domingo, 24 de março de 2013

THE DARK SIDE OF THE MOON


Hoje é domingo, o dia da semana que mais carrega significados. Na minha infância, significava ver “A Família Trapo” (nome que, aprendi no Google, foi inspirado na Família Von Trapp, aquela do musical “A Noviça Rebelde”), com Otelo Zeloni, Renata Fronzi (a cara da minha irmã Ana), Golias e Jô Soares. Para muitos, domingo significa comer maionese e macarronada, ver Silvio Santos, ir ao futebol... Há tempos que para mim domingo significa ler o jornal de domingo, o que normalmente faço na cama, antes de me levantar. Maravilhas da internet móvel.

E hoje o jornal trouxe uma informação que mudou meu dia e, espero, mude o seu: há exatos 40 anos era lançado um dos maiores discos da história da música – The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, aquele cuja capa é a mais conhecida da história das galáxias. Levantei já com o dito cujo nos ouvidos (tenho o “disco” no mesmo celular em que li a matéria), saí com os cães, fiz compras, cozinhei um ratatouille, e neste momento estou bebendo um freixenet, tudo ouvindo várias vezes a genial obra prima da banda inglesa.

Ouvi Dark Side pela primeira vez lá pelos 17 anos (quando foi lançado eu tinha 11), numa fita que o Sinistro (um dia escrevo sobre ele) gravou para mim. Foi uma pedrada. Senti tudo o que aquela obra queria dizer sem ter a mínima ideia do que dizia e quando, sei lá quanto tempo depois, tive acesso à letra, constatei, sem nenhuma surpresa, que tudo o que eu sentia quando ouvia, era exatamente o que as letras diziam. Quando a forma comunica e toca, o nome disso é arte! E quanto mais comunica, mais arte é. Assim é com o cinema, com a pintura e, creio, com qualquer outra verdadeira manifestação artística: diz coisas relevantes e profundas através da beleza das formas. No caso de Dark Side, as formas se fazem com ritmos, instrumentos, vozes, cantos, sons e alma.

Cada passagem de cada música foi cuidadosamente elaborada de modo a não se limitar à melodia e aos instrumentos. Sons de objetos, falas avulsas, sequências rítmicas feitas com instrumentos novos ou mesmo com não-instrumentos engenhosamente criados com o fim de transmitir algo a mais. A criatividade e a capacidade de inovação do quarteto estavam a mil. O resultado foi a maior obra pop-rock da história.
Lembro-me que quando ouvia a abertura, com aquele coração pulsando grave, a explosão, o grito e aquela melodia elíptica, tudo ali parecia falar comigo, com minhas angústias, com meu coração aprisionado de adolescente. O nome da música? “Speak to Me”, descobri depois.

O disco é uma obra uníssona, como uma sinfonia. Cada música é preparação para a próxima, com nível emocional cada vez maior.  A segunda melhor ligação de uma música para outra, na história da música universal, é a passagem da sinuosa "Any Colour You Like" para da épica “Brain Damage” (“The lunatics is on the Grass...”). A melhor passagem da história é exatamente a seguinte, de “Brain Damage” para “Eclipse”. Maldito seja para toda a eternidade aquele que ouvir uma sem a outra. E que morra seco aquele que as ouvir na sequencia e não ficar paralisado de emoção, admiração, respeito, estupefação, seja lá o que for... O final do disco, com Eclipse, é de uma emoção indescritível. Só ouvindo...

Ao contrário de nós, que envelhecemos a cada ano, parece que “Dark Side” não envelhece, está cada vez mais cheio de qualidade, energia e significado.

Curiosidade, para fechar com chave de ouro e com mistério: diz a lenda que as músicas foram feitas sobre o filme “o Mágico de Oz”, como se fosse uma trilha sonora. Gilmour e Waters negam, mas, de fato, são impressionantes algumas coincidências entre os climas e os momentos de virada das cenas e das musicas. No link, o filme e a música juntos: http://www.youtube.com/watch?v=h6a5DH_ePVQ

 Dê esse presente a você mesmo: ouça, o mais rápido possível, mas ouça como se deve, sem ninguém por perto, sem pensar em mais nada. E se você gostar, e se ficar paralisada*, então...
“I'll see you on the dark side of the moon

* Acho que quando escrevo penso em mulheres, ou em uma mulher, sei lá...

sexta-feira, 15 de março de 2013

ACABE COM SUA ANSIEDADE - UM DEPOIMENTO SINCERO


Minha amiga Débora, bem intencionada, me deu um presente. Ela me acha muito ansioso, mas garanto: é bobagem; ao menos foi o que respondi a ela naquela noite, na creperia. O fato é que não suporto ser mal atendido ou, pior, não ser atendido. Perguntei a ela como é que alguém pode entrar num restaurante e ficar sentado quase a noite toda esperando ser notado por um filho da puta de um garçon. Perdoem-me a expressão, mas é que realmente eu estava um pouco exasperado.

“Sem ser notado? A gente estava lá não fazia nem 5 minutos e você já estava tremendo e com falta de ar!”

Com efeito, podem ter sido 5 minutos, o que já não é pouco, mas se eu não me levanto e vou lá reclamar em altos brados e puxo o garçon pela gravata borboleta, quantas horas esperaríamos?

“Você sempre acha que vai demorar, que ninguém vai te ver. Nunca vai em praça de alimentação porque acha que não vai ter vaga no estacionamento, que tem muita gente, que todo mundo vai sair ao mesmo tempo e você vai ficar horas parado e sem ar no estacionamento... E diz que não é ansioso?”

Bom, o fato é que no dia seguinte minha amiga, demonstrando preocupação e gentileza, presenteou-me com um livro, bem pequeno, de “meditação e harmonização com o universo”, presente que recebi com muita gentileza e com um sincero agradecimento, muito embora eu tenha comentado, assim, en passant, que não leria aquela merda nem a pau.

Mas o fato é que o li. E aqui declaro: ele mudou minha vida. Sabe aquela história de que os menores frascos guardam os melhores perfumes. Pois este é, precisamente o caso do livreto. Confesso que no começo a leitura foi dolorosa, como deve ser doloroso para a águia arrancar na marra suas unhas e suas penas. Ao final do livreto, senti como uma nova águia, novas unhas, novas asas, pronto para voar. É com emoção que compartilho, a partir de agora, alguns trechos do livro com os leitores. Tudo o que está entre aspas, é, de fato, transcrição do livro.

“Aqui se trata de troca de informações com o Universo Vivo, uma mente inteligente que anseia por se comunicar com você e se deleita com isso”. Fiquei pasmo. Vejam que Universo Vivo, UV, é com letra maiúscula, nome próprio. Uma excitação me percorreu a espinha. Sempre quis que uma mente brilhante se deleitasse comigo. Na verdade, queria mesmo é que ela se deitasse comigo, mas deleitar-se já era muito mais do que eu vinha tendo. Neste ponto do livro comecei a tremer. Pensei em chamá-la, intimamente, de UV, suas iniciais. Continuei a percorrer, ávido, as linhas e as páginas.

“Trata-se de um momento de relacionamento entre a pessoa e a Mente Universal”. Uau, tinha mais alguém na história! O Universo Vivo, a Mente Universal e eu, nós 3 alí, trocando informações e relacionamento.

“Ao se perceber pensando em outra coisa, não se irrite consigo mesmo por causa disso, mas volte seu pensamento para a prática inicial”. Reconheço que eu sempre fazia diferente: quando estava muito, digamos, ansioso num “relacionamento” e queria que demorasse mais, eu pensava em futebol, mais precisamente na Ponte Preta. Funcionava, aguentava um tempo. Quando, pelo contrário, eu não estava nada ansioso, e precisava ficar para não dar vexame, eu costumava pensar na... bom, melhor não dizer o nome.

“Conte vagarosamente e mentalmente de 50 a 1. Se perder a contagem, não se irrite consigo mesmo por causa disso”. Outro dia vi um filme que o cara contava mentalmente para durar mais, só que na hora H ele gritou “TRINTA, TRINTA, TRINTA!”

Achei o máximo o livro me dizer a todo instante para acalmar-me comigo mesmo. Ele parecia me confirmar: sou mesmo ansioso. Senti que estava, ao menos, aceitando isso, o que é o primeiro passo para mudar. Liguei para a DEF para contar minha evolução. Mais tarde, no Capítulo “A consciência do próprio corpo”:

“Agradeça a cada músculo...” – achei meio estranho aquilo. Como é que vou agradecer cada músculo? Aí, musculão, valeu, ein? Vou agradecer sem nem saber quais são os músculos? Sem ao menos saber o nome de cada músculo. Não seria mais sensato agradecer em geral, a todos os músculos? Parei e pensei “deixa de ser ansioso” – estava funcionando.

“Agradeça às veias, a cada célula...” Não! Para tudo! A cada célula? Vou ficar quanto tempo agradecendo? Será um exercício de paciência, como uma vacina para a ansiedade, feita com o próprio veneno que a causa?

“Faça o mesmo com cada órgão de sua região genital...” Desculpa, mas essa eu não posso. Outro dia eu brochei com a Juliana – nome trocado para proteger a vítima – sim, vítima! Depois de 3 anos tentando, quando eu consigo sair com a moça, ele me apronta essa e eu ainda vou ter que agradecer?
Neste momento a luz acabou em Águas Claras e eu tive que respirar fundo, uma, duas, três vezes. Foi quando percebi que, além de controlar a ansiedade, o livro, minha amiga DEF e até a CAESB queriam agora que eu me tornasse uma pessoa capaz de perdoar. Voltamos, a luz à minha casa e eu à leitura.

“Repasse a anatomia do corpo humano em algum atlas, e conheça cada órgão pelo nome”. O livro falava comigo, respondia às minhas angústias. Perdoei e cumprimentei, pelos nomes, meu inerte conjunto formado pelo corpo cavernoso e pelo corpo esponjoso, sem esquecer de dar um fraternal abraço na glande. Depois, até às 5 da manhã cumprimentei músculo por músculo do meu corpo, conforme solicitado pelo livro. Não fui trabalhar no dia seguinte, o que contribuiu ainda mais para me acalmar, embora talvez não tivesse ocorrido o mesmo com o pessoal com o qual eu havia marcado uma reunião. Assim que acordei, às 11, continuei, ansioso, a leitura.

“Insira conscientemente seus desejos e suas intenções a respeito do mundo exterior na Sabedoria Cósmica”. Nossa... É assim que o Gerson consegue pegar tanta mulher? É assim que tanta gente enriquece sem explicação lógica? E os maldosos pensando que é corrupção... Agora, leitor incrédulo, veja esta:

“O seu mais profundo eu está aproveitando o desligamento de sua consciência das preocupações e correrias deste mundo e fazendo uma profunda troca de informações com o Universo, enviando e recebendo dados...” - caraca, velho, é download espiritual! Puxa, vou devolver o meu modem da Vivo.

“... recebendo tanto os dados relacionados aos seus desejos e intenções conscientes, quanto instruções para a realinhamento de energia vital...” – é atualização de software – a alma é um software!!!

“... causando a revigoração de vários de seus órgãos internos.” Ei, e os externos? E o corpo cavernoso? É ele que preciso revigorar!

“Você receberá as inspirações que guiarão a sua vida, enviadas diretamente da Grande Mente Universal, que tudo sabe, que tudo vê, e que pode tudo”. Nossa, PODEROSA! Essa GMU deve ser a chefona, a presidente, diretora, sei lá, quem manda no lance todo. Acho melhor agradá-la. Foi o que decidi fazer, intimamente e sem alarde, é claro, porque senão ela pode pensar que estou puxando o saco e minha vida piorar ainda mais. Como minha vida pode piorar? Os garçons demorando mais tempo para me atender a Juliana nunca mais me atendendo no celular.

“Converse mentalmente com seu eu mais interior, diga em pensamento “Olá, ... (diga interiormente seu próprio nome), meu amigão, que bom estarmos juntos nessa! Como nós somos felizes, né? Nós somos lindos, não é mesmo? Nós somos demais, né?” M-E-U  D-E-U-S! Agora entendo aquele cara com ares de perfeitos, que se alisa o tempo todo, mantém os cabelos sempre penteadíssimos e sai aos domingos de bermuda social passadíssima e com vincos.

“Enamore-se do seu eu, pergunte a ele o que ele quer fazer ao estar no cinema e assistir uma cena bem legal...” -  neste momento pirei. Minha consciência, Cósmica ou não, minha sabedoria, Universal ou não, pensou: “tudo bem se eu me elogiar muito; ok se eu falar pro meu EU que ele é lindo... Até posso aceitar convidá-lo a ir ao cinema. Mas perguntar ao meu EU o que fazer ao assistir a uma cena bem legal? Cara, pensei comigo mesmo, isso é o quê? Uma espécie de auto incesto? Depois do cinema vou me levar aonde? Ao motel?

Aproveitei a luz que me iluminou neste momento e pulei da cama, me arrumei, ansiosíssimo e morrendo de fome, bem na hora do almoço, e fui ao Giraffas, num shoppinzinho aqui perto, onde sei que demorarão horas para me atender e mais horas para me servir uma comida totalmente sem gosto. Na saída, havia um congestionamento no estacionamento e levei 40 minutos para sair daquele subsolo cheio de monóxido de carbono. Cheguei em casa, tomei um Cefaliv, para a dor de cabeça, um Dorflex, para relaxar, uma coca para dar mais vida a tudo, coloquei uma pastilha de kolantil  na boca, para a asia, e dormi suando e tendo dezenas de pesadelos angustiantes. Era eu novamente!

segunda-feira, 11 de março de 2013

ENQUANTO A FUMAÇA BRANCA NÃO VEM

A igreja católica está em festa. 

Sempre gostei de a companhar os noticiários após as mortes de papas anteriores. Normalmente quando se morre um papa há aquela comoção toda, tristeza, choradeira, as TVs transmitem o velório e  mostra a multidão fazendo filas para dar o último adeus ao santo padre. Sempre estranhei essa frase que todas as TVs usam ao mostrar velórios de famosos: "dar o último adeus", como se todo mundo tivesse dado vários "adeus" antes daquele. Mas vá lá, o que sempre me importou era estar conectado com aquela tristeza geral, muito embora ela sempre guardasse uma porçãozinha disfarçada de excitação e expectativa com a eleição do próximo papa. 

Todo mundo acompanha eleição de papa, que por sinal tem aquela esquisita designação "conclave". Eu sempre confundia com conclave com conchavo. A Igreja católica sempre trabalhou bem, em termos de espetáculo, o conclave. Genial aquela ideia, talvez milenar, de jogar fumaça preta e fumaça branca, esta última quando o novo papa foi escolhido, ou eleito. Isso, aliado com a estratégia de todos os cardeais ficarem lá dentro incomunicáveis seja por quanto tempo for, faz com que o mundo todo fique ali, parado, olhando para uma chaminé. O suspense continua até que se abra a porta daquela varanda do prédio do vaticano e alí apareça um velhinho com uma roupa sensacional e erga os dois braços dizendo ao mundo "podem ficar  tranquilos, Deus me mandou aqui para cuidar de vocês e tudo continuará bem".


Pois bem: como consta na abertura deste nem tão católico post, a Igreja católica está em festa, porque desta vez ninguém precisa disfarçar a empolgação com o conclave: ninguém morreu! O papa anterior está lá, são e salvo e vai morar num maravilhoso castelo, bem melhor do que um túmulo, por mais lindo, espaçoso e dourado que este fosse. 

Grande parte do, digamos, sucesso institucional do conclave é que ele desperta nossa curiosidade. Como será que é essa votação? Como ficam os cardeias lá dentro? O que sentem os candidatos a Papa? Diga a verdade, leitor, católico ou não: você nao gostaria de ser uma formiguinha para ver o que rola lá dentro? 

Então satisfaça esse desejo: vá a uma locadora e pegue "Habemus Papam", brilhante filme do italiano Nanni Moretti. 


Um Papa morreu e tem início o conclave. Com um inicio que mais parece um documentário, o filme impressiona pelo realismo com que mostra os cardeais, o Vaticano por dentro, o modus operandi do conclave e a expectativa dos cardeais. Interessantíssimo quando o filme deixa a linguagem documental e entra na cabeça dos cardeais, que imploram a Deus que não os coloque naquela posição. Um destes acaba eleito, o que parece provocar nele uma visível tensão, que explode numa crise de pânico quando ele é chamado a sair no balcão e se apresentar ao povo. O homem trava. E não há quem o tire de seu torpor. O relações públicas inventa uma desculpa qualquer à imprensa enquanto tentam resolver o impasse. Aí chamam um psicólogo, mas as regras do vaticano impedem que ele fique sozinho com o novo papa para fazerem as sessões. O problema aumenta quando o papa foge e fica no meio do povo, para tentar se encontrar. 


O psicólogo fica preso lá dentro, junto com os cardeais e, na falta do que fazer organizam jogos de mesa e, pasmem, um campeonato de vôlei. Essa sinopse parece levar a crer que estamos diante de uma comédia. De fato, divertido é. Mas ao tratar o humor das situações inusitadas com delicadeza e respeito, a trama ganha em profundidade, afinal, trata-se de um dilema de quem é o "escolhido de Deus" e não se julga com competências necessárias para ocupar a posição que ocupa. Como uma sincera reflexão sobre suas competências faria bem a todos aqueles que ocupam posições, nas empresas e na política. Como seria bom se as pessoas não se considerassem Deus. 

Veja o filme e torça para quem quiser no conclave, inclusive para o brasileiro, que tem chances reais de ser o novo Papa. Seria interessante um brasileiro na posição mais importante no mundo depois do presidente dos estados Unidos e do chefe do Al Qaeda. Resta saber que nome o papa brasileiro escolheria. Lula Primeiro?

Voltando ao filme, que não é católico (o diretor, inclusive, é ateu), mas universal: o final, poderoso e revelador, nos leva a compreender, ou ao menos a sondar, a solidão, a grandeza da alma, do sofrimento e do gesto final, quase divino de tão humano.

sábado, 9 de março de 2013

OZ E A ESTUPIDEZ


A busca pela felicidade, essa praga moderna, prova da estupidez humana, faz a gente errar muito, errar demais. Apesar de as mensagens “viva plenamente a sua vida”, mesmo com assinaturas de Borges e Einsteins, serem carregadas de boas intenções, elas cada vez mais nos levam à escuridão, na medida em que nos obrigamos cada vez mais a priorizar a felicidade, a NOSSA felicidade. 

O que há de errado em priorizar a nossa felicidade? Tudo, a começar pelo que é mais objetivo: é impossível ser feliz escolhendo ser feliz, como é impossível ter a casa limpa sem limpá-la. A felicidade é um subproduto: é efeito. A gente pode ser feliz como consequência de escolhas, corretas ou não, que fazemos por acreditarmos serem as mais justas, humanas, belas, éticas; como consequência de realizarmos um trabalho da melhor forma que pudermos, de criarmos um filho da melhor forma que pudermos, de ajudarmos pessoas, de compartilharmos conquistas. Enfim, a felicidade não pode ser alcançada se for um fim.

É, portanto, a busca pela felicidade que nos afasta dela, porque acabamos querendo vê-la a cada escolha, a cada ação. Se a felicidade não aparece hoje, então é porque errei e concluo que o que fiz hoje não me faz feliz; aí desisto do que fiz hoje, das roupas de hoje, das pessoas de hoje.

Aí você diz “ah, isso eu não faço isso, eu só faço o que me faz ser feliz, porque eu decidi ser feliz”. E vai na academia, na clínica de estética, no psiquiatra, e toma calmante e toma laxante... E a vida continua a mesma porcaria... 

E você briga, e você dispensa quem te ama, e a vida vira uma tempestade, e você sobe num balão para tentar fugir, vai pra balada, sobre num balão, embarca num furacão e vai para um mundo novo, colorido, cheio de riquezas e possibilidades, um mundo em que todos te acham o máximo. Mas, com o tempo, nem mesmo esse mundo te satisfaz. Então você compreende que o problema é que você não merece esse mundo... Aí sim, finalmente, você se toca e começa a fazer algo, não para si, não “focado” na sua felicidade, sem se importar se você será feliz ou não. 

Esta é a história, velha, mas poderosa, de “Oz, Mágico e Poderoso”, que estreou neste final de semana. Detesto fazer o papel de estimular altas expectativas, porque um dos segredos para gostar de um filme é não ter grandes expectativas sobre ele (aliás, vale para pessoas – se projetarmos expectativas e elas não forem concretizadas – o que quase sempre ocorre, nos decepcionamos e a vida a dois vira uma m...). 

Mas no caso deste filme, o faço sem medo: pode ir ao cinema e colocar seus óculos 3D com altíssimas expectativas. Se não se divertir muito e sair exultante, vá direto do cinema ao psicólogo, porque ou você tem sérios problemas, ou é um daqueles que acham que para um filme ser bom, tem que ser chato e o casal tem que terminar separado.

“Oz” é um filme da Disney, é um Disney com “D” maiúsculo, que usa, sim, uma velha história, mas daquelas que nunca envelhecem. Além disso, o filme trata de atualizá-la com um roteiro inteligente, com um humor moderno, com a criação de um mundo de incrível beleza, acentuado com um deslumbrante 3D, o melhor que já vi, daqueles que te envolvem mesmo e, finalmente, com mulheres estonteantes vestidas magnificamente. Tudo é extremamente bem cuidado. Tudo é envolvente.

Agora, emocionante mesmo é a cena da aparição da boneca de porcelana, e talvez todas as demais cenas das quais ela participa. Uma personagem fantasticamente bem construída, cheia de riqueza, interior e exterior.

A direção é segura e inteligente, o filme não sai do trilho, o ritmo parece ser sempre apropriado, o humor entra em momentos precisos, e algumas cenas são trabalhadas com arte e grandiosidade, o que já é uma marca de Sam Raimi, que conseguiu fazer cenas poderosas até em O Homem Aranha. 


Vá para o cinema ver “Oz, Mágico e Poderoso”, mas lembre-se: não vá para ser feliz. Vá porque você ama quem vai levar junto, nem que seja você mesmo.

segunda-feira, 4 de março de 2013

SOBRE HITCHCOCK, O FILME

Somente ao final do hilariante e ao mesmo tempo tocante “Intocáveis” eu descobri que foi baseado na história real do relacionamento entre um paraplégico e seu cuidado; os “personagens reais” inclusive são mostrados nos créditos. É claro que algo deve ter sido romanceado, para ficar mais engraçado, ou mais emocionante, afinal, vida real é vida real e cinema é cinema. Argo, vencedor do Oscar, também tem origem na história real do resgate de seis americanos do Irã. O ótimo suspense final, no aeroporto, com a apreensão no balcão de embarque e a perseguição na pista, ajuda muito a plateia a viver uma boa experiência, mas na realidade os americanos passaram muito tranquilamente e sem sobressaltos pelo aeroporto. Estranho é que o filme, apontado como americanista demais, inventou mesmo quando fez a inteligência dos iranianos descobrir a fuga de seis americanos da embaixada e tentar impedir sua fuga do país, o que não ocorreu na realidade: eles não perceberam nada.

Nos dois exemplos, como ocorre em praticamente todos os filmes biográficos, as alterações foram para o bem: não queremos ver Globo Repórter ou coisas do tipo, queremos ver cinema. Ninguém quer ver um filme xoxo. O mais importante é que, de qualquer forma, respeitou-se o cerne da história e dos personagens originais. Isso é particularmente mais importante quando se trata de acontecimentos históricos, como o do resgate dos americanos do Irã, ou com personagens importantes e famosos, como Lincoln ou Hitchcock.
A propósito deste último, acaba de estrear “Hitchcock”, que se presta a contar a história dos bastidores da filmagem de Psicose, filme mais popular do chamado mestre do suspense. O filme é baseado no ótimo livro “Hitchcock e os bastidores de Psicose”, de Stephen Rebello.

Pois bem: este blog é meio contra escrever sobre filmes ruins, mas não dá prá deixar este de lado, afinal, ele fala de cinema, tema principal deste blog, e de Hitchcock...

Direto ao ponto: o filme é ruim e inventa muito, nesta ordem. Ele não é ruim porque inventa. É ruim porque é confuso e não envolve. Além disso ele inventa e distorce demais. Não como Tarantino, que brincou ao matar Hitler com 1000 tiros à queima roupa: todos sabem que Hitler não morreu assim. Mas ninguém sabe que a cena do chuveiro, uma das mais impactantes e geniais da história do cinema, só foi feita com aquela força porque Hitchcock estava com ciúmes porque descobrira que sua mulher Alma estava de caso com um escritor medíocre. E ninguém sabe disso porque não foi assim, Alma não teve um caso, Hitchcock estava com ciúmes e planejou a cena por meses, da forma como saiu. Ao menos essa baboseira que o filme inventou foi pelo bem da ação, para o bem do cinema? Hum hum...

E assim vai o filme, de invenção e invenção, construindo não os bastidores das filmagens de Psicose, mas inventando o drama de uma mulher extremamente forte, bonita, charmosa e sedutora, mas que é desprezada e vive à sombra do marido, um famoso, prepotente, arrogante e divertido diretor de cinema.

Mais invenções que desvirtuam a realidade e são inúteis para melhorar o filme? Ele caiu doente e não pôde ir ao trabalho; o pessoal do estúdio ligou sem saber o que fazer; Alma foi lá, deu ordem prá cá, deu ordem prá lá e resolveu tudo. Realidade: de fato, um dia ele ficou doente, mas como ele fazia sempre, todas as cenas do dia seguinte já haviam sido amplamente discutidas com os técnicos e um deles dirigiu a cena.

Ah, esta é boa: após a exibição do filme para os chefões do estúdio, todos odiaram e Hitchcock concordou que o filme era muito ruim e voltou para casa arrasado e querendo jogar tudo para o alto. Alma, como havia pegado o amante (que não existia) com outra e voltado para casa arrasada e arrependida de ter traído o marido, ergueu-se e, quase puxando Hitchcock pelo braço disse: nada disso, eu vou editar esse filme, vamos colocar música e ele vai ficar ótimo. No final, graças a ela, Psicose é um sucesso. Santo Deus!

Quem não viu pode pensar que eu não entendi e que era tudo uma brincadeira e que o filme pode ser bom. Hum hum; sem chance. Primeiro: o filme é pretensamente sério. Segundo: não é bom, não prende, não é engraçado, nem define que história, afinal, quer contar. Os personagens não se desenvolvem: você não sabe qual é a do diretor, nem da sua mulher, nem da atriz cujo personagem morre no chuveiro, nem do “amante”.

Só para que não pensem que Alma não era importante, afinal, os pontos que destaquei dizem respeito às inverdades sobre sua participação, seguem algumas verdades colhidas das biografias escritas sobre Hitchcock, inclusive do livro no qual o filme diz se basear: Alma sempre foi importante para Hitchcock, mais até em outros filmes, nos quais ela desempenhou papeis, inclusive de co-roteirista; ele costumava pedir opiniões para ela sobre os filmes, atores, etc; eles se amavam; Hitchcock apaixonava-se com facilidade por algumas atrizes, às vezes chegando a assediá-las ferozmente; Hitch sempre foi grato à sua mulher, que aguentava suas paixões e assédios de forma resignada; Hitch não a traía, era muito gordo, nada atraente e, além de tudo, impotente.

Mais sobre o filme: Hopkins imita muito bem Hitchcock, mas sua maquiagem é pavorosa. Esconde o ator e suas expressões e não se parece nem um pouquinho com Hitchcock. Talvez ganhe o Framboesa de Ouro de pior maquiagem. Hellen Mirren (de A Rainha) é ótima, como sempre. Arrumaram um Antony Perkins muito parecido com o original e que o retrata muito bem, pena que apareceu pouco demais.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

GUIA PARA TORCER NO OSCAR

Hoje é dia daquela festa absurda, bizarra, cafona e sem sentido. Odeio o Oscar! Rejeito essa ode ao fingimento, à arrogância e ao cinema comercial com todas as forças da minha alma.

Mas se um dia ganhasse um Oscar, eu não teria coerência e caráter suficientes para recusá-lo. Ao ouvir o meu nome depois do indefectível “And the Oscar goes to...” eu pularia da cadeira aos gritos, receberia, emocionado e surpreso, a estatueta, agradeceria aos atores e produtores excepcionais, cumprimentaria os outros quatro diretores cujos sorrisos amarelos estariam sendo mostrados no telão, citaria minha santa mãezinha, faria alguma piada rápida e sem graça e, na saída da festa, tentaria comer a Jessica Chastain, mas aceitaria de bom grado qualquer outra que estivesse por lá e aceitasse ir para meu quarto comemorar, incluindo as mais coroas, como a Helen Hunt; talvez até a Goldie Hawn. Também poderia catar minha musa Meg Ryan, desde que ela deixasse eu enfiar uma agulha em seus beiços, fazendo o botox jorrar todo para fora até que ressurgissem seus lindos e delgados lábios que sempre me fascinaram.

Enfim, o Oscar é como Coca Cola: não é bom, mas todo mundo ama. Assim, hoje à noite estarei na frente da TV torcendo para que vençam os meus prediletos. Pena terem marcado reunião no trabalho para segunda às nove. Isso é hora de marcar reunião na segunda pós Oscar? Essa gente não pensa? Vá lá: já pus o Red Bull prá gelar.

Por que gostamos tanto de cinema? Talvez para mergulhar num universo a princípio diferente do nosso e reconhecer ali nossos desejos e nossa identidade, redescobrindo nossa própria humanidade. Ou seja, vamos ao cinema não para escapar da realidade, mas para encontrar a nós mesmos. O cinema é o único lugar que vale à pena ir nesta época de calor em alta, ética em baixa e trufas brancas pela hora da morte.
Sei, entretanto, que para muitos é difícil ir ao cinema e acompanhar os filmes que estão concorrendo ao Oscar. Uma amiga minha, parecida com a Jessica Chastain, só que melhorada, mora com seus cães numa cidade onde, no único cinema, se é que há cinema lá, deve estar estreando O Hobbit. Já a minha irmã está com uns trecos de saúde que dificultam sua ida ao cinema. Outros, casados, cuidam dos filhos pequenos ou, em vez de brigar, veem Guerra dos Sexos na TV; nos finais de semana, após a faxina, exaustos, preferem, com razão, dormir em casa do que no cinema: é mais barato e confortável.
Sintonizado com as reais dificuldades de seus leitores e compreendendo a dureza que é torcer no Oscar sem saber ao certo para quem, o Cobra Parada traz até você, que quer ver a esdrúxula, cansativa e ainda assim deliciosa cerimônia, um Guia Prático para Torcer no Oscar, com pequenas sinopses e sugestões para o que dizer ao pessoal do trabalho no dia seguinte. Leia e saiba para quem torcer.

INDICADOS A MELHOR FILME:
"Indomável sonhadora" é uma versão para valer de “Os Miseráveis”. Não deve ganhar, mas se der zebra, apóie e diga que estava torcendo para ele; que é um filme duro e chocante, que fala sobre um vilarejo habitado por uns “mendigos” que se recusam a sair dali, mesmo sendo um lugar de alto risco. Um dos habitantes, um bêbado muito doente, tem uma filha cuja mãe fugiu a nado. A vida para a menina, que é quem nos conta a história, não é um mar de rosas. O pai a ensina a ser durona, como os animais, a não chorar em nenhuma situação. Cena mais significativa: alguém tenta ensinar a menina a abrir um caranguejo com faca. O pai impede e a ensina, na frente de todos, a abrir o caranguejo na marra, com as mãos, como um animal. Ah, diga que o título que colocaram é absurdo. A menina não á sonhadora, nem é adorável: ela aprendeu o que o pai quis ensinar. O título original, algo como “as bestas do sul selvagem”, diz muito mais. A atriz protagonista, de 9 anos, está indicada ao Oscar de melhor atriz. O ator que interpreta o pai não está indicado, mas deveria, na categoria de ator coadjuvante, muito mais do que Philip Seymour-Hoffman, ("O mestre") ou Robert De Niro ("O lado bom da vida"), ótimos, mas com desempenhos comuns.

"Lincoln" deve ganhar, porque americano idolatra, com razão, o cara. O filme é uma primorosa, embora meio burocrática e sem “pegada”, reconstituição de como Lincoln e seus seguidores conseguiram negociar, em meio à guerra, os improváveis votos para aprovar a lei que acabou com a escravidão nos Estados Unidos. Filme mais longo do que seria necessário. Se o filme ganhar, diga, sem sorrir, “já vi melhores do Spielberg”.

"Os Miseráveis” é um clássico da literatura que narra uma história de miséria econômica, política e moral do ser humano. Foi musicado, com sucesso, na Broadway. O filme usa esse musical e deixa de cara uma pergunta a quem, como eu, tem dificuldades com musicais: como alguém vendendo o corpo, os cabelos e os dentes para alimentar a filha, pode cantar? De onde vem a música que faz revolucionários à beira da morte cantarem em vez de fugir? Pois é: musical é assim mesmo, ou você entra no jogo ou nem vai ao cinema (ou ao teatro).
Eu entrei. Vi as quase três horas de Os Miseráveis. E vi de novo. E só não fui pela terceira vez por que usei meu tempo para ver os demais filmes indicados. As músicas são maravilhosas, as interpretações de arrepiar, reconstituição de época perfeita, montagem magnífica. As músicas cantadas simultaneamente por vários personagens ficaram ótimas. Vi também no teatro e acho que, embora ali eu tivesse a liberdade de escolher para onde olhar, tive a sensação de estar perdendo o melhor. No filme, o diretor dirige nosso olhar e parece que dirigiu sempre bem, porque tudo o que mostrava era belo e relevante. Outro detalhe que faz de OM um grande filme: os personagens cantam, sim, mas a interpretação está à frente: soluços, voz embargada ou mesmo risos interrompem o “bem cantar”, diminuindo muito o problema da artificialidade inerente aos musicais. Se algo desandou no filme foi a pífia interpretação daquele de quem eu mais esperava, Russel Crowel, irritantemente impassível e monocórdico, muito abaixo da riqueza do dilema moral que seu personagem (Javert) deveria trazer. Ainda assim, há muito tempo eu não me emocionava tanto com a beleza de um filme. Chorei como uma Fernanda, ou quase. O filme deve perder, mas diga sem medo, para seus amigos incultos, que “Os Miseráveis”, para você, que gosta de música e de emoção, é, disparado, o melhor filme.

"As aventuras de Pi" é um filme bonitinho sobre um naufrágil (este foi o pior jogo de palavras da história – mas tem lá sua razão) de um navio que transportava animais de um zoo. Salvam-se, num barquinho, um menino esperto e um tigre bem bravo. E todo o filme é isso. O nome do tigre é Richard Parker. Quer contar uma piada sobre o filme? Diga que o único que merecia indicação é o tigre, que é lindo e sabe interpretar. No fim, as coisas não eram bem o que pareciam e você descobre que o filme todo podia ser substituído por um daqueles arquivos de Power-Point meio religiosos e edificantes que você recebe e acha fofo porque tem uma mensagem do bem e umas fotos bonitas.



"Amor", que filme é esse! A velha começa a ter uns trecos e não bater bem. Depois perde os movimentos de um lado do corpo e passa a necessitar de cuidados especiais. O marido, por amor, resolve ele mesmo cuidar dela, em casa. E ela vai piorando a cada dia (ou a cada cena). O filme não alisa, não põe musiquinha nem fala bonitinha. É a velha morrendo, e dando trabalho. E o velho se virando. Parece que você está lá, espiando sem ser visto. Irretocável como expressão de uma realidade que pode estar nos aguardando. Se a proposta era fazer você acreditar naquilo que você vê, nota mil. Atores fantásticos, realidade nua e crua, sem emoção, seca. Filme de respeito, mas não gosto de ir ao cinema para isso. Se ganhar o Oscar eu fico pelado na reunião do trabalho na manhã seguinte, dançando festa no apê, do Latino.

Sobre "Django livre" já falei neste blog. Filme delicioso sobre um escravo que se associa a um caçador de recompensas, dele ganha a liberdade e saem juntos buscando a amada de Django que é escrava de um execrável senhor. Ótima comédia-revanche, que vinga não só os negros, não só os escravos, mas todos os indignados com as injustiças. Diálogos espirituosos, personagens exagerados e divertidos. Tudo isso sem deixar de chocar com o absurdo da violência que era a escravidão. O que chamam de violência contra os vilões não é violência, é diversão estilizada que conversa com nossas referências de cinema da infância. Se ganhasse eu adoraria, porque cairia um pouco a carranca do Oscar!



“Argo" deve ganhar. É o tipo de filme que a gente gosta de ver. Uma boa história, propagandista, sim, mas verídica, sobre a inusitada forma como alguns americanos foram resgatados do Irã no final dos anos 70, fingindo-se de cineastas que estariam preparando para filmar uma ficção meio vagaba chamada Argo. Mantém muito bem o suspense nas cenas do resgate; é espirituoso nas cenas envolvendo o pessoal de cinema em Hollywood, que fingiram estar preparando o filme de verdade, para dar credibilidade aos fugitivos. A reconstituição é ótima. Se vencer, diga: “eu já sabia” e complete, sem medo, dizendo que gostou muito.



"O lado bom da vida" é uma “comédia fofa” sobre um bipolar que sai da casa de repouso, ou sei lá o nome politicamente correto para manicômio, e tenta reaver sua esposa, a quem pegou traindo, o que ocasionou seu piti e internação. Ele age como se ela ainda fosse sua mulher, apaixonado e tentando pedir perdão, tipo “perdoa-me por me traíres”, coisa de lóki. Aí ele conhece uma louquinha de pedra (Jennifer Lawrence, que concorre ao Oscar de melhor atriz) e, adivinha... Isso, adivinhou. Típica comédia romântica prá ver sem medo, e sem grandes expectativas também.





"A hora mais escura" é um documentário fantástico sobre as longas investigações que culminaram na morte de Bin Laden e a participação decisiva de uma investigadora. As cenas do ataque à casa onde vivia o inimigo público número um dos americanos são muito bem feitas. Ei, eu falei que era documentário? Ops, falha minha. É que o filme é tão seco que parece, sim, um documentário. Prefiro as estilizações e adaptações de um Argo, ou até mesmo os mínimos detalhes de sonho ou paranoia de “Amor” e de “Indomável Sonhadora”, do que a realidade nua, crua e sem sal que a Kathryn Bighelow vive tentando mostrar. Estou cada vez menos convencido de que a realidade seja essa que nossos olhos veem todos os dias.

Diretor
Benh Zeitlin
Michael Haneke – "Amor", bem filmado dentro de um apartamento, com simplicidade e carregado por atores maravilhosos, é filme de ator, não de diretor. Ang Lee ("As aventuras de Pi") não fez nada mais que um Power Point mais animadinho e estaria roubando o Oscar do tigre se ganhasse. Spielberg, que deve ganhar por "Lincoln", embora tenha feito apenas um filme tecnicamente correto conduzido por dois atores geniais, lembra a Imperatriz Leopoldinense, que ganhou sem empolgar por vários anos. David O. Russell ("O lado bom da vida”) deveria ganhar um Oscar de direção por uma comédia romântica muito boa, mas absolutamente comum? Já o tal do Benh Zeitlin, de "Indomável sonhadora" é um cara de 30 anos que, para estrear na direção resolveu filmar algo quase infilmável e fez um filme no mínimo perturbador. Torça por ele, como eu torço pela Ponte Preta, assim, meio sem esperança.

Ator
Daniel Day-Lewis ("Lincoln") é demais: O maior personagem da política mundial, sobre o qual não existe nada além de fotos, agora tem uma voz, um jeito de falar, de andar, de sentar, de olhar e de rir definitivo. Denzel Washington ("Voo") deu credibilidade ao piloto alcoólatra que interpretou, foi bem pago e ponto. Bradley Cooper, o atual queridinho de Hollywood, foi ótimo com seu bipolar em "O lado bom da vida" e um dia poderá merecer um Oscar. Joaquin Phoenix ("O mestre") merece a indicação e se ganhar, pode aplaudir, porque ele criou um cara estranho, muito estranho, num filme meio chato, mas interessante. Já Hugh Jackman ("Os miseráveis") surpreendeu como o sofredor Jean Valgean e cantou sempre lindamente, numa interpretação dificílima e emocionante, digna de Oscar. Torça por ele.

Atriz
Naomi Watts ("O impossível") foi muito, muito bem. Achei que ela ia morrer de verdade. A talentosa Jessica Chastain ("A hora mais escura") é maravilhosa e merece o Oscar, sim, ainda que seja por sua indizível beleza, porque o papel, convenhamos, não exigiu quase nada. Já Jennifer Lawrence ("O lado bom da vida") está muito legal, dançou e surtou bem e, mesmo não sendo bonita, fez sua esquisitinha personagem tão bem que ficou linda – mas não para um Oscar. Emmanuelle Riva ("Amor") e Quvenzhané Wallis ("Indomável sonhadora") deveriam, as duas, ganhar o Oscar. A primeira, 86 anos, é a mais velha atriz a ser indicada. A segunda, 9, é a mais nova. Os dois únicos desempenhos excepcionais entre as indicadas. Se não ficar nas mãos de nenhuma delas, é... Oscar. Torça para Emmanuele Riva, porque a menina sopa de letrinhas ainda tem tempo...

Ator coadjuvante: Philip Seymour-Hoffman ("O mestre"), ator fantástico, é o único que não merece, porque seu personagem não exigiu grande desempenho. Christoph Waltz ("Django livre"), Tommy Lee Jones ("Lincoln"), Robert De Niro ("O lado bom da vida"), e Alan Arkin ("Argo") deram pitadas essenciais nos filmes em que atuaram, mas os dois primeiros foram um pouco além. Torça por Tommy Lee Jones, porque ele devia ter sido indicado a melhor ator por “Um Divã para Dois”.

Atriz coadjuvante: segunda-feira diga no escritório: “se o que a Anne Hathaway fez no pouco tempo que teve em “Os Miseráveis” não merecesse um Oscar, então não sei o que significa viver”.

Pronto. Agora que você já para quem torcer e o que dizer, vamos ao fogão, porque cinema enche a alma, não a barriga.


domingo, 20 de janeiro de 2013

UMA VIAGEM À IMENSIDÃO

"Cheguei com meu universo
e aterrizo no seu pensamento
Trago a luz dos postes nos olhos
Rios e pontes no coração
Pernambuco embaixo dos pés
E minha mente na imensidão."
(Chico Science)

É, meu velho! a mente na imensidão... Acho que essa foi sempre minha desculpa para não viajar fisicamente, conhecer lugares. Viajar é a coisa mais espetacular que pode existir. Agradeço todos os dias, ajoelhado aos pés da cama, às minhas ex-mulheres (as duas últimas - não posso dar este crédito às anteriores) que, praticamente à força, me fizeram conhecer o pouco que conheço fora deste país e continente. Agradeço ainda, embora não ajoelhado, nem todos os dias, ter trabalhado numa empresa que me proporcionou muitas viagens profissionais, nas quais pude me deliciar com as riquezas deste país: sua gente, sua cultura, sua comida, suas paisagens, etc.


É estranho que, gostando tanto de conhecer outros lugares, culturas, países, povos e o diabo a quatro, eu nunca tenha viajado muito. Mesmo as viagens a trabalho eu nunca as busquei; tive que ir e fui. A verdade mesmo é que não gosto de viajar. Acho estressante ter que decidir viajar, ter que comprar passagens. Arrepia-me saber que terei que arrumar malas, esperar nas insuportáveis filas do aeroporto, subir a sei lá quantos quilômetros, afastando-me da segurança do bom e velho chão onde piso, dentro de uma estrovenga insuportavelmente mais pesada, não só do que o ar, mas do todas as coisas da terra, e cujos flap, flop e flup podem estar com parafusos soltos. Além disso tudo, detesto ter que sair de um lugar que amei, porque amos todos os lugares que conheço e me imagino morando lá e na hora de voltar me sinto mal, ainda mais enfrentando as mesmas filas e as mesmas incertezas quanto aos flaps, flops e flups.


Tudo isso para contar que, mesmo sendo apaixonado por Pernambuco, mesmo sabendo, e sempre divulgando neste mal afamado blog, que lá é, há muito tempo, o maior centro de produção cultural de qualidade deste país (música e cinema, principalmente), mesmo tendo Pernambuco, mais que qualquer outro lugar, tendo povoado por décadas minha imaginação atraves dos livros de José Condé, mesmo sabendo que tenho amigos por lá que adoraria conhecer (tempos estranhos estes em que a gente tem amigos e quer conhecê-los), mesmo tudo isso, eu nunca estive em Pernambuco. Não conheço Recife, Olinda, Caruaru, nem tampouco Macambira. Nunca estive na praça com acácias soltando seus algodõezinhos amarelos em maio.


Mas ontem, mais uma vez, tomei contato com Recife, aqui em Brasilia, no cinema, assistindo o magnífico "O SOM AO REDOR", filme que honra Condé, Chico Science, Suassuna, Luiz Gonzaga, Luiz Vieira e todo o movimento cultural de Pernambuco.

O filme mostra os ecos do tempo da dominação dos senhores do engenho reverberando até hoje, através dos contrastes sociais expostos por algumas histórias cotidianas passadas num bairro de Recife onde um ex-dono de engenho é dono da maioria dos imóveis.


Com alguns furtos acontecendo na região, alguns deles cometidos por hobby por um dos sobrinhos do poderoso local, uma equipe de seguranças se dispõe a fazer a segurança na região por uma contribuição mensal de cada morador.

Costurando as pequenas histórias paralelas, sempre regidas, mais ou menos perceptivelmente pelos sons cotidianos da rua, dos vizinhos, dos cães, o filme cria uma tensão palpável, mas nunca explícita.

Acompanhando os moradores, sentimos a todo instante que algo vai acontecer, algo está para eclodir, principalmente quando começamos a perceber as intersecções entre personagens até então pertencentes a histórias diferentes.


Os atores estão ótimos, criveis, corretos. Há uma atriz, Irma Brown, que é um clone (ou parente mesmo) da Maria Flor e, pelo jeito, igualmente talentosa fazendo uma tímida e enigmática namorada do corretor, um dos protagonistas.

O clima de tensão nos prende durante todo o filme e vai aumentando até o clímax final é algo que não é nada fácil. A sequência final, mesmo sendo mais sugestiva do que explícita, não é nada menos do que genial, daquelas em que a gene pensa que não poderia ter sido mais apropriada, nem mais impactante.


Fazer cinema assim não é para qualquer um. O diretor, Kleber Mendonça Filho, com Pernambuco debaixo dos pés, fez uma obra de arte e de imensidão, reconhecida inclusive pelo The New York Times como um dos melhores filmes de 2012.

Permitam-me, caras ex-esposas responsáveis por minha viagens, também agradecer ajoelhado, não todos os dias, só hoje, nem aos pés da cama, mas aos pés do sofá da sala, que por sinal está à venda, ao diretor de "O SOM AO REDOR" pela viagem que me proporcionou ao Recife que nunca fui e à imensidão que tanto almejo.

sábado, 19 de janeiro de 2013

:( -> DJANGO -> :)


Sabe aquele povo ("povo" não é depreciativo – adoro povo) que coloca no facebook que está muito triste e não diz a razão? Pais e mães ficam preocupados, amigos ficam intrigados e amigos do facebook clicam no “curtir” ou dão força com o comentário: liga não amigo, logo vc tá melhor :)

De qualquer forma, tristeza tem remédio. Tudo bem que o remédio só serve para esconder a tristeza existencial-atávica-biológica de todos nós, provavelmente advinda do fato de que não sabemos por que nascemos e de sabermos, sem nenhuma dúvida, que vamos morrer. Estava certo Vinícius: “tristeza não tem fim, felicidade sim”.

Mas que há remédio para tristeza, ainda que seja efêmero, há. Por isso tentamos, nós, os não maníacos depressivos, encher nossa vida desses pequenos ou grandes remedinhos que deixam a tristeza escondida. “Deixa a tristeza prá lá, vem comer, me jantar”. Afinal, hoje é o dia internacional do riso (escrevi na sexta-feira, dia 19 de janeiro).

Reconheço que é difícil se livrar da tristeza, especialmente no caso daqueles a quem a vida não tem ajudado, a quem o berço não ofereceu as melhores condições (confia em mim, é melhor colocar a culpa na vida ou na sorte, como eu faço). Sou do tipo triste solitário perdedor e sofredor, que às vezes passa dias seguidos chorando, ouvindo música deprê e tendo pensamentos mórbidos.

Mas sempre há um modo de sair do fundo do poço. E frequentemente é mais fácil do que pensamos. Uma música especial, por exemplo, pode servir de mola propulsora e nos catapultar para as alturas da ventura e da alegria. Este blog mesmo já deu uma receita:

http://cobraparada.blogspot.com.br/2011/08/ai-meu-deus-do-ceu-ai-minha-vigi-maria.html

Finalmente, encerrando a interminável introdução, ente post traz uma receita infalível para melhorar o seu astral, ou para te botar ainda mais prá cima, ou ainda para, simplesmente, atrasar por um bom tempo o retorno da tristeza que espreita a ti, leitor amigo, por trás da porta do armário do teu quarto.
Django, filme que estreou hoje em todo o Brasil (até em Bauru!) é infalível. Pura diversão. Do tipo que terei em casa para casos agudos de depressão. Será ligar o DVD e pronto, :)

Atenção, leitores que não tem facebook nem filhos: esse sinalzinho esquisito que inseri no título e com o qual finalizei o parágrafo é um sorriso. Duvida? Deita a cabeça para a esquerda... Viu? É um sorrisinho “fofo”. Estou usando para atrair a plateia jovem.

O filme dirigido por Quentin Tarantino é basicamente um Western que narra a busca de um escravo pela liberdade de sua mulher, ainda escrava, numa América violentamente racista. Django é libertado por um caçador de recompensas alemão e vira seu parceiro. Os dois cruzam boa parte da América caçando procurados pela polícia, com as devidas recompensas, e rumando para o sul, onde a esposa é escrava do mais carrasco entre os fazendeiros do sul, a região mais racista dos Estados Unidos. Lembram-se do Leôncio, da Escrava Isaura? Pois o inesquecível personagem interpretado por Rubens de Falco é fichinha perto do cara do filme, cuja diversão é colocar dois escravos na sua sala, lutando entre si até a morte. Nessa busca, não há como Tarantino esconder da plateia, nem como este blog esconder dos leitores mais sensíveis: há violência, sim, muita violência, além de opressão e humilhação indignantes.
“Espera aí”, interpela o leitor dotado de senso de lógica, atento ao paradoxo, “como o filme pode ser divertido se tem racismo, violência, opressão e humilhação?”

Gênios são assim: subvertem a lógica. Toda a saga de Django é mostrada com um humor realmente delicioso, além de uma inteligência e sagacidade típicas de Tarantino, que capta nossa indignação e nosso desejo de vingança e o sacia com requintes de crueldade. Não são apenas os escravos que são vingados, são todos os oprimidos e humilhados. São também aqueles que, solidários, se ofendem mesmo quando a injustiça é contra outros. Django vinga também àqueles a quem a vida não ajudou, a quem a sorte atrapalhou, a quem o berço não ofereceu as melhores condições.

Gênios são assim, fazem qualquer coisa com bom humor, nos surpreendem a todo instante. O expectador do filme nunca sabe o que vai acontecer no momento seguinte. Há sempre uma surpresa. O suspense consiste e descobrir quando e como seremos surpreendidos. E somo, do começo ao fim do filme. De onde e quando menos se espera, algo surge provocando riso ou asco, mas sempre surpreendendo. O filme, como “O Hobbit” e “A Viagem”, tem quase três horas de duração. Mas não é como chatíssimo “O Hobbit”, que provoca dores no corpo, nas pernas e na paciência. O próprio “A Viagem” que, apesar de ser realmente muito bonito e interessante, faz a gente olhar algumas vezes para o relógio. Com Django o tempo faz tchum: acabou.

Sabe por quê? Porque Tarantino é o mais Hitchcockiano dos diretores atuais, no sentido de que, tal qual o mestre, Tarantino coloca em primeiríssimo lugar o expectador. Faz filmes como Hitchcock fazia: para divertir. Não a diversão da piada fácil de botequim e de escritório. Para quem não sabe, Hitchcock era desprezado pelos críticos e pelos “entendidos” de cinema. Sua valorização aconteceu já no final da sua carreira e especialmente depois de sua morte, com a imortalidade e atualidade de seus filmes. E não gostavam dele porque seus filmes eram “comerciais”. O sucesso de público distraiu os críticos na genialidade de seus filmes, de como ele criou uma linguagem e inovou no cinema, sempre para estimular a percepção e a inteligência, surpreender, prender a atenção e divertir a plateia.

Em Django Tarantino consegue cada vez mais isso tudo, especialmente a surpresa e o humor, este ancorado na atuação inspirada (de novo) de Christoph Waltz, o alemão caçador de recompensas. Waltz é um dos raríssimos atores que, depois de vê-lo fazer um personagem maravilhoso, a gente pensa: só ele faria esse personagem, com nenhum outro ator daria certo. Django é interpretado por Jamie Foxx, muito bem num personagem altamente estilizado, lindo. Roupas, jaquetas, coletes, óculos, chapéus, ângulos das tomadas e músicas: tudo é feito para dar uma aura de beleza heroica. Tarantino dá a Django os ares simbólicos de beleza plástica que Hitch dava às suas loiras, como Grace Kelly. 

Samuel L. Jackson é brilhante no papel do odioso escravo racista e puxa saco do terrível senhor de escravos Calvin Candie, interpretado por Leonardo DiCaprio, que tem um brilhante réquiem na longa cena do jantar, carregada de crescente tensão, em que sabemos que algo vai acontecer, não sabemos exatamente o que nem quando. Esta cena talvez seja o melhor momento de DiCaprio no cinema.

Mais conexões Tarantino-Hitchcock: além das longas cenas carregadas de tensão e suspense (em Bastardos Inglórios é a cena da taverna), o fato de que, em seus filmes, vários atores tiveram seus melhores momentos, o que provavelmente é explicado pela inteligência dos diretores, que criam personagens mais profundos, complexos, em situações mais criativas e que, evidentemente, exigem mais do ator.   

Mas nada disso realmente importa, porque para Tarantino o que vale mesmo é que, desde a abertura do filme e a cada cena, você torça, fique indignado, chocado, coma pipoca (sim, puristas, Tarantino é prá se ver com pipoca), tenha surpresas, ria e, enfim, se divirta. 

Django te fará trocar prozac, uísque, lenços de papel, horas de facebook ou barras de chocolate comidos no sofá por sua alma lavada, pronta para enfrentar de bom humor mais uma semana de trabalho, trânsito e agruras dessa vida cheia de som, fúria e tristeza, pública ou privada, com ou sem motivo.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

DEUS E O DIABO NA TERRA DO POLITICAMENTE CORRETO


Uma das coisas que mais funcionam no planeta é o equilíbrio dinâmico. Ahn? Não é leitor contumaz do Cobra Parada e, portanto, não tem o mesmo nível de conhecimento, informação, inteligência, cultura, talento e beleza? Não tem problema, eu explico: sabe o yin-yang? Deus e o Diabo?

O equilíbrio dinâmico a que me refiro é o que acontece quando uma coisa está indo muito para um lado – uma reação social surge e empurra para o outro. Com o equilíbrio dinâmico, nada tão ruim pode durar tanto tempo. O holocausto, por exemplo, acabou não durando, porque o resto do mundo reagiu... Bem, pensando bem, não posso dizer que o holocausto não durou muito tempo: não deveria ter durado nem um dia. A ditadura no Brasil durou 20 anos.

Outro exemplo de equilíbrio dinâmico é a Wikipédia. Vá lá e escreva uma bobagem qualquer, como que a Ponte Preta foi campeã brasileira de futebol 1977. Vai ficar lá por um tempo, até que alguém vai perceber e alterar, corrigindo o ano em que a Ponte Preta foi campeã brasileira para 1978. Lembram-se da praga do “gerundismo”? Vou estar te lembrando, leitor esquecido: lá pela virada do milênio, por alguns anos todo mundo falava “vou estar verificando”, “vou estar corrigindo”, “vou estar lendo”, “vou estar parando de dar exemplos”. Até que um movimento pela internet começou a ridicularizar a mania, que aos poucos foi perdendo força e hoje só se faz notar nos call centers, que demoram mesmo um tempão para estar percebendo as coisas.

Não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe. O problema é o tempo que dura até que o equilíbrio dinâmico se imponha. Pode levar muito tempo, como o holocausto e a ditadura brasileira. Tomara que leve menos tempo para que a praga do politicamente correto seja extinta.

Vinícius pediu desculpas às feias para dizer que beleza é fundamental. Eu peço aos burros, para dizer que a burrice é uma epidemia devastadora. Só gente sem noção para querer posar de boazinha, para querer estar do “lado certo”. Precisa ser burro demais para querer corrigir livros clássicos como se eles fossem responsáveis pela escravidão e pela maldade humana. E gente que quer ter uma boa conversa para mudar alguém, sem perceber que suas “boas conversas” anteriores tenham sempre, em bom português, dado merda? Mais do que prepotente, só sendo burro para achar que se pode mudar o outro e transformá-lo numa “pessoa melhor”.

Foi gente burra que, incapaz de analisar um contexto mais amplo e formular questões mais complexas, inventou o “politicamente correto”. Sabe o que é o “politicamente correto”? É, mais ou menos, um guia formulado por burros influentes e destinado a burros populares para que estes não precisem interpretar os fatos, não precisem analisar contextos: basta tomar a posição definida como a certa e pronto, podem ser consideradas inteligentes. Gente assim não sabe que as pessoas carregam o mal dentro de si, que as pessoas têm impulsos de quebrar a cara do marido ou da vizinha, mas que uma moral coletiva as impede (nem sempre).

“Temos que sufocar nossos impulsos, mas às vezes não queremos sufocá-los”. Essa frase é dita pelo ator John C. Reilly no filme “Deus da Carnificina”, dirigido por Roman Polansky. O filme fala, num primeiro nível, desse mal que carregamos, dos nossos impulsos que a vida em sociedade nos impede de dar vazão. Mas nada como “uma boa conversa” para aflorar nossos impulsos e nosso desejo de extravasá-los.
A história: dois filhos brigam num parque e os dois casais de pais (gente de bem) estão reunidos para conversar a respeito. No início, tudo bem, com respeito mútuo e posições amenas. Mas ao discutir o que não precisava ser discutido (crianças brigam e pronto), os nervos vão se aforando e as coisas saindo do controle.

O filme começa com um certo constrangimento, que vem do fato de que os dois casais são muito reais, casais que poderiam ser cada um de nós. Todo o filme se passa num apartamento, com apenas 4 atores (Reilly, Cristoph Waltz, Kate Winslet e Jodie Foster), todos incríveis. O constrangimento vai aumentando, aumentando, até chegar a níveis extremos, algumas vezes hilários.

O texto é uma porrada no politicamente correto. A mãe do agredido quer que os pais do agressor conversem com o filho como ela conversaria e aplique um castigo como o que ela aplicaria, afinal, ela é adepta do “guia de procedimentos” estabelecido pelo politicamente correto. E mexer com isso é mexer num vespeiro.

“Honestidade é uma estupidez. Você enfraquece e baixa a guarda”.

Cada pequena assunto que vem à tona torna-se extremamente exaustivo. Mas na discussão que não se acaba, algumas verdades duras são ditas.

“O casal é a mais terrível provação que Deus nos infligiu. Crianças sugaram nossas vidas e as deixaram desgastadas e vazias. É a lei da natureza”.

“Pare de fungar desse jeito... Choro de mulher leva os homens ao limite da paciência.”

“Dá um tempo. Já chega com essa merda de politicamente correto... Essa sua paixão pelos negros do Sudão está afetando tudo agora.”

“Como você pode ser tão abertamente desprezível?”
“Porque estou a fim de ser abertamente desprezível!”
“Você é mais sincero quando é abertamente desprezível.”

“Vocês não se preocupam?”
“Sim, nós também nos preocupamos, mas de um modo histérico, não como figuras heroicas do movimento social.”

O constrangimento que “Deus da Carnificina” proporciona nos prende à trama desde o primeiro instante e em muitos momentos traz situações muito engraçadas. Diz-se que rimos do macaco porque ele faz coisas que se parecem com as que fazemos. Pois os momentos mais engraçados do filme são aqueles em que, de saco cheio de posições politicamente corretas que alguém quer impor ao outro, algum personagem explode como cada um de nós gostaria de explodir e diz coisas que adoraríamos dizer.  

“Pelo menos nosso filho não é um veadinho covarde”

“Esses dias vi sua amiga Jane Fonda na TV e tive vontade de comprar um pôster da Ku Klux Kan.
“Minha amiga Jane Fonda? Mas que diabos quer dizer?”
“São da mesma espécie. Mesmo tipo de mulher engajada que soluciona problemas. Não é dessas que gostamos. As que gostamos são sensuais, malucas, cheias de hormônio. As protetoras do mundo? Extremamente brochantes. Até o coitado do seu marido perdeu o tesão.”

Vejo “Deus da Carnificina” com uma esperança, a de que ele represente o início de um movimento social de equilíbrio dinâmico e gere o declínio dessa praga fascista de imposição de opinião conhecida como “o politicamente correto”.

“Como a deixa chamar nosso filho de criminoso? Viemos aqui para resolver as coisas com eles e eles nos insultam, nos intimidam, dão sermão sobre ser um bom cidadão do planeta... (À outra) Que bom que nosso filho encheu o seu de porrada. Estou cagando para seus direitos humanos.”

domingo, 6 de janeiro de 2013

POST PROIBIDO PARA PESSOAS SENSÍVEIS E MAGOADINHAS

Quem fica parado é poste!

Portanto, eis-me aqui, saindo da condição do artefato geralmente usado para dar suporte à iluminação pública e a fios de alta tensão... Até porque minha tensão anda baixa.

Eis aqui o Cobra, tentando, não mais parado, engolir novos sapos... Ou sapas... Ih, acho que me compliquei. Com “sapas” me referi às fêmeas do sapo, metaforicamente, é claro, e não às moças que gostam de moças. Não que eu não queira engolir algumas delas, mas duvido que elas queiram. E eu as entendo perfeitamente.

Bem, como se vê, nunca fui muito bom com preliminares. Deixo, pois, os entretantos e parto para os finalmentes comunicando que 2013 se inicia com a rendição do blog à grafia em inglês: este blog, este post, e por aí vai.
A rendição não se restringe aos anglicismos, mas a outros povos com mais identidade que o nosso: este povo brasileiro é um povinho de merda! 
O que? Levou um choque? Eu também. Mas é isso mesmo: povinho de merda! Pelo jeito, terei que me explicar... Mas aviso que vou me ater aos motivos culturais, mais precisamente relacionados ao cinema, tema principal deste blog. Quanto às outras esferas, os menos nacionalistas e menos crédulos (mais inteligentes, portanto) saberão achar, na política, nos costumes, no modo de vida e na pobreza de espírito do brasileiro médio, motivos mais do que suficientes para concordar com a fecal qualificação.

É óbvio que não estou falando do povo dotado de alma, espírito e identidade, mas do povo real, do povo que quer ser, não sabe o quê, desde que seja igual à maioria. Falo do povo gado, do povo barata, que saiu dos esgotos e habita as ruas, se acotovela nos shoppings e nas filas; falo do povo inconsciente que vaga à procura de dançar conforme a música; falo desse povo de mentira, que não é nada querendo ser tudo. Falo desse povo que, depois da música-encomenda dos anões breganejos (“cerveja, cerveja, cerveja”) acha o máximo ter a cerveja como objetivo principal em suas vidinhas xexelentas.

Esse povo não é capaz de compor coisas como “mas veio lá da penha hoje uma pessoa, que trouxe uma notícia do meu barracão, que não foi nada boa: já cansado de esperar, saiu do lugar, eu desconfio que ele foi me procurar” nem “é a ceguêra de dexá/um dia de sê pião/num dançá mais amarrado/pru pescoço cum cordão/de num sê mais impregado/e tomem num sê patrão”. Nem de entender nada disso. Esse povo não compõe nada muito diferente de “ai se eu te pego...” ou “seu guarda eu não sou vagabundo, eu sou um cara carente...”.

Esse povo se acha culto lendo 50 tons de cinza e se acha o máximo se escorando no fascismo do politicamente correto. Ainda ouviremos alguém com uma nova interpretação da música do Jorge Bem ou Benjor. Imagino um desses furrecas tipo Seu Jorge ou Cláudia Leite cantando, num show patrocinado por uma ONG que recebe uma baba do governo: “a banda do Zé Afrodescendentezinho chego-ou para a-a-a-animar a festa”.

Restringindo-me ao cinema: esse povinho de merda (sim, de merda) desconsiderou a existência da belíssima, interessante e muito bem filmada saga/aventura dos irmãos Villas-Boas, tema do filme Xingu, de Cao Hamburguer, que faria muito sucesso em qualquer país minimamente civilizado e interessado em suas próprias raízes, mas que no Brazil foi um fracasso de público. Mas veja o público que se acotovela para ver o odioso “O Hobitt”, filme de quase 3 horas de duração, que tem, na primeira hora, uns adultos disfarçados de anões fugindo, em cavalos disfarçados de pôneis, de uns carecas deformados chamados de Orcs. Na segunda hora, idem. E na terceira hora, adivinha o que tem? Bingo: os anões fugindo dos Orcs. Sensacional, não? E o povo lota os cinemas. Os que querem ser inteligentes afirmam, juram de pés juntos, que há uma filosofia por trás dessa chatice interminável. E talvez até haja. Mas e quanto a se arriscar a desbravar um sertão inóspito e de dimensões continentais país e proteger toda uma nação indígena da extinção? Não há filosofia alí? Não há aventura?

Não se trata de nacionalismo. Não acredito em “defender” ou em “valorizar o cinema nacional”. Isso é uma bobagem. Trata-se de se interessar pelo que é bom e culturalmente relevante no lugar de consumir qualquer coisa que vende muito, muitas delas verdadeiros lixos.

Por exemplo, o ótimo e emocionante, além de culturalmente relevante, filme sobre Gonzagão e Gonzaguinha foi visto por muito menos pessoas do que as bombas de humor populacho tipo “E aí, comeu” ou “Os penetras”, pífias reproduções do que há de pior na TV. Se botarem Zorra Total no cinema vão ganhar rios de dinheiro.

Tivemos o ótimo documentário sobre Raul, o tocante, sensível e importante “Cara ou Coroa”, de Ugo Giorgetti, que ninguém que está lendo este post viu. Mas também tivemos os sensacionais “Aqui é o meu Lugar”, com Sean Penn, e “Moonrise Kingdom”, de Wes Anderson, filmes para ver e rever zilhões de vezes.


2012 foi um grande ano para o cinema, aqui e lá fora. Aqui, as moscas e o povo real viram grandes filmes, inclusive brasileiros, ignorados pelo povinho de merda, cada vez mais afundado no seu jeito “amo cerveja” de ser. Por um lado é bom ver os bons filmes sem filas e sem baratas ao redor. Por outro lado é preocupante pensar que logo, logo, o cinema brasileiro seja completamente feito de lixo, tão apetitoso para as baratas.

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