A Marisa Monte do final dos 80, mais do que os seus melhores contemporâneos, inventou aquilo que chamo de Nova MPB, trazendo arranjos e interpretações mais modernas para a amarelada MPB. O lendário show que tinha “Comida” e "Negro Gato" (esta acompanhada do Paulo Moura) marcou época. Marcou tanto que até hoje ninguém do espectro MPB faz nada diferente. A Nova MPB é um saco, uma repetição enfadonha de um modelo que, embora esgotado, continua gerando baciadas de chatinhos que não acrescentam nada, como os Lenines, Seus Jorges, Vercilos, Marias Gadus e Anas Carolinas da vida. Vá a uma prateleira de CDs numa loja e você encontra uma centena deles. Todos bons (ou pelo menos a maioria), todos fazendo esse sonzinho bacaninha, assim-assim, meio chinfrim, uma música altamente consumido pela classe média cultural, que pensa que ouvir Seu Jorge ou Maria Gadu vai colocá-lo numa classe superior ("eu sou plural"). O Orkut e o Facebook estão cheios de gente que ser bacaninha, e plural, e escolhe ser fã dessa gente que é até boa, boa, mas que na real não cheira nem fede.
A Marisa Monte deixou essa horda de filhos chato, por isso eu a odeio, apesar de amá-la. Ela tem todo o direito de não fazer mais nada (e tem usado esse direito). Ela pode, como pode o Belchior, que não precisava ter composto mais nada depois de Paralelas (prá que mais?), como o Arnaldo não precisava fazer mais nada depois do “Loki” e o Roberto Carlos não precisava fazer mais nada depois de “Detalhes” – aliás, este não devia ter feito mais nada!
Mas eis que, de Pernambuco, um dos maiores pólos culturais das Américas, de onde já surgiu para o mundo gente como Ariano Suassuna, José Condé e Chico Science, aparece Karina Buhr. Ela já havia aparecido em casa há uns 10 anos, num CD do delicioso Comadre Florzinha, que curti muito mas que há um tempão não ouvia. Eu não sabia que ela estava lá, adormecida, esperando o momento oportuno para agarrar-me...
O som de Karina Buhr não tem nada de chinfrim, é brasileiro e universal, com um sotaque da atual música de Pernambuco, que por sinal é onde se faz a melhor música hoje (e talvez o melhor cinema). Pernambuco, a Veneza brasileira, também está sendo uma Barcelona brasileira. Karina Buhr “traz de lá esse colorido em suas musicas e letras. Tem qualquer coisa de sonho a impressão que fica ao ouvir seu disco” (Patrícia Palumbo).
O disco "Eu menti pra você” tem melodias, arranjos e músicos de altíssimo nível. O trompete do Guizado e a guitarra do Edgar Scandurra ajudam a colocar a sonoridade do disco numa outra atmosfera.
A sensacional Nassíria e Najaf , “uma canção de ninar pras crianças de Bagdá” é ótima, tem um refrão rock'n roll de primeira, guitarra e baixo com um peso legal e o trompete avermelhando o clima. Karina canta fluída, rápida, precisa e com uma naturalidade que parece que a gente tá ouvindo ela conversar num bar. (o vídeo tá aí, em algum canto deste pôsti)
O Pé é quase uma marcha militar, com uma leitura moderna, cantada em tom doce e levemente melancólico. Uma voz cool, deliciosa e cativante, que canta uma poesia elíptica e insidiosa, entra na gente e nos leva:
A pedra, o pé,
descendo a rua que cobre a pedra
embaixo dela a terra,
embaixo da terra o céu de novo
Sentindo a lentidão do dia
Há dias lentos demais
Não sinto, não tenho vontade, não agüentaria
O céu embaixo das nuvens, a terra por baixo
Do asfalto
O centro da terra que puxa a gente
a gente pula contra a vontade do chão
Depois, Ciranda do Incentivo, um divertido e hipnótico som-de-balada-bem-porradão. Tipo de música de show, daquelas que agita a platéia. Karina está encantadora. Seu “mas eu não sei negociar, eu só sei tocar meu tamborzinho e olha lá” é uma daquelas delicadezas que a vida nos dá de presente.
Mira Ira é maravilhosa! Forte, cortante, emocional. E ela canta de um jeito... (é difícil transmitir em palavras a sensação que dá ouvi-la cantar) tão forte e ao mesmo tempo tão leve; tão próxima da gente e ao mesmo tempo tão cenográfica que parece que está dentro de um filme... “tá tudo padronizado no nosso coração/nosso jeito de amar pelo jeito não é nosso não”. A voz é perfeita, o jeito de cantar totalmente pessoal... Enfim, sem palavras. Para ser ouvida em alto volume; o tipo de música que faz a gente se sentir mais vivo.
Me mira a ira
me mira mas me erra
mas minha ira me era confusa
mudando meu amor de endereço
Me mira a ira
me mira mas me erra no escuro
sentindo o teu amor profundamente
Todo o resto do disco é bom demais, mas vou parar por aqui. Karina Buhr canta demais! É muito sensual, leve, aveludada. É completa: musica, letra/poesia, som. Karina Buhr não é, definitivamente, mais uma, mas a melhor coisa que ouvi em muito, muito tempo. Valeu ter saído do espelho.
Eu não sou emocional, nem intenso, tampouco exagerado, quem me conhece sabe; mas vou abrir uma exceção: eu amo perdidamente essa Karina Burh e quero me casar com ela. Largo tudo e vou carregar seu tambôzinho mundo afora!
segunda-feira, 28 de março de 2011
domingo, 13 de março de 2011
A VOLTA DO GANSO
A gente sempre enxerga os fatos históricos como acontecimentos muito distantes de nós, deslocados do nosso tempo e do nosso espaço. Mas algumas poucas vezes na vida a gente se sente participando deles.
Em 86 estava no meio do badernaço de Brasília, dirigindo meu fusca 76, levando a pequeníssima Tani, 1 ano e pouco, no banco de trás. Íamos da Asa Sul pra a Asa Norte, pela L2. Quando atravessava o viaduto sobre o Eixo Monumental, um militar mandou parar. Naquele fim de tarde tudo estava envolto em fumaça. Pessoas correndo, militares por todo lado. A visão da esplanada era horrível: fogo, correria, cavalos, tanques (ou coisa parecida). E eu no carro parado, ali no meio daquilo, morrendo de medo, com a Tani atrás e o desespero no banco ao meu lado, espreitando, aguardando o momento oportuno para entrar dentro de mim. Entrar do ponto de vista espiritual, ou imaterial, afinal, o desespero não é feito de carne e osso. Material ou imaterial, eu precisava evitar que o desespero tomasse conta de mim. Olhava para trás e via os olhinhos da Tani, assustados com todo aquele movimento e barulho. Respirei fundo e olhei para frente. Aí então eu vi o que estava ali, bem na minha frente: a história. Era 28 de novembro de 1986.
Muito antes, 1969 foi um ano em que senti o mesmo duas vezes. Uma vez em 20 de julho, quando o mundo parou para ver Neil Armstrong, um trompetista que também era astronauta, pousar na lua. Naquele dia ele compôs a magnífica “Wonderful World” ao olhar para a terra e constatar que era azul, embora a terra fosse, e na verdade ainda o é, verde. Armstrong e o pessoal da NASA não se ativeram ao fato de que o visor do escafandro, sendo marrom, transforma em azul o verde. Não tenho certeza se aquela bola na cabeça dos astronautas é de fato um escafandro, que é um nome geralmente dado ao instrumento de mergulho inventado por Julio Verne. Abaixo, Armstrong - à esquerda, antes de ir à lua e à direita, depois de voltar.
INFORMAÇOES ADICIONAIS
BADERNAÇO EM BRASÍLIA
No dia 28 de novembro de 1986, ninguém imaginaria que uma manifestação pacífica, convocada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), Central Geral dos Trabalhadores (CGT) e pelos partidos PT, PDT e PCB poderia provocar o maior distúrbio da história de Brasília: o Badernaço. O tumulto começou quando a polícia tentou dispersar os manifestantes que se encontravam na Rodoviária. Várias lojas foram saqueadas (entre elas o extinto posto da Cobal, que em seguida foi queimado), carros da polícia foram queimados ou danificados e 11 prédios públicos, depredados. Oficialmente, após a confusão, a polícia prendeu 34 pessoas.
Apollo 11
Wikipédia - Apollo 11 foi a quinta missão tripulada do Programa Apollo e primeira a pousar na Lua, em 20 de Julho de 1969. Tripulada pelos astronautas Neil Armstrong, Edwin 'Buzz' Aldrin e Michael Collins, a missão cumpriu o objetivo final do Presidente John F. Kennedy, que, num discurso ao povo norte-americano em 1962, estabeleceu o prazo do fim da década para que o programa espacial dos Estados Unidos realizasse este feito. Neil Armstrong, comandante da missão, foi o primeiro ser humano a pisar na superfície lunar. Composta pelo módulo de comando Columbia, o módulo lunar Eagle e o módulo de serviço, a Apollo 11, com seus três tripulantes a bordo, foi lançada de Cabo Canaveral, na Flórida, às 13:32 UTC de 16 de julho, na ponta de um foguete Saturno V, sob o olhar de centenas de milhares de espectadores que enchiam estradas, praias e campos em redor do Centro Espacial Kennedy e de milhões de espectadores pela televisão em todo o mundo, para a histórica missão de oito dias de duração, que culminou com as duas horas de caminhada de Armstrong e Aldrin na Lua.
Em 86 estava no meio do badernaço de Brasília, dirigindo meu fusca 76, levando a pequeníssima Tani, 1 ano e pouco, no banco de trás. Íamos da Asa Sul pra a Asa Norte, pela L2. Quando atravessava o viaduto sobre o Eixo Monumental, um militar mandou parar. Naquele fim de tarde tudo estava envolto em fumaça. Pessoas correndo, militares por todo lado. A visão da esplanada era horrível: fogo, correria, cavalos, tanques (ou coisa parecida). E eu no carro parado, ali no meio daquilo, morrendo de medo, com a Tani atrás e o desespero no banco ao meu lado, espreitando, aguardando o momento oportuno para entrar dentro de mim. Entrar do ponto de vista espiritual, ou imaterial, afinal, o desespero não é feito de carne e osso. Material ou imaterial, eu precisava evitar que o desespero tomasse conta de mim. Olhava para trás e via os olhinhos da Tani, assustados com todo aquele movimento e barulho. Respirei fundo e olhei para frente. Aí então eu vi o que estava ali, bem na minha frente: a história. Era 28 de novembro de 1986.
Muito antes, 1969 foi um ano em que senti o mesmo duas vezes. Uma vez em 20 de julho, quando o mundo parou para ver Neil Armstrong, um trompetista que também era astronauta, pousar na lua. Naquele dia ele compôs a magnífica “Wonderful World” ao olhar para a terra e constatar que era azul, embora a terra fosse, e na verdade ainda o é, verde. Armstrong e o pessoal da NASA não se ativeram ao fato de que o visor do escafandro, sendo marrom, transforma em azul o verde. Não tenho certeza se aquela bola na cabeça dos astronautas é de fato um escafandro, que é um nome geralmente dado ao instrumento de mergulho inventado por Julio Verne. Abaixo, Armstrong - à esquerda, antes de ir à lua e à direita, depois de voltar.
Em 2 de julho daquele mesmo ano, eu havia sido emocionalmente apresentado ao futebol. Sobre esse dia, ler o premiado (e se não foi, devia) pôsti “Tio Moa e suas reminiscências - Radio Days”
Poucos meses mais tarde, em 19 de novembro, eu estava ansioso; finalmente chegava o dia do jogo que todos aguardavam. Minha mãe, meu avô, meus tios e até as minhas tias, só falavam no milésimo gol do Pelé. Minha santa mãezinha provocou em mim uma expectativa tão grande que me levou a ter a exata consciência de que, naqueles instantes em que Pelé converteu aquele pênalti e o povo invadiu o gramado e o carregou, eu estava presenciando a história.
Hoje, 12 de março de 2011, senti de novo a sensação de estar vivendo a história. Mas desta vez foi diferente. Nas outras vezes foi fácil sentir-me na história; em 69 porque os eventos tinham a atenção nacional e em 85, porque eu estava mergulhado no badernaço. Mas hoje foi preciso um pouco mais. Foi preciso ter ouvido muita música na vida; foi preciso gostar de Balé, das obras dos grandes pintores, de música clássica e talvez de futebol; foi preciso ter uma alma leve (sorte que não foi preciso ter um corpo leve).
Hoje Ganso voltou. O Ganso, Paulo Henrique, aquele craque raríssimo que não foi levado para a Copa por Dunga porque o energúmeno técnico nunca viu um Matisse, nunca ouviu um Bach, nunca viu balé, nunca leu poesia, nunca teve a alma leve. Ganso voltou depois de vários meses parado recuperando-se de uma contusão grave. E ele entrou somente no segundo tempo, depois de um zero a zero complicado no primeiro.
Entrou e em segundos já disse a que veio. Tocou uma vez, recebeu, tocou outra vez. Na terceira vez em que recebeu a bola, tratou-a de meu amor e aos quinze segundos fez um lançamento mágico e deixou o atacante na cara do gol. 1 a 0. Aos nove ele mesmo fez o gol, com um toque que poucos acertariam. Em 10 minutos mudou o jogo e deu show o resto do tempo. A cada toque na bola, uma carícia, um solo de violino, um passo de balé, um sustenido de um tenor. Foi caçado em campo, sofreu faltas violentas, uma das quais gerou a expulsão do agressor, um dunguinha, um escutador de pagodinhos chinfrins e funk brega.
Parece que Ganso nunca esteve parado. Vi nele, hoje, mais, mas muito mais do que um Zidane, com quem o compararam no ano passado. Vi nele o Mestre Dicá, que desenhava obras de arquitetura niemayeriana com a bola. Vi nele um Ademir da Guia, que bailava e tocava violino, como dizia dele o Armando Nogueira. E, sobretudo, hoje eu vi, no Ganso, o próprio e único Ganso, diferente de todos, um gênio inspirador que ao entrar fez com que todos os demais jogadores do Santos jogassem melhor, transformando alquimicamente um joguinho mequetréfi num lindo concerto.
Esse Ganso, se não tiver problemas com contusões (que Deus e os santos, pelo menos os aliados do Seu governo, o protejam), será um jogador inesquecível, um dos melhores da história do futebol. E o dia de hoje será conhecido na história do futebol como “o dia em que o Ganso voltou”. E eu vi!
INFORMAÇOES ADICIONAIS
BADERNAÇO EM BRASÍLIA
No dia 28 de novembro de 1986, ninguém imaginaria que uma manifestação pacífica, convocada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), Central Geral dos Trabalhadores (CGT) e pelos partidos PT, PDT e PCB poderia provocar o maior distúrbio da história de Brasília: o Badernaço. O tumulto começou quando a polícia tentou dispersar os manifestantes que se encontravam na Rodoviária. Várias lojas foram saqueadas (entre elas o extinto posto da Cobal, que em seguida foi queimado), carros da polícia foram queimados ou danificados e 11 prédios públicos, depredados. Oficialmente, após a confusão, a polícia prendeu 34 pessoas.
Apollo 11
Wikipédia - Apollo 11 foi a quinta missão tripulada do Programa Apollo e primeira a pousar na Lua, em 20 de Julho de 1969. Tripulada pelos astronautas Neil Armstrong, Edwin 'Buzz' Aldrin e Michael Collins, a missão cumpriu o objetivo final do Presidente John F. Kennedy, que, num discurso ao povo norte-americano em 1962, estabeleceu o prazo do fim da década para que o programa espacial dos Estados Unidos realizasse este feito. Neil Armstrong, comandante da missão, foi o primeiro ser humano a pisar na superfície lunar. Composta pelo módulo de comando Columbia, o módulo lunar Eagle e o módulo de serviço, a Apollo 11, com seus três tripulantes a bordo, foi lançada de Cabo Canaveral, na Flórida, às 13:32 UTC de 16 de julho, na ponta de um foguete Saturno V, sob o olhar de centenas de milhares de espectadores que enchiam estradas, praias e campos em redor do Centro Espacial Kennedy e de milhões de espectadores pela televisão em todo o mundo, para a histórica missão de oito dias de duração, que culminou com as duas horas de caminhada de Armstrong e Aldrin na Lua.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
A Incrível História do CPNES - Parte 15
PEPPERONI - A MÁFIA E A ENTRADA DO SALAME ITALIANO NO COBRA PARADA
O CPNES, com aquela conturbada e tensa, embora divertidíssima, estréia, de fato passou a existir. Não é por outro motivo que a maioria dos historiadores, os pesquisadores do tempo, os jornalistas e demais vasculhadores culturais e políticos, tem como certa a data de dezoito de maio de 1983 (veja ao lado a prova domunental) como o nascimento do Cobra Parada Não Engole Sapo. Em outros pontos, entretanto, há muita discordância, como quanto ao exato grau de influência do grupo na queda do regime militar e nos movimentos artísticos da época, como o boom do rock brasileiro (nascido, como todos sabem, em Brasília). Uns dizem que foi grande, outros chamam estes de malucos e dizem que não houve influência alguma.
Este autor, escravo dos fatos, prefere não se posicionar, mas apenas, e então somente, levantar os fatos ocorridos durante o período que compreende a gênese, a ascensão e o fim do grupo. Note-se que mencionei ascensão e fim, sem passar pela queda, porque simplesmente não houve queda. Tal qual Pelé, e ao contrário do Ronaldo, o Cobra Parada parou no ápice, não tendo experimentado o amargo sabor da queda. Talvez seja esta a razão de sua transcendência, da sua perpetuação, de ter virado mito.
Por isso a importância deste depoimento, dessas memórias contidas na Incrível História do CPNES, grupo do qual este autor, devo lembrar, foi participante ativo, embora muitos suspeitassem que fosse passivo. Afinal, essa gente de teatro...
Ativo ou passivo, uma coisa é certa: não há nesta “Incrível História do CPNES”, desde o primeiro capítulo, até este, o décimo quinto, e não haverá nos próximos, um único fato que não seja a mais pura acepção da verdade. Assim, pretendem estas modestas e bem escritas memórias servir de base para estudos de historiadores sérios e isentos que, comparando com os fatos da época, determinar a real influência do Cobra Parada, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia...
E por falar em fatos, fato é que a fatídica estréia do Cobra Parada contou com algumas participações especiais. Algumas especialíssimas, como por exemplo, a participação ativa de um gaúcho, por mais paradoxal que possa ser essa frase, vez que gaúchos não constam no imaginário brasileiro exatamente como ativos...
Ativo ou passivo, o fato é que na Itália, no início dos anos 80, os juízes Paolo Borsellino e Giovanni Falcone começam a maior ação de investigação sobre a máfia italiana, que culminou em centenas de prisões e no conseqüente desmantelamento da mais que centenária instituição criminosa. No início dos anos 90 ambos foram mortos em atentados e são considerados heróis na Itália.
Mas voltando ao início dos anos 80, justamente no período em que os juízes iniciavam uma incrível e inédita perseguição aos mafiosos, aportava no Brasil, mudando-se às pressas, trazendo apenas as roupas do corpo, uma família italiana, mais precisamente napolitana, os Pepperoni.
Não vai aqui, Deus (assim, com letra maiusculíssima em sinal de temor e respeito) é testemunha, nenhuma intenção de insinuar que a nobre família Pepperoni fosse mafiosa. Longe disso. Na verdade, os mafiosos, eméritos glutões, adoravam ir ao restaurante, simples, porem digno e acolhedor, dos Pepperoni, onde comiam a se fartar os famosos picantes napolitano do salsiccia, um sausage de carne de porco seco picante de Nápoles, uma espécie de salame que misturava carnes suína e bovina, bastante apimentado.
Pois como os mafiosos não saíam do restaurante dos Pepperoni, o patriarca, produtor do tal salame e filatelista profissional, temendo ser acusado de acobertar e dar guarida aos chefões do crime organizado, julgou mais prudente fugir para este acolhedor país, até porque não saíam mais da frente de sua casa/restaurante agentes federais italianos, querendo investigá-lo, e matadores da máfia, esperando uma oportunidade para calar definitivamente toda a família, que certamente ouvira muitas conversas e podia vir a ser inconveniente.
Temendo, com toda razão, policiais e bandidos, a família um dia fingiu que ia comprar cigarro no bar da esquina e nunca mais voltou. Além da roupa do corpo, trouxeram apenas um grande carregamento daqueles picantes napolitanos do salsiccia, que haviam despachado para o porto na véspera. Sua intenção era pegar um navio para o Rio de Janeiro, porque era uma cidade alegre, mas ao comprar passagem imaginaram que aquele porto alegre em que desembarcariam seria na cidade maravilhosa. Qual não foi sua surpresa ao desembarcarem a milhares de quilômetros, na capital do Rio Grande do Sul.
Na verdade, tiveram sorte, porque ao abrirem um singelo restaurante, verificaram que os gaúchos adoravam um bom salame...
É bom aqui fazer um parêntese: ao dizer que os gaúchos adoravam um bom salame não faço, em absoluto, qualquer alusão ao aspecto fálico da especiaria, nem tampouco a qualquer eventual característica peculiar do bravo, ativo e viril povo gaúcho.
Ativo ou passivo, o fato é que os gaúchos adoraram o tal picante “napolitano” do salsiccia, mas, achando aquele nome muito comprido, passaram a chamar aquela deliciosa iguaria de pepperoni. Semelhante metonímia ocorreu com iguaria criada por um bauruense conhecido por Bauru, que se transformou no famoso sabduíche Baurú.
Assim, os Pepperoni introduziram o pepperoni no Brasil. Assim foram enriquecendo, ou ao menos ficando em situação confortável. Mas o velho Gaetano, o patriarca, e seus filhos adolescentes, não queriam que se repetisse a história da Itália, não queriam nunca mais calar diante da opressão. Pelo contrário, decidiram que lutariam contra a ditadura. Foi aí que um de seus filhos teve a idéia de ir à Brasília, de entrar como estudante numa escola militar e lá ver o que podia fazer. E lá caiu estava o jovem Pepperoni, ao lado dos membros do Cobra Parada, aos quais resolveu se aliar, fingindo-se de gaúcho, o que, aliás, faz até hoje, vestindo com suposto orgulho uma camisa azul e preta e falando muito, e falando muito alto e falando muito grosso.
E lá estava o Pepperoni, na estréia do Cobra Parada e em tudo mais que fez o grupo. Lá estava o Pepperoni, emprestando ao grupo sua potência vocal, sua inteligência lógica virginiana, sua figura imponente de filho da aristocracia, sua cultura européia, sua musicalidade, seu senso de justiça, sua loucura verborrágica e sua falsa empáfia gaúcha. Lá estava o Pepperoni, primeiro pelo objetivo revolucionário, depois pelo afeto ao grupo e ao autor destas singelas memórias, que, diga-se, lhe tem o mesmo afeto, por sinal ainda crescente.
O CPNES, com aquela conturbada e tensa, embora divertidíssima, estréia, de fato passou a existir. Não é por outro motivo que a maioria dos historiadores, os pesquisadores do tempo, os jornalistas e demais vasculhadores culturais e políticos, tem como certa a data de dezoito de maio de 1983 (veja ao lado a prova domunental) como o nascimento do Cobra Parada Não Engole Sapo. Em outros pontos, entretanto, há muita discordância, como quanto ao exato grau de influência do grupo na queda do regime militar e nos movimentos artísticos da época, como o boom do rock brasileiro (nascido, como todos sabem, em Brasília). Uns dizem que foi grande, outros chamam estes de malucos e dizem que não houve influência alguma.
Este autor, escravo dos fatos, prefere não se posicionar, mas apenas, e então somente, levantar os fatos ocorridos durante o período que compreende a gênese, a ascensão e o fim do grupo. Note-se que mencionei ascensão e fim, sem passar pela queda, porque simplesmente não houve queda. Tal qual Pelé, e ao contrário do Ronaldo, o Cobra Parada parou no ápice, não tendo experimentado o amargo sabor da queda. Talvez seja esta a razão de sua transcendência, da sua perpetuação, de ter virado mito.
Por isso a importância deste depoimento, dessas memórias contidas na Incrível História do CPNES, grupo do qual este autor, devo lembrar, foi participante ativo, embora muitos suspeitassem que fosse passivo. Afinal, essa gente de teatro...
Ativo ou passivo, uma coisa é certa: não há nesta “Incrível História do CPNES”, desde o primeiro capítulo, até este, o décimo quinto, e não haverá nos próximos, um único fato que não seja a mais pura acepção da verdade. Assim, pretendem estas modestas e bem escritas memórias servir de base para estudos de historiadores sérios e isentos que, comparando com os fatos da época, determinar a real influência do Cobra Parada, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia...
E por falar em fatos, fato é que a fatídica estréia do Cobra Parada contou com algumas participações especiais. Algumas especialíssimas, como por exemplo, a participação ativa de um gaúcho, por mais paradoxal que possa ser essa frase, vez que gaúchos não constam no imaginário brasileiro exatamente como ativos...
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| Os juízes em mural - homenagem do povo itliano |
Mas voltando ao início dos anos 80, justamente no período em que os juízes iniciavam uma incrível e inédita perseguição aos mafiosos, aportava no Brasil, mudando-se às pressas, trazendo apenas as roupas do corpo, uma família italiana, mais precisamente napolitana, os Pepperoni.
Não vai aqui, Deus (assim, com letra maiusculíssima em sinal de temor e respeito) é testemunha, nenhuma intenção de insinuar que a nobre família Pepperoni fosse mafiosa. Longe disso. Na verdade, os mafiosos, eméritos glutões, adoravam ir ao restaurante, simples, porem digno e acolhedor, dos Pepperoni, onde comiam a se fartar os famosos picantes napolitano do salsiccia, um sausage de carne de porco seco picante de Nápoles, uma espécie de salame que misturava carnes suína e bovina, bastante apimentado.
Pois como os mafiosos não saíam do restaurante dos Pepperoni, o patriarca, produtor do tal salame e filatelista profissional, temendo ser acusado de acobertar e dar guarida aos chefões do crime organizado, julgou mais prudente fugir para este acolhedor país, até porque não saíam mais da frente de sua casa/restaurante agentes federais italianos, querendo investigá-lo, e matadores da máfia, esperando uma oportunidade para calar definitivamente toda a família, que certamente ouvira muitas conversas e podia vir a ser inconveniente.
Temendo, com toda razão, policiais e bandidos, a família um dia fingiu que ia comprar cigarro no bar da esquina e nunca mais voltou. Além da roupa do corpo, trouxeram apenas um grande carregamento daqueles picantes napolitanos do salsiccia, que haviam despachado para o porto na véspera. Sua intenção era pegar um navio para o Rio de Janeiro, porque era uma cidade alegre, mas ao comprar passagem imaginaram que aquele porto alegre em que desembarcariam seria na cidade maravilhosa. Qual não foi sua surpresa ao desembarcarem a milhares de quilômetros, na capital do Rio Grande do Sul.
Na verdade, tiveram sorte, porque ao abrirem um singelo restaurante, verificaram que os gaúchos adoravam um bom salame...
É bom aqui fazer um parêntese: ao dizer que os gaúchos adoravam um bom salame não faço, em absoluto, qualquer alusão ao aspecto fálico da especiaria, nem tampouco a qualquer eventual característica peculiar do bravo, ativo e viril povo gaúcho.
Ativo ou passivo, o fato é que os gaúchos adoraram o tal picante “napolitano” do salsiccia, mas, achando aquele nome muito comprido, passaram a chamar aquela deliciosa iguaria de pepperoni. Semelhante metonímia ocorreu com iguaria criada por um bauruense conhecido por Bauru, que se transformou no famoso sabduíche Baurú.
Assim, os Pepperoni introduziram o pepperoni no Brasil. Assim foram enriquecendo, ou ao menos ficando em situação confortável. Mas o velho Gaetano, o patriarca, e seus filhos adolescentes, não queriam que se repetisse a história da Itália, não queriam nunca mais calar diante da opressão. Pelo contrário, decidiram que lutariam contra a ditadura. Foi aí que um de seus filhos teve a idéia de ir à Brasília, de entrar como estudante numa escola militar e lá ver o que podia fazer. E lá caiu estava o jovem Pepperoni, ao lado dos membros do Cobra Parada, aos quais resolveu se aliar, fingindo-se de gaúcho, o que, aliás, faz até hoje, vestindo com suposto orgulho uma camisa azul e preta e falando muito, e falando muito alto e falando muito grosso.
E lá estava o Pepperoni, na estréia do Cobra Parada e em tudo mais que fez o grupo. Lá estava o Pepperoni, emprestando ao grupo sua potência vocal, sua inteligência lógica virginiana, sua figura imponente de filho da aristocracia, sua cultura européia, sua musicalidade, seu senso de justiça, sua loucura verborrágica e sua falsa empáfia gaúcha. Lá estava o Pepperoni, primeiro pelo objetivo revolucionário, depois pelo afeto ao grupo e ao autor destas singelas memórias, que, diga-se, lhe tem o mesmo afeto, por sinal ainda crescente.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
A Incrível História do CPNES - Parte 14
O MEIO – Mega-sucessos do começo dos anos 80
Toda manifestação artística é influenciada pelo meio cultural, social e político em que está inserida. O que se ouvia no início dos anos 80, época na qual se amalgamou o Cobra Parada Não Engole Sapo, o grupo que, não me lembro se cheguei a comentar, mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia? Quais eram os mega-sucessos musicais?
Sempre tive um pé atrás com grandes sucessos populares. A roda viva da produção musical determina qual música de qual artista será sucesso, segundo um rol de critérios do qual a qualidade não necessariamente faz parte. Portanto, me seduz a teoria de que, se todo mundo ouve alguma coisa, necessariamente essa coisa é uma merda. Mas nem sempre foi assim.
Com vocês, os 3 ultra-mega-sucessos do inicio dos anos 80, quando os membros do Cobra Parada se conheciam:
1. “Tá tudo muito bom... Bom. Tá tudo muito bem... Bem. Mas realmente, realmente, eu preferia que você estivesse... NUA”. Pode não parecer, mas há qualidade nessa letra. Primeiro pelo momento de anseio à liberdade não apenas sexual, como pode sugerir esse trecho da letra, mas, sobretudo, de expressão. Numa época de forte censura, essa música (letra, melodia e forma coloquial de cantar) ousou traduzir a expressão e o desejo de uma juventude que se transformava e exigia a transformação política e social do país. A linguagem pop de Evandro Mesquita e da Blitz em “Você Não Soube Me Amar” marcou uma geração e redefiniu o gosto popular. Segue mais um trechinho, para que vocês não pensem que era só aquilo:
Toda manifestação artística é influenciada pelo meio cultural, social e político em que está inserida. O que se ouvia no início dos anos 80, época na qual se amalgamou o Cobra Parada Não Engole Sapo, o grupo que, não me lembro se cheguei a comentar, mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia? Quais eram os mega-sucessos musicais?
Sempre tive um pé atrás com grandes sucessos populares. A roda viva da produção musical determina qual música de qual artista será sucesso, segundo um rol de critérios do qual a qualidade não necessariamente faz parte. Portanto, me seduz a teoria de que, se todo mundo ouve alguma coisa, necessariamente essa coisa é uma merda. Mas nem sempre foi assim.
Com vocês, os 3 ultra-mega-sucessos do inicio dos anos 80, quando os membros do Cobra Parada se conheciam:
1. “Tá tudo muito bom... Bom. Tá tudo muito bem... Bem. Mas realmente, realmente, eu preferia que você estivesse... NUA”. Pode não parecer, mas há qualidade nessa letra. Primeiro pelo momento de anseio à liberdade não apenas sexual, como pode sugerir esse trecho da letra, mas, sobretudo, de expressão. Numa época de forte censura, essa música (letra, melodia e forma coloquial de cantar) ousou traduzir a expressão e o desejo de uma juventude que se transformava e exigia a transformação política e social do país. A linguagem pop de Evandro Mesquita e da Blitz em “Você Não Soube Me Amar” marcou uma geração e redefiniu o gosto popular. Segue mais um trechinho, para que vocês não pensem que era só aquilo:
Foi besteira usar essa tática
Dessa maneira assim dramática
(Eu tava nervoso)
O nosso amor era uma orquestra sinfônica
(Eu sei)
E o nosso beijo, uma bomba atômica...
2. “Me toma no crescer de um beijo muito louco, me implodindo aos poucos no universo a desvendar a vastidão do teu amor”. Assim cantava uma explosiva Zizi Possi, que já fizera certo sucesso havia alguns anos, desde 1979, com “Pedaço de Mim”, que cantou em dueto num disco do Chico Buarque. Mas explodiu mesmo 3 anos depois, com essa impactante “Asa Morena” de um compositor gaúcho chamado Zé Caradípia (que nunca emplacou mais nada). Talvez nenhuma outra cantora ou cantor fizesse dessa música o sucesso que foi (e que ainda é). Zizi Possi, com seu registro de voz único, a transformou num sucesso eterno.
3. “Hum... Mas se um dia eu chegar muito estranho, deixa essa água no corpo lembrar nosso banho. Mas se um dia eu chegar muito louco, deixa essa noite saber que um dia foi pouco”. O nome dessa música é “Muito estranho”, de um cara chamado Dalto. Porque fez tanto sucesso? Não faço idéia. Talvez porque Dalto fosse um cara realmente muito estranho. Um anti-cantor, um anti-estrela, anti-celebridade. Um tímido, feio, corpulento e desengonçado, que cantava com estranha leveza essa música romântica, na letra e na melodia. O refrão ele cantava em falsete. A introdução era poderosa (Pararan... pararan... pararãraaaaan...) e, de fato, era muito boa de ouvir.
E os respectivos refrões?
“Você não soube me amar, você não soube me amar, você não soube me amar, você não soube me amar”.
"Me faz pequena, asa morena, me alivia a dor, aliviando a dor que mata, me faz ser teu amor”.
“Cuida bem de mim então misture tudo dentro de nós...”
Os sucessos de Dalto, Zizi Possi e Blitz eram tocados a toda hora, em todo lugar, dentro dos ônibus, nas lojas, nas salas de espera dos consultórios. Cozinheiros, engenheiros, políticos e estivadores os cantavam. E quem há de negar que eram muito bons, cada um a seu modo? Eu não enfrentaria filas para ver um show do Dalto, mas “Muito Estranho” tinha lá suas qualidades. Não há comparação com as mega-bombas de hoje.
Já para ver a Zizi nós enfrentamos fila. Havia no Brasil, naquele momento, o Projeto Pixinguinha, que levava para os mais diferentes pontos do país, a preços simbólicos (algo como 10 reais hoje), shows dos maiores músicos do momento. Para Brasília vieram muitos, inclusive a Zizi Possi em seu momento de maior sucesso da carreira, com o seu mega-hit Asa Morena. Causou-me um impacto brutal vê-la, naquele momento, naquela fase da minha vida, cantar “me toma sem pensar num gesto muito forte, unindo o sul e o norte do meu corpo, frágil corpo, com a mais pura emoção”... Talvez ali eu, sempre frágil e inseguro, tenha percebido que a emoção engrandece e agiganta.
Nem me lembro mais que inesquecíveis (!) maravilhas eu vi no projeto Pixinguinha. Uma que me lembro, porque não daria para esquecer: Belchior fazendo ecoar “teu infinito sou eeeeeeeu...”, para depois finalizar com uma das maiores verdades já ditas sobre a juventude que vivíamos, nós os loucos:
Como é perversa a juventude do meu coração, que só entende o que é cruel e o que é paixão.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
A Incrível História do CPNES - Parte 13
A VERDADE NUA E CRUA
A parte 12 acabou com o discurso do coronel, que falou algumas abobrinhas do tipo “eu entendo a juventude transviada”, “liberdade com responsabilidade” e que tais, antes, é claro, de concluir com aquela pérola que encerrou o pôsti anterior, “não tenho filha, mas se tivesse, ela não seria dessas...”
Falando em "liberdade com responsabilidade", trata-se de uma expressãozinha besta inventada pelos militares, mas que até hoje muitos estúpidos, sem coragem para dizer simplesmente “liberdade” (devido ao medo de que vire "anarquia"), complementam com o fétido e brochante “com responsabilidade”. Falar “liberdade com responsabilidade” é destrutivo, além de ridículo, pois quando você trata com adultos no mundo corporativo, já se supõe, de antemão, a existência da responsabilidade. Pedir responsabilidade desacredita quem a ouve, que pensa “Quem é esse babaca para me pedir responsabilidade?”. Aí o feitiço se volta contra o feiticeiro. Portanto, caso você, caro gestor, líder ou chefete, quando quer uma equipe criativa e empolgada e para isso quer dar liberdade, cuidado, não use o tal “com responsabilidade”. Fale “liberdade” e ponto final. O resto vem de fábrica, está no sangue, creia.
Mas, lá nos idos de 1983, o coronel estava na dele. “Liberdade com responsabilidade” na boca dele era legal. Na verdade, o coronel era (não sei se ainda é, espero que esteja vivo e com saúde) um grande bonachão, um paternalista, que queria educar aqueles alunos (pelo menos os que ele quisesse que continuassem ali). Mas isso somente fomos perceber muito tempo depois. Talvez tenha se transformado em bonachão e paizão com nossa ajuda, com a nossa vitória final, quando claramente ganhamos a guerra, não sem algumas baixas, que sentimos até hoje.
Depois daquela apresentação, o CPNES ganhou força. E nós ganhamos cuidados redobrados, investigações pessoais, olheiros por todos os lados. Mas o pior, o terror de verdade, ainda estaria por vir. Os próximos pôstis falarão sobre os momentos mais tensos e as batalhas mais terríveis.
Por enquanto, pulemos um pouco no tempo, para cerca de um ano e meio após aquela apresentação, depois das crises e batalhas pelas quais ainda passaríamos: eis que já no final do curso ele me chama em seu gabinete. Não havia motivo aparente. Era um momento em que não estávamos aprontando nada (pelo menos de domínio público, que ele pudesse saber).
Não entendi porque me chamara. Coisa boa não devia ser. Será que deixou que eu fizesse o curso quase todo, só de castigo, para no final, me expulsar como exemplo? Ele seria tão sórdido?
Acho que se eu tenho uma qualidade, é a coragem. Sempre fui topetudo e enfrentei o desafio. Mas tenho um segredo, que confesso agora: sempre, até hoje, enfrentei esses desafios tremendo, com as pernas bambas, a respiração ofegante, com todas as reações de um grande covardão, que foi o que, na verdade, nua e crua, sempre fui (e continuo sendo). Mas um covardão que, por algum motivo, na hora do pau não arria. De alguma forma eu acabo encarando.
Pois bem, foi assim, tremendo, pálido, borrando as botas, que encarei o longo trajeto que me separava daquele gabinete, que era num outro bloco. Desci o elevador do meu bloco, cujo uso era proibido aos alunos (nunca gostei muito de proibições). Andei calmamente até a entrada do outro bloco (calmamente o cacete: estava nervosíssimo e até com enjôo, mas andei devagar para tentar ganhar fôlego, um andar que, para um estranho que observasse a olho nu, pareceria que eu estava calmo, como um Clint Eastwood ou um Charles Bronson, em Era Uma Vez no Oeste, indo para o duelo).
Entrei no elevador do outro bloco, apertei o número 3 (sorte, demoraria mais – o prédio tinha 3 andares). Na entrada da sala dele, a secretária me falou para me sentar e esperar. Entrou na sala do coronel. Esperei. Ela voltou e pediu que eu esperasse mais. Pensei no que de pior pudesse acontecer comigo: a expulsão, o desligamento. Voltaria para casa de minha mãe, com uma mão na frente e outra atrás, tendo perdido dois anos e meio na vida, sem diploma, sem nada, com quase vinte e dois anos. O que eu diria? Que não me comportei bem? Ou que resisti e lutei contra a ditadura, contra a opressão, que lutei por cada brasileiro, por uma sociedade mais justa, que lutei pela minha mãe também? Tudo bem, havia perdido a luta pessoal, mas havia lançado a semente, havia escavado um pouco e ajudado a desestabilizar os alicerces da ditadura, havia conhecido gente importante, os meninos do Paralamas, do Titãs, a Regina Casé. “Quem é essa gente?” Realmente, eles ainda não eram conhecidos. Mas conheci compositores, filósofos, políticos de esquerda. Cresci muito com isso. “E emprego, que é bom?” Bom, isso a gente vê depois, posso fazer artesanato, posso ir para o Rio de Janeiro... “O que tem lá no Rio de Janeiro?” Ah, tem um monte de gente, artistas, músicos. “Um monte de cariocas, isso é que tem lá!”
Simulei mentalmente aquele papo com minha mãe, minha irmã e meu cunhado, que quebravam alguns galhos financeiros. Não era muito animador. “Pode entrar, Moacir”, anunciou a secretária, inexpressiva, o que não me permitiu decifrar nada. Ao menos a secretária sabia meu nome. Também, tantas vezes eu havia ido lá... Ou seria porque ela estava com o documento da minha expulsão em sua gaveta, com o meu nome em letras garrafais?
Entrei na sala. Lá estava aquela mesma mesa gigante, lindamente opressora, com seus entalhes em relevo. Atrás dela e de alguma fumaça, o coronel e sua indefectível cigarrilha, seus tragos profundos e baforadas lentas e gostosas. Após aquela baforada percebi que o papo (ou a sentença?) ia começar.
“Eu também já fui jovem. Eu entendo a juventude”. Acredite, caro leitor, ele repetiu isso pela enésima vez. Mas daquela vez foi diferente. Se tem uma coisa que já havia aprendido naquela época, era ler expressões, como um Dr. Lightman anos 80. E li que tudo estava bem. A baforada não fora provocativa, mas amistosa. Não havia dúvidas, relaxei na hora. Ele falava comigo como a um filho muito querido, que havia sido rebelde, sim, mas que ele "endireitara" com sua educação austera.
“Eu gosto muito de você, Moacir. Você tem aquela força, aquele inconformismo da juventude. Eu sei o que é isso, eu já fui assim, e isso foi muito importante para mim”. E contou, durante mais de uma hora, suas diabruras na caserna, suas conquistas, falou sobre sua família, suas crenças, seus sonhos.
“Eu sonho em comprar aquele bloco ao lado, e fazer de dormitório para os alunos. Você pensa que eu queria deixar vocês lá naquela vila, longe e empoeirada, que você tanto criticou na primeira peça? Aquilo é horrível, mas eu não podia dizer isso, é claro. Por mim, vocês ficavam aqui do lado, bem instalados. Eu passaria todas as manhãs, enquanto vocês estivessem na aula, em todos os quartos, veria a arrumação, se as camas estavam esticadas, os pratos limpos”.
Não me segurei e ri. Ri não de ironia ou escárnio, nem de provocação. Ri como a gente ri de um pai exagerado em seu amor por nós. Ri de compreensão. Ri com discordância, é claro, mas com compreensão e carinho. “Você ri, né?” É, respondi, não tem como não rir, coronel, porque é desnecessário, é uma invasão de privacidade, mas eu estou entendendo que a intenção é boa. Pode continuar.
Ele sorriu. Estava estava muito carinhoso e deu mais uma baforada. Aí pronunciou mais uma coisa que ficaria guardada em mina memória, como a pérola da filha que ele não tinha. Ele disse “escreva o que estou dizendo: um dia você vai me dar razão”.
Senti como uma revelação aquele seu carinho que transbordava, aquela sua vontade de nos transformar em gente de bem, em homens de caráter, segundo o modelo arcaico que ele aprendera durante toda sua vida, e no qual acreditava e educara seus próprios filhos e netos. Aquilo era amor. Esquisito, anacrônico, mas, sem dúvida, era amor.
Que me desculpe o carrancudo e incrédulo Humberto Laraia, meu amado personagem; desculpem-me os que persegui com meu ódio aos normais, aos medrosos e aos caretas; desculpem-me os amigos que me seguiram nessa cruzada. Mas o fato, a verdade, doa a quem doer, a verdade, não sei se quanto à cama arrumada, mas talvez até a isso, a verdade mesmo, nua e crua, é que o coronel, realmente, tinha toda razão.
Os meios não importam; continuo os achando estúpidos, mas realmente não importam. Constatei naquela tarde inesquecível, naquela longa conversa com um pai que nunca tive, que o amor é a única coisa que realmente constrói e transforma.
Onde estiver, coronel Telmo, sinta-se abraçado e beijado pelo Cobra Parada e pelo filho mais problemático e revoltado que você já teve.
A parte 12 acabou com o discurso do coronel, que falou algumas abobrinhas do tipo “eu entendo a juventude transviada”, “liberdade com responsabilidade” e que tais, antes, é claro, de concluir com aquela pérola que encerrou o pôsti anterior, “não tenho filha, mas se tivesse, ela não seria dessas...”
Falando em "liberdade com responsabilidade", trata-se de uma expressãozinha besta inventada pelos militares, mas que até hoje muitos estúpidos, sem coragem para dizer simplesmente “liberdade” (devido ao medo de que vire "anarquia"), complementam com o fétido e brochante “com responsabilidade”. Falar “liberdade com responsabilidade” é destrutivo, além de ridículo, pois quando você trata com adultos no mundo corporativo, já se supõe, de antemão, a existência da responsabilidade. Pedir responsabilidade desacredita quem a ouve, que pensa “Quem é esse babaca para me pedir responsabilidade?”. Aí o feitiço se volta contra o feiticeiro. Portanto, caso você, caro gestor, líder ou chefete, quando quer uma equipe criativa e empolgada e para isso quer dar liberdade, cuidado, não use o tal “com responsabilidade”. Fale “liberdade” e ponto final. O resto vem de fábrica, está no sangue, creia.
Mas, lá nos idos de 1983, o coronel estava na dele. “Liberdade com responsabilidade” na boca dele era legal. Na verdade, o coronel era (não sei se ainda é, espero que esteja vivo e com saúde) um grande bonachão, um paternalista, que queria educar aqueles alunos (pelo menos os que ele quisesse que continuassem ali). Mas isso somente fomos perceber muito tempo depois. Talvez tenha se transformado em bonachão e paizão com nossa ajuda, com a nossa vitória final, quando claramente ganhamos a guerra, não sem algumas baixas, que sentimos até hoje.
Depois daquela apresentação, o CPNES ganhou força. E nós ganhamos cuidados redobrados, investigações pessoais, olheiros por todos os lados. Mas o pior, o terror de verdade, ainda estaria por vir. Os próximos pôstis falarão sobre os momentos mais tensos e as batalhas mais terríveis.
Por enquanto, pulemos um pouco no tempo, para cerca de um ano e meio após aquela apresentação, depois das crises e batalhas pelas quais ainda passaríamos: eis que já no final do curso ele me chama em seu gabinete. Não havia motivo aparente. Era um momento em que não estávamos aprontando nada (pelo menos de domínio público, que ele pudesse saber).
Não entendi porque me chamara. Coisa boa não devia ser. Será que deixou que eu fizesse o curso quase todo, só de castigo, para no final, me expulsar como exemplo? Ele seria tão sórdido?
Acho que se eu tenho uma qualidade, é a coragem. Sempre fui topetudo e enfrentei o desafio. Mas tenho um segredo, que confesso agora: sempre, até hoje, enfrentei esses desafios tremendo, com as pernas bambas, a respiração ofegante, com todas as reações de um grande covardão, que foi o que, na verdade, nua e crua, sempre fui (e continuo sendo). Mas um covardão que, por algum motivo, na hora do pau não arria. De alguma forma eu acabo encarando.
Pois bem, foi assim, tremendo, pálido, borrando as botas, que encarei o longo trajeto que me separava daquele gabinete, que era num outro bloco. Desci o elevador do meu bloco, cujo uso era proibido aos alunos (nunca gostei muito de proibições). Andei calmamente até a entrada do outro bloco (calmamente o cacete: estava nervosíssimo e até com enjôo, mas andei devagar para tentar ganhar fôlego, um andar que, para um estranho que observasse a olho nu, pareceria que eu estava calmo, como um Clint Eastwood ou um Charles Bronson, em Era Uma Vez no Oeste, indo para o duelo).
Entrei no elevador do outro bloco, apertei o número 3 (sorte, demoraria mais – o prédio tinha 3 andares). Na entrada da sala dele, a secretária me falou para me sentar e esperar. Entrou na sala do coronel. Esperei. Ela voltou e pediu que eu esperasse mais. Pensei no que de pior pudesse acontecer comigo: a expulsão, o desligamento. Voltaria para casa de minha mãe, com uma mão na frente e outra atrás, tendo perdido dois anos e meio na vida, sem diploma, sem nada, com quase vinte e dois anos. O que eu diria? Que não me comportei bem? Ou que resisti e lutei contra a ditadura, contra a opressão, que lutei por cada brasileiro, por uma sociedade mais justa, que lutei pela minha mãe também? Tudo bem, havia perdido a luta pessoal, mas havia lançado a semente, havia escavado um pouco e ajudado a desestabilizar os alicerces da ditadura, havia conhecido gente importante, os meninos do Paralamas, do Titãs, a Regina Casé. “Quem é essa gente?” Realmente, eles ainda não eram conhecidos. Mas conheci compositores, filósofos, políticos de esquerda. Cresci muito com isso. “E emprego, que é bom?” Bom, isso a gente vê depois, posso fazer artesanato, posso ir para o Rio de Janeiro... “O que tem lá no Rio de Janeiro?” Ah, tem um monte de gente, artistas, músicos. “Um monte de cariocas, isso é que tem lá!”
Simulei mentalmente aquele papo com minha mãe, minha irmã e meu cunhado, que quebravam alguns galhos financeiros. Não era muito animador. “Pode entrar, Moacir”, anunciou a secretária, inexpressiva, o que não me permitiu decifrar nada. Ao menos a secretária sabia meu nome. Também, tantas vezes eu havia ido lá... Ou seria porque ela estava com o documento da minha expulsão em sua gaveta, com o meu nome em letras garrafais?
Entrei na sala. Lá estava aquela mesma mesa gigante, lindamente opressora, com seus entalhes em relevo. Atrás dela e de alguma fumaça, o coronel e sua indefectível cigarrilha, seus tragos profundos e baforadas lentas e gostosas. Após aquela baforada percebi que o papo (ou a sentença?) ia começar.
“Eu também já fui jovem. Eu entendo a juventude”. Acredite, caro leitor, ele repetiu isso pela enésima vez. Mas daquela vez foi diferente. Se tem uma coisa que já havia aprendido naquela época, era ler expressões, como um Dr. Lightman anos 80. E li que tudo estava bem. A baforada não fora provocativa, mas amistosa. Não havia dúvidas, relaxei na hora. Ele falava comigo como a um filho muito querido, que havia sido rebelde, sim, mas que ele "endireitara" com sua educação austera.
“Eu gosto muito de você, Moacir. Você tem aquela força, aquele inconformismo da juventude. Eu sei o que é isso, eu já fui assim, e isso foi muito importante para mim”. E contou, durante mais de uma hora, suas diabruras na caserna, suas conquistas, falou sobre sua família, suas crenças, seus sonhos.
“Eu sonho em comprar aquele bloco ao lado, e fazer de dormitório para os alunos. Você pensa que eu queria deixar vocês lá naquela vila, longe e empoeirada, que você tanto criticou na primeira peça? Aquilo é horrível, mas eu não podia dizer isso, é claro. Por mim, vocês ficavam aqui do lado, bem instalados. Eu passaria todas as manhãs, enquanto vocês estivessem na aula, em todos os quartos, veria a arrumação, se as camas estavam esticadas, os pratos limpos”.
Não me segurei e ri. Ri não de ironia ou escárnio, nem de provocação. Ri como a gente ri de um pai exagerado em seu amor por nós. Ri de compreensão. Ri com discordância, é claro, mas com compreensão e carinho. “Você ri, né?” É, respondi, não tem como não rir, coronel, porque é desnecessário, é uma invasão de privacidade, mas eu estou entendendo que a intenção é boa. Pode continuar.
Ele sorriu. Estava estava muito carinhoso e deu mais uma baforada. Aí pronunciou mais uma coisa que ficaria guardada em mina memória, como a pérola da filha que ele não tinha. Ele disse “escreva o que estou dizendo: um dia você vai me dar razão”.
Senti como uma revelação aquele seu carinho que transbordava, aquela sua vontade de nos transformar em gente de bem, em homens de caráter, segundo o modelo arcaico que ele aprendera durante toda sua vida, e no qual acreditava e educara seus próprios filhos e netos. Aquilo era amor. Esquisito, anacrônico, mas, sem dúvida, era amor.
Que me desculpe o carrancudo e incrédulo Humberto Laraia, meu amado personagem; desculpem-me os que persegui com meu ódio aos normais, aos medrosos e aos caretas; desculpem-me os amigos que me seguiram nessa cruzada. Mas o fato, a verdade, doa a quem doer, a verdade, não sei se quanto à cama arrumada, mas talvez até a isso, a verdade mesmo, nua e crua, é que o coronel, realmente, tinha toda razão.
Os meios não importam; continuo os achando estúpidos, mas realmente não importam. Constatei naquela tarde inesquecível, naquela longa conversa com um pai que nunca tive, que o amor é a única coisa que realmente constrói e transforma.
Onde estiver, coronel Telmo, sinta-se abraçado e beijado pelo Cobra Parada e pelo filho mais problemático e revoltado que você já teve.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
A Incrível História do CPNES - Parte 12
A VIDA É FILOPÉTICA
Alguns dos professores eram ruins, uns deles muito ruins, de um nível assustadoramente... assustador. A única explicação para nós, ingênuos, era o descaso da direção. Não cogitávamos que houvesse, por exemplo, uma indicação política ou militar. O fato é que era imperdoável. Um deles, não recordo o nome (ou prefiro não citar para não constrangê-lo em seu atual emprego, se é que alguém teve a coragem de contratá-lo), não dizia coisa com coisa, e quando tentava dizer, faltavam-lhe as palavras. Provavelmente, julgando-se esperto, improvisava e inventava uma palavra para ocupar o espaço na frase. Outra possibilidade é que ele imaginasse uma palavra e, confundindo, dissesse outra, de estrutura morfológica ou fonética semelhante. Já ouviram quando alguém, distraído, justifica dizendo “é que eu tava intertido”? Sempre que aparecia uma pérola daquelas, procurávamos no dicionário. Em vão. Era um inventor.
Algumas das pérolas que coletamos: planejório, espertício, empresalmente e por aí ia. Às vezes ele apenas queria falar difícil, mas errava, como quando quis dizer que algo que um aluno falara era uma tolice. No lugar de dizer estultícia (achamos esta, correta, no dicionário, notando ser perfeitamente cabível na situação), o tal professor disse: “ora, mas isso é uma espultícia”. Dispensável dizer que a sala caia na gargalhada.
Mas a palavra que mais gostávamos era uma que até perecia existir, tinha uma bela estrutura, era boa de se pronunciar. Todos nos apaixonamos por ela. Pensamos até em usá-la como nome da turma, na formatura. Assim que a disse pela primeira vez, nos entreolhamos, como a perguntar se era mais uma das dele. E era! “Filopética”.
Voltemos ao pôsti anterior, que acabou quando saímos no final da tarde com a decisão pela realização da peça, com pequenas censuras. Estávamos no ônibus, indo embora para a distante, empoeirada e desértica vila em que morávamos. Muitos iam em pé. Estávamos maravilhados. Todo aquele suspense, aquela reação do “sistema” e aquelas ameaças tiveram, ao contrário do intuito que certamente tinham, de nos amedrontar e disciplinar, outra reação completamente diferente. Se nossas intenções sempre foram provocar , havíamos acertado em cheio. Se não dessem a menor pelota para aquela peça, talvez nada acontecesse. Mas aquela reação nos deu muita moral, nos deu importância, nos sentimos chicos e caetanos, nos sentimos teatro de arena, arena canta zumbi, nos elevaram à categoria de importantes lideranças de esquerda. Era tudo o que queríamos.
Voltando ao ônibus, no trajeto Plano Piloto-Vila Desértica, discutíamos as censuras ao texto. Agora queríamos denunciar também a censura que sofrêramos. Resolvemos substituir todas as palavras riscadas pelo coronel não por outras que tivessem o mesmo sentido, mas por “filopética”, sim, a palavra que tanto adorávamos e que todos conheciam como mais uma das pérolas do professor. Isso seria fantástico, porque externaria a intromissão no texto.
Alguém perguntou: externaria mesmo? Ficaria claro que palavras haviam sido censuradas? É claro que não. Talvez algum percebesse e perguntasse depois o que fazia aquela palavra lá no meio, mas em geral, quase ninguém notaria e perderíamos uma bela oportunidade para afrontar, para marcar território, para mostrar força e ousadia, para ser topetudo! Assim, resolvemos explicar de algum modo.
E dois dias depois, a peça. Aqueles acontecimentos, a ameaça de desligamento, a pressão, as alterações no texto , fizeram com que a interpretação dos atores fosse ainda mais zombeteira. A experiência que tive, dois dias antes, de ficar sozinho com o coronel, que tragava com vagar e provocação sua cigarrilha (ele nunca havia feito aquilo em público), me deu munição. Gilsão, gordo como o coronel, fez um rei delicioso de se ver. Quando ia pressionar sua filha, a princesa, ou os súditos, tragava com vagar e provocação seu imenso charuto, segurando da mesma forma. Arletão, o escracho em pessoa, fez a princesa, a filha do rei, que se apaixonava e engravidava de um súdito, o Tiba. Sobral fez, com estranha (!) perfeição, a Ministra das Comunicações, uma evidentérrima paródia da mesma professora que, dois dias, antes nos havia salvado a pele (a minha e a da peça). Norberto parodiou um professor que pedia “dois cafézes” na cantina. Seu texto era curto, mas se alongava por uma eternidade, enxertado por “NÉs”, “TÁs” e “PÔs”. O povo delirava. Os outros professores, nas primeiras fileiras, seguravam as gargalhadas.
Não vou encher este pôsti com detalhes da história e da encenação, mesmo porque não eram, creiam, nenhuma maravilha. Você deve estar curioso é para saber como fizemos para que a palavra “filopética”, colocada três vezes no texto, desse a entender, claramente, que havíamos sido censurados. Pois é, depois de pensarmos muito, mudamos de ideia. Pensamos: se deixarmos claro que fomos censurados, o que vamos ganhar? Nada.
Nós queremos deixar claro que havíamos sido censurados ou queríamos fazer rir e, principalmente, provocar o censor?
Pois bem. Na hora da primeira “filopética”, o ator sai da velocidade normal da fala e pronuncia, pausadamente, “fi-lo-pé-ti-ca”. Isso, é claro, já fazia rir, primeiro intento cumprido. Todos os atores da cena congelaram neste momento. Entrou o Chakur: “a palavra ‘filopética’ substituiu a palavra originalmente colocada no texto, que se contundiu e não pôde vir a campo”. Segundo intento, a provocação, mais que cumprido, certamente.
Na segunda vez, a mesma coisa, só que desta vez é o Valter Jr: “devido a compromissos inadiáveis assumidos anteriormente, a palavra originalmente colocada no texto foi substituída por ‘filopética’, nossa querida curinga”.
Por fim, na terceira vez, entra o Markovitch e explica “a palavra original, desapareceu, há dois dias, a polícia trabalha com a hipótese de seqüestro, as buscas continuam.”
E seguiu-se a peça, até o fim. Aplausos gerais, o povo não acreditava no que tinham visto. Nascia o Cobra Parada Não Engole Sapo, justificando publicamente seu nome. Definitivamente, aqueles sapos de dois dias antes não haviam sido engolidos. Os aplausos não paravam mais. Não eram, evidentemente, pela qualidade do texto nem pelo maravilhoso desempenho dos atores, mas claramente pela nossa coragem de brincar com aquilo, de falar tudo o que estava entalado na garganta. Todos os 500 alunos acabavam de eleger, por aclamação, seus interlocutores: o CPNES.
Mas o espetáculo não terminaria ali. Ansioso por dar a última palavra, e também não engolir seu sapo, o coronel colocou a cereja no bolo. Pediu a palavra e subiu ao palco. Pediu que colocássemos uma mesa e uma cadeira para que ele falasse sentado (e com algo entre ele e os interlocutores - velha mania militar). Sentou-se e puxou uma cigarrilha do bolso. Puxou também seu isqueiro prateado. Olhou para a mesa e, nada vendo, pediu um cinzeiro. O pândego e mostárdico Dijon não se fez de rogado. Na falta de um cinzeiro, não teve dúvidas: pegou uma enorme lixeira de madeira, daquelas antigas de escritório, e colocou sobre a mesa. (Dez anos depois disso, fui conhecer o maravilhoso filme “Do Mundo Nada se Leva”, em que um poderoso vai à casa de “plebeus” e pede um isqueiro. Vem um gaiato com um isquerio do tamanho de um tambor e barulhentíssimo. A cena do filme é praticamente idêntica a esta, do coronel e do cinzeiro do Dijon).
O coronel, vendo aquele “cinzeiro”sobre a mesa, olha grave para o Dijon, que sai de fininho. O homem respira, afasta o cinzeiro para o canto da mesa, acende sua cigarrilha, dá uma longa baforada e, referindo-se à princesa interpretada pela Arlete, profere, grave e solene:
“Fiquem os senhores sabendo que eu não tenho filha, mas se tivesse, ela não seria dessas...”
Alguns dos professores eram ruins, uns deles muito ruins, de um nível assustadoramente... assustador. A única explicação para nós, ingênuos, era o descaso da direção. Não cogitávamos que houvesse, por exemplo, uma indicação política ou militar. O fato é que era imperdoável. Um deles, não recordo o nome (ou prefiro não citar para não constrangê-lo em seu atual emprego, se é que alguém teve a coragem de contratá-lo), não dizia coisa com coisa, e quando tentava dizer, faltavam-lhe as palavras. Provavelmente, julgando-se esperto, improvisava e inventava uma palavra para ocupar o espaço na frase. Outra possibilidade é que ele imaginasse uma palavra e, confundindo, dissesse outra, de estrutura morfológica ou fonética semelhante. Já ouviram quando alguém, distraído, justifica dizendo “é que eu tava intertido”? Sempre que aparecia uma pérola daquelas, procurávamos no dicionário. Em vão. Era um inventor.
Algumas das pérolas que coletamos: planejório, espertício, empresalmente e por aí ia. Às vezes ele apenas queria falar difícil, mas errava, como quando quis dizer que algo que um aluno falara era uma tolice. No lugar de dizer estultícia (achamos esta, correta, no dicionário, notando ser perfeitamente cabível na situação), o tal professor disse: “ora, mas isso é uma espultícia”. Dispensável dizer que a sala caia na gargalhada.
Mas a palavra que mais gostávamos era uma que até perecia existir, tinha uma bela estrutura, era boa de se pronunciar. Todos nos apaixonamos por ela. Pensamos até em usá-la como nome da turma, na formatura. Assim que a disse pela primeira vez, nos entreolhamos, como a perguntar se era mais uma das dele. E era! “Filopética”.
Voltemos ao pôsti anterior, que acabou quando saímos no final da tarde com a decisão pela realização da peça, com pequenas censuras. Estávamos no ônibus, indo embora para a distante, empoeirada e desértica vila em que morávamos. Muitos iam em pé. Estávamos maravilhados. Todo aquele suspense, aquela reação do “sistema” e aquelas ameaças tiveram, ao contrário do intuito que certamente tinham, de nos amedrontar e disciplinar, outra reação completamente diferente. Se nossas intenções sempre foram provocar , havíamos acertado em cheio. Se não dessem a menor pelota para aquela peça, talvez nada acontecesse. Mas aquela reação nos deu muita moral, nos deu importância, nos sentimos chicos e caetanos, nos sentimos teatro de arena, arena canta zumbi, nos elevaram à categoria de importantes lideranças de esquerda. Era tudo o que queríamos.
Voltando ao ônibus, no trajeto Plano Piloto-Vila Desértica, discutíamos as censuras ao texto. Agora queríamos denunciar também a censura que sofrêramos. Resolvemos substituir todas as palavras riscadas pelo coronel não por outras que tivessem o mesmo sentido, mas por “filopética”, sim, a palavra que tanto adorávamos e que todos conheciam como mais uma das pérolas do professor. Isso seria fantástico, porque externaria a intromissão no texto.
Alguém perguntou: externaria mesmo? Ficaria claro que palavras haviam sido censuradas? É claro que não. Talvez algum percebesse e perguntasse depois o que fazia aquela palavra lá no meio, mas em geral, quase ninguém notaria e perderíamos uma bela oportunidade para afrontar, para marcar território, para mostrar força e ousadia, para ser topetudo! Assim, resolvemos explicar de algum modo.
E dois dias depois, a peça. Aqueles acontecimentos, a ameaça de desligamento, a pressão, as alterações no texto , fizeram com que a interpretação dos atores fosse ainda mais zombeteira. A experiência que tive, dois dias antes, de ficar sozinho com o coronel, que tragava com vagar e provocação sua cigarrilha (ele nunca havia feito aquilo em público), me deu munição. Gilsão, gordo como o coronel, fez um rei delicioso de se ver. Quando ia pressionar sua filha, a princesa, ou os súditos, tragava com vagar e provocação seu imenso charuto, segurando da mesma forma. Arletão, o escracho em pessoa, fez a princesa, a filha do rei, que se apaixonava e engravidava de um súdito, o Tiba. Sobral fez, com estranha (!) perfeição, a Ministra das Comunicações, uma evidentérrima paródia da mesma professora que, dois dias, antes nos havia salvado a pele (a minha e a da peça). Norberto parodiou um professor que pedia “dois cafézes” na cantina. Seu texto era curto, mas se alongava por uma eternidade, enxertado por “NÉs”, “TÁs” e “PÔs”. O povo delirava. Os outros professores, nas primeiras fileiras, seguravam as gargalhadas.
Não vou encher este pôsti com detalhes da história e da encenação, mesmo porque não eram, creiam, nenhuma maravilha. Você deve estar curioso é para saber como fizemos para que a palavra “filopética”, colocada três vezes no texto, desse a entender, claramente, que havíamos sido censurados. Pois é, depois de pensarmos muito, mudamos de ideia. Pensamos: se deixarmos claro que fomos censurados, o que vamos ganhar? Nada.
Nós queremos deixar claro que havíamos sido censurados ou queríamos fazer rir e, principalmente, provocar o censor?
Pois bem. Na hora da primeira “filopética”, o ator sai da velocidade normal da fala e pronuncia, pausadamente, “fi-lo-pé-ti-ca”. Isso, é claro, já fazia rir, primeiro intento cumprido. Todos os atores da cena congelaram neste momento. Entrou o Chakur: “a palavra ‘filopética’ substituiu a palavra originalmente colocada no texto, que se contundiu e não pôde vir a campo”. Segundo intento, a provocação, mais que cumprido, certamente.
Na segunda vez, a mesma coisa, só que desta vez é o Valter Jr: “devido a compromissos inadiáveis assumidos anteriormente, a palavra originalmente colocada no texto foi substituída por ‘filopética’, nossa querida curinga”.
Por fim, na terceira vez, entra o Markovitch e explica “a palavra original, desapareceu, há dois dias, a polícia trabalha com a hipótese de seqüestro, as buscas continuam.”
E seguiu-se a peça, até o fim. Aplausos gerais, o povo não acreditava no que tinham visto. Nascia o Cobra Parada Não Engole Sapo, justificando publicamente seu nome. Definitivamente, aqueles sapos de dois dias antes não haviam sido engolidos. Os aplausos não paravam mais. Não eram, evidentemente, pela qualidade do texto nem pelo maravilhoso desempenho dos atores, mas claramente pela nossa coragem de brincar com aquilo, de falar tudo o que estava entalado na garganta. Todos os 500 alunos acabavam de eleger, por aclamação, seus interlocutores: o CPNES.
Mas o espetáculo não terminaria ali. Ansioso por dar a última palavra, e também não engolir seu sapo, o coronel colocou a cereja no bolo. Pediu a palavra e subiu ao palco. Pediu que colocássemos uma mesa e uma cadeira para que ele falasse sentado (e com algo entre ele e os interlocutores - velha mania militar). Sentou-se e puxou uma cigarrilha do bolso. Puxou também seu isqueiro prateado. Olhou para a mesa e, nada vendo, pediu um cinzeiro. O pândego e mostárdico Dijon não se fez de rogado. Na falta de um cinzeiro, não teve dúvidas: pegou uma enorme lixeira de madeira, daquelas antigas de escritório, e colocou sobre a mesa. (Dez anos depois disso, fui conhecer o maravilhoso filme “Do Mundo Nada se Leva”, em que um poderoso vai à casa de “plebeus” e pede um isqueiro. Vem um gaiato com um isquerio do tamanho de um tambor e barulhentíssimo. A cena do filme é praticamente idêntica a esta, do coronel e do cinzeiro do Dijon).
O coronel, vendo aquele “cinzeiro”sobre a mesa, olha grave para o Dijon, que sai de fininho. O homem respira, afasta o cinzeiro para o canto da mesa, acende sua cigarrilha, dá uma longa baforada e, referindo-se à princesa interpretada pela Arlete, profere, grave e solene:
“Fiquem os senhores sabendo que eu não tenho filha, mas se tivesse, ela não seria dessas...”
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
A Incrível História do CPNES - Parte 11
O DIA EM QUE A TERRA PAROU
Já falei sobre vários membros do CPNES e em breve falarei de outros tantos. Agora, entretanto, é a vez da primeira vez, da estréia, do primeiro espetáculo, por mais inadequada ao objeto que seja essa palavra.
O Cobra Parada Não Engole Sapo nasceu do desejo, da necessidade e da vontade. Você tem sede de quê?
Desejo de fazer arte. Desejo era fazer arte em grupo, o que é um barato totalmente diferente de fazer arte individualmente.
Necessidade de gritar, de fazer-se ouvir, de marcar território, de resistir. Necessidade de simplesmente preencher o tempo.
Vontade de se divertir. Vontade de aparecer.
Nossa Cidade é uma peça de Thorton Wilder, que tinha (ainda tem, é claro) o poder de expressar coisas maiores da existência humana, por meio de coisas pequenas do cotidiano. Havia visto a peça em Campinas, em 1981, numa noite em que apenas eu e mais cinco testemunhas estávamos na platéia. A peça começou com atraso porque os atores decidiam se a apresentariam ou não, devido à falta de quórum. A força do texto, a qualidade e a garra dos atores diante daquela não-platéia, me arrebataram totalmente. Saí dali perplexo e pensando que se algo nobre existe, seria fazer teatro. Especialmente uma atriz, uma diva, teve uma atuação inacreditável. Ela quem anunciara ao público que a peça iria acontecer e que eles dariam o melhor de si. E deram. Pena que não me recordo o nome da atriz. Espero que alguém, dentre as centenas de milhares de leitores deste blógui, saiba seu nome.
Pois agora (agora, vocês sabem, é outrora) finalmente eu podia descarregar toda aquela impressão. Na nossa universidade quartel eu ouvia o que todos mais criticavam, reclamavam. Resolvi colocar num texto teatral, com o auxílio luxuoso da irmã Rosa (irmã em todos os sentidos, menos no de relação consangüínea). Nascia “Nosso Reino”, a peça.
Paralelamente, arregimentávamos atores, pessoas que tivessem bom humor, vontade de transgredir e de se expor para dar vida à sanha revolucionária dos cabeças do CPNES, se é o grupo tinha cabeças e se é que algum dos cabeças prezava a cabeça que tinha, se é que algum tinha alguma cabeça.
O texto era bastante crítico, do sistema em que vivíamos ali, dos professores (porta-vozes do poder, para eles tudo estava bem, tipo “é assim mesmo”), das nossas condições financeiras, de transporte e de moradia, do descaso, da distância entre discurso e prática, entre a realidade e a ficção (que insistiam em afirmar ser realidade). Para os nossos donos (assim eles se julgavam), vivíamos em um mundo maravilhoso. Tudo a ver com contos da carochinha, com faz-de-conta. Nada mais apropriado, portanto, para dar uma porradinha do que uma peça tipo era-uma-vez. Assim era “Nosso Reino”.
Para arregimentar e animar as pessoas, Arletão, aquela de quem todos gostavam, a alegre, a divertida, a desbocada (e com tudo isso era a pessoa que mais dava porrada, mais falava a verdade). Se alguém perguntava “ih, o Campineiro é que está montando? Não é perigoso não?” Aí a Arlete falava que o Gilsão estava no grupo. Gilsão dava peso e seriedade, era um dissipador de medos.
Na primeira reunião, a leitura do texto para escolhermos quem faria o quê. Na primeira leitura, entre risos e animação, alguém perguntou, com aquela voz séria e grave, tirando o sorriso do povo e colocando aquela expressãozinha de preocupação. A pergunta era se podíamos fazer crítica assim, publicamente. Para "tranqüilizar" a todos, ponderei que “aquela gente” se pautava pelas normas e regulamentos, e que não havia nada escrito sobre isso, o que nos dava total tranqüilidade... (dei uma pausa)... "para espernearmos caso haja represália". Esse complemento, evidentemente, não ajudou muito a dissipar a preocupação. Gilsão, corintiano e fã do Vicente Matheus, completou: “quem entra na chuva é prá se queimar”, declaração que, por si só, não aliviava nada, mas vindo da boca do Gilsão teve o poder de tranquilizar e ao mesmo tempo energizar a galera. Realmente, naquele clima de censura à livre expressão, de disciplina militar e naquele contexto de “estertores do poder” em que viva o país, não tínhamos a menor idéia do que aconteceria. E olha que aconteceu...
Nas vésperas da estréia, cartazes espalhados, enfim, tudo pronto, a dois dias da apresentação o coronel, o big boss, pediu o texto. Mandei, um pouco temeroso. Era manhã. Passavam as horas e não sabia a resposta. À tarde, o Coordenador, o único civil de toda a cúpula, veio a mim trazendo na face a expressão aflita da gravidade, como a de quem carrega uma bomba. A peça não poderia ser encenada. “O homem tá puto! Como é que você escreve um texto desse?” Como pode? Que absurdo! Que estupidez, bradei, inconformado, dizendo que eu iria naquele instante falar com o homem. “Não adianta, só vai piorar as coisas. Se for só isso que acontecer, dê-se por satisfeito”. Por quê? “Nem te digo, nem te digo”. Saiu esbaforido. Fui ao Gilsão, com a mesma expressão aflita de gravidade. “Gilsão, fudeu!”.
Já era hora da aula, a maioria dos alunos na sala. Alguns do lado de fora, como sempre. E nada de professor, o que era absolutamente incomum, na verdade, inédito, naquele lugar que primava pelo horário. Da sala do fundo, a dos professores, saíram o Coordenador e dois professores, Maria Luiza e Jaime Esteban. Todos com a mesma expressão e passos de quem vai tirar o pai da forca. E a aula? perguntaram os alunos. Esperem.
Meia hora depois volta o coordenador e, sem explicação, dispensa todos, não haveria aula naquela tarde. Por quê? "Problemas..." A mim, depois que todos haviam saído, ele disse que minha situação era crítica. Como crítica, o que ele podia fazer a mim? Mandar embora, expulsar? É, respondeu, consternado.
Parecia que a terra havia parado. Ser expulso era a pior coisa que poderia acontecer a qualquer um ali. Voltar para casa de mamãe, sem dinheiro, sem emprego, sem faculdade, tendo perdido um ano... Por dentro eu tremia que nem vara verde. Nunca vi vara verde, não sei se ela treme ou não, mas posso dizer que eu tremia. Mas onde estava a minha fama de corajoso, que eu estava erigindo?
O último ensaio estava marcado para depois da aula. Arletão, que devido à falta de aula havia antecipado o ensaio, veio a mim: “vamo lá, guri! A turma está esperando”. Falei que não tinha condições de comandar o ensaio. “Larga de ser bundão. Vai deixar esse bando de milico fazer isso com você? Se fizerem alguma coisa, a gente dá um jeito, faz uma revolta, diz que vai todo mundo junto, quebra tudo...”
Fui, fizemos um ensaio delicioso, durante o qual me esqueci que a peça provavelmente não aconteceria e que estava a ponto de ser expulso. Assim que acabou o ensaio, desço ao nosso andar, com Gilsão, Arlete, Tiba e a Rosa. Eles esperaram ali fora. Entro, com o Gilsão, na sala do coordenador. “E aí?” Logo vi, na cara do Chiquinho, que a expressão era outra, bem melhor.
Ele me contou que os professores Maria Luisa e Esteban, além dele próprio, haviam tido uma longa conversa com o coronel, tentando demovê-lo da idéia de impedir a peça e de me expulsar e... conseguiram. Mas o coronel queria falar comigo. Vá agora lá que ele está te esperando.
Era a primeira vez que entrava na sala do Coordenador Geral. Poucos, ao longo daqueles 30 meses, entraram ali, se é que mais alguém além de mim entrou ali. Eu entraria ali outras vezes, em circunstâncias semelhantes, outras piores, outras melhores.
Lá estava ele, escondido atrás daquela enorme mesa de madeira, com desenhos em alto relevo talhados. Não me olhava direto nos olhos. Dava longas e provocativas baforadas na sua cigarrilha.
"Eu já fui jovem, eu entendo essa rebeldia".
Na minha cabeça veio imediatamente a maravilhosa música do Luiz Melodia, “eu entendo a juventude transviada”.
Primeiro veio um blá-blá-blá paternalista. Depois um tom ameaçador. Eu pouco ou nada falava. No final, pediu algumas modificações no texto, trocar coisas inconvenientes, como disse ele. Desci e fui direto para o ponto de ônibus, onde todos esperavam ansiosos. Desci festejando. "Esses caras vão ver, cutucaram onça com vara curta!" Durante o trajeto que nos levaria na distante vila onde morávamos, decidimos, em festa, como alteraríamos o texto onde ele pediu. Decidimos pegar ainda mais pesado. Ele pediu para “substituir algumas coisas”, mas não falou por quais coisas... Estávamos endiabrados!
No próximo pôsti, os hilários e transformadores acontecimentos do dia seguinte, o dia em que o Cobra Parada Não Engole Sapo de fato nasceu e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.
Já falei sobre vários membros do CPNES e em breve falarei de outros tantos. Agora, entretanto, é a vez da primeira vez, da estréia, do primeiro espetáculo, por mais inadequada ao objeto que seja essa palavra.
O Cobra Parada Não Engole Sapo nasceu do desejo, da necessidade e da vontade. Você tem sede de quê?
Desejo de fazer arte. Desejo era fazer arte em grupo, o que é um barato totalmente diferente de fazer arte individualmente.
Necessidade de gritar, de fazer-se ouvir, de marcar território, de resistir. Necessidade de simplesmente preencher o tempo.
Vontade de se divertir. Vontade de aparecer.
Nossa Cidade é uma peça de Thorton Wilder, que tinha (ainda tem, é claro) o poder de expressar coisas maiores da existência humana, por meio de coisas pequenas do cotidiano. Havia visto a peça em Campinas, em 1981, numa noite em que apenas eu e mais cinco testemunhas estávamos na platéia. A peça começou com atraso porque os atores decidiam se a apresentariam ou não, devido à falta de quórum. A força do texto, a qualidade e a garra dos atores diante daquela não-platéia, me arrebataram totalmente. Saí dali perplexo e pensando que se algo nobre existe, seria fazer teatro. Especialmente uma atriz, uma diva, teve uma atuação inacreditável. Ela quem anunciara ao público que a peça iria acontecer e que eles dariam o melhor de si. E deram. Pena que não me recordo o nome da atriz. Espero que alguém, dentre as centenas de milhares de leitores deste blógui, saiba seu nome.
Pois agora (agora, vocês sabem, é outrora) finalmente eu podia descarregar toda aquela impressão. Na nossa universidade quartel eu ouvia o que todos mais criticavam, reclamavam. Resolvi colocar num texto teatral, com o auxílio luxuoso da irmã Rosa (irmã em todos os sentidos, menos no de relação consangüínea). Nascia “Nosso Reino”, a peça.
Paralelamente, arregimentávamos atores, pessoas que tivessem bom humor, vontade de transgredir e de se expor para dar vida à sanha revolucionária dos cabeças do CPNES, se é o grupo tinha cabeças e se é que algum dos cabeças prezava a cabeça que tinha, se é que algum tinha alguma cabeça.
O texto era bastante crítico, do sistema em que vivíamos ali, dos professores (porta-vozes do poder, para eles tudo estava bem, tipo “é assim mesmo”), das nossas condições financeiras, de transporte e de moradia, do descaso, da distância entre discurso e prática, entre a realidade e a ficção (que insistiam em afirmar ser realidade). Para os nossos donos (assim eles se julgavam), vivíamos em um mundo maravilhoso. Tudo a ver com contos da carochinha, com faz-de-conta. Nada mais apropriado, portanto, para dar uma porradinha do que uma peça tipo era-uma-vez. Assim era “Nosso Reino”.
Para arregimentar e animar as pessoas, Arletão, aquela de quem todos gostavam, a alegre, a divertida, a desbocada (e com tudo isso era a pessoa que mais dava porrada, mais falava a verdade). Se alguém perguntava “ih, o Campineiro é que está montando? Não é perigoso não?” Aí a Arlete falava que o Gilsão estava no grupo. Gilsão dava peso e seriedade, era um dissipador de medos.
Na primeira reunião, a leitura do texto para escolhermos quem faria o quê. Na primeira leitura, entre risos e animação, alguém perguntou, com aquela voz séria e grave, tirando o sorriso do povo e colocando aquela expressãozinha de preocupação. A pergunta era se podíamos fazer crítica assim, publicamente. Para "tranqüilizar" a todos, ponderei que “aquela gente” se pautava pelas normas e regulamentos, e que não havia nada escrito sobre isso, o que nos dava total tranqüilidade... (dei uma pausa)... "para espernearmos caso haja represália". Esse complemento, evidentemente, não ajudou muito a dissipar a preocupação. Gilsão, corintiano e fã do Vicente Matheus, completou: “quem entra na chuva é prá se queimar”, declaração que, por si só, não aliviava nada, mas vindo da boca do Gilsão teve o poder de tranquilizar e ao mesmo tempo energizar a galera. Realmente, naquele clima de censura à livre expressão, de disciplina militar e naquele contexto de “estertores do poder” em que viva o país, não tínhamos a menor idéia do que aconteceria. E olha que aconteceu...
Nas vésperas da estréia, cartazes espalhados, enfim, tudo pronto, a dois dias da apresentação o coronel, o big boss, pediu o texto. Mandei, um pouco temeroso. Era manhã. Passavam as horas e não sabia a resposta. À tarde, o Coordenador, o único civil de toda a cúpula, veio a mim trazendo na face a expressão aflita da gravidade, como a de quem carrega uma bomba. A peça não poderia ser encenada. “O homem tá puto! Como é que você escreve um texto desse?” Como pode? Que absurdo! Que estupidez, bradei, inconformado, dizendo que eu iria naquele instante falar com o homem. “Não adianta, só vai piorar as coisas. Se for só isso que acontecer, dê-se por satisfeito”. Por quê? “Nem te digo, nem te digo”. Saiu esbaforido. Fui ao Gilsão, com a mesma expressão aflita de gravidade. “Gilsão, fudeu!”.
Já era hora da aula, a maioria dos alunos na sala. Alguns do lado de fora, como sempre. E nada de professor, o que era absolutamente incomum, na verdade, inédito, naquele lugar que primava pelo horário. Da sala do fundo, a dos professores, saíram o Coordenador e dois professores, Maria Luiza e Jaime Esteban. Todos com a mesma expressão e passos de quem vai tirar o pai da forca. E a aula? perguntaram os alunos. Esperem.
Meia hora depois volta o coordenador e, sem explicação, dispensa todos, não haveria aula naquela tarde. Por quê? "Problemas..." A mim, depois que todos haviam saído, ele disse que minha situação era crítica. Como crítica, o que ele podia fazer a mim? Mandar embora, expulsar? É, respondeu, consternado.
Parecia que a terra havia parado. Ser expulso era a pior coisa que poderia acontecer a qualquer um ali. Voltar para casa de mamãe, sem dinheiro, sem emprego, sem faculdade, tendo perdido um ano... Por dentro eu tremia que nem vara verde. Nunca vi vara verde, não sei se ela treme ou não, mas posso dizer que eu tremia. Mas onde estava a minha fama de corajoso, que eu estava erigindo?
O último ensaio estava marcado para depois da aula. Arletão, que devido à falta de aula havia antecipado o ensaio, veio a mim: “vamo lá, guri! A turma está esperando”. Falei que não tinha condições de comandar o ensaio. “Larga de ser bundão. Vai deixar esse bando de milico fazer isso com você? Se fizerem alguma coisa, a gente dá um jeito, faz uma revolta, diz que vai todo mundo junto, quebra tudo...”
Fui, fizemos um ensaio delicioso, durante o qual me esqueci que a peça provavelmente não aconteceria e que estava a ponto de ser expulso. Assim que acabou o ensaio, desço ao nosso andar, com Gilsão, Arlete, Tiba e a Rosa. Eles esperaram ali fora. Entro, com o Gilsão, na sala do coordenador. “E aí?” Logo vi, na cara do Chiquinho, que a expressão era outra, bem melhor.
Ele me contou que os professores Maria Luisa e Esteban, além dele próprio, haviam tido uma longa conversa com o coronel, tentando demovê-lo da idéia de impedir a peça e de me expulsar e... conseguiram. Mas o coronel queria falar comigo. Vá agora lá que ele está te esperando.
Era a primeira vez que entrava na sala do Coordenador Geral. Poucos, ao longo daqueles 30 meses, entraram ali, se é que mais alguém além de mim entrou ali. Eu entraria ali outras vezes, em circunstâncias semelhantes, outras piores, outras melhores.
Lá estava ele, escondido atrás daquela enorme mesa de madeira, com desenhos em alto relevo talhados. Não me olhava direto nos olhos. Dava longas e provocativas baforadas na sua cigarrilha.
"Eu já fui jovem, eu entendo essa rebeldia".
Na minha cabeça veio imediatamente a maravilhosa música do Luiz Melodia, “eu entendo a juventude transviada”.
Primeiro veio um blá-blá-blá paternalista. Depois um tom ameaçador. Eu pouco ou nada falava. No final, pediu algumas modificações no texto, trocar coisas inconvenientes, como disse ele. Desci e fui direto para o ponto de ônibus, onde todos esperavam ansiosos. Desci festejando. "Esses caras vão ver, cutucaram onça com vara curta!" Durante o trajeto que nos levaria na distante vila onde morávamos, decidimos, em festa, como alteraríamos o texto onde ele pediu. Decidimos pegar ainda mais pesado. Ele pediu para “substituir algumas coisas”, mas não falou por quais coisas... Estávamos endiabrados!
No próximo pôsti, os hilários e transformadores acontecimentos do dia seguinte, o dia em que o Cobra Parada Não Engole Sapo de fato nasceu e mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Tio Moa viaja - Aqualung
Lá vai o terceiro disco de cabeceira do Tio Moa, um disco incrivelmente delirante, uma obra de altura e beleza insondáveis. Tio Moa viajou, viaja e viajará. Você, sobrinho amigo, que no aconchego do seu lar, nem imagina que está à beira de se transformar completamente, vai também viajar, tenho certeza, porque Aqualung, o disco, é absolutamente delirante. Ele te levará num mergulho dentro das suas entranhas, de onde você resgatará esse seu eu tão escondininho aí dentro, puxando-o à força, trazendo-o à tona. Aqualung é um modo de vida, é um grito de liberdade, de independência. Aqualung é rompimento, é Augusto dos Anjos roqueiro.
Aqualung é o topo da produção do Jethro Tull, um grupo britânico comandado por Ian Anderson, que misturava Rock, Folk, música celta, e sei lá mais o quê, numa alquimia nunca antes vista, nem depois. Se você, sobrinho do Tio Moa, pensa que nunca viu nem ouviu o Jethro Tull, se engana. Viu, ao menos uma imagem de um cara tocando flauta com uma perna só, a outra apoiada nela (manja fazer o quatro?). Vai dizer que nunca viu isso?
E também ouviu, ao menos a faixa título você ouviu. Se não ouviu, melhor se matar. Brincadeirinha, não quero ser acusado de incentivar ninguém a abreviar a existência. Pelo contrário, pretendo, com este pôsti, prolongar ao máximo sua existência, fazê-la ter valido à pena. Com Aqualung você se garante, você crava seu nome, dá sentido à sua vida.
O Jethro Tull foi um grupo irregular, com alguns discos ótimos, outros dispensáveis. Aqualung está a anos luz de ser dispensável e transcende em muito o “ótimo”. É único, é sublime. Um disco muito trabalhado, complexo em suas melodias e arranjos. Complexo e elegante, mas fácil de ouvir, porque belíssimo.
Começa à toda, com a faixa título. E já os primeiros acordes são incríveis e arrebatadores.
Paran pam pam pam pam... Sitting on a park bench... São acordes inesquecíveis e históricos. Uma voz cheia de maneirismos e inflexões vai falando do velho Aqualung, vagabundo, mendigo (ou ligeira, como eu chamava quando pequeno). Logo depois, quando fala com mais carinho, a voz, o ritmo e todo o clima são outros. E assim vai a música, maravilhosa, te arrebatando a cada inversão, a cada mudança, a cada solo, a cada movimento, sempre surpreendendo com beleza e emoção. No final, os acordes iniciais e o canto doído: oh oh oh oh Aqualuuung. É, sem dúvida, uma das grandes composições da história da música, em todos os gêneros. Mas não pense que o disco se resume à faixa título. De jeito maneira, diria a Tia Cinira, mineira.
Todo o disco é incrível. Acaba Aqualung e já entra Cross Eyed Mary (algo como Mary Vesga), mais um personagem estranho, mais uma sonzeira, com aquele “tum tururum turum tum” da guitarra e do baixo e aquela bateria deliciosa que vão marcando a voz rascante rockn’rollsíssima. Guitarras, flautas e piano compondo um som alucinante e riquíssimo.
Aí, depois das duas primeiras delirantes músicas, vem a Chep Day Return, uma belíssima e curta balada acústica, seguida pela acústica, mas um pouco mais agitada balada folk Mother Goose. Depois a deliciosa e Nickdrakeana Wond’ring Aloud. E assim o disco segue, com sons incríveis, melodias fortes, viagens alucinantes.
Ouvir e viajar com Aqualung é soltar o grito da garganta, é se libertar, é romper com sua limitada existência e marcar seu lugar entre os mortais, é dizer que ama a vida, a verdadeira vida, aquela de altos e baixos, de cumes e depressões, aquela com luz e escuridão, com sol e nuvens negras. Pense nisso enquanto estiver ouvindo Aqualung, Quando estiver na sétima música, My God, lá pelo terceiro minuto, quando entrar aquela guitarra num riff marcante, ultrapassando a limitação do belo, e depois, quando ela trouxer cantos gregorianos embalados por uma flauta mágica, perceba o quanto você é uma pessoa nova, mais rica, mais iluminada, mais criativa.
Depois, nas seguintes, dance e comemore. Oh, Pai que estás no céu, sorria sobre seu filho.
Aqualung é o topo da produção do Jethro Tull, um grupo britânico comandado por Ian Anderson, que misturava Rock, Folk, música celta, e sei lá mais o quê, numa alquimia nunca antes vista, nem depois. Se você, sobrinho do Tio Moa, pensa que nunca viu nem ouviu o Jethro Tull, se engana. Viu, ao menos uma imagem de um cara tocando flauta com uma perna só, a outra apoiada nela (manja fazer o quatro?). Vai dizer que nunca viu isso?
E também ouviu, ao menos a faixa título você ouviu. Se não ouviu, melhor se matar. Brincadeirinha, não quero ser acusado de incentivar ninguém a abreviar a existência. Pelo contrário, pretendo, com este pôsti, prolongar ao máximo sua existência, fazê-la ter valido à pena. Com Aqualung você se garante, você crava seu nome, dá sentido à sua vida.
O Jethro Tull foi um grupo irregular, com alguns discos ótimos, outros dispensáveis. Aqualung está a anos luz de ser dispensável e transcende em muito o “ótimo”. É único, é sublime. Um disco muito trabalhado, complexo em suas melodias e arranjos. Complexo e elegante, mas fácil de ouvir, porque belíssimo.
Começa à toda, com a faixa título. E já os primeiros acordes são incríveis e arrebatadores.
Paran pam pam pam pam... Sitting on a park bench... São acordes inesquecíveis e históricos. Uma voz cheia de maneirismos e inflexões vai falando do velho Aqualung, vagabundo, mendigo (ou ligeira, como eu chamava quando pequeno). Logo depois, quando fala com mais carinho, a voz, o ritmo e todo o clima são outros. E assim vai a música, maravilhosa, te arrebatando a cada inversão, a cada mudança, a cada solo, a cada movimento, sempre surpreendendo com beleza e emoção. No final, os acordes iniciais e o canto doído: oh oh oh oh Aqualuuung. É, sem dúvida, uma das grandes composições da história da música, em todos os gêneros. Mas não pense que o disco se resume à faixa título. De jeito maneira, diria a Tia Cinira, mineira.
Todo o disco é incrível. Acaba Aqualung e já entra Cross Eyed Mary (algo como Mary Vesga), mais um personagem estranho, mais uma sonzeira, com aquele “tum tururum turum tum” da guitarra e do baixo e aquela bateria deliciosa que vão marcando a voz rascante rockn’rollsíssima. Guitarras, flautas e piano compondo um som alucinante e riquíssimo.
Aí, depois das duas primeiras delirantes músicas, vem a Chep Day Return, uma belíssima e curta balada acústica, seguida pela acústica, mas um pouco mais agitada balada folk Mother Goose. Depois a deliciosa e Nickdrakeana Wond’ring Aloud. E assim o disco segue, com sons incríveis, melodias fortes, viagens alucinantes.
Ouvir e viajar com Aqualung é soltar o grito da garganta, é se libertar, é romper com sua limitada existência e marcar seu lugar entre os mortais, é dizer que ama a vida, a verdadeira vida, aquela de altos e baixos, de cumes e depressões, aquela com luz e escuridão, com sol e nuvens negras. Pense nisso enquanto estiver ouvindo Aqualung, Quando estiver na sétima música, My God, lá pelo terceiro minuto, quando entrar aquela guitarra num riff marcante, ultrapassando a limitação do belo, e depois, quando ela trouxer cantos gregorianos embalados por uma flauta mágica, perceba o quanto você é uma pessoa nova, mais rica, mais iluminada, mais criativa.
Depois, nas seguintes, dance e comemore. Oh, Pai que estás no céu, sorria sobre seu filho.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
ENTÃO É NATAL
Prá quem não me conhece sou Humberto Laraia, filho de escuridão e da rutilância, muito mais da escuridão que da rutilância, confesso. Escrevo aqui de vez em quando, quando tenho vontade, o que é raro. Fiquei sem escrever por mais de 20 anos, trancado dentro de um espelho. Se quiser saber mais, leia desde a parte um. Mas você não vai gostar, então não perca o seu tempo, embora seu tempo valha tanto quanto o que eu escrevo: rigorosamente nada.
Porque escrevo, então? Pela mesma razão que você vive; prá encher o saco dos outros. Estorvo que somos, vamos à crônica do dia, ou da noite, já que são 21h49 de uma noite insuportavelmente quente. Enquanto penso no que escrever, o suor me escorre pelas costas, provocando uma moderada irritação com os desígnios da humanidade, condenada a sofrer.
Confesso que na verdade sei o que vou escrever: sobre o natal, a época de comunhão, de harmonia e de uma chateação sem fim. Hoje vi, na livraria, uma mulher com uma irritante expressão de pessoa boa, como se alguma pessoa no mundo pudesse pleitear a si mesmo a insígnia de pessoa boa. Ela disse feliz natal, viu querida à caixa que a atendia. Tal expressão de hipocrisia me levou ao riso. Ri prá não chorar, como já o fizera Candeia e, depois, Cartola, sabedores que eram de que a vida é dor. Na verdade, ri porque rir era a única expressão possível, já que eu jamais choraria por ninguém, nem pela humanidade, que de mim não merece outra coisa senão o desdém e o escárnio.
Outra reação possível e bastante mais ajustada ao horrendo e gelatinoso sorriso magnânimo da mulher seria uma feição de poucos amigos ou uma expressão de desdém, mas tais expressões não demonstrariam nenhuma mudança em minha habitual expressão, já que carrego o desdém e a solidão, dentro e fora de mim.
Por isso, ri. Ri de escárnio, talvez de ódio. Mas, incapaz de ler e interpretar corretamente a fisionomia alheia, ao meu riso de escárnio a atenta, embora burra, senhora respondeu com um sorriso maior ainda, de maior benevolência e com um indefectível “feliz natal para o senhor”. Senhor é o cacete, respondi de pronto, em voz alta e olhando bem fixo em seus olhos. Pena que foi apenas na minha imaginação. A voz não saiu. Os mais de 20 anos dentro do espelho me tiraram a voz. Tenho que me concentrar muito para proferir alguma palavra inteligível (“entendível”, se fica mais simples para você).
Voltando à Sra. Hipocrisia, pergunto-me como é que uma pessoa que nunca me viu, que não imagina a vida que eu levo, que não sabe se roubei, estuprei, matei ou o diabo, que nunca mais vai olhar na minha cara, felizmente para os dois, como é que essa pessoa pode me desejar feliz natal? O que significa isso para ela? Que eu compre bastantes coisas e presenteie todo mundo que encontrar? Que na noite do dia 24 eu coma mais do que eu posso e que carregue no colo um parentezinho ranhento e cagão que nunca vi na vida? Que eu tome um porre homérico, vomite tudo e arrote o resto da noite, tudo isso junto com meus familiares queridos?
Ou será que a megera, quando deseja feliz natal a este sujeito que ela nunca viu na vida, quer dizer simplesmente que eu eleve meu coração ao alto e que pense em cristo crucificado que deu a vida por nós? Quem é ela para pensar que eu acredito nisso?
Quando estava dentro do e espelho, sentia uma enorme vontade de sair e esmurrar todo e qualquer mortal que tivesse um sorriso na boca e emitisse dela coisas como feliz natal ou fraternidade. Mas pensando bem, antes de entrar no espelho eu também sentia a mesma vontade. Agora, depois de sair, idem.
O que leva as pessoas a dizerem que querem bem às outras quando todos nós queremos mais é que os outros, principalmente os desconhecidos, se explodam? Os outros são um estorvo para nós. Precisamos que os outros se ferrem, que levem uma vida toda fodida (a merda do Word sublinhou em vermelho esta palavra, vê se pode!) para podermos, comparados a eles, ser um sucesso. Por isso é que no natal agradecemos a deus, que certamente nos ajudou, ferrando todos os outros para que fiquemos em destaque, portanto, felizes. A sorte é que tristeza não tem fim, felicidade sim.
Ainda de dentro do espelho, vi um filme ótimo, em que um alcoólatra que detesta natal e crianças, se veste de papai noel para roubar o shopping. Muito apropriado. “Papai Noel às Avessas” é o nome do filme.
Estamos em pleno dia 22 de dezembro. O que será que o bom velhinho pôs no meu saco de presente neste natal? A única coisa que posso sentir no meu saco neste momento é uma imensa coceira e um monte de esperma desesperado por um bom motivo para sair dali.
Bom, quem está fora do espelho é prá se molhar: feliz natal prá todos (figas).
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Tio Moa travels with Traveling Wilburys
Abri, num dos últimos pôstis, uma lista dos 10 melhores, digo, dos 10 discos de cabeceira do Tio Moa. O que é ser disco de cabeceira? Ora, vai te catar!
O primeiro foi Weaver, da Sally Oldfield, pelos motivos mencionados naquele pôsti.
O segundo vai aqui: Traveling Wilburys, o primeiro. Traveling Wilburys é o nome da banda do final dos anos 80, que por sinal surgiu por acaso. Um tal de George Harrison (sim, ele, o gênio dos Beatles, aquele cujas canções escreveu em parceria com Deus) queria gravar uma música para ser o lado B do seu single (aqueles discos pequenininhos que tinha antigamente).
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| Taí o Roy Orbison |
Numa noite, George estava jantando com dois amigos. Jeff Lyne, seu produtor e também músico dos bons e Roy Orbison. Deus compunha melodias com George, mas cantava com Orbison. Roy Orbison foi o melhor cantor do mundo, segundo Elvis Presley, que por sinal cantava bocado e sabia do que falava. Até hoje, nunca ninguém cantou igual ao Roy. Quando ele canta, temos a impressão que a voz não é humana, ela nos eleva, nos coloca numa outra dimensão. Ela dá um peso, uma dramaticidade atroz. Para quem não o conhece, mas curte cinema, David Lynch gosta um bocado dele. Crying entra no Cidade dos Sonhos. In Dreams é tocada numa das cenas mais impressionantes de Veludo Azul. Ah, e Pretty Woman é a música tema de Pretty Woman (Uma Linda Mulher).
Onde estávamos? Ah, o jantar. George Harrison queria gravar uma música que estava na sua cabeça e, no calor do vinho e de sei lá mais o que, convidou Jeff e Roy (que andava em baixa há mais de 10 anos) para gravarem com ele no dia seguinte, um sábado. Envolvidos na mesma onda, concordaram entusiasmados. Mas onde? Como reservariam estúdio assim em cima da hora, da noite para o dia? Um amigo de George tinha um pequeno estúdio em casa. Ligou prá ele da cozinha do restaurante. Os cozinheiros pediam autógrafos enquanto ele falava com o amigo, Bob, o maior poeta que a música já produziu.
Na manhã seguinte combinaram de irem juntos no estúdio do Bob, mas no caminho se lembrou que tinha deixado sua guitarra na casa do Tom Petty, do Tom Petty and the Heartbreakers, uma banda muito boa dos anos 70 que varou os séculos. Bom, já que passaram na casa do Tom, chamaram-no para irem juntos gravar a música, ainda sem nome nem letra, na cada do Bob. Com tanta fera chegando, o dono da bola também tinha que entrar no jogo. No futebol o dono da bola normalmente é um menino rico que não joga nada mas tem a bola. Aqui o Bob dono do estúdio era o Dylan. Dono da bola, aqui, tem outra conotação, portanto.
E gravaram, animadíssimos, Handle With Care, que tem uma levada deliciosa à George Harrison, que canta a maior parte da música, com aquela guitarrada solta daqueles mitos, as vozes no refrão, inclusive A do Bob Dylan e, a cereja no bolo, o toque divino: Roy Orbison introduzindo o refrão. Sensacional!!! Veja o video.
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| George, Tom, Jeff e Dylan na cozinha. Roy de fotógrafo. |
Quando George levou o resultado para a gravadora, os caras piraram. “O que? Um single? Com essa voz do Roy Orbison? Isso merece um disco inteiro”. Na hora, George ligou para os outros e todos concordaram em gravar um disco, mas tinha que ser em 10 dias, porque Bob Dylan tinha shows marcados. Decidiram compor e gravar, tudo em 10 dias, tudo a cinco mãos, ou melhor, a cinco bocas, dez mãos, 50 dedos, se é que algum deles não perdeu um por aí. Gravariam no estúdio do produtor de Bob Dylan, mas o estúdio era pequeno demais para os cinco gravarem juntos e ao mesmo tempo, como era a proposta. Mas a cozinha da casa era grande , então gravaram tudo ali mesmo, entre a pia, a mesa e a geladeira. Há um DVD com todo esse registro.
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| Bob Dylan, Tom Petty, Roy Orbison, Geoge Harrison e Jeff Lane |
O resultado desses dez dias é delirante. Os cinco estavam em êxtase criativo. Quatro deles com um êxtase a mais: ver e ouvir Roy Orbison, ídolo de todos eles. Tom Petty diz num DVD lançado recentemente: “se você está sentado no sofá, trabalhando em uma canção e Roy está cantando, mesmo que ele cantasse em um tom suave, é um tom especial, um som especial, um grande presente. Sempre dizíamos isso a ele: 'Roy, você deve ser o melhor cantor do mundo. E ele dizia 'sim, eu sou'. Ele tem a melhor voz da música pop. Você não consegue superá-lo".
O disco é todo sensacional. Todas as músicas são deliciosas. As que Roy canta, são mágicas, como Not Alone Any More, capaz de emocionar até um poste... de concreto. Já ia me esquecendo de dizer que os músicos não assinaram seus nomes no disco, mas nomes fictícios, como se todos fossem da família Wilbury. Nelson Wilbury é George Harrison, Otis Wilbury é Jeff Lynne, Roy Orbison assina Lefty Wilbury, Charlie T. Jr. é Tom Petty e Lucky Wilbury é Bob Dylan.![]() |
Tome um treco bom e ouça todo o disco. Uma, duas, muitas vezes.
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