domingo, 15 de abril de 2012

A VOZ CHATA E RENITENTE DE RAUL


Apesar dessa voz chata e renitente 
Eu não tô aqui Prá me queixar
E nem sou apenas o cantor
Rollo May, em seu livro “O Homem à Procura de Si Mesmo” diz que o grande problema do homem é o vazio. As pessoas não sabem o que desejam, e sim o que os outros dizem que devem desejar. Assim passam a vida, comportando-se da forma dita correta, normal, aceita plenamente pelos outros. Poucos percebem que não passam de um espelho do que os outros esperam deles. Desses, raros são os que tomam a atitude de se perguntar “ei, cadê o meu self?” e sair em busca de si mesmos. 
Entretanto, alguns desses “raros poucos” não conseguem conviver simultaneamente com os dois papéis (o self-hunter, que procura seu eu e o do espelho, que consegue agradar à maioria). Fazer o que a sociedade espera e comportar-se de acordo com o padrão avilta de tal forma o núcleo do ser, que alguns simplesmente não aguentam se comportar como a maioria, abdicando de serem “normais” para não serem sufocados. Somente assim conseguem afirmar-se como indivíduos, e não como espelho. Não que saibam exatamente o que são, mas sabem que não são o que outros querem que sejam, e isto já é um bom começo para encontrar-se.
Não sei onde eu to indo
Mas sei que eu to no meu caminho
Enquanto você me critica, eu tô meu caminho
Os “malucos-beleza” não são as pessoas mais, digamos, desejadas pelas rodas da sociedade, incluindo a roda em que vivemos, eu, tu e o rabo do tatu. Ou vai negar que torce a cara quando vê um cara com barba mal cuidada, jeans todo surrado na rua erguendo os braços e gritando “viva a sociedade alternativa”? Jura por deus, ops, por Deus que você não ri de uma mulher vestida de panos esvoaçantes que entre num espelho d’água, mergulhe a cabeça e saia com as mãos unidas em agradecimento à luz universal? Assim são os seguidores do Raul, ou pelo menos o estereótipo que fazemos deles. “Mergulhar em si mesmo significa assumir as escolhas feitas e principalmente vive-las de modo intenso de forma que exista libertação de toda forma que aliena o homem.” (Rollo May)
Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno
Nesta semana vi “Raul – O Início, O Fim e o Meio” e saí meio grogue. Além da deliciosa experiência que o filme proporcionou a mim, que vivi os anos Raul, e à minha filha adolescente, que viveu os anos Xuxa, que foi comigo ao cinema (minha filha, não a Xuxa), o filme me fez lembrar que Raul não é apenas grande roqueiro, um grande músico, um grande artista. Raul é um mito. A cena que mostra a passeata anual em memória de Raul me intrigou. Não são algumas pessoas, nem 100 nem 200, é uma multidão! Além dos tradicionais Raul-covers e dos contemporâneos do maluco-beleza, tem ali gente muito nova. Todos cantando músicas do Raul. Fazem essa homenagem todos os anos. Que fenômeno é esse? Que outro ídolo brasileiro, de todas as áreas, música, cinema ou esportes, tem tantos fãs, tantos seguidores capazes de fazer algo semelhante?
É hora de confessar: não sou fã e nunca tive um disco do Raul (compilação não vale, pois não passa de um extrato de algumas músicas que mais tocaram). Por isso, após o filme procurei a redenção: ouvi todas as músicas de todos os discos do Raul. Não sei se ele, o Raul, me perdoou. Mas eu sim, me perdoei. É bem verdade que perdi muito não conhecendo antes as maravilhas do Raul, mas explorá-las agora está me permitindo uma paixão absolutamente nova, uma viagem intensa (fiz uma compilação com 30 músicas que eu, e talvez quem não é fã, não conhecia, e as 30 são absolutamente sensacionais, letras, melodias, performance, tudo). Outra vantagem de não ter conhecido antes é que, do jeito que eu sou, poderia estar hoje usando jeans surrado, erguendo os braços e gritando vivas à sociedade alternativa. Isso se eu não estivesse tomando banhos no chafariz da praça e agradecendo à luz universal.
E é por aí que, creio, passei a entender o fenômeno Raul, não sem a ajuda de Rollo May e de outras consultas filosóficas. Veja isto:
Um motorista de ônibus do Bronx, certo dia, saiu à esmo com o ônibus vazio e só foi apanhado pela polícia dias depois, na Flórida. Explicou que, cansado de dirigir na mesma linha diariamente, decidira viajar. Enquanto o traziam de volta, a companhia em que trabalhava não sabia o que resolver a seu respeito – se devia ou não puni-lo. Quando chegou ao Bronx estava célebre. Uma multidão de pessoas, que jamais o vira, estava a sua espera. As pessoas se identificaram com o vazio do motorista do Bronx e vieram confirmar essa identificação formando um grupo solidário, cuja mensagem era nítida: Eu sinto a mesma coisa e sofro pelo mesmo motivo, mas você teve a coragem de dizer fazer alguma coisa diferente. Pronto! O motorista transformou-se em herói.
A angústia é de todos, mas raríssimos se rebelam. Aí que entra o Raul: sua mensagem era libertária, consistente e universal. Raul era um maldito, falava o que bem entendia, inclusive, e especialmente, coisas que eram agressivas ao sistema político e social. Falava de sua busca por si mesmo, da liberdade de ser quem é e não espelho dos outros.
Se você sente receio do inferno
Do fogo eterno, de deus, do mal
Eu sou estrela no abismo do espaço
O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço
Onde eu tô não há bicho-papão
Eu vou sempre avante no nada infinito
Flamejando meu rock, o meu grito
Minha espada é a guitarra na mão
Raul, com sua voz chata e renitente, deu um discurso para os angustiados, para os inconformados, para os tímidos, para os esquisitos, para os rebeldes, para quem não consegue ou não quer se enquadrar. Mas fez muito mais do que isso: como sua música era ao mesmo tempo popular e excepcionalmente criativa, enfim, de altíssima qualidade; como sua personalidade e sua figura era altamente performática e conectada com seu tempo, Raul acabou caindo nos braços da mídia. Ou seja: era ao mesmo  tempo um maldito e um queridinho da mídia.
Desde aquele tempo enquanto o resto da turma se juntava pra bater uma bola!
Eu pulava o muro, com Zézinho no fundo do quintal da escola
Com Raul na crista da onda, os deslocados em geral puderam responder às críticas: “enquanto você me critica eu tô no meu caminho”. A partir de Raul, os angustiados puderam pular o muro do fundo do quintal da escola. "Se o cara que todos gostam, o cara do chacrinha, o cara do Fantástico, fala que a gente tem que ser diferente, quem é você prá me criticar"? Duvidam que Raul era a glória, sobrinhos do Tio Moa? Pois saibam que por muitos anos as músicas novas do Raul eram anunciadas durante toda a semana para estrearem no Fantástico como a atração da semana.
Vai! Vai! Vai!
E grita ao mundo Que você está certo
Você aprendeu tudo Enquanto estava mudo
Agora é necessário Gritar e cantar Rock
E demonstrar o teorema da vida
Raul fez todos cantarem com ele sua busca por si mesmo, sua diferença. Raul deu sentido à vida de muita gente. Deu até uma oração, Ave Maria da Rua:
Não estou cantando só
Cantamos todos nós
Mas cada um nasceu
Com a sua voz,
Pra dizer, pra falar
De forma diferente
O que todo mundo sente
Para quase finalizar: considere-se um lixo se perder o filme, obrigatório para quem gosta de música, de arte, de mídia, de fenômenos sociais e de uma boa história. Não é um filme apenas para quem gosta de Raul. Para vocês, sobrinhos do Tio Moa, que não viveram os anos Raul Seixas e só conhecem algumas de suas músicas mais tocadas, o documentário dirigido por Walter Carvalho é uma diversão garantida; você vai conhecer um cara interessantíssimo, vai rir e, eventualmente, vai chorar. Além da diversão, vocês terão como bônus um tesouro, se sua curiosidade o levar a garimpar as jóias do baú do Raul. Raul, na tela, explode, lindíssimo e poético, em jorros de sons e imagens. Veja o trailer aí em baixo.
A escolha apresenta ao homem uma grande gama de possibilidades, que o leva a viver a angústia mais profunda de todas, a de escolher nas possibilidades. As possibilidades, não se sabendo o resultado de suas escolhas, levam ao desconhecido. Quando ocorre esta entrega real ao desconhecido o homem no final do processo encontra sua felicidade e passa então a viver sua existência feliz e com muito mais intensidade. (Rollo May)
Quer saber de uma coisa? Acho que vou deixar minha barba crescer e pegar no fundo do armário aquele jeans que não tinha mais coragem de usar. Mas sosseguem, que dificilmente usarei panos esvoaçantes e não tenho a mínima vontade de entrar no primeiro chafariz que encontrar.
Não pensa que a cabeça aguenta se você parar
Há uma voz que canta, uma voz que dança, uma voz que gira
Bailando no ar

segunda-feira, 2 de abril de 2012

OLHA A SEMANA SANTA AÍ, GENTE!


Sempre gostei de igrejas. Não há cidade que visito que não acabe entrando numa igreja, principalmente se for antiga. Gosto daquele lugar enorme, quase sem ninguém, e daquele silêncio, ideal para contemplar a beleza da arquitetura e da decoração. Adoro aqueles painéis em que o Jim Caviesel aparece carregando uma cruz. Transmitem sofrimento e paz ao mesmo tempo. Sofrimento pela dor por que passou, mas paz pelo triunfo que teve através dos tempos, afinal, os painéis retratam o que supostamente aconteceu há mais de dois mil anos.

Um parêntese: perdoem-me os religiosos fervorosos pela expressão “supostamente”. Aderi à moda. Tudo agora é suposto. “O suposto assassino da suposta vítima, supostamente teria sido o responsável pelo suposta morte”. Exagero? Ontem ouvi na CBN: “o suposto suspeito...” Que beleza! O cara está sendo investigado, o delegado disse que é grande a possibilidade de ser ele mesmo o assassino; o cara é suspeitíssimo, e o jornalista vem me dizer que é um suposto suspeito? Suposto assassino, vá lá, mas suposto suspeito... coisas da CBN local e de seus fraquíssimos jornalistas.

Voltando às igrejas, houve um tempo em que eu e minha terceira gestora (adoro expressões do mundo corporativo, fazem-me sentir que o Max Gehringer é meu amigo) costumávamos entrar numa igrejinha de uma travessa da Felipe Schimidt, em Floripa, só para ficar sentado lá. Eu ficava quieto, relaxando naquela paz encrustada no meio da balbúrdia do centro da cidade. Ela talvez orasse. Orar parece dar certo: depois que nos separamos, ela encontrou a felicidade, o que aconteceu por mera coincidência e não por relação de causa-efeito... creio.

Os que me conhecem ao vivo e a cores (embora eu ande meio pálido), bem como os que me conhecem apenas de fuçar neste prestigiado blógui, devem estar se perguntando por que estarei eu falando de religião, ainda que saibam que estamos entrando na semana santa. Pois, em verdade vos digo, não há assunto mais apropriado para o momento: depois de uma profundíssima alteração em minha vida, que me tirou a atenção da criação literária e que me fez focar (oi Max, tudo bem?) na nobre tarefa e no prazer de ser pai, período este em que parecia que o blógui havia morrido, eis que estou aqui, ressurgido, ressuscitado! Sim, caros leitores: em plena semana consagrada à paixão e à ressurreição, O Cobra Parada está de volta!

E a semana começou barulhenta: depois de dormir prá lá das 4 horas de uma abafada madrugada, eis que, exatamente às oito da manhã, sou acordado por um milhão de decibéis nos meus ouvidos. Era a oração que ele, ops, Ele, nos ensinou, aquela que na missa a gente deve rezar de mãos dadas, ou com as mãos voltadas para cima, não sei ao certo. O fato é que o pai, ops, o Pai Nosso me deu um susto gigantesco. Levantei desorientado, sem saber de onde vinha aquele som altíssimo. Por um átimo, pensei ter morrido e estar ouvindo as trombetas celestes. Mas estava em meu quarto. Fui à janela. Era uma procissão que passava na rua. Algumas centenas de pessoas atrás de um carro de som. Sim, gente, CARRO DE SOM!!! Trio Elétrico do Senhor! Já não chega os baianos cantando axé? Já não basta os sindicalistas gritando palavras de ordem intercaladas com músicas da Mercedes Sosa e Milho aos Pombos, do Zé Geraldo? Já sei: como os sindicalistas agora estão dirigindo o país, devem ter alugado os carros de som para outros fanáticos.

O fato é que me lembrei, cheio de nostalgia, das procissões noturnas que passavam em frente da minha casa, numa de minhas vidas passadas (aqui a conotação não é espírita: penso na minha infância e nos casamentos que tive como várias vidas diferentes que tive, já que eu era uma pessoa diferente em cada uma delas). Nas procissões da minha vida de criança, que realmente mexiam comigo e me davam, por instantes, vontade de me espiritualizar, as pessoas seguravam velas e estandartes, entoavam cânticos sem microfones nem trio-elétrico. Só as vozes dos seguidores da procissão, e baixinho, em respeitoso volume: nada de gritos ou cantos gospel com prolongados gritos à Whitney Houston, que deus, ops, Deus a tenha. Era muito gostoso ouvir aquilo (não a Whitney Houston, mas as procissões).

Mas estamos na era do espetáculo e do exagero. Daniel, um amigo, fica puto quando vai a um show em que o músico toca para si mesmo, e não para a platéia, como ocorreu no do Hélio Delmiro na última sexta. Pois em procissão deveria ser exatamente assim: as pessoas deveriam rezar para si e não para acordar quem está dormindo. Mas o que esperar deste mundo do espetáculo, em que existe até Drive Thru de oração (sempre passo em frente a esse aí, da foto – qualquer dia vou parar, prá ver qual é), senão uma luta com todas as armas pelos fiéis?

Lembrei-me também daquela do bêbado que, do bar da esquina, observa a procissão que vem com o altar ornado em verde e rosa. Ele grita “olha a mangueira aí, gente”. O Padre solta impropérios contra o bêbado, enquanto a santa bate no galho da mangueira e se espatifa no chão. (não sei por que, mas imaginei o meu praticamente amigo Max Gehringer lendo essa piada com seu jeito de falar de professor de biologia do primeiro grau, e explicando depois a moral da história – é incrível, mas ele ganha dinheiro assim). 

O fato é que estamos em plena semana santa, semana da ressurreição de Cristo e deste blógui, semana em que assistiremos pela enésima vez todos aqueles filmes sobre a vida de Jesus. Impressionante como gostamos (eu, pelo menos, adoro) de ver esses filmes, mesmo sabendo que o herói morre no final. Ontem comprei A Paixão de Cristo, do Mel Gibson (12 reais no Wall Mart), que só vi uma vez, quando foi lançado, mas que me impressionou muito. É um baita filme, embora difícil de assistir pela imensa violência que, a meu ver e ao ver do galã australiano, deve ter acontecido mesmo. Falando em realidade, os personagens falam a língua que se falava na época, o hebraico. De qualquer forma, a história de Jesus é uma bela história, que acalenta gerações e gerações por milênios, e agora, mais recentemente, acalenta também o bolso dos donos de igrejas lucrativas, comerciantes e fabricantes de chocolate. Que venha a semana santa, que por sinal culmina com o feriadão da Páscoa, que aguardo com ansiedade. Páscoa é transformação!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

MELHOR IMPOSSÍVEL


A PRIMEIRA CANÇÃO
Pela manhã, todo pimpão, saiu para passear com os cachorros e fazer coisas chatas que se fazem aos sábados pela manhã, como mandar lavar o carro (porque isso tem que ser tão complicado e tomar tanto tempo das pessoas? Porque a vida é tão dura com quem tem preguiça?).
Uma pergunta lhe veio à cabeça: por que, apesar dos afazeres chatos, estava de bom humor? Porque o ar matutino do sétimo dia é quase que indestrutivelmente agradável? Talvez porque a manhã sabatina seja temperada com a expectativa de passar dois dias inteiros sem precisar ir ao trabalho, aos trabalhos, melhor dizendo, e poder, assim, desfrutar, sem horários nem regras, do aconchego do lar, de uns bons filmes no cinema ou em casa, do jogo do seu time na TV e, sobretudo, da agradável companhia da filha.
Essa possível resposta colocou um sorriso em seus olhos. Sim, porque não se anda pelas ruas sorrindo com a boca, afinal, quem ri sozinho é louco. Já os olhos podem sorrir à vontade, pois pouca gente nota. Além disso, as raras pessoas capazes de notar o sorriso dos olhos alheios não o chamariam de louco, até porque quem reconhece o sorriso dos olhos alheios é porque também sorri com os olhos, o que garante certa cumplicidade. Neste momento veio-lhe uma música à cabeça:
“Eu cheguei em frente ao portão,
Meu cachorro me sorriu latindo”
Se o cachorro do “rei” pode sorrir latindo, porque não podemos, nós, humanos, sorrir com os olhos? Bom, para que outras músicas escondidas nos recônditos de sua memória, fossem elas do Roberto ou de outros similares, não lhe viessem perturbar seus ouvidos cerebrais (quando você cantarola músicas sem som, são seus ouvidos cerebrais que ouvem), resolveu ligar o som do celular. A opção “aleatória”, ou randômica, como devem preferir os doutos, lhe colocou nos ouvidos, físicos e cerebrais, uma jóia de George Harrison: “Beware of Darkness”. Até mesmo com sua quase total ignorância da língua bretã, e apesar de não fazer a menor idéia do que queria dizer o resto da música, sabia perfeitamente o significado do título da canção: “cuidado com a escuridão”.
Deus, ou a Apple em sua infinita sabedoria, colocou a música certa: naquele exato instante sua vista começou a ficar turva, os olhos começaram como a formigar, estrelas foram surgindo por todos os lados, e ele, mais que depressa, encostou o carro. Os cachorros pularam felizes, achando que fariam uma segunda fase do passeio (sorte que na primeira parte já haviam feito aquelas coisas de que necessitamos todos, eles à luz do dia nas praças públicas, nós à qualquer luz, mas dentro de cubículos preferencialmente limpos). Logo o agora preocupado casal de cães percebeu que algo não estava certo com seu amado pai (ele detestava quando nos pet shops usavam a expressão “pai” para se referir ao dono dos cachorros, mas o que fazer se seus próprios cães o chamavam de pai? Dizer “eu não sou seu pai” para os pequenos seres? Como ficaria a cabeça dos bichinhos?)
Depois de coçar os olhos e mantê-los fechados por alguns instantes, abriu-os e viu que nada, ou quase nada, via. Aos lados, acima e abaixo, pura escuridão. Ao centro, como uma câmera com o diafragma quase fechado, enxergava um pouco. E George Harrison continuava a prevenir dentro de seus ouvidos. “Ok, George”, disse em voz baixa. Ligou o carro, deu meia volta e, com todo o cuidado, voltou para casa, que felizmente estava a poucas quadras. Entrou em casa com os filhos, ou melhor, com os dois cães, e foi correndo para o banheiro pegar a caixa de remédios, de onde tirou os destinados à enxaqueca. O turvamento da visão, acompanhados das estrelas, é classicamente conhecido como “aura”, que ávida que uma crise violenta de enxaqueca está prestes a começar. Tomou os remédios, dois, pôs o protetor de olhos (aquilo que entregam em avião), fechou a persiana ao máximo e se deitou. Ali permaneceu durante toda a manhã, levantando de tempos em tempos para tomar novas doses de remédios.
Ali passou também toda a tarde quente de verão, consumido pela dor e pelo suor. Levantou-se, vivo, apenas no início da noite, com aquela dor residual, a cabeça oca, os olhos sensíveis. Começava o jogo de seu time. Um ótimo jogo... para o adversário, que marcou seis gols e só não continuou o massacre por que teve piedade.
COMO TRANSFORMAR UM DIA?
Agora, seguidores ou eventuais passageiros deste prestigioso blógui: vocês que eventualmente conhecem este elíptico autor, respondam, por favor:
O que pode transformar um dia como esse? Não digo transformar para que não seja um dia de sofrimento, mas transformar para que seja um dia fabuloso, inesquecível, um dia que melhor seja impossível?
Ei, responda mesmo... Não é retórica, pode ir lá em baixo e deixar sua resposta no campo “comentários”. Responda o que pode deixar o dia tão bom que melhor seja impossível? Responda agora antes de ler o resto.
MELHOR IMPOSSÍVEL
Se você, obediente leitor, já foi lá e respondeu, e se sua resposta tomou por base o fato de ser este um blógui meio que sobre cinema, e ainda, astuto leitor, notou uma dica no parágrafo anterior, e, finalizando, se você, inteligentíssimo leitor, leu o título deste pôsti e acabou por responder que a forma de transformar o dia poderia ser assistindo ao esplêndido filme Melhor Impossível, de James L. Brooks, você deu uma bela resposta.
O filme é um preciosidade: um escritor Melvin (Jack Nicholson) é um portador de múltiplos TOCs (transtornos obsessivos compulsivos), mal-humorado, homofóbico, grosseiro, solitário e detesta cachorros. Melvin só almoça num restaurante, sentado sempre à mesma mesa, atendido exclusivamente por “sua” garçonete, interpretada pela bela Helen Hunt. Melvin tem um vizinho, Simon (Greg Kinnear), que é gay e tem um cachorrinho. Simon sofre um assalto e fica internado por semanas. Melvin acaba sendo obrigado a hospedar e cuidar do cachorro.
Dispensável dizer que a presença do cachorrinho acaba mudando Melvin, que acaba se apaixonando pelo cão e pela garçonete, e fica o resto filme tentando conquistá-la. Para isso tem que mostrar a ela que não é o ser ultrajante e ignóbil que aparenta. Ela reluta, e muito.
A atuação do quarteto é fantástica (justíssimo Oscar de melhor ator para Nicholson e de melhor atriz para Hunt), e aí incluo o cachorro, que chega inclusive a assimilar alguns TOCs do novo dono (sensacional quando começa a pular, como Melvin, as junções do piso das ruas).
Na cena final, ele vai, de madrugada, até a casa dela, que abre a porta. Ele na escada. Discutem. No meio da discussão ela deixa escapar que tem um namorado maluco. Ele, atento, percebe: venceu sua resistência. São namorados. O filme acaba suavemente, na padaria na frente, onde, às quatro da manhã, vão comer pão da primeira fornada.
A SEGUNDA CANÇÃO
Sua enxaqueca foi se acabando, a dor diminuindo, os olhos voltando ao normal. Apesar de não ter assistido Melhor Impossível, e sim Loki, com sua filha, o dia acabou muito bem, encerrando-se com uma boa (não em quantidade, mas em qualidade) noite de sono e uma manhã que, apesar de clara demais para seus olhos ainda sensíveis, estava especial.
Pegou o aparelho e saiu com seus filhos, ou melhor, seus cães. Já na praça, notou que ainda não havia colocado nenhuma música. E nem sentia falta. O ar da manhã dominical parecia-lhe suficiente. Já na praça, temendo ser assomado por outra música do Roberto, ou mesmo pela do Ronnie Von que fala da praça, resolveu ligar o aparelho. Confiando mais uma vez na infinita sabedoria da Apple, optou pelo modo aleatório. Ouviu, relaxado e tranqüilo, atrás de seus óculos escuros e ao lado dos saltitantes pets, uma pérola de Luiz Bonfá:
Manhã, tão bonita manhã
Na vida, uma nova canção
Cantando só teus olhos
Teu riso, tuas mãos
Pois há de haver um dia
Em que virás
Das cordas do meu violão
Que só teu amor procurou
Vem uma voz
Falar dos beijos perdidos
Nos lábios teus
Canta o meu coração
Alegria voltou
Tão feliz a manhã
Deste amor

domingo, 19 de fevereiro de 2012

HUGO - A ESSÊNCIA DO CINEMA


Por que eu gosto tanto de cinema?
Difícil responder. Nem sei direito o que é cinema! O que é o cinema, afinal? Qual é a essência do cinema? 
Feixes de luz projetados numa tela retratando o movimento, como uma fotografia que se move?
Ou seria o cinema a arte de utilizar os feixes luminosos para contar, com imaginação e fantasia, uma história que nos transporte a um mundo que não é necessariamente o nosso?
A resposta é a que você escolher, autônomo leitor deste famoso e democrático blógui. Se escolher a primeira, bastará que seja filmada, com uma câmera fixa, a saída de empregados de uma fábrica ou um trem chegando na estação para termos ali um produto de cinema.
Caso, no entanto, você seja um leitor do tipo sonhador, não conseguirá aceitar a primeira definição e ficará com a segunda, definição que leva o cinema à possibilidade de retratar uma lua com nariz, boca e dois olhos, um dos quais é atingido por um foguete lançado da Terra, ou uma descida ao mundo submarino com uma amistosa recepção de Netuno.
Os irmãos Lumiere foram os inventores do cinematógrafo, máquina que projetava o movimento e pais do cinema, segundo a primeira definição. Já de acordo com a segunda definição, Georges Meliet concebeu o cinema, ao usar a invenção dos irmãos Lumière para transmitir fantasia e nos fazer viajar para qualquer lugar de qualquer mundo.
E o filme “A invenção de Hugo Cabret”, onde entra nisso? Calma, leitor apressadinho.
Em primeiro lugar, o nome brasileiro do filme se deve ao título do livro de Brian Selznik (parente de David O. Selznick, produtor de filmes dos anos 30 e 40, fundador da RKO), no qual o filme se baseia.
Hugo é um órfão que vive escondido entre as paredes e atrás dos relógios de uma estação de trem na Paris do início do século passado. Seu pai achou o autômato, um robot cheio de engrenagens, mas que não funciona. Junto com a máquina, um caderno com instruções de montagem. Só que não teve tempo de fazê-lo funcionar, morreu queimado, como morreram queimados muitos dos filmes de Meliès.
A sorte da humanidade é que nada, nem a presença de Leonardo Di Caprio nos filmes do diretor dos últimos 10 anos, queimou o talento e o amor de Scorcese pelo cinema. Nada contra os filmes com Di Caprio, pelo contrário, são bons filmes, sendo que “A Ilha do Medo” é muito mais do que bom. Mas em Hugo parece que Scorcese se jogou mais na fantasia, certamente influenciado pelo sonhador Meliès, que recebe uma homenagem à altura de sua importância para o cinema.
Voltamos a Hugo, o órfão que vive de pequenos furtos na estação e faz os relógios funcionarem, sem que ninguém saiba de sua existência. Uma das razões de manter-se escondido é que caçar órfãos é a principal ocupação do Inspetor da estação, interpretado de modo espetacular por Sacha Baron Cohen, dos politicamente incorretos e mega-engraçados Borat e Bruno. A cada aparição do o Inspetor, Sacha dá um show, sem piada fácil, sem pirotecnia, sem palhaçada: só sutileza. Muito mais para Peter Sellers do que para Jim Carey. Agora, escrevendo a respeito, me lembro de Adrien Brody como Dalí no “Meia Noite em Paris”. Sorte que aparece várias vezes. A propósito, não vejo a hora de vê-lo como Fred Mercury no cinema!
Voltando a “Hugo”, como contar uma boa história de ficção, homenageando, de modo geral, o cinema e os primeiros cineastas e, de modo específico, Georges Meliès? Só com fantasia. Como a importância de Meliès está muito ligada aos efeitos e fantasias visuais, Scorcese sabia que uma bela homenagem não estaria completa apenas com uma boa história, por melhor que fosse contada. O visual também teria que ser fantástico, como fantástico foi, na época, o visual dos filmes de Meliès.
Eis que, mais do que em qualquer filme que já vi, o 3D é fundamental. E mais: ainda não tinha visto um 3D tão bem explorado, tão na medida certa. A cor, o 3 D e a ambientação do filme nos colocam não mais diante de um filme, mas dentro, muito dentro, da lindíssima estação de trem naquela Paris antiga, dentro das paredes, dos relógios, das engrenagens.
Com uma história fantástica, no melhor sentido da palavra, a impressionante beleza das imagens, com a caracterização dos personagens, com ótimas interpretações, destaque para o emocionante Ben Kingsley, e até com o deslumbrante sorriso da amiga de Hugo, Scorcese, com comovente devoção ao cinema, recria a magia de Meliès e faz um dos filmes mais suspirantes que o talvez exagerado e certamente romântico autor deste blógui já viu.
Enfim, respondo à pergunta inicial: gosto de cinema por causa de filmes como Hugo.
Uma beleza imensa te aguarda na sala de cinema!]

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

ENCANTADA - TIO MOA x HUMBERTO LARAIA


Alô alô, galera de responsa, qual é a transa?
Alô alô, malungos pernambucanos, qual é a transa?
Alô alô, sobrinhos do Tio Moa que levaram pito da tia, qual é a transa?
Alô alô, visitantes do Google que acharam que iam encontrar algo útil neste blógui, qual é a transa?
Alô alô, mestre Aguilar e performáticos 30 anos depois, qual é a transa?

O menino de Minha Nada Mole Vida (deliciosa e engraçadíssima série global) está com a recepcionista do lado de fora do quarto e ouve o pai e a namorada arfando, gemendo e “etceterando” no quarto e pergunta à moça o que eles estão fazendo no quarto. Ela, constrangida, responde que devem estar coçando as costas um do outro. O moleque emenda: se estão fazendo esse barulho coçando as costas, imagina quando estiverem transando?

Alô alô, galera do Cobra Parada que espera ansiosamente a continuação da odisséia, qual é a transa?

A transa é que acabaram-se as férias, período em que somos obrigados a ser felizes, como se estivéssemos na Disney, ou como se a vida fosse um facebook. Mas há férias que realmente nos fazem felizes, e este foi o caso das que desfrutou o signatário deste humilde blógui lido por milhões de pessoas em todo o mundo... Sei que muitas pessoas abriam este blógui de hora em hora, quando não de minuto em minuto, na esperança de ter uma nova postagem que lhes trouxesse um novo ar e mais cor em suas vidas. A essas pessoas, na esperança de que tenham sobrevivido à ausência de postagens, peço minhas humildes desculpas. Prometo recompensá-las, neste pôsti, com a tão sonhada luz, com alegria, encantamento e fantasia.

Minha confiança vem do fato de, ao abrir a porta, um vento novo ter afastado daqui deste blógui o mau humorado, o cético, o eremita Humberto Laraia. Mas antes de sair pela porta dos fundos ele me alertou, com aquela voz de Clint em Gran Torino que me soou como uma maldição, que sem ele, os pôstis seriam insuportavelmente otimistas, excessivamente fantasiosos, carregados de exagerada falsa alegria, enfim, mais estúpidos que uma palestra motivacional.

Acho que Humberto Laraia nunca viu um filme da Disney quando pequeno. Nunca viu A Bela Adormecida, Branca de neve, Peter Pan, Cinderella, Bambi, A Dama e o Vagabundo e os outros clássicos da Disney. Deve ter visto só Sindicato de Ladrões, O Vampiro de Dusseldorf, Cidadão Kane, Laranja Mecânica, Meu Ódio será sua Herança. Aí ficou revoltado. Isso o embruteceu e congelou seu coração. Nem Os Brutos Também Amam ele deve ter assistido. Não acho que ele tenha razão, os pôstis não ficarão estúpidos sem ele. Pelo contrário, os pôstis, a começar por este, e isso parece ser inevitável, serão aplaudidos, ganharão o mundo e embora não seja nada disto que eu procure, me trarão sucesso, dinheiro e mulheres, nessa ordem, é claro.

Tanta é minha confiança, que vou deixar a avaliação para ser feita pelos leitores... Bem... talvez não seja bom... Já sei: mais prático, simples e justo será deixar a avaliação para um só leitor, representando todos os demais. A esmo, eu escolho a Fernanda, uma conhecida, amiga em segundo grau de uns amigos, para, representando todos os outros leitores, se pronunciar sobre a extrema beleza e qualidade, ou, caso esteja na TPM, a suposta estupidez do pôsti.

Vamos lá, então, apressado e impaciente leitor: o pôsti (“até que enfim”, dirá você) começa aqui. O tema é o encantamento, a fantasia e o amor (teria já começado no primeiro parágrafo?)

Já te aconteceu, caro (ou barato – sejamos universais) leitor, de você se encantar por alguém durante uma conversa? Já teve você, que prefere as mulheres, a oportunidade de se apaixonar por uma mulher ao longo da primeira conversa? Ficar olhando para ela e, a cada frase, a cada pausa, a cada olhar, ela, como que por encantamento, ficar cada vez mais linda, mais perfeita, mais iluminada? Já sentiu uma mulher se transformar, bem na sua frente, em uma princesa dos filmes da Disney? Ah, a maioria certamente sim, mas não se deprima se isso nunca tiver ocorrido com você. De repente você nunca viu um filme da Disney.

Para você, recomendo fortemente assistir “Encantada”, que é como uma síntese de todos. Sem essa de “ah, não, filme infantil não”, “filminho da Disney? Já passei dessa”. Se passou dessa, morreu e morto não lê blógui (este blógui, que eu saiba, ainda não é lido lá embaixo. Sim, “lá embaixo”, ou você acha que se não gosta de filmes da Disney vai prá cima quando não puder mais ler blóguis nem dar aquela respiradinha de todo dia?).

“Encantada” começa com um desenho animado tradicional, com castelo, uma linda e jovem mulher do povo, que sonha em conhecer o homem ideal que lhe dê um beijo de amor verdadeiro. Tem lá o príncipe, belo e justo. Tem os lindos, amáveis e limpos bichinhos (coelho, veado, esquilo, borboletas e passarinhos do bem) que ajudam a linda e jovem futura princesa a se vestir e a arrumar a casa. Tem o lacaio da rainha e, é claro, a própria, que se transforma em velhinha amável para empurrar a linda e jovem pretendida para dentro de um poço sem fim, para que ela não se case com seu filho.

O problema é que a ex-possível-futura princesa, ao chegar literalmente ao fundo do poço, sai, por um bueiro de rua, bem no meio da encruzilhada do mundo, a Times Square. E sai viva, quero dizer, em carne, não como animação, mas como pessoa, como eu e você, na essência, não na forma, afinal, quem sai de lá é a Amy Adams, em carne (por sinal, de qualidade bastante razoável) e osso, embora estes não vejamos, apenas intuímos que existam para sustentar tamanha formosura. A princesa do desenho animado se transforma em gente e aparece na Nova York atual.

E nisso o filme navega: a princesa, que, como eu na discussão com Laraia, é otimista e amável, vive no faz-de-conta, pensa tudo em termos de desenho animado. Ela é salva da noite escura de NY por um advogado novaiorquino cético e mal-humorado como Humberto Laraia.

Encantada traz referências de todos os grandes clássicos da Disney, que citei lá em cima, mas escapa da armadilha de se transformar em colagem. Faz homenagem ao cinema, aos filmes de fantasia, à nossa infância, mas tem autonomia, unidade, coerência e ênfase, como diria a magnífica professora Maria Ervilha. Mexe com todos os nossos referenciais, quase atávicos, de sonho, poesia e encantamento. Mas é moderno, atual, além de criativo e engraçado. Só algumas provas:

1. Giselle de Andalásia (Amy Adams) acorda na sala do apartamento do cara, vê que está uma bagunça, abre a janela e canta, chamando os bichinhos para ajudá-la a dar uma geral na casa. Bom, em Nova York não tem aqueles bichinhos lindinhos dos desenhos; só tem ratos, baratas, pombos e moscas. Adivinhem quem vem para limpar a casa? Quando o cara acorda ainda vê duas pombas colocando a toalha em Giselle, que sai do banho (sobrinhos do Tio Môa– não todos, é claro: dá prá ver umas partes legais do corpo dela – sugiro que dêem uma pausa e coloca bem lento).

2. Susan Sarandon é a rainha malvada. UAU!!!

3. Amy Adams vale o filme. Está incrível e convincente o tempo todo. É encantadora, carismática e excelente atriz de comédia, que na verdade é que o filme é: uma comédia romântica.

4. O número musical feito no Central Park é inusitado, maravilhoso, antológico e por si só já valeria todo o filme.


5. Toda os filmes que amamos desde pequenos estão lá. Aqueles que assistimos quando pequenos, que re-assistimos com nossos filhos e que ainda vamos assitir com nossos netos.

Com quem Amy ficará? Com o advogado mal humorado ou com o apaixonado príncipe que também veio em carne e osso para NY? O que escolher? O planejado seguro ou o arrebatador e arriscado? A fantasia ou a realidade? Eu não tenho a menor idéia de o que fazer. Como escolher entre fantasia e realidade se nem consigo distinguir uma da outra? Só sei que, por mim, eu agarraria uma princesa que passasse em frente de casa.

Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay. E sempre tem alguma tentando nos ferrar, nos atrapalhar no trabalho, nos afastar da princesa por quem estamos apaixonados. Sorte que existem os maravilhosos filmes da Disney, que nos ensinam que nada é impossível. Felizmente existe o Marcio Greyck, que tão bem cantou que o mais importante é o verdadeiro amor. É provável que alguém que só veja Disney se torne um crédulo chato, mas não ver Disney é um baita desperdício!

“A fantasia, pode ir até onde ela for. O amor é a força motriz e a certeza de que se pode voltar da viagem. O real é rígido, sem liberdade; não é de verdade; parece "faz de conta".” Flávio Gikovate


Toc toc toc. Uau, a porta!!! Dever ser ela... Saio em desabalada carreira e abro, escancaro a porta: "Ah, não, que merda!"

- Achou mesmo que eu ia embora? Ráaaa rá rá rá rá.... (longa risada sinistra)

"Bateram na porta, eu fui atender, ingênuo que sou... Tarde demais... Mas foi o seu nome que me fez abrir a porta. Maldição!" (Itamar Assumpção)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

FLAMENGO, ARTE E MINHA SANTA MÃEZINHA


Há exatos 30 anos, em 13 de dezembro de 1981, o Flamengo ganhava do Liverpool, em Tókio, e se sagrava Campeão Mundial de Futebol. “Ih, futebol de novo”, pensa o leitor que visita este humilde blógui por causa dos geniais pôstis sobre cinema, música, arte enfim. Pois volte a sorrir, decepcionado leitor. Saiba que este pôsti é, sim senhor, sobre arte (em mais de um sentido), e sobre máquinas do tempo, e sobre armações amorosas.
Porque arte? Num meio em que a principal atividade é o preparo físico, que visa enrijecer e não flexibilizar; num esporte em que o intelecto não é exatamente muito presente; num jogo em que o ignorante e anti-estético chutão pra cima é aplaudido pela torcida e recebe urros de apoio dos companheiros; quando, enfim, surge neste meio, e dentro de um mesmo time, jogadores extremamente habilidosos e inteligentes, jogadores que não dão chutão, que tabelam com toques refinados, e que surpreendem os adversários e a platéia com movimentos e dribles desconcertantes, que transformam um jogo viril em um verdadeiro balé estético, aí não estamos falando apenas de futebol, mas, e principalmente, de arte.
Isso me lembra aquela música do Paralamas: tendo a lua aquela gravidade em que o homem flutua, merecia a visita não de militares, mas de bailarinos, e de você e eu.
Voltando ao time de artistas, pouco mais de um ano antes, estreava Nunes, o centroavante que seria decisivo nos gols dos títulos brasileiros e mundial. Nunes estrearia no Maracanã, contra um time que àquela época era muito respeitado, porque tinha alguns jogadores da seleção brasileira e ainda, em final de carreira, um dos maiores artistas que o futebol já conheceu: Dicá. Que time era esse? Óbvio, a gloriosa Ponte Preta. A estréia de Nunes no Flamengo era muito aguardada. O centroavante, mesmo jogando fora dos grandes centros do futebol (Santa Cruz, do Recife), era quase um ídolo nacional, participando inclusive da seleção brasileira e só não foi à copa de 78 devido a uma contusão. Passou pelo Fluminense e chegou ao Flamengo onde estrearia naquele domingo, 30 de março de 1980.
Entre os presentes na torcida da Ponte, que rumava de ônibus ao Rio, estavam o futuro ilustre autor deste blógui e sua santa mãezinha. Sim, fomos com a Torcida Jovem da Ponte Preta, prova de que naquele tempo torcida organizada era algo bom, familiar mesmo. Até namorei uma menina da torcida, linda. E deus, ops, Deus sabe que eu jamais namoraria uma menina que não fosse de família. Aliás, o namoro começou naquele dia. Fui e voltei ao lado da Raquel. Não ao ficar vendo paisagem o tempo todo, né?
Ao chegar perto do Maracanã, apreensão: como desceríamos do ônibus, a maioria com camisa da Ponte (semelhante à do Vasco), bem no meio daquela multidão? Pois a surpresa começou ali. Assim que o ônibus desce, dezenas de integrantes de uma torcida organizada nos receberam com batucada. Pegaram nossas bandeiras e as tremularam. Conduziram nossa torcida para dentro do maior estádio do mundo, então já quase cheio. Fizeram o maior caminho. Passamos por quase toda a arquibancada até que nos deixaram no lugar reservado aos visitantes, falaram para ficarmos à vontade e foram embora aos seus lugares. Lá vimos o Maracanã lotado vibrar com um golaço de Nunes logo na estréia, e com Zico, que além de fazer um gol, fez uma das jogadas mais lindas que eu vi no futebol, pena que é impossível de descrever. Bom, o Flamengo jogou muito e animou demais a sua torcida. Parece que ela sabia que o time seria campeão brasileiro pela primeira vez naquele ano. O resultado? Empate! A Ponte era, realmente, um grande time e também jogou muito. Ao final do jogo, os flamenguistas vieram nos pegar e conduziram até o ônibus. Só um time de artistas poderia inspirar uma torcida a fazer aquilo. Quem quiser, aí estão os gols daquele jogo:

Pois bem, naquele 1980 o Flamengo foi campeão brasileiro (jogou uma segunda vez com a Ponte no mesmo campeonato e outro empate, de 1 a 1, em Campinas – este assisti com meu irmão. Nunes, de novo, marcou pelo Flamengo e Humberto para a Ponte).
No ano seguinte, o Flamengo foi campeão carioca, brasileiro, da Libertadores e Mundial, em 13 de dezembro, num jogo contra o campeão europeu, o poderoso Liverpool. Nessa final, o Flamengo passou o jogo inteiro, inteirinho, todinho, sem dar um único chutão. Só toques, dribles, tabelas, passes. Foi um dos maiores show já vistos. O outro time parecia amador. Já no primeiro tempo o Flamengo liquidou, com 3 a 0, dois gols de Nunes, um de Adílio e um show de Zico, de cujos pés saíram os 3 gols. Zico ganhou o prêmio de melhor da partida, um carro da Toyota, de modelo muito parecido com o De Lorean, do De Volta Para o Futuro. Veja os gols do jogo, com narração do novato Galvão Bueno.

Hoje Zico ainda tem o carro na sua garagem e quando entra nele, revive aquele ano, aquela decisão, aquela época em que convivia só com craques, com jogadores excepcionais. O carro do Zico é uma máquina do tempo que o leva, exatamente como o De Lorean, 30 anos atrás.
“Talqualmente” o De-Lorean e o Toyota do Zico, este pôsti me transporta 30 anos ao passado, um pouco mais, 31, àquele inesquecível domingo passado no meio de uma torcida, vendo um time inesquecível, ao lado de minha inesquecível e inspiradora santa mãezinha, amiga de todos, dos fracos e oprimidos às distintas senhoras. Dona Lourdes acolhia igualmente putas, bichas (não se usavam expressões como “gays” ou “homossexuais”), carolas e distintas senhoras. Era amiga de jovens também, como a Raquel, aquela que comecei a namorar no dia do jogo. Raquel tinha um lindo sorriso, era gostosinha e havia tempos gostava um bocado de mim, vivia me dando bola. Raquel sempre falava com minha mãe...
Ei... Será que aquilo foi arte da minha mãe?... Nunca havia pensado nisso: teria aquele convite para ir ao jogo no Rio sido uma armação da minha mãe? É claro que foi... Que safada!!!
Vou procurar a Raquel e, se achar, vou tirar essa história a limpo.

domingo, 11 de dezembro de 2011

A SOLIDÃO E A VACA QUE CAIU DO CÉU

O Fábio me ensinou que o diabo é esperto não por ser diabo, mas por ser velho. Estão certos o Fábio, o diabo e a milenar civilização chinesa. A experiência, que não se adquire sem o tempo, sem o correr dos anos, nos ensina o que é melhor para nós. Funciona como atalhos. Com o tempo tornamo-nos mais seletivos e sem vontade de fazer coisas que, de antemão, e por vivência, sabemos que não nos agrada. Não, não vou naquele bar para ouvir salsa e ver aquela gente dançando. Não me agradam a música e a dança. Não gosto de ver tanta gente sorrindo ao mesmo tempo. Bar de salsa é como o facebook: todos estão “felizes”. Sim, entre aspas, é claro: toda felicidade é entre aspas, especialmente aquela unânime. A felicidade é uma chatice.
A vida eremita tem vantagens incontestáveis. As coisas são como nós, e mais ninguém, queremos que sejam. E quando nos cansamos da solidão, basta sair da porta e procurar algum amigo, um daqueles que nunca desistem de você, por mais razões que tenham para isso.
Além dessas vantagens, as mulheres, ao menos as mais interessantes, enxergam certo ar enigmático nos homens solitários, um charme que as intriga. O solitário não é de qualquer uma, é mais difícil, e nisso reside um encanto. Mulheres interessantes percebem nesses seres obscuros um olhar de mistério e dor. Mulheres adoram curar a dor de um homem.
Mas nem tudo são flores na vida dos eremitas maduros.  O que parece significar uma escolha pode se tornar fuga. O que parece ser uma opção de vida pode esconder uma incapacidade. Hábitos supostamente saudáveis podem ser manias. O charmoso sábio pode ser nada mais do que um chato, um ranzinza, como Clint Eastwood em Gran Torino.
Antes que minha preocupada irmã me ligue, preocupada, de Los Angeles, Miami, Vegas ou seja lá onde esteja, para saber se estou bem, aviso: este não sou eu. Falo de Roberto, interpretado por Ricardo Darin, em “Um Conto Chinês”, que finalmente chegou a Brasília. Roberto está mais, muito mais, para o ranzinza do que para o charmoso. Solitário e dono de uma loja de ferragens, ele conta os parafusos de uma caixa de quinhentos, para ver se não foi enganado. E se, depois da terceira contagem, para ter certeza, percebe que há seis parafusos a menos, surta, liga para o fornecedor, perde a paciência. Paciência que também não tem com clientes ou com amigos.
O que fazer para sair dessa vida? Não leitor, ele não quer sair dessa vida. Metódico, não dorme nem antes nem depois das 23:00h em ponto. Mas o leitor esperto e inteligente (é claro, ou não estaria lendo este semi-humilde blógui) sabe que algo vai acontecer para mudar essa situação, afinal, estou falando de um filme. Mas o que poderia romper com esse padrão de vida que nos coloca como um manequim imóvel dentro de uma vitrine? (calma irmãzinha, estou falando do cara do filme, só dele) O que é preciso? Uma paixão avassaladora? Pouco provável, as mulheres são tão iguais, tão dominadoras, tão desejosas de ir a um bar de salsa... Então o que pode acontecer? Uma vaca cair do céu bem em cima da sua casa?
É mais ou menos isso o que acontece com Roberto (Ricardo Darin) em “Um Conto Chinês”, uma comédia, sim é esta a classificação oficial do filme. É uma boa classificação, afinal, tem o modelo meio que padrão de comédias: uma pessoa solitária e metódica, que não gosta de pessoas, especialmente de estranhos, se vê forçada a receber um chinês (outra cultura, outros modos) que não fala uma única palavra em espanhol. Ter um modelo padrão não significa dizer que não seja original.
É uma comédia, ainda que as piadas sejam extremamente delicadas e sutis em comparação com as comédias mais tradicionais. Tudo bem, é uma comédia, mas carregada de melancolia e de estranheza. É uma comédia daquelas que faz chorar (prepare-se, Fer), mas não de tanto rir.
Mas tenha certeza: nem o riso nem o choro virão de interpretações histriônicas de comédia ou de drama, mas da humanidade que o filme transmite. Darin, que se supera a cada filme, está magnífico, perfeitamente humano e convincente, como na comovente cena em que sua opção eremita é confrontada pela mulher que está interessada nele: ele parece explodir de desejo e angústia por dentro, embora sustentando a opção da solidão por fora.
A direção de Sebastián Borensztein é sutil e criativa. Ainda que baseado em modelo clássico de comédia, ainda que encontre fortes ecos do cinema de Jeunet (Amelie Poulain), ou em Gran Torino (o ranzinza em confronto com orientais), a mistura de tudo é original, sensível e criativa. A ambientação e as interpretações nos colocam lá dentro da casa de Roberto, tão eremita quanto ele, tão carente quanto ele.
Para acabar o pôsti, a cena inicial é uma pérola: num barco, um casal de chineses. Ele a pede em casamento e quando ela, feliz, aceita, uma vaca cai, do céu, sobre ela. Corte para a fachada de uma loja filmada de “cabeça” para baixo, afinal, ela está do outro lado do mundo: Buenos Aires. A câmera se vira, deixando a loja em pé, e lentamente invade a loja de ferragens onde está Roberto, contando parafusos.
O que pode nos fazer sair de um estado de espírito, de um padrão de vida e ir para outro? Uma vaca cair do céu? Sei lá! Mas que hoje eu volto ao cinema para rever Um Conto Chinês, ah, isso eu vou fazer.

domingo, 4 de dezembro de 2011

DOUTOR SÓCRATES


Sócrates morreu nesta madrugada e deixou o domingo com jeito meio xôxo. Mas antes de morrer, aliás, muito antes de morrer, antes, inclusive, de parar de jogar, Sócrates voltava a jogar no Brasil, trazido pela Ponte Preta! Sim, Dr Fábio, trazido pela Ponte Preta, numa articulação do Luciano do Valle, que não é meu tio, embora afirme isso. Mas acabou não jogando: antes de estrear, foi para o Flamengo, tal e qual aconteceu com o Ronaldinho, que viria para o Grêmio mas acabou ouvindo o canto da sereia. Só que na Ponte chegou a ser apresentado, vestir camisa e dar entrevista como jogador da macaca. Falando nisso, Raí, irmão do Sócrates, também vestiu a camisa da Ponte, e jogou, antes de ir para o São Paulo e ficar famoso no mundo todo.

Ouvi muito hoje que Sócrates foi muito importante para o futebol brasileiro. Mas sua maior importância não foi para o futebol. Foi, é verdade, um craque único, de estilo clássico, elegante, que celebrizou-se por fazer lançamentos decisivos de calcanhar. Participou, também é verdade, da melhor (ou uma das 2 ou 3 melhores) seleção de todos os tempos, pelo menos era a que jogava mais bonito, a de 1982, inesquecível no mundo todo mesmo sem ter ganho a Copa. Mas sua maior importância foi para o país, porque usou sua fama e seu poder junto às massas para lutar pela redemocratização do país. Para homenagear o Doutor, republico partes de dois posts publicados no ano passado, que falavam da incrível história do Cobra Parada Não Engole Sapo, que, como se sabe, foi um grupo cuja atuação, no início dos anos 80, mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia.

A incrível história do CPNES - Parte 6

Sócrates e o também jogador Afonsinho
Gilsão e o Doutor: O bar do Vadico era o reduto de seresteiros, boêmios e senhores da vizinhança, dentre os quais estava um famoso repórter esportivo de Campinas, o Renato Silva, que fazia, na Rádio Brasil, uma sensacional dupla com Sérgio Salvucci, comentarista dos jogos e âncora do programa esportivo. O bar era também o socorro de famintos da madrugada, e nessa condição estava o nosso estudante da UNICAMP, verde de fome. Aliás, verde não, porque é a cor do inimigo Palmeiras. Gilsão estava roxo de fome. Tomava a segunda cerveja, já meio alegre, e nada de vir o tradicionalíssimo sanduíche de pernil. Naquela noite havia só um chapeiro e muitos pedidos. Mas o astral do bar era bom, e Gilsão estava branco, suando de fome, mas com tanta alegria de viver (quem gosta de cerveja sabe do que estou falando) que chegou a pensar que mesmo que morresse de fome antes de o sanduíche chegar, morreria feliz.

Era prá lá de meia-noite quando Gilsão, tentando matar a fome com o cheiro de pernil que o bar exalava, ouviu o chapeiro gritar “olha o pernil da mesa 8”. Aquilo o deixou mais desesperado ainda de fome. Sabe quando você está super apertado, mas vai conseguindo segurar, mas quando chega pertinho da sua casa o negócio parece que vai sair? Era assim que ele se sentia vendo o seu gigantesco sanduíche de pernil sobe o balcão, à espera do garçom. Quintuplicou sua fome.

Nisso, entra no bar o Renato Silva acompanhado de dois magricelos altos. Os dois de cabelos encaracolados, um deles cheio de buracos na cara. Aquela visão fez o Gilsão engasgar a cerveja geladíssima que tomava. Olhou sua mesa e viu as 3 garrafas vazias, como a se perguntar se era o efeito da cerveja ou se ali realmente estavam entrando, e ocupando a mesa ao lado da sua, o Sócrates e o Casagrande. Os dois eram tão naturais àquele ambiente que mal foram notados, ou talvez aquele fosse um costume do Renato Silva, que, ficando junto ao gramado e entrevistando jogadores, era próximo o bastante dos jogadores para levar os mais boêmios ao Vadico. Naquela época não havia o patrulhamento sobre a vida pessoal dos jogadores como há hoje. E do jeito que o doutor Sócrates e o Casão gostavam de enxugar...

Gilsão, com um olho no sanduíche e outro nos seus ídolos, veio com aquela sua típica expressão de resmungo escandalosamente amistoso: “PÔ, MEU, eu não sou de tietagem, não, mas você vem sentar JUSTO do lado de um corintiano?”. “Corintiano! Viu o jogo?”. “Não, ouvi pelo rádio, o locutor disse que você fez um golaço”. “Golaço nada, até você fazia aquele gol”. “Como até eu? Tá me chamando de gordo?”. “Robusto”. Sócretes tem muito bom humor.

Casagrande tinha ido direto ao banheiro e o Renato Silva estava no balcão pedindo os sanduíches para os três. Enquanto isso e com o Gilsão quase desmaiando, o garçom finalmente pegava o sanduíche do balcão e punha na bandeja. Logo estaria alí, na mesa, à sua frente.

Com a proximidade do momento de abocanhar aquele maravilhoso pernil, Gilsão sentiu a boca se enchendo de saliva; estava literalmente babando quando Renato Silva volta à mesa ao lado e disse que ia demorar um pouco, que o pernil acabou e iam buscar “lá na casa deles”, que ficava “logo ali”.


Nisso o garçom vem chegando com o sanduíche do Gilsão.

Casagrande chega do banheiro, muito agitado, e senta à mesa.

O garçom põe o sanduíche na mesa do Gilsão.

“Será que demora muito?”, perguntou Sócrates, olhando, sem querer, para o sanduíche do Gilsão.

Gilsão, mesmo morrendo de fome, gostaria que a conversa com o ídolo rendesse mais e pensou rápido: o sanduíche é grande, já vem dividido em dois e metade já aplaca a fome e me impede de morrer.

“Pô, rapaz, eu tô morrendo de fome”, comentou o doutor Sócrates.

Foi do que o Gilsão precisava. Ato contínuo emendou ao ídolo: “quer metade do meu?”

“Quero”. “Quero”. Não se iludam, leitores ingênuos. Não foi Sócrates repetindo. Um “quero” foi do Sócrates, sim, mas o outro, simultâneo, foi do Casagrande.

“Fudeu!”, pensou Gilsão, que congelou por alguns segundos. Como recusar a metade a um dos dois? Falar “nada disso, eu ofereci só prá um”? Por instantes Gilsão pensou em dar uma de louco, agarrar seu sanduíche e fugir correndo dalí. Suava de fome. E foi chorando por dentro e entoando para si, como um mantra, “sou um imbecil, sou um imbecil” que o Gilsão esticou os braços, oferecendo uma metade para cada um. Casagrande caiu em cima na hora. Sócrates ainda foi polido: “Não, você vai ficar sem nada?”. “Não tem problema, eu jantei bem”. “Então quando vier o nosso, um é teu”. “Tranqüilo, dá prá esperar”.

Mas não deu. Meia hora depois, Gilsão, fraquíssimo de fome, viu Sócrates, Renato Silva e Casagrande ficarem embaçados, escuros, até que tudo se apagou. Mas antes disso deu tempo para o Gilsão falar, enquanto os dois comiam. Falou do interior, de seus antepassados do norte; disse que nunca os conheceu, nem à região, mas que sonhava com aqueles rios, com Juína, com os barcos; disse que "Ita" são os barcos, que são chamados assim porque seus nomes sempre começavam assim: Itaimbé, Itaberá, Itapuca, Itagiba, Itapuhy, Itassucé. Para ilustrar, cantou, com Renato Silva ao violão, uma música de Dorival Caymmi que ele adorava, “peguei um ita no norte”. Gilsão também cantou o clássico do Belmonte, “Saudade da minha terra” (de que me adianta, viver na cidade, se a felicidade não me acompanhar) e “O bêbado e o Equilibrista”, do João Bosco e Aldir Blanc (lembra dos parágrafos iniciais deste post?). Sócrates se emocionou e começaram a falar de política. Gilsão criticou o pessoal do futebol, que tinha muito poder e influência, mas não era politizado.

“Olha aqui, eu vou te falar uma coisa prá você. Não sei se você tá me entendendo. Ôrra, meu, vocês não sabem a força que têm? Imagina o que vocês podem fazer contra essa ditadura. Ôrra meu! É o cúmulo do absurdo você não fazerem nada!”.

Casagrande riu: “O que a gente pode fazer jogando futebol?”. Gilsão, ainda consciente, mas sem resposta, percebeu que tinha exagerado na sua retórica, mas cravou: “sei lá, não sou eu que sou jogador!”. Renato Silva e Casagrande riram muito, aquele riso solto. Sócrates não. Parece ter ficado pensativo. Estava nascendo ali, naquele instante, dentro da cabeça do doutor, a Democracia Corintiana.

A incrível história do CPNES - Parte 7

No capítulo anterior você conheceu o Gilsão e o viu colocar umas escaraminholas na cabeça do Dr. Sócrates, antes de desmaiar de fome.
Pois saiba que quando ele abriu os olhos, viu que estava num hospital, com soro no braço. O Doutor Sócrates dava ordens às enfermeiras, mais interessadas no autógrafo do que em ouvir suas prescrições. Quando se despediram, Gilsão agradeceu muito, mas Sócrates disse que ele é quem deveria agradecer.
Osmar Santos ao microfone, com Sócrates, FHC, Casagrande e
Adilson Monteiro Alves (diretor de Fuebol do Corínthians)

Depois daquilo, Sócrates passou a ser um importante ativista político, além do brilhante jogador que sempre fora e, nisso, o Gilsão, emérito perna de pau, em nada influenciou. Sócrates liderou o primeiro movimento efetivamente popular que ocorreu em toda a ditadura. Nenhum outro movimento político tinha colocado o chamado “povão” na história. Naquele início dos anos 80, em plena ditadura militar e justamente no meio mais atrasado e conservador, o futebol, e ainda por cima num dos dois times mais populares do país (o outro é a Ponte Preta ou o Flamengo, não estou bem certo), nasceu a chamada Democracia Corinthiana (o nome foi dado por Washington Olivetto), movimento liderado por Sócrates e diretamente apoiado por Wladimir e Casagrande, os maiores ídolos do time. Foi um período da história do clube onde as decisões importantes, tais como contratações e regras da concentração, eram decididas pelo voto, ou seja, era uma forma de autogestão. Era um movimento interno do time, mas cuja intenção era, evidentemente, suas repercussões e influências externas. O Corinthians foi o primeiro clube a veicular dizeres publicitários na camisa, como "diretas-já" e "eu quero votar para presidente". Isso no período da ditadura militar, quando os movimentos sociais começavam a se rearticular para a instituição de uma democracia.

Vale do Anhangabaú no comício pelas "Diretas Já"
 Os militares pediram moderação ao clube. Imaginem o impacto que tinha aquilo: a camisa do Corinthians pedindo democracia... Os resultados disso? Imensa participação popular no movimento das Diretas Já, especialmente em São Paulo e, para o Corinthians, muitos títulos e impressionantes resultados financeiros.

Bom, foi isso. ADEUS, DOUTOR!!!

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