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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ENTÃO É NATAL


Prá quem não me conhece sou Humberto Laraia, filho de escuridão e da rutilância, muito mais da escuridão que da rutilância, confesso. Escrevo aqui de vez em quando, quando tenho vontade, o que é raro. Fiquei sem escrever por mais de 20 anos, trancado dentro de um espelho. Se quiser saber mais, leia desde a parte um. Mas você não vai gostar, então não perca o seu tempo, embora seu tempo valha tanto quanto o que eu escrevo: rigorosamente nada.


Porque escrevo, então? Pela mesma razão que você vive; prá encher o saco dos outros. Estorvo que somos, vamos à crônica do dia, ou da noite, já que são 21h49 de uma noite insuportavelmente quente. Enquanto penso no que escrever, o suor me escorre pelas costas, provocando uma moderada irritação com os desígnios da humanidade, condenada a sofrer.


Confesso que na verdade sei o que vou escrever: sobre o natal, a época de comunhão, de harmonia e de uma chateação sem fim. Hoje vi, na livraria, uma mulher com uma irritante expressão de pessoa boa, como se alguma pessoa no mundo pudesse pleitear a si mesmo a insígnia de pessoa boa. Ela disse feliz natal, viu querida à caixa que a atendia. Tal expressão de hipocrisia me levou ao riso. Ri prá não chorar, como já o fizera Candeia e, depois, Cartola, sabedores que eram de que a vida é dor. Na verdade, ri porque rir era a única expressão possível, já que eu jamais choraria por ninguém, nem pela humanidade, que de mim não merece outra coisa senão o desdém e o escárnio.


Outra reação possível e bastante mais ajustada ao horrendo e gelatinoso sorriso magnânimo da mulher seria uma feição de poucos amigos ou uma expressão de desdém, mas tais expressões não demonstrariam nenhuma mudança em minha habitual expressão, já que carrego o desdém e a solidão, dentro e fora de mim.


Por isso, ri. Ri de escárnio, talvez de ódio. Mas, incapaz de ler e interpretar corretamente a fisionomia alheia, ao meu riso de escárnio a atenta, embora burra, senhora respondeu com um sorriso maior ainda, de maior benevolência e com um indefectível “feliz natal para o senhor”. Senhor é o cacete, respondi de pronto, em voz alta e olhando bem fixo em seus olhos. Pena que foi apenas na minha imaginação. A voz não saiu. Os mais de 20 anos dentro do espelho me tiraram a voz. Tenho que me concentrar muito para proferir alguma palavra inteligível (“entendível”, se fica mais simples para você).


Voltando à Sra. Hipocrisia, pergunto-me como é que uma pessoa que nunca me viu, que não imagina a vida que eu levo, que não sabe se roubei, estuprei, matei ou o diabo, que nunca mais vai olhar na minha cara, felizmente para os dois, como é que essa pessoa pode me desejar feliz natal? O que significa isso para ela? Que eu compre bastantes coisas e presenteie todo mundo que encontrar? Que na noite do dia 24 eu coma mais do que eu posso e que carregue no colo um parentezinho ranhento e cagão que nunca vi na vida? Que eu tome um porre homérico, vomite tudo e arrote o resto da noite, tudo isso junto com meus familiares queridos?


Ou será que a megera, quando deseja feliz natal a este sujeito que ela nunca viu na vida, quer dizer simplesmente que eu eleve meu coração ao alto e que pense em cristo crucificado que deu a vida por nós? Quem é ela para pensar que eu acredito nisso?


Quando estava dentro do e espelho, sentia uma enorme vontade de sair e esmurrar todo e qualquer mortal que tivesse um sorriso na boca e emitisse dela coisas como feliz natal ou fraternidade. Mas pensando bem, antes de entrar no espelho eu também sentia a mesma vontade. Agora, depois de sair, idem.


O que leva as pessoas a dizerem que querem bem às outras quando todos nós queremos mais é que os outros, principalmente os desconhecidos, se explodam? Os outros são um estorvo para nós. Precisamos que os outros se ferrem, que levem uma vida toda fodida (a merda do Word sublinhou em vermelho esta palavra, vê se pode!) para podermos, comparados a eles, ser um sucesso. Por isso é que no natal agradecemos a deus, que certamente nos ajudou, ferrando todos os outros para que fiquemos em destaque, portanto, felizes. A sorte é que tristeza não tem fim, felicidade sim.


Ainda de dentro do espelho, vi um filme ótimo, em que um alcoólatra que detesta natal e crianças, se veste de papai noel para roubar o shopping. Muito apropriado. “Papai Noel às Avessas” é o nome do filme.

Estamos em pleno dia 22 de dezembro. O que será que o bom velhinho pôs no meu saco de presente neste natal? A única coisa que posso sentir no meu saco neste momento é uma imensa coceira e um monte de esperma desesperado por um bom motivo para sair dali.


Bom, quem está fora do espelho é prá se molhar: feliz natal prá todos (figas).

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Você está morto

A fuga do óbvio é quase um objetivo de vida para mim. Não sei se isso é uma qualidade, uma deficiência de caráter, uma disfunção psíquica ou simplesmente uma característica pessoal, como o jeito de sorrir ou de andar. O fato é que me envergonho de ser pego dizendo o que já foi dito. Uma força vital me afasta daquilo que todos gostam.


A verdade é que me irrito demais com o povo feito gado. Muito do gosto comum não é gosto, é inércia, é pensar que se gosta porque se pensa que todos estão gostando, mas sem nenhum exercício mental de aprofundamento no objeto. Todos estão ouvindo? Conclui-se que todos estão gostando. Todos estão gostando? Então eu devo gostar. A base desse comportamento é o medo e a insegurança de se mostrar, de se desigualar, de ser visto como diferente. É o medo de ser indivíduo, é a impossibilidade de ser indivíduo. Isso sim é disfunção, isso é doença.

Não são apenas as impressões digitais que nos distinguem. Nossa alma também, nosso cérebro idem. As pessoas são naturalmente diferentes, mas morrem de medo de exercer essa diferença. Isso é doença. É o mal do século. É a razão pela qual se produz cada vez menos pensamentos, obras de arte (música, cinema, etc). Há cada vez menos gente que gosta do que não está no centro do olhar comum. Cada vez mais raros são os que olham aos extremos e que produzem pensamento, arte e evolução com isso. Sem pensamento, arte e evolução, a sociedade e a espécie humana, aquela dotada de individualidade e personalidade, fica estagnada, fadada a desaparecer em pouco tempo.

O problema não é, portanto, o que se acredita, ou o que sempre acreditei: que tudo o que se produz é para agradar o gosto comum. Não é esse o maior problema. A desgraça do gênero humano é que só se sabe produzir o que é do gosto comum. Não se sabe, salvo raríssimas exceções, fazer nada diferente disso.

Quando entrei no espelho o negócio já estava meio ruim, mas agora que saí descobri que piorou muito. Os grandes sucessos da música neste país, por exemplo, são cantorzinhos comportados, com letrinhas comportadas, arranjinhos básicos, embora com roupinha moderninha. Lenine, Ana Carolina, Seu Jorge, Jorge Vercilo, Maria Gadú. Estes, e muitos outros iguaiszinhos, são os considerados modernos. Modernos? O que eles trouxeram que pode ser classificado de moderno? O novo modelo de cabelo “desgrenhado-chique”? As roupas moderninhas que usam? A sexualidade sem vergonha? Esta não tem nada a ver com modernidade artística, é conquista social e apenas o é porque agora pode ser assim, porque lá atrás outros foram diferentes, ousaram e conquistaram.

Ah, você gosta dessa gente que canta essa musiquinha chinfrim? Dane-se. Continuam sendo muito ruins. Talvez o fato de você gostar deles os faça pior ainda. Mas duvido que você saiba que, na minha ausência, passou por aqui um cometa chamado Chico Science, que durou pouco porque o jogaram num poste. Quem me apresentou o sujeito foi o Tio Môa, o estúpido otimista que me hospeda neste blog. Estúpido porque acha que a existência, embora efêmera, de alguém criativo e fora do senso comum teria mostrado que nem tudo está perdido. Eu não tenho essa confiança, como nunca acreditei em papai Noel. Para mim, não há salvação.

Não há salvação nem para você, leitor? Bem, para você, em tese, poderia haver salvação, afinal, você está lendo isto que, convenhamos, não faz parte do gosto comum. Bastaria que você fizesse uns exercícios mentais, perdesse esse seu medo de ser incomum, de ser você mesmo.Porque hoje você não é você; você é os outros. Só ousando ser você mesmo, poderá se salvar da vala comum. Veja o que nunca viu, ouça o que nunca ouviu, aprenda a exercitar modelos matemáticos e geométricos diferentes (tudo na arte tem como base a matemática e a geometria). Mas sabe de uma coisa? Eu não acredito que você o faça. Não acredito em você. Tente com seus filhos, talvez eles ainda se salvem, desde que não copiem seu modelo simplório e covarde. Sinto dizer isso, mas você, como indivíduo, já está irremediavelmente morto.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Volta de Humberto Laraia - Volume 3

Quem sou eu? Porque o meu espelho foi parar num antiquário e foi comprado por uma fortuna e eu não recebi um tostão? O que faço aqui trancado dentro de um espelho no quarto suntuoso do presidente da república? Perguntava-me essas coisas o tempo todo.

E assim passaram-se os anos. Não vou contar tudo que ouvi dentro daquele espelho, porque finalmente saí de lá e agora estou aqui, vivo como você, leitor, se é que se pode considerar essa vida que você leva como vida. Aqui fora não é prudente falar determinadas coisas que vi nesses anos todos. Morei na Casa do bigodudo, depois na daquele que adorava um espelho e tinha um nariz bem grande, vivia na minha frente, ajeitando os cabelos, fazendo pose de macho, e, pior de tudo, fazia isso justo quando a sua mulher se despia antes de vestir a camisola para dormir. Era uma loira magra, mas bem gostosinha, apesar de meio feinha e dentuça. Eu gostava quando ele viajava, porque ela ficava sozinha (quase sempre) no quarto e eu podia vê-la sem ninguém na minha frente...

Depois teve um cara do topete. Passava horas ali na minha frente, ajeitando aquilo. Um horror. Mas neste aspecto a coisa foi sempre piorando, piorando até que chegaram uma baranga e um barbudo que, quando conversava com deus, olhava para baixo. Sorte que agora saí do espelho. Imagina, passar mais quatro anos ali... Um dia eu conto como foi que saí daquele espelho.

O fato é que esses quase trinta anos de espelho me fizeram ver a vida de um modo muito diferente. Se antes eu era descrente de tudo, agora sou muito pior. Eu era meio lunático, agora sou a lua.

Dizia que minutos eram grãos de areia, “jogue-os ao vento e seja um dos que me importam”. Hoje ninguém mais os atira ao vento, ninguém mais me importa, nem você, que lê essas minhas recordações, amargas e sem nexo. Sem sentido algum. Pior é que você, se leu até aqui, é capaz de estar gostando, o que só reafirma minha descrença na inteligência e no bom gosto do ser humano.

Eu vivia num mundo que não me queria vivo, mas ainda assim lutava para que o mundo permanecesse vivo. Hoje quero que o mundo vá à merda!

Antes eu escrevia minhas coisas tortas e as pessoas gostavam, até choravam as mais imbecis, compravam meus livros, fiquei rico, enfiei o dinheiro sei lá onde.

Perguntavam-me por que minhas obras eram tão estranhas e cruas, mas, ao mesmo tempo, pareciam tão reais. Eu respondia que elas eram como um espelho que refletisse da realidade apenas a ficção, como um filtro. Achavam o máximo. Hoje acho que o espelho não filtraria mais nada, refletiria tudo. Tudo é ficção. Que ver? Vamos lá:

Você faz o que não gosta, vive a maior parte do tempo com pessoas que não gosta, mas não briga com elas. Vive como se gostasse delas. E de quem você gosta? Pense. Isso, é com essa pessoa que você briga, é essa pessoa que você fere. E é exatamente essa pessoa que você, intimamente, culpa pela sua infelicidade.

Agora pense na coisa que você mais gosta de fazer. Pensou? Diga-me, é ou não é aquela que você menos faz?

Domingo eu vi futebol. A torcida vibrava quando seu time tomava gol.

Os homens não mudaram muito. Parecem os mesmos estúpidos. As mulheres sim, mudaram bastante. Para pior. Fazem mais sucesso. Para fazer sucesso tiveram que se masculinizar. Vejam as que mandam nas empresas ou no país. “Ela é mulher, mas é firme”. Isso é um elogio, assim elas podem ocupar as posições. Você, homem (mas homem mesmo, não essas máquinas de penetrar), faria amor com alguma delas?

O quê? Fazer amor? Que coisa mais velha, ultrapassada. O mundo, no lugar de deixar a maldita e escrota lógica masculina para poder se humanizar, ficou mais masculino, mais bruto, mais imbecil. Ai, que saudades do espelho.

No mundo de hoje os mais populares são os mais corruptos ou os mais ridículos. Cecília Meirelles (que hoje não seria ninguém, aliás, não é ninguém, pergunte para seu filho, ou para você mesmo) escreveu um dia que toda vez que um justo grita, o carrasco vem calar, quem não presta fica vivo, quem é bom, mandam matar. Hoje não há mais carrascos, os bons se matam a si mesmos.

Num mundo ideal, a nossa realidade não passaria de ficção.

Sou Humbeto Laraia, muito prazer (esse "muito prazer" é mera obrigaçao de ser minimamente gentil).
Pretendo escrever sobre a vida que te rodeia.
E te cortar e te queimar a cada quarta-feira.
Não gostou? Nao leia.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A Volta de Humberto Laraia - Volume dois

CAPÍTULO III – O BIGODE


Alguns falam que a morte é uma fazenda distante, outros que é branca; uns, que a morte é o nada, outros que a gente levita e paira sobre o nosso próprio corpo, depois pelas redondezas, depois pela casa dos amigos e parentes, para saber se está tudo bem. Se fosse assim, eu juro que ia pairar no quarto da vizinha, aquela da bunda divina. Mas não deve ser assim, pois se eu estava morto, e essa era uma grande possibilidade, o certo é que quem morre vai para o espelho, o que é um saco, tenham certeza disso. Pairar deve ser melhor, pelo menos você escolhe para onde vai. Alí, preso dentro do espelho, nada acontece, a não ser naquele momento, em que via a vizinha dando entrevista de costas para o espelho, ou seja, com aquilo tudo virado para mim.

Nunca ouvi ninguém dizendo que a gente vai para o espelho quando morre, o que poderia significar duas coisas: uma é que simplesmente ninguém sabe, mas a gente vai mesmo é para o espelho quando morre. Essa forma de interpretar era ruim para mim, pois significaria que realmente estava morto. A outra forma de entender porque ninguém nunca disse (que após a morte vamos para o espelho) é que a gente não vai mesmo para o espelho quando morre. Isso seria ótimo, pois eu estaria vivo, que é, aliás, exatamente como me sintia. Vivo, embora preso.


Eles podem ter confundido o Xerxes comigo, idéia para a qual eu torcia, afinal, significaria que eu não teria morrido, mas sim o coitado do Xerxes.  Mas não dá para descartar a hipótese de que aquele corpo que eu vi no chão da sala não ter sido o de Xerxes, mas o meu próprio, o que significaria dizer que eu realmente estou morto. Se for assim, teremos mais dúvidas: Xerxes já tinha ido embora quando aquele gente atravessou o espelho e me matou? Ou o Xerxes nunca havia existido, sendo só uma projeção da minha mente, mais um de meus personagens? Estava vivo ou não? Nao parava de me perguntar isso. Compreendem que essa questão é muito mais complexa que a proposta por Hamlet?

Vivi um bom tempo assim, até que o espelho foi enviado para um antiquário. Foi um bom período, conheci muita gente, muitos ficaram encantados com o espelho, o que praticamente significava que fiaram encantados comigo. Mas a maioria se assustava com o preço. Até que veio uma senhora, muito distinta e quando viu parou e falou “é meu”. Ela não se importou com o preço. A dona da loja, para justificar a facada, falou que era do famoso escritor Humberto Laraia, que morrera em circunstâncias misteriosas, "um horror essa polícia que não descobre nada, onde é que vai parar isso, a gente nao tem mais segurança nem dentro da própria casa..." Eu levo, eu levo, cortou a senhora.

E o seu marido, não vem mais com a senhora, perguntou a dona da loja à cliente. “Com toda essa agitação dos preparativos para a posse, depois da doença do outro, sabe como é, ele fica do trabalho prá casa, da casa pro trabalho”. "Bom, se ele tiver que morrer mesmo, coitado, Deus é que sabe, mas para o seu marido até que é bom, não é?" A senhora nada respondeu e despediram-se. Em seguida fui levado para os fundos, de onde no dia seguinte saí num caminhão. Cobriram o espelho com cobertores. Foi como se estivessem vendando os meus olhos para que eu não visse o caminho, não soubesse para onde estava sendo levado. Não me sentia dentro do espelho, mas que eu era o próprio espelho.


Quando tiraram os cobertores, eu estava num grande quarto, todo cheio de móveis caríssimos, poltronas suntuosas, tapetes mágicos. Brega, mas imponente. Na primeira noite vi o marido, mas foi ele entrar no quarto e se jogar na cama. Dormiu rápido. A mulher até reclamou de ele dormir sem tomar banho, sem colocar pijama. "Tira pelo menos a gravata". Ele nem respondeu. Ela tirou-lhe a gravata. Foi assim várias noites, dormindo rápido, tomando ou não o seu banho, colocando ou não seu pijama listrado. No máximo, comentava algo como sua preocupação com algo que não acabava nunca. Nem conversavam. Eu estava curioso. O que eles esperavam tanto que acabasse? Quando a gente está dentro do espelho (ou quando a gente morre? Tomara que não), não acontece nada. A única diversão é ver o que acontece com os outros, saber quem são as pessoas, o que fazem.


Numa manhã, tocou o telefone. A mulher gritou de algum ponto da casa: “Zé, atende, é aquela ligação que você estava esperando”. “Alô... Não, nao, estou acordado, pode falar... O que?... Morreu? Puxa até que enfim... Obrigado pela notícia...” Gritou e pulou, pelado, na cama. Muito estranho ver um senhor de mais de 50 anos, com cara de austero, pulando daquele jeito. A mulher entrou correndo, ele a jogou na cama, foi tirando sua saia, depois a calcinha (que lembrou as que minha mãe usava) e caiu em cima. Em baixo, quero dizer. Ela começou a rir, reclamando aos gritinhos, que o bigode faz muitas cócegas. O bigode dele realmente era grande. “Porque não tira esse bigode?” Ele parou na mesma hora, levantou-se, cobriu suas partes como lençol e pronunciou, lenta e incisivamente “Nunca mais peça isso”.


Esse bigode, começou a discursar para a mulher, é minha marca, foi com ele que ganhei todas as eleições que ganhei. Ele esteve comigo todo esse tempo. Este bigode que está diante de vós, acompanhou toda a luta de minha família pelo povo injustiçado. Esse bigode que ostento com orgulho em minha face, vai, a partir de agora comandar os destinos desta nação. Certamente nenhum dos presentes tem dúvida de que o meu bem-estar social e o meu bem-estar pessoal estariam fora das atribuições que vou enfrentar, mas a paixão da vida pública é maior do que a paixão da própria vida.


Zé, cortou a esposa, você está aqui no nosso quarto, não lá, no meio daquela gente. Eu sei, respondeu ele, só estou treinando o discurso, que estou decorando há um tempão. “O que achou?”


Olha, respondeu a dedicada esposa, eu tiraria essa parte do bigode.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A Volta de Humberto Laraia - Volume um

Inauguramos hoje, neste blógui, a participação do importante escritor Humberto Laraia, importante tanto pela sua obra, quanto pelo mistério que cercou sua morte e agora cerca sua volta. Em comemoração, excepcionalmente hoje publicaremos no mesmo pôsti os dois primeiros capítulos.


CAPÍTULO I – A INVASÃO
Estava escrevendo, totalmente envolvido, uma cena nervosa, carregada de tensão. Aquele povo estava querendo encrenca, desejando e precisando extravasar. Acho que queriam colocar a culpa em alguém. Eu estava meio tomado, comecei a escrever como se não fosse eu o autor, como se algo escrevesse por mim. Adorava essa sensação, que, por sinal, não era incomum. Mas naquela noite a coisa fugiu do controle. Eu tinha um espelho na sala e enquanto escrevia, costumava projetar mentalmente as cenas que imaginava no espelho. Mas tinha vezes em que as imagens no espelho me ultrapassavam, iam à frente, aconteciam antes de eu escrevê-las. Aí eu descrevia o que enxergava. Como se as pessoas, ou o espelho, escrevessem por mim.
De repente eles vieram direto na minha direção, atravessaram o espelho com fúria, como se fossem gângsters de westerns quando entram em saloons abrindo com força aquelas portinholas. Olharam um pouco ao redor e quando viram na poltrona num amigo meu que estava em casa partiram para cima dele e lhe deram uma surra.
Fico pensando por que os caras bateram no Xerxes e não em mim. Aliás, eles me ignoraram por completo, como se eu não existisse. Isso é estranho, já que na realidade eram eles que não existiam, ou pelo menos deveriam não existir. Foi como se o procurassem. Coitado do Xerxes, era meio chato, mas sabe aquele chato que você gosta? Era o Xerxes. Como é que alguém pode ter um nome desses? Seria Ataxerxes? De qualquer forma isso não alteraria em nada o fato de que ele acabara de ser linchado.


Retornaram para dentro do espelho. Não sei o que me deu quando os vi atravessando o vidro, se curiosidade ou medo... Só sei que fui atrás, misturei-me a eles e entramos juntos. Foi como entrar numa festa sem convite. É verdade, atravessei o espelho.


CAPÍTULO I I – A TRAVESSIA


Quando entrei no espelho, não vi ninguém. Nem nada. Não é branco, nem preto, simplesmente não tem cor. Caso você não consiga imaginar um ambiente sem cor, nem branco nem preto, não tem a menor importância. Considere apenas que não tinha nada para olhar. Aí resolvi voltar. Bem que tentei. Dei tanta porrada naquele espelho... Fiquei lá, preso. Via tudo do lado de fora. Também ouvia e a primeira coisa que ouvi foi uma gritaria vinda do lado de fora da porta. Depois pancadas na porta, como se quisessem arrombá-la. Até que ela cedeu. Apareceram o síndico, não me lembro seu nome, o porteiro, seu Alcides, e o casal vizinho (nunca soube seus nomes). A vizinha tomou a frente e ficou apavorada com o que viu: aquela desordem e o Xerxes lá, estendido no chão. Mexeram nele. Coitado do seu Laraia, será que está vivo? Não sei, acho que está respirando, respondeu algém.
Ei, espera aí, percebi, ela falou o meu nome. Será que pensaram que oXerxes sou eu? Chamaram a ambulância. Tentei me comunicar, bati no espelho, gritei, mas não me viam nem ouviam. Procuraram mais alguém pela casa. A chata da vizinha ficou bisbilhotando. Fuçou os cinzeiros e olhou os copos, provavelmente querendo achar algo para confirmar suas suspeitas. Não toca em nada, gritou o marido. O porteiro estava encostado no batente da porta aberta. Inclinava a cabeça para ver, por melhor ângulo, a bunda da vizinha. Eu nunca havia notado, achava que ela era apenas uma chata. Vi que, apesar de chata, ela tinha realmente algumas virtudes. Redondas e empinadas. Virtudes no tamanho exato.
- Temos que chamara polícia também.
- A polícia... a polícia... a polícia, repetia sem saber o que estava dizendo o seu Alcides. Realmente era difícil tirar os olhos da bunda da vizinha.
O Síndico falava com a polícia pelo telefone quando apareceu seu filho, um pirralho mal educado. Estava de pijamas, levou um grito do pai e saiu correndo. Ahn, desculpe, é meu filho que estava aqui. Tudo bem, ninguém vai mexer em nada.
Chegaram os paramédicos, mexeram no Xerxes, cochicharam algo entre eles e o levaram, tudo muito rápido, como com muita urgência. Fiquei triste ao ver o Xerxes daquele jeito. O porteiro, que havia saído, retornou avisando que a polícia chegara. A vizinha passou, rápida e discretamente, pelo espelho para conferir se estava tudo certo com ela, inclusive virando-se um pouco para conferir também sua bunda. Mulher gosta tanto de bunda quanto nós, homens. Ou mais. Ajeitar-se para os policiais... Veja como são as mulheres... Será que elas têm tara por policiais? Essenegócio de espelho tem seu lado interessante. Depois de se ajeitar, olhou de forma diferente para o espelho, talvez assustada. Terá me visto? Aproximou. Não, não era a mim que olhava. Também não era para ela mesma. Olhava o espelho, admirada como se até ali não o houvesse notado. Passou a mão no vidro, na moldura e pareceu surpresa. José Felipe, você viu que espelho lindo?
Os policiais encheram os vizinhos de perguntas. Quando perguntaram o nome da vítima, a resposta foi “Humberto Laraia”. OAquele escritor? Ele mesmo.
O que significava aquilo? Ei, vocês, Humberto Laraia sou eu, aquele era o Xerxes. Será que não notaram? Não ouviram meus protestos. O síndico confirmou que era eu. Perguntaram se eu costumava receber muita gente, e a vizinha disse que eu ficava em casa o dia todo e que não recebia visitas, que era muito sozinho, sombrio, "esquisito que só ele". Que vaca!
O Porteiro disse que naquela noite ninguém havia passado pela portaria. Mas como, discordou a vizinha, se ouvimos a maior pancadaria aqui dentro? Parecia que tinha uns dez aqui dentro pelo barulho. Não exagera, disse o marido. José Felipe, fica quieto porque você estava no quarto, com o seu maldito futebol. Só sei é que pela portaria é que não passaram, reafirmou Seu Alcides. Ninguém? Ninguém, tô falando. Mas e o Xerxes?, gritei. Gritei é modo de dizer, porque de trás do espelho, aprendi, não há grito, nem fala, só pensamento. Nem uma pessoa? Ninguém, respondeu ao policial. Ninguém passou pelaportaria.
Lacraram o apartamento. No dia seguinte apareceram técnicos da polícia. Investigaram, colheram fiapos, grãos, cinzas, migalhas, copos, impressões e tudo o que puderam. Dias depois, uma equipe de televisão apareceu. E a vizinha também, toda arrumada, calça justa. Onde exatamente você encontrou Humberto Laraia assim que entrou no apartamento? Bem ali, ela apontou e descreveu a cena. Pelo jeito estavam fazendo reportagem sobre meu desaparecimento. Como era Humberto Laraia no dia-a-dia? Ele era muito educado, respeitoso, mas vivia muito sozinho, acho que ficava escrevendo o tempo todo.
Que história é essa de “era”? Como é que eu posso permitir que falem de mim como se eu estivesse morto? De frente para a câmera, o repórter falou algo sobre como poderia alguém ser linchado sem que ninguém deixasse nenhum rastro, nenhuma pegada, nenhuma impressão digital, nada que fizesse acreditar que houvera alguém naquele apartamento, naquela noite, além do próprio Humberto Laraia. Mas isso não é nada. Duro foi ouvir quando o repórter falou, em tom grave, algo sobre “a misteriosa morte de Humberto Laraia”. Aí caiu a ficha. Que estranha maneira de se saber que a gente morreu.
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