segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A Incrível História do CPNES - Parte 14

O MEIO – Mega-sucessos do começo dos anos 80

Toda manifestação artística é influenciada pelo meio cultural, social e político em que está inserida. O que se ouvia no início dos anos 80, época na qual se amalgamou o Cobra Parada Não Engole Sapo, o grupo que, não me lembro se cheguei a comentar, mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia? Quais eram os mega-sucessos musicais?

Sempre tive um pé atrás com grandes sucessos populares. A roda viva da produção musical determina qual música de qual artista será sucesso, segundo um rol de critérios do qual a qualidade não necessariamente faz parte. Portanto, me seduz a teoria de que, se todo mundo ouve alguma coisa, necessariamente essa coisa é uma merda. Mas nem sempre foi assim.

Com vocês, os 3 ultra-mega-sucessos do inicio dos anos 80, quando os membros do Cobra Parada se conheciam:

1. “Tá tudo muito bom... Bom. Tá tudo muito bem... Bem. Mas realmente, realmente, eu preferia que você estivesse... NUA”. Pode não parecer, mas há qualidade nessa letra. Primeiro pelo momento de anseio à liberdade não apenas sexual, como pode sugerir esse trecho da letra, mas, sobretudo, de expressão. Numa época de forte censura, essa música (letra, melodia e forma coloquial de cantar) ousou traduzir a expressão e o desejo de uma juventude que se transformava e exigia a transformação política e social do país. A linguagem pop de Evandro Mesquita e da Blitz em “Você Não Soube Me Amar” marcou uma geração e redefiniu o gosto popular. Segue mais um trechinho, para que vocês não pensem que era só aquilo:
      Foi besteira usar essa tática
      Dessa maneira assim dramática
      (Eu tava nervoso)
      O nosso amor era uma orquestra sinfônica
      (Eu sei)
      E o nosso beijo, uma bomba atômica...

2. “Me toma no crescer de um beijo muito louco, me implodindo aos poucos no universo a desvendar a vastidão do teu amor”. Assim cantava uma explosiva Zizi Possi, que já fizera certo sucesso havia alguns anos, desde 1979, com “Pedaço de Mim”, que cantou em dueto num disco do Chico Buarque. Mas explodiu mesmo 3 anos depois, com essa impactante “Asa Morena” de um compositor gaúcho chamado Zé Caradípia (que nunca emplacou mais nada). Talvez nenhuma outra cantora ou cantor fizesse dessa música o sucesso que foi (e que ainda é). Zizi Possi, com seu registro de voz único, a transformou num sucesso eterno.

3. “Hum... Mas se um dia eu chegar muito estranho, deixa essa água no corpo lembrar nosso banho. Mas se um dia eu chegar muito louco, deixa essa noite saber que um dia foi pouco”. O nome dessa música é “Muito estranho”, de um cara chamado Dalto. Porque fez tanto sucesso? Não faço idéia. Talvez porque Dalto fosse um cara realmente muito estranho. Um anti-cantor, um anti-estrela, anti-celebridade. Um tímido, feio, corpulento e desengonçado, que cantava com estranha leveza essa música romântica, na letra e na melodia. O refrão ele cantava em falsete. A introdução era poderosa (Pararan... pararan... pararãraaaaan...) e, de fato, era muito boa de ouvir.

E os respectivos refrões?
“Você não soube me amar, você não soube me amar, você não soube me amar, você não soube me amar”.
"Me faz pequena, asa morena, me alivia a dor, aliviando a dor que mata, me faz ser teu amor”.
“Cuida bem de mim então misture tudo dentro de nós...”

Os sucessos de Dalto, Zizi Possi e Blitz eram tocados a toda hora, em todo lugar, dentro dos ônibus, nas lojas, nas salas de espera dos consultórios. Cozinheiros, engenheiros, políticos e estivadores os cantavam. E quem há de negar que eram muito bons, cada um a seu modo? Eu não enfrentaria filas para ver um show do Dalto, mas “Muito Estranho” tinha lá suas qualidades. Não há comparação com as mega-bombas de hoje.

Já para ver a Zizi nós enfrentamos fila. Havia no Brasil, naquele momento, o Projeto Pixinguinha, que levava para os mais diferentes pontos do país, a preços simbólicos (algo como 10 reais hoje), shows dos maiores músicos do momento. Para Brasília vieram muitos, inclusive a Zizi Possi em seu momento de maior sucesso da carreira, com o seu mega-hit Asa Morena. Causou-me um impacto brutal vê-la, naquele momento, naquela fase da minha vida, cantar “me toma sem pensar num gesto muito forte, unindo o sul e o norte do meu corpo, frágil corpo, com a mais pura emoção”... Talvez ali eu, sempre frágil e inseguro, tenha percebido que a emoção engrandece e agiganta.

Nem me lembro mais que inesquecíveis (!) maravilhas eu vi no projeto Pixinguinha. Uma que me lembro, porque não daria para esquecer: Belchior fazendo ecoar “teu infinito sou eeeeeeeu...”, para depois finalizar com uma das maiores verdades já ditas sobre a juventude que vivíamos, nós os loucos:

Como é perversa a juventude do meu coração, que só entende o que é cruel e o que é paixão.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A Incrível História do CPNES - Parte 13

A VERDADE NUA E CRUA

A parte 12 acabou com o discurso do coronel, que falou algumas abobrinhas do tipo “eu entendo a juventude transviada”, “liberdade com responsabilidade” e que tais, antes, é claro, de concluir com aquela pérola que encerrou o pôsti anterior, “não tenho filha, mas se tivesse, ela não seria dessas...”

Falando em "liberdade com responsabilidade", trata-se de uma expressãozinha besta inventada pelos militares, mas que até hoje muitos estúpidos, sem coragem para dizer simplesmente “liberdade” (devido ao medo de que vire "anarquia"), complementam com o fétido e brochante “com responsabilidade”. Falar “liberdade com responsabilidade” é destrutivo, além de ridículo, pois quando você trata com adultos no mundo corporativo, já se supõe, de antemão, a existência da responsabilidade. Pedir responsabilidade desacredita quem a ouve, que pensa “Quem é esse babaca para me pedir responsabilidade?”. Aí o feitiço se volta contra o feiticeiro. Portanto, caso você, caro gestor, líder ou chefete, quando quer uma equipe criativa e empolgada e para isso quer dar liberdade, cuidado, não use o tal “com responsabilidade”. Fale “liberdade” e ponto final. O resto vem de fábrica, está no sangue, creia.

Mas, lá nos idos de 1983, o coronel estava na dele. “Liberdade com responsabilidade” na boca dele era legal. Na verdade, o coronel era (não sei se ainda é, espero que esteja vivo e com saúde) um grande bonachão, um paternalista, que queria educar aqueles alunos (pelo menos os que ele quisesse que continuassem ali). Mas isso somente fomos perceber muito tempo depois. Talvez tenha se transformado em bonachão e paizão com nossa ajuda, com a nossa vitória final, quando claramente ganhamos a guerra, não sem algumas baixas, que sentimos até hoje.

Depois daquela apresentação, o CPNES ganhou força. E nós ganhamos cuidados redobrados, investigações pessoais, olheiros por todos os lados. Mas o pior, o terror de verdade, ainda estaria por vir. Os próximos pôstis falarão sobre os momentos mais tensos e as batalhas mais terríveis.

Por enquanto, pulemos um pouco no tempo, para cerca de um ano e meio após aquela apresentação, depois das crises e batalhas pelas quais ainda passaríamos: eis que já no final do curso ele me chama em seu gabinete. Não havia motivo aparente. Era um momento em que não estávamos aprontando nada (pelo menos de domínio público, que ele pudesse saber).

Não entendi porque me chamara. Coisa boa não devia ser. Será que deixou que eu fizesse o curso quase todo, só de castigo, para no final, me expulsar como exemplo? Ele seria tão sórdido?

Acho que se eu tenho uma qualidade, é a coragem. Sempre fui topetudo e enfrentei o desafio. Mas tenho um segredo, que confesso agora: sempre, até hoje, enfrentei esses desafios tremendo, com as pernas bambas, a respiração ofegante, com todas as reações de um grande covardão, que foi o que, na verdade, nua e crua, sempre fui (e continuo sendo). Mas um covardão que, por algum motivo, na hora do pau não arria. De alguma forma eu acabo encarando.

Pois bem, foi assim, tremendo, pálido, borrando as botas, que encarei o longo trajeto que me separava daquele gabinete, que era num outro bloco. Desci o elevador do meu bloco, cujo uso era proibido aos alunos (nunca gostei muito de proibições). Andei calmamente até a entrada do outro bloco (calmamente o cacete: estava nervosíssimo e até com enjôo, mas andei devagar para tentar ganhar fôlego, um andar que, para um estranho que observasse a olho nu, pareceria que eu estava calmo, como um Clint Eastwood ou um Charles Bronson, em Era Uma Vez no Oeste, indo para o duelo).

Entrei no elevador do outro bloco, apertei o número 3 (sorte, demoraria mais – o prédio tinha 3 andares). Na entrada da sala dele, a secretária me falou para me sentar e esperar. Entrou na sala do coronel. Esperei. Ela voltou e pediu que eu esperasse mais. Pensei no que de pior pudesse acontecer comigo: a expulsão, o desligamento. Voltaria para casa de minha mãe, com uma mão na frente e outra atrás, tendo perdido dois anos e meio na vida, sem diploma, sem nada, com quase vinte e dois anos. O que eu diria? Que não me comportei bem? Ou que resisti e lutei contra a ditadura, contra a opressão, que lutei por cada brasileiro, por uma sociedade mais justa, que lutei pela minha mãe também? Tudo bem, havia perdido a luta pessoal, mas havia lançado a semente, havia escavado um pouco e ajudado a desestabilizar os alicerces da ditadura, havia conhecido gente importante, os meninos do Paralamas, do Titãs, a Regina Casé. “Quem é essa gente?” Realmente, eles ainda não eram conhecidos. Mas conheci compositores, filósofos, políticos de esquerda. Cresci muito com isso. “E emprego, que é bom?” Bom, isso a gente vê depois, posso fazer artesanato, posso ir para o Rio de Janeiro... “O que tem lá no Rio de Janeiro?” Ah, tem um monte de gente, artistas, músicos. “Um monte de cariocas, isso é que tem lá!”

Simulei mentalmente aquele papo com minha mãe, minha irmã e meu cunhado, que quebravam alguns galhos financeiros. Não era muito animador. “Pode entrar, Moacir”, anunciou a secretária, inexpressiva, o que não me permitiu decifrar nada. Ao menos a secretária sabia meu nome. Também, tantas vezes eu havia ido lá... Ou seria porque ela estava com o documento da minha expulsão em sua gaveta, com o meu nome em letras garrafais?

Entrei na sala. Lá estava aquela mesma mesa gigante, lindamente opressora, com seus entalhes em relevo. Atrás dela e de alguma fumaça, o coronel e sua indefectível cigarrilha, seus tragos profundos e baforadas lentas e gostosas. Após aquela baforada percebi que o papo (ou a sentença?) ia começar.

Eu também já fui jovem. Eu entendo a juventude”. Acredite, caro leitor, ele repetiu isso pela enésima vez. Mas daquela vez foi diferente. Se tem uma coisa que já havia aprendido naquela época, era ler expressões, como um Dr. Lightman anos 80. E li que tudo estava bem. A baforada não fora provocativa, mas amistosa. Não havia dúvidas, relaxei na hora. Ele falava comigo como a um filho muito querido, que havia sido rebelde, sim, mas que ele "endireitara" com sua educação austera.

Eu gosto muito de você, Moacir. Você tem aquela força, aquele inconformismo da juventude. Eu sei o que é isso, eu já fui assim, e isso foi muito importante para mim”. E contou, durante mais de uma hora, suas diabruras na caserna, suas conquistas, falou sobre sua família, suas crenças, seus sonhos.

Eu sonho em comprar aquele bloco ao lado, e fazer de dormitório para os alunos. Você pensa que eu queria deixar vocês lá naquela vila, longe e empoeirada, que você tanto criticou na primeira peça? Aquilo é horrível, mas eu não podia dizer isso, é claro. Por mim, vocês ficavam aqui do lado, bem instalados. Eu passaria todas as manhãs, enquanto vocês estivessem na aula, em todos os quartos, veria a arrumação, se as camas estavam esticadas, os pratos limpos”.

Não me segurei e ri. Ri não de ironia ou escárnio, nem de provocação. Ri como a gente ri de um pai exagerado em seu amor por nós. Ri de compreensão. Ri com discordância, é claro, mas com compreensão e carinho. “Você ri, né?” É, respondi, não tem como não rir, coronel, porque é desnecessário, é uma invasão de privacidade, mas eu estou entendendo que a intenção é boa. Pode continuar.

Ele sorriu. Estava estava muito carinhoso e deu mais uma baforada. Aí pronunciou mais uma coisa que ficaria guardada em mina memória, como a pérola da filha que ele não tinha. Ele disse “escreva o que estou dizendo: um dia você vai me dar razão”.

Senti como uma revelação aquele seu carinho que transbordava, aquela sua vontade de nos transformar em gente de bem, em homens de caráter, segundo o modelo arcaico que ele aprendera durante toda sua vida, e no qual acreditava e educara seus próprios filhos e netos. Aquilo era amor. Esquisito, anacrônico, mas, sem dúvida, era amor.

Que me desculpe o carrancudo e incrédulo Humberto Laraia, meu amado personagem; desculpem-me os que persegui com meu ódio aos normais, aos medrosos e aos caretas; desculpem-me os amigos que me seguiram nessa cruzada. Mas o fato, a verdade, doa a quem doer, a verdade, não sei se quanto à cama arrumada, mas talvez até a isso, a verdade mesmo, nua e crua, é que o coronel, realmente, tinha toda razão.

Os meios não importam; continuo os achando estúpidos, mas realmente não importam. Constatei naquela tarde inesquecível, naquela longa conversa com um pai que nunca tive, que o amor é a única coisa que realmente constrói e transforma.

Onde estiver, coronel Telmo, sinta-se abraçado e beijado pelo Cobra Parada e pelo filho mais problemático e revoltado que você já teve.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A Incrível História do CPNES - Parte 12

A VIDA É FILOPÉTICA

Alguns dos professores eram ruins, uns deles muito ruins, de um nível assustadoramente... assustador. A única explicação para nós, ingênuos, era o descaso da direção. Não cogitávamos que houvesse, por exemplo, uma indicação política ou militar. O fato é que era imperdoável. Um deles, não recordo o nome (ou prefiro não citar para não constrangê-lo em seu atual emprego, se é que alguém teve a coragem de contratá-lo), não dizia coisa com coisa, e quando tentava dizer, faltavam-lhe as palavras. Provavelmente, julgando-se esperto, improvisava e inventava uma palavra para ocupar o espaço na frase. Outra possibilidade é que ele imaginasse uma palavra e, confundindo, dissesse outra, de estrutura morfológica ou fonética semelhante. Já ouviram quando alguém, distraído, justifica dizendo “é que eu tava intertido”? Sempre que aparecia uma pérola daquelas, procurávamos no dicionário. Em vão. Era um inventor.

Algumas das pérolas que coletamos: planejório, espertício, empresalmente e por aí ia. Às vezes ele apenas queria falar difícil, mas errava, como quando quis dizer que algo que um aluno falara era uma tolice. No lugar de dizer estultícia (achamos esta, correta, no dicionário, notando ser perfeitamente cabível na situação), o tal professor disse: “ora, mas isso é uma espultícia”. Dispensável dizer que a sala caia na gargalhada.

Mas a palavra que mais gostávamos era uma que até perecia existir, tinha uma bela estrutura, era boa de se pronunciar. Todos nos apaixonamos por ela. Pensamos até em usá-la como nome da turma, na formatura. Assim que a disse pela primeira vez, nos entreolhamos, como a perguntar se era mais uma das dele. E era! “Filopética”.

Voltemos ao pôsti anterior, que acabou quando saímos no final da tarde com a decisão pela realização da peça, com pequenas censuras. Estávamos no ônibus, indo embora para a distante, empoeirada e desértica vila em que morávamos. Muitos iam em pé. Estávamos maravilhados. Todo aquele suspense, aquela reação do “sistema” e aquelas ameaças tiveram, ao contrário do intuito que certamente tinham, de nos amedrontar e disciplinar, outra reação completamente diferente. Se nossas intenções sempre foram provocar , havíamos acertado em cheio. Se não dessem a menor pelota para aquela peça, talvez nada acontecesse. Mas aquela reação nos deu muita moral, nos deu importância, nos sentimos chicos e caetanos, nos sentimos teatro de arena, arena canta zumbi, nos elevaram à categoria de importantes lideranças de esquerda. Era tudo o que queríamos.

Voltando ao ônibus, no trajeto Plano Piloto-Vila Desértica, discutíamos as censuras ao texto. Agora queríamos denunciar também a censura que sofrêramos. Resolvemos substituir todas as palavras riscadas pelo coronel não por outras que tivessem o mesmo sentido, mas por “filopética”, sim, a palavra que tanto adorávamos e que todos conheciam como mais uma das pérolas do professor. Isso seria fantástico, porque externaria a intromissão no texto.

Alguém perguntou: externaria mesmo? Ficaria claro que palavras haviam sido censuradas? É claro que não. Talvez algum percebesse e perguntasse depois o que fazia aquela palavra lá no meio, mas em geral, quase ninguém notaria e perderíamos uma bela oportunidade para afrontar, para marcar território, para mostrar força e ousadia, para ser topetudo! Assim, resolvemos explicar de algum modo.

E dois dias depois, a peça. Aqueles acontecimentos, a ameaça de desligamento, a pressão, as alterações no texto , fizeram com que a interpretação dos atores fosse ainda mais zombeteira. A experiência que tive, dois dias antes, de ficar sozinho com o coronel, que tragava com vagar e provocação sua cigarrilha (ele nunca havia feito aquilo em público), me deu munição. Gilsão, gordo como o coronel, fez um rei delicioso de se ver. Quando ia pressionar sua filha, a princesa, ou os súditos, tragava com vagar e provocação seu imenso charuto, segurando da mesma forma. Arletão, o escracho em pessoa, fez a princesa, a filha do rei, que se apaixonava e engravidava de um súdito, o Tiba. Sobral fez, com estranha (!) perfeição, a Ministra das Comunicações, uma evidentérrima paródia da mesma professora que, dois dias, antes nos havia salvado a pele (a minha e a da peça). Norberto parodiou um professor que pedia “dois cafézes” na cantina. Seu texto era curto, mas se alongava por uma eternidade, enxertado por “NÉs”, “TÁs” e “PÔs”. O povo delirava. Os outros professores, nas primeiras fileiras, seguravam as gargalhadas.

Não vou encher este pôsti com detalhes da história e da encenação, mesmo porque não eram, creiam, nenhuma maravilha. Você deve estar curioso é para saber como fizemos para que a palavra “filopética”, colocada três vezes no texto, desse a entender, claramente, que havíamos sido censurados. Pois é, depois de pensarmos muito, mudamos de ideia. Pensamos: se deixarmos claro que fomos censurados, o que vamos ganhar? Nada.

Nós queremos deixar claro que havíamos sido censurados ou queríamos fazer rir e, principalmente, provocar o censor?

Pois bem. Na hora da primeira “filopética”, o ator sai da velocidade normal da fala e pronuncia, pausadamente, “fi-lo-pé-ti-ca”. Isso, é claro, já fazia rir, primeiro intento cumprido. Todos os atores da cena congelaram neste momento. Entrou o Chakur: “a palavra ‘filopética’ substituiu a palavra originalmente colocada no texto, que se contundiu e não pôde vir a campo”. Segundo intento, a provocação, mais que cumprido, certamente.

Na segunda vez, a mesma coisa, só que desta vez é o Valter Jr: “devido a compromissos inadiáveis assumidos anteriormente, a palavra originalmente colocada no texto foi substituída por ‘filopética’, nossa querida curinga”.

Por fim, na terceira vez, entra o Markovitch e explica “a palavra original, desapareceu, há dois dias, a polícia trabalha com a hipótese de seqüestro, as buscas continuam.”

E seguiu-se a peça, até o fim. Aplausos gerais, o povo não acreditava no que tinham visto. Nascia o Cobra Parada Não Engole Sapo, justificando publicamente seu nome. Definitivamente, aqueles sapos de dois dias antes não haviam sido engolidos. Os aplausos não paravam mais. Não eram, evidentemente, pela qualidade do texto nem pelo maravilhoso desempenho dos atores, mas claramente pela nossa coragem de brincar com aquilo, de falar tudo o que estava entalado na garganta. Todos os 500 alunos acabavam de eleger, por aclamação, seus interlocutores: o CPNES.

Mas o espetáculo não terminaria ali. Ansioso por dar a última palavra, e também não engolir seu sapo, o coronel colocou a cereja no bolo. Pediu a palavra e subiu ao palco. Pediu que colocássemos uma mesa e uma cadeira para que ele falasse sentado (e com algo entre ele e os interlocutores - velha mania militar). Sentou-se e puxou uma cigarrilha do bolso. Puxou também seu isqueiro prateado. Olhou para a mesa e, nada vendo, pediu um cinzeiro. O pândego e mostárdico Dijon não se fez de rogado. Na falta de um cinzeiro, não teve dúvidas: pegou uma enorme lixeira de madeira, daquelas antigas de escritório, e colocou sobre a mesa. (Dez anos depois disso, fui conhecer o maravilhoso filme “Do Mundo Nada se Leva”, em que um poderoso vai à casa de “plebeus” e pede um isqueiro. Vem um gaiato com um isquerio do tamanho de um tambor e barulhentíssimo. A cena do filme é praticamente idêntica a esta, do coronel e do cinzeiro do Dijon).

O coronel, vendo aquele “cinzeiro”sobre a mesa, olha grave para o Dijon, que sai de fininho. O homem respira, afasta o cinzeiro para o canto da mesa, acende sua cigarrilha, dá uma longa baforada e, referindo-se à princesa interpretada pela Arlete, profere, grave e solene:

“Fiquem os senhores sabendo que eu não tenho filha, mas se tivesse, ela não seria dessas...”

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A Incrível História do CPNES - Parte 11

O DIA EM QUE A TERRA PAROU


Já falei sobre vários membros do CPNES e em breve falarei de outros tantos. Agora, entretanto, é a vez da primeira vez, da estréia, do primeiro espetáculo, por mais inadequada ao objeto que seja essa palavra.

O Cobra Parada Não Engole Sapo nasceu do desejo, da necessidade e da vontade. Você tem sede de quê?

Desejo de fazer arte. Desejo era fazer arte em grupo, o que é um barato totalmente diferente de fazer arte individualmente.

Necessidade de gritar, de fazer-se ouvir, de marcar território, de resistir. Necessidade de simplesmente preencher o tempo.

Vontade de se divertir. Vontade de aparecer.

Nossa Cidade é uma peça de Thorton Wilder, que tinha (ainda tem, é claro) o poder de expressar coisas maiores da existência humana, por meio de coisas pequenas do cotidiano. Havia visto a peça em Campinas, em 1981, numa noite em que apenas eu e mais cinco testemunhas estávamos na platéia. A peça começou com atraso porque os atores decidiam se a apresentariam ou não, devido à falta de quórum. A força do texto, a qualidade e a garra dos atores diante daquela não-platéia, me arrebataram totalmente. Saí dali perplexo e pensando que se algo nobre existe, seria fazer teatro. Especialmente uma atriz, uma diva, teve uma atuação inacreditável. Ela quem anunciara ao público que a peça iria acontecer e que eles dariam o melhor de si. E deram. Pena que não me recordo o nome da atriz. Espero que alguém, dentre as centenas de milhares de leitores deste blógui, saiba seu nome.

Pois agora (agora, vocês sabem, é outrora) finalmente eu podia descarregar toda aquela impressão. Na nossa universidade quartel eu ouvia o que todos mais criticavam, reclamavam. Resolvi colocar num texto teatral, com o auxílio luxuoso da irmã Rosa (irmã em todos os sentidos, menos no de relação consangüínea). Nascia “Nosso Reino”, a peça. 

Paralelamente, arregimentávamos atores, pessoas que tivessem bom humor, vontade de transgredir e de se expor para dar vida à sanha revolucionária dos cabeças do CPNES, se é o grupo tinha cabeças e se é que algum dos cabeças prezava a cabeça que tinha, se é que algum tinha alguma cabeça.

O texto era bastante crítico, do sistema em que vivíamos ali, dos professores (porta-vozes do poder, para eles tudo estava bem, tipo “é assim mesmo”), das nossas condições financeiras, de transporte e de moradia, do descaso, da distância entre discurso e prática, entre a realidade e a ficção (que insistiam em afirmar ser realidade). Para os nossos donos (assim eles se julgavam), vivíamos em um mundo maravilhoso. Tudo a ver com contos da carochinha, com faz-de-conta. Nada mais apropriado, portanto, para dar uma porradinha do que uma peça tipo era-uma-vez. Assim era “Nosso Reino”.

Para arregimentar e animar as pessoas, Arletão, aquela de quem todos gostavam, a alegre, a divertida, a desbocada (e com tudo isso era a pessoa que mais dava porrada, mais falava a verdade). Se alguém perguntava “ih, o Campineiro é que está montando? Não é perigoso não?” Aí a Arlete falava que o Gilsão estava no grupo. Gilsão dava peso e seriedade, era um dissipador de medos.

Na primeira reunião, a leitura do texto para escolhermos quem faria o quê. Na primeira leitura, entre risos e animação, alguém perguntou, com aquela voz séria e grave, tirando o sorriso do povo e colocando aquela expressãozinha de preocupação. A pergunta era se podíamos fazer crítica assim, publicamente. Para "tranqüilizar" a todos, ponderei que “aquela gente” se pautava pelas normas e regulamentos, e que não havia nada escrito sobre isso, o que nos dava total tranqüilidade... (dei uma pausa)... "para espernearmos caso haja represália". Esse complemento, evidentemente, não ajudou muito a dissipar a preocupação. Gilsão, corintiano e fã do Vicente Matheus, completou: “quem entra na chuva é prá se queimar”, declaração que, por si só, não aliviava nada, mas vindo da boca do Gilsão teve o poder de tranquilizar e ao mesmo tempo energizar a galera. Realmente, naquele clima de censura à livre expressão, de disciplina militar e naquele contexto de “estertores do poder” em que viva o país, não tínhamos a menor idéia do que aconteceria. E olha que aconteceu...

Nas vésperas da estréia, cartazes espalhados, enfim, tudo pronto, a dois dias da apresentação o coronel, o big boss, pediu o texto. Mandei, um pouco temeroso. Era manhã. Passavam as horas e não sabia a resposta. À tarde, o Coordenador, o único civil de toda a cúpula, veio a mim trazendo na face a expressão aflita da gravidade, como a de quem carrega uma bomba. A peça não poderia ser encenada. “O homem tá puto! Como é que você escreve um texto desse?” Como pode? Que absurdo! Que estupidez, bradei, inconformado, dizendo que eu iria naquele instante falar com o homem. “Não adianta, só vai piorar as coisas. Se for só isso que acontecer, dê-se por satisfeito”. Por quê? “Nem te digo, nem te digo”. Saiu esbaforido. Fui ao Gilsão, com a mesma expressão aflita de gravidade. “Gilsão, fudeu!”.

Já era hora da aula, a maioria dos alunos na sala. Alguns do lado de fora, como sempre. E nada de professor, o que era absolutamente incomum, na verdade, inédito, naquele lugar que primava pelo horário. Da sala do fundo, a dos professores, saíram o Coordenador e dois professores, Maria Luiza e Jaime Esteban. Todos com a mesma expressão e passos de quem vai tirar o pai da forca. E a aula? perguntaram os alunos. Esperem.

Meia hora depois volta o coordenador e, sem explicação, dispensa todos, não haveria aula naquela tarde. Por quê? "Problemas..." A mim, depois que todos haviam saído, ele disse que minha situação era crítica. Como crítica, o que ele podia fazer a mim? Mandar embora, expulsar? É, respondeu, consternado.

Parecia que a terra havia parado. Ser expulso era a pior coisa que poderia acontecer a qualquer um ali. Voltar para casa de mamãe, sem dinheiro, sem emprego, sem faculdade, tendo perdido um ano... Por dentro eu tremia que nem vara verde. Nunca vi vara verde, não sei se ela treme ou não, mas posso dizer que eu tremia. Mas onde estava a minha fama de corajoso, que eu estava erigindo?

O último ensaio estava marcado para depois da aula. Arletão, que devido à falta de aula havia antecipado o ensaio, veio a mim: “vamo lá, guri! A turma está esperando”. Falei que não tinha condições de comandar o ensaio. “Larga de ser bundão. Vai deixar esse bando de milico fazer isso com você? Se fizerem alguma coisa, a gente dá um jeito, faz uma revolta, diz que vai todo mundo junto, quebra tudo...”

Fui, fizemos um ensaio delicioso, durante o qual me esqueci que a peça provavelmente não aconteceria e que estava a ponto de ser expulso. Assim que acabou o ensaio, desço ao nosso andar, com Gilsão, Arlete, Tiba e a Rosa. Eles esperaram ali fora. Entro, com o Gilsão, na sala do coordenador. “E aí?” Logo vi, na cara do Chiquinho, que a expressão era outra, bem melhor.

Ele me contou que os professores Maria Luisa e Esteban, além dele próprio, haviam tido uma longa conversa com o coronel, tentando demovê-lo da idéia de impedir a peça e de me expulsar e... conseguiram. Mas o coronel queria falar comigo. Vá agora lá que ele está te esperando.

Era a primeira vez que entrava na sala do Coordenador Geral. Poucos, ao longo daqueles 30 meses, entraram ali, se é que mais alguém além de mim entrou ali. Eu entraria ali outras vezes, em circunstâncias semelhantes, outras piores, outras melhores.

Lá estava ele, escondido atrás daquela enorme mesa de madeira, com desenhos em alto relevo talhados. Não me olhava direto nos olhos. Dava longas e provocativas baforadas na sua cigarrilha.

"Eu já fui jovemeu entendo essa rebeldia".

Na minha cabeça veio imediatamente a maravilhosa música do Luiz Melodia, “eu entendo a juventude transviada”.

Primeiro veio um blá-blá-blá paternalista. Depois um tom ameaçador. Eu pouco ou nada falava. No final, pediu algumas modificações no texto, trocar coisas inconvenientes, como disse ele. Desci e fui direto para o ponto de ônibus, onde todos esperavam ansiosos. Desci festejando. "Esses caras vão ver, cutucaram onça com vara curta!" Durante o trajeto que nos levaria na distante vila onde morávamos, decidimos, em festa, como alteraríamos o texto onde ele pediu. Decidimos pegar ainda mais pesado. Ele pediu para “substituir algumas coisas”, mas não falou por quais coisas... Estávamos endiabrados!

No próximo pôsti, os hilários e transformadores acontecimentos do dia seguinte, o dia em que o Cobra Parada Não Engole Sapo de fato nasceu e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Tio Moa viaja - Aqualung

Lá vai o terceiro disco de cabeceira do Tio Moa, um disco incrivelmente delirante, uma obra de altura e beleza insondáveis. Tio Moa viajou, viaja e viajará. Você, sobrinho amigo, que no aconchego do seu lar, nem imagina que está à beira de se transformar completamente, vai também viajar, tenho certeza, porque Aqualung, o disco, é absolutamente delirante. Ele te levará num mergulho dentro das suas entranhas, de onde você resgatará esse seu eu tão escondininho aí dentro, puxando-o à força, trazendo-o à tona. Aqualung é um modo de vida, é um grito de liberdade, de independência. Aqualung é rompimento, é Augusto dos Anjos roqueiro.


Aqualung é o topo da produção do Jethro Tull, um grupo britânico comandado por Ian Anderson, que misturava Rock, Folk, música celta, e sei lá mais o quê, numa alquimia nunca antes vista, nem depois. Se você, sobrinho do Tio Moa, pensa que nunca viu nem ouviu o Jethro Tull, se engana. Viu, ao menos uma imagem de um cara tocando flauta com uma perna só, a outra apoiada nela (manja fazer o quatro?). Vai dizer que nunca viu isso?

E também ouviu, ao menos a faixa título você ouviu. Se não ouviu, melhor se matar. Brincadeirinha, não quero ser acusado de incentivar ninguém a abreviar a existência. Pelo contrário, pretendo, com este pôsti, prolongar ao máximo sua existência, fazê-la ter valido à pena. Com Aqualung você se garante, você crava seu nome, dá sentido à sua vida.

O Jethro Tull foi um grupo irregular, com alguns discos ótimos, outros dispensáveis. Aqualung está a anos luz de ser dispensável e transcende em muito o “ótimo”. É único, é sublime. Um disco muito trabalhado, complexo em suas melodias e arranjos. Complexo e elegante, mas fácil de ouvir, porque belíssimo.

Começa à toda, com a faixa título. E já os primeiros acordes são incríveis e arrebatadores.

Paran pam pam pam pam... Sitting on a park bench... São acordes inesquecíveis e históricos. Uma voz cheia de maneirismos e inflexões vai falando do velho Aqualung, vagabundo, mendigo (ou ligeira, como eu chamava quando pequeno). Logo depois, quando fala com mais carinho, a voz, o ritmo e todo o clima são outros. E assim vai a música, maravilhosa, te arrebatando a cada inversão, a cada mudança, a cada solo, a cada movimento, sempre surpreendendo com beleza e emoção. No final, os acordes iniciais e o canto doído: oh oh oh oh Aqualuuung. É, sem dúvida, uma das grandes composições da história da música, em todos os gêneros. Mas não pense que o disco se resume à faixa título. De jeito maneira, diria a Tia Cinira, mineira.

Todo o disco é incrível. Acaba Aqualung e já entra Cross Eyed Mary (algo como Mary Vesga), mais um personagem estranho, mais uma sonzeira, com aquele “tum tururum turum tum” da guitarra e do baixo e aquela bateria deliciosa que vão marcando a voz rascante rockn’rollsíssima. Guitarras, flautas e piano compondo um som alucinante e riquíssimo.

Aí, depois das duas primeiras delirantes músicas, vem a Chep Day Return, uma belíssima e curta balada acústica, seguida pela acústica, mas um pouco mais agitada balada folk Mother Goose. Depois a deliciosa e Nickdrakeana Wond’ring Aloud. E assim o disco segue, com sons incríveis, melodias fortes, viagens alucinantes.

Ouvir e viajar com Aqualung é soltar o grito da garganta, é se libertar, é romper com sua limitada existência e marcar seu lugar entre os mortais, é dizer que ama a vida, a verdadeira vida, aquela de altos e baixos, de cumes e depressões, aquela com luz e escuridão, com sol e nuvens negras. Pense nisso enquanto estiver ouvindo Aqualung, Quando estiver na sétima música, My God, lá pelo terceiro minuto, quando entrar aquela guitarra num riff marcante, ultrapassando a limitação do belo, e depois, quando ela trouxer cantos gregorianos embalados por uma flauta mágica, perceba o quanto você é uma pessoa nova, mais rica, mais iluminada, mais criativa.

Depois, nas seguintes, dance e comemore. Oh, Pai que estás no céu, sorria sobre seu filho.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ENTÃO É NATAL


Prá quem não me conhece sou Humberto Laraia, filho de escuridão e da rutilância, muito mais da escuridão que da rutilância, confesso. Escrevo aqui de vez em quando, quando tenho vontade, o que é raro. Fiquei sem escrever por mais de 20 anos, trancado dentro de um espelho. Se quiser saber mais, leia desde a parte um. Mas você não vai gostar, então não perca o seu tempo, embora seu tempo valha tanto quanto o que eu escrevo: rigorosamente nada.


Porque escrevo, então? Pela mesma razão que você vive; prá encher o saco dos outros. Estorvo que somos, vamos à crônica do dia, ou da noite, já que são 21h49 de uma noite insuportavelmente quente. Enquanto penso no que escrever, o suor me escorre pelas costas, provocando uma moderada irritação com os desígnios da humanidade, condenada a sofrer.


Confesso que na verdade sei o que vou escrever: sobre o natal, a época de comunhão, de harmonia e de uma chateação sem fim. Hoje vi, na livraria, uma mulher com uma irritante expressão de pessoa boa, como se alguma pessoa no mundo pudesse pleitear a si mesmo a insígnia de pessoa boa. Ela disse feliz natal, viu querida à caixa que a atendia. Tal expressão de hipocrisia me levou ao riso. Ri prá não chorar, como já o fizera Candeia e, depois, Cartola, sabedores que eram de que a vida é dor. Na verdade, ri porque rir era a única expressão possível, já que eu jamais choraria por ninguém, nem pela humanidade, que de mim não merece outra coisa senão o desdém e o escárnio.


Outra reação possível e bastante mais ajustada ao horrendo e gelatinoso sorriso magnânimo da mulher seria uma feição de poucos amigos ou uma expressão de desdém, mas tais expressões não demonstrariam nenhuma mudança em minha habitual expressão, já que carrego o desdém e a solidão, dentro e fora de mim.


Por isso, ri. Ri de escárnio, talvez de ódio. Mas, incapaz de ler e interpretar corretamente a fisionomia alheia, ao meu riso de escárnio a atenta, embora burra, senhora respondeu com um sorriso maior ainda, de maior benevolência e com um indefectível “feliz natal para o senhor”. Senhor é o cacete, respondi de pronto, em voz alta e olhando bem fixo em seus olhos. Pena que foi apenas na minha imaginação. A voz não saiu. Os mais de 20 anos dentro do espelho me tiraram a voz. Tenho que me concentrar muito para proferir alguma palavra inteligível (“entendível”, se fica mais simples para você).


Voltando à Sra. Hipocrisia, pergunto-me como é que uma pessoa que nunca me viu, que não imagina a vida que eu levo, que não sabe se roubei, estuprei, matei ou o diabo, que nunca mais vai olhar na minha cara, felizmente para os dois, como é que essa pessoa pode me desejar feliz natal? O que significa isso para ela? Que eu compre bastantes coisas e presenteie todo mundo que encontrar? Que na noite do dia 24 eu coma mais do que eu posso e que carregue no colo um parentezinho ranhento e cagão que nunca vi na vida? Que eu tome um porre homérico, vomite tudo e arrote o resto da noite, tudo isso junto com meus familiares queridos?


Ou será que a megera, quando deseja feliz natal a este sujeito que ela nunca viu na vida, quer dizer simplesmente que eu eleve meu coração ao alto e que pense em cristo crucificado que deu a vida por nós? Quem é ela para pensar que eu acredito nisso?


Quando estava dentro do e espelho, sentia uma enorme vontade de sair e esmurrar todo e qualquer mortal que tivesse um sorriso na boca e emitisse dela coisas como feliz natal ou fraternidade. Mas pensando bem, antes de entrar no espelho eu também sentia a mesma vontade. Agora, depois de sair, idem.


O que leva as pessoas a dizerem que querem bem às outras quando todos nós queremos mais é que os outros, principalmente os desconhecidos, se explodam? Os outros são um estorvo para nós. Precisamos que os outros se ferrem, que levem uma vida toda fodida (a merda do Word sublinhou em vermelho esta palavra, vê se pode!) para podermos, comparados a eles, ser um sucesso. Por isso é que no natal agradecemos a deus, que certamente nos ajudou, ferrando todos os outros para que fiquemos em destaque, portanto, felizes. A sorte é que tristeza não tem fim, felicidade sim.


Ainda de dentro do espelho, vi um filme ótimo, em que um alcoólatra que detesta natal e crianças, se veste de papai noel para roubar o shopping. Muito apropriado. “Papai Noel às Avessas” é o nome do filme.

Estamos em pleno dia 22 de dezembro. O que será que o bom velhinho pôs no meu saco de presente neste natal? A única coisa que posso sentir no meu saco neste momento é uma imensa coceira e um monte de esperma desesperado por um bom motivo para sair dali.


Bom, quem está fora do espelho é prá se molhar: feliz natal prá todos (figas).

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Tio Moa travels with Traveling Wilburys

Abri, num dos últimos pôstis, uma lista dos 10 melhores, digo, dos 10 discos de cabeceira do Tio Moa. O que é ser disco de cabeceira? Ora, vai te catar!
O primeiro foi Weaver, da Sally Oldfield, pelos motivos mencionados naquele pôsti.
O segundo vai aqui: Traveling Wilburys, o primeiro. Traveling Wilburys é o nome da banda do final dos anos 80, que por sinal surgiu por acaso. Um tal de George Harrison (sim, ele, o gênio dos Beatles, aquele cujas canções escreveu em parceria com Deus) queria gravar uma música para ser o lado B do seu single (aqueles discos pequenininhos que tinha antigamente).
Taí o Roy Orbison
Numa noite, George estava jantando com dois amigos. Jeff Lyne, seu produtor e também músico dos bons e Roy Orbison. Deus compunha melodias com George, mas cantava com Orbison. Roy Orbison foi o melhor cantor do mundo, segundo Elvis Presley, que por sinal cantava bocado e sabia do que falava. Até hoje, nunca ninguém cantou igual ao Roy. Quando ele canta, temos a impressão que a voz não é humana, ela nos eleva, nos coloca numa outra dimensão. Ela dá um peso, uma dramaticidade atroz. Para quem não o conhece, mas curte cinema, David Lynch gosta um bocado dele. Crying entra no Cidade dos Sonhos. In Dreams é tocada numa das cenas mais impressionantes de Veludo Azul. Ah, e Pretty Woman é a música tema de Pretty Woman (Uma Linda Mulher).
Onde estávamos? Ah, o jantar. George Harrison queria gravar uma música que estava na sua cabeça e, no calor do vinho e de sei lá mais o que, convidou Jeff e Roy (que andava em baixa há mais de 10 anos) para gravarem com ele no dia seguinte, um sábado. Envolvidos na mesma onda, concordaram entusiasmados. Mas onde? Como reservariam estúdio assim em cima da hora, da noite para o dia? Um amigo de George tinha um pequeno estúdio em casa. Ligou prá ele da cozinha do restaurante. Os cozinheiros pediam autógrafos enquanto ele falava com o amigo, Bob, o maior poeta que a música já produziu.
Na manhã seguinte combinaram de irem juntos no estúdio do Bob, mas no caminho se lembrou que tinha deixado sua guitarra na casa do Tom Petty, do Tom Petty and the Heartbreakers, uma banda muito boa dos anos 70 que varou os séculos. Bom, já que passaram na casa do Tom, chamaram-no para irem juntos gravar a música, ainda sem nome nem letra, na cada do Bob. Com tanta fera chegando, o dono da bola também tinha que entrar no jogo. No futebol o dono da bola normalmente é um menino rico que não joga nada mas tem a bola. Aqui o Bob dono do estúdio era o Dylan. Dono da bola, aqui, tem outra conotação, portanto.
E gravaram, animadíssimos, Handle With Care, que tem uma levada deliciosa à George Harrison, que canta a maior parte da música, com aquela guitarrada solta daqueles mitos, as vozes no refrão, inclusive A do Bob Dylan e, a cereja no bolo, o toque divino: Roy Orbison introduzindo o refrão. Sensacional!!! Veja o video.

George, Tom, Jeff e Dylan na cozinha. Roy de fotógrafo.
Quando George levou o resultado para a gravadora, os caras piraram. “O que? Um single? Com essa voz do Roy Orbison? Isso merece um disco inteiro”. Na hora, George ligou para os outros e todos concordaram em gravar um disco, mas tinha que ser em 10 dias, porque Bob Dylan tinha shows marcados. Decidiram compor e gravar, tudo em 10 dias, tudo a cinco mãos, ou melhor, a cinco bocas, dez mãos, 50 dedos, se é que algum deles não perdeu um por aí. Gravariam no estúdio do produtor de Bob Dylan, mas o estúdio era pequeno demais para os cinco gravarem juntos e ao mesmo tempo, como era a proposta. Mas a cozinha da casa era grande , então gravaram tudo ali mesmo, entre a pia, a mesa e a geladeira. Há um DVD com todo esse registro.
Bob Dylan, Tom Petty, Roy Orbison, Geoge Harrison e Jeff Lane
O resultado desses dez dias é delirante. Os cinco estavam em êxtase criativo. Quatro deles com um êxtase a mais: ver e ouvir Roy Orbison, ídolo de todos eles. Tom Petty diz num DVD lançado recentemente: “se você está sentado no sofá, trabalhando em uma canção e Roy está cantando, mesmo que ele cantasse em um tom suave, é um tom especial, um som especial, um grande presente. Sempre dizíamos isso a ele: 'Roy, você deve ser o melhor cantor do mundo. E ele dizia 'sim, eu sou'. Ele tem a melhor voz da música pop. Você não consegue superá-lo".
O disco é todo sensacional. Todas as músicas são deliciosas. As que Roy canta, são mágicas, como Not Alone Any More, capaz de emocionar até um poste... de concreto. Já ia me esquecendo de dizer que os músicos não assinaram seus nomes no disco, mas nomes fictícios, como se todos fossem da família Wilbury. Nelson Wilbury é George Harrison, Otis Wilbury é Jeff Lynne, Roy Orbison assina Lefty Wilbury, Charlie T. Jr. é Tom Petty e Lucky Wilbury é Bob Dylan.

O sucesso foi estrondoso e resolveram gravar mais um disco, mas Roy Orbison morreu de ataque cardíaco um pouco antes. Ainda assim eles gravaram o excelente Travelling Wilburys Volume 3, que dedicaram a “Lefty Wilbury”. Este segundo disco também merece lugar de destaque em qualquer prateleira. Mas a voz de Orbison no primeiro o leva, definitivamente, à disputada cabeceira do tio Moa.

Tome um treco bom e ouça todo o disco. Uma, duas, muitas vezes.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

"Tio Moa Viajou" - A Tropa de Elite e a Guerra no Rio

Ah, foi uma delícia ver a polícia botando os bandidos prá correr, prender um monte, entrar no morro, tomar as favelas, as comunidades. Pena que não houve derramamento de sangue. Ah, se houvesse tiroteio, se houvesse resistência, se os bandidos fossem massacrados! Haveria baixas entre policiais, certo, mas tudo bem, choraríamos um pouco no Jornal Nacional, vendo seu enterro com salvas de tiros de canhão, ou de fuzil, escopeta, sei lá. Um desfecho assim seria muito melhor, mais midiático, atenderia mais às nossas justas necessidades de emoção, de sangue. Aí sim ficaria perfeito.


O que? Está chocado? Não seja hipócrita. Não é o que queremos cada um de nós? Dar tiros na cabeça daqueles bandidos que vivem para deixar nossa vida insegura? Nosso mais íntimo desejo é, sejamos sinceros, dar uma resposta a altura (violenta, portanto) àqueles que, com suas metralhadoras empunhadas à luz do dia, ameaçam e zombam de cada um de nós, impotentes diante de sua violência e falta de amor à vida.

E por que não damos essa resposta violenta, como eles mereceriam? Por que os policiais, que sofrem muito mais diretamente (são, diariamente, alvos preferenciais daquelas metralhadoras), não cedem aos seus impulsos e saem atirando? Porque não se aproximaram com helicóptero e metralharam aqueles duzentos bandidos que fugiam com armas nas mãos, para que pudéssemos, escondidos em nossas casas, urrar de prazer e satisfação?

Respondo: porque somos socializados. Temos vontade de um monte de coisas proibidas. Ter vontade , lembro, não é crime algum, é humano, é natural. Fazer o que temos vontade é que é crime, se o que temos vontade é proibido por lei. A maioria das coisas proibidas que não fazemos, mesmo tendo vontade, nós não transformamos em ação não apenas por sabermos que é crime, mas por sabermos que não é certo. A lei e as convenções sociais são fruto de crenças coletivas, baseadas na moral e na ética, e acabam nos educando moralmente e sedimentando nossa ética. Ou seja, escrevemos leis que proíbem matar bandidos fugindo porque sabemos que, do ponto de vista humano e social, matar bandidos em fuga não é correto. Além disso, é uma lei que, evidentemente, acaba protegendo inocentes, ou seja, protegendo a todos nós. Existem, assim, leis boas, leis que ajudam e melhoram a sociedade, mas existem leis que podem até ter boa intenção, mas não ajudam a sociedade, às vezes pelo contrário, atrapalham.

Vamos a outro exemplo: você, homem que tem desejo sexual por mulheres, que gosta da "coisa", imagine que está vendo diante de si uma mulher linda, com curvas perfeitas e sensuais, com um shortinho bem curtinho e pernas lindas, bundinha arrebitada e bem desenhada, topezinho deixando à vista a barriguinha perfeita, seios lindos, lábios sensuais, libido aflorando por todos os poros e um jeitinho voluptuoso, provocante e meio sacana. Ficou com desejo e vontade de fazer várias coisas com ela? Sim? Ok. Parabéns, você é espada! Agora saiba que ela tem 17 anos. E aí? Você ainda está com vontade de fazer tudo aquilo? É claro que está, não minta. “Ah, mas ela é menor de idade”? E daí? Explica isso pra tua máquina reprodutora, para o teu corpo de homem que nasceu com a obrigação física da reprodução da espécie. Por acaso a mulher fica gostosa e desejável repentinamente, de um segundo para outro, a partir das vinte e quatro horas do dia em que completa dezoito anos? Não se culpe por eventualmente desejar menininhas que são, em tudo, mulheres, mas sim se concretizar teu desejo.

Voltando ao caso da guerra da polícia contra os traficantes: você assistiu Tropa de Elite, 1 e 2?. Se não assistiu, assista. Além de ser cinema de primeira (principalmente o segundo, cinemão), é hoje talvez um dos filmes mais importantes da história do cinema brasileiro, porque foi fundamental para tudo o que vimos pela TV. Influenciou decisivamente na adesão e na simpatia do povo pelo BOPE e, tão importante quanto essas influências, melhorou o “moral da tropa”, despertou nos caveiras reais a vontade e a responsabilidade de por em prática seu desejo de acabar com o narco-terrorismo. Mais: despertou nas autoridades a vontade política de fazê-lo. E fizeram, estão fazendo. Ótimo. Mas e o resto?

Uma das cenas mais significativas (por representar nosso desejo) é quando o herói tira um político corrupto do carro e o espanca até transformar seu rosto numa pasta sanguinolenta. Urramos por dentro (no cinema alguns urram para fora mesmo). E quanto a essa parte do filme, não vão transformar em realidade? Vamos agora à caça dos corruptos, dos sensacionalistas que os apóiam? Vamos mexer nas leis estúpidas, travestidas de boa intenção, como a criminalização das drogas? Será inteligente tornar crime algo é desejo, vontade e necessidade de milhões de pessoas? E as outras drogas? Tentaram, nos Estados Unidos, criminalizar a bebida alcoólica e todos sabem no que deu. Li outro dia que a droga é, como o cigarro e a bebida, um problema de saúde, mais fácil de administrar do que o problema de segurança pública criado com a proibição. “Ah, mas e os jovens?” Ora, a proibição nunca afastou os jovens das drogas. Pelo contrário, talvez os atraia ainda mais.Nos países onde as drogas, ou algumas delas, foram proibidas, a violência e o crime diminuíram drasticamente.

Enfim, o território foi plasticamente tomado com a bela e teatral cena das bandeiras hasteadas no alto do morro, que me lembrou Neil Armstrong cravando a bandeira dos States na lua. Sim, eu vi ao vivo. Ao lado ele deixou uma placa com os seguintes dizeres: "Aqui os homens do planeta Terra puseram pela primeira os pés na Lua. Julho de 1969. Viemos em paz em nome de toda a humanidade".
Passados os picos de audiência nos jornais noturnos e nos programas popularescos da tarde, o que nos resta? Algo de concreto? Algo para a humanidade? Alguma intenção de evoluir?

Ou tudo isso foi só para limpar a área e viabilizar a Copa do Mundo, cuja realização é o maior ato de corrupção e roubo descarado já feito no Brasil. Estádios super-hiper-mega faturados, tudo com a conivência governamental, federal e estaduais, e com o apoio, também com intenções inconfessáveis, da entidade nacional e internacional de futebol. Exemplos: os camarotes para o maracanã estão orçados, inicialmente a 5 milhões de reais cada um. Camarote, aquele quadradinho de 15 m2. Com esse preço se compra um apartamento na Vieira Souto. Mais uma: o Morumbi tem tudo para sediar, mas o projeto de reforma foi, teimosamente, desaprovado pela rigorosa entidade internacional dona da Copa. Só que o projeto do estádio novo que será construído em São Paulo (muito mais caro, evidentemente, foi aprovado pela rigorosa FIFA sem verem o projeto, “na confiança”. Que beleza! E vamos ficar quietos, assistindo e torcendo para a "nossa" seleção.

Legal, o Tropa de Elite, todas as tropas envolvidas, a inteligência das açoes, enfim, tudo isso ajudou a sociedade a resolver um de seus problemas. Mas e os problemas que estão por trás de tudo isso? Será que vamos precisar de outro filme de sucesso para mobilizar quem pode mexer na coisa? Quem vai dirigir o filme? Quem vai atuar? Tudo bem, chama o Padilha e o Wagner Moura, ou mesmo o Cobra Parada Não Engole Sapo. Mas a pergunta sem resposta é: quem vai patrocinar?

Você está morto

A fuga do óbvio é quase um objetivo de vida para mim. Não sei se isso é uma qualidade, uma deficiência de caráter, uma disfunção psíquica ou simplesmente uma característica pessoal, como o jeito de sorrir ou de andar. O fato é que me envergonho de ser pego dizendo o que já foi dito. Uma força vital me afasta daquilo que todos gostam.


A verdade é que me irrito demais com o povo feito gado. Muito do gosto comum não é gosto, é inércia, é pensar que se gosta porque se pensa que todos estão gostando, mas sem nenhum exercício mental de aprofundamento no objeto. Todos estão ouvindo? Conclui-se que todos estão gostando. Todos estão gostando? Então eu devo gostar. A base desse comportamento é o medo e a insegurança de se mostrar, de se desigualar, de ser visto como diferente. É o medo de ser indivíduo, é a impossibilidade de ser indivíduo. Isso sim é disfunção, isso é doença.

Não são apenas as impressões digitais que nos distinguem. Nossa alma também, nosso cérebro idem. As pessoas são naturalmente diferentes, mas morrem de medo de exercer essa diferença. Isso é doença. É o mal do século. É a razão pela qual se produz cada vez menos pensamentos, obras de arte (música, cinema, etc). Há cada vez menos gente que gosta do que não está no centro do olhar comum. Cada vez mais raros são os que olham aos extremos e que produzem pensamento, arte e evolução com isso. Sem pensamento, arte e evolução, a sociedade e a espécie humana, aquela dotada de individualidade e personalidade, fica estagnada, fadada a desaparecer em pouco tempo.

O problema não é, portanto, o que se acredita, ou o que sempre acreditei: que tudo o que se produz é para agradar o gosto comum. Não é esse o maior problema. A desgraça do gênero humano é que só se sabe produzir o que é do gosto comum. Não se sabe, salvo raríssimas exceções, fazer nada diferente disso.

Quando entrei no espelho o negócio já estava meio ruim, mas agora que saí descobri que piorou muito. Os grandes sucessos da música neste país, por exemplo, são cantorzinhos comportados, com letrinhas comportadas, arranjinhos básicos, embora com roupinha moderninha. Lenine, Ana Carolina, Seu Jorge, Jorge Vercilo, Maria Gadú. Estes, e muitos outros iguaiszinhos, são os considerados modernos. Modernos? O que eles trouxeram que pode ser classificado de moderno? O novo modelo de cabelo “desgrenhado-chique”? As roupas moderninhas que usam? A sexualidade sem vergonha? Esta não tem nada a ver com modernidade artística, é conquista social e apenas o é porque agora pode ser assim, porque lá atrás outros foram diferentes, ousaram e conquistaram.

Ah, você gosta dessa gente que canta essa musiquinha chinfrim? Dane-se. Continuam sendo muito ruins. Talvez o fato de você gostar deles os faça pior ainda. Mas duvido que você saiba que, na minha ausência, passou por aqui um cometa chamado Chico Science, que durou pouco porque o jogaram num poste. Quem me apresentou o sujeito foi o Tio Môa, o estúpido otimista que me hospeda neste blog. Estúpido porque acha que a existência, embora efêmera, de alguém criativo e fora do senso comum teria mostrado que nem tudo está perdido. Eu não tenho essa confiança, como nunca acreditei em papai Noel. Para mim, não há salvação.

Não há salvação nem para você, leitor? Bem, para você, em tese, poderia haver salvação, afinal, você está lendo isto que, convenhamos, não faz parte do gosto comum. Bastaria que você fizesse uns exercícios mentais, perdesse esse seu medo de ser incomum, de ser você mesmo.Porque hoje você não é você; você é os outros. Só ousando ser você mesmo, poderá se salvar da vala comum. Veja o que nunca viu, ouça o que nunca ouviu, aprenda a exercitar modelos matemáticos e geométricos diferentes (tudo na arte tem como base a matemática e a geometria). Mas sabe de uma coisa? Eu não acredito que você o faça. Não acredito em você. Tente com seus filhos, talvez eles ainda se salvem, desde que não copiem seu modelo simplório e covarde. Sinto dizer isso, mas você, como indivíduo, já está irremediavelmente morto.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Volta de Humberto Laraia - Volume 3

Quem sou eu? Porque o meu espelho foi parar num antiquário e foi comprado por uma fortuna e eu não recebi um tostão? O que faço aqui trancado dentro de um espelho no quarto suntuoso do presidente da república? Perguntava-me essas coisas o tempo todo.

E assim passaram-se os anos. Não vou contar tudo que ouvi dentro daquele espelho, porque finalmente saí de lá e agora estou aqui, vivo como você, leitor, se é que se pode considerar essa vida que você leva como vida. Aqui fora não é prudente falar determinadas coisas que vi nesses anos todos. Morei na Casa do bigodudo, depois na daquele que adorava um espelho e tinha um nariz bem grande, vivia na minha frente, ajeitando os cabelos, fazendo pose de macho, e, pior de tudo, fazia isso justo quando a sua mulher se despia antes de vestir a camisola para dormir. Era uma loira magra, mas bem gostosinha, apesar de meio feinha e dentuça. Eu gostava quando ele viajava, porque ela ficava sozinha (quase sempre) no quarto e eu podia vê-la sem ninguém na minha frente...

Depois teve um cara do topete. Passava horas ali na minha frente, ajeitando aquilo. Um horror. Mas neste aspecto a coisa foi sempre piorando, piorando até que chegaram uma baranga e um barbudo que, quando conversava com deus, olhava para baixo. Sorte que agora saí do espelho. Imagina, passar mais quatro anos ali... Um dia eu conto como foi que saí daquele espelho.

O fato é que esses quase trinta anos de espelho me fizeram ver a vida de um modo muito diferente. Se antes eu era descrente de tudo, agora sou muito pior. Eu era meio lunático, agora sou a lua.

Dizia que minutos eram grãos de areia, “jogue-os ao vento e seja um dos que me importam”. Hoje ninguém mais os atira ao vento, ninguém mais me importa, nem você, que lê essas minhas recordações, amargas e sem nexo. Sem sentido algum. Pior é que você, se leu até aqui, é capaz de estar gostando, o que só reafirma minha descrença na inteligência e no bom gosto do ser humano.

Eu vivia num mundo que não me queria vivo, mas ainda assim lutava para que o mundo permanecesse vivo. Hoje quero que o mundo vá à merda!

Antes eu escrevia minhas coisas tortas e as pessoas gostavam, até choravam as mais imbecis, compravam meus livros, fiquei rico, enfiei o dinheiro sei lá onde.

Perguntavam-me por que minhas obras eram tão estranhas e cruas, mas, ao mesmo tempo, pareciam tão reais. Eu respondia que elas eram como um espelho que refletisse da realidade apenas a ficção, como um filtro. Achavam o máximo. Hoje acho que o espelho não filtraria mais nada, refletiria tudo. Tudo é ficção. Que ver? Vamos lá:

Você faz o que não gosta, vive a maior parte do tempo com pessoas que não gosta, mas não briga com elas. Vive como se gostasse delas. E de quem você gosta? Pense. Isso, é com essa pessoa que você briga, é essa pessoa que você fere. E é exatamente essa pessoa que você, intimamente, culpa pela sua infelicidade.

Agora pense na coisa que você mais gosta de fazer. Pensou? Diga-me, é ou não é aquela que você menos faz?

Domingo eu vi futebol. A torcida vibrava quando seu time tomava gol.

Os homens não mudaram muito. Parecem os mesmos estúpidos. As mulheres sim, mudaram bastante. Para pior. Fazem mais sucesso. Para fazer sucesso tiveram que se masculinizar. Vejam as que mandam nas empresas ou no país. “Ela é mulher, mas é firme”. Isso é um elogio, assim elas podem ocupar as posições. Você, homem (mas homem mesmo, não essas máquinas de penetrar), faria amor com alguma delas?

O quê? Fazer amor? Que coisa mais velha, ultrapassada. O mundo, no lugar de deixar a maldita e escrota lógica masculina para poder se humanizar, ficou mais masculino, mais bruto, mais imbecil. Ai, que saudades do espelho.

No mundo de hoje os mais populares são os mais corruptos ou os mais ridículos. Cecília Meirelles (que hoje não seria ninguém, aliás, não é ninguém, pergunte para seu filho, ou para você mesmo) escreveu um dia que toda vez que um justo grita, o carrasco vem calar, quem não presta fica vivo, quem é bom, mandam matar. Hoje não há mais carrascos, os bons se matam a si mesmos.

Num mundo ideal, a nossa realidade não passaria de ficção.

Sou Humbeto Laraia, muito prazer (esse "muito prazer" é mera obrigaçao de ser minimamente gentil).
Pretendo escrever sobre a vida que te rodeia.
E te cortar e te queimar a cada quarta-feira.
Não gostou? Nao leia.

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