terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Tio Moa viaja - Aqualung

Lá vai o terceiro disco de cabeceira do Tio Moa, um disco incrivelmente delirante, uma obra de altura e beleza insondáveis. Tio Moa viajou, viaja e viajará. Você, sobrinho amigo, que no aconchego do seu lar, nem imagina que está à beira de se transformar completamente, vai também viajar, tenho certeza, porque Aqualung, o disco, é absolutamente delirante. Ele te levará num mergulho dentro das suas entranhas, de onde você resgatará esse seu eu tão escondininho aí dentro, puxando-o à força, trazendo-o à tona. Aqualung é um modo de vida, é um grito de liberdade, de independência. Aqualung é rompimento, é Augusto dos Anjos roqueiro.


Aqualung é o topo da produção do Jethro Tull, um grupo britânico comandado por Ian Anderson, que misturava Rock, Folk, música celta, e sei lá mais o quê, numa alquimia nunca antes vista, nem depois. Se você, sobrinho do Tio Moa, pensa que nunca viu nem ouviu o Jethro Tull, se engana. Viu, ao menos uma imagem de um cara tocando flauta com uma perna só, a outra apoiada nela (manja fazer o quatro?). Vai dizer que nunca viu isso?

E também ouviu, ao menos a faixa título você ouviu. Se não ouviu, melhor se matar. Brincadeirinha, não quero ser acusado de incentivar ninguém a abreviar a existência. Pelo contrário, pretendo, com este pôsti, prolongar ao máximo sua existência, fazê-la ter valido à pena. Com Aqualung você se garante, você crava seu nome, dá sentido à sua vida.

O Jethro Tull foi um grupo irregular, com alguns discos ótimos, outros dispensáveis. Aqualung está a anos luz de ser dispensável e transcende em muito o “ótimo”. É único, é sublime. Um disco muito trabalhado, complexo em suas melodias e arranjos. Complexo e elegante, mas fácil de ouvir, porque belíssimo.

Começa à toda, com a faixa título. E já os primeiros acordes são incríveis e arrebatadores.

Paran pam pam pam pam... Sitting on a park bench... São acordes inesquecíveis e históricos. Uma voz cheia de maneirismos e inflexões vai falando do velho Aqualung, vagabundo, mendigo (ou ligeira, como eu chamava quando pequeno). Logo depois, quando fala com mais carinho, a voz, o ritmo e todo o clima são outros. E assim vai a música, maravilhosa, te arrebatando a cada inversão, a cada mudança, a cada solo, a cada movimento, sempre surpreendendo com beleza e emoção. No final, os acordes iniciais e o canto doído: oh oh oh oh Aqualuuung. É, sem dúvida, uma das grandes composições da história da música, em todos os gêneros. Mas não pense que o disco se resume à faixa título. De jeito maneira, diria a Tia Cinira, mineira.

Todo o disco é incrível. Acaba Aqualung e já entra Cross Eyed Mary (algo como Mary Vesga), mais um personagem estranho, mais uma sonzeira, com aquele “tum tururum turum tum” da guitarra e do baixo e aquela bateria deliciosa que vão marcando a voz rascante rockn’rollsíssima. Guitarras, flautas e piano compondo um som alucinante e riquíssimo.

Aí, depois das duas primeiras delirantes músicas, vem a Chep Day Return, uma belíssima e curta balada acústica, seguida pela acústica, mas um pouco mais agitada balada folk Mother Goose. Depois a deliciosa e Nickdrakeana Wond’ring Aloud. E assim o disco segue, com sons incríveis, melodias fortes, viagens alucinantes.

Ouvir e viajar com Aqualung é soltar o grito da garganta, é se libertar, é romper com sua limitada existência e marcar seu lugar entre os mortais, é dizer que ama a vida, a verdadeira vida, aquela de altos e baixos, de cumes e depressões, aquela com luz e escuridão, com sol e nuvens negras. Pense nisso enquanto estiver ouvindo Aqualung, Quando estiver na sétima música, My God, lá pelo terceiro minuto, quando entrar aquela guitarra num riff marcante, ultrapassando a limitação do belo, e depois, quando ela trouxer cantos gregorianos embalados por uma flauta mágica, perceba o quanto você é uma pessoa nova, mais rica, mais iluminada, mais criativa.

Depois, nas seguintes, dance e comemore. Oh, Pai que estás no céu, sorria sobre seu filho.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ENTÃO É NATAL


Prá quem não me conhece sou Humberto Laraia, filho de escuridão e da rutilância, muito mais da escuridão que da rutilância, confesso. Escrevo aqui de vez em quando, quando tenho vontade, o que é raro. Fiquei sem escrever por mais de 20 anos, trancado dentro de um espelho. Se quiser saber mais, leia desde a parte um. Mas você não vai gostar, então não perca o seu tempo, embora seu tempo valha tanto quanto o que eu escrevo: rigorosamente nada.


Porque escrevo, então? Pela mesma razão que você vive; prá encher o saco dos outros. Estorvo que somos, vamos à crônica do dia, ou da noite, já que são 21h49 de uma noite insuportavelmente quente. Enquanto penso no que escrever, o suor me escorre pelas costas, provocando uma moderada irritação com os desígnios da humanidade, condenada a sofrer.


Confesso que na verdade sei o que vou escrever: sobre o natal, a época de comunhão, de harmonia e de uma chateação sem fim. Hoje vi, na livraria, uma mulher com uma irritante expressão de pessoa boa, como se alguma pessoa no mundo pudesse pleitear a si mesmo a insígnia de pessoa boa. Ela disse feliz natal, viu querida à caixa que a atendia. Tal expressão de hipocrisia me levou ao riso. Ri prá não chorar, como já o fizera Candeia e, depois, Cartola, sabedores que eram de que a vida é dor. Na verdade, ri porque rir era a única expressão possível, já que eu jamais choraria por ninguém, nem pela humanidade, que de mim não merece outra coisa senão o desdém e o escárnio.


Outra reação possível e bastante mais ajustada ao horrendo e gelatinoso sorriso magnânimo da mulher seria uma feição de poucos amigos ou uma expressão de desdém, mas tais expressões não demonstrariam nenhuma mudança em minha habitual expressão, já que carrego o desdém e a solidão, dentro e fora de mim.


Por isso, ri. Ri de escárnio, talvez de ódio. Mas, incapaz de ler e interpretar corretamente a fisionomia alheia, ao meu riso de escárnio a atenta, embora burra, senhora respondeu com um sorriso maior ainda, de maior benevolência e com um indefectível “feliz natal para o senhor”. Senhor é o cacete, respondi de pronto, em voz alta e olhando bem fixo em seus olhos. Pena que foi apenas na minha imaginação. A voz não saiu. Os mais de 20 anos dentro do espelho me tiraram a voz. Tenho que me concentrar muito para proferir alguma palavra inteligível (“entendível”, se fica mais simples para você).


Voltando à Sra. Hipocrisia, pergunto-me como é que uma pessoa que nunca me viu, que não imagina a vida que eu levo, que não sabe se roubei, estuprei, matei ou o diabo, que nunca mais vai olhar na minha cara, felizmente para os dois, como é que essa pessoa pode me desejar feliz natal? O que significa isso para ela? Que eu compre bastantes coisas e presenteie todo mundo que encontrar? Que na noite do dia 24 eu coma mais do que eu posso e que carregue no colo um parentezinho ranhento e cagão que nunca vi na vida? Que eu tome um porre homérico, vomite tudo e arrote o resto da noite, tudo isso junto com meus familiares queridos?


Ou será que a megera, quando deseja feliz natal a este sujeito que ela nunca viu na vida, quer dizer simplesmente que eu eleve meu coração ao alto e que pense em cristo crucificado que deu a vida por nós? Quem é ela para pensar que eu acredito nisso?


Quando estava dentro do e espelho, sentia uma enorme vontade de sair e esmurrar todo e qualquer mortal que tivesse um sorriso na boca e emitisse dela coisas como feliz natal ou fraternidade. Mas pensando bem, antes de entrar no espelho eu também sentia a mesma vontade. Agora, depois de sair, idem.


O que leva as pessoas a dizerem que querem bem às outras quando todos nós queremos mais é que os outros, principalmente os desconhecidos, se explodam? Os outros são um estorvo para nós. Precisamos que os outros se ferrem, que levem uma vida toda fodida (a merda do Word sublinhou em vermelho esta palavra, vê se pode!) para podermos, comparados a eles, ser um sucesso. Por isso é que no natal agradecemos a deus, que certamente nos ajudou, ferrando todos os outros para que fiquemos em destaque, portanto, felizes. A sorte é que tristeza não tem fim, felicidade sim.


Ainda de dentro do espelho, vi um filme ótimo, em que um alcoólatra que detesta natal e crianças, se veste de papai noel para roubar o shopping. Muito apropriado. “Papai Noel às Avessas” é o nome do filme.

Estamos em pleno dia 22 de dezembro. O que será que o bom velhinho pôs no meu saco de presente neste natal? A única coisa que posso sentir no meu saco neste momento é uma imensa coceira e um monte de esperma desesperado por um bom motivo para sair dali.


Bom, quem está fora do espelho é prá se molhar: feliz natal prá todos (figas).

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Tio Moa travels with Traveling Wilburys

Abri, num dos últimos pôstis, uma lista dos 10 melhores, digo, dos 10 discos de cabeceira do Tio Moa. O que é ser disco de cabeceira? Ora, vai te catar!
O primeiro foi Weaver, da Sally Oldfield, pelos motivos mencionados naquele pôsti.
O segundo vai aqui: Traveling Wilburys, o primeiro. Traveling Wilburys é o nome da banda do final dos anos 80, que por sinal surgiu por acaso. Um tal de George Harrison (sim, ele, o gênio dos Beatles, aquele cujas canções escreveu em parceria com Deus) queria gravar uma música para ser o lado B do seu single (aqueles discos pequenininhos que tinha antigamente).
Taí o Roy Orbison
Numa noite, George estava jantando com dois amigos. Jeff Lyne, seu produtor e também músico dos bons e Roy Orbison. Deus compunha melodias com George, mas cantava com Orbison. Roy Orbison foi o melhor cantor do mundo, segundo Elvis Presley, que por sinal cantava bocado e sabia do que falava. Até hoje, nunca ninguém cantou igual ao Roy. Quando ele canta, temos a impressão que a voz não é humana, ela nos eleva, nos coloca numa outra dimensão. Ela dá um peso, uma dramaticidade atroz. Para quem não o conhece, mas curte cinema, David Lynch gosta um bocado dele. Crying entra no Cidade dos Sonhos. In Dreams é tocada numa das cenas mais impressionantes de Veludo Azul. Ah, e Pretty Woman é a música tema de Pretty Woman (Uma Linda Mulher).
Onde estávamos? Ah, o jantar. George Harrison queria gravar uma música que estava na sua cabeça e, no calor do vinho e de sei lá mais o que, convidou Jeff e Roy (que andava em baixa há mais de 10 anos) para gravarem com ele no dia seguinte, um sábado. Envolvidos na mesma onda, concordaram entusiasmados. Mas onde? Como reservariam estúdio assim em cima da hora, da noite para o dia? Um amigo de George tinha um pequeno estúdio em casa. Ligou prá ele da cozinha do restaurante. Os cozinheiros pediam autógrafos enquanto ele falava com o amigo, Bob, o maior poeta que a música já produziu.
Na manhã seguinte combinaram de irem juntos no estúdio do Bob, mas no caminho se lembrou que tinha deixado sua guitarra na casa do Tom Petty, do Tom Petty and the Heartbreakers, uma banda muito boa dos anos 70 que varou os séculos. Bom, já que passaram na casa do Tom, chamaram-no para irem juntos gravar a música, ainda sem nome nem letra, na cada do Bob. Com tanta fera chegando, o dono da bola também tinha que entrar no jogo. No futebol o dono da bola normalmente é um menino rico que não joga nada mas tem a bola. Aqui o Bob dono do estúdio era o Dylan. Dono da bola, aqui, tem outra conotação, portanto.
E gravaram, animadíssimos, Handle With Care, que tem uma levada deliciosa à George Harrison, que canta a maior parte da música, com aquela guitarrada solta daqueles mitos, as vozes no refrão, inclusive A do Bob Dylan e, a cereja no bolo, o toque divino: Roy Orbison introduzindo o refrão. Sensacional!!! Veja o video.

George, Tom, Jeff e Dylan na cozinha. Roy de fotógrafo.
Quando George levou o resultado para a gravadora, os caras piraram. “O que? Um single? Com essa voz do Roy Orbison? Isso merece um disco inteiro”. Na hora, George ligou para os outros e todos concordaram em gravar um disco, mas tinha que ser em 10 dias, porque Bob Dylan tinha shows marcados. Decidiram compor e gravar, tudo em 10 dias, tudo a cinco mãos, ou melhor, a cinco bocas, dez mãos, 50 dedos, se é que algum deles não perdeu um por aí. Gravariam no estúdio do produtor de Bob Dylan, mas o estúdio era pequeno demais para os cinco gravarem juntos e ao mesmo tempo, como era a proposta. Mas a cozinha da casa era grande , então gravaram tudo ali mesmo, entre a pia, a mesa e a geladeira. Há um DVD com todo esse registro.
Bob Dylan, Tom Petty, Roy Orbison, Geoge Harrison e Jeff Lane
O resultado desses dez dias é delirante. Os cinco estavam em êxtase criativo. Quatro deles com um êxtase a mais: ver e ouvir Roy Orbison, ídolo de todos eles. Tom Petty diz num DVD lançado recentemente: “se você está sentado no sofá, trabalhando em uma canção e Roy está cantando, mesmo que ele cantasse em um tom suave, é um tom especial, um som especial, um grande presente. Sempre dizíamos isso a ele: 'Roy, você deve ser o melhor cantor do mundo. E ele dizia 'sim, eu sou'. Ele tem a melhor voz da música pop. Você não consegue superá-lo".
O disco é todo sensacional. Todas as músicas são deliciosas. As que Roy canta, são mágicas, como Not Alone Any More, capaz de emocionar até um poste... de concreto. Já ia me esquecendo de dizer que os músicos não assinaram seus nomes no disco, mas nomes fictícios, como se todos fossem da família Wilbury. Nelson Wilbury é George Harrison, Otis Wilbury é Jeff Lynne, Roy Orbison assina Lefty Wilbury, Charlie T. Jr. é Tom Petty e Lucky Wilbury é Bob Dylan.

O sucesso foi estrondoso e resolveram gravar mais um disco, mas Roy Orbison morreu de ataque cardíaco um pouco antes. Ainda assim eles gravaram o excelente Travelling Wilburys Volume 3, que dedicaram a “Lefty Wilbury”. Este segundo disco também merece lugar de destaque em qualquer prateleira. Mas a voz de Orbison no primeiro o leva, definitivamente, à disputada cabeceira do tio Moa.

Tome um treco bom e ouça todo o disco. Uma, duas, muitas vezes.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

"Tio Moa Viajou" - A Tropa de Elite e a Guerra no Rio

Ah, foi uma delícia ver a polícia botando os bandidos prá correr, prender um monte, entrar no morro, tomar as favelas, as comunidades. Pena que não houve derramamento de sangue. Ah, se houvesse tiroteio, se houvesse resistência, se os bandidos fossem massacrados! Haveria baixas entre policiais, certo, mas tudo bem, choraríamos um pouco no Jornal Nacional, vendo seu enterro com salvas de tiros de canhão, ou de fuzil, escopeta, sei lá. Um desfecho assim seria muito melhor, mais midiático, atenderia mais às nossas justas necessidades de emoção, de sangue. Aí sim ficaria perfeito.


O que? Está chocado? Não seja hipócrita. Não é o que queremos cada um de nós? Dar tiros na cabeça daqueles bandidos que vivem para deixar nossa vida insegura? Nosso mais íntimo desejo é, sejamos sinceros, dar uma resposta a altura (violenta, portanto) àqueles que, com suas metralhadoras empunhadas à luz do dia, ameaçam e zombam de cada um de nós, impotentes diante de sua violência e falta de amor à vida.

E por que não damos essa resposta violenta, como eles mereceriam? Por que os policiais, que sofrem muito mais diretamente (são, diariamente, alvos preferenciais daquelas metralhadoras), não cedem aos seus impulsos e saem atirando? Porque não se aproximaram com helicóptero e metralharam aqueles duzentos bandidos que fugiam com armas nas mãos, para que pudéssemos, escondidos em nossas casas, urrar de prazer e satisfação?

Respondo: porque somos socializados. Temos vontade de um monte de coisas proibidas. Ter vontade , lembro, não é crime algum, é humano, é natural. Fazer o que temos vontade é que é crime, se o que temos vontade é proibido por lei. A maioria das coisas proibidas que não fazemos, mesmo tendo vontade, nós não transformamos em ação não apenas por sabermos que é crime, mas por sabermos que não é certo. A lei e as convenções sociais são fruto de crenças coletivas, baseadas na moral e na ética, e acabam nos educando moralmente e sedimentando nossa ética. Ou seja, escrevemos leis que proíbem matar bandidos fugindo porque sabemos que, do ponto de vista humano e social, matar bandidos em fuga não é correto. Além disso, é uma lei que, evidentemente, acaba protegendo inocentes, ou seja, protegendo a todos nós. Existem, assim, leis boas, leis que ajudam e melhoram a sociedade, mas existem leis que podem até ter boa intenção, mas não ajudam a sociedade, às vezes pelo contrário, atrapalham.

Vamos a outro exemplo: você, homem que tem desejo sexual por mulheres, que gosta da "coisa", imagine que está vendo diante de si uma mulher linda, com curvas perfeitas e sensuais, com um shortinho bem curtinho e pernas lindas, bundinha arrebitada e bem desenhada, topezinho deixando à vista a barriguinha perfeita, seios lindos, lábios sensuais, libido aflorando por todos os poros e um jeitinho voluptuoso, provocante e meio sacana. Ficou com desejo e vontade de fazer várias coisas com ela? Sim? Ok. Parabéns, você é espada! Agora saiba que ela tem 17 anos. E aí? Você ainda está com vontade de fazer tudo aquilo? É claro que está, não minta. “Ah, mas ela é menor de idade”? E daí? Explica isso pra tua máquina reprodutora, para o teu corpo de homem que nasceu com a obrigação física da reprodução da espécie. Por acaso a mulher fica gostosa e desejável repentinamente, de um segundo para outro, a partir das vinte e quatro horas do dia em que completa dezoito anos? Não se culpe por eventualmente desejar menininhas que são, em tudo, mulheres, mas sim se concretizar teu desejo.

Voltando ao caso da guerra da polícia contra os traficantes: você assistiu Tropa de Elite, 1 e 2?. Se não assistiu, assista. Além de ser cinema de primeira (principalmente o segundo, cinemão), é hoje talvez um dos filmes mais importantes da história do cinema brasileiro, porque foi fundamental para tudo o que vimos pela TV. Influenciou decisivamente na adesão e na simpatia do povo pelo BOPE e, tão importante quanto essas influências, melhorou o “moral da tropa”, despertou nos caveiras reais a vontade e a responsabilidade de por em prática seu desejo de acabar com o narco-terrorismo. Mais: despertou nas autoridades a vontade política de fazê-lo. E fizeram, estão fazendo. Ótimo. Mas e o resto?

Uma das cenas mais significativas (por representar nosso desejo) é quando o herói tira um político corrupto do carro e o espanca até transformar seu rosto numa pasta sanguinolenta. Urramos por dentro (no cinema alguns urram para fora mesmo). E quanto a essa parte do filme, não vão transformar em realidade? Vamos agora à caça dos corruptos, dos sensacionalistas que os apóiam? Vamos mexer nas leis estúpidas, travestidas de boa intenção, como a criminalização das drogas? Será inteligente tornar crime algo é desejo, vontade e necessidade de milhões de pessoas? E as outras drogas? Tentaram, nos Estados Unidos, criminalizar a bebida alcoólica e todos sabem no que deu. Li outro dia que a droga é, como o cigarro e a bebida, um problema de saúde, mais fácil de administrar do que o problema de segurança pública criado com a proibição. “Ah, mas e os jovens?” Ora, a proibição nunca afastou os jovens das drogas. Pelo contrário, talvez os atraia ainda mais.Nos países onde as drogas, ou algumas delas, foram proibidas, a violência e o crime diminuíram drasticamente.

Enfim, o território foi plasticamente tomado com a bela e teatral cena das bandeiras hasteadas no alto do morro, que me lembrou Neil Armstrong cravando a bandeira dos States na lua. Sim, eu vi ao vivo. Ao lado ele deixou uma placa com os seguintes dizeres: "Aqui os homens do planeta Terra puseram pela primeira os pés na Lua. Julho de 1969. Viemos em paz em nome de toda a humanidade".
Passados os picos de audiência nos jornais noturnos e nos programas popularescos da tarde, o que nos resta? Algo de concreto? Algo para a humanidade? Alguma intenção de evoluir?

Ou tudo isso foi só para limpar a área e viabilizar a Copa do Mundo, cuja realização é o maior ato de corrupção e roubo descarado já feito no Brasil. Estádios super-hiper-mega faturados, tudo com a conivência governamental, federal e estaduais, e com o apoio, também com intenções inconfessáveis, da entidade nacional e internacional de futebol. Exemplos: os camarotes para o maracanã estão orçados, inicialmente a 5 milhões de reais cada um. Camarote, aquele quadradinho de 15 m2. Com esse preço se compra um apartamento na Vieira Souto. Mais uma: o Morumbi tem tudo para sediar, mas o projeto de reforma foi, teimosamente, desaprovado pela rigorosa entidade internacional dona da Copa. Só que o projeto do estádio novo que será construído em São Paulo (muito mais caro, evidentemente, foi aprovado pela rigorosa FIFA sem verem o projeto, “na confiança”. Que beleza! E vamos ficar quietos, assistindo e torcendo para a "nossa" seleção.

Legal, o Tropa de Elite, todas as tropas envolvidas, a inteligência das açoes, enfim, tudo isso ajudou a sociedade a resolver um de seus problemas. Mas e os problemas que estão por trás de tudo isso? Será que vamos precisar de outro filme de sucesso para mobilizar quem pode mexer na coisa? Quem vai dirigir o filme? Quem vai atuar? Tudo bem, chama o Padilha e o Wagner Moura, ou mesmo o Cobra Parada Não Engole Sapo. Mas a pergunta sem resposta é: quem vai patrocinar?

Você está morto

A fuga do óbvio é quase um objetivo de vida para mim. Não sei se isso é uma qualidade, uma deficiência de caráter, uma disfunção psíquica ou simplesmente uma característica pessoal, como o jeito de sorrir ou de andar. O fato é que me envergonho de ser pego dizendo o que já foi dito. Uma força vital me afasta daquilo que todos gostam.


A verdade é que me irrito demais com o povo feito gado. Muito do gosto comum não é gosto, é inércia, é pensar que se gosta porque se pensa que todos estão gostando, mas sem nenhum exercício mental de aprofundamento no objeto. Todos estão ouvindo? Conclui-se que todos estão gostando. Todos estão gostando? Então eu devo gostar. A base desse comportamento é o medo e a insegurança de se mostrar, de se desigualar, de ser visto como diferente. É o medo de ser indivíduo, é a impossibilidade de ser indivíduo. Isso sim é disfunção, isso é doença.

Não são apenas as impressões digitais que nos distinguem. Nossa alma também, nosso cérebro idem. As pessoas são naturalmente diferentes, mas morrem de medo de exercer essa diferença. Isso é doença. É o mal do século. É a razão pela qual se produz cada vez menos pensamentos, obras de arte (música, cinema, etc). Há cada vez menos gente que gosta do que não está no centro do olhar comum. Cada vez mais raros são os que olham aos extremos e que produzem pensamento, arte e evolução com isso. Sem pensamento, arte e evolução, a sociedade e a espécie humana, aquela dotada de individualidade e personalidade, fica estagnada, fadada a desaparecer em pouco tempo.

O problema não é, portanto, o que se acredita, ou o que sempre acreditei: que tudo o que se produz é para agradar o gosto comum. Não é esse o maior problema. A desgraça do gênero humano é que só se sabe produzir o que é do gosto comum. Não se sabe, salvo raríssimas exceções, fazer nada diferente disso.

Quando entrei no espelho o negócio já estava meio ruim, mas agora que saí descobri que piorou muito. Os grandes sucessos da música neste país, por exemplo, são cantorzinhos comportados, com letrinhas comportadas, arranjinhos básicos, embora com roupinha moderninha. Lenine, Ana Carolina, Seu Jorge, Jorge Vercilo, Maria Gadú. Estes, e muitos outros iguaiszinhos, são os considerados modernos. Modernos? O que eles trouxeram que pode ser classificado de moderno? O novo modelo de cabelo “desgrenhado-chique”? As roupas moderninhas que usam? A sexualidade sem vergonha? Esta não tem nada a ver com modernidade artística, é conquista social e apenas o é porque agora pode ser assim, porque lá atrás outros foram diferentes, ousaram e conquistaram.

Ah, você gosta dessa gente que canta essa musiquinha chinfrim? Dane-se. Continuam sendo muito ruins. Talvez o fato de você gostar deles os faça pior ainda. Mas duvido que você saiba que, na minha ausência, passou por aqui um cometa chamado Chico Science, que durou pouco porque o jogaram num poste. Quem me apresentou o sujeito foi o Tio Môa, o estúpido otimista que me hospeda neste blog. Estúpido porque acha que a existência, embora efêmera, de alguém criativo e fora do senso comum teria mostrado que nem tudo está perdido. Eu não tenho essa confiança, como nunca acreditei em papai Noel. Para mim, não há salvação.

Não há salvação nem para você, leitor? Bem, para você, em tese, poderia haver salvação, afinal, você está lendo isto que, convenhamos, não faz parte do gosto comum. Bastaria que você fizesse uns exercícios mentais, perdesse esse seu medo de ser incomum, de ser você mesmo.Porque hoje você não é você; você é os outros. Só ousando ser você mesmo, poderá se salvar da vala comum. Veja o que nunca viu, ouça o que nunca ouviu, aprenda a exercitar modelos matemáticos e geométricos diferentes (tudo na arte tem como base a matemática e a geometria). Mas sabe de uma coisa? Eu não acredito que você o faça. Não acredito em você. Tente com seus filhos, talvez eles ainda se salvem, desde que não copiem seu modelo simplório e covarde. Sinto dizer isso, mas você, como indivíduo, já está irremediavelmente morto.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Volta de Humberto Laraia - Volume 3

Quem sou eu? Porque o meu espelho foi parar num antiquário e foi comprado por uma fortuna e eu não recebi um tostão? O que faço aqui trancado dentro de um espelho no quarto suntuoso do presidente da república? Perguntava-me essas coisas o tempo todo.

E assim passaram-se os anos. Não vou contar tudo que ouvi dentro daquele espelho, porque finalmente saí de lá e agora estou aqui, vivo como você, leitor, se é que se pode considerar essa vida que você leva como vida. Aqui fora não é prudente falar determinadas coisas que vi nesses anos todos. Morei na Casa do bigodudo, depois na daquele que adorava um espelho e tinha um nariz bem grande, vivia na minha frente, ajeitando os cabelos, fazendo pose de macho, e, pior de tudo, fazia isso justo quando a sua mulher se despia antes de vestir a camisola para dormir. Era uma loira magra, mas bem gostosinha, apesar de meio feinha e dentuça. Eu gostava quando ele viajava, porque ela ficava sozinha (quase sempre) no quarto e eu podia vê-la sem ninguém na minha frente...

Depois teve um cara do topete. Passava horas ali na minha frente, ajeitando aquilo. Um horror. Mas neste aspecto a coisa foi sempre piorando, piorando até que chegaram uma baranga e um barbudo que, quando conversava com deus, olhava para baixo. Sorte que agora saí do espelho. Imagina, passar mais quatro anos ali... Um dia eu conto como foi que saí daquele espelho.

O fato é que esses quase trinta anos de espelho me fizeram ver a vida de um modo muito diferente. Se antes eu era descrente de tudo, agora sou muito pior. Eu era meio lunático, agora sou a lua.

Dizia que minutos eram grãos de areia, “jogue-os ao vento e seja um dos que me importam”. Hoje ninguém mais os atira ao vento, ninguém mais me importa, nem você, que lê essas minhas recordações, amargas e sem nexo. Sem sentido algum. Pior é que você, se leu até aqui, é capaz de estar gostando, o que só reafirma minha descrença na inteligência e no bom gosto do ser humano.

Eu vivia num mundo que não me queria vivo, mas ainda assim lutava para que o mundo permanecesse vivo. Hoje quero que o mundo vá à merda!

Antes eu escrevia minhas coisas tortas e as pessoas gostavam, até choravam as mais imbecis, compravam meus livros, fiquei rico, enfiei o dinheiro sei lá onde.

Perguntavam-me por que minhas obras eram tão estranhas e cruas, mas, ao mesmo tempo, pareciam tão reais. Eu respondia que elas eram como um espelho que refletisse da realidade apenas a ficção, como um filtro. Achavam o máximo. Hoje acho que o espelho não filtraria mais nada, refletiria tudo. Tudo é ficção. Que ver? Vamos lá:

Você faz o que não gosta, vive a maior parte do tempo com pessoas que não gosta, mas não briga com elas. Vive como se gostasse delas. E de quem você gosta? Pense. Isso, é com essa pessoa que você briga, é essa pessoa que você fere. E é exatamente essa pessoa que você, intimamente, culpa pela sua infelicidade.

Agora pense na coisa que você mais gosta de fazer. Pensou? Diga-me, é ou não é aquela que você menos faz?

Domingo eu vi futebol. A torcida vibrava quando seu time tomava gol.

Os homens não mudaram muito. Parecem os mesmos estúpidos. As mulheres sim, mudaram bastante. Para pior. Fazem mais sucesso. Para fazer sucesso tiveram que se masculinizar. Vejam as que mandam nas empresas ou no país. “Ela é mulher, mas é firme”. Isso é um elogio, assim elas podem ocupar as posições. Você, homem (mas homem mesmo, não essas máquinas de penetrar), faria amor com alguma delas?

O quê? Fazer amor? Que coisa mais velha, ultrapassada. O mundo, no lugar de deixar a maldita e escrota lógica masculina para poder se humanizar, ficou mais masculino, mais bruto, mais imbecil. Ai, que saudades do espelho.

No mundo de hoje os mais populares são os mais corruptos ou os mais ridículos. Cecília Meirelles (que hoje não seria ninguém, aliás, não é ninguém, pergunte para seu filho, ou para você mesmo) escreveu um dia que toda vez que um justo grita, o carrasco vem calar, quem não presta fica vivo, quem é bom, mandam matar. Hoje não há mais carrascos, os bons se matam a si mesmos.

Num mundo ideal, a nossa realidade não passaria de ficção.

Sou Humbeto Laraia, muito prazer (esse "muito prazer" é mera obrigaçao de ser minimamente gentil).
Pretendo escrever sobre a vida que te rodeia.
E te cortar e te queimar a cada quarta-feira.
Não gostou? Nao leia.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A Incrível História do CPNES - Parte 10

GUERREIRO MENINO
No Capítulo anterior você soube que Cobra Parada pode virar nome de uma big banda de rock (Titãs + Paralamas) por influência do grupo do qual tive a honra de ser um dos mais entusiastas participantes. Mas muita gente duvidou disso. Não de eu ter sido um entusiasta participante, dúvida que até seria aceitável, já que sou meio avesso tanto à participação quanto, e sobretudo, ao entusiasmo. Mas duvidar de que Herbert Vianna tenha sido fã do grupo e que pretenda nos homenagear? Sinceramente, fiquei muito magoado com tais suspeitas. Jamais em toda a minha vida, pública ou privada, especialmente na privada, eu inventei uma só vírgula, um só ponto-e-vírgula, uma só crase, um só travessão. Não preciso aqui redeclarar minha total retidão moral e meu inequívoco apreço à realidade, incapaz que sou de contrariar os ensinamentos de minha santa, purificada e praticamente beatificada mãezinha. A falta de confiança e a dúvida na minha boa fé me abalaram muito. Um homem também chora, já dizia Gonzaguinha na música Guerreiro Menino. Eu chorei.

Chorei e pensei duas vezes, aliás, muito mais: fiquei sete dias e sete noites pensando se publicava ou não a continuação da biografia não muito autorizada do “Cobra Parada Não Engole Sapo”. E não continuaria, não fosse, como diria meu confidente e amigo pessoal, Paulo Coelho (que começou a escrever “Diário de um Mago" ao ver a interpretação do Panta como Mago em “O Homem que Usava Cabeça de Papelão”), o Universo ter conspirado. Quando algo de bom, belo, verdadeiro e justo tem que acontecer, o universo conspira para que aconteça. E assim aconteceu. O universo e o bom Deus conspiraram (o mau Deus, também conhecido como “o coisa ruim”, não é aceito nas rodas que decidem o destino dos homens de bom coração, como eu), e na noite do sábado o Luiz, que andava muito sumido, procurava na Internet o seu passado, quando se deparou com este blógui, virou seguidor e me autorizou a contar sua mini-biografia não autorizada, o que me deu ânimo para continuar a escrever a verdadeira e incrível história do CPNES, cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia... Vamos lá.

Luiz Gonzaga, doravante chamado de Gonzaguinha foi, na infância, membro do clube-mirim do DOPS (Delegacia da Ordem Política e Social – pasmem, sobrinhos, isso existiu). Filho de militares (só seu pai era militar, mas valia por dois), freqüentava, nos anos 60, a creche instalada na seccional do DOPS de Recife, que abrigava filhos dos militares, enquanto estes convenciam presos políticos tímidos a falar. Gonzaguinha cresceu praticamente dentro do DOPS. Sua juventude não foi primavera florindo caminhos.

Filho de militar, jeito de militar, cara de militar, bigode de militar, Gonzaguinha era, contudo, era uma flor de pessoa. Seu pai lhe ensinara a ser assim (militar e flor). Militar nacionalista, Gonzagão, o pai, queria um país justo e sem violência, e nunca compactuou com os abusos praticados na época. Praticava-se tortura no DOPS de Recife, que ele dirigia? “Sim”, pensavam todos os militares ligados à repressão. “Não”, sabia a família Gonzaga. Como é possível? O pai de Gonzaga era um agente duplo, que fingia ser da ala dura para, de dentro, minar o sistema.

Os gritos nas salas do subsolo eram, sim, dos presos, mas não passava de teatro. O filho do Gonzagão, o Gonzaguinha, é quem, ainda adolescente, dirigia a cena e maquiava os “torturados”, que saíam da “sala de massagem” com manchas e chagas falsas em tudo que é parte do corpo. Gonzagão passava ao Gonzaguinha fotos de torturados e ele maquiava os presos. Chegaram até a forjar a morte de alguns, ajudando-os a mudar de identidade e fugir para algum lugar seguro.

Quando começou a distensão e o afrouxamento das práticas de exceção, Gonzaguinha ficou sem ter o que fazer por lá. Queria alçar vôo e atuar onde ainda houvesse repressão e injustiça. Assim foi que seu pai conseguiu que ele fosse o informante da repressão (falso informante, é óbvio) na escola militar de administração de coisas que voam de um lugar para outro, onde estávamos nós, os cobraparadistas. Não sabíamos nem que ele era informante da repressão, nem que na verdade não o era, se é que vocês me entendem.

Gonzaguinha nunca contou nada, com receio de que algum de nós fosse um informante real da repressão. Como informante, tudo o que ele contava aos coronéis é que, no geral, éramos apenas um grupo de jovens imaturos, que brincava de ser politizado, mas que só queria se divertir. Contudo, para continuar no grupo, onde ele se divertia como nunca na vida, contava que desconfiava que um de nós fosse ativista de esquerda, e que precisava ficar por perto para descobrir. Nunca descobriu, mas se divertiu e divertiu as platéias.

Eu sei que alguns não acreditarão nisso (os mesmos que não acreditam no telefonema do Herby), mas eu pergunto: por que barba e bigode eram proibidos a todos os alunos, menos ao Gonzaga, que desde o início ostentou seu imenso e austero bigode? Sabem por quê? Agora eu sei: os coronéis eram péssimos fisionomistas e queriam reconhecer de longe seu informante.


E assim o Gonzaguinha chegou, com sua experiência, talento e heroísmo, ao Cobra Parada, do qual foi membro constante, embora não ligado diretamente aos cabeças do movimento, se é que o movimento teve cabeças e, evidentemente, se é que houve um movimento.

Seu primeiro papel foi do médico do reino da Reinolândia, que atendeu o Rei após este ter um mau-súbito ao saber que a princesa estava grávida de um súdito, este interpretado pelo Tiba, que até como personagem era irresistível. Depois, Gonzaguinha fez dois personagens em “O Homem que Usava Cabeça de Papelão” e ainda interpretou o temível e tosco Chico (acho), na mítica “A Morte de Humberto Laraia”.

Gonzaguinha demorou a se encontrar, pensando que não tinha mais contra o que lutar, assim que acabou a ditadura. Mas logo percebeu que mudara apenas a forma de violência. Hoje, o paladino Gonzaguinha, o Guerreiro Menino, ainda luta, com ou sem seu austero e másculo bigode, a favor da beleza e da justiça em algum lugar deste país.






"Tio Moa Viajou" na Teoria do Amor com Meg Ryan e Sally Oldfield

O que é o amor? Aquilo que vem depois da paixão, mais manso e calmo (logo, insosso)? Ou algo que não sabemos explicar, mas que nos toma e nos transcende?
A Teoria do Amor é um filme muito, mas muito legal mesmo. O Diretor é o australiano Fred Schepisi, de Seis Graus de Separação, um filmaço, Ferocidade Máxima, uma comédia deliciosa com uma atuação impressionante de Kevin Kline, e Roxane, comédia inspirada em Cyrano, com Steve Martin. A Teoria do Amor fala de um tema caro a todos nós, o amor impossível. Quem nunca se apaixonou, ou ao menos pensou estar apaixonado, por alguém “fora de suas possibilidades”? Por isso fazem tanto sucesso filmes assim. Um Lugar Chamado Nothing Hill (de Roger Michael – 1999, com Julia Roberts e Hugh Grant), que amo, é mais um da série. Roxane, de 1987, é outro, colocando a impossibilidade do amor no gigantesco nariz de Steve Martin.

Em “A Teoria do Amor” Meg Ryan é belíssima, maravilhosa, muito muito muito inteligente, persegue a carreira de cientista, noiva de um cientista e ainda por cima é sobrinha de Albert Einstein. Tim Robins é um mecânico, pobre, desajeitado e não muito inteligente, ao menos a inteligência formal, científica. Mas ele se apaixona pela moça. Não a acha apenas bonita, mas sente que será bom para ela e vice-versa. Ele sabe que está apaixonado por ela, mas ela se recusa a aceitar que está apaixonada por ele, que é exatamente o contrário do que ela sempre planejou ter como marido. São mundos muito diferentes.

Até que o tio da moça, Einstein (Walter Matheau, brilhante), o maior cientista do mundo, simpatiza com o mecânico e resolve ajudá-lo, junto com seus amigos, todos brilhantes cientistas, a conquistar a sobrinha, criando situações hilariantes. Tudo é filmado com mão leve e ágil por Schepisi. Uma comédia romântica de primeiríssima qualidade.

É algo indescritível a beleza de Meg Ryan. Mas não é só por sua beleza que ele está apaixonado. É pelo que ela transmite com os olhos, com a voz, com os gestos, com a respiração. Você, sobrinho querido, certamente já teve a sua Meg Ryan (ou o seu, sei lá, Brad Pitt). Fala a verdade: existe sensação melhor do que sentir-se, ao ver alguém, completamente tomado, arrebatado? Respondo: não tem. Essa sensação faz a gente se sentir poeta, faz a gente amar a vida. E não nada o que podemos fazer para evitar, não há argumentos nem razões. Não deixe que seu cérebro atrapalhe o seu coração, diz Einstein à sobrinha. Assista, vale à pena se sua alma não for pequena.

Isso me lembra de que “não há nada no mundo que nós possamos fazer para parar a luz do amor que brilha através de nós”. É uma frase meio auto-ajuda, eu sei. Mas nem por isso deixa de representar exatamente como a gente se sente quando está apaixonado pela nossa Meg Ryan. A frase é uma parte da letra de Mirrors, música da Sally Oldfeild que ficou conhecida por ser o tema de um comercial (na época chamávamos “reclame”) de cigarro. Qual cigarro? Não me lembro, peço a alguém que pesquise e responda (um ano antes a propaganda usou Wuthering Heights, da Kate Bush). Devido ao sucesso da música, o disco Water Bearer, da Sally, saiu no Brasil com o nome de Mirrors. Alteraram inclusive a ordem das músicas, puxando Mirrors para abrir o disco, o que é um grande ultraje. Já seria ultrajante num disco comum, mas num disco onde as músicas se interligam melodicamente, compondo um todo que evolui a cada música, aí é um crime. É como alterar a sequência das músicas do Dark Side..., do Pink Floyd, ou da nona sinfonia de Beethoven. Se você comprar ou baixar o CD, fique tranqüilo que ele já está na ordem correta.

O disco é o primeiro da minha lista dos 10 discos de cabeceira, se é que alguém guarda disco na cabeceira. “Primeiro” não em ordem de preferência ou qualidade; é o primeiro de que vou falar, inaugurando os 10 mais do Tio Moa.

É um disco para quem ama mais a beleza da Meg Ryan do que a da Angelina Jolie. Para quem ama a alma feminina. Mulheres amam a alma feminina, á claro. Homens, em geral, amam a mulher e sua beleza. Duvido que sejam muitos os que amem a alma feminina. Homem é prosa, mulher é poesia. Uma mulher por completo também ama a prosa, assim como um homem só é completo se amar a poesia (não falo aqui necessariamente da poesia literária, evidentemente). Water Bearer não é só um disco, é uma poesia. Surfando os arranjos extremamente leves, a voz da moça é algo do outro mundo, talvez desse mundo ‘do bem’, onde vivem os anjos da Bené (que adoraria ouvir o disco), anjos, que, por sinal, parecem que tocam os instrumentos, compõem os arranjos e cantam com a Sally Oldfield. São magníficas a forma como cada música prepara a seguinte e leva até ela, as sobreposições de voz e de emoções e, na música final, a transição das vozes de Sally para a entrada triunfal de vozes masculinas de ópera, que encerram o disco, deixando-nos em uma dimensão diferente, talvez nas nuvens, junto com a nossa impossível Meg Ryan.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

"Tio Moa Viajou" explica Hitchcock - Final

Nesta última postagem sobre o mestre (fora os filmes que aparecerão por aqui), não falarei nada, já falei demais nas outras duas. Com a palavra, o mestre Hichcock.

“Estou aqui para dar boas e saudáveis sacudidelas mentais na platéia. A civilização passou a nos resguardar e proteger tanto que não conseguimos vivenciar emoções suficientes por conta própria. Portanto, para impedir que fiquemos lentos e moles, temos que vivenciá-las artificialmente, e o cinema é o melhor meio para isso.”



“A regra do jogo é que o expectador inconscientemente se ponha no lugar do herói; porque, na verdade, as pessoas só se interessam por si mesmas, ou por histórias que poderiam afetá-las.”


“Em Psicose havia o assassinato impressionista muito violento no banheiro, que foi montado com pedacinhos de filme, dando a impressão de uma faca golpeando a vítima, e assim por diante. Uma vez completada essa parte do filme, instilei na mente da platéia apreensão suficiente acerca da existência de um assassino, de forma que, à medida que o filme prosseguia, foi possível reduzir e praticamente eliminar qualquer violência posterior, pois eu só queria que ficasse a ameaça. Uma vez que já havia dado à platéia, digamos, uma amostra, permiti-lhe imaginar a violência. Não precisei mostrá-la.”


“Muitos cineastas têm na cabeça o conjunto do set inteiro e o clima da filmagem, ao passo que deveriam ter no espírito um único pensamento: o que aparecerá na tela. Como você sabe, nunca olho no visor, mas o câmera sabe direitinho que não quero ar nem espaço em torno dos personagens, e que é preciso reproduzir fielmente os desenhos que fizemos”.


“Em ‘Os Pássaros’, as aves atacaram a casa entrincheirada, quando Melanie recuou para o sofá, mantive a câmera bem longe dela e ali me aproveitei do espaço para indicar o vazio, o nada do qual ela recua. Em seguida fiz uma variante, quando tornei a enquadrá-la e pus a câmera bem no alto, para dar a impressão de que essa angústia subia dentro dela. Se eu tivesse começado desde o início bem pertinho da moça, teríamos a impressão de que ela recuava diante de um perigo que ela enxergava, mas que o público não percebia. Inversamente, eu queria mostrar que ela recuava diante de um perigo que não existia.”


“Em ‘Janela Indiscreta’ , quando o homem entra no quarto para jogar James Stewart pela janela, primeiro filmei a coisa completa, por inteiro, de modo realista. Era fraco, não rendia nada. Então filmei o close-up da mão que se agita, close-up do rosto de Stewart, close-up das pernas, close-up do assassino e, em seguida, dei ritmo a tudo isso; a impressão final ficou correta.”


“Em ‘Sabotagem’, quando o menino estava no ônibus, tendo colocado a bomba ao lado de si, toda vez que eu mostrava a bomba eu a filmava de um ângulo diferente, para dar vitalidade ao objeto, para animá-lo. Se tivesse mostrado a bomba o tempo todo sob o mesmo ângulo, o público teria se acostumado com aquele embrulho: ‘Ora essa! Afinal de contas é só um embrulho’, mas eu queria lhe dizer: “Não é não! Veja! Tome cuidado, preste atenção!”


“Você sabe que o público sempre procura prever e gosta de poder dizer: ‘Ah! Sei o que vai acontecer agora’. Então, temos não só de levar isso em conta, como temos que dirigir completamente os pensamentos do expectador.”


“Aposto tudo o que você quiser que, numa produção comum, teriam dado a Janet Leigh o outro papel, o da irmã que investiga, pois não é hábito matar a estrela na primeira terça parte do filme. Quanto a mim, foi de propósito que matei a estrela, pois assim o crime era mais inesperado ainda. A construção desse filme é muito interessante e é minha experiência mais apaixonante de jogo com o público. Com ‘Psicose’, fiz a direção dos expectadores, exatamente como se eu tocasse órgão.”


“Não gosto de literatura muito elaborada, cuja sedução reside no estilo. Me espírito é estritamente visual e, se leio uma descrição detalhada, fico impaciente, pois poderia mostrar a mesma coisa e mais rápido com uma câmera.”


“A imprensa foi muito elogiosa com ‘Janela Indiscreta’, mas uma crítica considerou que era um filme horroroso, por causa da idéia do voyeur. Mesmo se alguém tivesse me dito isso antes que eu iniciasse o filme, isso jamais me impediria de fazê-lo, pois devo lhe dizer que meu amor pelo cinema é mais importante do que qualquer moral”.


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A Volta de Humberto Laraia - Volume dois

CAPÍTULO III – O BIGODE


Alguns falam que a morte é uma fazenda distante, outros que é branca; uns, que a morte é o nada, outros que a gente levita e paira sobre o nosso próprio corpo, depois pelas redondezas, depois pela casa dos amigos e parentes, para saber se está tudo bem. Se fosse assim, eu juro que ia pairar no quarto da vizinha, aquela da bunda divina. Mas não deve ser assim, pois se eu estava morto, e essa era uma grande possibilidade, o certo é que quem morre vai para o espelho, o que é um saco, tenham certeza disso. Pairar deve ser melhor, pelo menos você escolhe para onde vai. Alí, preso dentro do espelho, nada acontece, a não ser naquele momento, em que via a vizinha dando entrevista de costas para o espelho, ou seja, com aquilo tudo virado para mim.

Nunca ouvi ninguém dizendo que a gente vai para o espelho quando morre, o que poderia significar duas coisas: uma é que simplesmente ninguém sabe, mas a gente vai mesmo é para o espelho quando morre. Essa forma de interpretar era ruim para mim, pois significaria que realmente estava morto. A outra forma de entender porque ninguém nunca disse (que após a morte vamos para o espelho) é que a gente não vai mesmo para o espelho quando morre. Isso seria ótimo, pois eu estaria vivo, que é, aliás, exatamente como me sintia. Vivo, embora preso.


Eles podem ter confundido o Xerxes comigo, idéia para a qual eu torcia, afinal, significaria que eu não teria morrido, mas sim o coitado do Xerxes.  Mas não dá para descartar a hipótese de que aquele corpo que eu vi no chão da sala não ter sido o de Xerxes, mas o meu próprio, o que significaria dizer que eu realmente estou morto. Se for assim, teremos mais dúvidas: Xerxes já tinha ido embora quando aquele gente atravessou o espelho e me matou? Ou o Xerxes nunca havia existido, sendo só uma projeção da minha mente, mais um de meus personagens? Estava vivo ou não? Nao parava de me perguntar isso. Compreendem que essa questão é muito mais complexa que a proposta por Hamlet?

Vivi um bom tempo assim, até que o espelho foi enviado para um antiquário. Foi um bom período, conheci muita gente, muitos ficaram encantados com o espelho, o que praticamente significava que fiaram encantados comigo. Mas a maioria se assustava com o preço. Até que veio uma senhora, muito distinta e quando viu parou e falou “é meu”. Ela não se importou com o preço. A dona da loja, para justificar a facada, falou que era do famoso escritor Humberto Laraia, que morrera em circunstâncias misteriosas, "um horror essa polícia que não descobre nada, onde é que vai parar isso, a gente nao tem mais segurança nem dentro da própria casa..." Eu levo, eu levo, cortou a senhora.

E o seu marido, não vem mais com a senhora, perguntou a dona da loja à cliente. “Com toda essa agitação dos preparativos para a posse, depois da doença do outro, sabe como é, ele fica do trabalho prá casa, da casa pro trabalho”. "Bom, se ele tiver que morrer mesmo, coitado, Deus é que sabe, mas para o seu marido até que é bom, não é?" A senhora nada respondeu e despediram-se. Em seguida fui levado para os fundos, de onde no dia seguinte saí num caminhão. Cobriram o espelho com cobertores. Foi como se estivessem vendando os meus olhos para que eu não visse o caminho, não soubesse para onde estava sendo levado. Não me sentia dentro do espelho, mas que eu era o próprio espelho.


Quando tiraram os cobertores, eu estava num grande quarto, todo cheio de móveis caríssimos, poltronas suntuosas, tapetes mágicos. Brega, mas imponente. Na primeira noite vi o marido, mas foi ele entrar no quarto e se jogar na cama. Dormiu rápido. A mulher até reclamou de ele dormir sem tomar banho, sem colocar pijama. "Tira pelo menos a gravata". Ele nem respondeu. Ela tirou-lhe a gravata. Foi assim várias noites, dormindo rápido, tomando ou não o seu banho, colocando ou não seu pijama listrado. No máximo, comentava algo como sua preocupação com algo que não acabava nunca. Nem conversavam. Eu estava curioso. O que eles esperavam tanto que acabasse? Quando a gente está dentro do espelho (ou quando a gente morre? Tomara que não), não acontece nada. A única diversão é ver o que acontece com os outros, saber quem são as pessoas, o que fazem.


Numa manhã, tocou o telefone. A mulher gritou de algum ponto da casa: “Zé, atende, é aquela ligação que você estava esperando”. “Alô... Não, nao, estou acordado, pode falar... O que?... Morreu? Puxa até que enfim... Obrigado pela notícia...” Gritou e pulou, pelado, na cama. Muito estranho ver um senhor de mais de 50 anos, com cara de austero, pulando daquele jeito. A mulher entrou correndo, ele a jogou na cama, foi tirando sua saia, depois a calcinha (que lembrou as que minha mãe usava) e caiu em cima. Em baixo, quero dizer. Ela começou a rir, reclamando aos gritinhos, que o bigode faz muitas cócegas. O bigode dele realmente era grande. “Porque não tira esse bigode?” Ele parou na mesma hora, levantou-se, cobriu suas partes como lençol e pronunciou, lenta e incisivamente “Nunca mais peça isso”.


Esse bigode, começou a discursar para a mulher, é minha marca, foi com ele que ganhei todas as eleições que ganhei. Ele esteve comigo todo esse tempo. Este bigode que está diante de vós, acompanhou toda a luta de minha família pelo povo injustiçado. Esse bigode que ostento com orgulho em minha face, vai, a partir de agora comandar os destinos desta nação. Certamente nenhum dos presentes tem dúvida de que o meu bem-estar social e o meu bem-estar pessoal estariam fora das atribuições que vou enfrentar, mas a paixão da vida pública é maior do que a paixão da própria vida.


Zé, cortou a esposa, você está aqui no nosso quarto, não lá, no meio daquela gente. Eu sei, respondeu ele, só estou treinando o discurso, que estou decorando há um tempão. “O que achou?”


Olha, respondeu a dedicada esposa, eu tiraria essa parte do bigode.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Incrível História do CPNES - Parte 9

Hoje é segunda, dia de continuar a biografia não muito autorizada do “Cobra Parada Não Engole Sapo”, grupo cuja atuação no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do Mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Mas deixarei a continuação da história para contar algo que acaba de acontecer.


Já falamos de vários membros do grupo. Já vimos que o CPNES influenciou fortemente os principais expoentes do rock brasileiro dos anos 80, como os Paralamas, o Capital Inicial e os Titãs. É sobre isso que quero falar. Sabem quem passou um e-mail pedindo meu telefone? Ele, Herbert. Pouco tempo depois me ligou e falou que descobriu o blógui através de uma assessoria que ele contrata para vasculhar o que dizem sobre ele na internet. Perguntei que tipo de assessoria. Jurídica, respondeu ele. Em seguida disse, em um tom muito amigável, que é sempre bom relembrar coisas distantes, principalmente (aqui já falou em outro tom) quando elas de fato aconteceram.

Concordei e falei que o tempo torna as coisas imprecisas. Falando em imprecisão, tornou Herby, existem algumas diferenças entre o que você falou e o que aconteceu. Pois é, respondi, às vezes a gente esquece alguma coisa da qual outros se lembram perfeitamente bem. Por exemplo, continuei, você pode se lembrar de coisas sobre mim, que eu mesmo não lembro. “Mas como, se eu nunca nem te conheci?”

Sabe quando a gente fica mudo? Eu fiquei. Imagina, o Herbert falando isso para mim. E com uma assessoria jurídica por perto. Se ele falasse que não se lembrava, tudo bem, mas que nem me conhecia? Eu não sabia o que dizer. Fiquei mudo por vários instantes. Susssspirei bem fundo. Aí ele começou a rir solto. “Brincadeirinha!”, acrescentou.

Ufa, que alívio.Mas que brincadeirinha mais tola, pensei. É claro que me lembro, ele continuou. Não exatamente de você. mas da peça, sim. Foi forte. Bom, já são quase trinta anos. Lembro que ouvia falar de vocês e fomos conferir, lá no SESC Garagem. E o que falavam da gente, perguntei. “Sei lá. Coisas do tipo ‘é um grupo político’, ou ‘ é tão ruim que é bom prá caralho’, 'muito engraçados'.” Herbert disse que foi ver a gente sem esperar nada, mas que saiu chapado.

Foi nos ver sem esperar nada, mas saiu chapado? Fiquei sem entender essa parte. Terá saído chapado da peça ou da casa dele para ver a peça? Bem, nada disso tem a menor importância. Eu ainda estava, ao telefone, meio atordoado com a brincadeirinha dele. A seguir conversamos algumas amenidades até que ele finalmente falou o motivo de seu telefonema. Os Paralamas e os Titãs estão pensando em aproveitar o sucesso do show que recentemente fizeram juntos, e que virou CD e DVD, para gravarem, pela primeira vez, um CD de estúdio e só com inéditas compostas em parceria. Se isso se concretizar, irão se apresentar como um grupo com um outro nome, bem estrambótico, com cada um usando um pseudônimo, como os Traveling Wilburys (Roy Orbison, George Harisson, Bob Dylan, Jeff Lane e Tom Petty).

Achei a ideia sensacional, mas me segurei e perguntei, de modo frio, “e daí, que importância isso tem, o que eu tenho a ver com isso”.

Sabe quando o cara do outro lado da linha fica mudo, não sabe o que dizer. Ele susssspirou bem fundo e eu comecei a rir. “Brincadeirinha”, falei. Paguei na mesma moeda.... Ei Herbert, você está aí? Ele desligou o telefone antes que eu falasse “brincadeirinha”. Acho que demorei muito, não dei o tempo certo, sei lá. Meu telefone não tem bina, nem pude retornar para pedir desculpas e falar que era brincadeirinha.

Cinco minutos depois, toca o telefone. "Brincadeirinha", ele diz. Rimos muito daquilo. Herby é um cara legal. Voltou a falar do disco que talvez gravem e pediu a permissão para colocar no grupo o nome Cobra Parada Não Engole Sapo. E disse ainda que alguns já decidiram quais os pseudônimos que usarão. Disse que o Paulinho (Miklos) escolheu "Tiba", que o dele vai ser "Markovich" e que as meninas que farão os backing vocals seriam "Os Arletões". Eu disse a ele que, infelizmente, não tenho direito sobre a marca, nem tenho delegação de competência para assinar autorização nenhuma. Além disso, o grupo prefere o anonimato, e isso fatalmente atrairia a mídia, a imprensa farejaria e chegaria até nós. Por isso tudo, eu evidentemente autorizei na hora.

Por isso, autorizei. Ele riu, agradeceu, disse que para minha própria segurança a conversa havia sido gravada e desligou.

Vou acabar o pôsti já para sair vou correndo comprar um telefone com bina. Semana que vem continuo a incrível história do CPNES, quando falarei do Porreste, do Perroní e do lépido Valter.

domingo, 7 de novembro de 2010

"Tio Moa Viajou" explica Hitchcock - 2

A sessão “Tio Moa Viajou explica Hitchcock 1” disse que o retro-citado cineasta é o mestre da linguagem cinematográfica. “Linguagem cinematográfica”! Fala verdade, não é uma expressão muito da metida a besta? Vamos melhorar. No pôsti anterior eu disse que o cinema inaugurou uma linguagem totalmente nova e que essa nova linguagem é exatamente sua maior riqueza.


É claro que a evolução tecnológica do cinema é importante, mas não tanto quanto a evolução de sua linguagem. A tecnologia atualiza o cinema com a evolução do mundo, mas está a serviço da linguagem. É esta que atrai e cativa a platéia. O cinema, brincando com nossas emoções, com nossos valores e com nossa ânsia de sonhar, acaba por desenvolver a nossa própria linguagem. Cada filme nos desfia a entender suas mensagens como condição para obtermos a experiência de viajar com ele. A cada cena, simultaneamente tentamos compreender o que aconteceu, captar e decifrar o que está acontecendo e projetar o que acontecerá, ansiando, se a projeção por positiva, ou temendo, se for negativa. É isso o que mais nos atrai no cinema. Prá encurtar: falar “cinema” é falar “linguagem cinematográfica”. Sempre que se fala um, se fala o outro. Portanto, para reduzir e simplificar o título: Hitchcock é o Mestre do Cinema.

Muitos cineastas contribuíram nestes cem anos para a evolução do cinema. Mas Hitchcock foi o mais intenso e bem sucedido nesse esforço. A cada filme ele procurava formas diferentes de transmitir uma mensagem ao expectador, de inverter as próprias expectativas do público com a linguagem. Quer exemplos? Vamos lá:

1. Porque todas as mortes no cinema têm que ser fáceis, rápidas, com um tiro ou uma facada? E porque sempre tem que ter música e/ou gritaria? Na cena do assassinato de Gromek, cometido por Paul Newman em “Intriga Internacional”, Hitch quis mostrar que pode ser difícil, trabalhoso e demorado matar um homem. O agente russo acabou de descobri-lo e vai prendê-lo. Um motorista de taxi espera do lado de fora. Numa longa e silenciosa sequência, são usados panela, pá e até o fogão. Pequenos planos nas mãos de Gromek, nas suas pernas quando são atingidas por golpes de pá e nos dedos trêmulos nos final da cena. Detalhe: nem música a cena tem. Cena fantástica e hiper-carregada de tensão. Não vá atrás de youtube prá ver a cena – você vai gostar mais vendo o filme todo.

2. Em o Terceiro Tiro, Hitchcock quis mudar a forma como o cinema mostrava o tema assassinato, sempre de forma sombria, sempre à noite. Para que valorizar tanto a morte? Ele trouxe o tema à luz do dia, trocou a emoção pela razão e pela indiferença. Ficou engraçado e bem humorado. Não é uma comédia, os atores não atuam como em comédia, mas a forma como as pessoas lidam com o problema deixa o filme muito engraçado. Veja esta: um senhor de idade (já é diferente) arrasta um corpo pelo mato para tentar escondê-lo. Passa uma senhora, vê e, com a maior naturalidade: “o senhor está com algum problema?”

3. Em “Festim diabólico” Hitchcock propôs um grande desafio a ele próprio e aos atores. Sabedor da importância do corte e da montagem para o cinema, resolveu desafiar a si próprio, dificultando ao máximo as coisas para ele mesmo. Como se estivesse se estrangulando. Resolveu fazer um filme inteiro sem um único corte. Só uma câmera. Um único ponto de vista em ação ininterrupta. Como naquele tempo a câmera não era digital, a cada 12 minutos tinha que trocar o rolo. Mas ele disfarçou essa troca. O que importa é que a ação é ininterrupta. Sem o recurso do corte, a criatividade no movimento da câmera, combinada com a perfeita atuação e movimentação dos atores minutos, transmite tudo. Ou seja: com uma única tomada durante todo o filme e ainda assim cirando tensão o tempo todo, Hitchcock venceu o desafio, para deleite da platéia.

4. Está vendo isso ai em cima? Que tal agora invertero que ele fez em "Festim"? Pois em "Psicose" tudo se inverteu. O filme é esplêndido por uma série de razões, mas aqui destaco sua cena mais famosa, a do assassinato no chuveiro. De só uma tomada em mais de uma hora e meia vamos para uma cena, a do chuveiro, que tem 70 tomadas em 45 segundos. Uma das cenas mais criativas da história do cinema. Pura criatividade, corte e montagem. Um delírio!

5. Imagina o trabalho que deu montar aquele monte de tomada em Psicose. Mas certamente tudo estava bem desenhado: Hitchcock não trabalhava no improviso. Tudo era imaginado e planejado cuidadosamente meses antes. Em “Os Pássaros” ele imaginou uma cena em que, no lugar de mostrar o tempo todo para a platéia o perigo chegando, mostra apenas um pássaro pousando. Já ficamos aflitos, pois sabemos que os pássaros estão atacando e matando pessoas. Depois a câmera fica 40 segundos mostrando Melanie esperando num banco. Enquanto isso ficamos pensando se teriam chegado mais pássaros ou não. Depois mostra novamente o local, depois ela de novo. No final ela olha e já tem centenas de pássaros. Acompanhe o desenho feito muito antes das filmagens.

6. Falando em montagem, “Janela Indiscreta”, inteirinho, todinho é só montagem. Só um ponto de vista, o da janela de Scott, que está com a perna quebrada e dedica seu filme a acompanhar a vida dos vizinhos dos prédios que ficam à frente do seu. Ao longo do filme acompanhamos, alternadamente, as histórias que acontecem dentro de cada janela. Tudo sempre é mostrado de longe, do lado de fora da janela, de dentro do apartamento de Scott, que, interpreta o que acontece dentro de cada janela. Tendo o cinema nos acostumado a ver as cenas sempre de perto dos personagens, veja o que isso representa de inovação e de risco.

7. Mais uma em “Os Pássaros”, a sequência da cena de que acabei de falar. Melanie entra na escola para avisar. Depois vemos, ainda dentro, a professora orientar as crianças: “vamos bem devagar e sem barulho. Quando eu gritar, vocês correm. Como qualquer um filmaria? As crianças abrindo a porta e olhando para os pássaros. Depois mostra os pássaros, que vêem. Depois as crianças descendo as escadas. Novamente os pássaros se preparando. Depois as crianças andando, etc. Como foi montado? Câmera nos pássaros por longos 40 segundos. Durante esse tempo nós imaginamos todos aqueles passos. Ele só nos mostra as crianças quando elas começam a correr, ao que são seguidas pelos voadores.

Só citei alguns exemplos, mas todos os seus filmes são recheados deles. O cinema tem muitos cineastas criativos. Mas Hitchcock foi além de todos eles. Na medida em que sua criatividade foi capada, sentida e assimilada, e não apenas por cinéfilos. Hitchcock foi um cineasta muito popular. Seus filmes eram sucessos populares. A inovação e a qualidade, para Hitchcock, só faziam sentido se estivessem a favor de fazer um cinema do qual as pessoas gostassem muito e pelo qual elas se sentissem atraídas. Como ele atraia as pessoas? No próximo pôsti.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A Volta de Humberto Laraia - Volume um

Inauguramos hoje, neste blógui, a participação do importante escritor Humberto Laraia, importante tanto pela sua obra, quanto pelo mistério que cercou sua morte e agora cerca sua volta. Em comemoração, excepcionalmente hoje publicaremos no mesmo pôsti os dois primeiros capítulos.


CAPÍTULO I – A INVASÃO
Estava escrevendo, totalmente envolvido, uma cena nervosa, carregada de tensão. Aquele povo estava querendo encrenca, desejando e precisando extravasar. Acho que queriam colocar a culpa em alguém. Eu estava meio tomado, comecei a escrever como se não fosse eu o autor, como se algo escrevesse por mim. Adorava essa sensação, que, por sinal, não era incomum. Mas naquela noite a coisa fugiu do controle. Eu tinha um espelho na sala e enquanto escrevia, costumava projetar mentalmente as cenas que imaginava no espelho. Mas tinha vezes em que as imagens no espelho me ultrapassavam, iam à frente, aconteciam antes de eu escrevê-las. Aí eu descrevia o que enxergava. Como se as pessoas, ou o espelho, escrevessem por mim.
De repente eles vieram direto na minha direção, atravessaram o espelho com fúria, como se fossem gângsters de westerns quando entram em saloons abrindo com força aquelas portinholas. Olharam um pouco ao redor e quando viram na poltrona num amigo meu que estava em casa partiram para cima dele e lhe deram uma surra.
Fico pensando por que os caras bateram no Xerxes e não em mim. Aliás, eles me ignoraram por completo, como se eu não existisse. Isso é estranho, já que na realidade eram eles que não existiam, ou pelo menos deveriam não existir. Foi como se o procurassem. Coitado do Xerxes, era meio chato, mas sabe aquele chato que você gosta? Era o Xerxes. Como é que alguém pode ter um nome desses? Seria Ataxerxes? De qualquer forma isso não alteraria em nada o fato de que ele acabara de ser linchado.


Retornaram para dentro do espelho. Não sei o que me deu quando os vi atravessando o vidro, se curiosidade ou medo... Só sei que fui atrás, misturei-me a eles e entramos juntos. Foi como entrar numa festa sem convite. É verdade, atravessei o espelho.


CAPÍTULO I I – A TRAVESSIA


Quando entrei no espelho, não vi ninguém. Nem nada. Não é branco, nem preto, simplesmente não tem cor. Caso você não consiga imaginar um ambiente sem cor, nem branco nem preto, não tem a menor importância. Considere apenas que não tinha nada para olhar. Aí resolvi voltar. Bem que tentei. Dei tanta porrada naquele espelho... Fiquei lá, preso. Via tudo do lado de fora. Também ouvia e a primeira coisa que ouvi foi uma gritaria vinda do lado de fora da porta. Depois pancadas na porta, como se quisessem arrombá-la. Até que ela cedeu. Apareceram o síndico, não me lembro seu nome, o porteiro, seu Alcides, e o casal vizinho (nunca soube seus nomes). A vizinha tomou a frente e ficou apavorada com o que viu: aquela desordem e o Xerxes lá, estendido no chão. Mexeram nele. Coitado do seu Laraia, será que está vivo? Não sei, acho que está respirando, respondeu algém.
Ei, espera aí, percebi, ela falou o meu nome. Será que pensaram que oXerxes sou eu? Chamaram a ambulância. Tentei me comunicar, bati no espelho, gritei, mas não me viam nem ouviam. Procuraram mais alguém pela casa. A chata da vizinha ficou bisbilhotando. Fuçou os cinzeiros e olhou os copos, provavelmente querendo achar algo para confirmar suas suspeitas. Não toca em nada, gritou o marido. O porteiro estava encostado no batente da porta aberta. Inclinava a cabeça para ver, por melhor ângulo, a bunda da vizinha. Eu nunca havia notado, achava que ela era apenas uma chata. Vi que, apesar de chata, ela tinha realmente algumas virtudes. Redondas e empinadas. Virtudes no tamanho exato.
- Temos que chamara polícia também.
- A polícia... a polícia... a polícia, repetia sem saber o que estava dizendo o seu Alcides. Realmente era difícil tirar os olhos da bunda da vizinha.
O Síndico falava com a polícia pelo telefone quando apareceu seu filho, um pirralho mal educado. Estava de pijamas, levou um grito do pai e saiu correndo. Ahn, desculpe, é meu filho que estava aqui. Tudo bem, ninguém vai mexer em nada.
Chegaram os paramédicos, mexeram no Xerxes, cochicharam algo entre eles e o levaram, tudo muito rápido, como com muita urgência. Fiquei triste ao ver o Xerxes daquele jeito. O porteiro, que havia saído, retornou avisando que a polícia chegara. A vizinha passou, rápida e discretamente, pelo espelho para conferir se estava tudo certo com ela, inclusive virando-se um pouco para conferir também sua bunda. Mulher gosta tanto de bunda quanto nós, homens. Ou mais. Ajeitar-se para os policiais... Veja como são as mulheres... Será que elas têm tara por policiais? Essenegócio de espelho tem seu lado interessante. Depois de se ajeitar, olhou de forma diferente para o espelho, talvez assustada. Terá me visto? Aproximou. Não, não era a mim que olhava. Também não era para ela mesma. Olhava o espelho, admirada como se até ali não o houvesse notado. Passou a mão no vidro, na moldura e pareceu surpresa. José Felipe, você viu que espelho lindo?
Os policiais encheram os vizinhos de perguntas. Quando perguntaram o nome da vítima, a resposta foi “Humberto Laraia”. OAquele escritor? Ele mesmo.
O que significava aquilo? Ei, vocês, Humberto Laraia sou eu, aquele era o Xerxes. Será que não notaram? Não ouviram meus protestos. O síndico confirmou que era eu. Perguntaram se eu costumava receber muita gente, e a vizinha disse que eu ficava em casa o dia todo e que não recebia visitas, que era muito sozinho, sombrio, "esquisito que só ele". Que vaca!
O Porteiro disse que naquela noite ninguém havia passado pela portaria. Mas como, discordou a vizinha, se ouvimos a maior pancadaria aqui dentro? Parecia que tinha uns dez aqui dentro pelo barulho. Não exagera, disse o marido. José Felipe, fica quieto porque você estava no quarto, com o seu maldito futebol. Só sei é que pela portaria é que não passaram, reafirmou Seu Alcides. Ninguém? Ninguém, tô falando. Mas e o Xerxes?, gritei. Gritei é modo de dizer, porque de trás do espelho, aprendi, não há grito, nem fala, só pensamento. Nem uma pessoa? Ninguém, respondeu ao policial. Ninguém passou pelaportaria.
Lacraram o apartamento. No dia seguinte apareceram técnicos da polícia. Investigaram, colheram fiapos, grãos, cinzas, migalhas, copos, impressões e tudo o que puderam. Dias depois, uma equipe de televisão apareceu. E a vizinha também, toda arrumada, calça justa. Onde exatamente você encontrou Humberto Laraia assim que entrou no apartamento? Bem ali, ela apontou e descreveu a cena. Pelo jeito estavam fazendo reportagem sobre meu desaparecimento. Como era Humberto Laraia no dia-a-dia? Ele era muito educado, respeitoso, mas vivia muito sozinho, acho que ficava escrevendo o tempo todo.
Que história é essa de “era”? Como é que eu posso permitir que falem de mim como se eu estivesse morto? De frente para a câmera, o repórter falou algo sobre como poderia alguém ser linchado sem que ninguém deixasse nenhum rastro, nenhuma pegada, nenhuma impressão digital, nada que fizesse acreditar que houvera alguém naquele apartamento, naquela noite, além do próprio Humberto Laraia. Mas isso não é nada. Duro foi ouvir quando o repórter falou, em tom grave, algo sobre “a misteriosa morte de Humberto Laraia”. Aí caiu a ficha. Que estranha maneira de se saber que a gente morreu.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A incrível história do CPNES - Parte 8

"Cobra Parada" apresenta Arlete, a guerrilheira que abraçava o mundo

Para quem começa agora a acompanhar a história, esclareço que o Cobra Parada Não Engole Sapo foi um grupo que no início dos anos 80 mudou a cara de Brasília, do Brasil e, por conseqüência, do mundo, no campo das artes, da política e da filosofia. Quem lê com regularidade a história do CPNES e tem curiosidade exacerbada, deve ter notado que nunca me referi a ele como grupo de teatro. É a história do grupo, a atuação do grupo. Nunca do grupo de teatro.

O que esse detalhe significa? Que o CPNES atuou em outras vertentes da arte? Ou será que teve uma atuação política? Quem sabe se o teatro não era apenas uma fachada para ocultar um braço armado de algum movimento de esquerda? Enfim, essa pergunta me fazem diariamente aqueles que não presenciaram os fatos, os meus sobrinhos de sangue e os de estima, visitantes descuidados e curiosos em geral.

Afinal, eram os cobraparadistas guerrilheiros?

Talvez fosse melhor mentir para preservar as pessoas envolvidas, que seguiram suas vidas e hoje têm cargos e famílias a zelar. Mas quem sai na chuva é prá se molhar. A resposta, por mais que isso possa chocar é que sim, éramos guerrilheiros. Pela primeira vez confessamos em público, nesta biografia não muito autorizada. Planejamos muitas vezes colocar bombas em prédios públicos. Pensávamos sempre em organizar atentados terroristas. Sonhávamos em içar o Sarney (que ainda não era presidente) pelos bigodes em praça pública. A idéia de pegar em armas para defender o país da ditadura nos seduzia demais para medirmos os riscos. Lutávamos pela liberdade de ser o que quiséssemos, não o que os outros queriam que fôssemos (embora não tivéssemos a menor idéia do que realmente queríamos ser).

Se temos provas de que éramos guerrilheiros? Infelizmente não. Foto de todo o grupo com armas nas mãos? Não, só essas fotos aí do lado, tem as armas, mas nao tem a gente. Foto com alguns de nós com alguma arma na mão? Não. Foto com pelo menos um de nós com qualquer coisa que pudesse parecer uma arma? Também não. Nem um revolvinho de espoleta? Negativo. Quem sabe um estilingue? Nada. Como é que pudemos não ter ficado com sequer uma prova de que éramos guerrilheiros? Muita incompetência?
Como é que a gente ia adivinhar que aquilo um dia pudesse ser útil prá gente?

Arlete (filha do rei) contracena com o Tiba em "Nosso Reino" 
Tudo bem, sem provas não poderemos ganhar indenizações, mas quem é que liga prá isso? E também, na verdade, não importa saber se pegamos ou não em armas. O que importa é que aquilo que fazíamos com o teatro era, de fato, uma espécie de guerrilha, mais efetiva do que se fossem usadas armas. E como um grupo de meninos, naquele sistema de opressão e controle absoluto, terá conseguido fazer o que fez? Não se faz isso sem uma liderança muito inspiradora. Idéias e vontade de resistir e de gritar nós tínhamos, mas quem teria a coragem de falar “vamos lá, tchê!”. Quem teria a petulância de gritar para quem ficasse inseguro “O que? medo? Larga de ser frouxo, vamos lá”? Quem era a pilha, o exemplo que inspirava, o motor que empurrava, a coragem que faltava?

A Arlete, a nossa guerrilheira. Essa gaúcha foi a nossa Anita Garibaldi, nossa Anahy de las Misiones... Essas gauchas são phoda mesmo, adroam uma gerra! E a Arlete não fugia delas. Por isso era conhecida como Arletão, que era prá meter medo mesmo. Mas não metia. Metia respeito, isso sim. Mesmo sendo uma guerreira forte, corajosa e nem um pouco delicada, Arletão tinha um sorriso e um coração que abraçavam todos que estavam pela frente. Seu jeito de ser conseguia a paradoxal proeza de ser despolido e até grosseiro, mas, ao mesmo tempo, gigantescamente afetivo e acolhedor. Era a pessoa boa e confiável por excelência. Se achasse que alguém era um chato, ela dizia. “Fulano, mas você é muito chato”. E o fulano não achava ruim. Se era prá dizer que alguém era imbecil, ela dizia. E todos continuavam gostando dela, e ela se divertindo com todos.

“Ahn? Fazer a filha do rei na peça e esculachar com o meu pai? É comigo mesmo”.

“Tá com fome? Não tem o que fazer em casa? Tem uma panela vazia aí? Não, essa é pequena, pega a maior. Isso, essa serve. Vem atrás”. E lá saia a Arlete de casa em casa. Entrava dizendo “Tô morrendo de fome. Me dá aí qualquer coisa prá eu botar nessa panela e fazer uma sopa”. “Não tem?” “Deixa eu ver na sua geladeira”. Ia lá e abria. “Ei, tem sim, você não viu direito. Essa berinjela ta ótima, obrigado!”. No final saía uma big sopa. O Sopão da Arlete virou mania. As pessoas já compravam verduras e legumes a mais e já deixavam para quando a Arlete passasse para fazer seus sopões comunitários para os necessitados. Necessitados aqui não eram aqueles que não tinham condições de comprar uma abobrinha, mas aqueles que não tinham a menor idéia de o que fazer com uma abobrinha. Arlete não podia ver uma causa justa que tomava a frente. Não podia ser desafiada, que encarava. Alguém tinha uma idéia legal? “deixa comigo”. Era a energia e disposição em estado puro.

Arlete, onde chegava, chamava atenção, porque além de todo aquele seu jeito, falava alto que só ela. Certa noite, no Beirute, depois de sairmos chapados de uma peça alucinante que havia vindo do Rio, fomos ao Beirute, onde, prá variar, foram também os atores da peça. E naquele ambiente alegre, o jeito da Artele chamou a atenção da Regina e do Luis, atores da peça, sentados na mesa ao lado, uma daquelas mesas mais escondidas, ali no “L” do bar. Logo tudo virou uma mesa só. A Arlete estava atacada. Era apaixonante. Estávamos no me
io da nossa guerrilha, e a Arlete havia assumido a personagem Arletão. Discursava sobre a necessidade de as mulheres largarem aquele jeitinho meiguinho-docinho de Barbie e assumir a guerrilheira, dar as cartas, ser mais natural. Arletão não queria parecer feminina, ela sabia que era, e isso bastava. Arlete falou também da luta contra o poder. Ao ver uns policiais por perto gritou “Prá quê polícia aqui? A gente não precisa de polícia!”. O Luis anotou. Aliás, ele ficava o tempo todo anotando. Falamos da guerrilha que fazíamos. Falamos de brincar com o poder, dar um calor neles, a fim de amolecê-los e derrotá-los por derretimento. Escaldá-los. Os atores cariocas adoraram aquela conversa.


Titãs antes de conhecerem a história do CPNES
Dois anos depois foi lançado o filme Areias Escaldantes, idealizado por Regina Cazé e Luis Fernando Guimarães e que tinha no elenco, alem dos próprios, o Lobão e os Titãs, que por sinal gostaram das anotações do Luis. O filme, livremente inspirado na Arlete e na história do CPNES que a Regina e o Luis ouviram naquela noite, contava a história de um grupo de guerrilheiros lutava contra as forças do mal.


Capa do 1o disco do Titãs pós CPNES

Foi depois disso que os Titãs deram uma guinada do pop para o rock mais em sua melhor forma. Foi depois disso que Lobão largou os seus Ronaldos e lançou sua iconoclasta carreira solo. Foi depois daquele encontro com a Arlete que a Regina Casé, que ainda fazia o estilo comportadinho na peça que vimos (“A Farra da Terra”), mudou a forma de ser e de atuar e incorporou o Arletão. Foi exatamente isso que fez seu sucesso, que por sinal se mantém até hoje.

Os cobraparadistas, inclusive o emérito Panta, que teve a sorte de ter convivido mais tempo com ela (foram casados), não precisam de esforço algum para ter, muito viva na memória, a magnética e fulgurante imagem da Arlete. Mas caso você, sobrinho querido, queira saber aproximadamente como ela era, veja a Regina Casé, que ostenta com dignidade a persona que a inspirou: Arlete, a guerrilheira que abraçava o mundo!



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