A Marisa Monte do final dos 80, mais do que os seus melhores contemporâneos, inventou aquilo que chamo de Nova MPB, trazendo arranjos e interpretações mais modernas para a amarelada MPB. O lendário show que tinha “Comida” e "Negro Gato" (esta acompanhada do Paulo Moura) marcou época. Marcou tanto que até hoje ninguém do espectro MPB faz nada diferente. A Nova MPB é um saco, uma repetição enfadonha de um modelo que, embora esgotado, continua gerando baciadas de chatinhos que não acrescentam nada, como os Lenines, Seus Jorges, Vercilos, Marias Gadus e Anas Carolinas da vida. Vá a uma prateleira de CDs numa loja e você encontra uma centena deles. Todos bons (ou pelo menos a maioria), todos fazendo esse sonzinho bacaninha, assim-assim, meio chinfrim, uma música altamente consumido pela classe média cultural, que pensa que ouvir Seu Jorge ou Maria Gadu vai colocá-lo numa classe superior ("eu sou plural"). O Orkut e o Facebook estão cheios de gente que ser bacaninha, e plural, e escolhe ser fã dessa gente que é até boa, boa, mas que na real não cheira nem fede.
A Marisa Monte deixou essa horda de filhos chato, por isso eu a odeio, apesar de amá-la. Ela tem todo o direito de não fazer mais nada (e tem usado esse direito). Ela pode, como pode o Belchior, que não precisava ter composto mais nada depois de Paralelas (prá que mais?), como o Arnaldo não precisava fazer mais nada depois do “Loki” e o Roberto Carlos não precisava fazer mais nada depois de “Detalhes” – aliás, este não devia ter feito mais nada!
Mas eis que, de Pernambuco, um dos maiores pólos culturais das Américas, de onde já surgiu para o mundo gente como Ariano Suassuna, José Condé e Chico Science, aparece Karina Buhr. Ela já havia aparecido em casa há uns 10 anos, num CD do delicioso Comadre Florzinha, que curti muito mas que há um tempão não ouvia. Eu não sabia que ela estava lá, adormecida, esperando o momento oportuno para agarrar-me...
O som de Karina Buhr não tem nada de chinfrim, é brasileiro e universal, com um sotaque da atual música de Pernambuco, que por sinal é onde se faz a melhor música hoje (e talvez o melhor cinema). Pernambuco, a Veneza brasileira, também está sendo uma Barcelona brasileira. Karina Buhr “traz de lá esse colorido em suas musicas e letras. Tem qualquer coisa de sonho a impressão que fica ao ouvir seu disco” (Patrícia Palumbo).
O disco "Eu menti pra você” tem melodias, arranjos e músicos de altíssimo nível. O trompete do Guizado e a guitarra do Edgar Scandurra ajudam a colocar a sonoridade do disco numa outra atmosfera.
A sensacional Nassíria e Najaf , “uma canção de ninar pras crianças de Bagdá” é ótima, tem um refrão rock'n roll de primeira, guitarra e baixo com um peso legal e o trompete avermelhando o clima. Karina canta fluída, rápida, precisa e com uma naturalidade que parece que a gente tá ouvindo ela conversar num bar. (o vídeo tá aí, em algum canto deste pôsti)
O Pé é quase uma marcha militar, com uma leitura moderna, cantada em tom doce e levemente melancólico. Uma voz cool, deliciosa e cativante, que canta uma poesia elíptica e insidiosa, entra na gente e nos leva:
A pedra, o pé,
descendo a rua que cobre a pedra
embaixo dela a terra,
embaixo da terra o céu de novo
Sentindo a lentidão do dia
Há dias lentos demais
Não sinto, não tenho vontade, não agüentaria
O céu embaixo das nuvens, a terra por baixo
Do asfalto
O centro da terra que puxa a gente
a gente pula contra a vontade do chão
Depois, Ciranda do Incentivo, um divertido e hipnótico som-de-balada-bem-porradão. Tipo de música de show, daquelas que agita a platéia. Karina está encantadora. Seu “mas eu não sei negociar, eu só sei tocar meu tamborzinho e olha lá” é uma daquelas delicadezas que a vida nos dá de presente.
Mira Ira é maravilhosa! Forte, cortante, emocional. E ela canta de um jeito... (é difícil transmitir em palavras a sensação que dá ouvi-la cantar) tão forte e ao mesmo tempo tão leve; tão próxima da gente e ao mesmo tempo tão cenográfica que parece que está dentro de um filme... “tá tudo padronizado no nosso coração/nosso jeito de amar pelo jeito não é nosso não”. A voz é perfeita, o jeito de cantar totalmente pessoal... Enfim, sem palavras. Para ser ouvida em alto volume; o tipo de música que faz a gente se sentir mais vivo.
Me mira a ira
me mira mas me erra
mas minha ira me era confusa
mudando meu amor de endereço
Me mira a ira
me mira mas me erra no escuro
sentindo o teu amor profundamente
Todo o resto do disco é bom demais, mas vou parar por aqui. Karina Buhr canta demais! É muito sensual, leve, aveludada. É completa: musica, letra/poesia, som. Karina Buhr não é, definitivamente, mais uma, mas a melhor coisa que ouvi em muito, muito tempo. Valeu ter saído do espelho.
Eu não sou emocional, nem intenso, tampouco exagerado, quem me conhece sabe; mas vou abrir uma exceção: eu amo perdidamente essa Karina Burh e quero me casar com ela. Largo tudo e vou carregar seu tambôzinho mundo afora!




