domingo, 2 de março de 2014

EN DEUINERIS

As colocações são minhas opiniões, não minhas apostas.

DIREÇÃO
   1.  Alfonso Cuarón, GravidadeCom um roteiro bem básico, com um ou dois atores, teve coragem para buscar novas técnicas de filmegem, não digitais, que pudessem fazer com que a plateia se transformasse em astronautas soltos a esmo no espaço. Coragem também para ancorar numa atriz que não é das melhores que Hollywood já produziu. O resultado é interessantíssimo. O que ele fez não foi pouca coisa.
  2.  David O. Russell, Trapaça – Cenas antológicas num filme em que tudo funciona bem, tudo é redondo e bem filmado. Em termos de direção de ator, também muito interessante. Exemplo: De Niro vem fazendo o mesmo tipo por vários e vários filmes. Aqui há um grande ator num personagem único.  
3.    Alexander Payne, Nebraska Se ganhar também seria o máximo. Na verdade, o Oscar de direção devia ser dividido por três.
4.    Martin Scorsese, O Lobo de Wall Street – Ok, Martin. Você é bom e deve ter se divertido muito ao filmar as loucuras do lobo e de seu parceiro. Aproveite a festa.
Não vi:           Steve McQueen, 12 Anos de Escravidão

ATOR
    1. Matthew McConaughey, Clube de Compras Dallas O que? Esse atorzinho de comédia de terceira concorrendo ao Oscar? Estão querendo fazer dele o queridinho de Hollywood? Era exatamente o que eu pensava dele antes de vê-lo roubando a cena em O Lobo de Wall Street e depois, na série “True Detective”. Nesse filme, ele está impressionante, numa atuação de múltiplos expectros. Deviam dar o Oscar para ele e suspender a categoria de melhor ator por três anos.
2.    Bruce Dern, Nebraska Sensacional. Divino. Oscar nele. Impressionante como não parece estar atuando. Seu personagem, um velho todo atrapalhado, é um dos personagens mais críveis que já vi. É o meu avô rabugento, é o seu tio meio lelé, é aquele velhinho da casa da esquina que anda todo desarrumado e despenteado. Ao mesmo tempo é simpático e carismático. A lembrar: há quase 40 anos, ele fez um motorista de taxi em Trama Macabra, casado com uma vidente charlatã, no último filme de Hitchcock. O casal mais simpático de toda a filmografia do mestre.
3.    Christian Bale, TrapaçaPara mim, uma grande surpresa. Não imaginava que o cara fosse tão bom. No filme só a Jennifer Lawrence é melhor que ele. Desempenho quase digno de Oscar.
4.    Leonardo DiCaprio, O Lobo de Wall Street. Não entendo. Foi bem, mas num personagem que exige pouco em termos de alternância de estados, em termos de profundidade. Bem, talvez tenha sido ele mesmo que não deu a profundidade necessária.
Não vi:     Chiwetel Ejiofor, 12 Anos de Escravidão

ATRIZ
1.    Cate Blanchett, Blue Jasmine100 palavras. Será a nova Meryl Streep. Se tem 3 falas num filme, como no fraco Caçadores de Obras Primas, já arrebenta, imagina sendo a protagonista neurótica de um filme sério de Woody Allen?  
2.    Judi Dench, PhilomenaEssa mulher vale uma fortuna, não precisa de muita coisa para ser uma presença forte, divertida, emocionante. Seria lindo se ganhasse. Torco por ela.
3.    Amy Adams, Trapaça – Um decote fascinante. É boazinha. Ela tem carisma, é convincente. Adoro ela. Logo ganha, assim que enjoarem da Maryl Streep, da Cate Blanchet e da Jennifer Lawrence, se não aparecer nenhuma outra desse tipo antes.
4.    Meryl Streep, Álbum de Família Não vi, mas certamente está melhor que a Bullock;
5.    Sandra Bullock, Gravidade – o que disse acima não é piada. Gosto da Sandra Bullock, mas ela tem limitações. Aqui ela funciona e muito bem: Sandrinha, sem ter com quem contracenar, não fala muito e o capacete esconde um pouco suas expressões – sorte que não esconde o resto.

ATOR COADJUVANTE
   1. Jared Leto, Clube de Compras DallasFora os dois que não vi, os demais não chegam aos pés. Realmente o Clube de Compras pode ganhar, porque se escora numa dupla com desempenhos excepcionais.
   2. Bradley Cooper, Trapaça Vai bem no filme, obrigado.
   3. Jonah Hill, O Lobo de Wall StreetSempre faz personagens divertidos, embora mais ou menos iguais. Tem força nos olhos e uma cara engraçada. Oscar?
Não vi:           Barkhad Abdi, Capitão Phillips
Michael Fassbender, 12 Anos de Escravidão 

ATRIZ COADJUVANTE
1.    Jennifer Lawrence, TrapaçaO filme, que já é muito bom, sobre na estratosfera a cada entrada dela em cena. Uau!
2.    June Squibb, Nebraska Velhinha adorável, chata, porra louca,engraçada, sarcástica. Torço para ela, porque a Jenniffer Lwurence va ganhar mais que o Vettel, quer dizer, que o Federer, digo, que a Striper, digo, Maril Streep.
3.    Sally Hawkins, Blue Jasmine – Boa.
Não vi:           Julia Roberts, Álbum de Família
Lupita Nyong'o, 12 Anos de Escravidão

ROTEIRO ORIGINAL – sem comentários, que já está tarde
1.      Trapaça, David O. Russell e Eric Singer
2.    Blue Jasmine, Woody Allen
3.    Ela, Spike Jonze
4.      Nebraska, Bob Nelson
5.    Clube de Compras Dallas, Craig Borten e Melisa Wallack

ROTEIRO ADAPTADO – sem comentários, que já está mais tarde
1.      Antes da Meia-Noite, Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke
2.    Philomena, Steve Coogan e Jeff Pope
3.      Lobo de Wall Street, Terence Winter
Não vi:     12 Anos de Escravidão, John Ridley
            Capitão Phillips, Billy Ray


FOTOGRAFIA  – sem comentários, que já está quase cedo
1.      Nebraska, Phedon Papamichael
2.    Gravidade, Emmanuel Lubezki
3.    Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum, Bruno Delbonnel
4.      Os Suspeitos, Roger A. Deakins
Não vi:           O Grande Mestre, Philippe Le Sourd

FIGURINO – Só um comentário: que sono.
1.    O Grande Gatsby, Catherine Martin
2.      Trapaça, Michael Wilkinson 
Não vi:           12 Anos de Escravidão, Patricia Norris
O Grande Mestre, William Chang Suk Ping
                       The Invisible  Woman, Michael O'Connor

sábado, 1 de março de 2014

OSCAR 2014 - MELHOR FILME

Esta é a minha ordem de preferência, não minhas apostas.

 1.     Nebraska - Filme bom é aquele que reverbera. Você sai do cinema, mas o filme não sai de você. A vontade que dá de conversar sobre o filme é uma forma de reviver as cenas. Quando é assim, eu volto ao cinema e vejo no mínimo mais uma vez. Nebraska é isso. História tocante, fotografia maravilhosa, ótimas atuações, exceto a do Bruce Dern, que é muito mais que ótima. Não dá pra falar mais, só vendo. Meu preferido, mas não deve ganhar.

   2. Trapaça – Se ganhar, ótimo! Ambientado lindamente nos anos 70, com boa trama, trilha sonora classuda, sem a obviedade de se agarrar o tempo todo aos hits mais conhecidos dos anos 70, mas nos momentos em que recorre aos hits, eles ganham sentido e força. Como na cena da festa, que começa antes dela, com os casais nos carros, à caminho, ao som de Goodbye Yellow Brick Road (por sinal, o single, na época “compacto simples”, do Elton John foi o meu primeiro disco, presente do cunhado Edinho). A cena toda, que tem participação ultraespecial de De Niro, deve ter uns 15 minutos. Depois da cena, deviam pausar o filme, a plateia sair, pagar mais um ingresso e voltar. De quebra, uma boa imagem, não estranha por aqui: o político corrupto preso chora e acredita do fundo do coração que só estava fazendo o bem para a cidade. Dá vontade de fazer vaquinha e dar uma grana prá ele.

 3. Clube de Compras Dallas – Muito bom. Machão homofóbico do mundo dos rodeios descobre que tem AIDS, quando se pensava que só os gays pegavam. Lutando para viver, ele descobre que pode ganhar dinheiro traficando medicamentos proibidos até que percebe que não fazia mais pelo dinheiro, mas para ajudar. Ótima reconstituição e atuações sensacionais.




   4.Ela – Filme interessantíssimo sobre esta época de relacionamentos virtuais. O cara instala um sistema operacional com uma espécie de inteligência artificial. Um sistema que vasculha o computador e toda a rede para poder conhecer mais profundamente o seu dono para se comunicar melhor com ele. Avisa dos e-mails, dá opiniões, etc. Ocorre que a voz do sistema é a da Scarlet Johanson, e o dono da voz se apaixona por ela, e a voz se apaixona pelo dono da voz. Passam a namorar. Filme delicioso com reflexões atualíssimas.

5.   Gravidade –Filme diferente, ousado, talvez com mais chance de vencer do que “Ela” ou “Nebraska”. Tem praticamente só dois atores, George Clooney e Sandra Bullok, astronautas que depois de um acidente ficam soltos no espaço. Só que, depois de um tempinho, bye George, Sandrinha is alone. Três elementos levam o filme: a astronauta inexperiente numa situação limite, o espaço e o silêncio. Suspense brando, mas envolvente. A forma como foi filmado nos coloca lá, é incrível a sensação. Bonito demais, experiência única. Nesse aspecto, um grande filme. Só que não sei ele resiste fora do cinema, na telinha e sem o 3D...

   6.Philomena – Um convento na Irlanda mantém jovens mulheres praticamente como escravas, dentre elas Philomena, que engravida. Como dinheiro sempre ajuda, o convento tem a prática não muito cristã de vender os filhos de suas jovens escravas para ricos americanos. Cinquenta anos depois, Philomena resolve procurar seu filho, ajudada por um escritor. O filme escapa do dramalhão e da denúncia e segue pelo caminho da leveza e do humor leve.  



7.    O Lobo de Wall Street – Ascensão e queda de um operador da bolsa sem lá muitos escrúpulos, com cenas que só um Scorcese é capaz de fazer. O cara (Di Caprio) vive chapado, inclusive no trabalho, o que lhe dá inspiração para reuniões motivacionais daquelas em que todo mundo grita. Festas, putarias, Jonah Hill, sempre divertido, etc. Mas quer saber? Chatinho, chatinho. O tempo todo na mesma toada cansa. Aí alguém e diz “mas era assim que o cara vivia”. E eu com isso? Porque o cara tem uma vida chata o filme é obrigado ser chato? No final, a gente sai meio cansado.


Não vi:     12 Anos de Escravidão

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

QUASE 10 RAZOES PARA VER O OSCAR 2014

Neste ano o Oscar não será transmitido na TV aberta, já que no domingo a Globo estará transmitindo o desfile das escolas de samba do Rio. Mas a TNT transmitirá, com comentários do Rubens Edwald Filho, muito melhor do que o José Wilker. 
Aí o Panta me pergunta: "Oscar, e daí? Prá que ver essa festa over/cafona/burguesa dominada por interesses comerciais?" 
Pois eu digo que há inúmeras razões e porque são inúmeras, vou enumerar dez delas, ou menos. Por que ver o Oscar 2014:

  1. Porque tem mulher bonita de monte. Meu Deus, olha isso! Tudo bem, meninas, pode ter homens interessantes também, mas alguém já viu um ator com decote ousado ou com um tecidinho tão leve que mostra todas as formas do corpo? Sorte que não! Fato: mulheres adoram ver os vestidos das musas do Oscar. Homens vêem além deles.
  2. Porque é um bom assunto para o dia seguinte. Já perdi a conta das mulheres lindas que conquistei no dia seguinte ao Oscar por conversar sobre a festa, os filmes e os vencedores. É tiro e queda: é só começar a falar do Oscar e, de repente, lá está ela, na minha cama, falando “tá, agora para com esse papo e vem logo que o relógio tá correndo”;
  3. Porque é bom saber que estamos vendo aquilo junto com
    milhões de pessoas
    em todo o planeta, ricos e pobres, asiáticos e aborígenes, flamenguistas e vascaínos, campeões e vices, neo-nazistas e judeus, playboys e manos, muçulmanos e católicos, gays e rainhas, homofóbicos e seus amantes secretos. Isso me dá uma sensação de pertencimento, de comunhão, compartilhamento, enfim, essas coisas lindas e comoventes e que rendem dezenas de curtidas no meu feice;
  4. Porque artistas serão premiados! Por mais política ou comercial que seja a escolha, ela sempre recai sobre alguém que fez um trabalho no mínimo muito legal. E se você achar um absurdo a escolha, chore, grite, esperneie, arrebanhe mais insatisfeitos na rede e fiquem putos juntos, apertando botõezinhos de curtir. Chore pelos coitadinhos injustiçados do Oscar, mas lembre-se que eles trabalham num filme, não num escritório horrendo como você e raramente têm problemas para pagar a prestação do financiamento imobiliário;
  5. Porque o Woody Allen pode ganhar de novo o Oscar de roteiro, e quero estar vendo ao vivo. Torço por ele mesmo com
    o risco de Mia Farrow tuitar (já que não sabe tatuar, como a Lisbeth Sallander) que ele é um porco sádico estuprador ou coisa parecida. Meu Deus do céu, aquela mulher não supera nunca! Eu mesmo já fui abandonado, mas superei na mesma hora, tranquilo, estou super bem, o que passou, passou, não guardo nenhuma mágoa, não tenho isso aqui pra falar daquela megera vagabunda!
  6. Porque minha filha gosta.
  7. Tá bom, não existem tantas razões assim, não vou chegar à décima, mas o que mais você pode fazer no domingo à noite? Ir ao carnaval? Sair num bloco e beber suor se espremendo no
    meio de toda aquela gente? Ver o desfile das escolas de samba na TV? Vê depois. A Mangueira entra bem mais tarde. Quando a Mangueira estiver entrando, o pessoal do Oscar ou já vai estar dormindo (Morgan Freeman, Meryl Streep e Bruce Dern) ou já na segunda festa (os demais), alucinado depois de sei lá quantas carreiras.
E amanhã eu chego com os indicados e com sugestões de filmes para você ver no carnaval, no ar condicionado do cinema, enquanto o povo tá lá nos blocos, bebendo suor. Lembre-se: pega mal ver a cerimônia sem já ter visto alguns dos vencedores.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

BELEZA POUCA É BOBAGEM

Jep Gambardella é um dândi, quase um Oscar Wilde italiano: paixão por arte, beleza, festas e boemia. Quase: escritor de um livro só, publicado há 40 anos, e gosto por mulheres bonitas e, mesmo aos 65 anos, elas também gostam dele. Homem rico e influente, respeitado pela mais altas esferas da sociedade de Roma.  
Cena de abertura: festa delirante, todo tipo de gente, vários deles personagens que estão sendo apresentados sem que saibamos. Depois de oito minutos de festa, temos o prazer de conhecer o protagonista, Jep, que nos propõe sua busca. A câmera se afasta e mostra a festa de longe. Nas nuvens a projeção “LA GRANDE BELLEZZA”. Essa abertura deixa claro: há algo muito especial por aí. Veja (som alto, por favor):



Encantador e carismático, Jep questiona o sentido da vida vazia em que todos fingem pompa para fugir da realidade do fracasso de suas vidas. Festas, conversas com o grupo de amigos, coquetéis, vernissages, museus e manifestações de arte contemporânea, e a pergunta irritante que ele não aguenta mais ouvir: “porque você nunca escreveu outro livro?”.

                 Se Foubert não conseguiu escrever sobre o vazio, quem sou eu para ousar?

Filme contemplação, em que a arte é um dos personagens principais. Ângulos e movimentos da câmera dão prazerosos. Os mais receosos de "filme de arte"podem pensar “ih, lá vem a chatice de filme cabeça cheio de cena criada com o único propósito de causar incômodo". Nada disso. Tudo é feito para o prazer e deleite. Filme prá se ver saboreando, com a mente quieta, coração tranquilo e a espinha do jeito que achar mais confortável (espinha ereta e cinema parece que não se bicam). 

Filme profundo e filosófico. Fiquem tranquilos os cismados: os personagens são muito divertidos e os diálogos inteligentes, cheios de pérolas de ironia e cinismo deliciosamente misturados às reflexões filosóficas. Amor e morte, vida e obra, luz e sombra.

Os dois caminham na madrugada das ruas de Roma.
Ele - E você, o que faz da vida?
Ela (Loira, bonita, corpão) - ... Eu sou rica.
Ele - Belíssimo trabalho!
Corta. Cama, depois do sexo.
Ela - Eu gosto de fotografar... Passo o dia todo me fotografando. Até nua... Adoro colocar fotos no meu facebook... Quer ver as fotos?... Vou buscar.
Ele, sozinho, suspira de tédio, vai à varanda. “Hoje, com 65 anos, a vida me deu discernimento suficiente para saber que não posso perder tempo com coisas que não quero fazer”.
Corta, ele andando só, lenta e prazerosamente, pelas ruas de Roma, em meio aos majestosos monumentos iluminados pela luz amarela que parece vir de décadas atrás.  

O fato é que, depois de exaltar, no post anterior, os bons filmes de entretenimento, gênero desvalorizado pela crítica, e de colocar em dúvida o modo como a crítica às vezes supervaloriza filmes chatos chamando-os de “filmes de arte”, eis que me coloco diante do extremamente bem avaliado novo filme do Italiano Paolo Sorrentino (do ótimo “Este é o Meu Lugar”, com Sean Penn - já apareceu neste blog). O nome, “A Grande Beleza”, altamente pretensioso, gera enorme compromisso. Mas Sorrentino cumpre o compromisso com folgas. Podia até chamar a beleza de Suprema, Gigantesca, Estratosférica, que estaria ok.

Transformador - As reflexões atingem o âmago da alma, talvez porque não sejam impostas nem sejam didáticas. São colocadas a conta-gotas, com imagens, músicas, diálogos, situações envolventes, personagens agradáveis. “A Grande Beleza” é, sim, um filme de arte, mas não daqueles que fazem o gênero “Olha como eu sou viajandão”, do Oliver Stone (nada contra - alguns são ótimos).

Gentes, turistas, artistas, arte, esculturas, praças, fontes, Deus, igreja, girafa. Não há uma cena sequer que não reserve algo onírico ou surpreendente. As músicas parecem entrar sempre no momento justo, no clima certo, para acentuar a emoção ou preparar a próxima cena.

Vernissage ao ar livre com a apresentação de uma artista de 10 anos, criança, portanto, que quer brincar, mas é levada ao palco na marra pelo pai.Chorando compulsivamente, ela joga tintas diretamente das latas na gigantesca tela, espalhando com as mãos. Jep se afasta e encontra um homem que tem um estojo com as chaves de alguns dos principais edifícios históricos de Roma. Uma espécie de guia que conduz Jep e sua namorada a uma excursão na madrugada pelo interior dos castelos e suas obras de arte. Ramona pergunta ao homem porque ele tem todas aquelas chaves. “Porque sou uma pessoa de confiança”.

À medida em que Jep se aprofunda na sua busca pelo sentido de sua própria vida, começam a emergir as inquietações espirituais e religiosas, e com elas surgem os personagens da igreja, sobretudo a “santa”, uma religiosa de 104 anos que fez voto de pobreza, não dá entrevista há mais de 40 anos, mas, bem impressionada com o livro de Jep, parece ter prometido uma entrevista a ele. Não há cinismo que resista a um mergulho profundo. Memoráveis as cenas finais, como a dos pelicanos no terraço e a subida da religiosa na escadaria de uma igreja.


Outro segredo do filme, um dos melhores deste milênio, é o ator Toni Servillo, que interpreta Jep Gambardella. É magnífica a forma como ele, com olhar e expressão, ora com sinismo, ora com emoçao, com sua voz aconchegante e próxima, interpreta as imagens que vê e as situações por que passa. Sua viagem ao centro do seu vazio, sua busca pelas respostas, seus risos e seus choros são tão mágicos que, quando menos percebemos, fomos nós que viajamos, nós que buscamos. Tudo muito simples. “No fundo, é só um truque”. 

Resistir ao que você leu acima e não se lembrar de nada daqui a cinco minutos é fácil, mas se você der uma olhada no trailer, duvido que você não vá correndo ao cinema: 



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

CINEMA, SONHO, TEMPO E VIDA

Para que você vai ao cinema?

1)    Para aprender uma lição edificante? Bobagem: você pode até ser tocado pelo filme, pode até ter despertado algo em você. Mas isso só acontece como subproduto. Não adianta você decidir que vai amar alguém. Isso não depende da sua vontade. 

2)    Para viajar, sonhar e outras variantes? Legal. Há filmes que realmente nos proporcionam viagens, mas certamente há também aqueles que te deixam o tempo todo de pé bem no chão e ainda assim você pode gostar do filme e ter valido à pena a ida ao cinema. 

3)    Para, com sua inteligência acima da média, gosto refinado e conhecimento da sétima arte, classificar o filme, atribuindo-lhe algum conceito? Sério? Sabe aquela gente carrancuda que fala coisas como “ih, filme de adolescente... To fora”? Ou aqueles que fazem cara de nojinho e disparam um “credo, comedinha romântica hollywoodiana!”? Essa gente “culta” se apropriou da expressão “cult” para classificar filmes “inteligentes”. Essa gente só gosta de filme sério, “com conteúdo”. Santo Deus! Já viu que eles sempre torcem o nariz e dizem “Muito clichê!”? Não podem saber que nada parecido já tenha sido feito antes que já vêm com o indefectível “clichê demais”. Na verdade, querem dizer com isso que sabem de tudo, que já leram muito, já estudaram muito... Muito mais que você, inclusive. 

4)    Para relaxar e se divertir? Sério? Você respondeu isso? Bingo!!! Você sabe que relaxar, no cinema, não significa pronunciar o “om”, ter uma experiência em que seus sentidos repousam sonolentos e tudo fica muito tranquilo. Relaxar no cinema significa obter um alvará da vida-lá-fora e firmar um contrato com o filme: você concorda em deixar de fora seu rancor, largar de ser chato, acreditar que aquilo está realmente acontecendo e ser apenas observador. A contrapartida do contrato é que o filme se compromete a te levar, através da qualidade da dupla arte/tecnologia, para dentro dele e te surpreender.

Se você não está relaxado no cinema, o filme não vai te surpreender, como você não será surpreendido se, mesmo relaxado, o filme não tiver qualidade.
Uma boa parte dos críticos de cinema está enquadrada no item 3 (pessoal que arrota sabedoria, para os quais um filme bom tem que ser chato), como muita gente comum por aí também está nessa, dentre os quais formadores de opinião, gente culta que vive torcendo o nariz para filmes românticos ou que seguem o “formato hollywoodiano” (eles adoram “acusar” filmes dessa prática terrivelmente criminosa) e idolatrando filmes com qualidade, sim, mas chatos, como “Um Estranho no Lago”, por sinal um filme do caralho! Não foi gíria, o filme é literalmente do... do membro, este que também tenho um e que prezo tanto, mas que procuro não mostrar quando não devo ou não preciso.

Há, evidentemente, e creio que sejam a maior parte, críticos que sabem diferenciar clichê bem colocado de clichê por falta total de criatividade; um bom filme de adolescente de um filme de adolescente ruim; uma comédia romântica sofrível das excepcionais, daquelas que cumprem plenamente a missão de divertir, relaxar, e que ainda ousam se enveredar para te fazer viajar, sonhar e até provocar mudanças.
Este é exatamente o caso de “A Vida Secreta de Walter Mitty”, dirigido e estrelado por Bem Stiller, inimigo número um dos “cultos” e de “Questão de Tempo”, que marca a volta de Richard Curtis, responsável pelas magníficas (cultinhos, preparem-se) comédias românticas “Simplesmente Amor”, de 2003 e “Um Lugar Chamado Nothing Hill”, de 1998. Ambos em cartaz nos cinemas.

Sobre Bem Stiller, estão dizendo que o filme mostra seu crescimento. Sem dúvida, dá prá ver que melhorou, e muito, como ator (ótima transição sonho/realidade, sem afetação) e como diretor, mas muitos só dizem isso porque “Walter Mitty” não é uma “daquelas” comédias que ele fazia. Entenda-se: comédias de “puro entretenimento”, outro “crime”. Crime que ele certamente cometerá de novo, afinal, não dá para negar a qualidade do entretenimento das séries “Noite no Museu” e “Entrando Numa Fria”, por exemplo.

“Walter Mitty”, evidentemente, é muito superior: uma deliciosa, bem contada e bem filmada história sobre um cara (essa gente careta e covarde, cantaria Cazuza), incapaz de viver uma aventura, de viajar, de se declarar para uma mulher, mas que, literalmente, sonha acordado, sonhos lindos, agitados e divertidos. Ótima trilha, tomadas bem cuidadas, locações fantásticas, bom gosto. Um daqueles filmes que deixam a gente prá cima e que dá para se assistir várias vezes, não para descobrir tramas ocultas nem para entender melhor, mas para divertir-se mais e mais, com cenas encantadoras como a que Stiller imagina Kristen Wiig cantando, para encorajá-lo, uma música do David Bowie.


Já “Questão de Tempo”, do atual rei da comédia romântica inglesa (a melhor que há), não é, como os jornais estão estampando, uma comédia romântica. Apesar do constante humor, nem comédia é. É um filme com a mesma temática do “Walter Mitty”: viver a vida. Um jovem que não consegue namorar descobre que tem uma herança genética dos homens da família: pode voltar ao tempo. Um filme inteligente na sua engenharia para explicar as viagens no tempo e seus reflexos, mas muito simples. Por exemplo, não há máquina do tempo: basta ir para um lugar escuro, fechar bem as mãos e pensar onde e quando reviver sua própria vida. Não dá para ir lá atrás e comer a Cleópatra, como explica seu pai (o sempre charmoso e divertido Bill Nighy – o cantor do “Simplesmente Amor”). 

Filme daqueles em que sutilmente todos os personagens, até os mais extravagantes, vão nos conquistando. Simples, romântico e sensível, “Questão de Tempo” só peca quando, a dois minutos do final, resolve explicar com palavras o que todo mundo já entendeu, aí sim, clichê dispensável, soando liçãozinha de vida de Paulo Coelho. Só que nosso escritor que mais vende é sempre assim, chatérrimo. Quanto ao filme, não será um minutinho que vai tirar a beleza e delicadeza do retorno de Richard Curtiz.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

BOLEIROS - NOSSO CREPÚSCULO DOS DEUSES

"Boleiros, era uma vez o futebol", disponível no Now (para assinantes da Net) e no Netflix (quem não assina é a mulher do padre) é um desses filmes memoráveis, que a gente assiste flanando, sem querer saber quem matou quem ou se o fulano (e, por projeção, a gente) vai ficar ou não com a bonitinha inacessível.

Boleiros começa com uma música inebriante que acompanha a câmera passear por fotografias de antigos ídolos do futebol, penduradas na parede de um bar, numa abertura que dá o tom nostálgico e melancólico que nos acompanhará. Ugo Giorgetti, com extrema sensibilidade e simplicidade, nos leva de modo romântico, como um canoeiro de Veneza que parece nem fazer força para remar, pelas histórias que os jogadores famosos do passado contam na mesa daquele bar. As histórias desfilam pelo filme como partes de um chocolate suíço que derretem, uma a uma, em nossa boca.

A primeira história, interpretada por Otávio Augusto, mostra um jogo em que um juíz comprado está desesperado para fazer com que um timeco incompetente ganhe. A reconstituição é ótima e o juiz, e aqui vai um paradoxo, está impagável!.

De dar nó na garganta é a história do orgulhoso Paulinho Majestade, ex craque que foge da imprensa, mas, precisando de dinheiro, coloca anúncio no jornal vendendo troféus e medalhas, atraindo um jornalista esportivo, interpretado por Cassio Gabus Mendes, que a muito custo consegue uma entrevista. A história tem participação elegante do cantor Silvio Cesar, num toque meio Billy Wilder de misturar e confundir os ocasos de personagem e ator (Marilyn Monroe em "Quanto mais Quente Melhor" ou Glória Swanson em "O Crepúsculo dos Deuses").

Também tocante é o monólogo final de Flávio Migliaccio, um dos ex-craques no bar, em um dos melhores momentos de nosso cinema. Só vendo... e engolindo seco. Mas há momentos de comédia, como a história do técnico (Lima Duarte) que vigiava seus jogadores na concentração para que eles não fizessem noitada. Estava dando certo até que uma maria-chuteira (Marisa Orth) desse bola para o pegador do time. Ou a engraçadíssima história do craque azul, que satiriza programas de rádio e principalmente mesas redondas. O trio Adriano Stuart, Rogério Cardoso e Flávio Migliaccio, grandes atores, dois dos quais já se foram, leva as conversar no bar de modo leve e competente e nos coloca lá, como se estivéssemos na mesa ao lado.

Intercalando as histórias de lamentos nostálgicos dos ex-boleiros com suas piadas sobre sua condição atual, Boleiros não deixa dúvidas: o magnífico Boleiros, o nosso "Crepúsculo dos Deuses", não é um filme sobre futebol, mas um filme de alcance universal sobre nossa dificuldade em aceitar a passagem do tempo, em nos livrarmos de nossa fase de maior sucesso que ficou para trás, e isso vale para tudo e para todos, para mim, para tu e para o rabo do tatu.

sábado, 31 de agosto de 2013

FRANCES... AH!!!



Sabe quando você está meio sem rumo, meio sem saber o que quer da vida?

Não sabe? Já sei, você é uma daquelas pessoas focadas... Um daqueles... sei; você sabe o que quer... Entendo. Vai ver, você mesmo faz o seu futuro. Já sei: é um vencedor! Pois ponha-se para fora deste blog. Sabe aquele “x”bem pequeno que fica lá no ângulo superior direito da tela? Ponha a maldita seta do seu fucking mouse ali e clique com gosto.

Pronto. Restaram como leitores apenas os meus iguais, ou os parecidos, ou mesmo os totalmente diferentes, mas que não se enxergam como o exemplo vivo das palestras motivacionais. Fico mais tranquilo em escrever apenas para vocês. Sim, porque gosto de imaginar que este blog seja para os perdidos, para os inconstantes, para os deprimidos, ou mesmo para os alucinados que, no lugar de “se focar” em apenas um objetivo, se maravilham com as centenas de possibilidades que enxergam, e só as enxergam porque levantam suas cabeças ou escalam montanhas.

Isto posto, voltemos àqueles dias, ou àquela fase em que estamos meio sem rumo, meio sem saber o que queremos da vida. Frances é uma dessas. Ela acha que quer ser dançarina, mas não parece ter certeza disso. Trabalha como professora de balé para crianças na espera ser escalada para o quadro principal das dançarinas da academia. Ela não percebe que não é muito boa nisso, então vai tomando tombo atrás de tombo.

O que ela gosta mesmo é de conviver com sua amiga Sophie, com
quem divide o apartamento. Parecem feitas uma para a outra. Frances chega a desistir do namorado, que quer que morem juntos, porque não quer largar da amiga. Só que logo em seguida é a Sophie quem larga de Frances, justamente para ir morar com o namorado. Segue uma sequência de tombos: Sophie se muda para o Japão, Frances é dispensada da turnê de dança, não tem dinheiro para pagar o aluguel, não tem onde morar...

Aos vinte e sete anos, portanto não sendo mais nenhuma menininha, Frances até que é bonita, mas muito desengonçada, grandalhona, bagunceira e atrapalhada. Mas, e aqui é que vem o chantilly que une tudo isso e dá um gosto delicioso, Frances é uma figura que nos encanta logo na primeira tomada, em que ela, numa praça, brinca de lutar com a amiga. Engraçada, divertida, leve e
agradável, é daquelas que, no fim de uma noitada com amigos, se um deles diz que gostaria de comer algo, ela vai lá e prepara; daquelas que vê um desconhecido chorando, se senta ao lado sem falar nada, só para que a pessoa sinta que não está sozinha. Enfim, o tipo de pessoa que todos gostam de ter por perto.

Não confundir com personagens saídos de livros de autoajuda, que depois de um tombo saem à luta e conquistam. Não é nada disso. Frances leva tombos e não os encara como lições (blargh!). Ela cai e continua vivendo. Do chão ela é capaz de se encantar tanto com o céu quanto com um par de sapatos passando por ela. Frances é
simples, pura, apaixonada e apaixonante. Vê-la após uma pequena conquista (um novo apartamento para morar com dois amigos recentes), sair correndo e dançando pelas ruas de NY ao som de Modern Love, do David Bowie, é um delírio.

Frances está no imperdível “Frances Ha”, que, filmado em NY em preto e branco (nunca um P&B pareceu tão apropriado), traz ecos de “Manhattan”, de Woody Allen e de filmes franceses da Neuvelle Vague.

Frances é meio que assexuada. É hétero, mas seu maior interesse no momento não é sexo, mas amor. O amor que sente pela amiga é o que a move e move o filme. Em cena chave, Frances, discorre, num jantar com a família de outra amiga, sobre seu ideal de amor: um relacionamento entre duas pessoas que, por exemplo, numa festa, conversando com terceiros e em pontos diferentes da sala, se olham de longe e não veem mais nada além de um ao outro, e quando se olham cada qual sabe que o outro o ama.

Frances está à procura desse tipo de amor, mas no caminho, entre
tantos tombos e saltos, acaba encontrando ainda outra coisa: encontra-se a si mesma, encontro este lindamente demonstrado no take final, que encerra o filme com inteligência, poesia e a contagiante Modern Love, de Bowie.

Presenteie sua alma neste final de semana. Leve-a para ver Frances Ha.

sábado, 6 de julho de 2013

ROUND MIDNIGHT

Por volta da meia-noite, vindo do teatro, onde assisti uma belíssima visão dos cortiços por um grupo mineiro com uma atriz magnífica, e, na sequência, alimentado por um inebriante crepe mexicano, com direito a duas cocas para aplacar a pimenta, tendo ainda uns vinte e poucos quilômetros pela frente, ligo o rádio para afastar o sono que a noite e o estômago despejavam na minha cabeça.
Mais que músicas ou notícias, nessas horas prefiro ouvir entrevistas. Gente conversando no rádio me desperta. Acho uma entrevista. Ela, boa voz, entrevista um músico baiano de afro-MPB. “Afro-MPB, tu vê!”, costumava dizer o Humba, um amigo distante ao se dar com denominações bizarras. O cantor/compositor falava sobre seu disco “Manufaturas”, guarde este nome.
“Essa musicalidade afro lá em Salvador já vem desde criança, na vitamina”. Pronto, estou desperto.
Com um leve, quase imperceptível, toque de cinismo (ou seria ironia?) na voz, o que pode ser coisa da minha cabeça, ela faz aquela típica entrevista para apresentar e promover novas vozes, gente que “canta na noite”.  Estranha a expressão “canta na noite”. Será um eufemismo para “canta no fundo do barzinho”? E essa, então: “barzinho”? O que será um “barzinho”? Talvez seja um daqueles lugares sem cara nem estilo, nem luz, onde casaizinhos vão tomar chope com fritas, em que o cara só percebe que tem alguém lá no fundo cantando MPB quando a menina que ele quer comer diz “essa eu conheço, é do Djavan!” E cantarola, voltada para o músico, com os olhos semicerrados “você deságua em mim e eu oceano”. “Não é linda”, pergunta ela, meio que testando. “Ah, é... linda... E aí, vamos pedir a conta, dar uma volta?” “Mas aqui tá tão bom”. Sem chance, ele não vai comer.
Mas signifique o que significar a expressão “canta na noite”, o fato é que eu ouvia, cada vez mais atento, aquela entrevista “do bem”, com perguntas tipo “com que músicos você toca”, que trazem resposta do tipo “com fulano; ele é muito competente,  a gente se complementa, a gente tem uma verdadeira simbiose musical.”
¾     E como foi a gravação?
¾     Foi todo um processo!
Ah, bom, está explicado. “Todo um processo” não é de matar? Depois de alguns segundos de silêncio, ela, disfarçando o incômodo:
¾     Sim, mas e aí, como foi todo esse processo? (ela é engraçada demais, intencionalmente ou não)
¾     Eu dei bastante liberdade para os músicos. Eles puderam imprimir sua individualidade musical... A música do jazz trabalha muito com essa liberdade dos músicos, e eu resolvi trazer para o disco. Então ficou aquela coisa muito criativa, solta.
¾     Você podia mostrar como isso acontece na música?
¾     Sim, é claro. Por exemplo, a segunda música.... Por favor, coloca a segunda, é “Massunim” (ou algo parecido)
Ouve-se a música. Trinta segundos de música e nada de especial, só aquela base típica de MPB. Começa a parte cantada. Nada demais. Um minuto de música e nada de aparecer algo além daquele sonzinho básico de MPB, ou afro-MPB, que seja. Deu para ouvir suspiro dela. Segundos depois:
¾     E aí?
¾     O quê?
¾     Você estava falando da liberdade, daquela, e pediu para mostrar a música dois para dar um exemplo...
¾     Sei...
¾     E então, como essa liberdade, essa coisa muito criativa, solta se reflete nessa música?
¾     (confuso)... Ela se reflete em todo o disco.
¾     Ah, sei...
¾     Eu dou essa liberdade, depois vou esculpindo.
¾     Ah, você vai esculpindo?
¾     Isso mesmo!
¾     Interessante... Eles gravam, depois você esculpe... (decifrando o enigma) Por isso o nome do disco: “Manufaturas”?
¾     Exato!
¾     Puxa vida... Olha só... Muito bom.
¾     É. É gratificante.
¾      E você quer mostrar mais alguma música?
¾     Sim, “Cauecitã” (ou algo parecido)
¾     Que é sua música preferida, certo?
¾     Não, não. Eu não tenho música preferida.
¾     É que eu tinha lido isso aqui, em algum lugar.
¾     Sim, é que “Sua Música Preferida” é o nome de uma outra música.
¾     Ah, olha só, que coisa! Vamos ouvir a música?
¾     Qual?
¾     Sua música preferida, ou a que você preferir...

O sinal da rádio se perde no estacionamento do subsolo. Fecho o carro, subo pelo elevador e entro em casa com um persistente sorriso no rosto. Nada como uma comédia involuntária para fechar a noite.
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