domingo, 19 de maio de 2013

JULIO BARROSO E A FUNDAÇÃO DOS ANOS 80


1984
As mãos se agarravam desesperadamente no batente da janela. Pendurado do lado de fora, plena noite, ele parecia ter percebido a merda que havia feito, porque gritava por ajuda. O vizinho de cima ainda tentou arrombar a porta da sala, mas não deu tempo, o batente da janela se soltou...



Um sonho estranho nas paredes do prédio
Prefiro morrer de vodka do que de tédio
Acendo um cigarro e vou até a janela
Na rua umas sombras à luz do lua

Esse rock, que parece narrar a queda, fora gravado no ano anterior. “Perder um cara como o Julio é uma decaptação. A gente ficou órfão do nosso irmão mais velho”, disse João Luiz a Agenor, ambos desmoronados, na noite seguinte, no velório de Júlio Barroso. João Luiz e Angenor, que começávamos a conhecer como Lobão e Cazuza.

4 ANOS ANTES – 1980
O começo dos anos 80 a música brasileira estava ascensão, depois de sufocada por tanto tempo. O pessoal do nordeste, Zé Ramalho, Ednardo, Belchior e Fagner, de um lado, o pessoal do Clube da Esquina, Milton, Lô, Beto Guedes e mais um monte de gente boa do outro. Caetanos, Chicos e Bethanias emolduravam, como sempre com talento e competência, o quadro da Música Popular Brasileira. Ou seja, a música por aqui estava de uma caretice gigantesca.
Depois de morar 2 anos em NY, o jornalista, DJ e poeta carioca Júlio Barroso chegava a São Paulo cheio de ideias. O clima de SP estava favorável ao novo. O movimento independente ganhava formas. Só que Júlio era universal e queria mais. O negócio dele não era só a música, mas também a performance, a agitação, a poesia encenada.

UM ANO DEPOIS - 1981
Nos meus 18, sem trabalhar ou estudar, tímido e macambúzio, mergulhado em livros, metido a poeta, devorador de novelas e filmes, estava lá eu, ligado no MPB Shell 81, na Globo, sempre atento a uma nova “Canalha”, que Walter Franco, no festival da Tupi de 79, cantou de costas para a plateia, só se virando para gritar o refrão: “Canalhaaaaaaa”!

O festival rolava caretamente tranquilo, quando uma música começa com rugidos de leão e gritos de macacos e araras. Aí entra uma loira alucinante seguida de outras duas gatas, todas teatrais, soltas, expansivas, chocantes. Eram as Absurdettes. A loira alucinante fazia o estilo Kim Karnes, só que louca. Era May East (olha a sacada do nome: oposto cardial da loira do cinema May West !). O líder da banda, um cara esquisito, muito alto, óculos fundo de garrafa, camisa social, com um dente faltando bem na frente, tinha uma presença de palco espetacular. Sobre o dente faltando, perdeu quando, bêbado, chorava a morte de John Lennon – por isso não quis colocar outro, era sua homenagem a Lennon.

Oh! Mas que calor tropical
Mais que folhagem maneira
É sururu, carnaval
Tem festa na floreta inteira


A “Gang 90 e as Absurdettes”, que tinha visual inspirado na banda B-52, era linda e chocante ao mesmo tempo.

Quando o avião deu a pane
u já previa tudinho
Mim tarzan, you Jane
Incendiando mundos nesse matinho
Eu e minha gata
Rolando na relva
Rolava de tudo

Nem ele, nem as Absurdetes eram grandes vocalistas, mas não era de grandes cantores a cena musical brasileira precisava. Aquilo tudo ganhou a plateia na hora. O Brasil todo cantava o delicioso pop-rock “Perdidos na Selva”. Bons tempos quando o Brasil inteiro cantava coisas desse nível. O sucesso instantâneo alertou o mundo da música. Toda uma geração de jovens músicos percebeu que estava ali o caminho. A personalidade magnética de Julio Barroso, culto, caótico, verborrágico e doce, atraiu músicos que em breve iriam fazer a explosão do rock nacional.

1983
Em 83, a banda lança seu fenomenal disco “Essa tal de Gang 90 & As Absurdettes”. A empolgante balada new wave, “Nosso Louco Amor”, foi tema de abertura de novela da Globo. Sabe quando uma música toca tanto que ninguém aguenta mais? Não foi o caso dessa. Nunca é demais ouvir:

Nosso louco amor
está em seu olhar
quando o adeus
vem nos acompanhar
...
Agora aqui
passou a dor
na rua a luz
da cidade ilumina
nosso louco amor

Mas o disco tinha muito mais. Com JB no comando, as meninas fazendo vocais alucinantes, solos de guitarra e baixo com pegada pesada, “Eu sei mas eu não sei” é um rock que deveria entrar em qualquer lista das melhores músicas dos anos 80. É uma delirante e magnética declaração de princípios.

Eu posso, mas não quero

Você pode, mas não comigo
Você quer fazer mistério
Acontece que eu não levo a sério

Na sequencia, outro sensacional rock, rockasso de pegada pop, clássico, clássico, definitivo: “Convite ao Prazer”, aquela premonitória do início do post.

Dentro da banheira, espumas flutuantes
No jeito do corpo vejo crescer seu desejo
No brilho dos olhos um convite ao prazer
Ao prazer, um convite ao prazer
Ao prazer, um convite ao prazer

O disco é completo. Tem “Telefone”, uma balada romântica clássica, que o Ira gravou com a Fernanda Takai.

Pode ser de São Paulo a Nova York
Ou tão lindo flutuando em nosso Rio
Ou tão longe mambeando o mar Caribe
A nossa onde de amor não há quem corte 

E o mais deliciosamente cantado refrão da história da música universal:
Oh meu amor
Isso é amor
Oh meu amor
Isso é amor

Outra balada clássica: “Noite e dia”, parceria com Lobão. Conforme o próprio Lobão afirma, ela já estava quase toda na cabeça do JB, que generosamente o convidou a compor em parceria, depois de perder sua namorada (uma das Absurdettes) para o próprio Lobão.
No escuro do quarto, bela na noite
Nas ondas do luar
Seus olhos negros, pantera nua
Vem me hipnotizar
Eu olho sorrindo, lindo!
Você está me convidando
Menina quer brincar de amar
Você está me convidando

O disco termina com a onírica e elíptica Jack Kerouak, que acaba assim:
Ontem à noite eu sonhei
Que conversava com Jack Kerouac
Ele chegava e me dizia
"Hey Man! eu renasci black
E agora sou um tocador de piston!"
Eu só sei que o som era tão alto que despertou o mundo inteiro
Eu acordei, e saí mandando brasa nas estradas do mundo.
Sair mandando brasa nas estradas do mundo. Foi o que fez.
1984 NOVAMENTE

Um sonho estranho nas paredes do prédio
Prefiro morrer de vodka do que de tédio
Acendo um cigarro e vou até a janela
Na rua umas sombras à luz do luar

Julio Barroso não cabia num apartamento, talvez nem numa banda. Por isso resolveu fundar não só uma banda, não só o rock brasileiro de Legião, Ultraje, Titãs, Barão. Júlio Barroso talvez tenha fundado o Brasil dos anos 80.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

ÉRAMOS TÃO JOVENS


 Há coisas que te pegam e coisas que não te pegam. Tem coisas que entram e te agarram a alma e tem coisas que, por mais belas que sejam, não passam muito dos tímpanos. Da música dos Beatles, por exemplo, sempre gostei, mas ela nunca pegou de jeito, a não ser as do George Harrison, ou as que ele canta. George Harrison, durante e depois dos Beatles, sempre superbondou na minha alma. Yes nunca me pegou, Pink Floyd, sim. Vejam que estou falando só de coisa boa, e agora no cinema: Godard nunca me pegou, Herzog, sempre. Dos Andrade, Oswald não, Mário sim. E por aí vai. 

Voltando à música e aonde eu quero chegar: Legião Urbana não, Titãs sim. Renato Russo não, Cazuza, sim. Sempre achei a música do Renato Russo muito cheia de lamento, um ai ai ai sem fim, um tanto monocórdica, sempre na mesma tocada, o mesmo cantar meio ritualístico. Acalmem-se fãs/seguidores do Legião, porque também sempre reconheci sua música como de alta qualidade e refinamento e sempre achei o Renato Russo um cara sensacional. Sua rebeldia culta agradava meu esnobe padrão de qualidade.

Na real, o rock Brasília como um todo não me afetava. O Capital Inicial, por exemplo, não passava de musiquinha de adolescente mimado. Eu morava em Brasilia na época, e uma vez fui a um festival de rock e vi toda essa gente lá. Levei um cartaz prá casa, que decorou meu quarto por anos. Gostava do clima e da rebeldia, mas não da música. Minha cultura elitista e minha tendência generalizadora colocavam tudo num mesmo balaio e eu acabei não gostando muito de nada daquele tempo. Azar meu, certo?

Poucos anos depois, quando eu deixei de sentir necessidade de dizer que tudo o que faz sucesso é ruim, passei a conhecer mais a fundo as bandas daquela época e a separar o joio do trigo. Aliás, isso é uma coisa que devemos fazer sempre, revisitar e reconsiderar. Se ainda considero, e provavelmente sempre considerarei, o Capital Inicial um grupinho que faz musica chatinha para adolescente mimado, hoje sei que Ultraje a Rigor, que eu antes considerava uma excrescência, é rock muito bom; sei que o Legião é música de primeira, refinada e tal, mas que, por algum motivo, ainda não me pegou, ao contrário de “Somos Tão Jovens”, o ótimo filme sobre a trajetória de Renato Russo em Brasília. Este me agarrou.

O filme, antes de ser sobre um cara que morreu há mais de 15 anos, antes de ser sobre algo que ocorreu há quase trinta anos, é um filme com uma linguagem atual, pop, vibrante, pulsante, e, mais que biografia, é uma ode a uma juventude que não se satisfaz em se sentar na frente da TV, em consumir. É um elogio aos jovens que se mexem, que sonham, que se arriscam que se apaixonam, que criam, que produzem, que não seguem os modismos, que chocam e que se movem. Enfim, fala de uma juventude que talvez não exista mais, ao menos na mesma proporção. E está aí mais uma vantagem do filme: deve atrair toda uma juventude que gosta do Legião, não importa se gosta por ser bom ou porque gostar do Legião é um tipo de upgrade cultural. Ao atrair essa gente jovem que está por aí, quem sabe se o filme não os influencia a serem mais autênticos, mais apaixonados, mais críticos, mais rebeldes, mais criativos?

Com uma ótima reconstituição da época e do clima de festa que havia nos bares (tá lá o Beirute) e nas quadras (como eu invadi festas naquela época! ), “Somos Tão Jovens” mostra um Renato Russo cheio de impáfia e simpatia, cheio de talento e de amor. O filme, por não se propor a ser uma biografia do tipo mostra tudo, mas um retrato empolgante de uma alma, uma época, uma geração e um lugar, não se aprofunda nos romances de RR com meninos, embora não os esconda: mostra de leve, com carinho e singeleza, mas se aprofunda mais na relação de RR com sua amiga Aninha. Não sei o que é verdade ou não e nem isso importa, porque é dessa relação que o filme tira seu momento mais emocionante, quando, com a música “Ainda é Cedo”, RR tenta se reconciliar com a amiga.

O filme é cheio de outros acertos, como a valorização das músicas e das performances de Renato Russo nos palcos de Brasília. O ator, Thiago Mendonça, encarna plenamente a alma bela e atormentada, além de cantar bem e exatamente como RR. Laila Zaid, a atriz que interpreta a amiga Aninha, está deslumbrante. Além de tudo, o diretor Antonio Carlos da Fontoura soube conduzir e terminar o filme muito bem, acerto que se prolongou nos créditos finais, cujo clima fecha a mensagem e o clima que o filme parece ter desejado transmitir.

Não vi, nos palcos que o filme recria, o cartaz que tive no meu quarto, mas vou procurar mais algumas vezes. Além disso, está em curso uma releitura da obra de Renato Russo. Quem sabe agora ele não me pega...

domingo, 21 de abril de 2013

A CAÇA AOS AMIGOS




Hoje um amigo, vítima de inclassificáveis intenções ou de outra bobagem qualquer, postou a frase, atribuída a Augusto Cury, “a crise não afasta os amigos, apenas os selecionam”. Discordo: o correto seria “...apenas os seleciona”, assim, no singular, sem o “m” (a crise seleciona os amigos). O erro não foi do meu amigo, foi de quem montou o banner, ou terá sido do autor? Discordo da gramática, mas não do conteúdo. Na verdade, acho que no facebook, mesmo os que tem 800 amigos, estão à caça, no bom sentido, de amigos, meia dúzia que seja, na melhor das hipóteses, do tipo que sobrevive às crises. Como diz uma amiga de Bauru, dá trabalho demais fazer amizade, amigos já bastam os poucos que tenho. 

Outro amigo, o mais paulista dos cariocas que conheço, também postou hoje: “por mais que você seja legal, gente boa, solidário, amigo e o escambau, pode ficar certo de que, em algum momento, você vai ser julgado mesmo é pela sua falha. Aquela única, banal, que você cometeu. E que talvez sequer seja uma falha”. Essa ressalva final é a cerejinha de crueldade. Se já é estúpido marcarmos alguém por ter falhado, que dirá quando sequer houve falha. 

Mais uma, esta mais otimista: um terceiro amigo, sorridente, pequeno e circular, finalmente, depois de anos de em abdução em uma trama kafkiana, está de volta, “livre, leve e solto”. “Leve” é maneira de dizer. Para este, felizmente, tudo parece voltar ao normal... Ih, desculpe, mas me lembrei de “Notícia de Jornal”, do Chico (não é um saco gente que se faz de íntimo do artista e chama o Chico Buarque de Chico?)
Tentou contra a existência
Num humilde barracão
Joana de tal, por causa de um tal João
Depois de medicada
Retirou-se pro seu lar
Aí a notícia carece de exatidão
O lar não mais existe
Ninguém volta ao que acabou...
Para quem se interessa pelo tema dos exemplos acima e não sabe de detalhes destes meus amigos, eu poderia aconselhar “Desejo e Reparação”, aquele filme com a sempre deslumbrante Keira (serei íntimo dela ou simplesmente não sei escrever seu sobrenome?), mas não aconselho, porque o filme é, basicamente, um pé-no-saco; nem a Keira o salva.
Bem melhor, zilhões de vezes, é o imperdível filme dinamarquês em cartaz, “A caça”, que também fala de acusação injustiça. Numa cidadezinha cuja principal diversão é a caça, um cara que trabalha numa creche é bizarra e injustamente acusado de molestar uma menina, justamente a filha de seu melhor amigo. Seu filho adolescente estava para se mudar para sua casa, ele acabava de arrumar uma namorada muito interessante e sua vida parecia que ia voltando aos eixos após a separação, mas a neurose da diretora e dos pais das crianças vira sua vida, que começa a escorrer ralo adentro. Os mecanismos pelos quais a diretora e os pais se convencem da culpa do professor são homenagens exemplos claros de burrice, de visão estreita e principalmente de como o animus puniendi pode guiar as ações e desconsiderar toda a vida pregressa do acusado e acabar com qualquer racionalidade e inteligência. Não adianta nem a criança falar “ele não fez nada”. O rótulo já foi impresso e colado.

Sabiamente, a polícia não é mostrada em nenhum momento, a não ser quando dois policiais saem com ele, preso, enquanto o filho está chegando. Por que é sábio não mostrar a polícia, nem nada da investigação policial, tampouco a defesa do professor? Porque não é isso o que interessa ao filme. O que importa é o julgamento que a sociedade faz, por mais absurdo que seja. É aí que a crise seleciona os amigos.  

Atuações fantásticas e um jeito de filmar e de contar a história que não se apoia em soluções mágicas e descobertas de última hora, nos colocam dentro do filme, não na frente dele, como normalmente acontece num típico filme hollywoodiano (em tempo: adoro filmes tipicamente hollywoodianos). A Caça, ao contrário de morder e assoprar, morde e morde mais forte, queima, dá porrada, provoca. Muita gente na plateia não se aguenta e quer participar, dar sugestão, mostrar indignação. Você, que não gosta de barulho no cinema, tente abstrair ou vá a uma sessão num dia e horário de poucas pessoas.

Eu fiquei mais envolvido em tentar adivinhar e torcer por uma quase impossível solução para o calvário do personagem, para sua paixão em que só faltou mesmo a cruz. Embora provoque emoções, o filme não abre mão da beleza, mesmo em algumas cenas quase catárticas, como uma das últimas, justamente da missa de Natal, época em que se relembra a paixão de Cristo, numa associação comovente.

Aqui não estou mais falando do filme, nem de meninas: o problema é que nenhuma menina é mais a mesma depois do estupro. Mas isso é o que menos importa, porque meus amigos podem, e devem, sair até melhor disso tudo, porque, como postou hoje um deles, ao menos poderão selecionar melhor suas companhias.

Mas nem tudo são flores na vida de Joseph Klimber. Haverá mais uma violência a vencer: o julgamento dos medíocres e dos boçais do dia-a-dia.  Por mais que alguém tenha dado um milhão de bons exemplos, a maioria das pessoas, de vida medíocre e raciocínio simplista, apenas espera, torce até, que esse alguém cometa uma falha, única que seja.

Acho que funciona assim o inconsciente dessa gente: eu, simples e banal, não consigo me livrar de minha mediocridade e isso me angustia diariamente. Só me alivio quando alguém melhor do que eu se dá mal. “Olha só, ele é pior que eu, que delícia! Ele não podia ser aquela maravilha toda! Ufa, agora já posso dormir em paz”.  É mais ou menos como um pontepretano, que nunca soube o que é ganhar um título, vibrar com o rebaixamento do Guarani, o arqui-rival, por isso eu sei como funciona.

Talvez seja assim com todos: temos uma natureza cruel e somos, em maior ou menor escala, medíocres, embora afirmemos odiar a mediocridade. Por isso, nossos bolsos vivem cheios de pedras, que pesam e atrasam nosso caminhar, mas o prazer que dá quando temos alguém para apedrejar...
Quem toma consciência disso pode mudar, ou ao menos se policiar e fugir da mediocridade e viver uma vida mais plena e mais rica. Só que assim pode se tornar alvo. E, embora talvez eu desaponte meu circular amigo, desconfio que nunca faltarão oportunidades aos medíocres de nos jogar pedras, ou de nos dar um tiro de alerta nos dizendo que ainda somos a caça.

Fazer o quê, amigos? Levanta e sacode a poeira. E bora co’essa prá cruzeta que tá mui da tucandêra!

domingo, 31 de março de 2013

O HORROR DA INVASÃO DE NOSSA PRIVACIDADE

O que há de mais terrível do que a iminência, cada vez mais concreta, de você ter a sua vida privada invadida? De ter sua vida e a de sua família vigiada? Lá pelos anos 60 e 70 este era um dos mais recorrentes temas de filmes de ficção científica. Veja que, em geral, filmes de “ficção científica” são passados num futuro que ninguém sabe ao certo se realmente acontecerá, mas acabam nos colocando diante da possibilidade de virmos a viver num mundo de terror. A invasão de nossas vidas já nos aterrorizava nos anos 60.

Mais de 50 anos depois, com internet, redes sociais e o diabo a quatro, a profecia está, com ou sem a nossa permissão, se cumprindo: alguém, em algum lugar, pode saber tudo de nós.
Raul Seixas, na genial Paranóia,  brinca com esse medo, transferindo-o a Deus:

Minha mãe me disse há tempo atrás
Onde você for Deus vai atrás
Deus vê sempre tudo que cê faz
Mas eu não via Deus
Achava assombração, mas...
Mas eu tinha medo!
Eu tinha medo!
Vacilava sempre a ficar nu lá no chuveiro, com vergonha
Com vergonha de saber que tinha alguém ali comigo
Vendo fazer tudo que se faz dentro dum banheiro
A pergunta é: agora, que já estamos no futuro, isso já não nos aterroriza mais ou não estamos nos dando conta dos perigos que corremos?

“Perigos”, aqui, não são apenas os concretos e criminalizados, como invasões de hackers nas contas bancárias, assaltantes e maníacos sexuais. Esses são os menores. Perigo de verdade são aqueles que o Raul e o filme francês “Dentro de Casa”, que está nos cinemas, apontam: nossa intimidade pode não ser mais íntima, e, ao não ser íntima, não é mais nossa e, assim, não temos mais a plena e total propriedade do que fazemos, de como usamos nosso banheiro, nosso quintal, nosso quarto... Se nossa existência se confirma pela nossa “persona”, única e individualíssima, perder essa nossa individualidade é quase como deixar de existir. Este é o verdadeiro terror.

“Dentro da Casa”, o filme, já impacta nos créditos de abertura, com fotos de alunos de uma escola, num mosaico do qual, no lugar de se afastar e mostrar que somos apenas mais um na multidão, o que, digamos, é um conforto e uma segurança, a câmera se aproxima, como se escolhesse alguém ao acaso para mostrar... e invadir. Há um desconforto já ali.

No mesmo sentido, do todo para o específico, um professor corrige, compartilhando com sua esposa, redações medíocres de seus alunos. Entre tantas, uma chama a atenção do casal. Em boa escrita, um aluno conta como escolheu um colega para, sob o pretexto de ajudá-lo em matemática, aproximar-se, entrar em sua casa e analisar ironicamente sua família, sua vida privada.

O filme estabelece um paradoxo ao deliberadamente não utilizar nenhum dos instrumentos mais comuns e esperados para invadir a privacidade: não usa, em nenhum momento do filme, um computador sequer. Nenhuma dessas máquinas diabólicas é acionada. Trata-se apenas um colega do filho que entra em sua casa, e relata tudo nas redações, escritas à mão e mostradas ao professor. 

A esposa do professor, mais que este, parece enxergar o horror e o perigo daquilo, e alerta o marido, mas este não consegue botar um ponto final nas redações, interessado que está no desenvolvimento do aluno escritor... Ou o interesse estaria, além da tarefa de orientação, em extravasar seu desejo, que é um pouco o desejo de todos nós, de invadir a vida alheia?

O professor pergunta ao aluno: “Porque escreve o passado no presente?” “É uma maneira de me manter dentro da casa”, responde o aluno. “O que vem em seguida?”, o professor instiga o aluno a continuar.  
“O que vem em seguida”. É exatamente isso que nós, que assistimos, nos perguntamos, cada vez mais retorcidos na cadeira. “Dentro da Casa”, filme de puro suspense, tem direção impecável e interpretações absolutamente convincentes, que nos levam, inevitavelmente a reflexões inconfortáveis.

Bônus: as duas atrizes, Kristen Scott Thomas, aquela maravilhosa de “O Paciente Inglês” (1996) e Emmanuelle Seigner, a louquinha deliciosa de “Lua de Fel” (1992). Ambas, agora em torno dos 50 anos, exuberantes de talento, beleza e sensualidade, explodem na tela e parecem, imbuídas do espírito de Nelson Rodrigues, aconselhar às novas divas do cinema, às lindas universitárias e às gostosinhas do happy hour: mulheres jovens, envelheçam, por favor. 

PAI, O QUE É PÁSCOA?


-      Pai, meu ovo de páscoa caiu no chão.
-      Então pega e passa um paninho no chão.
-      Não sujou, ele ainda estava fechado.
-      Então qual o problema?
-      Nenhum, mas eu fiquei pensando... Porque o ovo caiu?
-      Porque você derrubou.
-      Mas porque ele cai pro chão e não pro alto?
-      Porque se fosse pro alto ele não teria caído, teria voado.
-      Porque o ovo cai pro chão e não voa pro alto?
-      Por causa da força de gravidade.
-      O que é força de gravidade?
-      É um negócio que o Issac Newton inventou depois que uma maçã caiu na cabeça dele quando ele estava sentado debaixo de uma árvore.
-      Porque a maçã caiu na cabeça dele?
-      Por causa da força de gravidade.
-      Como, se ele ainda não tinha inventado?
-      Ele não inventou, eu falei errado. A gravidade já existia, senão as coisas ficavam todas flutuando, eu estaria agora tentando ler esse jornal lá no alto, do lado do lustre. A força da gravidade sempre existiu, ele só deu o nome.
-      E porque ele chamou de “força de gravidade”?
-      Sei lá, que pergunta! Porque é uma coisa que FORÇA as coisas a ficarem no chão.
-      E porque ele colocou o nome da força de força de GRAVIDADE?
-      Bem... Não sei!
-      Será que era porque a mulher dele estava grávida?
-      Acho que não, ele já devia ser muito velho para ter filho.
-      Qual o problema de ser velho? Não é a mulher que fica grávida?
-      Bom... É... Mas se fosse isso ele colocaria o nome de força de GRAVIDEZ, não de GRAVIDADE.
-      Será que é porque derrubar as coisas é uma coisa grave? A mãe diz que se eu derrubasse o vaso dela no chão seria muito grave.
-      Seria bem grave mesmo, porque o vaso iria quebrar e você poderia se machucar.
-      Então derrubar o ovo de páscoa no chão não é grave: não quebra e nem me machuca.
-      Não, não é grave, mas ele só cai por causa da força da gravidade e ponto final. Entendeu?
-      Acho que sim...
-      Agora me deixa ler o jornal...
-      Pai, posso fazer só mais uma pergunta?
-      Pode, é claro.
-      O que é Páscoa?
-      É o dia em que Jesus ressusci... ih, vai ser complicado explicar isso...  Páscoa é o dia em que a gente come ovo de páscoa...
-      Porque a gente come ovo de páscoa?
-      Porque é gostoso.
-      A mãe falou que este é o último ano que a gente vai comer ovo de páscoa, porque o preço do ovo é cinco vezes maior que o preço do chocolate.
-      Ela tem razão.
-      Então não vai mais ter páscoa?
-      É claro que vai. Não é porque a gente não vai comer ovo de páscoa que não vai ter páscoa.
-      O senhor não disse que páscoa é o dia que a gente come ovo de páscoa?
-      Não foi isso que eu quis dizer. Eu usei uma metáfora.
-      O que é metáfora?
-      É quando a gente diz uma coisa querendo dizer outra.
-      Prá que serve dizer uma coisa quando a gente quer dizer outra?
-      Porque tem coisa que dá tanto trabalho explicar que é melhor usar uma metáfora.
-      Porque dá trabalho explicar o que é páscoa?
-      Porque páscoa é uma data que comemora uma coisa que não existe... quer dizer, a páscoa comemora uma coisa que, se por acaso existiu, não é nada comum.
-      Dá mais trabalho explicar uma coisa que não é comum?
-      Olha, se explicar uma coisa comum, como o seu ovo de páscoa cair no chão, já dá um trabalho danado, imagina explicar uma coisa como a ressurreição de Cristo!
-      A páscoa é a ressurreição de Cristo?
-      Você sabe o que é a ressurreição de Cristo?
-      Não é uma metáfora?
-      Filho...
-      Sim, pai.
-      Feliz páscoa!

domingo, 24 de março de 2013

THE DARK SIDE OF THE MOON


Hoje é domingo, o dia da semana que mais carrega significados. Na minha infância, significava ver “A Família Trapo” (nome que, aprendi no Google, foi inspirado na Família Von Trapp, aquela do musical “A Noviça Rebelde”), com Otelo Zeloni, Renata Fronzi (a cara da minha irmã Ana), Golias e Jô Soares. Para muitos, domingo significa comer maionese e macarronada, ver Silvio Santos, ir ao futebol... Há tempos que para mim domingo significa ler o jornal de domingo, o que normalmente faço na cama, antes de me levantar. Maravilhas da internet móvel.

E hoje o jornal trouxe uma informação que mudou meu dia e, espero, mude o seu: há exatos 40 anos era lançado um dos maiores discos da história da música – The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, aquele cuja capa é a mais conhecida da história das galáxias. Levantei já com o dito cujo nos ouvidos (tenho o “disco” no mesmo celular em que li a matéria), saí com os cães, fiz compras, cozinhei um ratatouille, e neste momento estou bebendo um freixenet, tudo ouvindo várias vezes a genial obra prima da banda inglesa.

Ouvi Dark Side pela primeira vez lá pelos 17 anos (quando foi lançado eu tinha 11), numa fita que o Sinistro (um dia escrevo sobre ele) gravou para mim. Foi uma pedrada. Senti tudo o que aquela obra queria dizer sem ter a mínima ideia do que dizia e quando, sei lá quanto tempo depois, tive acesso à letra, constatei, sem nenhuma surpresa, que tudo o que eu sentia quando ouvia, era exatamente o que as letras diziam. Quando a forma comunica e toca, o nome disso é arte! E quanto mais comunica, mais arte é. Assim é com o cinema, com a pintura e, creio, com qualquer outra verdadeira manifestação artística: diz coisas relevantes e profundas através da beleza das formas. No caso de Dark Side, as formas se fazem com ritmos, instrumentos, vozes, cantos, sons e alma.

Cada passagem de cada música foi cuidadosamente elaborada de modo a não se limitar à melodia e aos instrumentos. Sons de objetos, falas avulsas, sequências rítmicas feitas com instrumentos novos ou mesmo com não-instrumentos engenhosamente criados com o fim de transmitir algo a mais. A criatividade e a capacidade de inovação do quarteto estavam a mil. O resultado foi a maior obra pop-rock da história.
Lembro-me que quando ouvia a abertura, com aquele coração pulsando grave, a explosão, o grito e aquela melodia elíptica, tudo ali parecia falar comigo, com minhas angústias, com meu coração aprisionado de adolescente. O nome da música? “Speak to Me”, descobri depois.

O disco é uma obra uníssona, como uma sinfonia. Cada música é preparação para a próxima, com nível emocional cada vez maior.  A segunda melhor ligação de uma música para outra, na história da música universal, é a passagem da sinuosa "Any Colour You Like" para da épica “Brain Damage” (“The lunatics is on the Grass...”). A melhor passagem da história é exatamente a seguinte, de “Brain Damage” para “Eclipse”. Maldito seja para toda a eternidade aquele que ouvir uma sem a outra. E que morra seco aquele que as ouvir na sequencia e não ficar paralisado de emoção, admiração, respeito, estupefação, seja lá o que for... O final do disco, com Eclipse, é de uma emoção indescritível. Só ouvindo...

Ao contrário de nós, que envelhecemos a cada ano, parece que “Dark Side” não envelhece, está cada vez mais cheio de qualidade, energia e significado.

Curiosidade, para fechar com chave de ouro e com mistério: diz a lenda que as músicas foram feitas sobre o filme “o Mágico de Oz”, como se fosse uma trilha sonora. Gilmour e Waters negam, mas, de fato, são impressionantes algumas coincidências entre os climas e os momentos de virada das cenas e das musicas. No link, o filme e a música juntos: http://www.youtube.com/watch?v=h6a5DH_ePVQ

 Dê esse presente a você mesmo: ouça, o mais rápido possível, mas ouça como se deve, sem ninguém por perto, sem pensar em mais nada. E se você gostar, e se ficar paralisada*, então...
“I'll see you on the dark side of the moon

* Acho que quando escrevo penso em mulheres, ou em uma mulher, sei lá...

sexta-feira, 15 de março de 2013

ACABE COM SUA ANSIEDADE - UM DEPOIMENTO SINCERO


Minha amiga Débora, bem intencionada, me deu um presente. Ela me acha muito ansioso, mas garanto: é bobagem; ao menos foi o que respondi a ela naquela noite, na creperia. O fato é que não suporto ser mal atendido ou, pior, não ser atendido. Perguntei a ela como é que alguém pode entrar num restaurante e ficar sentado quase a noite toda esperando ser notado por um filho da puta de um garçon. Perdoem-me a expressão, mas é que realmente eu estava um pouco exasperado.

“Sem ser notado? A gente estava lá não fazia nem 5 minutos e você já estava tremendo e com falta de ar!”

Com efeito, podem ter sido 5 minutos, o que já não é pouco, mas se eu não me levanto e vou lá reclamar em altos brados e puxo o garçon pela gravata borboleta, quantas horas esperaríamos?

“Você sempre acha que vai demorar, que ninguém vai te ver. Nunca vai em praça de alimentação porque acha que não vai ter vaga no estacionamento, que tem muita gente, que todo mundo vai sair ao mesmo tempo e você vai ficar horas parado e sem ar no estacionamento... E diz que não é ansioso?”

Bom, o fato é que no dia seguinte minha amiga, demonstrando preocupação e gentileza, presenteou-me com um livro, bem pequeno, de “meditação e harmonização com o universo”, presente que recebi com muita gentileza e com um sincero agradecimento, muito embora eu tenha comentado, assim, en passant, que não leria aquela merda nem a pau.

Mas o fato é que o li. E aqui declaro: ele mudou minha vida. Sabe aquela história de que os menores frascos guardam os melhores perfumes. Pois este é, precisamente o caso do livreto. Confesso que no começo a leitura foi dolorosa, como deve ser doloroso para a águia arrancar na marra suas unhas e suas penas. Ao final do livreto, senti como uma nova águia, novas unhas, novas asas, pronto para voar. É com emoção que compartilho, a partir de agora, alguns trechos do livro com os leitores. Tudo o que está entre aspas, é, de fato, transcrição do livro.

“Aqui se trata de troca de informações com o Universo Vivo, uma mente inteligente que anseia por se comunicar com você e se deleita com isso”. Fiquei pasmo. Vejam que Universo Vivo, UV, é com letra maiúscula, nome próprio. Uma excitação me percorreu a espinha. Sempre quis que uma mente brilhante se deleitasse comigo. Na verdade, queria mesmo é que ela se deitasse comigo, mas deleitar-se já era muito mais do que eu vinha tendo. Neste ponto do livro comecei a tremer. Pensei em chamá-la, intimamente, de UV, suas iniciais. Continuei a percorrer, ávido, as linhas e as páginas.

“Trata-se de um momento de relacionamento entre a pessoa e a Mente Universal”. Uau, tinha mais alguém na história! O Universo Vivo, a Mente Universal e eu, nós 3 alí, trocando informações e relacionamento.

“Ao se perceber pensando em outra coisa, não se irrite consigo mesmo por causa disso, mas volte seu pensamento para a prática inicial”. Reconheço que eu sempre fazia diferente: quando estava muito, digamos, ansioso num “relacionamento” e queria que demorasse mais, eu pensava em futebol, mais precisamente na Ponte Preta. Funcionava, aguentava um tempo. Quando, pelo contrário, eu não estava nada ansioso, e precisava ficar para não dar vexame, eu costumava pensar na... bom, melhor não dizer o nome.

“Conte vagarosamente e mentalmente de 50 a 1. Se perder a contagem, não se irrite consigo mesmo por causa disso”. Outro dia vi um filme que o cara contava mentalmente para durar mais, só que na hora H ele gritou “TRINTA, TRINTA, TRINTA!”

Achei o máximo o livro me dizer a todo instante para acalmar-me comigo mesmo. Ele parecia me confirmar: sou mesmo ansioso. Senti que estava, ao menos, aceitando isso, o que é o primeiro passo para mudar. Liguei para a DEF para contar minha evolução. Mais tarde, no Capítulo “A consciência do próprio corpo”:

“Agradeça a cada músculo...” – achei meio estranho aquilo. Como é que vou agradecer cada músculo? Aí, musculão, valeu, ein? Vou agradecer sem nem saber quais são os músculos? Sem ao menos saber o nome de cada músculo. Não seria mais sensato agradecer em geral, a todos os músculos? Parei e pensei “deixa de ser ansioso” – estava funcionando.

“Agradeça às veias, a cada célula...” Não! Para tudo! A cada célula? Vou ficar quanto tempo agradecendo? Será um exercício de paciência, como uma vacina para a ansiedade, feita com o próprio veneno que a causa?

“Faça o mesmo com cada órgão de sua região genital...” Desculpa, mas essa eu não posso. Outro dia eu brochei com a Juliana – nome trocado para proteger a vítima – sim, vítima! Depois de 3 anos tentando, quando eu consigo sair com a moça, ele me apronta essa e eu ainda vou ter que agradecer?
Neste momento a luz acabou em Águas Claras e eu tive que respirar fundo, uma, duas, três vezes. Foi quando percebi que, além de controlar a ansiedade, o livro, minha amiga DEF e até a CAESB queriam agora que eu me tornasse uma pessoa capaz de perdoar. Voltamos, a luz à minha casa e eu à leitura.

“Repasse a anatomia do corpo humano em algum atlas, e conheça cada órgão pelo nome”. O livro falava comigo, respondia às minhas angústias. Perdoei e cumprimentei, pelos nomes, meu inerte conjunto formado pelo corpo cavernoso e pelo corpo esponjoso, sem esquecer de dar um fraternal abraço na glande. Depois, até às 5 da manhã cumprimentei músculo por músculo do meu corpo, conforme solicitado pelo livro. Não fui trabalhar no dia seguinte, o que contribuiu ainda mais para me acalmar, embora talvez não tivesse ocorrido o mesmo com o pessoal com o qual eu havia marcado uma reunião. Assim que acordei, às 11, continuei, ansioso, a leitura.

“Insira conscientemente seus desejos e suas intenções a respeito do mundo exterior na Sabedoria Cósmica”. Nossa... É assim que o Gerson consegue pegar tanta mulher? É assim que tanta gente enriquece sem explicação lógica? E os maldosos pensando que é corrupção... Agora, leitor incrédulo, veja esta:

“O seu mais profundo eu está aproveitando o desligamento de sua consciência das preocupações e correrias deste mundo e fazendo uma profunda troca de informações com o Universo, enviando e recebendo dados...” - caraca, velho, é download espiritual! Puxa, vou devolver o meu modem da Vivo.

“... recebendo tanto os dados relacionados aos seus desejos e intenções conscientes, quanto instruções para a realinhamento de energia vital...” – é atualização de software – a alma é um software!!!

“... causando a revigoração de vários de seus órgãos internos.” Ei, e os externos? E o corpo cavernoso? É ele que preciso revigorar!

“Você receberá as inspirações que guiarão a sua vida, enviadas diretamente da Grande Mente Universal, que tudo sabe, que tudo vê, e que pode tudo”. Nossa, PODEROSA! Essa GMU deve ser a chefona, a presidente, diretora, sei lá, quem manda no lance todo. Acho melhor agradá-la. Foi o que decidi fazer, intimamente e sem alarde, é claro, porque senão ela pode pensar que estou puxando o saco e minha vida piorar ainda mais. Como minha vida pode piorar? Os garçons demorando mais tempo para me atender a Juliana nunca mais me atendendo no celular.

“Converse mentalmente com seu eu mais interior, diga em pensamento “Olá, ... (diga interiormente seu próprio nome), meu amigão, que bom estarmos juntos nessa! Como nós somos felizes, né? Nós somos lindos, não é mesmo? Nós somos demais, né?” M-E-U  D-E-U-S! Agora entendo aquele cara com ares de perfeitos, que se alisa o tempo todo, mantém os cabelos sempre penteadíssimos e sai aos domingos de bermuda social passadíssima e com vincos.

“Enamore-se do seu eu, pergunte a ele o que ele quer fazer ao estar no cinema e assistir uma cena bem legal...” -  neste momento pirei. Minha consciência, Cósmica ou não, minha sabedoria, Universal ou não, pensou: “tudo bem se eu me elogiar muito; ok se eu falar pro meu EU que ele é lindo... Até posso aceitar convidá-lo a ir ao cinema. Mas perguntar ao meu EU o que fazer ao assistir a uma cena bem legal? Cara, pensei comigo mesmo, isso é o quê? Uma espécie de auto incesto? Depois do cinema vou me levar aonde? Ao motel?

Aproveitei a luz que me iluminou neste momento e pulei da cama, me arrumei, ansiosíssimo e morrendo de fome, bem na hora do almoço, e fui ao Giraffas, num shoppinzinho aqui perto, onde sei que demorarão horas para me atender e mais horas para me servir uma comida totalmente sem gosto. Na saída, havia um congestionamento no estacionamento e levei 40 minutos para sair daquele subsolo cheio de monóxido de carbono. Cheguei em casa, tomei um Cefaliv, para a dor de cabeça, um Dorflex, para relaxar, uma coca para dar mais vida a tudo, coloquei uma pastilha de kolantil  na boca, para a asia, e dormi suando e tendo dezenas de pesadelos angustiantes. Era eu novamente!

segunda-feira, 11 de março de 2013

ENQUANTO A FUMAÇA BRANCA NÃO VEM

A igreja católica está em festa. 

Sempre gostei de a companhar os noticiários após as mortes de papas anteriores. Normalmente quando se morre um papa há aquela comoção toda, tristeza, choradeira, as TVs transmitem o velório e  mostra a multidão fazendo filas para dar o último adeus ao santo padre. Sempre estranhei essa frase que todas as TVs usam ao mostrar velórios de famosos: "dar o último adeus", como se todo mundo tivesse dado vários "adeus" antes daquele. Mas vá lá, o que sempre me importou era estar conectado com aquela tristeza geral, muito embora ela sempre guardasse uma porçãozinha disfarçada de excitação e expectativa com a eleição do próximo papa. 

Todo mundo acompanha eleição de papa, que por sinal tem aquela esquisita designação "conclave". Eu sempre confundia com conclave com conchavo. A Igreja católica sempre trabalhou bem, em termos de espetáculo, o conclave. Genial aquela ideia, talvez milenar, de jogar fumaça preta e fumaça branca, esta última quando o novo papa foi escolhido, ou eleito. Isso, aliado com a estratégia de todos os cardeais ficarem lá dentro incomunicáveis seja por quanto tempo for, faz com que o mundo todo fique ali, parado, olhando para uma chaminé. O suspense continua até que se abra a porta daquela varanda do prédio do vaticano e alí apareça um velhinho com uma roupa sensacional e erga os dois braços dizendo ao mundo "podem ficar  tranquilos, Deus me mandou aqui para cuidar de vocês e tudo continuará bem".


Pois bem: como consta na abertura deste nem tão católico post, a Igreja católica está em festa, porque desta vez ninguém precisa disfarçar a empolgação com o conclave: ninguém morreu! O papa anterior está lá, são e salvo e vai morar num maravilhoso castelo, bem melhor do que um túmulo, por mais lindo, espaçoso e dourado que este fosse. 

Grande parte do, digamos, sucesso institucional do conclave é que ele desperta nossa curiosidade. Como será que é essa votação? Como ficam os cardeias lá dentro? O que sentem os candidatos a Papa? Diga a verdade, leitor, católico ou não: você nao gostaria de ser uma formiguinha para ver o que rola lá dentro? 

Então satisfaça esse desejo: vá a uma locadora e pegue "Habemus Papam", brilhante filme do italiano Nanni Moretti. 


Um Papa morreu e tem início o conclave. Com um inicio que mais parece um documentário, o filme impressiona pelo realismo com que mostra os cardeais, o Vaticano por dentro, o modus operandi do conclave e a expectativa dos cardeais. Interessantíssimo quando o filme deixa a linguagem documental e entra na cabeça dos cardeais, que imploram a Deus que não os coloque naquela posição. Um destes acaba eleito, o que parece provocar nele uma visível tensão, que explode numa crise de pânico quando ele é chamado a sair no balcão e se apresentar ao povo. O homem trava. E não há quem o tire de seu torpor. O relações públicas inventa uma desculpa qualquer à imprensa enquanto tentam resolver o impasse. Aí chamam um psicólogo, mas as regras do vaticano impedem que ele fique sozinho com o novo papa para fazerem as sessões. O problema aumenta quando o papa foge e fica no meio do povo, para tentar se encontrar. 


O psicólogo fica preso lá dentro, junto com os cardeais e, na falta do que fazer organizam jogos de mesa e, pasmem, um campeonato de vôlei. Essa sinopse parece levar a crer que estamos diante de uma comédia. De fato, divertido é. Mas ao tratar o humor das situações inusitadas com delicadeza e respeito, a trama ganha em profundidade, afinal, trata-se de um dilema de quem é o "escolhido de Deus" e não se julga com competências necessárias para ocupar a posição que ocupa. Como uma sincera reflexão sobre suas competências faria bem a todos aqueles que ocupam posições, nas empresas e na política. Como seria bom se as pessoas não se considerassem Deus. 

Veja o filme e torça para quem quiser no conclave, inclusive para o brasileiro, que tem chances reais de ser o novo Papa. Seria interessante um brasileiro na posição mais importante no mundo depois do presidente dos estados Unidos e do chefe do Al Qaeda. Resta saber que nome o papa brasileiro escolheria. Lula Primeiro?

Voltando ao filme, que não é católico (o diretor, inclusive, é ateu), mas universal: o final, poderoso e revelador, nos leva a compreender, ou ao menos a sondar, a solidão, a grandeza da alma, do sofrimento e do gesto final, quase divino de tão humano.
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