sobral, caçula de 12 filhos, espremia um mandacaru, prá ver se saía uma gota d’água. Segundo a tradição, o pai sugava primeiro, a mãe depois, e, em ordem decrescente de idade, os filhos. Ou seja, Sobral era o décimo quarto a chupar aquilo. Todos na vila eram chamados pelo sobrenome e o sobrenome de todas as famílias era o mesmo: Sobral. Mas todos sabiam exatamente quem era quem, pelo tom da voz com que eram chamados ou citados. Mas nosso Sobral sobreviveu a tudo, porque tinha um sonho e, como diria o Shiniashic (blargh), ninguém pode deter um homem que tem um sonho. Sobral queria conhecer Maria Luisa, famosa lingüista da capital federal. Quando, no começo dos anos 80, já aos 18 anos, Sobral embarcou num pau de arara para Brasília, toda sua família foi se despedir. Sua mãe, preocupada: “cuidado com o mar, menino, que você não sabe nadar!” Quando chegou na desértica e arenosa vila em que passou a morar nos arredores de Brasilia, sentiu-se em casa. Sobral não apenas conheceu a lingüista Maria Luiza, como a incorporou, numa de suas mais sstanislawskianas interpretações. Abaixo a foto histórica de Sobral como Maria Luisa. Qualquer semelhança com o Rodrigo San... Ops, prometi não revelar sua identidade...

Membro 3. Uma família com mãe brasileira e pai russo usava uns chapelões peludos em pleno calor de 35 graus de Bauru. Viviam espreitando a rua através das frestas das janelas. Vésperas da copa de 1970. Os pais, ativistas radicais ligados ao comando bolchevique de Moscou, estavam planejando, por mais de 6 anos, um atentado terrorista numa corrida de rua. O atentado, na verdade, seria muito simples, basicamente com bombas colocadas em pontos estratégicos. O problema é que não havia corridas de rua em Bauru, o que os deixou em maus lençóis com o comando em Moscou. Assim, viviam entre a cruz e a espada: ou caíam nas mãos do DOPS por planejar o atentado, ou da Kaos, uma organização Russa, franquia da KGB, por não realizá-lo. No primeiro caso seriam torturados num treco chamado pau de arara, que não era nada bonito. No segundo caso, iriam quebrar gelo na Sibéria (na época as geladeiras não eram Frost Free). Num belo dia, os pais, apressados, levaram os dois filhos, Natalvitch e Markovitch para a casa de uns caras esquisitos de barba e chapéus pretos. Disseram que sairiam de férias (essa passagem recentemente foi narrada em excelente filme). No começo dos anos 80, Markovitch se transformou em ator, com importantes aparições com a cara pintada (sempre preocupado en ser reconhecido pelo DOPS e Kaos) em espetáculos do Cobra Parada . Desfeito o grupo, dedicou-se às corridas de rua, este blogueiro não sabe exatamente com que fim, mas, a contar pelos resultados, não é para correr.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A INCRÍVEL HISTÓRIA DO GRUPO "COBRA PARADA NAO ENGOLE SAPO" - Parte 1

Querem saber o que quero dizer com “Cobra Parada Não Engole Sapo”. O Panta acha que o blog devia explicar as origens do título (ele as conhece de perto). Eu lembrei ao Panta do pacto que o grupo tinha, de não falar de si, de não levantar poeira, de não pedir o crédito de nada que conquistou e de não usar a história do grupo para benefício próprio. Mas o Panta me convenceu a mudar de idéia. “Tio Moa, a gente até já se esqueceu porque queria esquecer. A gente esqueceu até do que a gente queria esquecer".

O Panta (Pantaleão) é uma mistura de Zé Ramalho, Emir Kusturika, Rolando Boldrin e Tim Burton. Se você não conseguiu imaginar essas mistura, tudo bem, ninguém o decifra mesmo. Fazia tanto tempo que eu não tinha contato com o Panta. Estava desconfiando que ele talvez nunca tivesse existido e fosse apenas uma alucinação (nao seria impossível).

Começo pelo significado do nome do blog, citando a atual campanha da Brahma: “Porque lata é branca? Sei lá”. Vai pegar. Deixa uma indagação na cabeça e promove identificação consciente com a marca/lata. Depois da estupidez da campanha da Copa, que associou o futebol à guerra, agora eles dão uma bola dentro, com inteligência. Genial: não respondem a pergunta e deixam tudo na imaginação do povo. Como este blog não é genial, como neste blog matamos a cobra e mostramos o pau, vou dar o significado de Cobra Parada Não Engole Sapo. Muitos tipos de cobra tem como alimento preferido o sapo, como o bacalhau é para o português, churrasco para o gaúcho e por aí vai. Mas ela só come, ou engole, o sapo se for atrás dele. Se ficar parada, sem chance. Quer arte? Vai atrás. Quer música, cinema ou literatura, que estimulem seus neurônios, te façam viajar, ampliem seus horizontes e te ajudem a sair dessa vidinha banal que nos ronda a todos? Se mexa. Arrisque, ouse ver o que niguem viu, ouvir o que ninguém ouviu. Cobra Parada Não Engole Sapo, rapah!

Exposto um possível significado para o título do blog, vamos à melhor parte, a incrível história do grupo que inspirou o nome deste blog. O “Cobra Parada Não Engole Sapo” foi um grupo que fez arte no início dos anos 80 e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. A história oficial não conta isso, mas quem confia na história oficial? O Cobra Parada se dissolveu em meados dos anos 80, mas deixou suas ramificações em todas as áreas. Depois da sua dissolução, se tornou uma lenda. Este blog vai resgatar um pouco do mito do Cobra Parada.

Os componentes do grupo promoveram, através da inovação da liguagem e um pouco de porralouquice, uma revolução cultural que desembocou numa profunda reforma política. Ainda que tudo tivesse acontecido sem nenhuma intenção, o Cobra Parada acabou se transformando no amálgama da luta pelos direitos civis e influenciou toda uma geração. Do Cobra Parada surgiu o Rock de Brasilia, com Renato Russo, Herbert Vianna e Cia, que por sua vez originou a explosão do rock nacional em meados dos anos 80, com Titãs, Ira, etc. Do Cobra Parada surgiram os principais movimentos políticos, como a emenda pelas eleições diretas, o panelaço e, finalmente, a queda da ditadura militar.

Todos devem muito ao Cobra Parada. Hoje, quando se reúnem o Bi Ribeiro e o Dado Villa-Lobos para comer aquela gororoba horrível que o Dinho Ouro preto faz na casa do Herbert Vianna, eles riem muito lembrando daqueles tempos onde mal começavam a tocar, nem tinham idéia sobre o que falar nas músicas, tempos em que eram os cabeludos da 104 sul, e em que, sobretudo, deliravam nos espetáculos do Cobra Parada, apresentados em incógnitos porões e em não menos incógnitos auditórios oficiais.

Herbert é o mais animado: “Lembra daquela que o cara atravessava um espelho?”. “Se lembro... Era aquilo mesmo ou era a gente que tinha fumado muito”. Risos gerais. “E aquela que o cara ia numa loja e trocava a cabeça por outra que melhor, ficava rico mas virava um imbecil?”. “E uma que era só um cara sentado de frente para um relógio, de costas para o público?”. “Não, essa eu não vi”. “Eu vi... (risos)... O nome era Horas bolas, Horas com agá (risos)... O cara só ficava lá, parado... (risos). O despertador toca... (risos)...”. Dado Villas-Boas é impaciente: “Para de rir e conta logo”. Herbert respira fundo: “ O cara levantou, foi lá, desligou a porra do despertador... (risos).” “E aí?”. “E aí acabou, ele saiu e acabou a porra da peça – em nenhum momento o cara olhou prá platéia... Muito louco... Foi ali que eu tive idéia de escrever Óculos”. “Como? Não entendo a conexão”. Herbert, meio bêbado, cantarola: “Porque você não olha pra mim, ô ô” Risos gerais. Dinho chega da cozinha com a gororoba. Eles imediatamente param de rir.

Portanto, leitor incauto, que nem imagina a história por trás do nome do blog, prepare-se, porque nos próximos episódios será revelada a verdadeira história do grupo que se transformou num mito. Não deixe de acompanhar. Cobra parada não engole sapo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

TIO MOA E O MARIDO DA CABELEIREIRA EXPLICAM O AMOR IDEAL

Uma amiga minha disse que é do século passado, que quer achar um cara bacana, casar, ter filhos... Eu também sou do século passado, só que eu tenho um probleminha adicional: idealizo demais o amor. Desde que percebi que “ô ô ô ô... eu gosto é de mulher”, sempre criei, aqui nesse treco cinza que tenho atrás dos meus olhos, mulheres ideais imaginárias, se é que existem mulheres ideais mesmo na imaginação. As mulheres também sonham com o homem perfeito, se é que existem outros homens perfeitos além deste que vos escreve. Perguntei ao Tio Môa se existe mulher ideal. Ele disse que sim e ainda me garantiu que ela sempre aparece, mas só quando estou de olhos fechados.


Esse que é o problema: quando fechamos os olhos não vemos a realidade e idealizamos o amor, achando que vai ser sempre maravilhoso, como o do marido da cabeleireira... Ahn... Você não conhece a fabulosa história do marido da cabeleireira? Absurdo. Mas fique tranqüilo, que cuidarei de saciar sua curiosidade. Depois então eu concluo a imperdível explicação sobre o amor ideal.

“O Marido da Cabeleireira” é um filme que meu amigo/irmão Pinchu, entusiasmadíssimo, um dia me indicou. É um filme francês de 1989, dirigido por Patrice Leconte, que acaba de ser lançado em DVD . É daqueles prá ter no quarto. Acabei de revê-lo por mais duas vezes. Na cena inicial, numa praia, um menino bem magrinho, com uma larga e horrível sunguinha de lã, dança esquisitamente ao som de uma música árabe. As cores da cena são antigas e francesas, se é que as cores têm idade e nacionalidade. O menino é de uma humilde família francesa, se é que existe francês humilde. Ele é totalmente fascinado pela cabeleireira do barro, uma gordinha erótica, se é que... bom deixa prá lá.


E num belo dia ele vai cortar o cabelo. A cabeleireira tem a blusa semi-aberta e quando se inclina o garoto fica paralisado, boquiaberto diante da fartura e da beleza daqueles seios. A cena é belíssima, suave (apesar do tamanho daqueles melões), de uma pureza impressionante, e dita o que será do resto do filme. Mais tarde, à mesa do jantar, o pai pergunta o que ele quer ser quando crescer e ele, sem pensar: quero casar com uma cabeleireira. Leva um tabefe dos grandes, mas incapaz de tirar seu torpor. Acabara de decidir seu futuro.


O resto do filme é todo poesia. Um filme para ser visto com a leveza dos que amam, com a pureza dos que sentem que há algo a mais nesta vida do que lógica e ação. Em alguns momentos da narração em off, vemos o próprio narrador, o marido, parado, com uma feição triste e contemplativa. Não entendemos exatamente o que está acontecendo, mas podemos supor.


O filme mistura lembranças da infância com a fase em que ele, já maduro, finalmente encontra uma cabeleireira. Não é uma cabeleireira, é A Cabeleireira. A facilidade com que ele consegue se casar com ela, fisicamente tão diferente dele, parece dizer que quando se tem foco e determinação, pode-se conseguir tudo. Nada disso: trata-se de uma fantasia, de uma poesia, de uma ode ao amor, ao amor ideal, sem concessões à realidade.

A vida no salão é totalmente dedicada à celebração do amor. O contraste entre eles é tão grande quanto belo. A cabeleireira é jovem, leve, sensual e transbordante de amor e beleza. Seu sorriso é nada menos que divino e praticamente constitui um personagem em si. Já o marido é um idílico romântico apaixonado de meia-idade, nada bonito, mas com uma expressão e um olhar cativantes. Amante da música árabe, sua dança, esquisita e magnética (que o diga o garoto que vai cortar o cabelo), é símbolo de sua constante celebração ao amor ideal e à felicidade.


Bem, até que a realidade surge. Uma “briga” diz aos dois que a tal da realidade, a da banalização da vida a dois, está ali, à espreita. O medo dessa realidade impõe um desfecho forte, mas que eterniza o amor ideal. Na delirante e inesquecível seqüência final, mais uma vez o marido dança, reafirmando seu apreço pela alegria, pelo amor, pela fantasia, e o seu desprezo pela realidade. Entretanto, no take final essa poderosa realidade surge, amarga, soberana, observando-o lá do alto, como a dizer: não adianta, no fim o que vale é a vida real. Trata-se de uma porrada em nosso estômago, que é, como se sabe, o órgão que sente o amor (quem nunca sentiu frio na barriga quando apaixonado?).


Apresentados o marido, a cabeleireira e a linda e tocante fantasia sobre o amor puro e ideal, voltemos ao tema. Tio Môa me disse:


“Para ter o amor ideal, jamais abra mão da fantasia, do romance, da entrega, da paixão. Mas não idealize demais, porque as pessoas são de carne e osso e a vida a dois é de osso e carne. Cozinhando direitinho, colocando os temperos certos, embrulhando com papel alumínio, a carne fica tão tenra e macia, que solta do osso e derrete na boca."
Tem uma música, das antigas, do Jorge Ben que diz que “quem ama quer casa, quem quer casa quer criança, quem quer criança quer jardim, quem quer jardim quer flor, e como já dizia Galileu, isso é que é amor!”. Acho que tem muito mais gente do século passado do que se supõe.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Tio Môa News - Argentina aprova lei e bibas fazem festa

Tio Môa não estava fechado para balanço?

Final do capítulo anterior: tio Moa cai na sua própria armadilha. O moleque, dito cujo, carcará, o tal do B., leu no blog uma dica do Tio Môa, que tudo sabe, para atrair uma gata para seu covil: convidá-la para ouvir Elomar. Numa conversa telefônica com sua filha, tio Moa descobre que ela ouviu Elomar na casa do B. Ao descobrir, Tio Moa fica mudo.

“Meu mundo caiu e me fez ficar assim...” Na voz da Maysa essa música é o máximo. Maysa todos devem conhecer, há pouco tempo teve uma minissérie da Globo sobre a vida dela. A mulher era esculpida em tristeza e amargura. Essa letra é dela. Letra e música. Pode ouvir, é linda e uma excelente opção de trilha sonora para suicídio. Sim, suicídio: era só no que Tio Môa pensava nos dois dias em que ficou curtindo a fossa. “Minha filha, minha filhinha querida, não minha filha não... E ainda por cima por minha culpa. Eu que dei a dica.”

Sem saber o que realmente acontecera no quarto, ao som de “vem amiga visitar...” Tio Môa conjecturava, tentando se tranqüilizar: ela pode ter ido apenas ouvir o CD. Ou apenas conversar. Isso, ela foi apenas conversar. Qual o problema de uma inda menina de 17 anos ir conversar e ouvir um CD, dos bons, na casa de um amiguinho? Tá bom, um cara de 17, 18 anos não é um amiguinho. É um homem, vá lá. Mas e daí? Qual o problema? Nessa idade os meninos mal pensam em sexo, ficam apenas focados nos estudos, no vestibular e em construir o seu futuro... Como diria minha filha, ahan...

Mas tio Moa, tal qual uma fênix, ressurge das cinzas, levanta, sacude a poeira e vai à internet tentar descobrir algo sobre o rapaz. Depois de fuçar aqui e ali, chegou ao Orkut do B. Um sorriso despontou na face do tio Moa. Aquelas fotos do B. não deixavam nenhuma dúvida. Ele é gay!!!

Deus, salve os gays, salve-os de todo o mal, iluminai seus caminhos. Eles ajudam a humanidade a procriar menos, reduzindo a proliferação dos seres humanos, a praga do planeta. Depois, eles deixam o mundo mais leve, mais alegre, menos sisudo, mais colorido, mais vibe. Vejam os filmes do Almodóvar, com aquelas cores e aquela estética gay (com o perdão da cacofonia). Vejam a prefeitura de São Paulo, que acabou com poluição visual dos outdoors.

E por falar em gays, ontem o parlamento argentino aprovou a lei que consente a união entre pessoas do mesmo sexo. Os hermanitos bibas já podem se casar. hehehe. Dá uma vontade de fazer piada, né? E eu faria, se não estivesse com inveja. Depois de eles levarem um divertido Maradona como técnico enquanto nós levamos o medíocre Dunga, mais uma vez a Argentina mostra ser um país mais evoluído. A aprovação dessa lei é uma conquista que abre caminhos para outros avanços, para que a sociedade seja menos atrasada, mais aberta, menos chata e nazista, e mais humana e divertida.

Aqui no Brasil ninguém ainda teve coragem de liderar esse processo (andou passando pelas mãos de um e de outro, mas ninguém que bancasse mesmo). O tema é polêmico, muita gente é contra. A igreja é, como sempre, contra de tudo o que, de perto ou de longe, esteja relacionado ao sexo. Para ela, sexo é uma coisa suja. Ela é a favor de alguma coisa além das orações e dos dízimos? Não regulamentar a união de pessoas do mesmo sexo é não reconhecer que ela existe, de fato, e há milênios. A lei não vai criar nada, só vai facilitar a vida de milhares de pessoas (questões de previdência, de adoção, de herança, etc). Aos que são contra, especialmente os homofóbicos: fiquem tranqüilos, pois a lei não obriga a nada, só permite. Assim, você não será obrigado a casar com aquele carinha que você fica olhando enquanto malha.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

TIO MÔA EM CRISE

No último post, Tio Moa cravou na Holanda. Errou. O Snejder até que fez a sua parte e colocou o Batman, digo, o Robben na cara do gol. Mas o goleiro tinha tornozelo e salvou. E na prorrogação, de tanto fazer preliminares, o tal do Iniesta, sem arrumar uma boa desculpa para não chutar, botou prá dentro, com força. Como disse a Bruna, 110 minutos de preliminares podem ser uma boa. Bem, mas o erro não foi total, afinal o texto acabava dizendo que Tio Môa torcer para a Holanda era uma boa notícia para a Espanha.


Erro mesmo foi no post anterior, em que Tio Môa dava uma dica para os sobrinhos cuecas. O título foi o seguinte: “Tio Môa Recomenda – Nada de luau: leve a gata prá ouvir Elomar na tua casa”. Erro trágico. Porque? Vejam a conversa por telefone entre Tio Moa e sua filha:

- Oi filha!
- Oi pá.
- E aí, tudo bem?
- Ahan.
(É lindo o diálogo entre pai e filhos hoje em dia, um poder de síntese fantástico!)
- Sei... Tem lido o blog?
- Ahan.
- Legal. Você não pode falar agora? Está comendo?
- Não, estou estudando, conversando no msn, penteando o cabelo, pesquisando um negócio prá mãe, passando um torpedo no celular, ouvindo música e fazendo unha.
- Puxa... E você consegue?
- Óbvio.
- Seus amigos estão gostando do blog?
- Ahan, principalmente o B. Ele disse que adora suas dicas.
- E você já ouviu o Elomar?
- Ahan.
- Que bom. Você comprou o CD ou baixou?
- Nenhum dos dois. O B. me chamou prá ouvir na casa dele.
- ...
- Pá... pai... pai... você ta aí? Ih desligou.

Tio Môa fecha para balanço!

domingo, 11 de julho de 2010

Tio Môa não é polvo mas crava: a Holanda vai ganhar!

Depois de um certo afastamento, Tio Môa está de volta, para a alegria das centenas de jovens ávidos por seus preciosos conselhos e orientações. Desta vez vamos falar, de certo modo, de futebol, afinal, hoje é dia de decisão de Copa do Mundo. Todo mundo tá dizendo que a Espanha é melhor e que vai ganhar. Mas você é do tipo que vai com a maioria? Eu sei que não. Ouça o que o Tio Moa diz: a Espanha não é melhor. - Mas Tio Moa, a Espanha tem o melhor toque de bola.


 Caro sobrinho, cuidado com isso. Uma coisa é ter o melhor toque de bola, outra coisa é ter o melhor futebol. Não se faz amor só com carícias e preliminares. Cobra parada não engole sapo! Se você tá lá com a gata, mãozinha prá lá, beijinho prá cá, e não pára nunca mais de fazer isso, logo logo ela vai pegar no sono. Tem que variar, alternar um pouco a pegada, e fazer o gol! A Espanha tem realmente um toque impressionante. Eles saem do campo de defesa para o ataque com toques curtos e vão tocando, tocando, e a defesa adversária vai se abrindo, abrindo, sabe como é... É realmente incrível a habilidade que todos do time têm para fazer isso. E vão mexendo a bola, sem pressa, até surgir, na movimentação, a penetração final. Só que na maioria das vezes isso está demorando muito a acontecer. A equipe adversária se fecha de novo e aí não entra mais, nem a pau, com o perdão da expressão. Por isso a Espanha não me encanta. Toques curtos e envolventes o tempo todo, num mesmo ritmo. Na verdade isso é muito chato. Não há tabelas. Tabela é bonito de ver porque são apenas dois jogadores levando vantagem sobre muitos. Os espanhóis não fazem lançamentos longos, com efeito. Sinto falta de dribles, de finalizações. Nada disso aparece com freqüência no jogo da Espanha. Só o tal do toque de bola envolvente, no mesmo ritmo e aborrecido. A Holanda não é nada de mais, mas é organizada e tem o Snejder, para mim o melhor jogador da Copa. Ele faz, com maestria, muitas coisas diferentes: lançamentos longos com efeito, toques curtos, armação do time alternando o ritmo de jogo. E tem o Robben, muito habilidoso, dono de um chute sensacional. Além disso, ele tem uma história de superação, vencendo incontáveis contusões e até um câncer. A Copa costuma ser generosa com jogadores assim, que o diga Ronaldo em 2002. Snejder e Robben me parecem ter mais o perfil de “jogador que define” do que qualquer um jogador da Espanha, e isso pode ser decisivo se o jogo estiver equilibrado. É claro que a Holanda, ao contrário da Espanha, não tem jogadores habilidosos em todas as posições, mas seu futebol, no geral, me parece mais completo, inclusive quanto àquela pegada mais forte, que não é a da Espanha.


 É claro que qualquer um pode ganhar, mas cravo na Holanda. E, agora que dei publicamente um palpite, preciso torcer por ele. O que é uma boa notícia para a Espanha!
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