domingo, 31 de outubro de 2010

"Tio Moa Viajou" explica Hitchcock - 1

Hitchcock é o mestre da linguagem do cinema

Pelé (parabéns pelos 70 anos) é conhecido no mundo todo como o Rei do Futebol. Perfeito. Hitchcock é o mestre do suspense. Não gosto desse título. Primeiro porque a grande maioria das pessoas associa “suspense” a um gênero de filme. Suspense é um estado de tensão que sentimos por não saber exatamente o que acontecerá a seguir e nem quando acontecerá, o que aumenta ainda mais a tensão, ou o suspense. Nisso, é bem verdade, provavelmente ninguém tenha sido melhor que Hitch (não quero parecer íntimo do mestre, mas não posso negar que temos alguns laços). Mas classificá-lo como mestre do suspense restringe demais a importância e a atuação do gordinho inglês e de sua obra. Para explicar melhor convido o ávido sobrinho a um pequeno passeio.

O teatro existe há milênios. Provavelmente começou lá na Grécia antiqüíssima (antes da antiga), quando os agricultores incorporavam deuses e encenavam rituais para abençoar a colheita (imagina que porre que era!). Mas tanto os atores quanto a platéia bebiam muito vinho prá encarar. Aí o negócio ficava bom. O teatro pegou e é forte até hoje. Já o cinema é coisa muito nova; não tem mais que seus 100 anos (sem essa de pesquisar data da invenção oficial do cinema, ein).

Quando o cinema começou a engrenar, muitos disseram que o teatro morreria. Erraram feio: o teatro nunca vai morrer porque não há nada que o substitua, nem o cinema. A experiência de ter um ator incorporando um personagem, ali, bem na sua frente, é inigualável. Você se relaciona com ele, troca experiências. Se você ri ou suspira, o ator ouve e, com ou sem intenção, altera a forma ou a intensidade da sua atuação. É uma troca que não ocorre no cinema. Isso sem falar que você, a qualquer momento, pode se levantar e entrar na cena, ou gritar algo para o ator, e o ator vai ouvir e vai se manifestar, porque no teatro, as coisas acontecem no presente, na sua frente, e não em algum lugar do passado. É claro que se você gritar num teatro seria um mega mico, mas essa simples possibilidade também faz parte da magia do teatro.
 Agora imagina se o cinema fosse feito como uma peça, com uma câmera parada, como se fosse você na platéia, apenas captando os atores interpretando, com os acontecimentos ocorrendo um após o outro, em sequência ininterrupta de tomadas estáticas. Seria exatamente igual ao teatro, só que sem o contato, sem aquela magia própria do teatro. Ou seja: seria um saco!

“Espera aí”, pode lembrar o atento sobrinho, “um trem no cinema é um trem de verdade, não um pedaço de pano pintado”. Sim, o trem é de verdade, mas não está ali, naquele momento, está apenas projetado, enquanto a ilusão do teatro faz com que o fato de ele ser de pano absolutamente não importe. O foco do teatro não é te convencer que você está ao lado de um trem de verdade, mas te convencer de que você está frente a frente com o espírito humano interpretado pelo ator.
 Não estou querendo dizer que o teatro é melhor que o cinema, mas que o cinema, para funcionar, teria que ser diferente. E conseguiu quando criou a sua própria linguagem, nova, diferente de todas as linguagens anteriores. Se o cinema se limitasse à forma do teatro de contar uma estória, não teria introduzido uma nova linguagem.
 O que fez do cinema a sétima arte não foi a tecnologia (projeção, movimento, som), mas o fato de ter inaugurado uma nova linguagem, o que não ocorreu quando inventaram a câmera e a projeção, mas sim quando os cineastas começaram a cortar as cenas, editá-las e montá-las e não . Quer um exemplo?

Uma cena mostra um homem num quarto se dirigindo à janela e olhando para baixo. Corta. Agora aparece outra imagem: um homem e uma mulher numa rua, conversando bem próximos, filmados do alto. Mesmo que ninguém nos diga, sabemos que o homem da cena anterior está olhando atento para eles (no início do cinema, um homem explicava, ao lado da tela, o que acontecia, já que as pessoas ainda não dominavam essa linguagem). Agora os dois se despedem com um beijo. Corta. Agora a câmera do lado de fora da janela, mostra, de baixo, o homem ma janela, com expressão de raiva.

Concluímos que o homem está enciumado e com muita raiva. Imagine que na próxima cena seja ele esteja estrangulando e matando a mulher da cena do beijo. Percebemos que ele é o marido ou algo parecido, e que está fazendo isso por ciúme.

Imagine que depois desta cena do estrangulamento, a próxima tomada fosse novamente do homem olhando para baixo, seguida por uma nova cena da mesma mulher, andando na rua. Ninguém pensaria que ela
ressuscitou depois do estrangulamento, nem que agora quem está na cena é a sua irmã gêmea. Entendemos a linguagem do cinema e concluiríamos oncluiríamos que ele, como marido traído, havia fantasiado um estrangulamento. Só concluímos isso depois de vê-la novamente na mesma rua em que andava, com a mesma roupa. Mas se o cineasta não quisesse que esperássemos a nova cena para mostrar a mulher viva, ele poderia fazer com que a cena do estrangulamento surgisse de modo granulado, ou com outra cor, ou se enevoar até desaparecer. No mesmo instante saberíamos tratar-se de imaginação, porque compreendemos a linguagem do cinema.


Mais: a mulher andando, de repente olha para cima e, num close, vemos sua expressão amedrontada; depois novamente a câmera mostra o homem, visto de baixo, à janela, com cara de mau. Os dois se relacionaram diretamente, não foi? Ela sabe que ele a viu e ele sabe que ela sabe que ele a viu. Agora vejam: isso tudo pode ser filmado em momentos diferentes, sem que o ator e a atriz se vejam. A rua pode ser em outra cidade. O cinema cria espaços, histórias e relações com um simples deslocamento do ponto de vista e muito corte, muita montagem. Ressalte-se que tiramos todas essas conclusões ao ver as cenas sem necessidade de uma única palavra, uma única explicação.

Essa é a linguagem do cinema, que nos coloca como seres inteligentes, interpretando ativamente o que acontece. Quanto mais rica a utilização da linguagem puramente cinematográfica em um filme, quanto mais códigos são inseridos e quanto mais a compreensão das cenas depende da interpretação desses códigos (e não apenas do texto que é dito), mais o filme nos desafia e mais gratificados nos sentimos ao compreendê-lo.

É claro que um filme pode ser bom pelo texto, pelo roteiro, tanto que Tio Moa é fanático por Billy Wilder e Woody Allen, mestres em roteiros e em textos fantásticos. Mas o que diferencia o cinema de qualquer outra arte, como a literatura e o teatro, é a rica utilização de sua própria linguagem, que é única. E nisto não tem prá ninguém: o maior de todos os tempos, é Sir Alfred Hitchcock, mestre não apenas do suspense, mas da experimentação, da criação e da plena utilização da linguagem cinematográfica, tudo a serviço do entretenimento, do cinema gostoso de ver, que prende, diverte e emociona. Hitchcock é o cara!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A ALEGRIA DE VIVER - JERRY LEWIS

Este blogui nasceu da vontade de escrever sobre cinema, um meio de compensar certa frustração por não fazer cinema ou por estar parado no teatro. Coloquei fotos de diretores que adoro, combinadas de imagem de um de seus grandes filmes. Mas fui pressionado a contar toda a verdade sobre a incrível história do grupo Cobra Parada Não Engole Sapo, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Isso me tirou tempo para escrever sobre cinema. Mas hoje, como pretexto para falar sobre a alegria de viver, vou falar de um dos caras das fotos, a da extrema direita: Jerry Lewis, um gênio!


Você, sobrinho querido do Tio Moa, que já torceu o nariz quando mencionei Jerry Lewis e agora engasgou quando o classifiquei como gênio, certamente sabe que a alegria da vida, definitivamente, está nas pequenas coisas. Primeiro porque, se comparadas com as grandes coisas, as pequenas ganham muito na relação custo/benefício. Se pudesse ser medida, saberíamos que a alegria de viver proporcionada por grandes coisas não é maior que a aquela proporcionada por pequenas coisas. Só que na nossa vida as pequenas coisas acontecem muito mais do que as grandes coisas...

De verdade: se encantar com pequenas coisas é bom demais; e não só porque elas aconteçam mais vezes que as grandes coisas, o que já seria um bom motivo. Mas é que as pequenas coisas são mais legais mesmo. Grandes coisas, por serem obtidas com mais esforço e mais tempo, dão satisfação pessoal, mas não causam encantamento. Ao contrário, as pequenas coisas nos encantam. Talvez elas tenham esse poder por serem prosaicas, cotidianas, e, assim, nos aproximarem mais da nossa alma, afinal a alma é simples; é a poesia que a complica.

O fato é que quando paramos um pouco de olhar fixamente para as grandes coisas, começamos a olhar para as pequenas, acalmamos nossa alma e ficamos livres para nos encantar com elas. Veja bem: encantamento não admiração, é muito mais. É sentir aquela alegria de estar vivo quando vemos a grama verdinha começando a surgir por debaixo da palha depois das primeiras chuvas. É um “oi, tudo bem”, dado de forma esfuziante por uma mulher reluzente. É assistir um filme do Jerry Lewis.

Ta vendo sobrinho? Valeu à pena conseguir ler até aqui. Acabou de saber por que o Jerry Lewis é um gênio: ele nos dá alegria de viver. Depois de 10 anos (advento do DVD) de dedicação à degustação e ao estudo do cinema, decidi rever filmes do cara, para matar saudade, já que cresci os vendo, para fazer uma re-análise dos meus conceitos, extremamente positivos, sobre ele e seus filmes. Achava que gostaria por nostalgia: gosto porque amo, amo não por ser bom ou ruim, mas pelo que sinto ao vê-lo.

Revendo os filmes, lembrei porque os adorava tanto na infância e adolescência. Porque eles me davam alegria de viver. Eu amava aquele cara atrapalhado, ingênuo, franzino, inseguro, sempre subjugado pelos mais fortes e seguros de si. Mas sempre, ainda que involuntariamente, esse cara da voz esganiçada confrontava os fortes e, com base exatamente na sua ingenuidade e inocência, os vencia. De quebra ainda ficava com uma mulher acabava bem. Agora vejam: eu, raquítico, franzino e inseguro que era, só podia ir às alturas com aqueles filmes. Hoje, apesar de não ser raquítico e franzino fisicamente (vê-se), ainda posso gaguejar diante de um esfuziante “oi, tudo bem” dado por mulher reluzente. É aquela porção de insegurança e de pequenez que temos diante de daquilo que nos parece inalcançável (em agosto escrevi que isso me arrebatou no personagem Espósito, de “O Segredo dos teus Olhos”).


Mas ver filmes do Jerry Lewis dá aquela boa sensação de redenção, o que vale para todos, afinal, todos, até você, querido sobrinho, são inseguros (uns escondem até de si mesmos). Nos filmes do JL, as histórias são ingênuas, simples, prosaicas, mas nos fazem bem, são divertidas e leves. Mas ainda que causem ótimas sensações, são apenas pano de fundo para que possamos ver pequenas esquetes encenadas por um gênio.

O humor é tirado não das piadas do texto, mas das expressões faciais e corporais Jerry Lewis. Não confunda expressão facial com careta, tipo as do Jim Carrey. Seu trabalho de corpo é fantástico. Ele conta as piadas com o corpo, baseando-se na transição entre um movimento e outro, e com o rosto, também com a transição bem marcada entre uma expressão e outra. Sempre com precisão cirúrgica, como se houvesse marcado segundo a segundo.

Para ver um filme do Jerry Lewis há que se estar ao mesmo tempo atento e relaxado. Atento para não perder as pequenas maravilhas que podem acontecer a qualquer instante, independentemente da importância daquele instante para a trama.

Veja esta maravilha, em que ele, mensageiro de um estúdio, vai levar uns papéis para a sala vazia do chefão, em “Mocinho Encrenqueiro”, a encontra vazia e viaja.


Na noite de quinta, durante o debate na Globo, assisti “Artistas e Modelos”, um dos muitos filmes que ele fez com Dean Martin. Foi uma maravilhosa troca. A cena em que Shirley MacLaine canta para ele... Ela, fazendo a desajeitada, com voz quase tão esganiçada quanto a dele. Ele, sem fala, dá um show. Veja cada vez que ele, num balé desajeitado, pega as coisas do chão. Ela não fica atrás. É uma daquelas que fazem a vida valer à pena. Veja:

Ver cenas isoladas não causa a mesma sensação. Essas são as grandes cenas, mas há beleza e pequenas maravilhas espalhadas por todo o filme. E como falei lá atrás, as pequenas coisas nos encantam e nos dão alegria de viver.

Troque seu livrinho de auto-ajuda por um bom filme do Jerry Lewis. Há, em DVD, “O Otário”, “Errado prá Cachorro” e “O Professor Aloprado”. Este último é um baita filme, talvez seu melhor, e certamente uma das melhores comédias de todos os tempos. Qualquer dia falo só dele. Ah, não confunda com aquelas chatices do Eddy "Chato" Murphy, nada a ver.

Prá encerrar: quando eu me encanto com um radiante “oi, tudo bem” ou uma grama nascendo depois da seca, percebo que as coisas simples, na verdade, não são assim tão simples. Pelo contrário, são, em si, grandes conquistas, pequenas maravilhas pelas quais vale à pena viver.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

TIO MOA E O EXCITANTE MUNDO QUE RODA

Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe. Na vida, tudo é passageiro, com exceção do motorista e do cobrador. Há uma surpresa a cada esquina. Nada é impossível. Viver é sonhar. E chega de frase feita por hoje.

Minha Irmã, como toda mãe, sempre sonhou com a nora ideal. E encontrou. A surpresa é que a nora com a qual minha irmã sempre sonhou é o David. Eles, David e meu sobrinho, estiveram em casa por uma semana, deixando um vazio quando se foram. David cortou meus cabelos, iniciando mais uma mudança na minha vida, já que passei 10 anos eu mesmo deixando-os, à máquina, rentes, sem ondas, sem picos e depressões. Enfim, sem nada que lembrasse uma vida humana. David me recuperou como ser humano.

Mas meus cabelos já cresceram e como não quero mais cortar à máquina e nem procurar um salão, resolvi deixar que o salão me achasse. Sabia que o acaso me ajudaria enquanto andasse distraído (desculpe por essa). Sábado fui a um sebo, onde comprei uns de discos de vinil. Ao sair do sebo o que vi na frente? Um salão. Olha o acaso aí! Mas, portador da síndrome das pernas inquietas que sou, só cortaria se fosse na hora, sem espera. E lá estava a Cleide, prontinha, me esperando. Entrei naquele salão cheio de mulheres de sábado e me sentei. Bem atrás de mim, posição que o espelho gentilmente alterou, estava ela, na minha frente no espelho, branca, linda, como banhada por uma luz celestial, Glauce Rocha, a Sara de “Terra em Transe”. Uma encarnação, é claro, pois ela morreu em 1971. A mesma beleza estranha, que não sabemos explicar, não convencional,  os mesmos olhos meio fechados, uma beleza poética. Era, na verdade, mais bonita que Glauce, a minha Glauce (será que um dia saberei seu nome?). Eu não conseguia parar de olhar para ela, para aqueles olhos maravilhosos, aquela expressão indefinível, que me arrebatou. Aquele corte podia durar anos, eu ficaria alí, olhando para ela... Mas não há mal que nunca acabe nem há bem que sempre dure. Ops, outra frase feita. Mas o fato é que a minha Glauce foi embora como se foi a primeira, assim, de repente. Esta eu espero voltar a ver. A outra, só nas incontáveis vezes em que verei Terra em transe.

E já estamos no domingo, pé de cachimbo, um calor danado, sem chover há meses, ouvindo os discos que havia comprado na véspera. Enquanto ouvia, cozinhava um sopão de legumes e uma canja, para serem congelados em porções individuais e servirem de jantar nas próximas duas semanas. Mesmo com todas as janelas abertas, nada de vento, e aquele calorão. Vento não havia, mas surpresas, sim. Coloquei na vitrola (é o máximo poder dizer isso) o álbum “Rapsódia Rock” do guitarrista Robertinho do Recife, e fui para o fogão. E não é que o rapaz teve a petulância de, na minha sala, tocar, apenas para mim, ele bem sabe, o “Noturno No 10”, de Chopin? Sabe o que significa isso? Vou explicar.
 Tio Moa não teve pai, o que o envergonhava muito na época em que era apenas um raquítico sobrinho. E sempre aparecia um coleguinha estúpido que perguntava “o que o seu pai faz?”. “Não tenho pai”. “Não tem?”, como se não ter pai fosse a coisa mais estranha do mundo. “Não”. “Ele morreu?”. “Não”. Que saco! Aquilo estragava o dia, a semana e o mês. Que graça podia ter falar do pai? Porra, fala do primo, do joguinho, do chinelo novo, da Ponte Preta, fala até do Guarani, mas vai falar justo do pai... “Meu pai é vendedor” (mas que cacete, quem perguntou?), “meu pai é engenheiro” (e daí, imbecil?), “meu pai me levou ao zoológico” (prá ver seus parentes, animal?). Mas que merda, aqueles idiotinhas não tinham outro assunto?

Nesse contexto, cresci vendo, dezenas de vezes, o filme “Melodia Imortal”, em que Tyrone Power interpreta o pianista Eddy Duchin, cuja belíssima esposa (Kim Novak), morre e deixa um filho pequeno. Eddy não consegue encarar o filho e o abandona. Boa parte do filme envolve a tentativa de reencontro do filho com o pai. E quando conseguem se aproximar... bom, deixa prá lá. Fora o tema, caríssimo ao Tio Moa, o filme tem momentos musicais impressionantes, com destaque, é claro, para quando ele toca o Noturno de Chopin ao piano. O filme, recentemente lançado em DVD, é tristíssimo, daqueles que a Fernanda adoraria (sabe as pessoas normais, que quando vão ao cinema compram pipoca, bala ou outra coisa qualquer? Pois a Fernanda adora comprar lenços de papel. E oferece prá quem tiver do lado, como se oferecesse pipoca).
 Pois naquele calor abafado, enquanto cortava os legumes, o Robertinho do Recife, lá na sala, cometeu o despautério de levar o Noturno na guitarra... E eu nem tinha visto que ela estava no disco. Fantástico. Pepê e Amelie me olharam do chão com aquele ar de pergunta. Respondi que não era nada, que era a cebola...

Mas tudo passa, tudo sempre passará... E o próximo disco, outra surpresa: comprei, meio sem saber por que, um disco do chato do Ivan Lins, “Juntos”. O disco é sensacional. Tem seus grandes clássicos interpretados em duetos, com participações especialíssimas, como por exemplo, George Benson e sua guitarra mágica, Patty Austin, Paulinho da Viola, e por aí vai. Um disco de forte viés jazzístico, ultra bem produzido, inclusive capa e encartes, privilégios indiscutíveis do vinil. Mais uma grande surpresa do final de semana.


Beatles são o máximo. E entre os máximos dos máximos está “Because”, talvez a melhor da dupla Lennon/McCartney. Comprei um disco do MPB4 e Quarteto em Cy. 

Gosto dos rapazes, mas as moças eu acho uma chatice. Mas pensei que, juntos, talvez saísse legal. Não saiu legal, saiu uma obra que faz os seus ouvidos se sentirem importantes. Aquelas oito vozes, com as opções de repertório e com os arranjos delicados, chamam seus ouvidos de Vossa Majestade. Parei tudo na cozinha e sorvi até a última gota, do disco e da taça de um ótimo espumante. Pois bem, se o disco todo é ótimo, há ali uma pérola, um diamante: “Because”, que as meninas cantam com os ricos ornamentos vocais dos rapazes. Parece ser uma versão definitiva. Um achado surpreendente.
 Passado tudo isso, comida pronta e o mesmo calorão e falta de vento. Mas acertei em cheio uma maravilhosa sopa de legumes e uma canja de tia. Tenho comida noturna para duas semanas ou mais.

Aí, antes de almoçar, recostei-me ao sofá esperando um ventinho, que não veio, e peguei a Folha de domingo: mais uma surpresa, deliciosa para quem é cobraparadista, ou seja, para os que não aceitam calados os abusos fascistas de poder. Um editorial de primeira página. Os editoriais sempre são na página 2, nunca na capa, salvo em ocasiões extraordinárias. Nem me lembro quando foi a última. E lá estava, em letras grandes, o editorial, de cima a baixo. O título: “Todo o poder tem limite”. Belíssima surpresa. Surpresa porque já estava achando que só eu e o Alberto, fora os terroristas de direita (como bem os classifica o Fábio), víamos na postura do Lula e do Governo um autoritarismo brutal e um fascismo desenhando uma ditadura. Vivas a mais essa do final de semana. Vejam, à esquerda, o final do editorial, à Cobra Parada!
 Bom, para fechar esse post, chatíssimo para quem não é o próprio Tio Moa, uma matéria na Folha sobra a mulher mais maravilhosa que existe em toda a terra neste momento: a mais linda e inteligente e instigante e ácida e diferente e sensualíssima e tudo mais. Trata-se da Alessandra Negrini. Ela seria minha eterna cabeleireira, isso já antes de eu ler o que li, pois adivinhava o que havia ali dentro daqueles olhos. Mas veja o que ela disse na matéria (as palavras em caixa-alta são da própria matéria):

"Quero estudar cinema, filosofia. E quero produzir uma peça. Você só faz o que quer quando produz."
"Fazer cinema de autor, de experimentação, é um sonho. Me sinto sempre começando"
"Não gosto dessa coisa de GERAÇÃO SÁUDE, essas paranóias. Essa DITADURA de alimentação saudável, ah, que encheção de saco"
"Nunca fui abandonada. Mas esse PEITO ARDENDO eu sei o que é. Todo mundo sabe o que é a FALTA de alguém"
 Agora, quem sabe de mim, me diga: ela é ou não é, para quebrar de vez a promessa das frases feitas, a outra metade da minha laranja?

"Venha, Alessandra, venha fazer cinema de experimentação comigo. Venha, vamos refundar o Cobra Parada Não Engole Sapo, que eu te apresento o Panta, o Gilsão e até o Markovitch. Venha refrescar esse seu peito ardente em casa, que eu tenho uma geladeira nova, com um freezer imenso, onde couberam 10 porções de sopa de legumes e 6 de canja. Venha viver comigo, que nunca te faltarei, a não ser quando meu chefe me chamar para uma reunião (ele é meio workaholic). Alessandra, isso é um pedido público de casamento. Você só tem a ganhar, inclusive um neto postiço logo de saída! Com amor, Tio Moa".

Foi assim, viajando, no sofá, após o trabalhão das sopas, o calor e as taças de rosé, que fechei os olhos, pensando que algo assim não pode, não deve ser impossível. Momento relax, peguei de volta o disco do MPB4 e Quarteto em Cy, coloquei direto na maravilhosa Because e fechei os olhos com a imagem da Negrini enfeitando minha imaginação.

Because the world is round it turns me on
Because the world is round...aaaaaahhhhhh
Because the wind is high it blows my mind
Because the wind is high......aaaaaaaahhhh
Love is old, love is new
Love is all, love is you

Porque o mundo é redondo que me excita/Porque o vento está forte que sopra minha mente

O amor é velho, o amor é novo/O amor é tudo, o amor é você

Neste momento começou a ventar, um vento fresco, quase gelado, que pensei trazer um cheirinho de chuva. Abri bem pouco os olhos e vi a Amelie me olhando com cara de pergunta. Mas o vento continuava, delicioso,  balançando as plantas da varanda, além da qual pude ver o céu encoberto e nuvens espessas, o que não se via há meses.

E pur si muove... o mundo...

domingo, 26 de setembro de 2010

A incrível história do CPNES - Parte 7

GILSÃO PARTE 2 -  A REDENÇÃO DOS GUERREIROS PANÇUDOS
 
No capítulo anterior você conheceu o Gilsão e o viu colocar umas escaraminholas na cabeça do Dr. Sócrates, antes de desmaiar de fome.
Pois saiba que quando ele abriu os olhos, viu que estava num hospital, com soro no braço. O Doutor Sócrates dava ordens às enfermeiras, mais interessadas no autógrafo do que em ouvir suas prescrições. Quando se despediram, Gilsão agradeceu muito, mas Sócrates disse que ele é quem deveria agradecer.
Osmar Santos ao microfone, com Sócrates, FHC, Casagrande e
Adilson Monteiro Alves (diretor de Fuebol do Corínthians)

Depois daquilo, Sócrates passou a ser um importante ativista político, além do brilhante jogador que sempre fora e, nisso, o Gilsão, emérito perna de pau, em nada influenciou. Sócrates liderou o primeiro movimento efetivamente popular que ocorreu em toda a ditadura. Nenhum outro movimento político tinha colocado o chamado “povão” na história. Naquele início dos anos 80, em plena ditadura militar e justamente no meio mais atrasado e conservador, o futebol, e ainda por cima num dos dois times mais populares do país (o outro é a Ponte Preta ou o Flamengo, não estou bem certo), nasceu a chamada Democracia Corinthiana (o nome foi dado por Washington Olivetto), movimento liderado por Sócrates e diretamente apoiado por Wladimir e Casagrande, os maiores ídolos do time. Foi um período da história do clube onde as decisões importantes, tais como contratações e regras da concentração, eram decididas pelo voto, ou seja, era uma forma de autogestão. Era um movimento interno do time, mas cuja intenção era, evidentemente, suas repercussões e influências externas. O Corinthians foi o primeiro clube a veicular dizeres publicitários na camisa, como "diretas-já" e "eu quero votar para presidente". Isso no período da ditadura militar, quando os movimentos sociais começavam a se rearticular para a instituição de uma democracia.

Vale do Anhangabaú no comício pelas "Diretas Já"
 Os militares pediram moderação ao clube. Imaginem o impacto que tinha aquilo: a camisa do Corinthians pedindo democracia... Os resultados disso? Imensa participação popular no movimento das Diretas Já, especialmente em São Paulo e, para o Corinthians, muitos títulos e impressionantes resultados financeiros.

Nessa época o Gilsão já estava em Brasília, onde, logo no início, instituiu-se a trinca Gilsão, Panta e Tio Moa, que na época era sobrinho. Todas as noites, primeiro no Bar do Ermenegildo e depois no Bar do maravilhoso Carlão, estruturavam suas ideias, que iam do ativismo político-estudantil à filosofia, passando pela astrologia, supra mundo e supra-realidade, deixando Romeu, um observador contumaz, atônito. 

Gilsão era visto pelos militares, mal sabiam eles, como alguém muito confiável, provavelmente devido ao seu jeito circunspecto e responsável, além de sua lábia! No outro extremo, com suas madeixas desalinhadas, bonés, faixas e sua falca cortante, Tio Moa, que na época era sobrinho, era visto pelos homens de farda com muita preocupação. Assim, quando começou a efetivar a idéia de montar uma peça de denúncia e protesto, ainda que disfarçada de comédia despretensiosa, Tio Moa, que na época era sobrinho, sabia que o grupo deveria ser eclético e ter alguém em quem os coronéis pudessem confiar, alguém acima de qualquer suspeita.
 Quem seria esse alguém? Isso mesmo, espertíssimo leitor: o Gilsão. A peça “Nosso Reino” (titulo inspirado na peça “Nossa Cidade” de Thorton Wilder), escrita pelo Tio Moa e pela Rosaflor, ironizaria a instituição e seus comandantes e denunciaria as condições às quais estávamos submetidos. Haveria um Rei, claramente inspirado no coronel-mór, mas quem haveria de ter coragem de interpretá-lo e tirar aquele sarro do Todo Poderoso? Vamos, arguto leitor, quem você acha que falou “deixa comigo, eu faço... Minha pança é igualzinha”? Isso mesmo: o Gilsão.

Mas na hora de fazer os cartazes e folhetos, que para nós tinham a força de panfletos revolucionários, percebemos que aquilo tudo não era apenas uma peça, mas o começo de um ousado, e até um pouco irresponsável, movimento de um grupo que não queria parar por ali, que queria continuar fazendo arte e resistência. Precisávamos, para marcar território e mostrar força e articulação, de um nome para o grupo. Tio Moa, que na época era sobrinho, só sabia que o nome deveria ser forte, interessante, engraçado e provocativo, como, aliás, deveria seria tudo o que fôssemos fazer.

E numa noite, voltando de ônibus para nosso empoeirado campo de concentração, em pé no ônibus, alguém falou: “Que tal ‘Cobra Parada Não Engole Sapo’?”. Tio Moa, que na época era sobrinho, sentiu-se em êxtase. Sensacional, era aquilo, sem dúvida. Agora, sagaz leitor, queria adivinhar quem sugeriu aquele forte, interessante, engraçado e provocativo nome? Acertou de novo: o Gilsão.

E de onde veio o Gilsão? De onde ele tirou toda aquela capacidade de lutar pelo que é justo? De onde tirou toda aquela capacidade de atrair com aquele sorriso amigo e fraternal, para depois influenciar pelo seu discurso? Pois vou dizer de onde: o geográfico leitor certamente sabe que no desenho do estado de Mato Grosso tem um biquinho, ao norte. Pois lá perto existe uma terra mítica chamada Juína, onde, diz a lenda, o espírito da índia Jussara pairava no ar para abençoar os índios pançudos e roliços da aldeia Tanyguá, para que vencessem as batalhas contra os invasores que, em nome do progresso, queriam destruir tudo o que viam pela frente: mata, bicho, gente. Evidentemente, sem a ajuda de Jussara, jamais os roliços pançudos conseguiriam vencer. Jussara os inspirava ao mesmo tempo em que amedrontava os invasores. Com o tempo, entretanto, mais homens brancos do progresso chegavam, cada vez com mais tratores, armas e fogo. Um dia trouxeram uma estrovenga giratória e liquidaram com tudo, ababou-se a guerra.

Os poucos sobreviventes migraram para o interior de São Paulo. Lá, em Dracena, muito antes que eu nascesse, nascia o Gilsão, descendente daqueles bravos, simpáticos, sorridentes, roliços e pançudos guerreiros indígenas. Gilsão nunca esteve em Juína, mas Juína sempre esteve em sua alma (e no corpo também, como se nota). À sua primeira filha, deu o nome de Jussara. Já o Tio Moa chamou de Taniguá a sua primeira filha, em inconsciente homenagem ao seu eterno irmão de luta por justiça. A pança que hoje o Tio Moa ostenta, também é uma homenagem ao Gilsão, ilustre cobraparadista.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A incrível história do grupo CPNES - Parte 6

O EFEITO BORBOLETA  E A HISTÓRIA DO MEMBRO NÚMERO 6

Ontem fui a um show do João Bosco. Ele é um músico elegante e impecável. Só ele e o violão. É pouco? Hum hum. É muito! Só seu violão já bastaria, grande instrumentista que é. Só a sua voz também. Juntos, são mais que eu pensei, é mais que sonhava! Sua voz é aveludada e ele a usa de diversas formas dentro da mesma música, modulando seu canto ao sabor da alma. Ver João Bosco cantando é como ver um saxofone que fala. O show homenageia os 40 anos de parceria com Aldir Blanc, um letrista mágico, capaz de escrever uma coisa assim:

Eu aprendi que a alegria
De quem está apaixonado
Écomo a falsa euforia
De um gol anulado
Se, como diz a letra, o fogo da paixão se apaga rápido, vamos logo aos nossos propósitos, antes que se acabe a minha imaginação... Não parece, mas eu tento colocar nos textos o máximo que eu posso de criatividade e imaginação. Mas vê-se que não consigo. Não sou poeta e fim de papo. Não sou alegre nem sou triste, sou jornalista (essa tentativa de paródia da Cecília Meirelles foi de doer - tá vendo como não sou disso?). Narro os fatos. O pouco de imaginação que tenho, gasto tentando escrever certo as palavras, construir as frases com um mínimo de lógica e separar um texto em parágrafos. Acho que é por isso que o Chico Buarque e o Saramago não ligam muito para parágrafo: não devem ter muita imaginação. Assim, não a gastam estruturando frases e parágrafos e também não ligam muito prá ponto e vírgula, não.

Então eu poderia fazer como eles e guardar minha escassa criatividade para criar histórias legais, inventivas, cheias de criatividade e imaginação. Tentarei:

Quem afinal sou eu para querer dar uma de saramago que por sinal nos deixou há pouco ou mesmo quem sou eu para dar uma de chico buarque que foi com sua poesia sua melodia e principalmente com sua postura o meu ídolo musical na adolescência quando eu tinha um caderno com as letras do chico escritas a mão é claro e só de ouvir as musicas parar e ouvir de novo até entender todas as palavras e ainda tem aquelas que a gente não entende nunca imagina agora você aí sobrinho do tio moa imagina um tempo em que não tinha letras de músicas disponíveis na internet nem em lugar nenhum aliás nem havia internet meu deus do céu como é que podíamos viver daquele jeito só mesmo escrevendo as letras de ouvido parando a musica toda hora para passar para o papel e você passava a vida toda achando que a letra dizia vou comer o amigo e vinte anos depois você descobre que a letra dizia vou com o meu amigo.

Esse parágrafo foi de doer, não foi? Está vendo como não posso me comparar a Saramago e Chico? Tudo bem, você sempre soube que eu não posso me comparar a eles. É exatamente por isso que prefiro gastar a imaginação estruturando o texto, o que mal consigo. Contento-me em narrar os fatos, sem floreios, sem invencionices ou licenças poéticas. A verdade, acima de tudo. Por exemplo, quando penso na história do Cobra Parada, tudo é tão real e concreto que eu posso afirmar que não existe outra maneira de contá-la senão esta que empreendo. E se começo com parágrafos meramente decorativos à primeira vista, saiba que eles nunca estão lá à toa. Sua utilidade é, através de exemplos reais, inserir o leitor atento no contexto em que vivíamos, e contar como o futebol, a arte e a atitude corajosa podem influenciar toda uma cidade, um país e o mundo. Sabe aquela história da borboleta que bate as asas aqui e acontece uma puta ventania do outro lado do mundo? O tal do efeito borboleta? Esquece, bobagem, tolice, dê o fora. Nada disso. Não é qualquer movimento que influencia, não. Precisa haver uma soma muito grande de talento, postura, ousadia e criatividade, além de uma descomunal ajuda do acaso.

O ACASO - E foi por acaso que uma determinada pessoa, após passar o dia inteiro estudando para uma prova que faria no dia seguinte (resistência de materiais, disciplina chatíssima do curso de engenharia civil, que fazia na Unicamp, em Campinas), no fim da tarde e mega-cansado, foi direto para o quarto de pensão onde morava. Dormiu até as 9 da noite, quando acordou para ouvir no rádio o jogo do seu time, o Corinthians, contra a Ponte Preta (ficou 1 a 1, gol de Sócrates). Depois sentiu uma baita fome, pois não havia comido nada o dia inteiro, e uma vontade louca de tomar uma cerveja. Geladeira zerada, acabou no bar do Vadico, na Washington Luiz, famoso pelo seu sanduíche de pernil. Essa determinada pessoa, de quem hoje vou falar, é o sexto membro do CPNES, um grupo cuja atuação, como você sabe, no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.

Membro número 6. O bar do Vadico era o reduto de seresteiros, boêmios e senhores da vizinhança, dentre os quais estava um famoso repórter esportivo de Campinas, o Renato Silva, que fazia, na Rádio Brasil, uma sensacional dupla com Sérgio Salvucci, comentarista dos jogos e âncora do programa esportivo. O bar era também o socorro de famintos da madrugada, e nessa condição estava o nosso estudante da UNICAMP, verde de fome. Aliás, verde não, porque é a cor do inimigo Palmeiras. Gilsão estava roxo de fome. Tomava a segunda cerveja, já meio alegre, e nada de vir o tradicionalíssimo sanduíche de pernil. Naquela noite havia só um chapeiro e muitos pedidos. Mas o astral do bar era bom, e Gilsão estava branco, suando de fome, mas com tanta alegria de viver (quem gosta de cerveja sabe do que estou falando) que chegou a pensar que mesmo que morresse de fome antes de o sanduíche chegar, morreria feliz.

Era prá lá de meia-noite quando Gilsão, tentando matar a fome com o cheiro de pernil que o bar exalava, ouviu o chapeiro gritar “olha o pernil da mesa 8”. Aquilo o deixou mais desesperado ainda de fome. Sabe quando você está super apertado, mas vai conseguindo segurar, mas quando chega pertinho da sua casa o negócio parece que vai sair? Era assim que ele se sentia vendo o seu gigantesco sanduíche de pernil sobe o balcão, à espera do garçom. Quintuplicou sua fome.

Nisso, entra no bar o Renato Silva acompanhado de dois magricelos altos. Os dois de cabelos encaracolados, um deles cheio de buracos na cara. Aquela visão fez o Gilsão engasgar a cerveja geladíssima que tomava. Olhou sua mesa e viu as 3 garrafas vazias, como a se perguntar se era o efeito da cerveja ou se ali realmente estavam entrando, e ocupando a mesa ao lado da sua, o Sócrates e o Casagrande. Os dois eram tão naturais àquele ambiente que mal foram notados, ou talvez aquele fosse um costume do Renato Silva, que, ficando junto ao gramado e entrevistando jogadores, era próximo o bastante dos jogadores para levar os mais boêmios ao Vadico. Naquela época não havia o patrulhamento sobre a vida pessoal dos jogadores como há hoje. E do jeito que o doutor Sócrates e o Casão gostavam de enxugar...

Gilsão, com um olho no sanduíche e outro nos seus ídolos, veio com aquela sua típica expressão de resmungo escandalosamente amistoso: “PÔ, MEU, eu não sou de tietagem, não, mas você vem sentar JUSTO do lado de um corintiano?”. “Corintiano! Viu o jogo?”. “Não, ouvi pelo rádio, o locutor disse que você fez um golaço”. “Golaço nada, até você fazia aquele gol”. “Como até eu? Tá me chamando de gordo?”. “Robusto”. Sócretes tem muito bom humor.

Casagrande tinha ido direto ao banheiro e o Renato Silva estava no balcão pedindo os sanduíches para os três. Enquanto isso e com o Gilsão quase desmaiando, o garçom finalmente pegava o sanduíche do balcão e punha na bandeja. Logo estaria alí, na mesa, à sua frente.

Com a proximidade do momento de abocanhar aquele maravilhoso pernil, Gilsão sentiu a boca se enchendo de saliva; estava literalmente babando quando Renato Silva volta à mesa ao lado e disse que ia demorar um pouco, que o pernil acabou e iam buscar “lá na casa deles”, que ficava “logo ali”.

Nisso o garçom vem chegando com o sanduíche do Gilsão.

Casagrande chega do banheiro, muito agitado, e senta à mesa.

O garçom põe o sanduíche na mesa do Gilsão.

“Será que demora muito?”, perguntou Sócrates, olhando, sem querer, para o sanduíche do Gilsão.

Gilsão, mesmo morrendo de fome, gostaria que a conversa com o ídolo rendesse mais e pensou rápido: o sanduíche é grande, já vem dividido em dois e metade já aplaca a fome e me impede de morrer.

“Pô, rapaz, eu tô morrendo de fome”, comentou o doutor Sócrates.

Foi do que o Gilsão precisava. Ato contínuo emendou ao ídolo: “quer metade do meu?”

“Quero”. “Quero”. Não se iludam, leitores ingênuos. Não foi Sócrates repetindo. Um “quero” foi do Sócrates, sim, mas o outro, simultâneo, foi do Casagrande.

“Fudeu!”, pensou Gilsão, que congelou por alguns segundos. Como recusar a metade a um dos dois? Falar “nada disso, eu ofereci só prá um”? Por instantes Gilsão pensou em dar uma de louco, agarrar seu sanduíche e fugir correndo dalí. Suava de fome. E foi chorando por dentro e entoando para si, como um mantra, “sou um imbecil, sou um imbecil” que o Gilsão esticou os braços, oferecendo uma metade para cada um. Casagrande caiu em cima na hora. Sócrates ainda foi polido: “Não, você vai ficar sem nada?”. “Não tem problema, eu jantei bem”. “Então quando vier o nosso, um é teu”. “Tranqüilo, dá prá esperar”.

Mas não deu. Meia hora depois, Gilsão, fraquíssimo de fome, viu Sócrates, Renato Silva e Casagrande ficarem embaçados, escuros, até que tudo se apagou. Mas antes disso deu tempo para o Gilsão falar, enquanto os dois comiam. Falou do interior, de seus antepassados do norte; disse que nunca os conheceu, nem à região, mas que sonhava com aqueles rios, com Juína, com os barcos; disse que "Ita" são os barcos, que são chamados assim porque seus nomes sempre começavam assim: Itaimbé, Itaberá, Itapuca, Itagiba, Itapuhy, Itassucé. Para ilustrar, cantou, com Renato Silva ao violão, uma música de Dorival Caymmi que ele adorava, “peguei um ita no norte”. Gilsão também cantou o clássico do Belmonte, “Saudade da minha terra” (de que me adianta, viver na cidade, se a felicidade não me acompanhar) e “O bêbado e o Equilibrista”, do João Bosco e Aldir Blanc (lembra dos parágrafos iniciais deste post?). Sócrates se emocionou e começaram a falar de política. Gilsão criticou o pessoal do futebol, que tinha muito poder e influência, mas não era politizado.

“Olha aqui, eu vou te falar uma coisa prá você. Não sei se você tá me entendendo. Ôrra, meu, vocês não sabem a força que têm? Imagina o que vocês podem fazer contra essa ditadura. Ôrra meu! É o cúmulo do absurdo você não fazerem nada!”.

Casagrande riu: “O que a gente pode fazer jogando futebol?”. Gilsão, ainda consciente, mas sem resposta, percebeu que tinha exagerado na sua retórica, mas cravou: “sei lá, não sou eu que sou jogador!”. Renato Silva e Casagrande riram muito, aquele riso solto. Sócrates não. Parece ter ficado pensativo. Estava nascendo ali, naquele instante, dentro da cabeça do doutor, a Democracia Corintiana.

Sabe quando o convidado do Jô é tão importante que ele faz a entrevista em dois blocos? Pois a história do Gilsão continua depois do intervalo. “Willem, solta a vinheta!”

sábado, 11 de setembro de 2010

A Incrível História do CPNES - Parte 5

O CONTEXTO E A GÊNESE

Em 1983, o país estava prontinho para o final da ditadura, mas, como diria o Professor Wagner, vivíamos os estertores do poder, que ocorre quando seus detentores perdem as estribeiras no esforço desesperados para mantê-lo. O problema é que os ares da liberdade já seduziam pessoas de dentro dos círculos do poder. Por isso, cada esfera e cada pequeno órgão do governo eram comandados como se fossem um Grande País, que devia ser protegido do “mal”. Acho que isso era o brinquedinho deles. Para nós, que portávamos a “semente do mal”, aquilo não era nada divertido. O patrulhamento sobre o que pensávamos, vestíamos ou falávamos era insuportável para alguns de nós.

E ali estávamos, naquela escola comandada por militares, com regras rígidas e controle absoluto. Nada de usar barba ou cabelos cumpridos, nada de questionar, nada de se divertir e de preferência, nada de pensar. Faziam de tudo para que fossemos fieis e tementes ao regime.

Como era de se esperar, todas aquelas pessoas de diferentes lugares do país começaram a formar pequenos grupos, aglutinados por região de origem, por lugar que sentavam nas salas, por estilos, etc. Mas alguns menos tranquilos começaram a conversar sobre jogo em que estavam inseridos e passaram a formar um novo grupo de afinidade. Numa noite, conversando com Silvio Romero e com o Gilsão no fundo da casa de alguém, decidimos que era preciso resistir. A palavra de ordem era ficar alerta, não deixar-se soterrar, não deixar-se ludibriar, não deixar-se transformar naqueles civis de alma fardada, amantes do controle e da hierarquia, cuja maior aspiração era ficar atrás de uma mesa controlando pessoas, fichas e processos burocráticos. Muitos alunos achavam aquilo o máximo. Alguns ainda acham.

A necessidade de resistir àquela lavagem cerebral acabou unindo um grupo de pessoas. Senti-me como um membro da resistência francesa na segunda guerra – é claro, com uma boa parcela de exagero romântico, mas no fundamento, realmente não era muito diferente disso, não. Só não corríamos o risco da morte física, substituída pela morte moral, a ameaça de expulsão, sempre lembrada pelos donos daquele Grande País.

Eu, menino recém saído das fraldas tão bem mantidas pela minha santa mãezinha, estava lá, naquele fundo de quintal, naquele lugar ermo e afastado, falando baixinho porque os muros tinham ouvidos, me sentia com um baita medo, mas com uma excitação nunca antes sentida.

A partir dali o grupo de resistentes começou a aumentar. Aos poucos fomos percebendo que tínhamos outras coisas em comum, como a paixão pela boa música, especialmente daqueles grupos independentes, como o Língua de Trapo (ao lado) e o Premê, por festas e pelo teatro. A forma de resistência incluía se divertir, arejar a cabeça, conversar muito, manter a mente sã e independente e, eventualmente, agir
.
Silvio, um intelectual pernambucano de boa família, morava em Recife, na badalada Avenida Boa Viagem, de frente para o mar, o que me impressionava muito; usava uns óculos pequenos e jardineira jeans. Um amigo em comum, o Google, me disse que hoje ele atua na coordenação do Curso de Pós-Graduação em Design, na Universidade Federal de Pernambuco. O Silvio e eu gostávamos muito de teatro e começamos a planejar montar um grupo. O teatro poderia ser usado como um instrumento de expressão de nossas inquietações e de denúncia, tirando os pacatos do seu estado de torpor. O professor Wagner, um alienígena ali, culto, de bom gosto e também resistente àquela forma de “educar”, e a Joana D’Arc, uma aluna paranaense, também eram entusiastas da idéia de fazer teatro. Nós 4 decidimos montar o grupo, mas isso demorou demais e o Silvio e a Joana deixaram Brasília antes de o grupo ter nascido; o professor Wagner foi demitido (sabe-se lá o motivo) pouco tempo depois. Do grupo que teve a idéia original, só sobrou este que agora conta a incrível história do Grupo Cobra Parada Não Engole Sapo, cuja atuação no início dos anos 80, não sei se você já ouviu isso antes, mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.

Dos 4 idealizadores, só sobrou euzinho aqui. Mas, definitivamente, eu não estava só, afinal, ainda havia a “resistência”, aquele grupo de boêmios que discutiam, bebiam, faziam sopas com doações semi-espontâneas (essas sopas merecerão maiores informações mais para frente). Foi jogar a ideia e ela ser abraçada por aqueles lunáticos que nunca antes haviam imaginado pisar num palco.

Ao mesmo tempo em que a resistência ganhava consistência, aumentava a atenção das autoridades sobre seus membros, pelo menos os mais extravagantes. Eu, por exemplo, adorava provocá-los usando boinas e cintos coloridos. Não falávamos grosso, não dávamos porrada, não éramos carrancudos nem reclamávamos de tudo. Éramos alegres e festivos. Essa nossa postura passava uma imagem de destemor, o que nos dava uma aura de poder e instilava certo receio nos que nos olhavam com olhares opressores. Por isso tinham cuidado quando queriam cortar nossas asinhas, que por sinal começavam a crescer. Ficou famoso o episódio da publicação de uma nota com os seguintes dizeres no boletim que definia as normas daquele Grande País. A nota dizia, sem nenhuma explicação: “fica proibido o uso de chapéus, boinas, bonés e faixas coloridas na cintura”. O primeiro que viu aquilo pregado no quadro de avisos me chamou correndo. “Parabéns, você ganhou uma nota só para você”. Não me lembro quem foi, mas me lembro que se seguiu uma algazarra geral. Todos foram lá para ler. Ninguém se cabia de rir. Ali percebi o quanto ter uma postura gerava força: tiveram receio de conversar comigo, o que deveriam fazer, já que apenas eu usava as tais faixas e boinas. Preferiram publicar uma nota, como se a decisão viesse do monte Sinai em forma de leis escritas em tábuas. A alegria por ter provocado aquilo apagou qualquer indignação com a proibição.

Enfim, já estávamos um pouco marcados e observados com atenção. “Estão querendo montar um grupo de teatro? Quem?”. Aí havia um problema. O grupo tinha que ter ao menos um membro acima de qualquer suspeita. Era preciso de alguém com um estofo moral, alguém que eles respeitassem muito. Alguém sério. O incrível é que na própria Resistência havia alguém assim. E é desta pessoa que falarei na parte 6.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A Incrível História do CPNES - Parte 4

Não quero me repetir, por isso, sem delongas, apresento o membro número 5. Lembro apenas que, ao falar de algum membro, acabarei abordando o grupo Cobra Parada não Engole Sapo, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.


Membro número 5. Uma noite, após uma apresentação de “A Morte de Humberto Laraia” que tinha na platéia nada mais nada menos que o Caetano (sim, ele, o Veloso), fomos todos ao Beirute. Eu poderia dizer que o Caetano foi à nossa peça porque estava louco para vê-la, porque sua fama tinha chegado a ele, etc. Mas, como vocês sabem, eu prezo a verdade e prefiro contar o real motivo da ida do Caetano. Na noite anterior ele havia feito um show no Teatro Nacional; o ingresso era caríssimo para nossos padrões. Mas como o Tiba queria catar uma menina que era fã do Caetano, ele tanto fez que conseguiu entrar no camarim para pegar um autógrafo. Sabem como era o Tiba, aquela carinha de caipira desprotegido, aqueles olhos negros como a noite...

Bem, no dia seguinte estava lá o Caetano na platéia do CPNES, louco para ver a peça. Aplaudiu demais, foi ao nosso camarim e depois saímos todos e fomos ao Beirute. Todos não. O Tiba foi atrás da menina, levar o autógrafo. Caetano estava com uma cara péssima. Mas ao seu lado na mesa estava alguém cuja conversa mudou a sua noite e o influenciou a compor seu disco mais moderno e surpreendente, além de um dos mais inspirados.

Quem estava ao lado do Caetano? Vamos lá, desde o início:

Ela ainda era uma semente do que seria quando, descendente direta da linhagem de abastados senhores do café, vivia entre a cruz e a espada. A cruz era a religião, que, como se sabe, era usada pelos senhores para alentar os escravos e convencê-los de que havia algum sentido no fato de trabalhar de sol a sol sem ganhar lhufas, ou, ganhar, no máximo, o que Luzia ganhou atrás da horta (aos sobrinhos: não foi salsa o que Luzia ganhou atrás da horta, nem cebolinha, e certamente também não foi rúcula ou erva doce).

Voltando aos escravos, eles eram negros, como se sabe. Também eram, como se sabe, bem dotados... de força e determinação. Para acalmá-los e desviá-los dessa coisa de justiça terrena, os senhores pregavam a religião, lembrando que após a morte a vida é eterna e, portanto, muito mais duradoura que a vida antes da morte. Lá os escravos seriam ricos e comeriam aquelas branquinhas sem precisar ser jogador de futebol nem cantar pagode. Os pobres seriam ricos e os ricos seriam pobres e lamberiam seus pés chulezentos, o que podia ser considerado o inferno. Assim os mantinham serenamente agradecendo as chibatadas.

Voltando ao membro número 5, na sua adolescência continuava a viver entre a cruz e a espada. A espada era o comprovado, o exato, e a cruz, a religião, que se dizia portadora do moralmente certo. Mas o membro número 5 questionava tudo, a começar pelo seu próprio nome: “Mãe, como eu posso como ter “mar” no meu nome se eu vivo em Minas?” Sua mãe respondia que era prá ela ter a cabeça além daquelas montanhas, no que ela não pode ver.

Questionando tudo o que não podia ver, resolveu entregar-se ao que podia ver e comprovar, entregar-se ao que era o certo, no sentido de exato, concreto. Assim chegou à engenharia civil. Entretanto, ao visitar os prédios mais representativos, percebeu que não ligava a mínima para a resistência dos materiais, nem para as estruturas, pilares e vigas, mas sim pela beleza dos acabamentos. Tanto isso é verdade que até hoje finge fazer exercícios, em Brasília, para admirar obras de arte, como os azulejos de Athos Bulcão (o Correio Brasiliense, que vive atrás de membros do CPNES, a entrevistou numa dessas saídas - pode procurar no Google).

Insatisfeita com a engenharia civil transferiu-se então para a engenharia elétrica na esperança de encontrar as respostas para suas indagações, mas descobriu que, ao subir num poste de alta tensão, o que a encantava não eram os componentes citados pelo Helio Creder em seu livro de instalações, não os campos elétricos mas o campos verdejantes e o horizonte. Na verdade, adorava o que não podia ver, o que estava além, como vaticinara a mãe.

Certa manhã saiu para pensar nas suas dúvidas sobre a vida. Caminhando descalça, afundando os pés na lama gelada das margens do rio Paraibuna, que corta Juiz de Fora, viu Roque, um santeiro (escultor de santos) que tinha uma queda por ela e que havia sido morto 3 dias antes. Ele apareceu para ela e disse: “vá para Brasília, lá você vai encontrar o que procura”.

No dia seguinte ela pegou as malas e sumiu pela estrada. Dito e feito: lá ela se encontrou, e foi no exato instante em que, durante uma aula de contabilidade, dormindo os seus costumeiros e profundíssimos sonos, sonhou que não era uma bíblia e que também não era um capacitor, mas sim uma flor, a mais linda das flores, e que viveria rodeada de outras rosas, cravos, jasmins, violetas, e árvores como as centenárias ceratonas, os ipês e tudo mais o que Burle Marx já inventou. No sonho, a fragrância de suas pétalas inspiraria todos aqueles que lutassem pelo que é belo e pelo que é justo e que seus espinhos sangrariam as mãos dos impuros. Quando o último aluno saiu da sala e bateu a porta, ela acordou. Já não era mais mar. Era Flor.

E seu sonho se cumpriu. Rosaflor, de inteligência invulgar, amante das letras, da poesia e de Guimarães Rosa, ajudava nos textos escritos pelo Tio Moa (que ainda não era tio, mas sobrinho) e nas músicas; nos inspirava a todos na luta contra a injustiça e na busca da beleza, o que faz ainda hoje, com seu jeito mole e sua fala mansa, que diz ao balanço do vento.

Voltando ao início, Caetano estava irritado. Ao lado, a Rosa que, já meio alterada, começou a chamá-lo de Velô (como todos do CPNES, sempre afrontando autoridades...). “O, Velô, você tem que ler o Guimarães Rosa”. E falava sobre Camões, sobre paródias e confusões de prosódia, poesia concreta, flor do Lácio, e todas aquelas coisas que ela sempre dizia prá gente quando estava alta. Só que a gente nunca fez daquilo uma música. Caetano compôs, ali mesmo, na nossa frente, diretamente influenciado pela Rosa, a música “Língua”, que gravou no disco do ano seguinte, chamado “Velô”. Por algum motivo, acho que outra música do mesmo disco, “Podres Poderes”, tem algo a ver com o Tiba. Rosa tem um filho. Adivinhem o nome...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A Incrível História do CPNES - Parte 3

Na parte 1 você viu que o “Cobra Parada Não Engole Sapo” (CPNES) foi um grupo que fez arte no início dos anos 80 e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Você viu também o quanto os brasilienses Renato, Bi, Dado e Dinho, ícones do Rock Brasil dos anos 80, viajavam com o CPNES e o quanto foram influenciados.


Na parte 2 você foi lembrado de que o CPNES foi um grupo que fez arte no início dos anos 80 e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Você também conheceu 3 membros do grupo: o Panta, o Sobral e o perseverante Marcovitch

Esta parte 3 terá é dedicada ao único galã, do grupo, desaparecido em circunstâncias misteriosas.

Membro número 4: Um cantor e poeta cearense, autor de Pavão Misteriozo (pavão misteriozo/ pássaro formoso/ tudo é mistério/ neste seu voar), costumava andar por Brasília, cantando em festivais, se deliciando com a cidade planeta e passando horas no Beirute, um bar freqüentado por artistas, gays, pais e mães de família totalmente normais, peladeiros pós-pelada, punks e pats. Era, e ainda é, um bar eclético e de aceitação. Naquela época era comum você conhecer gente nova e de lá sair para uma festa ou mesmo para um singelo passeio pela superquadra, entre a relva e os majestosos fícus benjamins, ceratonas e ipês. Ednardo saiu do bar para dar um desses passeios e encontrou pelo caminho um caipira risonho e viajandão, dando voltas com os braços abertos até deitar no chão e olhar pro céu. Ednardo estava admirado da cena, um cara sozinho no meio da superquadra, brincando de super-homem ou de avião.
- Quer viajar? Deita aí e olha pro céu.
Ednardo obedeceu.
- VeR o céu ajuda a abriR a poRta da peRcepção.
Imagine essa última frase dita com um sotaque bem caipira do interior de São Paulo
- Qual a sua graça?
- Ednardo – que riu da expressão antiga para perguntar seu nome.
- Prazer, Altibano.
Aquele cara não existia, pensou o cearense, achando que o cara tivesse fumado algo. Ele não conhecia mesmo o Tiba... Quando voltou para a mesa, Ednardo pegou uns guardanapos e começou a escrever. A maravilhosa “Serenata prá Brazilia” diz o seguinte:
É uma ilha solitária, mil sotaques
Uma trilha que descobre uma Babel
Encruzilhada de destinos
Super-homens, super quadras, multi-solidão
Cidade-avião, vôo rasante, aeroplanta, o Altibano do chão
Cidade planeta, um desaguar de viajantes...

Quando gravou a música, Ednardo resolveu subsituir Altibano por Altiplano, para evitar comentários maledicentes.

Para quase tudo o que se falasse ao Tiba, ele respondia com “É”, um misto de exclamação e pergunta, como se não soubesse do que se tratava mas devesse concordar. Estava sempre meio perdido, meio deslocado, mas encantava-se por tudo, especialmente por mulheres. Com aquele ar perdido que as mulheres amam, e com seu tipo entre o galã e o jeca, Tiba era irresistível. As meninas, e até um menino, o amavam. Mas Tiba não amava ninguém. No máximo, comia, quero dizer, alentava esperanças. Mas nada, nem ninguém, podia amarrá-lo.

Mas nem tudo são flores na vida, nem na do Tiba. Um dia, Tiba estava num ambiente formalíssimo e sisudo de trabalho (achavam que ser sério era ter compromisso e civilidade – rir era quase uma subversão). Juntando a paixão por desafiar a força da gravidade (mania de voar), a mania de afrontar autoridades (como típico membro do CPNES), sua condição de totalmente perdido e sua genialidade, Tiba viu um tubo no chão e um pedaço de madeira por perto. Não teve dúvidas: pos a madeira sobre o tubo e, tentando equilibrar-se, brincou de surfista. Foi um show. Ele nunca havia surfado, mas o tubo e a madeira ele dominava. Todo mundo parou de trabalhar e se aproximou. O ambiente se encheu de alegria. Começaram a gritar e aplaudir. Uns começaram a marcar o tempo e fazer apostas. Ele se mantinha ali, equilibrado. Às vezes quase caía, mas com incrível destreza e habilidade, curvava o corpo, quase tocava o chão, como se estivesse num tubo tocando as ondas, e se erguia novamente. As 50 pessoas que se juntaram festejavam. Nunca haviam sido tão felizes no trabalho. Quando achou que era o momento de parar... Mentira, ele nunca acharia que era hora de parar... Quando se cansou (agora sim), deu um salto, bem alto, e, ao cair, bateu com o pé na ponta da tábua, que subiu, numa manobra feita com a intenção de pegá-la com a mão sem se abaixar, como os skatistas fazem com o skate. Mas, muito empolgado com seu desempenho espetacular e com o delírio da platéia, bateu forte demais na madeira, que subiu muito e fugiu dele. Todos olharam para cima acompanhando a madeira subindo, girando, subindo, diminuindo a velocidade da subida e do giro, até que lá em cima quase parou no ar antes de descer. Quiçá tivesse parado no ar, como helicóptero, como um beija-flor, como o Dadá Maravilha, ou como se alguém desse uma pausa. Mas não, ela não parou. Pior, caiu, caiu rápido, sem voltinhas, reta, dura, direto na cabeça do chefe-boçal-militar-sem-farda-nem-competência, que caiu desmaiado, ao que o povo urrou de alegria, enfim vingados do déspota inútil. Gritavam em coro “Ei chefia, vai tomar no cu”. Ops, acho que agora fui eu que viajei. Fui emocional e inventei coisa. Volta a fita. A madeira não caiu na cabeça, como os presentes gostaríamos, mas ao lado do manda-chuva, que se levantou e gritou ninguém sabe o quê. Só se sabe que o povo voltou rápido e em silêncio para os seus lugares, com ar de “o que era doce acabou, tudo tomou seu lugar, depois que o Tiba passou, e cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois do Tiba passar surfando ondas de amor”. Depois daquilo Tiba sumiu. Conta-se que foi visto somente vários anos depois, pelas bandas de São Paulo, com os mesmos cabelos negros e lisos caídos para o lado, mas sem se lembrar exatamente de quem era. Quando lhe perguntaram "você é o Tiba?" ele respondeu "É ! ?"

Se alguém souber do paradeiro do Tiba, solicitamos entrar em contato com este blog ou com o jornalista Marcelo Resende, que prepara um programa sério sobre o misterioso desaparecimento. E, já que o achou, aproveite e lhe dê uma noticia: o chefe-boçal-militar-sem-farda-nem-competência dançou, foi decapitado e deportado. Mas não pense que o Tiba vai achar o máximo. Tiba jamais será vingativo. Para ele tudo sempre esteve e sempre estará bem. Quando você disse “o cara dançou” ele dirá respnderá “É ! ?”

P.S. Tiba foi o súdito bebum que desafiou o Rei e traçou a princesa em “Nosso Reino”. Também foi o inesquecível Xerxes, no maior sucesso do grupo, “A Morte de Humberto Laraia”. Xerxes reclamava da sua esposa, a Norma, porque ela era muito certinha. A peça acaba com Xerxes entrando pelo espelho e saindo de cena. Definitivamente. Sumiu dias depois. A peça seguinte do CPNES foi “O Homem que Usava Cabeça de Papelão”, um desafio ao poder constituído e uma homenagem ao Tiba, como se pode constatar no folder.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Tio Moa e suas reminiscências - Radio Days

Brasília, sexta feira, 21h. Haveria um importante e difícil jogo da Ponte Preta, contra a líder da série B, a Portuguesa, no campo do adversário, o Canindé. A Ponte estava subindo e se aproximava do G4, vinha de 4 vitórias seguidas e apesar de ser improvável a quinta vitória, eu estava louco para ver o jogo. Quando os times entraram em campo, a TV saiu do ar. Fui ao micro pensando ver pela internet, ou em ouvir numa radio on-line, mas a internet também havia caído. Combo é assim, acaba uma coisa, acaba tudo. Liguei do celular e a previsão de retorno do sistema era para depois do final do jogo. Aí lembrei que no radio do carro talvez estivesse transmitindo, afinal, o jogo era em São Paulo e a Jovem Pan de São Paulo tem retransmissora em Brasília. Como diria Nelson Rodrigues, batata! Ouvi o jogo, que foi dificílimo, mas a POnte venceu, com gol de William, 1x0, a quinta vitória seguida do meu time, num jogo eletrizante. Uma informação importante: pelo rádio, todos os jogos são eletrizantes...


Depois do jogo subi para o apartamento, liguei a TV e esperei para ver a reprise, que começou a 1h. Foi incrível! É impressionante o poder que tem o rádio de nos fazer construir imagens. Cada lance que via na TV era como se eu já tivesse visto e não apenas ouvido. Imaginava os lances de forma muito parecida como ocorreram na realidade. Reconhecia os lances. Uma transmissão por rádio utiliza códigos: no rádio ouvi “desce Malaquias pela meia direita, corta, traz para o pé esquerdo, sai da ponta, vai pra meia” e a mente construiu uma imagem. Quando vi o lance na TV, a imagem que minha cabeça havia projetado era quase igual. Ou seja, ver o que ouvi apenas ratificou, não trouxe quase nada a mais. A única diferença fundamental foi a favor do rádio: pela TV é muito menos emocionante. O locutor do rádio dá uma emoção que o da TV jamais chega perto. Pela TV, o cara não pode, tem que se ater ao que aconteceu. No rádio ele cria mais perigo do que existe, ainda que não minta sobre o lance.

Não estou querendo dizer que não verei mais na TV, só “verei” pelo rádio. Mas algo mudou. Se todos os jogos da Ponte fossem, como dizia minha santa mãezinha, "irradiados" onde moro, eu ficaria com muito menos pressa de chegar em casa e ligar a TV. O rádio satisfaz plenamente.

A noite de sexta me provocou muitas recordações da infância e adolescência, o que acabou me levando a um dos meus filmes preferidos do Woody Allen, “Radio Days”, no qual ele traz recordações de infância, que tinham como pano de fundo o rádio, que ocupava o lugar que há poucos anos foi da TV. Sobrinhos do tio Moa, acreditem: as pessoas se juntavam ao redor do rádio para ouvir novela ou futebol!

Em 1969 minha mãe e meu avô estavam nervosíssimos ao lado do rádio. Jogavam, na Vila Belmiro, a pequenina Ponte e o poderoso Santos de Pelé. Naquele ano, a Ponte acabava de subir para a primeira divisão e fazia uma campanha surpreendente. O primeiro tempo acabou 0 x 0. Perto do final do segundo tempo, todos estavam nervosíssimos, torcendo para que o Santos, que pressionava, não conseguisse o gol. A Ponte atacava pouco e parecia muito difícil que fizesse um gol no poderoso Santos de Pelé. Mas não tomar gol já estaria de bom tamanho. O rádio (à válvula, caixa de madeira) estava falhando um pouco, o chiado de estática encobria a voz do narrador, e não sabíamos quem estava no ataque quando finalmente saiu o grito de gol. Não sabíamos de quem era. Um suspense absurdo enquanto o locutor gritava um interminável gooooooool, ao final do qual ele finalmente falou “Santos, em jogada sensacional...” (chiado forte encobrindo a voz do locutor). Meu vô sacramentou "raios que o partam, foi do Santos". Minha mãe, nervosíssima, explodiu com as expressões que usava muito nessas ocasiões de contrariedade: “Lazarento-morfético-filho da puta”. Mas o locutor continuou: “Ponte 1, Santos 0". E a família urrou. "Não foi do Santos, foi da Ponte". Até o meu avô, um carrancudo português que de cada 10 frases oito eram “raios que o partam”, sorriu e berrou de alegria (não me lembro de outra vez que tenha feito isso na vida). Depois me explicaram: Santos era o nome do lateral esquerdo da Ponte Preta que fez uma grande jogada que resultou em gol da Ponte, que ganhou de 1 a 0 do poderoso Santos, de Pelé, em plena Vila Belmiro. Foi neste momento que larguei minha simpatia pelo Palmeiras e virei pontepretano.

Também me lembro das tardes sombrias de sábado, que eu tornava sombrias, pois escurecia o quarto para ouvir um programa que contava histórias de medo, de espíritos e mistérios.

Voltando ao Radio Days, ele começa com dois assaltantes levando tudo o que tinha numa casa. Aí toca o telefone. Com medo de despertar os vizinhos, um deles atende. É um programa de rádio que distribui prêmios para respostas certas. Os ladrões acertam as 3 perguntas e caem fora com o produto do roubo. No dia seguinte, a família está desolada quando chega o caminhão de prêmios, tudo novinho. Esse início já dá o tom: é um filme do bem!

Leve e cheio de poesia, é narrado pelo Woody Allen e o traz menino, em sua família, com suas irmãs mais velhas, seus tios e tias, alguns morando na mesma casa, outros visitando nas festas. Há o namorado da irmã, que o leva ao cinema pela primeira vez. Há a tia cantando Carmem Miranda, com seus típicos trejeitos, no banheiro, quando chegam dois tios e fazem o refrão, num dos momentos mais marcantes do filme. Há uma garçonete fanha que presencia um assassinato e é pega pelo bandido, que antes de matá-la a leva à casa de sua mãe, também “funcionária” da máfia. Acabam gostando dela, resolvem não matá-la e ainda a colocam como cantora no rádio.

Rádio Days provoca identificação muito forte porque é composto de situações cotidianas muito próximas de nós. Ao lembrarmos nossa infância, sempre sentimos aquela nostalgia boa, mas meio doída; sempre vemos tudo como mais leve, mais puro e mais gostoso. Talvez seja porque o tempo elimina as bobagens que no momento em que viemos, inventamos para a nossa vida. Com o tempo, o que fica mais nítido na memória são os momentos de amor, de alegria, as coisas boas que compartilhamos e a parte boa das pessoas que nos rodeiam.

Ver Radio Days é bom porque quase todos tivemos vizinhos chatos, tios, irmãs mais velhas, uma tia que apertava a bochecha da gente; todos nós fomos ao cinema pela primeira vez e em algum momento gostamos de super heróis; todos nós tivemos natais e réveillons.

Aliás, é num réveillon que o filme acaba, me deixando, sempre que vejo, em transe, tocado, sensibilizado, querendo ser poeta e sentindo minha alma imensa e inflada como um balão.

Viva o Rádio!

sábado, 21 de agosto de 2010

Tio Moa vai ao cinema: O Segredo dos Teus Olhos

O HOMEM QUE SUBLIMAVA DEMAIS

Peço desculpas aos leitores modernos, que gostam de textos curtinhos, mas neste terei que ser um pouco mais extenso. Só um pouco.

Há muito tempo li na Folha uma crítica do filme “Um Corpo Que Cai”, do Hitchcock. O título era “o homem que sublimava demais”. Achei o máximo o título remeter a outro filme do diretor (“O Homem Que Sabia Demais”). Me lembrei disso porque não há título melhor para falar de “O Segredo dos Teus Olhos”, que já deve estar nas locadoras (se ainda não viu, saia daí correndo assim que acabar de ler este post, vá a uma locadora, pegue o filme, assista umas duas ou três vezes e depois deposita uns 200 reais na minha conta, como agradecimento).

No dia da estréia do filme no cinema eu saí do trabalho e fui direto. Já entrei na sala sorrindo, feliz por estar prestes a ver um novo do Campanella. Na verdade o nome do diretor é Juan José Campanella, mas uso só um nome para demonstrar a intimidade. Se quiser impressionar alguém, fale, por exemplo, que adora o Almodóvar. Nunca fale do “diretor Pedro Almodóvar”, isso é distante. Fale “do Almodóvar”, como se estivesse falando de um vizinho, um cara qualquer que você vê todo dia. Bom, voltando ao Campanella, ele é Argentino, ou seja, um gringo boludo com mania de grandeza. Sorte nossa.

Falei que entrei na sala do cinema sorrindo de alegria e satisfação. E saí chorando. Não chorando assim pequenininho. Um baita choro, daqueles que você nem sabe bem porque está chorando, mas aquele choro vem forte lá de dentro e deixa a gente meio sem ar (é claro que, machérrimo, escondi das pessoas que estavam comigo).

Que tipo de filme é? É drama, comédia, suspense, thriller, depende da cena. Muitas cenas são tão boas que a gente pode admirá-las como um pequeno filme dentro do filme. Você está rindo e de repente você não está mais na comédia, mas num suspense, depois num thriller. É como se a gente tivesse num daqueles cinemas 3D em que as cadeiras se mexem conforme as subidas e descidas e a gente tem a sensação que vai cair mesmo.

Cada gênero é filmado ao estilo dos melhores: o melodrama tem ares de Almodóvar (até no título); o thriller à Scorcese, com uma cena de ação digna de um Brian de Palma; algumas cenas longas, tensas e sem falas são Hitchcock; a tocada das cenas de investigação lembra as comédias leves de Woody Allen (Scoop e Um Misterioso Assassinato em Manhattan). Visto assim, o filme é um pequeno compêndio de cinema, que se fecha esplendidamente com o take final à Ernst Lubitsch, um diretor de filmes leves e elegantes, que tinha a mania de esconder cenas atrás de uma porta. Apesar de tantas referências, tudo é bem costurado por um roteiro brilhante e por uma direção sensível, inventiva e humana: assinatura do diretor de “O Filho da Noiva”, “Clube da Lua” e “O Mesmo Amor, a Mesma Chuva”. É um filme para quem gosta de cinema se deliciar: cada tomada tem uma sutileza, uma elegância, um ponto de vista revelador. Isso tudo com uma tensão e angústia que atravessam todo o filme.

Falei tudo? Não, falta a história. Espósito (Ricardo Darin) tenta escrever um livro sobre uma investigação da qual participou há vinte anos e acaba viajando ao passado, quando além da história do crime, tinha a sua história com sua chefe, Irene (Soledad Villamil), que era louquinha por ele, mas o babaca (você vai ter uma raiva dele...) não tem coragem de chegar junto, e fica remoendo o resto da vida, até aqui, é claro.

Algumas cenas fantásticas (só algumas, o filme é cheio delas):

1. Logo no início, Espósito vai à cena de crime, conversando com um parceiro, numa conversa animada, cheia de palavrões, que é cortada um close em Darin quando ele entra numa casa e vê algo. A câmera está fechada em seu rosto, e é por ele que sabemos que o que está ali não é nada bom de ser visto. Coisa de ator dos bons e de diretor invulgar (a expressão invulgar é em homenagem à Fernanda, a quem o Inácio Araújo complicou toda – não entendeu? É piada interna, esquece). Em seguida um momento mágico de puro cinema: seus olhos percorrem o quarto, mostrando ora os fragmentos/sinais de uma vida feliz que enxerga pela sala, ora a horrível visão do corpo de mulher morta com muita violência. Viajamos com seus olhos e vivemos sua experiência. Fui enganado pelo gringo boludo: até ali, tudo levava a crer que era uma comédia.

2. Espósito examina uma foto e acha estranha a expressão de um sujeito. O movimento de câmera aproximando-se da foto, aliado à música, conta prá gente aquilo que para Espósito é leve suspeita.

3. A Hilária cena em que Espósito e seu amigo e colega de trabalho invadem uma casa à procura de pistas.

4. Logo depois, a genial cena do chefe passando uma descompostura em Espósito por ter feito aquela invasão. Incrível o timing de comédia (agora fui fundo: “timing de comédia”... Mas ao ver a cena você vai saber o motivo, quando o chefe soletrar “Es-po-si-...).

5. A cena em que o assassino, já solto, entra no elevador em que estão Esposito e Irene. Alí, numa descida de elevador, sem falas, Darin consegue relatar toda a nossa impotência diante da opressão da ditadura.

6. A cena do estádio é dos melhores planos-sequência da história do cinema: você se aproxima do estádio como se estivesse num helicóptero, depois acompanha o ataque, a bola na trave e desce para a arquibancada, onde, encontra Espósito e seu colega procurando alguém na multidão. Sai o gol na hora inacreditavelmente errada. Depois, a fuga e o desfecho da cena. Para os sobrinhos do tio Moa: plano-seqüência é uma cena feita sem cortes, com uma única câmera que vai filmando direto. O filme podia parar ali, para aplausos.

7. A linda e lacrimejante despedida, em flash back, me fez pensar “cena linda, mas maio apelativa”. Na cena seguinte, época atual, a própria protagonista ironiza a cena. O gringo boludo me enganou de novo. Campanella costura, brinca, mexe, diverte e até aterroriza (mas não vou falar das cenas de horror).

E os atores? Ricardo Darin é um monstro, não parece ator, de tão demasiadamente humano (frágil e impotente para mudar o rumo da sua vida). Ele sempre foi ótimo, mas neste filme subiu alguns degraus. O comediante Guillermo Francella, compõe Sandoval, um alcoólatra, com equilíbrio entre o humor e o drama pessoal. Soledad Vilamil faz sua Irene dizer tudo sem precisar falar nada, ou quase nada (“que no es lo mismo pero es igual”).

Numa cena, brilhante, Sandoval, meio borracho, explica sua tese para achar o suspeito, segundo a qual o homem pode abdicar de tudo, menos da paixão. A explicação fica na cabeça de Espósito, não apenas porque pode ajudar a encontrar o assassino, mas porque o lembra de sua própria fuga. O assassino do filme não foge, como previu Sandoval, de sua paixão, mas Espósito tentou fugir, no passado, quando deixou Irene na estação. Terá conseguido? Ele sabe que não.

Por que nós, os fracos, relutamos tanto quando chegamos perto de alcançar algo importante? Os mais fortes e determinados avançam. Mas os fracos, e desconfio que sejamos a maioria, fugimos e depois, para esconder a frustração, sublimamos, substituindo por algo nobre e inadiável: eu só não segui a carreira no teatro porque meu filho nasceu, foi por causa do meu casamento que não pude fazer aquela faculdade que eu tanto queria e que teria mudado minha vida. Fica mais fácil colocar a culpa em uma circunstância. No caso de Espósito, o homem que sublimava demais, a fuga foi justificada por um trabalho honroso que virou obsessão: pegar o assassino.

Viva a sua vida, diz o marido da vítima, quase no final do filme, mais de 20 anos depois. A ficha começa a cair e Espósito retorna, com angústia e esperança, para repensar, reviver e tentar de novo. A viagem de Espósito me fez viajar em mim mesmo. Descobri que meu choro no final do filme não foi só pela beleza do desfecho, pelas cenas bem feitas, mas principalmente pela angústia, pelo tempo perdido, por tudo de que já fugi.

Finalmente, o choro também foi de felicidade. Primeiro porque acho que as nossas fraquezas reafirmam mais a nossa humanidade do que o comportamento determinado e firme dos fortes. Segundo, porque percebi que ainda há tempo para, como diz Irene, deixar de ser lerdo, e buscar coisas que ainda quero, com as quais ainda sonho. Como disse Espósito, vai ser complicado, mas e daí?

A arte não faz milagres, mas um belo e poderoso filme pode economizar uma baita grana com terapia...
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