domingo, 10 de julho de 2011

100 ANOS DE PAULO GRACINDO, O CANÁRIO E O GAVIÃO

A memória e o efeito que ela nos causa é algo misterioso. A memória é um território insondável, física e psicologicamente. Fisicamente porque os cientistas têm grandes dificuldades em estabelecer com exatidão o local que a memória ocupa no cérebro e nem imaginam como ela se processa. Bem, imaginar talvez imaginem, afinal, são cientistas, e o mínimo que se espera de cientistas é que tenham imaginação. Mas o local onde se localiza a memória no cérebro e como ela se processa, cá prá nós, não tem a menor importância para mim e arrisco dizer que não interessa a você também, domingueiro leitor, que neste exato momento (não o momento em que escrevo, mas o momento em que você lê) não faz a menor ideia de onde este obtuso escritor quer chegar com essa introdução sobre memória. Calma, há tempo para se plantar e há tempo para se colher.

Vamos à colheita, pois: interessa-me aqui e agora, enquanto escrevo, o que a memória é capaz de nos causar à nossa frágil psique. Explico: ontem tivemos uma grande tragédia, que se colocada em perspectiva pode não ser tão grande assim, talvez nem seja tragédia. Entretanto, a memória emotiva nos fez, a mim e aos meus familiares, em especial à minha irmã Ana, inconsolavelmente mergulhada em tonéis de lágrimas, o favor de transformar aquilo numa grande, e real, tragédia.

Trata-se de um ataque cruel, sanguinário e nefasto ocorrido ontem no quintal de minha irmã. Um gavião sórdido e malévolo se aproveitou da solidão e da falta de movimentos rápidos que a pior idade (ao menos fisicamente falando) traz aos seres vivos, e atacou sem dó nem piedade um maravilhoso canário, membro da família há mais de 15 anos.  O pobre canarinho foi violentamente assassinado e só não foi levado devido à chegada de meu cunhado. Ao menos o canário pôde ter um enterro digno. E porque isso seria uma tragédia e não apenas a simples concretização de um vídeo da Discovery Chanel no fundo de casa? Por causa da memória e de seus mistérios. 

O lindo canarinho, que atendia pelo incomum nome de piu-piu, era de minha mãe, que se foi há quase 8 anos.  Ela amava aquele bichinho, que lhe retribuía o mesmo amor. Nós, que ainda sonhamos com nossa santa mãezinha, como se viva estivesse, sofremos como se tivessem, definitivamente, se fechado os seus olhos, que teimavam em nos olhar e cuidar através daquela avezinha simpática e delicada. 

Minha irmã acabou se distraindo o resto do dia, com a chegada, instantes depois da tragédia, do lindo Antonio, em sua primeira visita a sua casa e a Campinas, vindo de 300 kilômetros longe dalí. Filho da neta predileta da minha mãe (desculpem-me Riana e Amanda), a visita do Antonio, o inestimável, foi como se Dona Lourdes dissesse que seus olhos apenas haviam mudado de veículo.
Minha irmã se distraiu com o pequeno, mas eu não. 

Mergulhado neste flat em que me escondo de tudo, menos de mim mesmo, minha memória voou, como se asas tivesse, e na verdade tem, mas voou como se pegasse carona nas asas do piu-piu, quem sabe nas do maldoso gavião. E repousei lá, na minha adolescência, período de maior convivência com minha mãe. Período em que ficávamos horas a fio em frente à televisão, televisão, que, diga-se, merecia isso de nós. Como as asas eram o centro das recordações, lembrei-me logo do vôo do Zelão no último capítulo de uma das melhores novelas de todos os tempos, O Bem Amado. Minha mãe adorava o Odorico Paraguaçu, disparado o maior personagem da história da novela brasileira e universal.
Naquele tempo as novelas tinham alta qualidade, eram escritas por gente de primeira, no caso Dias Gomes, gênio absoluto. O intérprete do Odorico? Outro gênio: Paulo Gracindo, que faria 100 anos nesta semana que entra, mais precisamente sábado, dia 16. Estamos na semana do centenário do melhor ator brasileiro de todos os tempos e até agora não li nada a respeito - a bem da verdade, há sites que dizem que ele nasceu em 16 de junho, mas é fato que no mês passado também nada se falou... Tudo bem, consideremos que há mais ou menos 100 anos ele nascia.


Se há uma tragédia da humanidade foi o fogo na Globo, que queimou as cópias da novela O Bem Amado, uma “novela das 10” que começava realmente às 10, o que era tarde para a época, muita gente já estava na cama.



Odorico, prefeito de Sucupira, tinha obsessão de inaugurar o único cemitério da cidade, construído como a principal promessa de sua campanha para prefeito, já que, sempre que morria alguém na cidade, o corpo devia ser levado para a cidade vizinha para ser enterrado (o discurso de campanha está no youtube). O problema de Odorico é que, após a inauguração do cemitério, ninguém mais morria. E assim vai a novela, com a imprensa e a oposição criticando o prefeito por ter construído um cemitério que não serve para nada e o prefeito, desesperado, fazendo de tudo para que alguém morresse, como trazer moribundos de outras cidades, que milagrosamente melhoravam em Sucupira, ou contratar o maior matador do nordeste, o Zeca Diabo, como delegado. Pena, pra Odorico, que o matador tinha acabado de fazer um juramento para não matar mais ninguém. Mas ele provocou Zeca Diabo para que matasse alguém durante toda a novela, até que, no último capítulo, Zeca Diabo quebra a promessa e mata. Quem? O próprio Odorico inaugura o cemitério. É sua “vitória” final.


A intepretaçao de Paulo Gracindo foi inesquecível, a maior até hoje na história, sem nenhum exagero.

O personagem já era genial no texto da peça de Dias Gomes, que também escreveu a novela.  Paulo Gracindo aproveitou a liberdade dada por Dias Gomes, que o convenceu a interpretar papel, e enriqueceu ainda mais o personagem com maneirismos e expressões divertidíssimas.


Para quem não conhece, ou para quem quer se lembrar, seguem algumas das pérolas que recheavam todos os capítulos da novela.


"É com a alma lavada e enxaguada que lhe recebo nesta humilde cidade"




"Vamos dar uma salva de palmas a esta figura trepidante e dinamitosa que foi o Seu Nono"


"Esta obra entrará para os anais e menstruais de Sucupira e do país"


"Isto deve ser obra da esquerda comunista, marronzista e badernenta"


"Quem é que pode viver em paz mormentemente sabendo que, depois de morto, defunto, vai ter que defuntar três léguas pra ser enterrado?"


"Vexame para o nosso prefeito, agora em estado de defuntice compulsória, ter que andar três léguas para ser enterrado."


"Se eleito nas próximas eleições, meu primeiro ato como prefeito será o de cumprir o funéreo dever de fazer o construimento do cemitério municipal."


"Tomo posse como prefeito desta cidade com as mãos limpas e o coração nu, despido estripitisicamente de qualquer ambição de glória. Nesta hora exorbitante, neste momento extrapolante eu alço os olhos para o meu destino e, vendo no céu a cruz de estrelas que nos protege, peço a Deus que olhe para nossa terra e abençoe a brava gente de Sucupira."


"Calunismos. Eu também sou meio socialista. Não da ponta esquerda... do meio de campo, caindo pra direita!"


"Como diria o rei dos persas, Dario Peito de Aço, pra cada problemática tem uma solucionática. Se não disse, perdeu a oportunidade de ser citado por mim".


"Meu caro jornalista, isso me deixa bastantemente entristecido, com o coração afogado na deceptude e no desgosto. Numa hora em que eu procuro arrancar o azeite-de-dendê do estágio retaguardista do manufaturamento (...), me vêm com esse acusatório destabocado somentemente porque meia dúzia de baiacus apareceram mortos na praia."


"Seu Dirceu, não fique aí com essa cara de seu-Malaquias-cadê-minha-farofa! Tome os providenciamentos necessários!"


"Seu Zeca Diabo, o senhor não vai matar, vai suicidar o homem apenasmente..."


"Pare com esse perguntório e essa cara de disenteria. Temos é que tratar dos providenciamentos inauguratícios do cemitério".


"Vai ter uma confabulância político-sigilista sobre as nossas candidaturas".


"É uma alegria poder anunciar que prafentemente vocês já poderão morrer descansados, tranqüilos e desconstrangidos, na certeza de que vão ser sepultados aqui mesmo, nesta terra morna e cheirosa de Sucupira"


"Vamos botar de lado os entretantos e partir para os finalmentes”



Depois de O Bem Amado, Paulo Gracindo interpretou o Coronel Ramiro Bastos em Gabriela, novela inspirada na obra de Jorge Amado. Gabriela foi maravilhosa e dela também guardo ótimas lembranças, como o impagável Tonico Bastos e sua cara de cínico, a lindíssima Malvina (a estreante Elisabeth Savalla), por quem me apaixonei perdidamente. Teve também a visão divina de Sonia Braga subindo no telhado. Mas o melhor da novela era mesmo o sinistro coronel Ramiro Bastos (Paulo Gracindo, sensacional), representando o poder e a opressão, e a disputa com a oposição. 

Aquela novela certamente influenciou muito na minha vida, e certamente na de muitos outros e acabou sendo a base da minha consciência política de muitos que, anos depois, formaram o Cobra Parada Não Engole Sapo que, como todos sabem, tirando os que não sabem, foi um grupo que, nos anos 80, mudou a cara de Brasília, do Brasil e do Mundo nos campos da arte, da política e da filosofia. Voltando aO Bem Amado, a novela acaba com Zelão (Milton Gonçalves) que sonhava em voar, subindo na torre da Igreja vestindo as asas feitas por ele. E de lá, com o povo desesperado em baixo, ele pula. Ele pula e... E voa, mas voa tão lindo que só vendo (tem lá no youtube – procura, não espere as coisas caírem do céu), como uma metáfora sobre a possibilidade do sonho.

Pois desta vidinha nossa também voaram Paulo Gracindo, Dias Gomes e minha santa mãezinha. Agora, por fim, voou o delicado e simpático canário.

Ao som das belíssimas trilhas de Gabriela (que tinha até Elomar, acredite) e de O Bem Amado (composta por Vinícius e Toquinho), comandado pelos vôos da minha memória solta e inspirado por tudo o que é belo nesta vida, que nenhum gavião consegue matar, escrevo este pôsti meio desconexo, como singela homenagem aos 100 anos de Paulo Gracindo, o Bem Amado.
Viva Odorico!!!

“Aqui a nossa história pára, pois tudo que sabemos daqui em diante é de ouvir contar. Não que a gente não acredite, pois se você for a Sucupira, vai ver que lá ninguém duvida...E Zelão voou. Se você duvida, é um homem sem fé” Dias Gomes   

quarta-feira, 6 de julho de 2011

OS 10 MAIS - CHICO SCIENCE, MUITA FUMAÇA NO AR!

Afrociberdelia é um disco para se ouvir, ouvir muito, para se dançar, dançar muito. Disco para chacoalhar a cabeça. Por isso quase não vou falar.
O disco já começa a milhão, com uma chocante profissão de fé (coisa de quem tem o que dizer ao mundo):

Eu vim com a nação zumbi!
Ao seu ouvido falar
Quero ver a poeira subir
E muita fumaça no ar
Cheguei com meu universo
E aterriso no seu pensamento
Trago as luzes dos postes nos olhos
Rios e pontes no coração
Pernambuco em baixo dos pés
E minha mente na imensidão

Você não será mais o mesmo. "Afrociberdelia", o segundo disco de Chico Science e Nação Zumbi, chegou ao 5º lugar na World Music Charts da Europa. Entre 11 e 27 de julho de 96, a banda faz nova turnê européia, percorrendo 13 cidades. Lá, tocaram com Coolio, Beck, Ministry e Nick Cave. No Festival de Montre. O Paralamas fez abertura de shows do Chico Science, e não o contrário

Folha de São Paulo, domingo, 2 de fevereiro de 1997

O líder do movimento manguebeat, Chico Science, e o comediante e músico Antônio Nóbrega estarão unidos no Carnaval pernambucano para combater músicas como "Segura o Tchan" e defender os ritmos locais, como o frevo e o maracatu. Os dois vão se apresentar juntos pela primeira vez amanhã e terça-feira a partir das 20h, na praia da Boa Viagem, em Recife (PE). Estarão sobre um trio elétrico, durante o desfile do bloco Na Pancada do Ganzá, criação de Nóbrega. Chico Science vai apresentar músicas dos seus dois CDs, "Da Lama ao Caos" e "Afrociberdelia", que misturam rock com maracatu, pop com tradição.

"O maracatu, que é eletrizante, vai combinar bem com o trio elétrico", disse ele.

"Um passo à frente
E você não está mais no mesmo lugar"
Eu só quero andar
nas ruas do Brasil
Andar no mundo livre,
Sem ter sociedade
Andar com as meninas, de eletricidade
Segura essa levada, segura o maracatu!






Folha de São Paulo, segunda, 3 de fevereiro de 1997
Science morre à beira do mangue
Chico Science, 30, morreu a poucos metros de um mangue, o símbolo do movimento que criou e liderou
.
Macô, com Gilberto Gil, é uma delícia.
De zambo nada tu só quer mamata
Tu só quer ficar na minha
Porque eu tô de mão cheia
Olha só que menina bonitinha
Pra poder ficar comigo
Tem que saber de cozinha
Ô menina, Ô menina, Ô menina, Ô!
Macô! Macô! Macô! Macô! Macô!

Folha de São Paulo, segunda, 3 de fevereiro de 1997
O corpo do cantor e compositor pernambucano Chico Science, morto domingo à noite em um acidente de carro, entre Olinda e Recife, foi velado ontem no centro de convenções do Memorial Arcoverde, em frente ao local onde ocorreu o acidente.O caixão com o corpo do artista deixou o centro de convenções, na divisa de Olinda e Recife, às 15h30 (16h30 em Brasília), transportado por policiais da guarda de honra.Até aquela hora, dez mil pessoas haviam passado pelo local para homenagear o cantor, segundo avaliação da PM. Cerca de mil pessoas permaneceram no prédio até a saída do corpo.O governador Miguel Arraes decretou ontem luto oficial no Estado por três dias.


A estrovenga girou

Passou perto do meu pescoço
Corcoviei, corcoviei
Não sou nenhum besta seu moço

A coisa parecia fria

Antes da luta começar
Mas logo a estrovenga surgia
Girando veloz pelo ar.
Essa aí em cima é o começo de Cidadão do Mundo, uma das músicas mais delirantes que conheço. O jeito de cantar do Chico Science é único, se bem que muito imitado até hoje, quase 15 anos depois de sua morte. A batida da banda vai pontuando a crônica popular que ele canta contando, ou conta cantando...




Chico Science é destaque em edição do "New York Times"
Crítico vê no mangue beat impacto comparável à Tropicalia. Assinado pelo crítico de música Jon Pareles, o artigo apresentou Science como fundador do movimento de maior impacto da música brasileira desde a Tropicália. O texto foi publicado em três colunas, em alto da página. O jornal relata o surgimento do mangue beat e faz referência ao manifesto (Caranguejos com Cérebro) assinado por Science e Fred Zero Quatro. Segundo o jornal, o movimento transformou Recife em um novo centro do rock brasileiro.
A versão de “Maracatu Atômico”, clássico do Jorge Mautner, é antológica. O clipe, ótimo, não parava de tocar na MTV. “O encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont”. Nada como o Firmamento para trazer ao pensamento a certeza de que estou sólido, e a imensidão aérea é ter o espaço do firmamento no pensamento, e acreditar em voar algum dia.  

Folha de São Paulo, terça-feira, 4 de fevereiro de 1997
Um grupo de 12 cortadores de cana da Zona da Mata, vestidos de guerreiros do maracatu, escoltou ontem o corpo de Chico Science, do velório ao carro de bombeiros que o conduziu ao cemitério. O escritor Ariano Suassuna chorou em frente ao caixão. O artista Antonio Nóbrega também homenageou o compositor. “Foi uma perda trágica, brutal”, disse. Apesar da presença de artistas e pessoas famosas no velório, foram os anônimos cortadores de cana dos maracatus da Zona da Mata quem mais emocionaram os fãs e os parentes do cantor.Trajando roupas típicas, coloridas e com guizos presos às vestes, os caboclos-de-lança (nome do personagem do maracatu) foram saudados com gritos de ``Chico, Chico''. Os fãs cantavam músicas de seu ídolo, enquanto os maracatus dançavam em frente ao caixão.

Folha de São Paulo, quinta-feira, 6 de fevereiro de 1997
Vamos parar de morrer, gente inteligente?

JOSÉ SIMÃO

Buemba! Buemba! Macaquito Simão Urgente! Vamos parar de morrer, gente inteligente? A bruxa tá solta! Ficamos três vezes menos inteligentes: Antonio Callado, Chico Science e Paulo Francis. Daria pra morrer um burro de vez em quando? O negócio é começar a tomar pílula pra emburrecer!
Gilberto Gil “Nunca imaginei que poderia sofrer um acidente de carro. Velocidade não se casa com a imagem que tinha dele. Achava-o dócil, manso, suave.”
Fernanda Abreu - "Ele tinha uma presença de palco incrível. Era o Mick Jagger do mangue beat, uma figura importante para a música brasileira, mas ainda iria se tornar muito mais importante. Ele tinha consistência”
Herbert Vianna - "Estou arrasado. Desde que fizemos uma turnê juntos com Chico Science e Nação Zumbi na Europa, passamos a tocar 'Manguetown' em todos os shows. Para mim, foi a melhor música do ano. Chico era o farol da nossa galera, apontavam para a frente e o resto de nós vinha atrás."
Alceu Valença, cantor e compositor - "O Chico fazia um bate-bola entre o maracatu, o rap e o funk. Era um grande artista, com uma presença de palco muito forte. É horrível, uma perda inestimável."
Marcelo Frommer (Titãs) - "Estou chocado. O Chico e o mangue beat trouxeram novidade em meio à banalização da música baiana. Ele fez uma releitura da cultura do nordeste, redimensionando-a como uma coisa rica."
Carla Perez, dançarina da banda É o Tchan - "Fiquei triste, mas não era muito fã dele. Ele criticava muito a música baiana e o É o Tchan."

Esta noite sairei, vou beber com meus amigos... ha!
E com as asas que os urubus me deram ao dia
Eu voarei por toda a periferia
Vou sonhando com a mulher
Que talvez eu possa encontrar
E ela também vai andar na lama do meu quintal...
Manguetown

Sangue de Bairro é um rockão pesado com sotaque pernambucano (tem até triângulo) em que ele vai citando os nomes de todos os cangaceiros do bando de Lampião, que , por fim, é degolado.
Quando degolaram minha cabeça passei mais de dois minutos vendo o meu corpo tremendo. E não sabia o que fazer, morrer, viver, morrer, viver...

O primeiro disco, “Da Lama ao Caos”, também poderia estar na lista, é fantástico e importante para a música brasileira, foi o marco que deslocou o eixo da criação musical brasileira e influenciou toda a geração posterior. Mas o disco seguinte, depois do sucesso internacional, veio carregado de expectativas. Normalmente o segundo disco de qualquer músico ou banda tende a ser menos bom, mesmo que ótimo. Mas até nisso Chico Science mostrou que era singular. “Afrociberdelia” é ainda melhor, tem espectro mais amplo e, nesse sentido, acaba sendo mais rico. Chico Science morreu quando estava se transformando rapidamente na figura mais importante da produção cultutal brasileira, estava navegando em tudo, literatura, cinema teatro. Planejava até uma novela pela internet... Há 15 anos...

Folha de São Paulo, terça, 4 de fevereiro de 1997
Morte encerra os anos 90 no Brasil
PEDRO ALEXANDRE SANCHES
A dimensão da morte de Chico Science não é menor que a de tragédia comparável à morte precoce de Dolores Duran ou ao abandono da cena pelo mutante Arnaldo Baptista. O acidente de Chico faz lembrar que os anos 90, no Brasil, se encerram com três anos de antecipação. O único movimento musical que se pôde produzir aqui desde a tropicália -e lá se vão 30 anos- acaba de ser abruptamente abortado.

Com Chico Science se vai o pedaço mais comunicativo, mais disposto a dialogar com as belezas e mazelas do pop nacional.Por um curto lapso de tempo, nos parecia que finalmente o trem da música popular voltava aos trilhos. Finalmente alguém prestava homenagem à revolução tropicalista tentando superá-la, admitindo que ela era coisa do passado.
Por esparsos instantes, nos parecia que o Brasil se engajava no bonde da história e embarcava na modernidade da descentralização, no reconhecimento da virtude da inteligência fermentada numa cidade excêntrica como Recife, num país excêntrico como o Brasil. Por um pouquinho de tempo, parecia que o futuro existia, que uma história começava a ser contada, que essa história ia ser longa e ia mudar -para melhor- o sentido das coisas. Agora, da lama ao caos, tornam-se ínfimas de novo quaisquer expectativas, quaisquer esperanças.
           
           Deixar que os fatos sejam fatos naturalmente
           Deixar que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente...


quinta-feira, 30 de junho de 2011

OS 10 MAIS - NÖEL ROSA, PERTO DE VOCÊ ME CALO

O cara era um boêmio. Tinha o queixo meio torto, aliás, quase não tinha queixo, por conta de um parto complicado e da barbeiragem do médico que o puxou pela cabeça com um instrumento e lhe quebrou o queixo. Ou seja, seu parto foi um parto. Tinha dificuldade para comer e sentia certa vergonha de comer em público, mas beber, podia... E bebia, ein! Figura inteligente e alegre. Estudava medicina, mas preferia a música, que compunha nos bares, matando aula. Abandonou o curso, evidentemente. Não iria longe como médico. Ia atrás de onde tinha bar, música, mulheres e boêmios. Adorava subir o morro, onde tinha vários amigos. Antes de Nöel, o samba era coisa do morro, chegou a ser proibido lá em baixo, para as pessoas “de bem”. Amava sua Vila Isabel, também rica em bares... e samba
Estátua numa praça na Vila Isabel
Lá em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba!
Uma tarde, lá por 1930, voltando do morro, pensava na penúria daquela gente quando passou pelo quartel e a banda estava executando, no bom sentido, o hino nacional. Qualquer mortal passaria e pronto. Mas o tal do Nöel não era qualquer um: chegou em casa, misturou o hino com a penúria e compôs “Com Que Roupa”, sim, aquele delicioso samba que todo mundo conhece (“com que roupa eu vou pro samba que você me convidou”). Da próxima vez que ouvir essa música, perceba como o início é feito em cima do nosso hino.
Agora eu vou mudar minha conduta 
(Ouviram do Ipiranga às margens plácidas)
Eu vou à luta, pois preciso me aprumar
(De um povo heróico o brado retumbante)
Quando a música foi lançada, fez sucesso instantâneo: todo mundo cantava, foi a mais executada naquele carnaval.
Nöel trouxe o samba do morro para o asfalto, para a classe média. Num período de sete anos, entre noites de música e embriaguez, ressacas, desilusões amorosas e o tratamento de sua tuberculose, Nöel compôs mais de 200 músicas, dezenas são obras-primas absolutas. As melodias e as letras de Nöel são tão boas que sobrevivem uma sem a outra. Ainda quero ouvir um disco instrumental com músicas do Nöel. E as letras? Escrevia verdadeiras crônicas em verso; criava visões inusitadas, sempre buscando imagens sugestivas para transmitir sua visão e seus sentimentos, que aliás, eram (e ainda são) os sentimentos universais, sentimentos do povo. Veja só como acaba “Meu Barracão”, em que um ex-morador do morro fala da saudade de um barraco em que morou:
Mas veio lá da Penha hoje uma pessoa
Que trouxe uma notícia do meu barracão
Que não foi muito boa
Já cansado de esperar, saiu do lugar
Eu desconfio que ele foi me procurar..
 


Ao animar um barracão, dando-lhe sentimento e poder de decisão, Nöel conseguiu transformar uma tragédia (um barraco arrastado provavelmente pela chuva – sim, isso sempre existiu) num ato de amor e amizade. Nöel vê tudo de um ponto de vista humano e emocional. Suas mulheres inspiraram muitas canções, como “Três Apitos”, que ele fez para Josephina, uma de suas namoradas, uma operária. Nessa música, divina, ele coloca toda a angústia que acompanha os apaixonados, além de animar coisas, como chaminé e fábrica, dando-lhes sentimentos e intenções.


Josephina, a Fina
Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você. 
 
Mas você anda sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê. 


Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro,
Por que não atende ao grito tão aflito
Da buzina do meu carro?


Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho,
Não faz fé com agasalho,
Nem no frio você crê.

Mas você é mesmo
Artigo que não se imita,
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você.

Emoção mesmo sentia por Ceci, o grande amor de sua vida, embora fosse casado (meio à força) com outra mulher. Ceci era uma cantora de cabaré, cantora y otras cositas más, o que tornou complicado que vivessem juntos. O amor deles foi tórrido e duradouro. Vejam-na na foto.

Nöel ficou doente, tuberculose, e se afastou para Minas, para se tratar. Ficou um bom tempo lá, mas bastou melhorar um pouquinho e ele voltou com tudo para os amigos de boemia, dentre os quais Cartola, Vadico e Aracy de Almeida (que várias vezes o levava carregado para casa), para as mulheres e, evidentemente, para Ceci. É claro que a doença também voltou e desta vez definitiva e rápida. Mas deu tempo de fazer músicas maravilhosas, como “Último Desejo”, poesia para ler, reler, decorar, recitar, cantar, sobretudo cantar, porque a melodia é das mais lindas já compostas em toda a história deste louco mundo. A música é sua despedida de Ceci, e praticamente da vida. Uma música carregada de amargura que ele mandou seu amigo Vadico entregar a Ceci. Ceci recebeu ao mesmo tempo a letra da música e a notícia da morte de Nöel.

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar sem violão

Perto de você me calo
Tudo penso nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero seu beijo
Mas meu ultimo desejo
Você não pode negar

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga, que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação

E às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que o meu lar é um botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou prá mim

Ah, essa melancolia temperada com ironia e com inocência...
Quando morreu aos 27 anos, já tinha mais de 200 músicas, dezenas delas obras-primas. Consta que morreu cantarolando. Por tudo isso a música de Nöel Rosa é moderna e atual, atemporal, porque amores frustrados e tristeza sempre existirão. Alegria e amor, idem. E ouvidos delicados e mentes curiosas e perspicazes também.
Quer mais uma prova do quant o cara é bom? 

Olha o time que se juntou para gravar um disco duplo, o “Songbook Nöel”, gravado em 1991, com 21 músicas maravilhosas: Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, João Bosco, Djavan, Maria Betania, Gal Costa, Carlos Lyra, Nelson Gonçalves, Luiz Melodia, Ney Matogrosso e uma porção de gente desse nível. Imagina o disco que saiu da mistura dessa gente e com o gênio Nöel Rosa. Um disco que reúne tanta gente boa cantando músicas do melhor de todos tem que estar entre os 10 mais, entre os 5 mais, entre os 1 mais!

Boa viagem com Nöel Rosa, o Machado de Assis da música brasileira. 

VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS

Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, tenha certeza disso. Quando? Sei lá, quando menos você esperar, ou quando você se abrir a isso. Há vários caminhos, menos o querer, porque a pré-disposição afugenta: quem procura não acha. Quando você procura o homem dos seus sonhos, você está projetando nele os seus próprios atributos, você está querendo que ele seja um espelho do que você é ou gostaria de ser, e isso nunca fará você se maravilhar. O homem dos seus sonhos é aquele que, com os atributos dele, fará você se maravilhar, fará você querer ficar com ele e pronto, e ponto. Por isso, o homem dos seus sonhos virá, sempre, como um subproduto. É como a felicidade: sem essa de que basta buscar a felicidade que ela aparece, nada disso. Quem busca, se frustra, porque nunca alcança. Se você pensa que a felicidade é uma meta e você tem que lutar por ela, é porque está lendo muita besteira ou vendo Ana Maria Braga. Você só tem alguma chance de ser feliz se não buscar a felicidade, se viver a sua vida, se entregar a ela. Mas cuidado, porque se você fizer isso (se entregar à vida) apenas como um caminho para chegar à felicidade, aí dançou: este é o conceito de subproduto, somente chega por consequencia de alguma outra busca. Portanto, não procure o homem dos seus sonhos, porque se você procurar, ele não vai aparecer. Entendeu?

Não espere, ansiosa leitora fisgada pelo título deste pôsti, que eu vá dar alguma receita; vou apenas dar alguns exemplos e sugerir um filme. Os exemplos são de algumas mulheres envolvidas com o homem de suas vidas e este homem, já aviso, não sou eu. 

A primeira delas, sem querer, fugindo de um que procurou, já encontrou o seu, ou pensa ter encontrado, o que dá exatamente no mesmo, afinal, "assim é se lhe parece". Esse encontro já deu fruto, bem pequenininho e maravilhoso. A segunda parece que não está nem pensando em qual será o homem dos seus sonhos, mas onde o encontrará: decidiu que vai passar os próximos anos da sua vida bem longe daqui, estudando, aprendendo, vivendo a sua vida, enfim; uma ótima decisão. A terceira, que legal, parece ter encontrado o homem dos seus sonhos ainda antes de conhecê-lo, coisas desta era, que é de escuridão, como chamei no pôsti anterior, mas que também é de rutilância (procure no dicionário se quiser saber que raio é isso - ou leia Augusto dos Anjos); ou seja, esta terceira está prestes a conhecer o homem dos seus sonhos. A quarta pensa que já conheceu, está perdidamente apaixonada, chafurdando na paixão não correspondida, ou ainda não correspondida. E daí que não é correspondida? E daí que ele, ou eles (isto vale para todos os exemplos acima), não venha a ser o homem da sua vida no futuro? Problema algum. Viver um amor, uma paixão que seja, é precisamente viver a vida. Querer saber se o homem é o da sua vida, dá no mesmo que procurar por ele: em nada. Viva como se fosse e pronto. Não complique.

Sinto-me, neste instante, como a vidente do filme do Woody Allen que acaba de sair em DVD e está nas locadoras esperando por você. “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos” é imperdível. Uma velhinha é abandonada pelo marido rico (Antony Hopkins), que, com a confiança que lhe dão seus músculos de academia, seu hilário bronzeado artificial e seu dinheiro, acha que pode arrumar uma mulher mais nova – e pode, pois tem dinheiro (não me chamem de machista - é hipocrisia achar que o dinheiro não compra uma mulher).
Aí a esposa abandonada, desesperada, procura uma vidente, que começa a dar palpites (ela diz que são visões, afinal, ela é vidente) em sua vida, na vida de sua filha (Naomi Wats) e de seu genro (sei lá o nome do ator, pesquisa aí). A vidente garante que a velhinha (que a hipocrisia do politicamente correto chamaria de “senhora de melhor idade") vai conhecer o homem de seus sonhos. Ela se agarra nas previsões da charlatã (?) e em copos de uísque e aos poucos, e sem planejar ou tomar as rédeas, apenas vivendo a sua vida, vai superando o abandono. Enquanto isso, os outros personagens, menos crédulos, são confiantes (não foram abandonados), tomam as rédeas de suas vidas, sem esperar que as coisas caiam do céu, como se tivessem que acontecer só porque uma vidente disse que aconteceria. Decidem abandonar companheiros, profissão, valores; vêem sempre algo que não têm, como se nada do que esteja ao lado pudesse ser o melhor para si. É o desejo do ser humano de ser o que não é, de ter o que não tem.

No filme em cartaz nos cinemas, “Meia Noite em Paris”, há uma temática semelhante: os insatisfeitos e sonhadores procuram uma época que não é a sua. Os de hoje, os anos 20; os dos anos 20 querem a Belle Époque, os desta, a Renascença. É o complexo da era do ouro, que sempre achamos que é a anterior à nossa. Neste “Você vai Conhecer...”, a insatisfação está ligada ao amor, tangenciando a profissão. Uma cena brilhante sintetiza tudo isso: o marido da Naomi Wats, enquanto tenta escrever, no escritório de sua casa, olha, no prédio em frente, pela janela, uma morena sensacional, que sempre tira a roupa à janela. Aquilo é que é mulher! Começa a sonhar com ela e tanto ele faz (tanto mesmo) que acaba conseguindo. Quando se separa da esposa loira e vai, de mala e cuia pro apartamento da morena, logo na chegada vê, pela janela, sua ex, a linda Naomy Wats, tirando a roupa, deliciosa (!!!)... Ai que tentação de voltar, ein? Preciso falar mais? Woody Allen procura imagens belas e engraçadas para nos confrontar com nós mesmos e dar uma porradinha educativa. Aliás, dá porradonas; prepare-se para elas, porque o filme é, sim, muito engraçado, mas ao mesmo tempo consegue ter a dureza e o peso de um “Match Point” ou “Sonho de Cassandra”. Este talvez seja o melhor do filme, conseguir ser forte e ao mesmo tempo divertido.
Por isso, leitora ansiosa que acha que tem que ser feliz, largue agora mesmo seus livros de auto-ajuda com receitas inúteis, pare de ficar procurando o raio do homem dos seus sonhos, viva a sua vida, vá à locadora e aprenda com o mestre, com o filósofo que não usa a pena ou o teclado, mas imagens, som e fúria.

Frase inicial do filme: “A vida é cheia de Som e Fúria, e, no final, isso não significa nada” (Shakespeare)

terça-feira, 28 de junho de 2011

OS 10 MAIS - OS DOIS LADOS DO RAIMUNDO FAGNER

Ah, finalmente, recebi a primeira provocação sobre a minha lista dos dez melhores discos brasileiros de todos os tempos. O provocador foi o Panta, citando José Simão: “tudo na vida tem seu lado bom, exceto um disco do Fagner”. Evidentemente, os que riem com a piada, entre os quais eu me incluo, são aqueles do tempo em que os discos tinham dois lados, o “A”e o “B”. 


Aos filhos destes tempos de escuridão, que não viveram a gloriosa era dos discos de vinil, explico que, ao ouvirmos um disco recém comprado, quando não gostávamos das músicas do lado “A”, ou do lado que ouvíramos primeiro, sempre restava a esperança do outro lado, porque em muitos dos casos, os dois lados eram muito diferentes, os autores separavam as músicas por afinidade, e, quando não era assim, nossa sensibilidade se encarregava de se alinhar mais com esta ou aquela combinação de músicas, de modo que acontecia de adorarmos um lado e quase não ouvirmos o outro.

Vez por outra, quando compro um CD de um disco de vinil que eu tive e que há séculos não ouvia, me surpreendo com como ainda canto todas as músicas que eram de um lado e quase não reconheço as que eram de outro. Enfim, deu prá entender a piada do Zé Simão, não deu?



Dito isto, vamos ao Fagner e seu magnífico disco Raimundo Fagner, de 1976. Antes, no entanto, devo acrescentar que foram magníficos também todos os seus primeiros discos, como o Manera Fru Fru Manera (1973), Ave Noturna (1975), Orós (1977), e ainda os ótimos, mas irregulares 4 discos posteriores, que ainda traziam algumas músicas maravilhas, como nos discos de 78 (“Motivo” e “Revelação”) e de 79 (“Noturno”e “Ave Coração”).

Depois disso, com a entrada dos anos 80, Fagner foi caindo, ficando brega, até se transformar, mui justamente, em piada do Zé Simão. Um parêntese: nos anos 80 virou moda uns arranjos super bregas, que assolaram a música mundial, na onda na New Age, ou sei lá o nome. No Brasil teve um tal de Lincoln Olivetti, considerado por muitos um Deus, que fazia arranjos padronizados com um orgãozinho chatézimo. Fez arranjos prá todo mundo que queria vender bastante, de Fagner a Wando, de Gal Costa a Joanna, passando por Caetano, Gil, Rita e Roberto Carlos. Todos os discos que ele fazia os arranjos ficavam com jeito de disco dos Menudos, uma batida padrão que vocês, filhos dos atuais tempos de escuridão, felizmente não pegaram, livrando-se dos anos 80, os anos do rosa choque! Mas, como tudo na vida tem seu lado bom, exceto um disco com arranjos do Lincoln Olivetti, podemos considerá-lo importante para a popularizaçao da música independente e do Rock nacional, vinda do vácuo total e absoluto da MPB que chafurdava naqueles arranjos...


Quanto à escolha do "Raimundo Fagner", de 1976, eu bem que eu queria colocar entre os 10 mais um outro disco do Fagner, Orós, de 1977, que, com arranjos e participação de Hermeto Paschoal, é um dos discos mais belos e originais da música brasileira. Também poderia escolher o maravilhoso disco de estréia, Manera Fru Fru Manera. Mas acho este Raimundo Fagner ainda superior. Todas as 11 faixas são lindas na poesia, na melodia e nos arranjos (Fagner, Wagner Tiso e Robertinho do Recife). Fagner ainda não era popular, mas já era uma celebridade do meio musical. Atraiu músicos de primeiríssima: Robertinho do Recife, Robertinho Silva (que há pouco tempo vimos tocar com João Donato), Liminha (o “quinto Mutante”), Dominguinhos e Wagner Tiso. Sua voz especialíssima é anterior à sua fase de exageros vocais de doer os ouvidos. É um disco que nos inspira a cantar. Todas as músicas estão no mesmo nível, bem tocadas e bem cantadas. A ouvir com cuidado: “Conflito” (típica canção, cantada com voz límpida e sóbria); “Além do Cansaço”, um rockezinho com um embalo delicioso; a agreste “Matinada”, de poesia sertaneja simples e melancólica e a elíptica e insidiosa “Natureza Noturna”, feita sobre poesia de Capinam, que começa assim:
Eu tenho o mesmo segredo
Dos malditos solitários
Só a noite é minha amiga
A quem friamente confesso
A natureza noturna
Dos meus infernos diários
Fagner musicou grandes poesias de famosos poetas e sempre acertou em cheio, como com Cecília Meirelles, Florbela Espanca ou Fernando Pessoa. Neste disco ele investe em poetas menos conhecidos, mas maravilhosos, como Fausto Nilo, Abel Silva, Clodo e Capinam. Um disco belíssimo, dos dois lados, e quase perfeito. Ouça uma, duas, três vezes, e deixe que a música vá entrando em você. Não dói...Panta, favor fazer chegar este pôsti ao Zé Simão...

"Não guardo segredos mas sou bem secreto...
É que eu mesmo não acho a chave de mim”. (Abel Silva)


domingo, 19 de junho de 2011

OS 10 MAIS - TAIGUARA - VIAGEM - UMA BELEZA IMENSA


Não posso reclamar da minha infância (também, se pudesse, prá quem ia reclamar?). Brinquei muito, joguei muita bola; como caçula, fui protegido, era o reizinho da casa (falavam isso prá eu comer, porque, acreditem, eu era raquítico). Minhas irmãs às vezes apareciam com discos em casa, que tocávamos numa vitrolinha portátil. Foi ali que ouvi e me apaixonei por um tal de Taiguara, um disco chamado Viagem, que se não me engano foi presente do namorado de uma delas (Ana, diga de onde veio esse disco). Eu adorava todas as músicas. Mas cresci: primeiro virei adolescente e depois, até certo ponto, adulto. E esqueci o tal do Taiguara. Acho que não era chique gostar do Taiguara, era um cantor, como dizer, romântico. Certamente muitos dos milhares de leitores deste humilde blógui nunca ouviram falar do Taiguara. No máximo, viram algum coroa cantando Universo no Teu Corpo num karaokê (sim, tem essa música lá).

Depois, muito tempo depois, já não mais raquítico, eu comprei o CD e ouvi algumas vezes, mas nunca ouvi ouvindo mesmo, prá valer. Ouvi apenas o suficiente para perder o preconceito e saber que o Taiguara foi dos bons, autor de músicas lindíssimas. Mas daí a ter chance de entrar entre os 10 mais? Desde que comecei com essa tara psicótica de espalhar aos 4 cantos quais os meus dez melhores discos, tenho pensado em re-ouvir o Viagem, mas sempre deixo prá depois. A lista já estava totalmente fechada quando numa noite, me veio o Viagem num sonho-delírio, daqueles que a gente tem quando a Ponte ganha, vira líder e a gente come, toma cereja e vai dormir de barriga cheia. Aqui, neste flat em que me escondo da falta de um lar e dos CDs que ficam dentro dele, baixei o Viagem e ouvi. Ouvi, diga-se, nas piores condições possíveis: vendo Santos e Peñarol, conversando no MSN com a quarta gestão, doente, que dó, e escrevendo sobre Noel Rosa. Mas não teve jeito, mesmo com tudo isso, aquele som me arrebatou.

Começa com um naipe de metais du-caralho (o Word tá avermelhando essa palavra – desculpa, Word, não achei expressão mais apropriada) ponteado uma sutil guitarrinha. “Eu desisto, não existe essa manhã que eu perseguia, um lugar que me dê trégua ou que sorria, uma gente que não viva só prá si...”. Mas é depois desse arrasa-quarteirão que é “Universo no Teu Corpo”, que a gente percebe o quanto o disco é bom, porque na música seguinte, “Maria do Futuro”, entra um vocal feminino leve e sensual, quase gemendo de desejo ao ser acariciada por mim (gosto de pensar que posso arrancar isso de uma mulher). Aí entra o Taiguara, cantando. Bom prá... deixa prá lá. Nisso a música já está linda, mas quando ele entra, na segunda parte, naquela voz afinadíssima e suave, com “era noite de verão, vi o amor nascer num sorriso seu”, ah, não teve jeito: chorei; não devia confessar, mas sempre faço o que não devo, ou quase sempre. E depois dessa, como se não bastasse, entra a versão definitiva de Prelúdio No 2 (“você é isso, uma beleza imensa, toda a recompensa de um amor sem fim”), do monstro Luiz Vieira, com uma gaita fantástica. Aí é covardia, é apelação, é como o Shinyashiki na palestra colocar "Pai Herói", do Fábio Júnior, mandar a mulherada ficar de olhos fechados e lembrar o pai morto. Com uma diferença: no Taiguara tem arte e beleza! Lágrima que é pura, paz do meu amor. Em seguida uma instrumental divina, “A Transa”, linda, super-emotiva, que termina com ele declamando:
“vem, transpira a dor, transgride a treva fria,
e vem viver, transmutar, transpor, renascer,
vem meu amor”
Falando assim até eu iria...

Em seguida a faixa título, com “vai, abandona a morte em vida em que hoje estás... faz em fera a flor ferida e vai lutar” pontuada por metais e por uma boa guitarrinha distorcida. São poesia e música de primeira. Já acabou? Nada disso. Tem a tocante “O Velho e o Novo”, uma homenagem ao pai (depois de ouvi-la você vai, finalmente, se esquecer de vez da “pai herói”, do FJ) e outra versão definitiva: "Gente Humilde", do Chico e Vinícius. Mais: "Dia 5"em que ele ensina a cantar com suavidade, beleza e elegância, e outras três músicas com o Som Imaginário, lendário grupo mineiro composto por Wagner Tiso, Robertinho Silva, Tavito, Luis Alves, Laudir, Zé Rodrix e Nivaldo Ornellas. Imagina o que sai desse encontro. Entre essas com os mineiros, está a que fecha o disco, a instrumental Tema de Eva, de apenas um minuto e meio, mas que poderia ser tema de filme e ganhar Oscar. Viagem é um disco romântico, sim, o que, hoje sei, não quer dizer nada. É bom quando passa a adolescência e a primeira "adultice" e a gente pode se deliciar com o que antes era meio proibido.

Viagem, do Taiguara é um dos grandes discos já feitos neste Brasil-sil-sil, que, muito mais do que futebol, faz música de primeira. O disco é absolutamente imperdível, é de “uma beleza imensa”. Um alerta: se você está carente (e sei que está, senão não estaria sozinho lendo isto), cuidado com esse disco.

sábado, 18 de junho de 2011

À MEIA NOITE EM PARIS, WOODY ALLEN LEVARÁ SUA ALMA


José Mojica Marins, o Zé do Caixão, é cultuado por ter feito alguns fimles nos anos 60, entre eles o clássico “À Meia Noite Levarei Sua Alma”. Mas depois não fez nada tão relevante. O maior mestre do cinema de todos os tempos, o Alfred, no final da carreira já não tinha a mesma energia. Sim, seus filmes ainda eram melhores que a maioria dos daquela época, mas não eram mais de tirar o fôlego como os dos anos 50 e inicio dos 60. Billy Wilder, autor da maior comédia de todos os tempue), os (“Quanto Mais Quente Melhor”), considerado inaugurador do filme noir (Pacto de Sangautor do machadiano “Crepúsculo dos Deuses”, em seu crepúsculo fez filmes lindos, é verdade, mas, igualmente, não tinham mais o vigor de seus melhores. Vou parar nesses três. A vida é assim, isso acontece com todos, até com os gênios. Em todos os campos: Chico Buarque ainda compõe, mas não como antes. Pode pegar qualquer um: Jorge Ben, Caetano, etc, etc, etc. Os seres humanos têm uma fase mais criativa, de mais energia, depois se acalmam, mesmo que ainda produzindo. E nem precisariam fazer mais nada, deixaram sua marca na história, sua obra será estudada daqui a dois mil anos (não sei se a do Mojica).


Mas tem um que não é humano: Woody Allen. Seus últimos filmes, depois de ele completar 70 anos, vêm subindo de energia, de qualidade, de complexidade, de graça, de força, de tudo. Não pode ser humano. Primeiro, a surpresa das pauladas na moleira com os densos “Match Point” e “Sonho de Cassandra”. Depois, o pique do Vicky Cristina Barcelona. Mas aos 74 anos ele aparece com “Tudo Pode Dar Certo” (que já freqüentou este blógui em junho de 2010): um marco, um filme de fôlego inacreditável, comparável às suas grandes comédias dos anos 70, como “Noivo Neurótico...”. Mas ele não parou aí. O seguinte, “Você Vai Conhecer O Homem dos Seus Sonhos” (acabou de sair nas locadoras), está no mesmo nível, menos engraçado, mas mais completo, me parece (escreverei sobre ele neste final de semana – mas não espere, vá lá e pegue).


E hoje estreou no Brasil “Meia Noite em Paris”. Seria um filme-férias, como os críticos falaram sobre o Vicky? Um filme fácil e divertidinho passado na cidade que Woody Allen mais ama depois de NY? Fui ver. Nem adianta ler a crítica, porque filmes do Woody Allen sempre (ou quase) têm cotação máxima, como a da Folha de hoje. Tem que ir. E fui.


E o que vi foi inacreditável. Começa pela linda abertura, feita de pequenas tomadas de Paris, com uma música deliciosa; lembra a abertura do "Manhattan", só que sem precisar dos fogos. Ótima a preparação. A idéia do filme também é ótima: um escritor atual viaja no tempo e contracena com os principais artistas do início do século passado. Época atual, um escritor americano (Owen Wlson, surpreendente) é apaixonado por Paris e está lá com a noiva (Rachel McAdams), uma chata, e seus pais, ainda piores. Um casal amigo da noiva (o ótimo Michael Sheen, de "A Rainha" e "Maldito Futebol Clube") é ainda pior que os sogros. O protagonista ama andar na chuva, sua noiva odeia. Ele sai sozinho à noite. Quando os sinos batem meia-noite, aparece um carro dos anos 20, que o leva lá mesmo, direto aos anos 20, época pela qual ele é apaixonado. Aí ele repete a viagem todas as noites. Fica amigo de Gertrud Stein (Kathy Bates), Scott e Zelda Fritzgerald, Hemingway, Salvador Dali (Adrien Brody, que aparece só uma vez, mas é espetacular) e muitos outros. Apaixona-se pela namorada de Picasso (Marion Cotillard, belíssima). Às noites, a fantástica viagem aos anos 20 (lindamente retratado). Durante os dias, o convívio com a chatice.


Equilibrando muito bem os dois mundos, Woody Allen consegue deixar até o mundo atual, com os chatos, muito interessante. Primeiro porque os textos e os atores são ótimos, depois porque há um foco: o drama do protagonista, que vive aquele período de transição na vida, caso ou separo, amo ou não, escrevo ou não, vou ou fico? O mundo noturno, o da fantasia é engraçado por si: Owen Wilson vive, incrédulo, situações delirantes e bizarras com os geniais artistas e suas obras; enfim, ele participa da história da arte! Esse é o mote para Woody Allen fazer talvez seu filme mais criativo, complexo e atraente, sem deixar de ser muito engraçado, ao discutir, com humor e profundidade, temas filosóficos que nos angustiam a todos.


Pronto, já falei demais. Agora só vou dizer o que eu senti ao final do filme mais inspirador de Wody Allen:


1. Que amanhã vou vê-lo novamente;


2. Uma alegria de viver;


3. Uma baita vontade de me reposicionar na vida;


4. Uma vontade de escrever com mais determinação;


5. Vontade de andar na chuva com alguém...


Ah, senti mais uma coisa: Woody Allen levou minha alma.
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