quinta-feira, 30 de junho de 2011

VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS

Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, tenha certeza disso. Quando? Sei lá, quando menos você esperar, ou quando você se abrir a isso. Há vários caminhos, menos o querer, porque a pré-disposição afugenta: quem procura não acha. Quando você procura o homem dos seus sonhos, você está projetando nele os seus próprios atributos, você está querendo que ele seja um espelho do que você é ou gostaria de ser, e isso nunca fará você se maravilhar. O homem dos seus sonhos é aquele que, com os atributos dele, fará você se maravilhar, fará você querer ficar com ele e pronto, e ponto. Por isso, o homem dos seus sonhos virá, sempre, como um subproduto. É como a felicidade: sem essa de que basta buscar a felicidade que ela aparece, nada disso. Quem busca, se frustra, porque nunca alcança. Se você pensa que a felicidade é uma meta e você tem que lutar por ela, é porque está lendo muita besteira ou vendo Ana Maria Braga. Você só tem alguma chance de ser feliz se não buscar a felicidade, se viver a sua vida, se entregar a ela. Mas cuidado, porque se você fizer isso (se entregar à vida) apenas como um caminho para chegar à felicidade, aí dançou: este é o conceito de subproduto, somente chega por consequencia de alguma outra busca. Portanto, não procure o homem dos seus sonhos, porque se você procurar, ele não vai aparecer. Entendeu?

Não espere, ansiosa leitora fisgada pelo título deste pôsti, que eu vá dar alguma receita; vou apenas dar alguns exemplos e sugerir um filme. Os exemplos são de algumas mulheres envolvidas com o homem de suas vidas e este homem, já aviso, não sou eu. 

A primeira delas, sem querer, fugindo de um que procurou, já encontrou o seu, ou pensa ter encontrado, o que dá exatamente no mesmo, afinal, "assim é se lhe parece". Esse encontro já deu fruto, bem pequenininho e maravilhoso. A segunda parece que não está nem pensando em qual será o homem dos seus sonhos, mas onde o encontrará: decidiu que vai passar os próximos anos da sua vida bem longe daqui, estudando, aprendendo, vivendo a sua vida, enfim; uma ótima decisão. A terceira, que legal, parece ter encontrado o homem dos seus sonhos ainda antes de conhecê-lo, coisas desta era, que é de escuridão, como chamei no pôsti anterior, mas que também é de rutilância (procure no dicionário se quiser saber que raio é isso - ou leia Augusto dos Anjos); ou seja, esta terceira está prestes a conhecer o homem dos seus sonhos. A quarta pensa que já conheceu, está perdidamente apaixonada, chafurdando na paixão não correspondida, ou ainda não correspondida. E daí que não é correspondida? E daí que ele, ou eles (isto vale para todos os exemplos acima), não venha a ser o homem da sua vida no futuro? Problema algum. Viver um amor, uma paixão que seja, é precisamente viver a vida. Querer saber se o homem é o da sua vida, dá no mesmo que procurar por ele: em nada. Viva como se fosse e pronto. Não complique.

Sinto-me, neste instante, como a vidente do filme do Woody Allen que acaba de sair em DVD e está nas locadoras esperando por você. “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos” é imperdível. Uma velhinha é abandonada pelo marido rico (Antony Hopkins), que, com a confiança que lhe dão seus músculos de academia, seu hilário bronzeado artificial e seu dinheiro, acha que pode arrumar uma mulher mais nova – e pode, pois tem dinheiro (não me chamem de machista - é hipocrisia achar que o dinheiro não compra uma mulher).
Aí a esposa abandonada, desesperada, procura uma vidente, que começa a dar palpites (ela diz que são visões, afinal, ela é vidente) em sua vida, na vida de sua filha (Naomi Wats) e de seu genro (sei lá o nome do ator, pesquisa aí). A vidente garante que a velhinha (que a hipocrisia do politicamente correto chamaria de “senhora de melhor idade") vai conhecer o homem de seus sonhos. Ela se agarra nas previsões da charlatã (?) e em copos de uísque e aos poucos, e sem planejar ou tomar as rédeas, apenas vivendo a sua vida, vai superando o abandono. Enquanto isso, os outros personagens, menos crédulos, são confiantes (não foram abandonados), tomam as rédeas de suas vidas, sem esperar que as coisas caiam do céu, como se tivessem que acontecer só porque uma vidente disse que aconteceria. Decidem abandonar companheiros, profissão, valores; vêem sempre algo que não têm, como se nada do que esteja ao lado pudesse ser o melhor para si. É o desejo do ser humano de ser o que não é, de ter o que não tem.

No filme em cartaz nos cinemas, “Meia Noite em Paris”, há uma temática semelhante: os insatisfeitos e sonhadores procuram uma época que não é a sua. Os de hoje, os anos 20; os dos anos 20 querem a Belle Époque, os desta, a Renascença. É o complexo da era do ouro, que sempre achamos que é a anterior à nossa. Neste “Você vai Conhecer...”, a insatisfação está ligada ao amor, tangenciando a profissão. Uma cena brilhante sintetiza tudo isso: o marido da Naomi Wats, enquanto tenta escrever, no escritório de sua casa, olha, no prédio em frente, pela janela, uma morena sensacional, que sempre tira a roupa à janela. Aquilo é que é mulher! Começa a sonhar com ela e tanto ele faz (tanto mesmo) que acaba conseguindo. Quando se separa da esposa loira e vai, de mala e cuia pro apartamento da morena, logo na chegada vê, pela janela, sua ex, a linda Naomy Wats, tirando a roupa, deliciosa (!!!)... Ai que tentação de voltar, ein? Preciso falar mais? Woody Allen procura imagens belas e engraçadas para nos confrontar com nós mesmos e dar uma porradinha educativa. Aliás, dá porradonas; prepare-se para elas, porque o filme é, sim, muito engraçado, mas ao mesmo tempo consegue ter a dureza e o peso de um “Match Point” ou “Sonho de Cassandra”. Este talvez seja o melhor do filme, conseguir ser forte e ao mesmo tempo divertido.
Por isso, leitora ansiosa que acha que tem que ser feliz, largue agora mesmo seus livros de auto-ajuda com receitas inúteis, pare de ficar procurando o raio do homem dos seus sonhos, viva a sua vida, vá à locadora e aprenda com o mestre, com o filósofo que não usa a pena ou o teclado, mas imagens, som e fúria.

Frase inicial do filme: “A vida é cheia de Som e Fúria, e, no final, isso não significa nada” (Shakespeare)

terça-feira, 28 de junho de 2011

OS 10 MAIS - OS DOIS LADOS DO RAIMUNDO FAGNER

Ah, finalmente, recebi a primeira provocação sobre a minha lista dos dez melhores discos brasileiros de todos os tempos. O provocador foi o Panta, citando José Simão: “tudo na vida tem seu lado bom, exceto um disco do Fagner”. Evidentemente, os que riem com a piada, entre os quais eu me incluo, são aqueles do tempo em que os discos tinham dois lados, o “A”e o “B”. 


Aos filhos destes tempos de escuridão, que não viveram a gloriosa era dos discos de vinil, explico que, ao ouvirmos um disco recém comprado, quando não gostávamos das músicas do lado “A”, ou do lado que ouvíramos primeiro, sempre restava a esperança do outro lado, porque em muitos dos casos, os dois lados eram muito diferentes, os autores separavam as músicas por afinidade, e, quando não era assim, nossa sensibilidade se encarregava de se alinhar mais com esta ou aquela combinação de músicas, de modo que acontecia de adorarmos um lado e quase não ouvirmos o outro.

Vez por outra, quando compro um CD de um disco de vinil que eu tive e que há séculos não ouvia, me surpreendo com como ainda canto todas as músicas que eram de um lado e quase não reconheço as que eram de outro. Enfim, deu prá entender a piada do Zé Simão, não deu?



Dito isto, vamos ao Fagner e seu magnífico disco Raimundo Fagner, de 1976. Antes, no entanto, devo acrescentar que foram magníficos também todos os seus primeiros discos, como o Manera Fru Fru Manera (1973), Ave Noturna (1975), Orós (1977), e ainda os ótimos, mas irregulares 4 discos posteriores, que ainda traziam algumas músicas maravilhas, como nos discos de 78 (“Motivo” e “Revelação”) e de 79 (“Noturno”e “Ave Coração”).

Depois disso, com a entrada dos anos 80, Fagner foi caindo, ficando brega, até se transformar, mui justamente, em piada do Zé Simão. Um parêntese: nos anos 80 virou moda uns arranjos super bregas, que assolaram a música mundial, na onda na New Age, ou sei lá o nome. No Brasil teve um tal de Lincoln Olivetti, considerado por muitos um Deus, que fazia arranjos padronizados com um orgãozinho chatézimo. Fez arranjos prá todo mundo que queria vender bastante, de Fagner a Wando, de Gal Costa a Joanna, passando por Caetano, Gil, Rita e Roberto Carlos. Todos os discos que ele fazia os arranjos ficavam com jeito de disco dos Menudos, uma batida padrão que vocês, filhos dos atuais tempos de escuridão, felizmente não pegaram, livrando-se dos anos 80, os anos do rosa choque! Mas, como tudo na vida tem seu lado bom, exceto um disco com arranjos do Lincoln Olivetti, podemos considerá-lo importante para a popularizaçao da música independente e do Rock nacional, vinda do vácuo total e absoluto da MPB que chafurdava naqueles arranjos...


Quanto à escolha do "Raimundo Fagner", de 1976, eu bem que eu queria colocar entre os 10 mais um outro disco do Fagner, Orós, de 1977, que, com arranjos e participação de Hermeto Paschoal, é um dos discos mais belos e originais da música brasileira. Também poderia escolher o maravilhoso disco de estréia, Manera Fru Fru Manera. Mas acho este Raimundo Fagner ainda superior. Todas as 11 faixas são lindas na poesia, na melodia e nos arranjos (Fagner, Wagner Tiso e Robertinho do Recife). Fagner ainda não era popular, mas já era uma celebridade do meio musical. Atraiu músicos de primeiríssima: Robertinho do Recife, Robertinho Silva (que há pouco tempo vimos tocar com João Donato), Liminha (o “quinto Mutante”), Dominguinhos e Wagner Tiso. Sua voz especialíssima é anterior à sua fase de exageros vocais de doer os ouvidos. É um disco que nos inspira a cantar. Todas as músicas estão no mesmo nível, bem tocadas e bem cantadas. A ouvir com cuidado: “Conflito” (típica canção, cantada com voz límpida e sóbria); “Além do Cansaço”, um rockezinho com um embalo delicioso; a agreste “Matinada”, de poesia sertaneja simples e melancólica e a elíptica e insidiosa “Natureza Noturna”, feita sobre poesia de Capinam, que começa assim:
Eu tenho o mesmo segredo
Dos malditos solitários
Só a noite é minha amiga
A quem friamente confesso
A natureza noturna
Dos meus infernos diários
Fagner musicou grandes poesias de famosos poetas e sempre acertou em cheio, como com Cecília Meirelles, Florbela Espanca ou Fernando Pessoa. Neste disco ele investe em poetas menos conhecidos, mas maravilhosos, como Fausto Nilo, Abel Silva, Clodo e Capinam. Um disco belíssimo, dos dois lados, e quase perfeito. Ouça uma, duas, três vezes, e deixe que a música vá entrando em você. Não dói...Panta, favor fazer chegar este pôsti ao Zé Simão...

"Não guardo segredos mas sou bem secreto...
É que eu mesmo não acho a chave de mim”. (Abel Silva)


domingo, 19 de junho de 2011

OS 10 MAIS - TAIGUARA - VIAGEM - UMA BELEZA IMENSA


Não posso reclamar da minha infância (também, se pudesse, prá quem ia reclamar?). Brinquei muito, joguei muita bola; como caçula, fui protegido, era o reizinho da casa (falavam isso prá eu comer, porque, acreditem, eu era raquítico). Minhas irmãs às vezes apareciam com discos em casa, que tocávamos numa vitrolinha portátil. Foi ali que ouvi e me apaixonei por um tal de Taiguara, um disco chamado Viagem, que se não me engano foi presente do namorado de uma delas (Ana, diga de onde veio esse disco). Eu adorava todas as músicas. Mas cresci: primeiro virei adolescente e depois, até certo ponto, adulto. E esqueci o tal do Taiguara. Acho que não era chique gostar do Taiguara, era um cantor, como dizer, romântico. Certamente muitos dos milhares de leitores deste humilde blógui nunca ouviram falar do Taiguara. No máximo, viram algum coroa cantando Universo no Teu Corpo num karaokê (sim, tem essa música lá).

Depois, muito tempo depois, já não mais raquítico, eu comprei o CD e ouvi algumas vezes, mas nunca ouvi ouvindo mesmo, prá valer. Ouvi apenas o suficiente para perder o preconceito e saber que o Taiguara foi dos bons, autor de músicas lindíssimas. Mas daí a ter chance de entrar entre os 10 mais? Desde que comecei com essa tara psicótica de espalhar aos 4 cantos quais os meus dez melhores discos, tenho pensado em re-ouvir o Viagem, mas sempre deixo prá depois. A lista já estava totalmente fechada quando numa noite, me veio o Viagem num sonho-delírio, daqueles que a gente tem quando a Ponte ganha, vira líder e a gente come, toma cereja e vai dormir de barriga cheia. Aqui, neste flat em que me escondo da falta de um lar e dos CDs que ficam dentro dele, baixei o Viagem e ouvi. Ouvi, diga-se, nas piores condições possíveis: vendo Santos e Peñarol, conversando no MSN com a quarta gestão, doente, que dó, e escrevendo sobre Noel Rosa. Mas não teve jeito, mesmo com tudo isso, aquele som me arrebatou.

Começa com um naipe de metais du-caralho (o Word tá avermelhando essa palavra – desculpa, Word, não achei expressão mais apropriada) ponteado uma sutil guitarrinha. “Eu desisto, não existe essa manhã que eu perseguia, um lugar que me dê trégua ou que sorria, uma gente que não viva só prá si...”. Mas é depois desse arrasa-quarteirão que é “Universo no Teu Corpo”, que a gente percebe o quanto o disco é bom, porque na música seguinte, “Maria do Futuro”, entra um vocal feminino leve e sensual, quase gemendo de desejo ao ser acariciada por mim (gosto de pensar que posso arrancar isso de uma mulher). Aí entra o Taiguara, cantando. Bom prá... deixa prá lá. Nisso a música já está linda, mas quando ele entra, na segunda parte, naquela voz afinadíssima e suave, com “era noite de verão, vi o amor nascer num sorriso seu”, ah, não teve jeito: chorei; não devia confessar, mas sempre faço o que não devo, ou quase sempre. E depois dessa, como se não bastasse, entra a versão definitiva de Prelúdio No 2 (“você é isso, uma beleza imensa, toda a recompensa de um amor sem fim”), do monstro Luiz Vieira, com uma gaita fantástica. Aí é covardia, é apelação, é como o Shinyashiki na palestra colocar "Pai Herói", do Fábio Júnior, mandar a mulherada ficar de olhos fechados e lembrar o pai morto. Com uma diferença: no Taiguara tem arte e beleza! Lágrima que é pura, paz do meu amor. Em seguida uma instrumental divina, “A Transa”, linda, super-emotiva, que termina com ele declamando:
“vem, transpira a dor, transgride a treva fria,
e vem viver, transmutar, transpor, renascer,
vem meu amor”
Falando assim até eu iria...

Em seguida a faixa título, com “vai, abandona a morte em vida em que hoje estás... faz em fera a flor ferida e vai lutar” pontuada por metais e por uma boa guitarrinha distorcida. São poesia e música de primeira. Já acabou? Nada disso. Tem a tocante “O Velho e o Novo”, uma homenagem ao pai (depois de ouvi-la você vai, finalmente, se esquecer de vez da “pai herói”, do FJ) e outra versão definitiva: "Gente Humilde", do Chico e Vinícius. Mais: "Dia 5"em que ele ensina a cantar com suavidade, beleza e elegância, e outras três músicas com o Som Imaginário, lendário grupo mineiro composto por Wagner Tiso, Robertinho Silva, Tavito, Luis Alves, Laudir, Zé Rodrix e Nivaldo Ornellas. Imagina o que sai desse encontro. Entre essas com os mineiros, está a que fecha o disco, a instrumental Tema de Eva, de apenas um minuto e meio, mas que poderia ser tema de filme e ganhar Oscar. Viagem é um disco romântico, sim, o que, hoje sei, não quer dizer nada. É bom quando passa a adolescência e a primeira "adultice" e a gente pode se deliciar com o que antes era meio proibido.

Viagem, do Taiguara é um dos grandes discos já feitos neste Brasil-sil-sil, que, muito mais do que futebol, faz música de primeira. O disco é absolutamente imperdível, é de “uma beleza imensa”. Um alerta: se você está carente (e sei que está, senão não estaria sozinho lendo isto), cuidado com esse disco.

sábado, 18 de junho de 2011

À MEIA NOITE EM PARIS, WOODY ALLEN LEVARÁ SUA ALMA


José Mojica Marins, o Zé do Caixão, é cultuado por ter feito alguns fimles nos anos 60, entre eles o clássico “À Meia Noite Levarei Sua Alma”. Mas depois não fez nada tão relevante. O maior mestre do cinema de todos os tempos, o Alfred, no final da carreira já não tinha a mesma energia. Sim, seus filmes ainda eram melhores que a maioria dos daquela época, mas não eram mais de tirar o fôlego como os dos anos 50 e inicio dos 60. Billy Wilder, autor da maior comédia de todos os tempue), os (“Quanto Mais Quente Melhor”), considerado inaugurador do filme noir (Pacto de Sangautor do machadiano “Crepúsculo dos Deuses”, em seu crepúsculo fez filmes lindos, é verdade, mas, igualmente, não tinham mais o vigor de seus melhores. Vou parar nesses três. A vida é assim, isso acontece com todos, até com os gênios. Em todos os campos: Chico Buarque ainda compõe, mas não como antes. Pode pegar qualquer um: Jorge Ben, Caetano, etc, etc, etc. Os seres humanos têm uma fase mais criativa, de mais energia, depois se acalmam, mesmo que ainda produzindo. E nem precisariam fazer mais nada, deixaram sua marca na história, sua obra será estudada daqui a dois mil anos (não sei se a do Mojica).


Mas tem um que não é humano: Woody Allen. Seus últimos filmes, depois de ele completar 70 anos, vêm subindo de energia, de qualidade, de complexidade, de graça, de força, de tudo. Não pode ser humano. Primeiro, a surpresa das pauladas na moleira com os densos “Match Point” e “Sonho de Cassandra”. Depois, o pique do Vicky Cristina Barcelona. Mas aos 74 anos ele aparece com “Tudo Pode Dar Certo” (que já freqüentou este blógui em junho de 2010): um marco, um filme de fôlego inacreditável, comparável às suas grandes comédias dos anos 70, como “Noivo Neurótico...”. Mas ele não parou aí. O seguinte, “Você Vai Conhecer O Homem dos Seus Sonhos” (acabou de sair nas locadoras), está no mesmo nível, menos engraçado, mas mais completo, me parece (escreverei sobre ele neste final de semana – mas não espere, vá lá e pegue).


E hoje estreou no Brasil “Meia Noite em Paris”. Seria um filme-férias, como os críticos falaram sobre o Vicky? Um filme fácil e divertidinho passado na cidade que Woody Allen mais ama depois de NY? Fui ver. Nem adianta ler a crítica, porque filmes do Woody Allen sempre (ou quase) têm cotação máxima, como a da Folha de hoje. Tem que ir. E fui.


E o que vi foi inacreditável. Começa pela linda abertura, feita de pequenas tomadas de Paris, com uma música deliciosa; lembra a abertura do "Manhattan", só que sem precisar dos fogos. Ótima a preparação. A idéia do filme também é ótima: um escritor atual viaja no tempo e contracena com os principais artistas do início do século passado. Época atual, um escritor americano (Owen Wlson, surpreendente) é apaixonado por Paris e está lá com a noiva (Rachel McAdams), uma chata, e seus pais, ainda piores. Um casal amigo da noiva (o ótimo Michael Sheen, de "A Rainha" e "Maldito Futebol Clube") é ainda pior que os sogros. O protagonista ama andar na chuva, sua noiva odeia. Ele sai sozinho à noite. Quando os sinos batem meia-noite, aparece um carro dos anos 20, que o leva lá mesmo, direto aos anos 20, época pela qual ele é apaixonado. Aí ele repete a viagem todas as noites. Fica amigo de Gertrud Stein (Kathy Bates), Scott e Zelda Fritzgerald, Hemingway, Salvador Dali (Adrien Brody, que aparece só uma vez, mas é espetacular) e muitos outros. Apaixona-se pela namorada de Picasso (Marion Cotillard, belíssima). Às noites, a fantástica viagem aos anos 20 (lindamente retratado). Durante os dias, o convívio com a chatice.


Equilibrando muito bem os dois mundos, Woody Allen consegue deixar até o mundo atual, com os chatos, muito interessante. Primeiro porque os textos e os atores são ótimos, depois porque há um foco: o drama do protagonista, que vive aquele período de transição na vida, caso ou separo, amo ou não, escrevo ou não, vou ou fico? O mundo noturno, o da fantasia é engraçado por si: Owen Wilson vive, incrédulo, situações delirantes e bizarras com os geniais artistas e suas obras; enfim, ele participa da história da arte! Esse é o mote para Woody Allen fazer talvez seu filme mais criativo, complexo e atraente, sem deixar de ser muito engraçado, ao discutir, com humor e profundidade, temas filosóficos que nos angustiam a todos.


Pronto, já falei demais. Agora só vou dizer o que eu senti ao final do filme mais inspirador de Wody Allen:


1. Que amanhã vou vê-lo novamente;


2. Uma alegria de viver;


3. Uma baita vontade de me reposicionar na vida;


4. Uma vontade de escrever com mais determinação;


5. Vontade de andar na chuva com alguém...


Ah, senti mais uma coisa: Woody Allen levou minha alma.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

OS 10 MELHORES DISCOS BRASILEIROS DE TODOS OS TEMPOS

BOM, SEGUE A LISTA DOS 10 MAIS. Não há ordem de classificação. Não sei de qual gosto mais ou menos. Se tiver que escolher um deles, acho que fico com Loki... Sei lá. A lista está em ordem cronológica, não de lançamento do disco, mas de quando eu o conheci ou mergulhei. O critério de divisão dos períodos é uma mistura de local onde morava, gestão em que me encontrava, enfim, tenho lá meus motivos.

Caso você conte os discos da lista e o resultado não seja 10, e seja, digamos, 20, pode ser por razões diferentes - ou todas elas juntas:
1. Você não soube contar direito
2. Houve empate de 11 discos no décimo lugar
3. O irmão sepulto em mim, sempre com essa vontade doentia de se expressar, também quis dar a sua lista e nenhum disco coincidiu.
Enfim, caso você conte 20, considere estes 20 como os 10 discos que julgo os melhores. Nas próximas postagens, que acontecerão nos próximos 10 dias, que talvez, apenas talvez, cheguem a 20, explico um a um os discos da lista. Toma lá:

domingo, 29 de maio de 2011

Os 10 melhores discos brasileiros de todos os tempos

Antes de mais nada tenho que esclarecer três coisinhas.
1ª coisinha: sempre discuto com o Fábio sobre a tal expressão “melhor”, que é uma expressão que só gera confusão. Melhor seria aboli-la do dicionário. Ih, usei-a de novo: é inevitável.


2ª coisinha: Para mim Cartola é melhor que Paulinho da Viola, para você, não. Tudo bem, questão de gosto: os dois são bons. Peguemos gente mais diferente entre si: gosto mais de Zé Ramalho do que de Tom Jobim, mas sei que o Jobim é muito bom, provavelmente “melhor” que o Zé. Mas é questão de gosto.
Agora, não me venha dizer que o Kenny G é melhor que o Miles Davis. Isso não é questão de gosto, porque se nem “bom” ele é, quanto mais “melhor” que um deus. Tudo bem se você gosta do Kenny G, ele até toca direitinho, você pode até se emocionar ouvindo, o problema está no seu universo musical. Outra: nem pense que a banda Kalipso é boa. Você pode gostar, dançar com ela, achar o máximo, azar seu, isso não vai fazer da banda algo musical e artisticamente decente.

3ª coisinha: o que é “melhor” para mim é sempre influenciado por um determinado momento que é só meu. Explico: ontem fui com a Fer a um restaurante que tem um monte de coisa boa, mas vou lá para comer o simples, mas delicioso, divino e delirante espaguete alho-e-óleo, que eu como, e repito e repito de novo. Por quê? Seria melhor do que tudo o que tem lá? Quando eu tinha uns 5 ou 6 anos, eu não gostava de macarrão, porque sempre era à bolonhesa, e eu odiava carne e molho de tomate. Numa noite, altas horas, algum problema sério tinha acontecido (não tenho a mínima idéia do que tenha sido) e eu estava na casa da Alda minha madrinha (nem sei se era madrinha mesmo). A casa era meio sombria, talvez porque eu quase nunca fosse lá. Eu estava morrendo de fome, e a Alda disse que ia fazer um macarrão alho-e-óleo. Que merda, pensei. Mas quando o prato chegou à minha frente, aquele cheiro me envolveu e eu comi com gosto, aquilo me desceu fazendo carinho. Contei prá minha mãe, que a partir de então sempre fazia prá mim (e o da minha santa mãezinha era, evidentemente, ainda melhor). Voltando ao restaurante: para mim, aquele espaguete alho-e-óleo é o melhor prato que tem lá, e talvez entre para minha lista dos 10 melhores pratos.
 Depois das 3 coisinhas, vamos ao significado. Prá que escolher os 10 melhores? O que a gente pretende ao escolher e publicar os 10 melhores filmes, discos, pratos, livros, beijos (ainda não vi uma lista de melhores beijos), etc, etc, etc?
 Significa que queremos nos exibir, mostrar que somos cultos, é claro. “Olha só a minha lista, tá vendo como eu entendo de música?”. “Tá vendo como eu leio coisas boas, como meu universo é amplo?”. Ou seja, apresentar uma lista é uma tentativa de impressionar as pessoas e, conseqüentemente, de inflar nosso bom e velho ego. Mas quem não tem um ego? E que ego não é meio guloso?


Mas também há outros motivos mais nobres (sem desqualificar o motivo do ego, é claro) quando apresentamos uma lista. Fazer uma lista é uma deliciosa viagem no tempo e nas sensações, lembrando o que mais nos transformou, mais nos emocionou; significa viajar para dentro de nós mesmos e nessa viagem descobrimos o que mais valorizamos, num sentido religioso (de “religar”). Publicar uma lista significa ainda que queremos nos apresentar, dizer quem somos, abrir nosso coração e nossa mente e atrair pessoas por afinidade. Como bônus: mostrar nossos “10 mais” pode ajudar alguém a conhecer algo que não conhecia, ou que nunca tinha reparado. Uma coisa é saber que Jorge Ben existe, outra coisa é saber que alguém cuja opinião prezamos o coloca em destaque. Há pouco tempo descobri o gênio do Jorge Ben lendo a opinião de alguém que prezo sobre um disco seu.

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Para escolher os 10 mais, misturamos tudo: reminiscências, referências, emoções, momentos marcantes, paixões, aventuras, amores e sabe lá mais o quê. Neste momento, por exemplo, estou ouvindo algo que me transportou à carroceria de uma caminhonete numa estrada, num campo no interior de São Paulo, próximo a Rio Preto, quando viajava de carona com o Tiba ouvindo meu recém comprado WalkMan (aquele que vc enfiava uma fita cassete dentro). Ainda pude sentir o cheiro de Assa-Peixe. Finalmente, o processo de escolha pega tudo isso e tempera com a razão e o conhecimento, afinal, por mais que Márcio Greick tenha me emocionado (e muito) com “o mais importante é o verdadeiro amor”, hoje eu sei muito bem que ele está muito mais prá Kenny G ou Kalipso do que para Cartola e Tom Jobim. 


Deixando de entretantos e indo diretamente aos finalmentes, apresento a minha lista dos 10 melhores discos brasileiros de todos os tempos. No próximo pôsti, é claro. Sossega, vai ser logo, já está pronta. Estou apenas dando uma de Janete Clair. Plim Plim.


segunda-feira, 28 de março de 2011

KARINA BUHR MATA FILHOS DE MARISA MONTE E SALVA A HUMANIDADE

A Marisa Monte do final dos 80, mais do que os seus melhores contemporâneos, inventou aquilo que chamo de Nova MPB, trazendo arranjos e interpretações mais modernas para a amarelada MPB. O lendário show que tinha “Comida” e "Negro Gato" (esta acompanhada do Paulo Moura) marcou época. Marcou tanto que até hoje ninguém do espectro MPB faz nada diferente. A Nova MPB é um saco, uma repetição enfadonha de um modelo que, embora esgotado, continua gerando baciadas de chatinhos que não acrescentam nada, como os Lenines, Seus Jorges, Vercilos, Marias Gadus e Anas Carolinas da vida. Vá a uma prateleira de CDs numa loja e você encontra uma centena deles. Todos bons (ou pelo menos a maioria), todos fazendo esse sonzinho bacaninha, assim-assim, meio chinfrim, uma música altamente consumido pela classe média cultural, que pensa que ouvir Seu Jorge ou Maria Gadu vai colocá-lo numa classe superior ("eu sou plural"). O Orkut e o Facebook estão cheios de gente que ser bacaninha, e plural, e escolhe ser fã dessa gente que é até boa, boa, mas que na real não cheira nem fede.

A Marisa Monte deixou essa horda de filhos chato, por isso eu a odeio, apesar de amá-la. Ela tem todo o direito de não fazer mais nada (e tem usado esse direito). Ela pode, como pode o Belchior, que não precisava ter composto mais nada depois de Paralelas (prá que mais?), como o Arnaldo não precisava fazer mais nada depois do “Loki” e o Roberto Carlos não precisava fazer mais nada depois de “Detalhes” – aliás, este não devia ter feito mais nada!

Mas eis que, de Pernambuco, um dos maiores pólos culturais das Américas, de onde já surgiu para o mundo gente como Ariano Suassuna, José Condé e Chico Science, aparece Karina Buhr. Ela já havia aparecido em casa há uns 10 anos, num CD do delicioso Comadre Florzinha, que curti muito mas que há um tempão não ouvia. Eu não sabia que ela estava lá, adormecida, esperando o momento oportuno para agarrar-me...

O som de Karina Buhr não tem nada de chinfrim, é brasileiro e universal, com um sotaque da atual música de Pernambuco, que por sinal é onde se faz a melhor música hoje (e talvez o melhor cinema). Pernambuco, a Veneza brasileira, também está sendo uma Barcelona brasileira. Karina Buhr “traz de lá esse colorido em suas musicas e letras. Tem qualquer coisa de sonho a impressão que fica ao ouvir seu disco” (Patrícia Palumbo).

O disco "Eu menti pra você” tem melodias, arranjos e músicos de altíssimo nível. O trompete do Guizado e a guitarra do Edgar Scandurra ajudam a colocar a sonoridade do disco numa outra atmosfera.

A sensacional Nassíria e Najaf , “uma canção de ninar pras crianças de Bagdá” é ótima, tem um refrão rock'n roll de primeira, guitarra e baixo com um peso legal e o trompete avermelhando o clima. Karina canta fluída, rápida, precisa e com uma naturalidade que parece que a gente tá ouvindo ela conversar num bar. (o vídeo tá aí, em algum canto deste pôsti)

O Pé é quase uma marcha militar, com uma leitura moderna, cantada em tom doce e levemente melancólico. Uma voz cool, deliciosa e cativante, que canta uma poesia elíptica e insidiosa, entra na gente e nos leva:

A pedra, o pé,
descendo a rua que cobre a pedra
embaixo dela a terra,
embaixo da terra o céu de novo


Sentindo a lentidão do dia
Há dias lentos demais
Não sinto, não tenho vontade, não agüentaria
O céu embaixo das nuvens, a terra por baixo
Do asfalto
O centro da terra que puxa a gente
a gente pula contra a vontade do chão

Depois, Ciranda do Incentivo, um divertido e hipnótico som-de-balada-bem-porradão. Tipo de música de show, daquelas que agita a platéia. Karina está encantadora. Seu “mas eu não sei negociar, eu só sei tocar meu tamborzinho e olha lá” é uma daquelas delicadezas que a vida nos dá de presente.

Mira Ira é maravilhosa! Forte, cortante, emocional. E ela canta de um jeito... (é difícil transmitir em palavras a sensação que dá ouvi-la cantar) tão forte e ao mesmo tempo tão leve; tão próxima da gente e ao mesmo tempo tão cenográfica que parece que está dentro de um filme... “tá tudo padronizado no nosso coração/nosso jeito de amar pelo jeito não é nosso não”. A voz é perfeita, o jeito de cantar totalmente pessoal... Enfim, sem palavras. Para ser ouvida em alto volume; o tipo de música que faz a gente se sentir mais vivo.
Me mira a ira
me mira mas me erra
mas minha ira me era confusa
mudando meu amor de endereço
Me mira a ira
me mira mas me erra no escuro
sentindo o teu amor profundamente

Todo o resto do disco é bom demais, mas vou parar por aqui. Karina Buhr canta demais! É muito sensual, leve, aveludada. É completa: musica, letra/poesia, som. Karina Buhr não é, definitivamente, mais uma, mas a melhor coisa que ouvi em muito, muito tempo. Valeu ter saído do espelho.

Eu não sou emocional, nem intenso, tampouco exagerado, quem me conhece sabe; mas vou abrir uma exceção: eu amo perdidamente essa Karina Burh e quero me casar com ela. Largo tudo e vou carregar seu tambôzinho mundo afora!

domingo, 13 de março de 2011

A VOLTA DO GANSO

A gente sempre enxerga os fatos históricos como acontecimentos muito distantes de nós, deslocados do nosso tempo e do nosso espaço. Mas algumas poucas vezes na vida a gente se sente participando deles.



Em 86 estava no meio do badernaço de Brasília, dirigindo meu fusca 76, levando a pequeníssima Tani, 1 ano e pouco, no banco de trás. Íamos da Asa Sul pra a Asa Norte, pela L2. Quando atravessava o viaduto sobre o Eixo Monumental, um militar mandou parar. Naquele fim de tarde tudo estava envolto em fumaça. Pessoas correndo, militares por todo lado. A visão da esplanada era horrível: fogo, correria, cavalos, tanques (ou coisa parecida). E eu no carro parado, ali no meio daquilo, morrendo de medo, com a Tani atrás e o desespero no banco ao meu lado, espreitando, aguardando o momento oportuno para entrar dentro de mim. Entrar do ponto de vista espiritual, ou imaterial, afinal, o desespero não é feito de carne e osso. Material ou imaterial, eu precisava evitar que o desespero tomasse conta de mim. Olhava para trás e via os olhinhos da Tani, assustados com todo aquele movimento e barulho. Respirei fundo e olhei para frente. Aí então eu vi o que estava ali, bem na minha frente: a história. Era 28 de novembro de 1986.


Muito antes, 1969 foi um ano em que senti o mesmo duas vezes. Uma vez em 20 de julho, quando o mundo parou para ver Neil Armstrong, um trompetista que também era astronauta, pousar na lua. Naquele dia ele compôs a magnífica “Wonderful World” ao olhar para a terra e constatar que era azul, embora a terra fosse, e na verdade ainda o é, verde. Armstrong e o pessoal da NASA não se ativeram ao fato de que o visor do escafandro, sendo marrom, transforma em azul o verde. Não tenho certeza se aquela bola na cabeça dos astronautas é de fato um escafandro, que é um nome geralmente dado ao instrumento de mergulho inventado por Julio Verne. Abaixo, Armstrong - à esquerda, antes de ir à lua e à direita, depois de voltar.


Em 2 de julho daquele mesmo ano, eu havia sido emocionalmente apresentado ao futebol. Sobre esse dia, ler o premiado (e se não foi, devia) pôsti Tio Moa e suas reminiscências - Radio Days


Poucos meses mais tarde, em 19 de novembro, eu estava ansioso; finalmente chegava o dia do jogo que todos aguardavam. Minha mãe, meu avô, meus tios e até as minhas tias, só falavam no milésimo gol do Pelé. Minha santa mãezinha provocou em mim uma expectativa tão grande que me levou a ter a exata consciência de que, naqueles instantes em que Pelé converteu aquele pênalti e o povo invadiu o gramado e o carregou, eu estava presenciando a história.

Hoje, 12 de março de 2011, senti de novo a sensação de estar vivendo a história. Mas desta vez foi diferente. Nas outras vezes foi fácil sentir-me na história; em 69 porque os eventos tinham a atenção nacional e em 85, porque eu estava mergulhado no badernaço. Mas hoje foi preciso um pouco mais. Foi preciso ter ouvido muita música na vida; foi preciso gostar de Balé, das obras dos grandes pintores, de música clássica e talvez de futebol; foi preciso ter uma alma leve (sorte que não foi preciso ter um corpo leve).

Hoje Ganso voltou. O Ganso, Paulo Henrique, aquele craque raríssimo que não foi levado para a Copa por Dunga porque o energúmeno técnico nunca viu um Matisse, nunca ouviu um Bach, nunca viu balé, nunca leu poesia, nunca teve a alma leve. Ganso voltou depois de vários meses parado recuperando-se de uma contusão grave. E ele entrou somente no segundo tempo, depois de um zero a zero complicado no primeiro.

Entrou e em segundos já disse a que veio. Tocou uma vez, recebeu, tocou outra vez. Na terceira vez em que recebeu a bola, tratou-a de meu amor e aos quinze segundos fez um lançamento mágico e deixou o atacante na cara do gol. 1 a 0. Aos nove ele mesmo fez o gol, com um toque que poucos acertariam. Em 10 minutos mudou o jogo e deu show o resto do tempo. A cada toque na bola, uma carícia, um solo de violino, um passo de balé, um sustenido de um tenor. Foi caçado em campo, sofreu faltas violentas, uma das quais gerou a expulsão do agressor, um dunguinha, um escutador de pagodinhos chinfrins e funk brega.

Parece que Ganso nunca esteve parado. Vi nele, hoje, mais, mas muito mais do que um Zidane, com quem o compararam no ano passado. Vi nele o Mestre Dicá, que desenhava obras de arquitetura niemayeriana com a bola. Vi nele um Ademir da Guia, que bailava e tocava violino, como dizia dele o Armando Nogueira. E, sobretudo, hoje eu vi, no Ganso, o próprio e único Ganso, diferente de todos, um gênio inspirador que ao entrar fez com que todos os demais jogadores do Santos jogassem melhor, transformando alquimicamente um joguinho mequetréfi num lindo concerto.

Esse Ganso, se não tiver problemas com contusões (que Deus e os santos, pelo menos os aliados do Seu governo, o protejam), será um jogador inesquecível, um dos melhores da história do futebol. E o dia de hoje será conhecido na história do futebol como “o dia em que o Ganso voltou”. E eu vi!

INFORMAÇOES ADICIONAIS

BADERNAÇO EM BRASÍLIA
No dia 28 de novembro de 1986, ninguém imaginaria que uma manifestação pacífica, convocada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), Central Geral dos Trabalhadores (CGT) e pelos partidos PT, PDT e PCB poderia provocar o maior distúrbio da história de Brasília: o Badernaço. O tumulto começou quando a polícia tentou dispersar os manifestantes que se encontravam na Rodoviária. Várias lojas foram saqueadas (entre elas o extinto posto da Cobal, que em seguida foi queimado), carros da polícia foram queimados ou danificados e 11 prédios públicos, depredados. Oficialmente, após a confusão, a polícia prendeu 34 pessoas.

Apollo 11
Wikipédia - Apollo 11 foi a quinta missão tripulada do Programa Apollo e primeira a pousar na Lua, em 20 de Julho de 1969. Tripulada pelos astronautas Neil Armstrong, Edwin 'Buzz' Aldrin e Michael Collins, a missão cumpriu o objetivo final do Presidente John F. Kennedy, que, num discurso ao povo norte-americano em 1962, estabeleceu o prazo do fim da década para que o programa espacial dos Estados Unidos realizasse este feito. Neil Armstrong, comandante da missão, foi o primeiro ser humano a pisar na superfície lunar. Composta pelo módulo de comando Columbia, o módulo lunar Eagle e o módulo de serviço, a Apollo 11, com seus três tripulantes a bordo, foi lançada de Cabo Canaveral, na Flórida, às 13:32 UTC de 16 de julho, na ponta de um foguete Saturno V, sob o olhar de centenas de milhares de espectadores que enchiam estradas, praias e campos em redor do Centro Espacial Kennedy e de milhões de espectadores pela televisão em todo o mundo, para a histórica missão de oito dias de duração, que culminou com as duas horas de caminhada de Armstrong e Aldrin na Lua.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A Incrível História do CPNES - Parte 15

PEPPERONI - A MÁFIA E A ENTRADA DO SALAME ITALIANO NO COBRA PARADA

O CPNES, com aquela conturbada e tensa, embora divertidíssima, estréia, de fato passou a existir. Não é por outro motivo que a maioria dos historiadores, os pesquisadores do tempo, os jornalistas e demais vasculhadores culturais e políticos, tem como certa a data de dezoito de maio de 1983 (veja ao lado a prova domunental) como o nascimento do Cobra Parada Não Engole Sapo. Em outros pontos, entretanto, há muita discordância, como quanto ao exato grau de influência do grupo na queda do regime militar e nos movimentos artísticos da época, como o boom do rock brasileiro (nascido, como todos sabem, em Brasília). Uns dizem que foi grande, outros chamam estes de malucos e dizem que não houve influência alguma.



Este autor, escravo dos fatos, prefere não se posicionar, mas apenas, e então somente, levantar os fatos ocorridos durante o período que compreende a gênese, a ascensão e o fim do grupo. Note-se que mencionei ascensão e fim, sem passar pela queda, porque simplesmente não houve queda. Tal qual Pelé, e ao contrário do Ronaldo, o Cobra Parada parou no ápice, não tendo experimentado o amargo sabor da queda. Talvez seja esta a razão de sua transcendência, da sua perpetuação, de ter virado mito.


Por isso a importância deste depoimento, dessas memórias contidas na Incrível História do CPNES, grupo do qual este autor, devo lembrar, foi participante ativo, embora muitos suspeitassem que fosse passivo. Afinal, essa gente de teatro...


Ativo ou passivo, uma coisa é certa: não há nesta “Incrível História do CPNES”, desde o primeiro capítulo, até este, o décimo quinto, e não haverá nos próximos, um único fato que não seja a mais pura acepção da verdade. Assim, pretendem estas modestas e bem escritas memórias servir de base para estudos de historiadores sérios e isentos que, comparando com os fatos da época, determinar a real influência do Cobra Parada, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia...


E por falar em fatos, fato é que a fatídica estréia do Cobra Parada contou com algumas participações especiais. Algumas especialíssimas, como por exemplo, a participação ativa de um gaúcho, por mais paradoxal que possa ser essa frase, vez que gaúchos não constam no imaginário brasileiro exatamente como ativos...



Os juízes em mural - homenagem do povo itliano
 Ativo ou passivo, o fato é que na Itália, no início dos anos 80, os juízes Paolo Borsellino e Giovanni Falcone começam a maior ação de investigação sobre a máfia italiana, que culminou em centenas de prisões e no conseqüente desmantelamento da mais que centenária instituição criminosa. No início dos anos 90 ambos foram mortos em atentados e são considerados heróis na Itália.


Mas voltando ao início dos anos 80, justamente no período em que os juízes iniciavam uma incrível e inédita perseguição aos mafiosos, aportava no Brasil, mudando-se às pressas, trazendo apenas as roupas do corpo, uma família italiana, mais precisamente napolitana, os Pepperoni.


Não vai aqui, Deus (assim, com letra maiusculíssima em sinal de temor e respeito) é testemunha, nenhuma intenção de insinuar que a nobre família Pepperoni fosse mafiosa. Longe disso. Na verdade, os mafiosos, eméritos glutões, adoravam ir ao restaurante, simples, porem digno e acolhedor, dos Pepperoni, onde comiam a se fartar os famosos picantes napolitano do salsiccia, um sausage de carne de porco seco picante de Nápoles, uma espécie de salame que misturava carnes suína e bovina, bastante apimentado. 

Pois como os mafiosos não saíam do restaurante dos Pepperoni, o patriarca, produtor do tal salame e filatelista profissional, temendo ser acusado de acobertar e dar guarida aos chefões do crime organizado, julgou mais prudente fugir para este acolhedor país, até porque não saíam mais da frente de sua casa/restaurante agentes federais italianos, querendo investigá-lo, e matadores da máfia, esperando uma oportunidade para calar definitivamente toda a família, que certamente ouvira muitas conversas e podia vir a ser inconveniente.


Temendo, com toda razão, policiais e bandidos, a família um dia fingiu que ia comprar cigarro no bar da esquina e nunca mais voltou. Além da roupa do corpo, trouxeram apenas um grande carregamento daqueles picantes napolitanos do salsiccia, que haviam despachado para o porto na véspera. Sua intenção era pegar um navio para o Rio de Janeiro, porque era uma cidade alegre, mas ao comprar passagem imaginaram que aquele porto alegre em que desembarcariam seria na cidade maravilhosa. Qual não foi sua surpresa ao desembarcarem a milhares de quilômetros, na capital do Rio Grande do Sul.


Na verdade, tiveram sorte, porque ao abrirem um singelo restaurante, verificaram que os gaúchos adoravam um bom salame...


É bom aqui fazer um parêntese: ao dizer que os gaúchos adoravam um bom salame não faço, em absoluto, qualquer alusão ao aspecto fálico da especiaria, nem tampouco a qualquer eventual característica peculiar do bravo, ativo e viril povo gaúcho.


Ativo ou passivo, o fato é que os gaúchos adoraram o tal picante “napolitano” do salsiccia, mas, achando aquele nome muito comprido, passaram a chamar aquela deliciosa iguaria de pepperoni. Semelhante metonímia ocorreu com iguaria criada por um bauruense conhecido por Bauru, que se transformou no famoso sabduíche Baurú.


Assim, os Pepperoni introduziram o pepperoni no Brasil. Assim foram enriquecendo, ou ao menos ficando em situação confortável. Mas o velho Gaetano, o patriarca, e seus filhos adolescentes, não queriam que se repetisse a história da Itália, não queriam nunca mais calar diante da opressão. Pelo contrário, decidiram que lutariam contra a ditadura. Foi aí que um de seus filhos teve a idéia de ir à Brasília, de entrar como estudante numa escola militar e lá ver o que podia fazer. E lá caiu estava o jovem Pepperoni, ao lado dos membros do Cobra Parada, aos quais resolveu se aliar, fingindo-se de gaúcho, o que, aliás, faz até hoje, vestindo com suposto orgulho uma camisa azul e preta e falando muito, e falando muito alto e falando muito grosso.


E lá estava o Pepperoni, na estréia do Cobra Parada e em tudo mais que fez o grupo. Lá estava o Pepperoni, emprestando ao grupo sua potência vocal, sua inteligência lógica virginiana, sua figura imponente de filho da aristocracia, sua cultura européia, sua musicalidade, seu senso de justiça, sua loucura verborrágica e sua falsa empáfia gaúcha. Lá estava o Pepperoni, primeiro pelo objetivo revolucionário, depois pelo afeto ao grupo e ao autor destas singelas memórias, que, diga-se, lhe tem o mesmo afeto, por sinal ainda crescente.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A Incrível História do CPNES - Parte 14

O MEIO – Mega-sucessos do começo dos anos 80

Toda manifestação artística é influenciada pelo meio cultural, social e político em que está inserida. O que se ouvia no início dos anos 80, época na qual se amalgamou o Cobra Parada Não Engole Sapo, o grupo que, não me lembro se cheguei a comentar, mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia? Quais eram os mega-sucessos musicais?

Sempre tive um pé atrás com grandes sucessos populares. A roda viva da produção musical determina qual música de qual artista será sucesso, segundo um rol de critérios do qual a qualidade não necessariamente faz parte. Portanto, me seduz a teoria de que, se todo mundo ouve alguma coisa, necessariamente essa coisa é uma merda. Mas nem sempre foi assim.

Com vocês, os 3 ultra-mega-sucessos do inicio dos anos 80, quando os membros do Cobra Parada se conheciam:

1. “Tá tudo muito bom... Bom. Tá tudo muito bem... Bem. Mas realmente, realmente, eu preferia que você estivesse... NUA”. Pode não parecer, mas há qualidade nessa letra. Primeiro pelo momento de anseio à liberdade não apenas sexual, como pode sugerir esse trecho da letra, mas, sobretudo, de expressão. Numa época de forte censura, essa música (letra, melodia e forma coloquial de cantar) ousou traduzir a expressão e o desejo de uma juventude que se transformava e exigia a transformação política e social do país. A linguagem pop de Evandro Mesquita e da Blitz em “Você Não Soube Me Amar” marcou uma geração e redefiniu o gosto popular. Segue mais um trechinho, para que vocês não pensem que era só aquilo:
      Foi besteira usar essa tática
      Dessa maneira assim dramática
      (Eu tava nervoso)
      O nosso amor era uma orquestra sinfônica
      (Eu sei)
      E o nosso beijo, uma bomba atômica...

2. “Me toma no crescer de um beijo muito louco, me implodindo aos poucos no universo a desvendar a vastidão do teu amor”. Assim cantava uma explosiva Zizi Possi, que já fizera certo sucesso havia alguns anos, desde 1979, com “Pedaço de Mim”, que cantou em dueto num disco do Chico Buarque. Mas explodiu mesmo 3 anos depois, com essa impactante “Asa Morena” de um compositor gaúcho chamado Zé Caradípia (que nunca emplacou mais nada). Talvez nenhuma outra cantora ou cantor fizesse dessa música o sucesso que foi (e que ainda é). Zizi Possi, com seu registro de voz único, a transformou num sucesso eterno.

3. “Hum... Mas se um dia eu chegar muito estranho, deixa essa água no corpo lembrar nosso banho. Mas se um dia eu chegar muito louco, deixa essa noite saber que um dia foi pouco”. O nome dessa música é “Muito estranho”, de um cara chamado Dalto. Porque fez tanto sucesso? Não faço idéia. Talvez porque Dalto fosse um cara realmente muito estranho. Um anti-cantor, um anti-estrela, anti-celebridade. Um tímido, feio, corpulento e desengonçado, que cantava com estranha leveza essa música romântica, na letra e na melodia. O refrão ele cantava em falsete. A introdução era poderosa (Pararan... pararan... pararãraaaaan...) e, de fato, era muito boa de ouvir.

E os respectivos refrões?
“Você não soube me amar, você não soube me amar, você não soube me amar, você não soube me amar”.
"Me faz pequena, asa morena, me alivia a dor, aliviando a dor que mata, me faz ser teu amor”.
“Cuida bem de mim então misture tudo dentro de nós...”

Os sucessos de Dalto, Zizi Possi e Blitz eram tocados a toda hora, em todo lugar, dentro dos ônibus, nas lojas, nas salas de espera dos consultórios. Cozinheiros, engenheiros, políticos e estivadores os cantavam. E quem há de negar que eram muito bons, cada um a seu modo? Eu não enfrentaria filas para ver um show do Dalto, mas “Muito Estranho” tinha lá suas qualidades. Não há comparação com as mega-bombas de hoje.

Já para ver a Zizi nós enfrentamos fila. Havia no Brasil, naquele momento, o Projeto Pixinguinha, que levava para os mais diferentes pontos do país, a preços simbólicos (algo como 10 reais hoje), shows dos maiores músicos do momento. Para Brasília vieram muitos, inclusive a Zizi Possi em seu momento de maior sucesso da carreira, com o seu mega-hit Asa Morena. Causou-me um impacto brutal vê-la, naquele momento, naquela fase da minha vida, cantar “me toma sem pensar num gesto muito forte, unindo o sul e o norte do meu corpo, frágil corpo, com a mais pura emoção”... Talvez ali eu, sempre frágil e inseguro, tenha percebido que a emoção engrandece e agiganta.

Nem me lembro mais que inesquecíveis (!) maravilhas eu vi no projeto Pixinguinha. Uma que me lembro, porque não daria para esquecer: Belchior fazendo ecoar “teu infinito sou eeeeeeeu...”, para depois finalizar com uma das maiores verdades já ditas sobre a juventude que vivíamos, nós os loucos:

Como é perversa a juventude do meu coração, que só entende o que é cruel e o que é paixão.

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