Sabe aquele povo ("povo" não é depreciativo – adoro povo) que
coloca no facebook que está muito triste e não diz a razão? Pais e mães ficam
preocupados, amigos ficam intrigados e amigos do facebook clicam no “curtir” ou
dão força com o comentário: liga não amigo, logo vc tá melhor :)
De qualquer forma, tristeza tem remédio. Tudo bem que o
remédio só serve para esconder a tristeza existencial-atávica-biológica de
todos nós, provavelmente advinda do fato de que não sabemos
por que nascemos e de sabermos, sem nenhuma dúvida, que vamos morrer. Estava
certo Vinícius: “tristeza não tem fim, felicidade sim”.
Mas que há remédio para tristeza, ainda que seja efêmero,
há. Por isso tentamos, nós, os não maníacos depressivos, encher nossa vida desses
pequenos ou grandes remedinhos que deixam a tristeza escondida. “Deixa a
tristeza prá lá, vem comer, me jantar”. Afinal, hoje é o dia internacional do
riso (escrevi na sexta-feira, dia 19 de janeiro).
Reconheço que é difícil se livrar da tristeza, especialmente
no caso daqueles a quem a vida não tem ajudado, a quem o berço não ofereceu as
melhores condições (confia em mim, é melhor colocar a culpa na vida ou na sorte,
como eu faço). Sou do tipo triste solitário perdedor e sofredor, que às vezes
passa dias seguidos chorando, ouvindo música deprê e tendo pensamentos mórbidos.
Mas sempre há um modo de sair do fundo do poço. E frequentemente
é mais fácil do que pensamos. Uma música especial, por exemplo, pode servir de mola
propulsora e nos catapultar para as alturas da ventura e da alegria. Este blog
mesmo já deu uma receita:
http://cobraparada.blogspot.com.br/2011/08/ai-meu-deus-do-ceu-ai-minha-vigi-maria.html
Finalmente, encerrando a interminável introdução, ente post
traz uma receita infalível para melhorar o seu astral, ou para te botar ainda
mais prá cima, ou ainda para, simplesmente, atrasar por um bom tempo o retorno
da tristeza que espreita a ti, leitor amigo, por trás da porta do armário do
teu quarto.
Django, filme que estreou hoje em todo o Brasil (até em
Bauru!) é infalível. Pura diversão. Do tipo que terei em casa para casos agudos
de depressão. Será ligar o DVD e pronto, :)
Atenção, leitores que não tem facebook nem filhos: esse
sinalzinho esquisito que inseri no título e com o qual finalizei o parágrafo é um sorriso. Duvida? Deita
a cabeça para a esquerda... Viu? É um sorrisinho “fofo”. Estou usando para
atrair a plateia jovem.
O filme dirigido por Quentin Tarantino é basicamente um
Western que narra a busca de um escravo pela liberdade de sua mulher, ainda
escrava, numa América violentamente racista. Django é libertado por um caçador
de recompensas alemão e vira seu parceiro. Os dois cruzam boa parte da América caçando
procurados pela polícia, com as devidas recompensas, e rumando para o sul, onde
a esposa é escrava do mais carrasco entre os fazendeiros do sul, a região mais
racista dos Estados Unidos. Lembram-se do Leôncio, da Escrava Isaura? Pois o
inesquecível personagem interpretado por Rubens de Falco é fichinha perto do
cara do filme, cuja diversão é colocar dois escravos na sua sala, lutando entre
si até a morte. Nessa busca, não há como Tarantino esconder da plateia, nem
como este blog esconder dos leitores mais sensíveis: há violência, sim, muita
violência, além de opressão e humilhação indignantes.
“Espera aí”, interpela o leitor dotado de senso de lógica, atento
ao paradoxo, “como o filme pode ser divertido se tem racismo, violência, opressão
e humilhação?”
Gênios são assim: subvertem a lógica. Toda a saga de Django
é mostrada com um humor realmente delicioso, além de uma inteligência e
sagacidade típicas de Tarantino, que capta nossa indignação e nosso desejo de vingança
e o sacia com requintes de crueldade. Não são apenas os escravos que são vingados,
são todos os oprimidos e humilhados. São também aqueles que, solidários, se ofendem
mesmo quando a injustiça é contra outros. Django vinga também àqueles a quem a
vida não ajudou, a quem a sorte atrapalhou, a quem o berço não ofereceu as
melhores condições.
Gênios são assim, fazem qualquer coisa com bom humor, nos
surpreendem a todo instante. O expectador do filme nunca sabe o que vai acontecer
no momento seguinte. Há sempre uma surpresa. O suspense consiste e descobrir
quando e como seremos surpreendidos. E somo, do começo ao fim do filme. De onde
e quando menos se espera, algo surge provocando riso ou asco, mas sempre surpreendendo.
O filme, como “O Hobbit” e “A Viagem”, tem quase três horas de duração. Mas não
é como chatíssimo “O Hobbit”, que provoca dores no corpo, nas pernas e na
paciência. O próprio “A Viagem” que, apesar de ser realmente muito bonito e
interessante, faz a gente olhar algumas vezes para o relógio. Com Django o
tempo faz tchum: acabou.
Sabe por quê? Porque Tarantino é o mais Hitchcockiano dos
diretores atuais, no sentido de que, tal qual o mestre, Tarantino coloca em
primeiríssimo lugar o expectador. Faz filmes como Hitchcock fazia: para
divertir. Não a diversão da piada fácil de botequim e de escritório. Para quem não sabe, Hitchcock era desprezado pelos críticos e pelos “entendidos”
de cinema. Sua valorização aconteceu já no final da sua carreira e
especialmente depois de sua morte, com a imortalidade e atualidade de seus
filmes. E não gostavam dele porque seus filmes eram “comerciais”. O sucesso de
público distraiu os críticos na genialidade de seus filmes, de como ele criou
uma linguagem e inovou no cinema, sempre para estimular a percepção e a inteligência,
surpreender, prender a atenção e divertir a plateia.
Em Django Tarantino consegue cada vez mais isso tudo,
especialmente a surpresa e o humor, este ancorado na atuação inspirada (de
novo) de Christoph Waltz, o alemão caçador de recompensas. Waltz é um dos
raríssimos atores que, depois de vê-lo fazer um personagem maravilhoso, a gente
pensa: só ele faria esse personagem, com nenhum outro ator daria certo. Django
é interpretado por Jamie Foxx, muito bem num personagem altamente estilizado,
lindo. Roupas, jaquetas, coletes, óculos, chapéus, ângulos das tomadas e
músicas: tudo é feito para dar uma aura de beleza heroica. Tarantino dá a
Django os ares simbólicos de beleza plástica que Hitch dava às suas loiras, como
Grace Kelly.
Samuel L. Jackson é brilhante no papel do odioso escravo racista e
puxa saco do terrível senhor de escravos Calvin Candie, interpretado por Leonardo
DiCaprio, que tem um brilhante réquiem na longa cena do jantar, carregada de crescente
tensão, em que sabemos que algo vai acontecer, não sabemos exatamente o que nem
quando. Esta cena talvez seja o melhor momento de DiCaprio no cinema.
Mais conexões Tarantino-Hitchcock: além das longas cenas
carregadas de tensão e suspense (em Bastardos Inglórios é a cena da taverna), o
fato de que, em seus filmes, vários atores tiveram seus melhores momentos, o
que provavelmente é explicado pela inteligência dos diretores, que criam
personagens mais profundos, complexos, em situações mais criativas e que,
evidentemente, exigem mais do ator.
Mas nada disso realmente importa, porque para Tarantino o
que vale mesmo é que, desde a abertura do filme e a cada cena, você torça, fique
indignado, chocado, coma pipoca (sim, puristas, Tarantino é prá se ver com
pipoca), tenha surpresas, ria e, enfim, se divirta.
Django te fará trocar prozac, uísque,
lenços de papel, horas de facebook ou barras de chocolate comidos no sofá por sua
alma lavada, pronta para enfrentar de bom humor mais uma semana de trabalho, trânsito
e agruras dessa vida cheia de som, fúria e tristeza, pública ou
privada, com ou sem motivo.













































