domingo, 7 de novembro de 2010

"Tio Moa Viajou" explica Hitchcock - 2

A sessão “Tio Moa Viajou explica Hitchcock 1” disse que o retro-citado cineasta é o mestre da linguagem cinematográfica. “Linguagem cinematográfica”! Fala verdade, não é uma expressão muito da metida a besta? Vamos melhorar. No pôsti anterior eu disse que o cinema inaugurou uma linguagem totalmente nova e que essa nova linguagem é exatamente sua maior riqueza.


É claro que a evolução tecnológica do cinema é importante, mas não tanto quanto a evolução de sua linguagem. A tecnologia atualiza o cinema com a evolução do mundo, mas está a serviço da linguagem. É esta que atrai e cativa a platéia. O cinema, brincando com nossas emoções, com nossos valores e com nossa ânsia de sonhar, acaba por desenvolver a nossa própria linguagem. Cada filme nos desfia a entender suas mensagens como condição para obtermos a experiência de viajar com ele. A cada cena, simultaneamente tentamos compreender o que aconteceu, captar e decifrar o que está acontecendo e projetar o que acontecerá, ansiando, se a projeção por positiva, ou temendo, se for negativa. É isso o que mais nos atrai no cinema. Prá encurtar: falar “cinema” é falar “linguagem cinematográfica”. Sempre que se fala um, se fala o outro. Portanto, para reduzir e simplificar o título: Hitchcock é o Mestre do Cinema.

Muitos cineastas contribuíram nestes cem anos para a evolução do cinema. Mas Hitchcock foi o mais intenso e bem sucedido nesse esforço. A cada filme ele procurava formas diferentes de transmitir uma mensagem ao expectador, de inverter as próprias expectativas do público com a linguagem. Quer exemplos? Vamos lá:

1. Porque todas as mortes no cinema têm que ser fáceis, rápidas, com um tiro ou uma facada? E porque sempre tem que ter música e/ou gritaria? Na cena do assassinato de Gromek, cometido por Paul Newman em “Intriga Internacional”, Hitch quis mostrar que pode ser difícil, trabalhoso e demorado matar um homem. O agente russo acabou de descobri-lo e vai prendê-lo. Um motorista de taxi espera do lado de fora. Numa longa e silenciosa sequência, são usados panela, pá e até o fogão. Pequenos planos nas mãos de Gromek, nas suas pernas quando são atingidas por golpes de pá e nos dedos trêmulos nos final da cena. Detalhe: nem música a cena tem. Cena fantástica e hiper-carregada de tensão. Não vá atrás de youtube prá ver a cena – você vai gostar mais vendo o filme todo.

2. Em o Terceiro Tiro, Hitchcock quis mudar a forma como o cinema mostrava o tema assassinato, sempre de forma sombria, sempre à noite. Para que valorizar tanto a morte? Ele trouxe o tema à luz do dia, trocou a emoção pela razão e pela indiferença. Ficou engraçado e bem humorado. Não é uma comédia, os atores não atuam como em comédia, mas a forma como as pessoas lidam com o problema deixa o filme muito engraçado. Veja esta: um senhor de idade (já é diferente) arrasta um corpo pelo mato para tentar escondê-lo. Passa uma senhora, vê e, com a maior naturalidade: “o senhor está com algum problema?”

3. Em “Festim diabólico” Hitchcock propôs um grande desafio a ele próprio e aos atores. Sabedor da importância do corte e da montagem para o cinema, resolveu desafiar a si próprio, dificultando ao máximo as coisas para ele mesmo. Como se estivesse se estrangulando. Resolveu fazer um filme inteiro sem um único corte. Só uma câmera. Um único ponto de vista em ação ininterrupta. Como naquele tempo a câmera não era digital, a cada 12 minutos tinha que trocar o rolo. Mas ele disfarçou essa troca. O que importa é que a ação é ininterrupta. Sem o recurso do corte, a criatividade no movimento da câmera, combinada com a perfeita atuação e movimentação dos atores minutos, transmite tudo. Ou seja: com uma única tomada durante todo o filme e ainda assim cirando tensão o tempo todo, Hitchcock venceu o desafio, para deleite da platéia.

4. Está vendo isso ai em cima? Que tal agora invertero que ele fez em "Festim"? Pois em "Psicose" tudo se inverteu. O filme é esplêndido por uma série de razões, mas aqui destaco sua cena mais famosa, a do assassinato no chuveiro. De só uma tomada em mais de uma hora e meia vamos para uma cena, a do chuveiro, que tem 70 tomadas em 45 segundos. Uma das cenas mais criativas da história do cinema. Pura criatividade, corte e montagem. Um delírio!

5. Imagina o trabalho que deu montar aquele monte de tomada em Psicose. Mas certamente tudo estava bem desenhado: Hitchcock não trabalhava no improviso. Tudo era imaginado e planejado cuidadosamente meses antes. Em “Os Pássaros” ele imaginou uma cena em que, no lugar de mostrar o tempo todo para a platéia o perigo chegando, mostra apenas um pássaro pousando. Já ficamos aflitos, pois sabemos que os pássaros estão atacando e matando pessoas. Depois a câmera fica 40 segundos mostrando Melanie esperando num banco. Enquanto isso ficamos pensando se teriam chegado mais pássaros ou não. Depois mostra novamente o local, depois ela de novo. No final ela olha e já tem centenas de pássaros. Acompanhe o desenho feito muito antes das filmagens.

6. Falando em montagem, “Janela Indiscreta”, inteirinho, todinho é só montagem. Só um ponto de vista, o da janela de Scott, que está com a perna quebrada e dedica seu filme a acompanhar a vida dos vizinhos dos prédios que ficam à frente do seu. Ao longo do filme acompanhamos, alternadamente, as histórias que acontecem dentro de cada janela. Tudo sempre é mostrado de longe, do lado de fora da janela, de dentro do apartamento de Scott, que, interpreta o que acontece dentro de cada janela. Tendo o cinema nos acostumado a ver as cenas sempre de perto dos personagens, veja o que isso representa de inovação e de risco.

7. Mais uma em “Os Pássaros”, a sequência da cena de que acabei de falar. Melanie entra na escola para avisar. Depois vemos, ainda dentro, a professora orientar as crianças: “vamos bem devagar e sem barulho. Quando eu gritar, vocês correm. Como qualquer um filmaria? As crianças abrindo a porta e olhando para os pássaros. Depois mostra os pássaros, que vêem. Depois as crianças descendo as escadas. Novamente os pássaros se preparando. Depois as crianças andando, etc. Como foi montado? Câmera nos pássaros por longos 40 segundos. Durante esse tempo nós imaginamos todos aqueles passos. Ele só nos mostra as crianças quando elas começam a correr, ao que são seguidas pelos voadores.

Só citei alguns exemplos, mas todos os seus filmes são recheados deles. O cinema tem muitos cineastas criativos. Mas Hitchcock foi além de todos eles. Na medida em que sua criatividade foi capada, sentida e assimilada, e não apenas por cinéfilos. Hitchcock foi um cineasta muito popular. Seus filmes eram sucessos populares. A inovação e a qualidade, para Hitchcock, só faziam sentido se estivessem a favor de fazer um cinema do qual as pessoas gostassem muito e pelo qual elas se sentissem atraídas. Como ele atraia as pessoas? No próximo pôsti.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A Volta de Humberto Laraia - Volume um

Inauguramos hoje, neste blógui, a participação do importante escritor Humberto Laraia, importante tanto pela sua obra, quanto pelo mistério que cercou sua morte e agora cerca sua volta. Em comemoração, excepcionalmente hoje publicaremos no mesmo pôsti os dois primeiros capítulos.


CAPÍTULO I – A INVASÃO
Estava escrevendo, totalmente envolvido, uma cena nervosa, carregada de tensão. Aquele povo estava querendo encrenca, desejando e precisando extravasar. Acho que queriam colocar a culpa em alguém. Eu estava meio tomado, comecei a escrever como se não fosse eu o autor, como se algo escrevesse por mim. Adorava essa sensação, que, por sinal, não era incomum. Mas naquela noite a coisa fugiu do controle. Eu tinha um espelho na sala e enquanto escrevia, costumava projetar mentalmente as cenas que imaginava no espelho. Mas tinha vezes em que as imagens no espelho me ultrapassavam, iam à frente, aconteciam antes de eu escrevê-las. Aí eu descrevia o que enxergava. Como se as pessoas, ou o espelho, escrevessem por mim.
De repente eles vieram direto na minha direção, atravessaram o espelho com fúria, como se fossem gângsters de westerns quando entram em saloons abrindo com força aquelas portinholas. Olharam um pouco ao redor e quando viram na poltrona num amigo meu que estava em casa partiram para cima dele e lhe deram uma surra.
Fico pensando por que os caras bateram no Xerxes e não em mim. Aliás, eles me ignoraram por completo, como se eu não existisse. Isso é estranho, já que na realidade eram eles que não existiam, ou pelo menos deveriam não existir. Foi como se o procurassem. Coitado do Xerxes, era meio chato, mas sabe aquele chato que você gosta? Era o Xerxes. Como é que alguém pode ter um nome desses? Seria Ataxerxes? De qualquer forma isso não alteraria em nada o fato de que ele acabara de ser linchado.


Retornaram para dentro do espelho. Não sei o que me deu quando os vi atravessando o vidro, se curiosidade ou medo... Só sei que fui atrás, misturei-me a eles e entramos juntos. Foi como entrar numa festa sem convite. É verdade, atravessei o espelho.


CAPÍTULO I I – A TRAVESSIA


Quando entrei no espelho, não vi ninguém. Nem nada. Não é branco, nem preto, simplesmente não tem cor. Caso você não consiga imaginar um ambiente sem cor, nem branco nem preto, não tem a menor importância. Considere apenas que não tinha nada para olhar. Aí resolvi voltar. Bem que tentei. Dei tanta porrada naquele espelho... Fiquei lá, preso. Via tudo do lado de fora. Também ouvia e a primeira coisa que ouvi foi uma gritaria vinda do lado de fora da porta. Depois pancadas na porta, como se quisessem arrombá-la. Até que ela cedeu. Apareceram o síndico, não me lembro seu nome, o porteiro, seu Alcides, e o casal vizinho (nunca soube seus nomes). A vizinha tomou a frente e ficou apavorada com o que viu: aquela desordem e o Xerxes lá, estendido no chão. Mexeram nele. Coitado do seu Laraia, será que está vivo? Não sei, acho que está respirando, respondeu algém.
Ei, espera aí, percebi, ela falou o meu nome. Será que pensaram que oXerxes sou eu? Chamaram a ambulância. Tentei me comunicar, bati no espelho, gritei, mas não me viam nem ouviam. Procuraram mais alguém pela casa. A chata da vizinha ficou bisbilhotando. Fuçou os cinzeiros e olhou os copos, provavelmente querendo achar algo para confirmar suas suspeitas. Não toca em nada, gritou o marido. O porteiro estava encostado no batente da porta aberta. Inclinava a cabeça para ver, por melhor ângulo, a bunda da vizinha. Eu nunca havia notado, achava que ela era apenas uma chata. Vi que, apesar de chata, ela tinha realmente algumas virtudes. Redondas e empinadas. Virtudes no tamanho exato.
- Temos que chamara polícia também.
- A polícia... a polícia... a polícia, repetia sem saber o que estava dizendo o seu Alcides. Realmente era difícil tirar os olhos da bunda da vizinha.
O Síndico falava com a polícia pelo telefone quando apareceu seu filho, um pirralho mal educado. Estava de pijamas, levou um grito do pai e saiu correndo. Ahn, desculpe, é meu filho que estava aqui. Tudo bem, ninguém vai mexer em nada.
Chegaram os paramédicos, mexeram no Xerxes, cochicharam algo entre eles e o levaram, tudo muito rápido, como com muita urgência. Fiquei triste ao ver o Xerxes daquele jeito. O porteiro, que havia saído, retornou avisando que a polícia chegara. A vizinha passou, rápida e discretamente, pelo espelho para conferir se estava tudo certo com ela, inclusive virando-se um pouco para conferir também sua bunda. Mulher gosta tanto de bunda quanto nós, homens. Ou mais. Ajeitar-se para os policiais... Veja como são as mulheres... Será que elas têm tara por policiais? Essenegócio de espelho tem seu lado interessante. Depois de se ajeitar, olhou de forma diferente para o espelho, talvez assustada. Terá me visto? Aproximou. Não, não era a mim que olhava. Também não era para ela mesma. Olhava o espelho, admirada como se até ali não o houvesse notado. Passou a mão no vidro, na moldura e pareceu surpresa. José Felipe, você viu que espelho lindo?
Os policiais encheram os vizinhos de perguntas. Quando perguntaram o nome da vítima, a resposta foi “Humberto Laraia”. OAquele escritor? Ele mesmo.
O que significava aquilo? Ei, vocês, Humberto Laraia sou eu, aquele era o Xerxes. Será que não notaram? Não ouviram meus protestos. O síndico confirmou que era eu. Perguntaram se eu costumava receber muita gente, e a vizinha disse que eu ficava em casa o dia todo e que não recebia visitas, que era muito sozinho, sombrio, "esquisito que só ele". Que vaca!
O Porteiro disse que naquela noite ninguém havia passado pela portaria. Mas como, discordou a vizinha, se ouvimos a maior pancadaria aqui dentro? Parecia que tinha uns dez aqui dentro pelo barulho. Não exagera, disse o marido. José Felipe, fica quieto porque você estava no quarto, com o seu maldito futebol. Só sei é que pela portaria é que não passaram, reafirmou Seu Alcides. Ninguém? Ninguém, tô falando. Mas e o Xerxes?, gritei. Gritei é modo de dizer, porque de trás do espelho, aprendi, não há grito, nem fala, só pensamento. Nem uma pessoa? Ninguém, respondeu ao policial. Ninguém passou pelaportaria.
Lacraram o apartamento. No dia seguinte apareceram técnicos da polícia. Investigaram, colheram fiapos, grãos, cinzas, migalhas, copos, impressões e tudo o que puderam. Dias depois, uma equipe de televisão apareceu. E a vizinha também, toda arrumada, calça justa. Onde exatamente você encontrou Humberto Laraia assim que entrou no apartamento? Bem ali, ela apontou e descreveu a cena. Pelo jeito estavam fazendo reportagem sobre meu desaparecimento. Como era Humberto Laraia no dia-a-dia? Ele era muito educado, respeitoso, mas vivia muito sozinho, acho que ficava escrevendo o tempo todo.
Que história é essa de “era”? Como é que eu posso permitir que falem de mim como se eu estivesse morto? De frente para a câmera, o repórter falou algo sobre como poderia alguém ser linchado sem que ninguém deixasse nenhum rastro, nenhuma pegada, nenhuma impressão digital, nada que fizesse acreditar que houvera alguém naquele apartamento, naquela noite, além do próprio Humberto Laraia. Mas isso não é nada. Duro foi ouvir quando o repórter falou, em tom grave, algo sobre “a misteriosa morte de Humberto Laraia”. Aí caiu a ficha. Que estranha maneira de se saber que a gente morreu.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A incrível história do CPNES - Parte 8

"Cobra Parada" apresenta Arlete, a guerrilheira que abraçava o mundo

Para quem começa agora a acompanhar a história, esclareço que o Cobra Parada Não Engole Sapo foi um grupo que no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Quem lê com regularidade a história do CPNES e tem curiosidade exacerbada, deve ter notado que nunca me referi a ele como grupo de teatro. É a história do grupo, a atuação do grupo. Nunca do grupo de teatro.

O que esse detalhe significa? Que o CPNES atuou em outras vertentes da arte? Ou será que teve uma atuação política? Quem sabe se o teatro não era apenas uma fachada para ocultar um braço armado de algum movimento de esquerda? Enfim, essa pergunta me fazem diariamente aqueles que não presenciaram os fatos, os meus sobrinhos de sangue e os de estima, visitantes descuidados e curiosos em geral.

Afinal, eram os cobraparadistas guerrilheiros?

Talvez fosse melhor mentir para preservar as pessoas envolvidas, que seguiram suas vidas e hoje têm cargos e famílias a zelar. Mas quem sai na chuva é prá se molhar. A resposta, por mais que isso possa chocar é que sim, éramos guerrilheiros. Pela primeira vez confessamos em público, nesta biografia não muito autorizada. Planejamos muitas vezes colocar bombas em prédios públicos. Pensávamos sempre em organizar atentados terroristas. Sonhávamos em içar o Sarney (que ainda não era presidente) pelos bigodes em praça pública. A idéia de pegar em armas para defender o país da ditadura nos seduzia demais para medirmos os riscos. Lutávamos pela liberdade de ser o que quiséssemos, não o que os outros queriam que fôssemos (embora não tivéssemos a menor idéia do que realmente queríamos ser).

Se temos provas de que éramos guerrilheiros? Infelizmente não. Foto de todo o grupo com armas nas mãos? Não, só essas fotos aí do lado, tem as armas, mas nao tem a gente. Foto com alguns de nós com alguma arma na mão? Não. Foto com pelo menos um de nós com qualquer coisa que pudesse parecer uma arma? Também não. Nem um revolvinho de espoleta? Negativo. Quem sabe um estilingue? Nada. Como é que pudemos não ter ficado com sequer uma prova de que éramos guerrilheiros? Muita incompetência?
Como é que a gente ia adivinhar que aquilo um dia pudesse ser útil prá gente?

Arlete (filha do rei) contracena com o Tiba em "Nosso Reino" 
Tudo bem, sem provas não poderemos ganhar indenizações, mas quem é que liga prá isso? E também, na verdade, não importa saber se pegamos ou não em armas. O que importa é que aquilo que fazíamos com o teatro era, de fato, uma espécie de guerrilha, mais efetiva do que se fossem usadas armas. E como um grupo de meninos, naquele sistema de opressão e controle absoluto, terá conseguido fazer o que fez? Não se faz isso sem uma liderança muito inspiradora. Idéias e vontade de resistir e de gritar nós tínhamos, mas quem teria a coragem de falar “vamos lá, tchê!”. Quem teria a petulância de gritar para quem ficasse inseguro “O que? medo? Larga de ser frouxo, vamos lá”? Quem era a pilha, o exemplo que inspirava, o motor que empurrava, a coragem que faltava?

A Arlete, a nossa guerrilheira. Essa gaúcha foi a nossa Anita Garibaldi, nossa Anahy de las Misiones... Essas gauchas são phoda mesmo, adroam uma gerra! E a Arlete não fugia delas. Por isso era conhecida como Arletão, que era prá meter medo mesmo. Mas não metia. Metia respeito, isso sim. Mesmo sendo uma guerreira forte, corajosa e nem um pouco delicada, Arletão tinha um sorriso e um coração que abraçavam todos que estavam pela frente. Seu jeito de ser conseguia a paradoxal proeza de ser despolido e até grosseiro, mas, ao mesmo tempo, gigantescamente afetivo e acolhedor. Era a pessoa boa e confiável por excelência. Se achasse que alguém era um chato, ela dizia. “Fulano, mas você é muito chato”. E o fulano não achava ruim. Se era prá dizer que alguém era imbecil, ela dizia. E todos continuavam gostando dela, e ela se divertindo com todos.

“Ahn? Fazer a filha do rei na peça e esculachar com o meu pai? É comigo mesmo”.

“Tá com fome? Não tem o que fazer em casa? Tem uma panela vazia aí? Não, essa é pequena, pega a maior. Isso, essa serve. Vem atrás”. E lá saia a Arlete de casa em casa. Entrava dizendo “Tô morrendo de fome. Me dá aí qualquer coisa prá eu botar nessa panela e fazer uma sopa”. “Não tem?” “Deixa eu ver na sua geladeira”. Ia lá e abria. “Ei, tem sim, você não viu direito. Essa berinjela ta ótima, obrigado!”. No final saía uma big sopa. O Sopão da Arlete virou mania. As pessoas já compravam verduras e legumes a mais e já deixavam para quando a Arlete passasse para fazer seus sopões comunitários para os necessitados. Necessitados aqui não eram aqueles que não tinham condições de comprar uma abobrinha, mas aqueles que não tinham a menor idéia de o que fazer com uma abobrinha. Arlete não podia ver uma causa justa que tomava a frente. Não podia ser desafiada, que encarava. Alguém tinha uma idéia legal? “deixa comigo”. Era a energia e disposição em estado puro.

Arlete, onde chegava, chamava atenção, porque além de todo aquele seu jeito, falava alto que só ela. Certa noite, no Beirute, depois de sairmos chapados de uma peça alucinante que havia vindo do Rio, fomos ao Beirute, onde, prá variar, foram também os atores da peça. E naquele ambiente alegre, o jeito da Artele chamou a atenção da Regina e do Luis, atores da peça, sentados na mesa ao lado, uma daquelas mesas mais escondidas, ali no “L” do bar. Logo tudo virou uma mesa só. A Arlete estava atacada. Era apaixonante. Estávamos no me
io da nossa guerrilha, e a Arlete havia assumido a personagem Arletão. Discursava sobre a necessidade de as mulheres largarem aquele jeitinho meiguinho-docinho de Barbie e assumir a guerrilheira, dar as cartas, ser mais natural. Arletão não queria parecer feminina, ela sabia que era, e isso bastava. Arlete falou também da luta contra o poder. Ao ver uns policiais por perto gritou “Prá quê polícia aqui? A gente não precisa de polícia!”. O Luis anotou. Aliás, ele ficava o tempo todo anotando. Falamos da guerrilha que fazíamos. Falamos de brincar com o poder, dar um calor neles, a fim de amolecê-los e derrotá-los por derretimento. Escaldá-los. Os atores cariocas adoraram aquela conversa.


Titãs antes de conhecerem a história do CPNES
Dois anos depois foi lançado o filme Areias Escaldantes, idealizado por Regina Cazé e Luis Fernando Guimarães e que tinha no elenco, alem dos próprios, o Lobão e os Titãs, que por sinal gostaram das anotações do Luis. O filme, livremente inspirado na Arlete e na história do CPNES que a Regina e o Luis ouviram naquela noite, contava a história de um grupo de guerrilheiros lutava contra as forças do mal.


Capa do 1o disco do Titãs pós CPNES

Foi depois disso que os Titãs deram uma guinada do pop para o rock mais em sua melhor forma. Foi depois disso que Lobão largou os seus Ronaldos e lançou sua iconoclasta carreira solo. Foi depois daquele encontro com a Arlete que a Regina Casé, que ainda fazia o estilo comportadinho na peça que vimos (“A Farra da Terra”), mudou a forma de ser e de atuar e incorporou o Arletão. Foi exatamente isso que fez seu sucesso, que por sinal se mantém até hoje.

Os cobraparadistas, inclusive o emérito Panta, que teve a sorte de ter convivido mais tempo com ela (foram casados), não precisam de esforço algum para ter, muito viva na memória, a magnética e fulgurante imagem da Arlete. Mas caso você, sobrinho querido, queira saber aproximadamente como ela era, veja a Regina Casé, que ostenta com dignidade a persona que a inspirou: Arlete, a guerrilheira que abraçava o mundo!




domingo, 31 de outubro de 2010

"Tio Moa Viajou" explica Hitchcock - 1

Hitchcock é o mestre da linguagem do cinema

Pelé (parabéns pelos 70 anos) é conhecido no mundo todo como o Rei do Futebol. Perfeito. Hitchcock é o mestre do suspense. Não gosto desse título. Primeiro porque a grande maioria das pessoas associa “suspense” a um gênero de filme. Suspense é um estado de tensão que sentimos por não saber exatamente o que acontecerá a seguir e nem quando acontecerá, o que aumenta ainda mais a tensão, ou o suspense. Nisso, é bem verdade, provavelmente ninguém tenha sido melhor que Hitch (não quero parecer íntimo do mestre, mas não posso negar que temos alguns laços). Mas classificá-lo como mestre do suspense restringe demais a importância e a atuação do gordinho inglês e de sua obra. Para explicar melhor convido o ávido sobrinho a um pequeno passeio.

O teatro existe há milênios. Provavelmente começou lá na Grécia antiqüíssima (antes da antiga), quando os agricultores incorporavam deuses e encenavam rituais para abençoar a colheita (imagina que porre que era!). Mas tanto os atores quanto a platéia bebiam muito vinho prá encarar. Aí o negócio ficava bom. O teatro pegou e é forte até hoje. Já o cinema é coisa muito nova; não tem mais que seus 100 anos (sem essa de pesquisar data da invenção oficial do cinema, ein).

Quando o cinema começou a engrenar, muitos disseram que o teatro morreria. Erraram feio: o teatro nunca vai morrer porque não há nada que o substitua, nem o cinema. A experiência de ter um ator incorporando um personagem, ali, bem na sua frente, é inigualável. Você se relaciona com ele, troca experiências. Se você ri ou suspira, o ator ouve e, com ou sem intenção, altera a forma ou a intensidade da sua atuação. É uma troca que não ocorre no cinema. Isso sem falar que você, a qualquer momento, pode se levantar e entrar na cena, ou gritar algo para o ator, e o ator vai ouvir e vai se manifestar, porque no teatro, as coisas acontecem no presente, na sua frente, e não em algum lugar do passado. É claro que se você gritar num teatro seria um mega mico, mas essa simples possibilidade também faz parte da magia do teatro.
 Agora imagina se o cinema fosse feito como uma peça, com uma câmera parada, como se fosse você na platéia, apenas captando os atores interpretando, com os acontecimentos ocorrendo um após o outro, em sequência ininterrupta de tomadas estáticas. Seria exatamente igual ao teatro, só que sem o contato, sem aquela magia própria do teatro. Ou seja: seria um saco!

“Espera aí”, pode lembrar o atento sobrinho, “um trem no cinema é um trem de verdade, não um pedaço de pano pintado”. Sim, o trem é de verdade, mas não está ali, naquele momento, está apenas projetado, enquanto a ilusão do teatro faz com que o fato de ele ser de pano absolutamente não importe. O foco do teatro não é te convencer que você está ao lado de um trem de verdade, mas te convencer de que você está frente a frente com o espírito humano interpretado pelo ator.
 Não estou querendo dizer que o teatro é melhor que o cinema, mas que o cinema, para funcionar, teria que ser diferente. E conseguiu quando criou a sua própria linguagem, nova, diferente de todas as linguagens anteriores. Se o cinema se limitasse à forma do teatro de contar uma estória, não teria introduzido uma nova linguagem.
 O que fez do cinema a sétima arte não foi a tecnologia (projeção, movimento, som), mas o fato de ter inaugurado uma nova linguagem, o que não ocorreu quando inventaram a câmera e a projeção, mas sim quando os cineastas começaram a cortar as cenas, editá-las e montá-las e não . Quer um exemplo?

Uma cena mostra um homem num quarto se dirigindo à janela e olhando para baixo. Corta. Agora aparece outra imagem: um homem e uma mulher numa rua, conversando bem próximos, filmados do alto. Mesmo que ninguém nos diga, sabemos que o homem da cena anterior está olhando atento para eles (no início do cinema, um homem explicava, ao lado da tela, o que acontecia, já que as pessoas ainda não dominavam essa linguagem). Agora os dois se despedem com um beijo. Corta. Agora a câmera do lado de fora da janela, mostra, de baixo, o homem ma janela, com expressão de raiva.

Concluímos que o homem está enciumado e com muita raiva. Imagine que na próxima cena seja ele esteja estrangulando e matando a mulher da cena do beijo. Percebemos que ele é o marido ou algo parecido, e que está fazendo isso por ciúme.

Imagine que depois desta cena do estrangulamento, a próxima tomada fosse novamente do homem olhando para baixo, seguida por uma nova cena da mesma mulher, andando na rua. Ninguém pensaria que ela
ressuscitou depois do estrangulamento, nem que agora quem está na cena é a sua irmã gêmea. Entendemos a linguagem do cinema e concluiríamos oncluiríamos que ele, como marido traído, havia fantasiado um estrangulamento. Só concluímos isso depois de vê-la novamente na mesma rua em que andava, com a mesma roupa. Mas se o cineasta não quisesse que esperássemos a nova cena para mostrar a mulher viva, ele poderia fazer com que a cena do estrangulamento surgisse de modo granulado, ou com outra cor, ou se enevoar até desaparecer. No mesmo instante saberíamos tratar-se de imaginação, porque compreendemos a linguagem do cinema.


Mais: a mulher andando, de repente olha para cima e, num close, vemos sua expressão amedrontada; depois novamente a câmera mostra o homem, visto de baixo, à janela, com cara de mau. Os dois se relacionaram diretamente, não foi? Ela sabe que ele a viu e ele sabe que ela sabe que ele a viu. Agora vejam: isso tudo pode ser filmado em momentos diferentes, sem que o ator e a atriz se vejam. A rua pode ser em outra cidade. O cinema cria espaços, histórias e relações com um simples deslocamento do ponto de vista e muito corte, muita montagem. Ressalte-se que tiramos todas essas conclusões ao ver as cenas sem necessidade de uma única palavra, uma única explicação.

Essa é a linguagem do cinema, que nos coloca como seres inteligentes, interpretando ativamente o que acontece. Quanto mais rica a utilização da linguagem puramente cinematográfica em um filme, quanto mais códigos são inseridos e quanto mais a compreensão das cenas depende da interpretação desses códigos (e não apenas do texto que é dito), mais o filme nos desafia e mais gratificados nos sentimos ao compreendê-lo.

É claro que um filme pode ser bom pelo texto, pelo roteiro, tanto que Tio Moa é fanático por Billy Wilder e Woody Allen, mestres em roteiros e em textos fantásticos. Mas o que diferencia o cinema de qualquer outra arte, como a literatura e o teatro, é a rica utilização de sua própria linguagem, que é única. E nisto não tem prá ninguém: o maior de todos os tempos, é Sir Alfred Hitchcock, mestre não apenas do suspense, mas da experimentação, da criação e da plena utilização da linguagem cinematográfica, tudo a serviço do entretenimento, do cinema gostoso de ver, que prende, diverte e emociona. Hitchcock é o cara!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A ALEGRIA DE VIVER - JERRY LEWIS

Este blogui nasceu da vontade de escrever sobre cinema, um meio de compensar certa frustração por não fazer cinema ou por estar parado no teatro. Coloquei fotos de diretores que adoro, combinadas de imagem de um de seus grandes filmes. Mas fui pressionado a contar toda a verdade sobre a incrível história do grupo Cobra Parada Não Engole Sapo, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Isso me tirou tempo para escrever sobre cinema. Mas hoje, como pretexto para falar sobre a alegria de viver, vou falar de um dos caras das fotos, a da extrema direita: Jerry Lewis, um gênio!


Você, sobrinho querido do Tio Moa, que já torceu o nariz quando mencionei Jerry Lewis e agora engasgou quando o classifiquei como gênio, certamente sabe que a alegria da vida, definitivamente, está nas pequenas coisas. Primeiro porque, se comparadas com as grandes coisas, as pequenas ganham muito na relação custo/benefício. Se pudesse ser medida, saberíamos que a alegria de viver proporcionada por grandes coisas não é maior que a aquela proporcionada por pequenas coisas. Só que na nossa vida as pequenas coisas acontecem muito mais do que as grandes coisas...

De verdade: se encantar com pequenas coisas é bom demais; e não só porque elas aconteçam mais vezes que as grandes coisas, o que já seria um bom motivo. Mas é que as pequenas coisas são mais legais mesmo. Grandes coisas, por serem obtidas com mais esforço e mais tempo, dão satisfação pessoal, mas não causam encantamento. Ao contrário, as pequenas coisas nos encantam. Talvez elas tenham esse poder por serem prosaicas, cotidianas, e, assim, nos aproximarem mais da nossa alma, afinal a alma é simples; é a poesia que a complica.

O fato é que quando paramos um pouco de olhar fixamente para as grandes coisas, começamos a olhar para as pequenas, acalmamos nossa alma e ficamos livres para nos encantar com elas. Veja bem: encantamento não admiração, é muito mais. É sentir aquela alegria de estar vivo quando vemos a grama verdinha começando a surgir por debaixo da palha depois das primeiras chuvas. É um “oi, tudo bem”, dado de forma esfuziante por uma mulher reluzente. É assistir um filme do Jerry Lewis.

Ta vendo sobrinho? Valeu à pena conseguir ler até aqui. Acabou de saber por que o Jerry Lewis é um gênio: ele nos dá alegria de viver. Depois de 10 anos (advento do DVD) de dedicação à degustação e ao estudo do cinema, decidi rever filmes do cara, para matar saudade, já que cresci os vendo, para fazer uma re-análise dos meus conceitos, extremamente positivos, sobre ele e seus filmes. Achava que gostaria por nostalgia: gosto porque amo, amo não por ser bom ou ruim, mas pelo que sinto ao vê-lo.

Revendo os filmes, lembrei porque os adorava tanto na infância e adolescência. Porque eles me davam alegria de viver. Eu amava aquele cara atrapalhado, ingênuo, franzino, inseguro, sempre subjugado pelos mais fortes e seguros de si. Mas sempre, ainda que involuntariamente, esse cara da voz esganiçada confrontava os fortes e, com base exatamente na sua ingenuidade e inocência, os vencia. De quebra ainda ficava com uma mulher acabava bem. Agora vejam: eu, raquítico, franzino e inseguro que era, só podia ir às alturas com aqueles filmes. Hoje, apesar de não ser raquítico e franzino fisicamente (vê-se), ainda posso gaguejar diante de um esfuziante “oi, tudo bem” dado por mulher reluzente. É aquela porção de insegurança e de pequenez que temos diante de daquilo que nos parece inalcançável (em agosto escrevi que isso me arrebatou no personagem Espósito, de “O Segredo dos teus Olhos”).


Mas ver filmes do Jerry Lewis dá aquela boa sensação de redenção, o que vale para todos, afinal, todos, até você, querido sobrinho, são inseguros (uns escondem até de si mesmos). Nos filmes do JL, as histórias são ingênuas, simples, prosaicas, mas nos fazem bem, são divertidas e leves. Mas ainda que causem ótimas sensações, são apenas pano de fundo para que possamos ver pequenas esquetes encenadas por um gênio.

O humor é tirado não das piadas do texto, mas das expressões faciais e corporais Jerry Lewis. Não confunda expressão facial com careta, tipo as do Jim Carrey. Seu trabalho de corpo é fantástico. Ele conta as piadas com o corpo, baseando-se na transição entre um movimento e outro, e com o rosto, também com a transição bem marcada entre uma expressão e outra. Sempre com precisão cirúrgica, como se houvesse marcado segundo a segundo.

Para ver um filme do Jerry Lewis há que se estar ao mesmo tempo atento e relaxado. Atento para não perder as pequenas maravilhas que podem acontecer a qualquer instante, independentemente da importância daquele instante para a trama.

Veja esta maravilha, em que ele, mensageiro de um estúdio, vai levar uns papéis para a sala vazia do chefão, em “Mocinho Encrenqueiro”, a encontra vazia e viaja.


Na noite de quinta, durante o debate na Globo, assisti “Artistas e Modelos”, um dos muitos filmes que ele fez com Dean Martin. Foi uma maravilhosa troca. A cena em que Shirley MacLaine canta para ele... Ela, fazendo a desajeitada, com voz quase tão esganiçada quanto a dele. Ele, sem fala, dá um show. Veja cada vez que ele, num balé desajeitado, pega as coisas do chão. Ela não fica atrás. É uma daquelas que fazem a vida valer à pena. Veja:

Ver cenas isoladas não causa a mesma sensação. Essas são as grandes cenas, mas há beleza e pequenas maravilhas espalhadas por todo o filme. E como falei lá atrás, as pequenas coisas nos encantam e nos dão alegria de viver.

Troque seu livrinho de auto-ajuda por um bom filme do Jerry Lewis. Há, em DVD, “O Otário”, “Errado prá Cachorro” e “O Professor Aloprado”. Este último é um baita filme, talvez seu melhor, e certamente uma das melhores comédias de todos os tempos. Qualquer dia falo só dele. Ah, não confunda com aquelas chatices do Eddy "Chato" Murphy, nada a ver.

Prá encerrar: quando eu me encanto com um radiante “oi, tudo bem” ou uma grama nascendo depois da seca, percebo que as coisas simples, na verdade, não são assim tão simples. Pelo contrário, são, em si, grandes conquistas, pequenas maravilhas pelas quais vale à pena viver.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

TIO MOA E O EXCITANTE MUNDO QUE RODA

Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe. Na vida, tudo é passageiro, com exceção do motorista e do cobrador. Há uma surpresa a cada esquina. Nada é impossível. Viver é sonhar. E chega de frase feita por hoje.

Minha Irmã, como toda mãe, sempre sonhou com a nora ideal. E encontrou. A surpresa é que a nora com a qual minha irmã sempre sonhou é o David. Eles, David e meu sobrinho, estiveram em casa por uma semana, deixando um vazio quando se foram. David cortou meus cabelos, iniciando mais uma mudança na minha vida, já que passei 10 anos eu mesmo deixando-os, à máquina, rentes, sem ondas, sem picos e depressões. Enfim, sem nada que lembrasse uma vida humana. David me recuperou como ser humano.

Mas meus cabelos já cresceram e como não quero mais cortar à máquina e nem procurar um salão, resolvi deixar que o salão me achasse. Sabia que o acaso me ajudaria enquanto andasse distraído (desculpe por essa). Sábado fui a um sebo, onde comprei uns de discos de vinil. Ao sair do sebo o que vi na frente? Um salão. Olha o acaso aí! Mas, portador da síndrome das pernas inquietas que sou, só cortaria se fosse na hora, sem espera. E lá estava a Cleide, prontinha, me esperando. Entrei naquele salão cheio de mulheres de sábado e me sentei. Bem atrás de mim, posição que o espelho gentilmente alterou, estava ela, na minha frente no espelho, branca, linda, como banhada por uma luz celestial, Glauce Rocha, a Sara de “Terra em Transe”. Uma encarnação, é claro, pois ela morreu em 1971. A mesma beleza estranha, que não sabemos explicar, não convencional,  os mesmos olhos meio fechados, uma beleza poética. Era, na verdade, mais bonita que Glauce, a minha Glauce (será que um dia saberei seu nome?). Eu não conseguia parar de olhar para ela, para aqueles olhos maravilhosos, aquela expressão indefinível, que me arrebatou. Aquele corte podia durar anos, eu ficaria alí, olhando para ela... Mas não há mal que nunca acabe nem há bem que sempre dure. Ops, outra frase feita. Mas o fato é que a minha Glauce foi embora como se foi a primeira, assim, de repente. Esta eu espero voltar a ver. A outra, só nas incontáveis vezes em que verei Terra em transe.

E já estamos no domingo, pé de cachimbo, um calor danado, sem chover há meses, ouvindo os discos que havia comprado na véspera. Enquanto ouvia, cozinhava um sopão de legumes e uma canja, para serem congelados em porções individuais e servirem de jantar nas próximas duas semanas. Mesmo com todas as janelas abertas, nada de vento, e aquele calorão. Vento não havia, mas surpresas, sim. Coloquei na vitrola (é o máximo poder dizer isso) o álbum “Rapsódia Rock” do guitarrista Robertinho do Recife, e fui para o fogão. E não é que o rapaz teve a petulância de, na minha sala, tocar, apenas para mim, ele bem sabe, o “Noturno No 10”, de Chopin? Sabe o que significa isso? Vou explicar.
 Tio Moa não teve pai, o que o envergonhava muito na época em que era apenas um raquítico sobrinho. E sempre aparecia um coleguinha estúpido que perguntava “o que o seu pai faz?”. “Não tenho pai”. “Não tem?”, como se não ter pai fosse a coisa mais estranha do mundo. “Não”. “Ele morreu?”. “Não”. Que saco! Aquilo estragava o dia, a semana e o mês. Que graça podia ter falar do pai? Porra, fala do primo, do joguinho, do chinelo novo, da Ponte Preta, fala até do Guarani, mas vai falar justo do pai... “Meu pai é vendedor” (mas que cacete, quem perguntou?), “meu pai é engenheiro” (e daí, imbecil?), “meu pai me levou ao zoológico” (prá ver seus parentes, animal?). Mas que merda, aqueles idiotinhas não tinham outro assunto?

Nesse contexto, cresci vendo, dezenas de vezes, o filme “Melodia Imortal”, em que Tyrone Power interpreta o pianista Eddy Duchin, cuja belíssima esposa (Kim Novak), morre e deixa um filho pequeno. Eddy não consegue encarar o filho e o abandona. Boa parte do filme envolve a tentativa de reencontro do filho com o pai. E quando conseguem se aproximar... bom, deixa prá lá. Fora o tema, caríssimo ao Tio Moa, o filme tem momentos musicais impressionantes, com destaque, é claro, para quando ele toca o Noturno de Chopin ao piano. O filme, recentemente lançado em DVD, é tristíssimo, daqueles que a Fernanda adoraria (sabe as pessoas normais, que quando vão ao cinema compram pipoca, bala ou outra coisa qualquer? Pois a Fernanda adora comprar lenços de papel. E oferece prá quem tiver do lado, como se oferecesse pipoca).
 Pois naquele calor abafado, enquanto cortava os legumes, o Robertinho do Recife, lá na sala, cometeu o despautério de levar o Noturno na guitarra... E eu nem tinha visto que ela estava no disco. Fantástico. Pepê e Amelie me olharam do chão com aquele ar de pergunta. Respondi que não era nada, que era a cebola...

Mas tudo passa, tudo sempre passará... E o próximo disco, outra surpresa: comprei, meio sem saber por que, um disco do chato do Ivan Lins, “Juntos”. O disco é sensacional. Tem seus grandes clássicos interpretados em duetos, com participações especialíssimas, como por exemplo, George Benson e sua guitarra mágica, Patty Austin, Paulinho da Viola, e por aí vai. Um disco de forte viés jazzístico, ultra bem produzido, inclusive capa e encartes, privilégios indiscutíveis do vinil. Mais uma grande surpresa do final de semana.


Beatles são o máximo. E entre os máximos dos máximos está “Because”, talvez a melhor da dupla Lennon/McCartney. Comprei um disco do MPB4 e Quarteto em Cy. 

Gosto dos rapazes, mas as moças eu acho uma chatice. Mas pensei que, juntos, talvez saísse legal. Não saiu legal, saiu uma obra que faz os seus ouvidos se sentirem importantes. Aquelas oito vozes, com as opções de repertório e com os arranjos delicados, chamam seus ouvidos de Vossa Majestade. Parei tudo na cozinha e sorvi até a última gota, do disco e da taça de um ótimo espumante. Pois bem, se o disco todo é ótimo, há ali uma pérola, um diamante: “Because”, que as meninas cantam com os ricos ornamentos vocais dos rapazes. Parece ser uma versão definitiva. Um achado surpreendente.
 Passado tudo isso, comida pronta e o mesmo calorão e falta de vento. Mas acertei em cheio uma maravilhosa sopa de legumes e uma canja de tia. Tenho comida noturna para duas semanas ou mais.

Aí, antes de almoçar, recostei-me ao sofá esperando um ventinho, que não veio, e peguei a Folha de domingo: mais uma surpresa, deliciosa para quem é cobraparadista, ou seja, para os que não aceitam calados os abusos fascistas de poder. Um editorial de primeira página. Os editoriais sempre são na página 2, nunca na capa, salvo em ocasiões extraordinárias. Nem me lembro quando foi a última. E lá estava, em letras grandes, o editorial, de cima a baixo. O título: “Todo o poder tem limite”. Belíssima surpresa. Surpresa porque já estava achando que só eu e o Alberto, fora os terroristas de direita (como bem os classifica o Fábio), víamos na postura do Lula e do Governo um autoritarismo brutal e um fascismo desenhando uma ditadura. Vivas a mais essa do final de semana. Vejam, à esquerda, o final do editorial, à Cobra Parada!
 Bom, para fechar esse post, chatíssimo para quem não é o próprio Tio Moa, uma matéria na Folha sobra a mulher mais maravilhosa que existe em toda a terra neste momento: a mais linda e inteligente e instigante e ácida e diferente e sensualíssima e tudo mais. Trata-se da Alessandra Negrini. Ela seria minha eterna cabeleireira, isso já antes de eu ler o que li, pois adivinhava o que havia ali dentro daqueles olhos. Mas veja o que ela disse na matéria (as palavras em caixa-alta são da própria matéria):

"Quero estudar cinema, filosofia. E quero produzir uma peça. Você só faz o que quer quando produz."
"Fazer cinema de autor, de experimentação, é um sonho. Me sinto sempre começando"
"Não gosto dessa coisa de GERAÇÃO SÁUDE, essas paranóias. Essa DITADURA de alimentação saudável, ah, que encheção de saco"
"Nunca fui abandonada. Mas esse PEITO ARDENDO eu sei o que é. Todo mundo sabe o que é a FALTA de alguém"
 Agora, quem sabe de mim, me diga: ela é ou não é, para quebrar de vez a promessa das frases feitas, a outra metade da minha laranja?

"Venha, Alessandra, venha fazer cinema de experimentação comigo. Venha, vamos refundar o Cobra Parada Não Engole Sapo, que eu te apresento o Panta, o Gilsão e até o Markovitch. Venha refrescar esse seu peito ardente em casa, que eu tenho uma geladeira nova, com um freezer imenso, onde couberam 10 porções de sopa de legumes e 6 de canja. Venha viver comigo, que nunca te faltarei, a não ser quando meu chefe me chamar para uma reunião (ele é meio workaholic). Alessandra, isso é um pedido público de casamento. Você só tem a ganhar, inclusive um neto postiço logo de saída! Com amor, Tio Moa".

Foi assim, viajando, no sofá, após o trabalhão das sopas, o calor e as taças de rosé, que fechei os olhos, pensando que algo assim não pode, não deve ser impossível. Momento relax, peguei de volta o disco do MPB4 e Quarteto em Cy, coloquei direto na maravilhosa Because e fechei os olhos com a imagem da Negrini enfeitando minha imaginação.

Because the world is round it turns me on
Because the world is round...aaaaaahhhhhh
Because the wind is high it blows my mind
Because the wind is high......aaaaaaaahhhh
Love is old, love is new
Love is all, love is you

Porque o mundo é redondo que me excita/Porque o vento está forte que sopra minha mente

O amor é velho, o amor é novo/O amor é tudo, o amor é você

Neste momento começou a ventar, um vento fresco, quase gelado, que pensei trazer um cheirinho de chuva. Abri bem pouco os olhos e vi a Amelie me olhando com cara de pergunta. Mas o vento continuava, delicioso,  balançando as plantas da varanda, além da qual pude ver o céu encoberto e nuvens espessas, o que não se via há meses.

E pur si muove... o mundo...

domingo, 26 de setembro de 2010

A incrível história do CPNES - Parte 7

GILSÃO PARTE 2 -  A REDENÇÃO DOS GUERREIROS PANÇUDOS
 
No capítulo anterior você conheceu o Gilsão e o viu colocar umas escaraminholas na cabeça do Dr. Sócrates, antes de desmaiar de fome.
Pois saiba que quando ele abriu os olhos, viu que estava num hospital, com soro no braço. O Doutor Sócrates dava ordens às enfermeiras, mais interessadas no autógrafo do que em ouvir suas prescrições. Quando se despediram, Gilsão agradeceu muito, mas Sócrates disse que ele é quem deveria agradecer.
Osmar Santos ao microfone, com Sócrates, FHC, Casagrande e
Adilson Monteiro Alves (diretor de Fuebol do Corínthians)

Depois daquilo, Sócrates passou a ser um importante ativista político, além do brilhante jogador que sempre fora e, nisso, o Gilsão, emérito perna de pau, em nada influenciou. Sócrates liderou o primeiro movimento efetivamente popular que ocorreu em toda a ditadura. Nenhum outro movimento político tinha colocado o chamado “povão” na história. Naquele início dos anos 80, em plena ditadura militar e justamente no meio mais atrasado e conservador, o futebol, e ainda por cima num dos dois times mais populares do país (o outro é a Ponte Preta ou o Flamengo, não estou bem certo), nasceu a chamada Democracia Corinthiana (o nome foi dado por Washington Olivetto), movimento liderado por Sócrates e diretamente apoiado por Wladimir e Casagrande, os maiores ídolos do time. Foi um período da história do clube onde as decisões importantes, tais como contratações e regras da concentração, eram decididas pelo voto, ou seja, era uma forma de autogestão. Era um movimento interno do time, mas cuja intenção era, evidentemente, suas repercussões e influências externas. O Corinthians foi o primeiro clube a veicular dizeres publicitários na camisa, como "diretas-já" e "eu quero votar para presidente". Isso no período da ditadura militar, quando os movimentos sociais começavam a se rearticular para a instituição de uma democracia.

Vale do Anhangabaú no comício pelas "Diretas Já"
 Os militares pediram moderação ao clube. Imaginem o impacto que tinha aquilo: a camisa do Corinthians pedindo democracia... Os resultados disso? Imensa participação popular no movimento das Diretas Já, especialmente em São Paulo e, para o Corinthians, muitos títulos e impressionantes resultados financeiros.

Nessa época o Gilsão já estava em Brasília, onde, logo no início, instituiu-se a trinca Gilsão, Panta e Tio Moa, que na época era sobrinho. Todas as noites, primeiro no Bar do Ermenegildo e depois no Bar do maravilhoso Carlão, estruturavam suas ideias, que iam do ativismo político-estudantil à filosofia, passando pela astrologia, supra mundo e supra-realidade, deixando Romeu, um observador contumaz, atônito. 

Gilsão era visto pelos militares, mal sabiam eles, como alguém muito confiável, provavelmente devido ao seu jeito circunspecto e responsável, além de sua lábia! No outro extremo, com suas madeixas desalinhadas, bonés, faixas e sua falca cortante, Tio Moa, que na época era sobrinho, era visto pelos homens de farda com muita preocupação. Assim, quando começou a efetivar a idéia de montar uma peça de denúncia e protesto, ainda que disfarçada de comédia despretensiosa, Tio Moa, que na época era sobrinho, sabia que o grupo deveria ser eclético e ter alguém em quem os coronéis pudessem confiar, alguém acima de qualquer suspeita.
 Quem seria esse alguém? Isso mesmo, espertíssimo leitor: o Gilsão. A peça “Nosso Reino” (titulo inspirado na peça “Nossa Cidade” de Thorton Wilder), escrita pelo Tio Moa e pela Rosaflor, ironizaria a instituição e seus comandantes e denunciaria as condições às quais estávamos submetidos. Haveria um Rei, claramente inspirado no coronel-mór, mas quem haveria de ter coragem de interpretá-lo e tirar aquele sarro do Todo Poderoso? Vamos, arguto leitor, quem você acha que falou “deixa comigo, eu faço... Minha pança é igualzinha”? Isso mesmo: o Gilsão.

Mas na hora de fazer os cartazes e folhetos, que para nós tinham a força de panfletos revolucionários, percebemos que aquilo tudo não era apenas uma peça, mas o começo de um ousado, e até um pouco irresponsável, movimento de um grupo que não queria parar por ali, que queria continuar fazendo arte e resistência. Precisávamos, para marcar território e mostrar força e articulação, de um nome para o grupo. Tio Moa, que na época era sobrinho, só sabia que o nome deveria ser forte, interessante, engraçado e provocativo, como, aliás, deveria seria tudo o que fôssemos fazer.

E numa noite, voltando de ônibus para nosso empoeirado campo de concentração, em pé no ônibus, alguém falou: “Que tal ‘Cobra Parada Não Engole Sapo’?”. Tio Moa, que na época era sobrinho, sentiu-se em êxtase. Sensacional, era aquilo, sem dúvida. Agora, sagaz leitor, queria adivinhar quem sugeriu aquele forte, interessante, engraçado e provocativo nome? Acertou de novo: o Gilsão.

E de onde veio o Gilsão? De onde ele tirou toda aquela capacidade de lutar pelo que é justo? De onde tirou toda aquela capacidade de atrair com aquele sorriso amigo e fraternal, para depois influenciar pelo seu discurso? Pois vou dizer de onde: o geográfico leitor certamente sabe que no desenho do estado de Mato Grosso tem um biquinho, ao norte. Pois lá perto existe uma terra mítica chamada Juína, onde, diz a lenda, o espírito da índia Jussara pairava no ar para abençoar os índios pançudos e roliços da aldeia Tanyguá, para que vencessem as batalhas contra os invasores que, em nome do progresso, queriam destruir tudo o que viam pela frente: mata, bicho, gente. Evidentemente, sem a ajuda de Jussara, jamais os roliços pançudos conseguiriam vencer. Jussara os inspirava ao mesmo tempo em que amedrontava os invasores. Com o tempo, entretanto, mais homens brancos do progresso chegavam, cada vez com mais tratores, armas e fogo. Um dia trouxeram uma estrovenga giratória e liquidaram com tudo, ababou-se a guerra.

Os poucos sobreviventes migraram para o interior de São Paulo. Lá, em Dracena, muito antes que eu nascesse, nascia o Gilsão, descendente daqueles bravos, simpáticos, sorridentes, roliços e pançudos guerreiros indígenas. Gilsão nunca esteve em Juína, mas Juína sempre esteve em sua alma (e no corpo também, como se nota). À sua primeira filha, deu o nome de Jussara. Já o Tio Moa chamou de Taniguá a sua primeira filha, em inconsciente homenagem ao seu eterno irmão de luta por justiça. A pança que hoje o Tio Moa ostenta, também é uma homenagem ao Gilsão, ilustre cobraparadista.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A incrível história do grupo CPNES - Parte 6

O EFEITO BORBOLETA  E A HISTÓRIA DO MEMBRO NÚMERO 6

Ontem fui a um show do João Bosco. Ele é um músico elegante e impecável. Só ele e o violão. É pouco? Hum hum. É muito! Só seu violão já bastaria, grande instrumentista que é. Só a sua voz também. Juntos, são mais que eu pensei, é mais que sonhava! Sua voz é aveludada e ele a usa de diversas formas dentro da mesma música, modulando seu canto ao sabor da alma. Ver João Bosco cantando é como ver um saxofone que fala. O show homenageia os 40 anos de parceria com Aldir Blanc, um letrista mágico, capaz de escrever uma coisa assim:

Eu aprendi que a alegria
De quem está apaixonado
Écomo a falsa euforia
De um gol anulado
Se, como diz a letra, o fogo da paixão se apaga rápido, vamos logo aos nossos propósitos, antes que se acabe a minha imaginação... Não parece, mas eu tento colocar nos textos o máximo que eu posso de criatividade e imaginação. Mas vê-se que não consigo. Não sou poeta e fim de papo. Não sou alegre nem sou triste, sou jornalista (essa tentativa de paródia da Cecília Meirelles foi de doer - tá vendo como não sou disso?). Narro os fatos. O pouco de imaginação que tenho, gasto tentando escrever certo as palavras, construir as frases com um mínimo de lógica e separar um texto em parágrafos. Acho que é por isso que o Chico Buarque e o Saramago não ligam muito para parágrafo: não devem ter muita imaginação. Assim, não a gastam estruturando frases e parágrafos e também não ligam muito prá ponto e vírgula, não.

Então eu poderia fazer como eles e guardar minha escassa criatividade para criar histórias legais, inventivas, cheias de criatividade e imaginação. Tentarei:

Quem afinal sou eu para querer dar uma de saramago que por sinal nos deixou há pouco ou mesmo quem sou eu para dar uma de chico buarque que foi com sua poesia sua melodia e principalmente com sua postura o meu ídolo musical na adolescência quando eu tinha um caderno com as letras do chico escritas a mão é claro e só de ouvir as musicas parar e ouvir de novo até entender todas as palavras e ainda tem aquelas que a gente não entende nunca imagina agora você aí sobrinho do tio moa imagina um tempo em que não tinha letras de músicas disponíveis na internet nem em lugar nenhum aliás nem havia internet meu deus do céu como é que podíamos viver daquele jeito só mesmo escrevendo as letras de ouvido parando a musica toda hora para passar para o papel e você passava a vida toda achando que a letra dizia vou comer o amigo e vinte anos depois você descobre que a letra dizia vou com o meu amigo.

Esse parágrafo foi de doer, não foi? Está vendo como não posso me comparar a Saramago e Chico? Tudo bem, você sempre soube que eu não posso me comparar a eles. É exatamente por isso que prefiro gastar a imaginação estruturando o texto, o que mal consigo. Contento-me em narrar os fatos, sem floreios, sem invencionices ou licenças poéticas. A verdade, acima de tudo. Por exemplo, quando penso na história do Cobra Parada, tudo é tão real e concreto que eu posso afirmar que não existe outra maneira de contá-la senão esta que empreendo. E se começo com parágrafos meramente decorativos à primeira vista, saiba que eles nunca estão lá à toa. Sua utilidade é, através de exemplos reais, inserir o leitor atento no contexto em que vivíamos, e contar como o futebol, a arte e a atitude corajosa podem influenciar toda uma cidade, um país e o mundo. Sabe aquela história da borboleta que bate as asas aqui e acontece uma puta ventania do outro lado do mundo? O tal do efeito borboleta? Esquece, bobagem, tolice, dê o fora. Nada disso. Não é qualquer movimento que influencia, não. Precisa haver uma soma muito grande de talento, postura, ousadia e criatividade, além de uma descomunal ajuda do acaso.

O ACASO - E foi por acaso que uma determinada pessoa, após passar o dia inteiro estudando para uma prova que faria no dia seguinte (resistência de materiais, disciplina chatíssima do curso de engenharia civil, que fazia na Unicamp, em Campinas), no fim da tarde e mega-cansado, foi direto para o quarto de pensão onde morava. Dormiu até as 9 da noite, quando acordou para ouvir no rádio o jogo do seu time, o Corinthians, contra a Ponte Preta (ficou 1 a 1, gol de Sócrates). Depois sentiu uma baita fome, pois não havia comido nada o dia inteiro, e uma vontade louca de tomar uma cerveja. Geladeira zerada, acabou no bar do Vadico, na Washington Luiz, famoso pelo seu sanduíche de pernil. Essa determinada pessoa, de quem hoje vou falar, é o sexto membro do CPNES, um grupo cuja atuação, como você sabe, no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.

Membro número 6. O bar do Vadico era o reduto de seresteiros, boêmios e senhores da vizinhança, dentre os quais estava um famoso repórter esportivo de Campinas, o Renato Silva, que fazia, na Rádio Brasil, uma sensacional dupla com Sérgio Salvucci, comentarista dos jogos e âncora do programa esportivo. O bar era também o socorro de famintos da madrugada, e nessa condição estava o nosso estudante da UNICAMP, verde de fome. Aliás, verde não, porque é a cor do inimigo Palmeiras. Gilsão estava roxo de fome. Tomava a segunda cerveja, já meio alegre, e nada de vir o tradicionalíssimo sanduíche de pernil. Naquela noite havia só um chapeiro e muitos pedidos. Mas o astral do bar era bom, e Gilsão estava branco, suando de fome, mas com tanta alegria de viver (quem gosta de cerveja sabe do que estou falando) que chegou a pensar que mesmo que morresse de fome antes de o sanduíche chegar, morreria feliz.

Era prá lá de meia-noite quando Gilsão, tentando matar a fome com o cheiro de pernil que o bar exalava, ouviu o chapeiro gritar “olha o pernil da mesa 8”. Aquilo o deixou mais desesperado ainda de fome. Sabe quando você está super apertado, mas vai conseguindo segurar, mas quando chega pertinho da sua casa o negócio parece que vai sair? Era assim que ele se sentia vendo o seu gigantesco sanduíche de pernil sobe o balcão, à espera do garçom. Quintuplicou sua fome.

Nisso, entra no bar o Renato Silva acompanhado de dois magricelos altos. Os dois de cabelos encaracolados, um deles cheio de buracos na cara. Aquela visão fez o Gilsão engasgar a cerveja geladíssima que tomava. Olhou sua mesa e viu as 3 garrafas vazias, como a se perguntar se era o efeito da cerveja ou se ali realmente estavam entrando, e ocupando a mesa ao lado da sua, o Sócrates e o Casagrande. Os dois eram tão naturais àquele ambiente que mal foram notados, ou talvez aquele fosse um costume do Renato Silva, que, ficando junto ao gramado e entrevistando jogadores, era próximo o bastante dos jogadores para levar os mais boêmios ao Vadico. Naquela época não havia o patrulhamento sobre a vida pessoal dos jogadores como há hoje. E do jeito que o doutor Sócrates e o Casão gostavam de enxugar...

Gilsão, com um olho no sanduíche e outro nos seus ídolos, veio com aquela sua típica expressão de resmungo escandalosamente amistoso: “PÔ, MEU, eu não sou de tietagem, não, mas você vem sentar JUSTO do lado de um corintiano?”. “Corintiano! Viu o jogo?”. “Não, ouvi pelo rádio, o locutor disse que você fez um golaço”. “Golaço nada, até você fazia aquele gol”. “Como até eu? Tá me chamando de gordo?”. “Robusto”. Sócretes tem muito bom humor.

Casagrande tinha ido direto ao banheiro e o Renato Silva estava no balcão pedindo os sanduíches para os três. Enquanto isso e com o Gilsão quase desmaiando, o garçom finalmente pegava o sanduíche do balcão e punha na bandeja. Logo estaria alí, na mesa, à sua frente.

Com a proximidade do momento de abocanhar aquele maravilhoso pernil, Gilsão sentiu a boca se enchendo de saliva; estava literalmente babando quando Renato Silva volta à mesa ao lado e disse que ia demorar um pouco, que o pernil acabou e iam buscar “lá na casa deles”, que ficava “logo ali”.

Nisso o garçom vem chegando com o sanduíche do Gilsão.

Casagrande chega do banheiro, muito agitado, e senta à mesa.

O garçom põe o sanduíche na mesa do Gilsão.

“Será que demora muito?”, perguntou Sócrates, olhando, sem querer, para o sanduíche do Gilsão.

Gilsão, mesmo morrendo de fome, gostaria que a conversa com o ídolo rendesse mais e pensou rápido: o sanduíche é grande, já vem dividido em dois e metade já aplaca a fome e me impede de morrer.

“Pô, rapaz, eu tô morrendo de fome”, comentou o doutor Sócrates.

Foi do que o Gilsão precisava. Ato contínuo emendou ao ídolo: “quer metade do meu?”

“Quero”. “Quero”. Não se iludam, leitores ingênuos. Não foi Sócrates repetindo. Um “quero” foi do Sócrates, sim, mas o outro, simultâneo, foi do Casagrande.

“Fudeu!”, pensou Gilsão, que congelou por alguns segundos. Como recusar a metade a um dos dois? Falar “nada disso, eu ofereci só prá um”? Por instantes Gilsão pensou em dar uma de louco, agarrar seu sanduíche e fugir correndo dalí. Suava de fome. E foi chorando por dentro e entoando para si, como um mantra, “sou um imbecil, sou um imbecil” que o Gilsão esticou os braços, oferecendo uma metade para cada um. Casagrande caiu em cima na hora. Sócrates ainda foi polido: “Não, você vai ficar sem nada?”. “Não tem problema, eu jantei bem”. “Então quando vier o nosso, um é teu”. “Tranqüilo, dá prá esperar”.

Mas não deu. Meia hora depois, Gilsão, fraquíssimo de fome, viu Sócrates, Renato Silva e Casagrande ficarem embaçados, escuros, até que tudo se apagou. Mas antes disso deu tempo para o Gilsão falar, enquanto os dois comiam. Falou do interior, de seus antepassados do norte; disse que nunca os conheceu, nem à região, mas que sonhava com aqueles rios, com Juína, com os barcos; disse que "Ita" são os barcos, que são chamados assim porque seus nomes sempre começavam assim: Itaimbé, Itaberá, Itapuca, Itagiba, Itapuhy, Itassucé. Para ilustrar, cantou, com Renato Silva ao violão, uma música de Dorival Caymmi que ele adorava, “peguei um ita no norte”. Gilsão também cantou o clássico do Belmonte, “Saudade da minha terra” (de que me adianta, viver na cidade, se a felicidade não me acompanhar) e “O bêbado e o Equilibrista”, do João Bosco e Aldir Blanc (lembra dos parágrafos iniciais deste post?). Sócrates se emocionou e começaram a falar de política. Gilsão criticou o pessoal do futebol, que tinha muito poder e influência, mas não era politizado.

“Olha aqui, eu vou te falar uma coisa prá você. Não sei se você tá me entendendo. Ôrra, meu, vocês não sabem a força que têm? Imagina o que vocês podem fazer contra essa ditadura. Ôrra meu! É o cúmulo do absurdo você não fazerem nada!”.

Casagrande riu: “O que a gente pode fazer jogando futebol?”. Gilsão, ainda consciente, mas sem resposta, percebeu que tinha exagerado na sua retórica, mas cravou: “sei lá, não sou eu que sou jogador!”. Renato Silva e Casagrande riram muito, aquele riso solto. Sócrates não. Parece ter ficado pensativo. Estava nascendo ali, naquele instante, dentro da cabeça do doutor, a Democracia Corintiana.

Sabe quando o convidado do Jô é tão importante que ele faz a entrevista em dois blocos? Pois a história do Gilsão continua depois do intervalo. “Willem, solta a vinheta!”

sábado, 11 de setembro de 2010

A Incrível História do CPNES - Parte 5

O CONTEXTO E A GÊNESE

Em 1983, o país estava prontinho para o final da ditadura, mas, como diria o Professor Wagner, vivíamos os estertores do poder, que ocorre quando seus detentores perdem as estribeiras no esforço desesperados para mantê-lo. O problema é que os ares da liberdade já seduziam pessoas de dentro dos círculos do poder. Por isso, cada esfera e cada pequeno órgão do governo eram comandados como se fossem um Grande País, que devia ser protegido do “mal”. Acho que isso era o brinquedinho deles. Para nós, que portávamos a “semente do mal”, aquilo não era nada divertido. O patrulhamento sobre o que pensávamos, vestíamos ou falávamos era insuportável para alguns de nós.

E ali estávamos, naquela escola comandada por militares, com regras rígidas e controle absoluto. Nada de usar barba ou cabelos cumpridos, nada de questionar, nada de se divertir e de preferência, nada de pensar. Faziam de tudo para que fossemos fieis e tementes ao regime.

Como era de se esperar, todas aquelas pessoas de diferentes lugares do país começaram a formar pequenos grupos, aglutinados por região de origem, por lugar que sentavam nas salas, por estilos, etc. Mas alguns menos tranquilos começaram a conversar sobre jogo em que estavam inseridos e passaram a formar um novo grupo de afinidade. Numa noite, conversando com Silvio Romero e com o Gilsão no fundo da casa de alguém, decidimos que era preciso resistir. A palavra de ordem era ficar alerta, não deixar-se soterrar, não deixar-se ludibriar, não deixar-se transformar naqueles civis de alma fardada, amantes do controle e da hierarquia, cuja maior aspiração era ficar atrás de uma mesa controlando pessoas, fichas e processos burocráticos. Muitos alunos achavam aquilo o máximo. Alguns ainda acham.

A necessidade de resistir àquela lavagem cerebral acabou unindo um grupo de pessoas. Senti-me como um membro da resistência francesa na segunda guerra – é claro, com uma boa parcela de exagero romântico, mas no fundamento, realmente não era muito diferente disso, não. Só não corríamos o risco da morte física, substituída pela morte moral, a ameaça de expulsão, sempre lembrada pelos donos daquele Grande País.

Eu, menino recém saído das fraldas tão bem mantidas pela minha santa mãezinha, estava lá, naquele fundo de quintal, naquele lugar ermo e afastado, falando baixinho porque os muros tinham ouvidos, me sentia com um baita medo, mas com uma excitação nunca antes sentida.

A partir dali o grupo de resistentes começou a aumentar. Aos poucos fomos percebendo que tínhamos outras coisas em comum, como a paixão pela boa música, especialmente daqueles grupos independentes, como o Língua de Trapo (ao lado) e o Premê, por festas e pelo teatro. A forma de resistência incluía se divertir, arejar a cabeça, conversar muito, manter a mente sã e independente e, eventualmente, agir
.
Silvio, um intelectual pernambucano de boa família, morava em Recife, na badalada Avenida Boa Viagem, de frente para o mar, o que me impressionava muito; usava uns óculos pequenos e jardineira jeans. Um amigo em comum, o Google, me disse que hoje ele atua na coordenação do Curso de Pós-Graduação em Design, na Universidade Federal de Pernambuco. O Silvio e eu gostávamos muito de teatro e começamos a planejar montar um grupo. O teatro poderia ser usado como um instrumento de expressão de nossas inquietações e de denúncia, tirando os pacatos do seu estado de torpor. O professor Wagner, um alienígena ali, culto, de bom gosto e também resistente àquela forma de “educar”, e a Joana D’Arc, uma aluna paranaense, também eram entusiastas da idéia de fazer teatro. Nós 4 decidimos montar o grupo, mas isso demorou demais e o Silvio e a Joana deixaram Brasília antes de o grupo ter nascido; o professor Wagner foi demitido (sabe-se lá o motivo) pouco tempo depois. Do grupo que teve a idéia original, só sobrou este que agora conta a incrível história do Grupo Cobra Parada Não Engole Sapo, cuja atuação no início dos anos 80, não sei se você já ouviu isso antes, mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.

Dos 4 idealizadores, só sobrou euzinho aqui. Mas, definitivamente, eu não estava só, afinal, ainda havia a “resistência”, aquele grupo de boêmios que discutiam, bebiam, faziam sopas com doações semi-espontâneas (essas sopas merecerão maiores informações mais para frente). Foi jogar a ideia e ela ser abraçada por aqueles lunáticos que nunca antes haviam imaginado pisar num palco.

Ao mesmo tempo em que a resistência ganhava consistência, aumentava a atenção das autoridades sobre seus membros, pelo menos os mais extravagantes. Eu, por exemplo, adorava provocá-los usando boinas e cintos coloridos. Não falávamos grosso, não dávamos porrada, não éramos carrancudos nem reclamávamos de tudo. Éramos alegres e festivos. Essa nossa postura passava uma imagem de destemor, o que nos dava uma aura de poder e instilava certo receio nos que nos olhavam com olhares opressores. Por isso tinham cuidado quando queriam cortar nossas asinhas, que por sinal começavam a crescer. Ficou famoso o episódio da publicação de uma nota com os seguintes dizeres no boletim que definia as normas daquele Grande País. A nota dizia, sem nenhuma explicação: “fica proibido o uso de chapéus, boinas, bonés e faixas coloridas na cintura”. O primeiro que viu aquilo pregado no quadro de avisos me chamou correndo. “Parabéns, você ganhou uma nota só para você”. Não me lembro quem foi, mas me lembro que se seguiu uma algazarra geral. Todos foram lá para ler. Ninguém se cabia de rir. Ali percebi o quanto ter uma postura gerava força: tiveram receio de conversar comigo, o que deveriam fazer, já que apenas eu usava as tais faixas e boinas. Preferiram publicar uma nota, como se a decisão viesse do monte Sinai em forma de leis escritas em tábuas. A alegria por ter provocado aquilo apagou qualquer indignação com a proibição.

Enfim, já estávamos um pouco marcados e observados com atenção. “Estão querendo montar um grupo de teatro? Quem?”. Aí havia um problema. O grupo tinha que ter ao menos um membro acima de qualquer suspeita. Era preciso de alguém com um estofo moral, alguém que eles respeitassem muito. Alguém sério. O incrível é que na própria Resistência havia alguém assim. E é desta pessoa que falarei na parte 6.
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