domingo, 17 de abril de 2016

O DESTINO DO VILAREJO


Já usei o clássico Sete Homens e Um Destino em educação empresarial e em curso de administração, para falar de transformação por meio de empreendedorismo, valores e liderança. Hoje, 17 de abril de 2016, o uso pelos mesmos motivos. Ao filme:

Calveira, o chefe da quadrilha, era um bandido singular, carismático e bem-humorado. O problema é que seu bando saqueou demais o vilarejo, que começou a passar fome. O povo, humilde, começou a levantar a voz e buscava saídas. Um deles, o mais medroso, achava que era melhor continuar assim, pelo menos Calveira deixava um pouquinho, para eles não morrerem de fome. Se o enfrentassem, todos morreriam, com certeza, afinal não tinham armas e nem sabiam lutar. Foi aí que o mais velho e mais sábio sugeriu que contratassem uns pistoleiros para espantar Calveira e seu bando do vilarejo. "Como vamos confiar em pistoleiros?", perguntou alguém. Era a única saída. E assim fizeram: contrataram Youl Bryner, Steve MacQuen, Charles Bronson e outros quatro, Sete Homens e Um Destino.

Não havia nenhum santo entre os sete pistoleiros. Uns queriam as mulheres do vilarejo, outros o ouro que podia existir ali, em algum lugar. Mas o fato é que o povo decidiu depositar nos pistoleiros sua esperança. 

Quando Calveira chegou e viu os pistoleiros defendendo o lugar, tentou compra-los: “que tal metade do que roubarmos?”. Um pistoleiro, o novato idealista, levantou-se “e as pessoas do vilarejo, como é que ficam?”. Calveira, julgando-se ungido por Deus, respondeu: “É até uma heresia. Se Deus não quisesse que as tosássemos, não as teria feito como ovelhas”. Era assim que Calveira via o povo.

Nem essa retórica, nem a tentativa de compra, fizeram com que os pistoleiros mudassem de ideia. Cheios de brio, não se deixaram vender e, cada um por um motivo, se uniram e partiram para a batalha final. Dos sete pistoleiros, quatro morreram, mas o bando de Calveira foi destruído. O povo, libertado, recomeçou o trabalho, na esperança de um futuro melhor. Os pistoleiros que sobraram foram embora, apenas um dele ficou, apaixonado pela mais linda moça da vila.



Calveira, atingido no peito, incapaz de entender porque os pistoleiros preferiram enfrentar a morte a fazer acordo com ele, perguntou “por quê?” e morreu.

sábado, 17 de outubro de 2015

UM AMOR A CADA ESQUINA - A VOLTA DA BOA E VELHA COMÉDIA

Entre as melhores comédias deste século estão filmes como “Se Beber Não Case”, “Intocáveis”, “Penetras Bom de Bico”, “Os Normais, O Filme”, “Borat”, e “Uma Noite no Museu”. Por “comédias”, entenda-se: filmes cuja intenção principal é fazer rir. Por “melhores”: os que fazem rir e o fazem com algo a seguir: espirituosidade, carisma, o inusitado, reversão de expectativa ou, muito raro, tudo isso junto; já num nível maior de inventividade, boas comédias fazem rir com situações que evoluem e se entrelaçam a ponto de expor os personagens a um confronto com seus próprios valores – mas aí já é exigir muita sofisticação para os dias de hoje. Há, também, apelação numa boa comédia, mas quando surge, vem a serviço de algo maior. Não é o caso de comédias baseadas em pobres macaqueando ricos ou em bichinhas afetadas – por maior que seja a bilheteria, jamais estarão entre as melhores, pois cinema é arte e arte é invenção – não algo que qualquer um pode fazer em casa (imitar uma bichinha, um bêbado ou um político mentiroso, fingir-se de mulher, etc).

“Se Beber Não Case” tem argumento que funciona : marmanjões se comportam como adolescentes imbecis e descobrem, aos poucos e junto com a plateia, situações loucas em que se envolveram: tigre, Mike Tyson, casamento com prostituta. “Intocáveis” se baseia na inversão de expectativa e carisma: o ultra carismático cuidador do tetraplégico faz piadas com sua deficiência e o outro adora. “Borat” é pura, e ótima, porrada no politicamente correto, assim como “Ted”, que acrescenta o inusitado: um ursinho fofo fala palavrão, fuma maconha e faz farra com putas! Enfim, mesmo as melhores comédias atuais baseiam-se em muito pouco além da surpresa ou do politicamente incorreto.


Mas houve um tempo em que havia comédias que tinham, ao mesmo tempo, todos os motivos para rir, inclusive os mais sofisticados - Lubitsch, Billy Wilder, Howard Hawks e, mais recentemente, Woody Allen fizeram comédias ainda hoje atualíssimas e muito divertidas, como “Ser ou Não Ser”, “Se Meu Apartamento Falasse”, “Jejum de Amor”, “Sonhos de Um Sedutor” e outras tantas maravilhas.


Eis que, em pleno século 21, no inferno de um calor insuportável, surge uma verdadeira maravilha: “Um Amor a Cada Esquina”, de Peter Bogdanovich, um misto de diretor (do clássico “A Última Sessão de Cinema”) e cinéfilo (está em tudo que é documentário sobre cinema), uma maravilhosa homenagem às comédias, mais explicitamente à Bonequinha de Luxo, e aos diretores do século passado. Estão presentes a estética (os créditos, por exemplo, são exuberantes e nos fazem viajar no tempo), a inteligência, a delicadeza e os “entra e sai”, as surpresas e aquelas situações engenhosas, hoje tão raras. Não pense que, por isso, o filme seja “elitista”, do tipo que só ri quem entende de cinema. Nada disso: é uma comédia descarada, que não se importa em usar de todos os tipos de recursos para fazer rir, inclusive abrir e fechar portas e mulher escondida no banheiro. E o povo no cinema ri o tempo todo.


Uma celebridade (mulher nova e linda) dá uma entrevista contando como chegou aonde chegou (não sabemos exatamente aonde chegou ou o que faz). O filme alterna trechos dessa entrevista e os fatos que a moça narra, de 4 anos antes. Era uma garota de programa que recebeu 30 mil dólares de um cliente (ela não sabia de quem se tratava), sob a promessa de sair da prostituição para dedicar-se a seu sonho de ser atriz. Ela larga a “vida fácil” e parte para seu sonho. Num teste para peça na Broadway, descobre que o diretor é justamente o cliente generoso e sua esposa, uma das atrizes. Está feita a confusão, e não precisava de mais nada para sair boa coisa, mas a confusão aumenta a cada personagem que aparece, todos com relevância na trama e, de diferentes formas, engraçadíssimos e bem interpretados.


Um filme de lavar a alma, com direito a fantásticas piadas finais, uma a 30 segundos do final (o desfecho da personagem principal) e outra em seguida – cena de um filme antigo que aumenta e ressignifica uma piada que permeou todo o filme (nozes e esquilos...) – a pérola, a cereja do bolo.

“Um Amor a Cada Esquina” é uma imperdível golfada de vida, beleza, inteligência e frescor no cinema, daquelas comédias para assistir e reassistir, sem vergonha, indefinidamente, sempre com imenso prazer.

sábado, 3 de outubro de 2015

100 ANOS DE ORLANDO SILVA

Orlando Silva

Houve um tempo em que havia elegância. Não sei se foi o tempo de pardais, de verdes nos quintais, quando ainda havia fadas, mas a contar pelas imagens que o Google nos mostra das meninas aladas, ah, sim, havia elegância.

Também não sei ao certo se o tempo em que havia elegância era aquele mesmo, dos galos, noites e quintais, antes do mal que a força sempre faz, mas creio que sim, a contar pelo que evoca a imagem de um galo cantando, tendo ao fundo, no residual escuro do céu, as estrelas mais resistentes ao iminente nascer do sol, este sim, em toda sua ardida e ferina deselegância.

O fato é que houve um tempo em que havia elegância, disso não há dúvida, a contar pelo fato de que um cantor mirrado e feio, ou, para os policiais dos sentimentos alheios, um cantor desprovido de formosura, fez um estrondoso sucesso tendo como base apenas a voz, não um vozeirão de arrasar quarteirão, mas uma voz sutil e magicamente elegante.

Orlando Silva, o Cantor das Multidões, não tinha essa alcunha por acaso ou por exagero. O cara lotava estádios, levava mais público, em Belém, que o Sírio de Nazaré, levava mais gente às ruas do Rio que uma praia aos 40 graus, cidade maravilha purgatório da beleza e do caos.

Orlando Silva parece ter sido o primeiro fenômeno de massas da música brasileira, e isso tudo sem uma voz potente, como tinham os cantores de sucesso à época, sem corpão sarado, sex appeal ou a cara de bonitão de um Vicente Celestino.
Vicente Celestino

Orlando Silva, que hoje completa 100 anos (“completaria” o cacete – tá certo que ele morreu há quase 40 anos, mas nunca o conheci, e para mim, ele é a sua voz, que estou ouvindo neste exato instante, vivíssima), tinha uma voz impressionantemente calma, se é que calma é um adjetivo apropriado para classificar a voz de um cantor, e se não for, a partir de agora passa a ser. Basta ouvi-lo cantar e nossa alma fica leve, flutuando. Isso, ele tem voz flutuante, outro adjetivo perfeito. A forma como ele trata as vogais, sem esmurrá-las, pegando-as, com carinho, lá em baixo e levando-as aos céus, ecoando-as como as trombetas do paraíso, modulando-as sem sacolejar, para depois devolvê-las para baixo novamente, suavemente, repousando-as ao som doce da melodia, uau, é fantástico.

Ouvir Orlando Silva é fazer essa viagem. Isso é elegância pra mais de metro!

Seus sucessos mais conhecidos hoje são “Rosa” (tu és divina e graciosa, estátua majestosa...), “Carinhoso” (meu coração, não sei por quê...) e “Lábios que beijei” (lábios que beijei, mãos que afaguei), mas minha preferida é “Apoteose do Amor” (ouça no link acima), uma deslavada declaração de amor cheia de metáforas e imagens belíssimas, com uma melodia inspiradíssima e uma interpretação... O que dizer da interpretação? Ah, já disse - escrevi aquilo (céu, trombetas, etc) ouvindo justamente Apoteose do Amor, na qual, por sinal, há um verso que se refere ao que hoje chamaríamos de chupar os peitinhos, mas, como disse, era um tempo em que a elegância falava mais alto:

São dois lírios os teus seios alabastrinos

Quase divinos, parecem feitos para os meus beijos...

Caso queira acompanhar a música ouvindo a letra, há dois erros absolutamente bizarros em todos os sites de letras de músicas – não sei de onde tiram exatamente os mesmos erros. No lugar de Muito almejo dos lábios teus o dulçor, colocaram Muito almejo dos lábios teus por um som! Isso mesmo. O cara ouve, não tem vocabulário para entender dulçor, e tasca um por um som. Que falta de elegância! E tem mais: no lugar de Minha alma mendiga amor, curvada aos teus pés, aparece um Minha alma, bendito amor, curvada aos teus pés. Oh céus! Mas ouça, que é de levantar vôo.

Houve um tempo em que os grandes artistas brasileiros eram devidamente homenageados no centenário. Duvido que hoje apareça em destaque o centenário do maior cantor brasileiro de todos os tempos, e cantor dos mais populares, como já desse, mas, com o perdão da deselegância, se o Ximbinha tá ou não comendo a Joelma, ah, isso tá em tudo que é canto dessa internet dos infernos. É deselegância prá mais de quilômetro!
Orlando Silva

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

STREEP E CASÉ - A REDENÇÃO DAS MÃES QUE ABANDONAM

Dois filmes sobre filhas “abandonadas” pelas mães estão em cartaz nos cinemas. As aspas se devem à divergência entre as visões das mães (não abandonei) e das filhas (fui abandonada). Ricki and the Flash é uma produção americana com nada menos que Meryl Streep, mais o ótimo Kevin Kline e Mamie Gummer, a filha abandonada, que vem a ser filha de Meryl Streep também na vida real (é uma pena que a expressão ‘vida real’ esteja caindo em desuso). Direção do bissexto Jonathan Demme, de O Silêncio dos Inocentes. O segundo, Que Horas Ela Volta?, é brasileiro e tem como protagonista a atriz com cara de pobre, Regina Casé, que interpreta uma pobre: Val, vinda do interior de Pernambuco para ser babá do filho de um casal rico do Morumbi. Direção de Anna Muylaert, de Durval Discos. 


Ricki deixou o marido e três filhos para ser roqueira. Toca guitarra, canta, alopra, e você não vê nem sombra da Diaba que vestiu Prada, da Dama de Ferro, da Mamma Mia ou da Sofia, a mãe que sofria. Você pode procurar Meryl Streep, mas só verá uma velha roqueira que toca numa banda de cinquentões e sessentões, daquelas ótimas, mas que nunca passaram daquilo. Não há nem sombra da Meryl Streep. Aliás, quem é Meryl Streep? Ninguém sabe, ela nunca foi vista, a não ser nas cerimônias do Oscar. O filme tem bons diálogos, principalmente quando a família está reunida (a cena do restaurante é sensacional). Como atriz, Meryl deve ter ficado menos com a filha do que esta desejava, o que pode ter gerado uma eletricidade especial nas cenas entre elas, que tratam exatamente de abandono. Apesar de nada surpreendente, o final é delicioso. Tenho certeza, a cena final é capaz de levantar o astral de qualquer derrotado depressivo em vias de ligar para o 141.

Parêntese urgente: calma, Ana, estou bem, de verdade, este filme não salvou minha vida, eu nem sabia o número do CVV, tive que procurar no Google. Aos demais, explico: sei que minha irmã, ao ler o final do parágrafo anterior, já estava pronta para gritar “Edson, como é que ele sabe o número do CVV? Deve estar pensando em usar. Vamos já para Brasília”. “Calma, bem, primeiro liga pra ele”. “Ele não gosta de falar no telefone e vai negar, vamos já, que eu quero ver com os meus próprios olhos, que a terra não há de comer”. “Ele deve estar bem, senão não ia escrever no blog”. “O post no blog pode ser carta de despedida, ele foi abandonado pelo pai, a mãe morreu, ele está solteiro, ele não sabe ficar solteiro! Sabia que ele não estava bem. Eu vou. Se quiser, você fica”. “Calma, bem, não é assim, primeiro precisa ver se tem passagem”. “Eu ein! O que você acha que eu fiz nos últimos dois minutos?”. “Nos últimos 2 minutos você surtou”. “Lembra que mulher faz duas coisas ao mesmo tempo? Posso perfeitamente surtar e comprar passagem ao mesmo tempo. Aliás, pega o cartão de embarque na impressora... Ei, o que está fazendo que ainda não se arrumou?”.

Desculpem-me por misturar assuntos familiares, mas seria difícil continuar a escrever se tivesse que sair para o aeroporto, buscá-los. Voltando ao filme, o fato é que Meryl está fantástica. Já no Que Horas Ela Volta?, Regina Casé interpreta uma empregada que deixou a filha no interior de Pernambuco para tentar ganhar dinheiro em São Paulo e sustentar o estudo da filha. Só que a coisa não deu muito certo e as duas deixaram de se falar. Até que a filha vem fazer vestibular em São Paulo e fica com a mãe, que mora na casa dos patrões, no cubículo de empregada. Os patrões ricos ficam assombrados com a menina prestar o mesmo vestibular que o filho. “Tem certeza? É um dos mais difíceis. Em que escola você estudou?” A situação fica constrangedora. E quanto mais problemas entre as castas surgem, como a filha ter entrado na piscina, mais constrangimento.

Agora, sincero leitor, responda rápido, sem pestanejar, se você tivesse que optar, qual dos filmes você veria? Claro, o da Meryl Streep. Sorte que não somos Sofia e não precisamos escolher – veja os dois. Mas se quiser escolher o melhor, aí sim, vá ao da Anna Muylaert, mais profundo, mais comovente e mais emocionante.

Anna Muylaert, como sempre, nos leva, vagarosa e continuamente, para algum lugar, sem que saibamos para onde, o que mantém a ansiedade e o suspense. Foi assim em Durval Discos e É Proibido Fumar, por exemplo. Em Que Horas Ela Volta?, seu melhor filme, como no excepcional Faça a Coisa Certa, do Spike Lee, o conflito na casa do Morumbi vai aumentando, pouco a pouco, mas não sabemos se, e quando, desembocará em algo mais trágico.

Camila Márdila
Meryl Streep é Deusa, diva, ET, sei lá, aprendeu a tocar guitarra, ok, mas sua personagem, a roqueira velha, pobre e legal, é um estereótipo (que o filme exigia). Personagens assim, Meryl Streep põe em sua máquina alienígena e pronto, now just go to Oscar. Já Regina Casé fez um mergulho e sensível numa mãe em conflito interior, que sofre com a ausência da filha e que substituiu o afeto que não pôde dar a ela pela devoção ao filho do casal rico. A intepretação minimalista da nossa atriz com cara de pobre é sensacional. Aliás, por este filme, Regina Casé ganhou o premio de melhor atriz no Sundance Film Festival (aquele do Robert Redford). Mas não ganhou sozinha, o prêmio foi dividido. Sabe com quem? Com Nicole Kidman, que também concorria? Não. O premio de melhor atriz foi dado para Regina Casé e Camila Márdila, sua filha no filme, atriz brasiliense, de Taguatinga (é nóis na fita!).

Para quem tem medo de filmes de baixo orçamento e, consequentemente, menor ênfase na técnica, como alguns que Anna já fez, Que Horas Ela Volta? não assusta – a Globo Filmes está na excelente produção. Já quem se assusta, com razão, com a Globo Filmes e seus inúmeros filme tipo ZTPC (Zorra Total Piorada no Cinema), fique tranquilo: a Globo sempre soube separar o joio do trigo – este está na cota do trigo, pequena e ocasional, evidentemente.

Que Horas Ela Volta? é mais rico em camadas e significados, tem mais sutileza e vai muito além do conflito mãe e filha: opõe uma geração mais submissa e consciente de seu lugar à geração atual, para a qual a diferença social (tão profunda hoje quanto antes) não faz ninguém abaixar a cabeça ou deixar de sonhar. O final é de uma beleza de abrir a bolsa pra tirar lenço.

Perdoem-me, mas vou finalizar com dois recados pessoais:

Ana, irmã: venham à Brasília, não como SOS espiritual, mas como visita, porque estou ótimo. Estou muito bem sozinho, não estou dando tiro pra tudo que é lado.

Anna, diretora: você estava linda no Programa do Jô... Está com alguém no momento?

domingo, 8 de março de 2015

FILMES PARA O DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Dia Internacional da Mulher me parece uma grande bobagem. O Dia, não é mulher, é óbvio. Que fiquem tranquilos os que detestam chavão: morro mas não falo que o dia da mulher são todos os dias.

Tudo bem, entendo que criaram esse Dia porque houve um tempo em que precisou. Ok, talvez ainda precise, a contar pelos salários, cargos, ocorrências policiais e comportamento geral de zilhões de homens. Só que não sei se ajuda: por exemplo, o Dia Internacional ajuda as mulheres a aumentar a autoestima ou os homens a diminuir sua estupidez? Será que o Dia representa algo além de uma ocasião para dar flores e fazer postagens fofas dando uma de gentil com as mulheres? Ops, auto-denúncia!

De qualquer forma, segue minha homenagem, com uma pequena lista de filmes em que as mulheres botam pra quebrar. Evitei os óbvios, ainda que sensacionais, como Kill Bill (Tarantino) ou Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (Almodóvar) – se bem que agora, ao citá-los, acabo de não evitá-los. Tudo bem, espetaculares. Então lá vão os outros.

Trilogia Millennium – Qualquer um da trilogia, mas no primeiro, “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (Niels Arden Oplev – 2009 – a versão original sueca é melhor), Lisbeth Salander, a melhor personagem feminina deste século, detona em pilotagem, investigação, vingança, tecnologia, tatoo e ainda por cima é ela que salva o homem e ainda termina o filme triunfalmente, jogando no lixo o presente que daria para ele.

Bola de Fogo (Howard Hawks – 1941) – Barbara Stanwick precisa se esconder de seu namorado, um gangster, e se mete numa casa com oito homens trancados numa missão de escrever uma enciclopédia, um deles o linguista careta interpretado por Cary Grant. O que ela faz com os oito? Só vendo. Comédia Romântica de primeira.

Levada da Breca (Howard Hawks – 1938) – De novo HH, mas o que fazer, se o cara adorava dar poder às mulheres em plenos anos 30/40. Aqui Katharine Hepburn faz e acontece com o aparvalhado Cary Grant porque, assim que o conheceu, resolveu que se casaria com ele, apesar de ele estar noivo. Será que ela consegue? Mulheres...

O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante (Peter Greenaway – 1989) – Helen Mirren aguenta calada as grosserias do marido, um insuportavelmente machista gangster dono de restaurante – calada, mas adornando a cabeça do marido, mui justamente. Até que ele descobre e resolve agir, provocando a vingança da mulher, a mais espetacular vingança feminina da história do cinema, que fecha o filme. A concepção visual e musical do filme é delirante (figurinos de Jean Paul Gautier)

Beija-me Idiota (Billy Wilder – 1964) – Delirante comédia sobre um casal de uma pequena cidade do interior – ele, um compositor feioso e ela, a mulher mais bonita da cidade. Como não ser ciumento? E se, ainda por cima, um galã, um astro da música e ídolo da esposa, cai de paraquedas na cidade e fica hospedo na casa deles? Comédia delirante e ousadíssima, em que a esposa, no início “boazinha”, resolve tomar a frente e dar as cartas.

Janela Indiscreta (Hitchcock – 1954) – O suspense é de tirar o fôlego, mas a impressão que tenho é que tudo aquilo é pano de fundo para falar do jogo de aparências, estabelecido pelo confronto entre o machista fotógrafo aventureiro, preso em seu quarto com a perna engessada, e a namorada Grace Kelly, riquinha, socialite e fútil, segundo ele. O domínio da trama do suspense, tipicamente masculina, pela “dondoca” é algo a se pensar...

Bagdad Café (Percy Adlon – 1987) – Uma senhorinha alemã meio obesa é abandonada pelo marido em viagem turística aos Estados Unidos. Sozinha, arrastando a mala numa estrada no meio do deserto, ela encontra um posto detonado com um café, o Bagdad, comandado por uma mulher casada com um imprestável. Ela cuida do posto, do café, do hotel e dos filhos sozinha. Juntas elas transformam o lugar e mandam os respectivos às favas.


Ser Ou Não Ser (Ernst Lubitsch – 1942) – Em plena guerra mundial, Lubitsch resolveu misturar arte e guerra e fez essa comédia espetacular sobre os esforços de um grupo de teatro para impedir que os Nazistas descubram os segredos da Resistência polonesa. O casal de atores principais toma a frente – ele, um charlatão egocêntrico e narcisista e ela, uma ótima atriz que dá suas escapadinhas por não suportar o pentelho do marido. O final da cena final é uma das melhores piadas da história do cinema. Mulheres 10 a 0.

domingo, 2 de março de 2014

EN DEUINERIS

As colocações são minhas opiniões, não minhas apostas.

DIREÇÃO
   1.  Alfonso Cuarón, GravidadeCom um roteiro bem básico, com um ou dois atores, teve coragem para buscar novas técnicas de filmegem, não digitais, que pudessem fazer com que a plateia se transformasse em astronautas soltos a esmo no espaço. Coragem também para ancorar numa atriz que não é das melhores que Hollywood já produziu. O resultado é interessantíssimo. O que ele fez não foi pouca coisa.
  2.  David O. Russell, Trapaça – Cenas antológicas num filme em que tudo funciona bem, tudo é redondo e bem filmado. Em termos de direção de ator, também muito interessante. Exemplo: De Niro vem fazendo o mesmo tipo por vários e vários filmes. Aqui há um grande ator num personagem único.  
3.    Alexander Payne, Nebraska Se ganhar também seria o máximo. Na verdade, o Oscar de direção devia ser dividido por três.
4.    Martin Scorsese, O Lobo de Wall Street – Ok, Martin. Você é bom e deve ter se divertido muito ao filmar as loucuras do lobo e de seu parceiro. Aproveite a festa.
Não vi:           Steve McQueen, 12 Anos de Escravidão

ATOR
    1. Matthew McConaughey, Clube de Compras Dallas O que? Esse atorzinho de comédia de terceira concorrendo ao Oscar? Estão querendo fazer dele o queridinho de Hollywood? Era exatamente o que eu pensava dele antes de vê-lo roubando a cena em O Lobo de Wall Street e depois, na série “True Detective”. Nesse filme, ele está impressionante, numa atuação de múltiplos expectros. Deviam dar o Oscar para ele e suspender a categoria de melhor ator por três anos.
2.    Bruce Dern, Nebraska Sensacional. Divino. Oscar nele. Impressionante como não parece estar atuando. Seu personagem, um velho todo atrapalhado, é um dos personagens mais críveis que já vi. É o meu avô rabugento, é o seu tio meio lelé, é aquele velhinho da casa da esquina que anda todo desarrumado e despenteado. Ao mesmo tempo é simpático e carismático. A lembrar: há quase 40 anos, ele fez um motorista de taxi em Trama Macabra, casado com uma vidente charlatã, no último filme de Hitchcock. O casal mais simpático de toda a filmografia do mestre.
3.    Christian Bale, TrapaçaPara mim, uma grande surpresa. Não imaginava que o cara fosse tão bom. No filme só a Jennifer Lawrence é melhor que ele. Desempenho quase digno de Oscar.
4.    Leonardo DiCaprio, O Lobo de Wall Street. Não entendo. Foi bem, mas num personagem que exige pouco em termos de alternância de estados, em termos de profundidade. Bem, talvez tenha sido ele mesmo que não deu a profundidade necessária.
Não vi:     Chiwetel Ejiofor, 12 Anos de Escravidão

ATRIZ
1.    Cate Blanchett, Blue Jasmine100 palavras. Será a nova Meryl Streep. Se tem 3 falas num filme, como no fraco Caçadores de Obras Primas, já arrebenta, imagina sendo a protagonista neurótica de um filme sério de Woody Allen?  
2.    Judi Dench, PhilomenaEssa mulher vale uma fortuna, não precisa de muita coisa para ser uma presença forte, divertida, emocionante. Seria lindo se ganhasse. Torco por ela.
3.    Amy Adams, Trapaça – Um decote fascinante. É boazinha. Ela tem carisma, é convincente. Adoro ela. Logo ganha, assim que enjoarem da Maryl Streep, da Cate Blanchet e da Jennifer Lawrence, se não aparecer nenhuma outra desse tipo antes.
4.    Meryl Streep, Álbum de Família Não vi, mas certamente está melhor que a Bullock;
5.    Sandra Bullock, Gravidade – o que disse acima não é piada. Gosto da Sandra Bullock, mas ela tem limitações. Aqui ela funciona e muito bem: Sandrinha, sem ter com quem contracenar, não fala muito e o capacete esconde um pouco suas expressões – sorte que não esconde o resto.

ATOR COADJUVANTE
   1. Jared Leto, Clube de Compras DallasFora os dois que não vi, os demais não chegam aos pés. Realmente o Clube de Compras pode ganhar, porque se escora numa dupla com desempenhos excepcionais.
   2. Bradley Cooper, Trapaça Vai bem no filme, obrigado.
   3. Jonah Hill, O Lobo de Wall StreetSempre faz personagens divertidos, embora mais ou menos iguais. Tem força nos olhos e uma cara engraçada. Oscar?
Não vi:           Barkhad Abdi, Capitão Phillips
Michael Fassbender, 12 Anos de Escravidão 

ATRIZ COADJUVANTE
1.    Jennifer Lawrence, TrapaçaO filme, que já é muito bom, sobre na estratosfera a cada entrada dela em cena. Uau!
2.    June Squibb, Nebraska Velhinha adorável, chata, porra louca,engraçada, sarcástica. Torço para ela, porque a Jenniffer Lwurence va ganhar mais que o Vettel, quer dizer, que o Federer, digo, que a Striper, digo, Maril Streep.
3.    Sally Hawkins, Blue Jasmine – Boa.
Não vi:           Julia Roberts, Álbum de Família
Lupita Nyong'o, 12 Anos de Escravidão

ROTEIRO ORIGINAL – sem comentários, que já está tarde
1.      Trapaça, David O. Russell e Eric Singer
2.    Blue Jasmine, Woody Allen
3.    Ela, Spike Jonze
4.      Nebraska, Bob Nelson
5.    Clube de Compras Dallas, Craig Borten e Melisa Wallack

ROTEIRO ADAPTADO – sem comentários, que já está mais tarde
1.      Antes da Meia-Noite, Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke
2.    Philomena, Steve Coogan e Jeff Pope
3.      Lobo de Wall Street, Terence Winter
Não vi:     12 Anos de Escravidão, John Ridley
            Capitão Phillips, Billy Ray


FOTOGRAFIA  – sem comentários, que já está quase cedo
1.      Nebraska, Phedon Papamichael
2.    Gravidade, Emmanuel Lubezki
3.    Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum, Bruno Delbonnel
4.      Os Suspeitos, Roger A. Deakins
Não vi:           O Grande Mestre, Philippe Le Sourd

FIGURINO – Só um comentário: que sono.
1.    O Grande Gatsby, Catherine Martin
2.      Trapaça, Michael Wilkinson 
Não vi:           12 Anos de Escravidão, Patricia Norris
O Grande Mestre, William Chang Suk Ping
                       The Invisible  Woman, Michael O'Connor

sábado, 1 de março de 2014

OSCAR 2014 - MELHOR FILME

Esta é a minha ordem de preferência, não minhas apostas.

 1.     Nebraska - Filme bom é aquele que reverbera. Você sai do cinema, mas o filme não sai de você. A vontade que dá de conversar sobre o filme é uma forma de reviver as cenas. Quando é assim, eu volto ao cinema e vejo no mínimo mais uma vez. Nebraska é isso. História tocante, fotografia maravilhosa, ótimas atuações, exceto a do Bruce Dern, que é muito mais que ótima. Não dá pra falar mais, só vendo. Meu preferido, mas não deve ganhar.

   2. Trapaça – Se ganhar, ótimo! Ambientado lindamente nos anos 70, com boa trama, trilha sonora classuda, sem a obviedade de se agarrar o tempo todo aos hits mais conhecidos dos anos 70, mas nos momentos em que recorre aos hits, eles ganham sentido e força. Como na cena da festa, que começa antes dela, com os casais nos carros, à caminho, ao som de Goodbye Yellow Brick Road (por sinal, o single, na época “compacto simples”, do Elton John foi o meu primeiro disco, presente do cunhado Edinho). A cena toda, que tem participação ultraespecial de De Niro, deve ter uns 15 minutos. Depois da cena, deviam pausar o filme, a plateia sair, pagar mais um ingresso e voltar. De quebra, uma boa imagem, não estranha por aqui: o político corrupto preso chora e acredita do fundo do coração que só estava fazendo o bem para a cidade. Dá vontade de fazer vaquinha e dar uma grana prá ele.

 3. Clube de Compras Dallas – Muito bom. Machão homofóbico do mundo dos rodeios descobre que tem AIDS, quando se pensava que só os gays pegavam. Lutando para viver, ele descobre que pode ganhar dinheiro traficando medicamentos proibidos até que percebe que não fazia mais pelo dinheiro, mas para ajudar. Ótima reconstituição e atuações sensacionais.




   4.Ela – Filme interessantíssimo sobre esta época de relacionamentos virtuais. O cara instala um sistema operacional com uma espécie de inteligência artificial. Um sistema que vasculha o computador e toda a rede para poder conhecer mais profundamente o seu dono para se comunicar melhor com ele. Avisa dos e-mails, dá opiniões, etc. Ocorre que a voz do sistema é a da Scarlet Johanson, e o dono da voz se apaixona por ela, e a voz se apaixona pelo dono da voz. Passam a namorar. Filme delicioso com reflexões atualíssimas.

5.   Gravidade –Filme diferente, ousado, talvez com mais chance de vencer do que “Ela” ou “Nebraska”. Tem praticamente só dois atores, George Clooney e Sandra Bullok, astronautas que depois de um acidente ficam soltos no espaço. Só que, depois de um tempinho, bye George, Sandrinha is alone. Três elementos levam o filme: a astronauta inexperiente numa situação limite, o espaço e o silêncio. Suspense brando, mas envolvente. A forma como foi filmado nos coloca lá, é incrível a sensação. Bonito demais, experiência única. Nesse aspecto, um grande filme. Só que não sei ele resiste fora do cinema, na telinha e sem o 3D...

   6.Philomena – Um convento na Irlanda mantém jovens mulheres praticamente como escravas, dentre elas Philomena, que engravida. Como dinheiro sempre ajuda, o convento tem a prática não muito cristã de vender os filhos de suas jovens escravas para ricos americanos. Cinquenta anos depois, Philomena resolve procurar seu filho, ajudada por um escritor. O filme escapa do dramalhão e da denúncia e segue pelo caminho da leveza e do humor leve.  



7.    O Lobo de Wall Street – Ascensão e queda de um operador da bolsa sem lá muitos escrúpulos, com cenas que só um Scorcese é capaz de fazer. O cara (Di Caprio) vive chapado, inclusive no trabalho, o que lhe dá inspiração para reuniões motivacionais daquelas em que todo mundo grita. Festas, putarias, Jonah Hill, sempre divertido, etc. Mas quer saber? Chatinho, chatinho. O tempo todo na mesma toada cansa. Aí alguém e diz “mas era assim que o cara vivia”. E eu com isso? Porque o cara tem uma vida chata o filme é obrigado ser chato? No final, a gente sai meio cansado.


Não vi:     12 Anos de Escravidão

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

QUASE 10 RAZOES PARA VER O OSCAR 2014

Neste ano o Oscar não será transmitido na TV aberta, já que no domingo a Globo estará transmitindo o desfile das escolas de samba do Rio. Mas a TNT transmitirá, com comentários do Rubens Edwald Filho, muito melhor do que o José Wilker. 
Aí o Panta me pergunta: "Oscar, e daí? Prá que ver essa festa over/cafona/burguesa dominada por interesses comerciais?" 
Pois eu digo que há inúmeras razões e porque são inúmeras, vou enumerar dez delas, ou menos. Por que ver o Oscar 2014:

  1. Porque tem mulher bonita de monte. Meu Deus, olha isso! Tudo bem, meninas, pode ter homens interessantes também, mas alguém já viu um ator com decote ousado ou com um tecidinho tão leve que mostra todas as formas do corpo? Sorte que não! Fato: mulheres adoram ver os vestidos das musas do Oscar. Homens vêem além deles.
  2. Porque é um bom assunto para o dia seguinte. Já perdi a conta das mulheres lindas que conquistei no dia seguinte ao Oscar por conversar sobre a festa, os filmes e os vencedores. É tiro e queda: é só começar a falar do Oscar e, de repente, lá está ela, na minha cama, falando “tá, agora para com esse papo e vem logo que o relógio tá correndo”;
  3. Porque é bom saber que estamos vendo aquilo junto com
    milhões de pessoas
    em todo o planeta, ricos e pobres, asiáticos e aborígenes, flamenguistas e vascaínos, campeões e vices, neo-nazistas e judeus, playboys e manos, muçulmanos e católicos, gays e rainhas, homofóbicos e seus amantes secretos. Isso me dá uma sensação de pertencimento, de comunhão, compartilhamento, enfim, essas coisas lindas e comoventes e que rendem dezenas de curtidas no meu feice;
  4. Porque artistas serão premiados! Por mais política ou comercial que seja a escolha, ela sempre recai sobre alguém que fez um trabalho no mínimo muito legal. E se você achar um absurdo a escolha, chore, grite, esperneie, arrebanhe mais insatisfeitos na rede e fiquem putos juntos, apertando botõezinhos de curtir. Chore pelos coitadinhos injustiçados do Oscar, mas lembre-se que eles trabalham num filme, não num escritório horrendo como você e raramente têm problemas para pagar a prestação do financiamento imobiliário;
  5. Porque o Woody Allen pode ganhar de novo o Oscar de roteiro, e quero estar vendo ao vivo. Torço por ele mesmo com
    o risco de Mia Farrow tuitar (já que não sabe tatuar, como a Lisbeth Sallander) que ele é um porco sádico estuprador ou coisa parecida. Meu Deus do céu, aquela mulher não supera nunca! Eu mesmo já fui abandonado, mas superei na mesma hora, tranquilo, estou super bem, o que passou, passou, não guardo nenhuma mágoa, não tenho isso aqui pra falar daquela megera vagabunda!
  6. Porque minha filha gosta.
  7. Tá bom, não existem tantas razões assim, não vou chegar à décima, mas o que mais você pode fazer no domingo à noite? Ir ao carnaval? Sair num bloco e beber suor se espremendo no
    meio de toda aquela gente? Ver o desfile das escolas de samba na TV? Vê depois. A Mangueira entra bem mais tarde. Quando a Mangueira estiver entrando, o pessoal do Oscar ou já vai estar dormindo (Morgan Freeman, Meryl Streep e Bruce Dern) ou já na segunda festa (os demais), alucinado depois de sei lá quantas carreiras.
E amanhã eu chego com os indicados e com sugestões de filmes para você ver no carnaval, no ar condicionado do cinema, enquanto o povo tá lá nos blocos, bebendo suor. Lembre-se: pega mal ver a cerimônia sem já ter visto alguns dos vencedores.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

BELEZA POUCA É BOBAGEM

Jep Gambardella é um dândi, quase um Oscar Wilde italiano: paixão por arte, beleza, festas e boemia. Quase: escritor de um livro só, publicado há 40 anos, e gosto por mulheres bonitas e, mesmo aos 65 anos, elas também gostam dele. Homem rico e influente, respeitado pela mais altas esferas da sociedade de Roma.  
Cena de abertura: festa delirante, todo tipo de gente, vários deles personagens que estão sendo apresentados sem que saibamos. Depois de oito minutos de festa, temos o prazer de conhecer o protagonista, Jep, que nos propõe sua busca. A câmera se afasta e mostra a festa de longe. Nas nuvens a projeção “LA GRANDE BELLEZZA”. Essa abertura deixa claro: há algo muito especial por aí. Veja (som alto, por favor):



Encantador e carismático, Jep questiona o sentido da vida vazia em que todos fingem pompa para fugir da realidade do fracasso de suas vidas. Festas, conversas com o grupo de amigos, coquetéis, vernissages, museus e manifestações de arte contemporânea, e a pergunta irritante que ele não aguenta mais ouvir: “porque você nunca escreveu outro livro?”.

                 Se Foubert não conseguiu escrever sobre o vazio, quem sou eu para ousar?

Filme contemplação, em que a arte é um dos personagens principais. Ângulos e movimentos da câmera dão prazerosos. Os mais receosos de "filme de arte"podem pensar “ih, lá vem a chatice de filme cabeça cheio de cena criada com o único propósito de causar incômodo". Nada disso. Tudo é feito para o prazer e deleite. Filme prá se ver saboreando, com a mente quieta, coração tranquilo e a espinha do jeito que achar mais confortável (espinha ereta e cinema parece que não se bicam). 

Filme profundo e filosófico. Fiquem tranquilos os cismados: os personagens são muito divertidos e os diálogos inteligentes, cheios de pérolas de ironia e cinismo deliciosamente misturados às reflexões filosóficas. Amor e morte, vida e obra, luz e sombra.

Os dois caminham na madrugada das ruas de Roma.
Ele - E você, o que faz da vida?
Ela (Loira, bonita, corpão) - ... Eu sou rica.
Ele - Belíssimo trabalho!
Corta. Cama, depois do sexo.
Ela - Eu gosto de fotografar... Passo o dia todo me fotografando. Até nua... Adoro colocar fotos no meu facebook... Quer ver as fotos?... Vou buscar.
Ele, sozinho, suspira de tédio, vai à varanda. “Hoje, com 65 anos, a vida me deu discernimento suficiente para saber que não posso perder tempo com coisas que não quero fazer”.
Corta, ele andando só, lenta e prazerosamente, pelas ruas de Roma, em meio aos majestosos monumentos iluminados pela luz amarela que parece vir de décadas atrás.  

O fato é que, depois de exaltar, no post anterior, os bons filmes de entretenimento, gênero desvalorizado pela crítica, e de colocar em dúvida o modo como a crítica às vezes supervaloriza filmes chatos chamando-os de “filmes de arte”, eis que me coloco diante do extremamente bem avaliado novo filme do Italiano Paolo Sorrentino (do ótimo “Este é o Meu Lugar”, com Sean Penn - já apareceu neste blog). O nome, “A Grande Beleza”, altamente pretensioso, gera enorme compromisso. Mas Sorrentino cumpre o compromisso com folgas. Podia até chamar a beleza de Suprema, Gigantesca, Estratosférica, que estaria ok.

Transformador - As reflexões atingem o âmago da alma, talvez porque não sejam impostas nem sejam didáticas. São colocadas a conta-gotas, com imagens, músicas, diálogos, situações envolventes, personagens agradáveis. “A Grande Beleza” é, sim, um filme de arte, mas não daqueles que fazem o gênero “Olha como eu sou viajandão”, do Oliver Stone (nada contra - alguns são ótimos).

Gentes, turistas, artistas, arte, esculturas, praças, fontes, Deus, igreja, girafa. Não há uma cena sequer que não reserve algo onírico ou surpreendente. As músicas parecem entrar sempre no momento justo, no clima certo, para acentuar a emoção ou preparar a próxima cena.

Vernissage ao ar livre com a apresentação de uma artista de 10 anos, criança, portanto, que quer brincar, mas é levada ao palco na marra pelo pai.Chorando compulsivamente, ela joga tintas diretamente das latas na gigantesca tela, espalhando com as mãos. Jep se afasta e encontra um homem que tem um estojo com as chaves de alguns dos principais edifícios históricos de Roma. Uma espécie de guia que conduz Jep e sua namorada a uma excursão na madrugada pelo interior dos castelos e suas obras de arte. Ramona pergunta ao homem porque ele tem todas aquelas chaves. “Porque sou uma pessoa de confiança”.

À medida em que Jep se aprofunda na sua busca pelo sentido de sua própria vida, começam a emergir as inquietações espirituais e religiosas, e com elas surgem os personagens da igreja, sobretudo a “santa”, uma religiosa de 104 anos que fez voto de pobreza, não dá entrevista há mais de 40 anos, mas, bem impressionada com o livro de Jep, parece ter prometido uma entrevista a ele. Não há cinismo que resista a um mergulho profundo. Memoráveis as cenas finais, como a dos pelicanos no terraço e a subida da religiosa na escadaria de uma igreja.


Outro segredo do filme, um dos melhores deste milênio, é o ator Toni Servillo, que interpreta Jep Gambardella. É magnífica a forma como ele, com olhar e expressão, ora com sinismo, ora com emoçao, com sua voz aconchegante e próxima, interpreta as imagens que vê e as situações por que passa. Sua viagem ao centro do seu vazio, sua busca pelas respostas, seus risos e seus choros são tão mágicos que, quando menos percebemos, fomos nós que viajamos, nós que buscamos. Tudo muito simples. “No fundo, é só um truque”. 

Resistir ao que você leu acima e não se lembrar de nada daqui a cinco minutos é fácil, mas se você der uma olhada no trailer, duvido que você não vá correndo ao cinema: 



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