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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

LEGALIZE JÁ – O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA


Um grava fitas cassete, não quer tomar o coquetel e por isso tem pouco tempo de vida; o outro vende camisetas de bandas famosas de punk e hard rock na rua, é expulso de casa e a namorada está grávida. Além de serem dois ferrados, mais uma coisa em comum: “a polícia atrás deles e eles no rabo dela”. Skunk é negro e pobre - polícia nele; Marcelo ouve "ói o rapa" e sai correndo, carregando o varal de camisetas. Assim eles se encontram; na confusão, o caderno em que Marcelo escreve versos fica com Skunk, que procurava letras para suas bases de rap.


Está em cartaz Legalize Já – Amizade Nunca Morre. O subtítulo, insuportável mania brasileira, aqui tem uma função: mostra que o objetivo do filme não é fazer apologia da legalização da maconha ou contar a história da banda polêmica e porradona. Aliás, quando a banda se forma mesmo, o filme acaba. Quem diria que a origem do Planet Hemp daria um tocante filme sobre amizade e amor? Amor Ágape, diria o Serjão, para fazer diferença entre o amor espiritual e o desejo físico, que caracteriza o amor Eros. No caso, vale mais falar do amor Philos, o da afinidade mental e cultural.

Enfim, o que importa é que o filme é um carinho na loucura, uma trégua nestes tempos de injustificável cólera – só de mencionar que a cólera é injustificável, haverá reações coléricas, aposto. Dane-se! Legalize Já é um filme humano, demasiadamente humano.


Apoiados por Brennand, o argentino dono de um boteco no centro sujo do Rio, a amizade vai se sedimentando, tal como a ideia do que querem dizer com a música. 


Apoiado num ótimo quarteto de atores (além da dupla, tem o Brennand, delicioso personagem do ator argentino, e a namorada de Marcelo), o filme evolui, ora com cenas densas, ora com bom humor - engraçadíssima a cena em que Marcelo, aterrorizado, vê um clipe com algo tipo boquinha na garrafa na TV da loja em que está trabalhando. Ah, é claro: tem boa música – além da trilha, as cenas musicais são delirantes – os atores estão perfeitos nos vocais e gestual.

Quando a banda apenas começava a ganhar estrada, aí termina o filme, a morte de Skunk retratada com delicadeza, numa sequência final tocante e inteligente. No ótimo take final, camisetas do Planet Hemp num varal, dizem por si só sobre a vitória de Skunk. O filme é uma homenagem feita pela ótica do sobrevivente, Marcelo D2, que participou da produção e diz “o Skunk foi um anjo que passou na minha vida e mudou ela completamente, eu vivo um sonho que não é meu. Isso tudo aqui não era para mim, era para ele'.


Skunk, o verdadeiro
O resto é história, é o Planet Hemp, é Legalize Já, o triunfo do amor e da amizade, da beleza e da justiça sobre o dragão da maldade. E como isso, disparadamente, é o que mais importa, vou rever o filme mais uma ou duas vezes nesta semana insuportável...

sábado, 3 de outubro de 2015

100 ANOS DE ORLANDO SILVA

Orlando Silva

Houve um tempo em que havia elegância. Não sei se foi o tempo de pardais, de verdes nos quintais, quando ainda havia fadas, mas a contar pelas imagens que o Google nos mostra das meninas aladas, ah, sim, havia elegância.

Também não sei ao certo se o tempo em que havia elegância era aquele mesmo, dos galos, noites e quintais, antes do mal que a força sempre faz, mas creio que sim, a contar pelo que evoca a imagem de um galo cantando, tendo ao fundo, no residual escuro do céu, as estrelas mais resistentes ao iminente nascer do sol, este sim, em toda sua ardida e ferina deselegância.

O fato é que houve um tempo em que havia elegância, disso não há dúvida, a contar pelo fato de que um cantor mirrado e feio, ou, para os policiais dos sentimentos alheios, um cantor desprovido de formosura, fez um estrondoso sucesso tendo como base apenas a voz, não um vozeirão de arrasar quarteirão, mas uma voz sutil e magicamente elegante.

Orlando Silva, o Cantor das Multidões, não tinha essa alcunha por acaso ou por exagero. O cara lotava estádios, levava mais público, em Belém, que o Sírio de Nazaré, levava mais gente às ruas do Rio que uma praia aos 40 graus, cidade maravilha purgatório da beleza e do caos.

Orlando Silva parece ter sido o primeiro fenômeno de massas da música brasileira, e isso tudo sem uma voz potente, como tinham os cantores de sucesso à época, sem corpão sarado, sex appeal ou a cara de bonitão de um Vicente Celestino.
Vicente Celestino

Orlando Silva, que hoje completa 100 anos (“completaria” o cacete – tá certo que ele morreu há quase 40 anos, mas nunca o conheci, e para mim, ele é a sua voz, que estou ouvindo neste exato instante, vivíssima), tinha uma voz impressionantemente calma, se é que calma é um adjetivo apropriado para classificar a voz de um cantor, e se não for, a partir de agora passa a ser. Basta ouvi-lo cantar e nossa alma fica leve, flutuando. Isso, ele tem voz flutuante, outro adjetivo perfeito. A forma como ele trata as vogais, sem esmurrá-las, pegando-as, com carinho, lá em baixo e levando-as aos céus, ecoando-as como as trombetas do paraíso, modulando-as sem sacolejar, para depois devolvê-las para baixo novamente, suavemente, repousando-as ao som doce da melodia, uau, é fantástico.

Ouvir Orlando Silva é fazer essa viagem. Isso é elegância pra mais de metro!

Seus sucessos mais conhecidos hoje são “Rosa” (tu és divina e graciosa, estátua majestosa...), “Carinhoso” (meu coração, não sei por quê...) e “Lábios que beijei” (lábios que beijei, mãos que afaguei), mas minha preferida é “Apoteose do Amor” (ouça no link acima), uma deslavada declaração de amor cheia de metáforas e imagens belíssimas, com uma melodia inspiradíssima e uma interpretação... O que dizer da interpretação? Ah, já disse - escrevi aquilo (céu, trombetas, etc) ouvindo justamente Apoteose do Amor, na qual, por sinal, há um verso que se refere ao que hoje chamaríamos de chupar os peitinhos, mas, como disse, era um tempo em que a elegância falava mais alto:

São dois lírios os teus seios alabastrinos

Quase divinos, parecem feitos para os meus beijos...

Caso queira acompanhar a música ouvindo a letra, há dois erros absolutamente bizarros em todos os sites de letras de músicas – não sei de onde tiram exatamente os mesmos erros. No lugar de Muito almejo dos lábios teus o dulçor, colocaram Muito almejo dos lábios teus por um som! Isso mesmo. O cara ouve, não tem vocabulário para entender dulçor, e tasca um por um som. Que falta de elegância! E tem mais: no lugar de Minha alma mendiga amor, curvada aos teus pés, aparece um Minha alma, bendito amor, curvada aos teus pés. Oh céus! Mas ouça, que é de levantar vôo.

Houve um tempo em que os grandes artistas brasileiros eram devidamente homenageados no centenário. Duvido que hoje apareça em destaque o centenário do maior cantor brasileiro de todos os tempos, e cantor dos mais populares, como já desse, mas, com o perdão da deselegância, se o Ximbinha tá ou não comendo a Joelma, ah, isso tá em tudo que é canto dessa internet dos infernos. É deselegância prá mais de quilômetro!
Orlando Silva

domingo, 19 de maio de 2013

JULIO BARROSO E A FUNDAÇÃO DOS ANOS 80


1984
As mãos se agarravam desesperadamente no batente da janela. Pendurado do lado de fora, plena noite, ele parecia ter percebido a merda que havia feito, porque gritava por ajuda. O vizinho de cima ainda tentou arrombar a porta da sala, mas não deu tempo, o batente da janela se soltou...



Um sonho estranho nas paredes do prédio
Prefiro morrer de vodka do que de tédio
Acendo um cigarro e vou até a janela
Na rua umas sombras à luz do lua

Esse rock, que parece narrar a queda, fora gravado no ano anterior. “Perder um cara como o Julio é uma decaptação. A gente ficou órfão do nosso irmão mais velho”, disse João Luiz a Agenor, ambos desmoronados, na noite seguinte, no velório de Júlio Barroso. João Luiz e Angenor, que começávamos a conhecer como Lobão e Cazuza.

4 ANOS ANTES – 1980
O começo dos anos 80 a música brasileira estava ascensão, depois de sufocada por tanto tempo. O pessoal do nordeste, Zé Ramalho, Ednardo, Belchior e Fagner, de um lado, o pessoal do Clube da Esquina, Milton, Lô, Beto Guedes e mais um monte de gente boa do outro. Caetanos, Chicos e Bethanias emolduravam, como sempre com talento e competência, o quadro da Música Popular Brasileira. Ou seja, a música por aqui estava de uma caretice gigantesca.
Depois de morar 2 anos em NY, o jornalista, DJ e poeta carioca Júlio Barroso chegava a São Paulo cheio de ideias. O clima de SP estava favorável ao novo. O movimento independente ganhava formas. Só que Júlio era universal e queria mais. O negócio dele não era só a música, mas também a performance, a agitação, a poesia encenada.

UM ANO DEPOIS - 1981
Nos meus 18, sem trabalhar ou estudar, tímido e macambúzio, mergulhado em livros, metido a poeta, devorador de novelas e filmes, estava lá eu, ligado no MPB Shell 81, na Globo, sempre atento a uma nova “Canalha”, que Walter Franco, no festival da Tupi de 79, cantou de costas para a plateia, só se virando para gritar o refrão: “Canalhaaaaaaa”!

O festival rolava caretamente tranquilo, quando uma música começa com rugidos de leão e gritos de macacos e araras. Aí entra uma loira alucinante seguida de outras duas gatas, todas teatrais, soltas, expansivas, chocantes. Eram as Absurdettes. A loira alucinante fazia o estilo Kim Karnes, só que louca. Era May East (olha a sacada do nome: oposto cardial da loira do cinema May West !). O líder da banda, um cara esquisito, muito alto, óculos fundo de garrafa, camisa social, com um dente faltando bem na frente, tinha uma presença de palco espetacular. Sobre o dente faltando, perdeu quando, bêbado, chorava a morte de John Lennon – por isso não quis colocar outro, era sua homenagem a Lennon.

Oh! Mas que calor tropical
Mais que folhagem maneira
É sururu, carnaval
Tem festa na floreta inteira


A “Gang 90 e as Absurdettes”, que tinha visual inspirado na banda B-52, era linda e chocante ao mesmo tempo.

Quando o avião deu a pane
u já previa tudinho
Mim tarzan, you Jane
Incendiando mundos nesse matinho
Eu e minha gata
Rolando na relva
Rolava de tudo

Nem ele, nem as Absurdetes eram grandes vocalistas, mas não era de grandes cantores a cena musical brasileira precisava. Aquilo tudo ganhou a plateia na hora. O Brasil todo cantava o delicioso pop-rock “Perdidos na Selva”. Bons tempos quando o Brasil inteiro cantava coisas desse nível. O sucesso instantâneo alertou o mundo da música. Toda uma geração de jovens músicos percebeu que estava ali o caminho. A personalidade magnética de Julio Barroso, culto, caótico, verborrágico e doce, atraiu músicos que em breve iriam fazer a explosão do rock nacional.

1983
Em 83, a banda lança seu fenomenal disco “Essa tal de Gang 90 & As Absurdettes”. A empolgante balada new wave, “Nosso Louco Amor”, foi tema de abertura de novela da Globo. Sabe quando uma música toca tanto que ninguém aguenta mais? Não foi o caso dessa. Nunca é demais ouvir:

Nosso louco amor
está em seu olhar
quando o adeus
vem nos acompanhar
...
Agora aqui
passou a dor
na rua a luz
da cidade ilumina
nosso louco amor

Mas o disco tinha muito mais. Com JB no comando, as meninas fazendo vocais alucinantes, solos de guitarra e baixo com pegada pesada, “Eu sei mas eu não sei” é um rock que deveria entrar em qualquer lista das melhores músicas dos anos 80. É uma delirante e magnética declaração de princípios.

Eu posso, mas não quero

Você pode, mas não comigo
Você quer fazer mistério
Acontece que eu não levo a sério

Na sequencia, outro sensacional rock, rockasso de pegada pop, clássico, clássico, definitivo: “Convite ao Prazer”, aquela premonitória do início do post.

Dentro da banheira, espumas flutuantes
No jeito do corpo vejo crescer seu desejo
No brilho dos olhos um convite ao prazer
Ao prazer, um convite ao prazer
Ao prazer, um convite ao prazer

O disco é completo. Tem “Telefone”, uma balada romântica clássica, que o Ira gravou com a Fernanda Takai.

Pode ser de São Paulo a Nova York
Ou tão lindo flutuando em nosso Rio
Ou tão longe mambeando o mar Caribe
A nossa onde de amor não há quem corte 

E o mais deliciosamente cantado refrão da história da música universal:
Oh meu amor
Isso é amor
Oh meu amor
Isso é amor

Outra balada clássica: “Noite e dia”, parceria com Lobão. Conforme o próprio Lobão afirma, ela já estava quase toda na cabeça do JB, que generosamente o convidou a compor em parceria, depois de perder sua namorada (uma das Absurdettes) para o próprio Lobão.
No escuro do quarto, bela na noite
Nas ondas do luar
Seus olhos negros, pantera nua
Vem me hipnotizar
Eu olho sorrindo, lindo!
Você está me convidando
Menina quer brincar de amar
Você está me convidando

O disco termina com a onírica e elíptica Jack Kerouak, que acaba assim:
Ontem à noite eu sonhei
Que conversava com Jack Kerouac
Ele chegava e me dizia
"Hey Man! eu renasci black
E agora sou um tocador de piston!"
Eu só sei que o som era tão alto que despertou o mundo inteiro
Eu acordei, e saí mandando brasa nas estradas do mundo.
Sair mandando brasa nas estradas do mundo. Foi o que fez.
1984 NOVAMENTE

Um sonho estranho nas paredes do prédio
Prefiro morrer de vodka do que de tédio
Acendo um cigarro e vou até a janela
Na rua umas sombras à luz do luar

Julio Barroso não cabia num apartamento, talvez nem numa banda. Por isso resolveu fundar não só uma banda, não só o rock brasileiro de Legião, Ultraje, Titãs, Barão. Júlio Barroso talvez tenha fundado o Brasil dos anos 80.

domingo, 24 de março de 2013

THE DARK SIDE OF THE MOON


Hoje é domingo, o dia da semana que mais carrega significados. Na minha infância, significava ver “A Família Trapo” (nome que, aprendi no Google, foi inspirado na Família Von Trapp, aquela do musical “A Noviça Rebelde”), com Otelo Zeloni, Renata Fronzi (a cara da minha irmã Ana), Golias e Jô Soares. Para muitos, domingo significa comer maionese e macarronada, ver Silvio Santos, ir ao futebol... Há tempos que para mim domingo significa ler o jornal de domingo, o que normalmente faço na cama, antes de me levantar. Maravilhas da internet móvel.

E hoje o jornal trouxe uma informação que mudou meu dia e, espero, mude o seu: há exatos 40 anos era lançado um dos maiores discos da história da música – The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, aquele cuja capa é a mais conhecida da história das galáxias. Levantei já com o dito cujo nos ouvidos (tenho o “disco” no mesmo celular em que li a matéria), saí com os cães, fiz compras, cozinhei um ratatouille, e neste momento estou bebendo um freixenet, tudo ouvindo várias vezes a genial obra prima da banda inglesa.

Ouvi Dark Side pela primeira vez lá pelos 17 anos (quando foi lançado eu tinha 11), numa fita que o Sinistro (um dia escrevo sobre ele) gravou para mim. Foi uma pedrada. Senti tudo o que aquela obra queria dizer sem ter a mínima ideia do que dizia e quando, sei lá quanto tempo depois, tive acesso à letra, constatei, sem nenhuma surpresa, que tudo o que eu sentia quando ouvia, era exatamente o que as letras diziam. Quando a forma comunica e toca, o nome disso é arte! E quanto mais comunica, mais arte é. Assim é com o cinema, com a pintura e, creio, com qualquer outra verdadeira manifestação artística: diz coisas relevantes e profundas através da beleza das formas. No caso de Dark Side, as formas se fazem com ritmos, instrumentos, vozes, cantos, sons e alma.

Cada passagem de cada música foi cuidadosamente elaborada de modo a não se limitar à melodia e aos instrumentos. Sons de objetos, falas avulsas, sequências rítmicas feitas com instrumentos novos ou mesmo com não-instrumentos engenhosamente criados com o fim de transmitir algo a mais. A criatividade e a capacidade de inovação do quarteto estavam a mil. O resultado foi a maior obra pop-rock da história.
Lembro-me que quando ouvia a abertura, com aquele coração pulsando grave, a explosão, o grito e aquela melodia elíptica, tudo ali parecia falar comigo, com minhas angústias, com meu coração aprisionado de adolescente. O nome da música? “Speak to Me”, descobri depois.

O disco é uma obra uníssona, como uma sinfonia. Cada música é preparação para a próxima, com nível emocional cada vez maior.  A segunda melhor ligação de uma música para outra, na história da música universal, é a passagem da sinuosa "Any Colour You Like" para da épica “Brain Damage” (“The lunatics is on the Grass...”). A melhor passagem da história é exatamente a seguinte, de “Brain Damage” para “Eclipse”. Maldito seja para toda a eternidade aquele que ouvir uma sem a outra. E que morra seco aquele que as ouvir na sequencia e não ficar paralisado de emoção, admiração, respeito, estupefação, seja lá o que for... O final do disco, com Eclipse, é de uma emoção indescritível. Só ouvindo...

Ao contrário de nós, que envelhecemos a cada ano, parece que “Dark Side” não envelhece, está cada vez mais cheio de qualidade, energia e significado.

Curiosidade, para fechar com chave de ouro e com mistério: diz a lenda que as músicas foram feitas sobre o filme “o Mágico de Oz”, como se fosse uma trilha sonora. Gilmour e Waters negam, mas, de fato, são impressionantes algumas coincidências entre os climas e os momentos de virada das cenas e das musicas. No link, o filme e a música juntos: http://www.youtube.com/watch?v=h6a5DH_ePVQ

 Dê esse presente a você mesmo: ouça, o mais rápido possível, mas ouça como se deve, sem ninguém por perto, sem pensar em mais nada. E se você gostar, e se ficar paralisada*, então...
“I'll see you on the dark side of the moon

* Acho que quando escrevo penso em mulheres, ou em uma mulher, sei lá...

domingo, 19 de agosto de 2012

CELSO BLUES BOY - INVERNO NA ALMA

Olá, leitor amigo, leitor inimigo, leitor indiferente a este autor, sobrinhos ávidos por descobertas, esposas de sobrinhos, sobrinho exímio guitarrista (Paulo Ribeiro, a quem, em minha fase pobre, dei um DVD pirata do Pat Methneny que não rodou – só para constar, a fase pobre já passou e tenho saudades dela...).

Antes de continuar lendo, pegue seu fone de ouvido, ou aumente o volume dessa caixinha de som furreca que você tem conectada ao micro. Ouça o link abaixo enquanto lê. É sério. Se não for ouvir, melhor nem ler. Dê o play. Pronto, pode continuar.

Homem das Ruas

Outro aviso, este ao leitor feliz que adora colocar mensagens positivas no facebook pensando que vai fazer bem a si ou a quem quer que seja: Humberto Laraia se apropriou dos dedos que digitam estas letras, o que significa que este pôsti é somente para aqueles que possuem coração onde nuvens negras choram.

Quanto ao que você está ouvindo, pelo jeito de cantar você deve estar pensando que é o Tio Moa cantando com sua voz gutural erótica em uma de suas raras e disputadas aparições nos palcos de karaokê da capital federal. Karaokê, veja só... Sem o virtuoso violão do Luiz, irmão do Junco, com quem cantava blues nos anos 90, Tio Moa teve que apelar para os Karaokês... É a vida.

Voltando à música, não; não é o Tio Moa cantando. O que o Tio Moa faz, desde que conheceu Celso Blues Boy, é cantar como ele, porque sempre lhe pareceu ser esta a única forma sincera de se cantar. Celso Blues Boy é um virtuosíssimo guitarrista brasileiro que ousou compor, tocar e cantar blues brasileiro. Blues, que conheci de verdade com o Paulão Magalhães, um amigo com alma de bluesman, é um gênero de origem afro-americana, que começou expressando a dor e o sofrimento dos escravos do sul dos Estados Unidos. Hoje o blues continua igual, expressando a dor e o sofrimento da escravidão, só que agora é a escravidão do amor e da solidão. Robert Johnson, que teria vendido sua alma ao diabo numa encruzilhada, popularizou o blues. Bob Dylan, Eric Clapton e BB King beberam em sua fonte e se lambuzam até hoje. Celso Blues Boy compôs uma música (Mississipi) com essa história do Robert Johnson, e a gravou dividindo guitarras e vocais com BB King. CBB fazia blues brasileiro e viveu o blues radicalmente, até o fim. Mas do fim falarei só no fim, como convém à cronologia da existência, exceto naquele filme chato em que o Brad Pitt nasce velho.

Agora dá um stop na música anterior e bota pra tocar essa maravilha aí embaixo, antes de continuar a ler. 


Trata-se de “Se você pudesse me ver” – tudo é lindo, letra, melodia, canto e guitarras incríveis do Blues Boy, cujo apelido, referência ao BB King, foi dado provavelmente quando tocava com Raul Seixas. O próprio BB King convidou CBB a fazer carreira nos Estados Unidos. Recusou, como também recusou o convite para fazer parte do lendário The Commitments, grupo criado por Alan Parker para o filme homônimo (não deixe de ver, se gosta de música e de cinema) e que continuou como grupo depois do filme. Nosso Blues Boy chegou a ser sucesso por aqui, no final dos anos 80, com o petardo “Sempre Brilhará” tocando nas rádios, na TV e em alguma novela. Mas Celso gostava mesmo era de seu mundo blues, de ser marginal. Aliás, seu segundo disco é o Marginal Blues, cujo carro chefe era a agitada “Marginal”, que gravou com Cazuza, que entrava bem ao seu estilo, rasgando com
A sua mãe não trabalhava
Prá você virar um marginal!
A popularidade dos anos 80 nunca mais se repetiu, mas Celso Blues Boy manteve-se como um ícone, não só entre os fãs do blues, como entre os roqueiros e os guitarristas brasileiros, porque o cara realmente era um monstro. 

“Era”, porque, se ainda não disse, ele morreu há menos de duas semanas, aos 56 anos. CBB foi considerado pela revista Backstage americana um dos 20 maiores guitarristas do mundo. Sua popularidade nunca mais foi a mesma, o que, felizmente, não significa nada (Michel Teló é popular no mundo todo).

Pois foi exatamente na fase pós-fama, já no final dos anos 90, que CBB compôs seus melhores discos, os insuperáveis Indiana Blues-1996, Nuvens Negras Choram-1998 e Vagabundo Errante-1999. Neles, sua voz está mais madura e sua guitarra mais impressionante, com solos que choram no melhor estilo Duane Allmann. São estes os discos mais ricos, equilibrados, emocionais e, sobretudo, mais depressivos, portanto, mais belos.

"O quê", indaga o incrédulo leitor positivista que teimou em ler o pôsti até aqui. "Quanto mais depressivo, mais belo?" 

Aqui um esclarecimento a todos aqueles que postam lindas mensagens de vida no facebook porque pensam que a felicidade é a melhor coisa do mundo: sinto por contrariá-los, mas a verdadeira beleza vem da dor. A Nona Sinfonia, a maior composição da história do planeta, foi composta na fase mais dolorosa de Beethoven. Você já leu, do Goethe, “Os sofrimentos do jovem Werther”? Uma maravilha! Um dos maiores discos brasileiros de todos os tempos, “Loki”, é uma ode à dor. Tenha certeza de uma coisa: alegria só faz axé e pagode. Sofrimento e dor fazem arte e beleza.

Então eu toco um blues, são as notas que choram
feito um açoite é a minha guitarra
no coraçao da noite, no coração da noite

Caso a música anterior tenha se acabado, coloque essa que vem abaixo. Se não, espere acabar, porque é uma heresia interromper essa maravilha no meio, e justamente num solo alucinante, delirante, emocionante, ante ante ante.... Calma, relaxa esse coração cheio de angústia, essa alma que transpira ansiedade... Ouça...

Pronto, acabou. gora clica na próxima. 

Agora que já está rolando "Nuvens Negras Choram" você está preparado para ler o resto.

Antes que você chore, vou te dar um presente: para quem pedir, via comentário, eu faço um CD com uma seleção. Quem não for de Brasília, manda o valor de um SEDEX (não aceito outras forma de postagem, nem outra empresa) que eu envio. Mas saiba que um CD de seleção é um avilte, não serve para conhecer um músico, assim como melhores momentos de um jogo não serve para saber como foi o jogo. Uma seleção serve para dar um empurrãozinho, para querer conhecer, para a gente sair do óbvio, conhecer alguém diferente e ter vontade de ir atrás de seus discos.

O óbvio é gostarmos de Eric Clapton (o Deus), Bob Dylan, Pat Metheny, Gilmour e outros gênios mais conhecidos. Mas há um gênio por aqui, pertinho, e não conhecemos. E não se trata de valorizar a coisa nacional, que isso é bobagem - "O patriotismo é o último refúgio de um canalha". O que vale na arte não é a sua origem geo-política, mas ser tocado por ela. É assim na música, no cinema, na arte, enfim. Para ser tocado por uma música, ela tem que conversar com a gente, nos dizer algo no fundo da alma (é óbvio que a qualidade é condição sine qua non - o Michel Teló pode eventualmente dizer algo a mim, o que duvido um bilhão de vezes, mas digamos que me fale - nem assim me tocará, porque ele faz lixo, não arte). O blues brasileiro do Celso Blues Boy me diz muito, e é muito, mas muito bom.

Como disse no início, Celso Blues Boy viveu o blues até o fim.
Descobriu uma merda de um câncer na garganta, mas recusou o tratamento.
Não contou para ninguém e pediu para ser cremado, virar fumaça.
Fumaça que tanto aparecia em suas letras...
O que sei é que a morte de um músico nunca me abalou tanto.
Sinto-me a própria Sra dos Sarsais quando Dércio Marques se foi, com a diferença que não chorei, porque sou homem e homem que é homem não chora! Coça o saco e arrota no lugar de chorar, para mostrar que é homem. Além de não chorar, o homem mente um bocado.
Mas, você há de convir... Celso Blues Boy não é como qualquer outro: eu cantava imitando o cara!
Quando a gente canta, é nossa alma se lavando, se abrindo... Tá bom, tá bom: estou chorando!
Sinto o inverno em minha alma...

sábado, 21 de julho de 2012

VIAGENS FASCINANTES COM LYKKE LI

Quer dar um passeio pela cena noturna de New York?


Quer viajar ao tempo em que Kate Bush estava a mil na sua fase pós-romântica?


Que tal estar no backstage de um desfile de modas na Europa?


Sabe aquele clima dos filmes do David Lynch com aquelas músicas etéreas do Angelo Badalamenti? 


Está com saudades daquela sonoridade romântico-retrô da Amy Winehouse? 


Gosta do som de violão suavemente folk, com tons de Neil Young?


E uma viagem ainda maior no tempo? Que tal os anos 50, aqueles da rede de lanches The Fifties, ouvindo aqueles grupos vocais femininos cantando Mister Sandman (toca quando McFly chega aos anos 50 em “De Volta Para o Futuro”) ou Be My Baby (que rola nos créditos de “Baby Mama”)?


Gosta de melodias boas de cantar? E de um bom refrão, daqueles gostosos de repetir? 


Você é do tipo que gosta de se sentir inteligente e moderno?

Gosta de letras poeticamente fortes e angustiadas?


E que tal agora fechar os olhos e enxergar na sua frente uma mulher linda, toda vestida de preto, cantando prá você com uma sensualidade gélida e uma voz deliciosa e levemente nasalada, cantada por lábios docemente carnudos? 


Lykke Li
Ter tudo isso não tem preço. Tanto não tem que é quase de graça: pela merreca que custa um CD você pode ter tudo isso. Saia daí agora e vá atrás de “Wounded Rhymes”, CD da Lykke Li. Ouça e você viajar por todas essas sensações e muitas mais (pode ser a seco, inclusive, embora um tempero sempre seja bom – o meu preferido é uma taça borbulhante). Cada faixa é uma viagem diferente, todas fascinantes. 


A Lykke Li, sueca, segundo disco, conseguiu tirar meus ouvidos do monopólio do Príncipe do Sertão a que, nas últimas semanas, se sujeitavam. Isso não foi pouco. E haja mudança de rumo. Talvez as elegantes cantigas sertanejas tenham aberto minha alma para receber o som dessa menina de vinte e poucos anos. Não é pouca coisa o que essa mulher faz.  


O mundo precisava mesmo de mais uma cantora assim, que pudesse derramar sobre os mais exigentes suas músicas cheias de beleza, densidade e diferentes texturas. Uau!


segunda-feira, 2 de julho de 2012

DÉRCIO MARQUES, O PRÍNCIPE DO SERTÃO


Dentre minhas inúmeras e reconhecidas qualidades, destaco a modéstia, que não apenas me impede de relacionar as demais, como me obriga a reconhecer uma das minhas famosas imperfeições: a total falta de elegância. Como é sabido, e minha amiga Estela sempre me lembra, visto roupas tão inadequadas que fazem minha barriga parecer volumosa e adiposa, mesmo sendo ela feita apenas de rijos músculos abdominais. Uso cinto bege coordenado com sapato da mesma cor, já usei celular no cinto e, quando tenho coragem, uso aquela bolsinha conhecida como capanga. Algumas amigas seguidoras deste blógui, tipo a Fernanda, sempre sutil, devem estar pensando em me dizer:
“Não é bem assim, você pode não usar roupas muito elegantes, mas elegância não está só nas roupas”
Onde mais está a elegância, então, Fernanda?
“Nos modos. Tem pessoas sem habilidade no uso das roupas, mas que tem modos elegantes”.
Ah, você está sugerindo que meus modos são elegantes?... E as incontáveis vezes em que saí de restaurantes com a camisa toda manchada de molho? Nem vou mais a restaurantes italianos por conta disso. Lembra aquela vez em que você me fez sair direto do restaurante para uma loja comprar uma camisa nova? Até me pagou a camisa!
“Amiga é prá essas coisas, não liga não, às vezes acontece...”


Sim, amigas, seguidores e visitantes em geral: falta-me elegância. Consequentemente, e para decepção geral, elegância não é o forte deste blógui. Mas não há mal que sempre dure: vou tratar já de inchê o blógui de elegânça: convidei o cantadô Dércio Marques prá dar uma passadela por aqui. E num é qui ele veio mesmo?


Primeiro, ele veio pelas memórias deste autor: 1980, ainda ditadura militar, em pleno horário nobre, os produtores da Globo quiseram reeditar os grandes festivais e deixaram rolar, por exemplo, Baby Consuelo cantar deliciosa e provocantemente “você pode fumar baseado, baseado em que você pode fazer quase tudo”. E deixaram também um tal de Dércio Marques interpretar uma música do Elomar, um grito sertanejo, agônico e carregado de revolta. Só que comigo acontece sempre. E quando convido uma mulher para jantar e, na hora de pagar a conta, vejo que esqueci o cartão? Isso é elegância? E as piadas constrangedoras que faço?


“u'a vontade aqui me dá / dum dia arresolvê / quebrá a cerca da manga / e dexá de sê boi manso / e dexá carro dexá canga / de trabaiá sem discanço / me alevantá nos carrasco / lá nos derradêro sertão / vazá as ponta afiá os casco / boi turuna e barbatão / é a ceguêra de dexá / um dia de sê pião / de num comprá nem vendê / robá isso tomem não / de num sê mais impregado / e tomem num sê patrão...”
Aí abaixo, a música com a gravação original de Dércio Marques (na capa do vídeo o autor, Elomar)


E o Dércio Marques cantou todo elegante, ao mesmo tempo leve e firme. E sua voz de trovador transmitindo dor e gravidade silenciou aquela platéia chata de festivais, como um Romarinho em La Bombonera. Foi impressionante. E ele foi prá final, mas, afinal, era a Globo, e adivinha quem ganhou o festival? Se fosse resolver, iria te dizer que foi minha aaaaaaaaaaaagonia, para alegria da Fernanda.
Tempos depois dessa verdadeira revelação que foi ver Dércio Marques, estava eu já em Brasília, em meio a uma das muitas prosas poéticas e lunares com o grande Panta, quando eu perguntei se ele conhecia o Dércio Marques. 


“Se conheço? E ele não é lá de Uberaba? Já andamos muito por esse sertão... Carlão, mais uma...”
“Carlão, mais uma”, na boca do Panta, significava, para meu deleite, “senta que lá vem história”.
Prá quem não leu um pôsti antigo deste blógui (A incrível história do CPNES - Parte 2, de julho de 2010), o Panta é aquele menino cujo pai batizou sarcasticamente de “Clube da Esquina” os encontros dos jovens Lô, Bituca, Beto e Toninho na frente da sua casa. Não, leitor curioso, não vou falar dos Beattles das alterosas. O pôsti hoje é sobre Dércio Marques, o príncipe do sertão. Pois o Panta, cansado da capital mineira, voltou às roças de Uberaba, onde no final das tardes se podia ouvir pius dos inhambus e sabiás e bois tristonhos berrando as histórias do lugar. E foi ali, no sertão de lençóis de cambraia, perfume de Assa-Peixe e moças lindas em vestidos floridos, que Pantaleão conheceu aquele príncipe de verdade, disfarçado de elegante cantador: Dércio Marques. 


Panta me contou das andanças que fizeram pelo sertão. Dércio Marques era um Villa Lobos: entrava por dentro do Brasil garimpando diamantes, que lapidava com sua voz de cantador, com a riqueza dos arranjos, com os dedilhados de sua viola e com sua elegância de príncipe que, de fato, era. Mas, veja bem, ele não era do tipo que pegava qualquer coisa, não. Pegar qualquer porcaria, botar um arranjo legal e cantar bonito e, é fácil; até o Caetano, as vezes no silencio da noite, se sentindo muito sozinho, faz, por sinal, divinamente. Dércio trazia todos os ritmos e estilos, todos os bons cantadores, não como riqueza folclórica, mas como beleza mesmo. 


Certo dia, no interior de Pernambuco, avistou, na varanda de um pequeno castelo cercado de sarsais, uma jovem donzela muito linda, mas também muito triste. O príncipe olhou para ela e sorriu, mas ela só chorava. Foi quando ele sacou a viola do lombo do cavalo e cantou uma se suas músicas mais tristes. No final da cantoria, a moça sorriu e acenou. O príncipe respondeu com um aceno elegante, guardou a viola e seguiu viagem. Panta viu que a moça tinha ficado caidinha pelo Dércio e pensou que, se fosse com ele, subia lá e agarrava a moça. Essas artistas são mesmo estranhos. Já começando a seguir o cantador mata adentro, Panta ainda teve tempo de se virar e perguntar o nome da donzela, mas não entendeu bem a resposta, pareceu-lhe que ela respondeu Neide ou Lady, talvez Cleide.


A gente nunca sabe se as histórias do Panta são reais ou não. A própria existência do Panta é questionada. Eu mesmo às vezes me pergunto, quando a razão me domina mais do que eu gostaria, se ele de fato existe ou se é uma fuga da minha mente. O fato é que ouvir Dércio Marques é viajar de primeira classe para o sertão. Tudo é lindo e calmo ali. Algumas de suas faixas instrumentais levariam até o exigente Fábio a falar “que maravilha!”, muito embora, segundos depois completasse com o indefectível “mas Pat Metheny é melhor”. 


Durou dias e dias, talvez meses, aquela noite em que o Panta me contou das viagens com o cantador mais elegante que esse sertão já viu e que culminaram com a gravação do disco do qual o Panta mais gostava: Fulejo. Pois desde que, na semana passada, eu soube que o cantador saiu para nova viagem, desta vez sem o Panta, eu tenho ouvindo o “Fulejo”, o maravilhoso “Terra, Vento e Caminho” e mais um monte de discos do Dércio Marques, o que tem me valido como uma mega injeção de paz, beleza e elegância nas veias e na alma. Desde então não tenho mais dores de cabeça.

Semana que vem, convidarei a jantar alguma linda donzela, quem sabe a Donzela dos Sarsais, que a esta altura certamente já é uma Senhora dos Sarsais, para jantar comigo num restaurante italiano. Sairei de casa tão elegante que até a Estela aprovaria. E mais: aposto com quem quiser que não esqueço o cartão do banco e que saio do restaurante de camisa limpa. Quanto às piadas constrangedoras... bem, ninguém é perfeito.  


E, para fechar este pôsti do modo mais elegante, nada como ver uma entrevista do próprio Dércio Marques falando sobre música e sobre seu papel.


domingo, 15 de abril de 2012

A VOZ CHATA E RENITENTE DE RAUL


Apesar dessa voz chata e renitente 
Eu não tô aqui Prá me queixar
E nem sou apenas o cantor
Rollo May, em seu livro “O Homem à Procura de Si Mesmo” diz que o grande problema do homem é o vazio. As pessoas não sabem o que desejam, e sim o que os outros dizem que devem desejar. Assim passam a vida, comportando-se da forma dita correta, normal, aceita plenamente pelos outros. Poucos percebem que não passam de um espelho do que os outros esperam deles. Desses, raros são os que tomam a atitude de se perguntar “ei, cadê o meu self?” e sair em busca de si mesmos. 
Entretanto, alguns desses “raros poucos” não conseguem conviver simultaneamente com os dois papéis (o self-hunter, que procura seu eu e o do espelho, que consegue agradar à maioria). Fazer o que a sociedade espera e comportar-se de acordo com o padrão avilta de tal forma o núcleo do ser, que alguns simplesmente não aguentam se comportar como a maioria, abdicando de serem “normais” para não serem sufocados. Somente assim conseguem afirmar-se como indivíduos, e não como espelho. Não que saibam exatamente o que são, mas sabem que não são o que outros querem que sejam, e isto já é um bom começo para encontrar-se.
Não sei onde eu to indo
Mas sei que eu to no meu caminho
Enquanto você me critica, eu tô meu caminho
Os “malucos-beleza” não são as pessoas mais, digamos, desejadas pelas rodas da sociedade, incluindo a roda em que vivemos, eu, tu e o rabo do tatu. Ou vai negar que torce a cara quando vê um cara com barba mal cuidada, jeans todo surrado na rua erguendo os braços e gritando “viva a sociedade alternativa”? Jura por deus, ops, por Deus que você não ri de uma mulher vestida de panos esvoaçantes que entre num espelho d’água, mergulhe a cabeça e saia com as mãos unidas em agradecimento à luz universal? Assim são os seguidores do Raul, ou pelo menos o estereótipo que fazemos deles. “Mergulhar em si mesmo significa assumir as escolhas feitas e principalmente vive-las de modo intenso de forma que exista libertação de toda forma que aliena o homem.” (Rollo May)
Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno
Nesta semana vi “Raul – O Início, O Fim e o Meio” e saí meio grogue. Além da deliciosa experiência que o filme proporcionou a mim, que vivi os anos Raul, e à minha filha adolescente, que viveu os anos Xuxa, que foi comigo ao cinema (minha filha, não a Xuxa), o filme me fez lembrar que Raul não é apenas grande roqueiro, um grande músico, um grande artista. Raul é um mito. A cena que mostra a passeata anual em memória de Raul me intrigou. Não são algumas pessoas, nem 100 nem 200, é uma multidão! Além dos tradicionais Raul-covers e dos contemporâneos do maluco-beleza, tem ali gente muito nova. Todos cantando músicas do Raul. Fazem essa homenagem todos os anos. Que fenômeno é esse? Que outro ídolo brasileiro, de todas as áreas, música, cinema ou esportes, tem tantos fãs, tantos seguidores capazes de fazer algo semelhante?
É hora de confessar: não sou fã e nunca tive um disco do Raul (compilação não vale, pois não passa de um extrato de algumas músicas que mais tocaram). Por isso, após o filme procurei a redenção: ouvi todas as músicas de todos os discos do Raul. Não sei se ele, o Raul, me perdoou. Mas eu sim, me perdoei. É bem verdade que perdi muito não conhecendo antes as maravilhas do Raul, mas explorá-las agora está me permitindo uma paixão absolutamente nova, uma viagem intensa (fiz uma compilação com 30 músicas que eu, e talvez quem não é fã, não conhecia, e as 30 são absolutamente sensacionais, letras, melodias, performance, tudo). Outra vantagem de não ter conhecido antes é que, do jeito que eu sou, poderia estar hoje usando jeans surrado, erguendo os braços e gritando vivas à sociedade alternativa. Isso se eu não estivesse tomando banhos no chafariz da praça e agradecendo à luz universal.
E é por aí que, creio, passei a entender o fenômeno Raul, não sem a ajuda de Rollo May e de outras consultas filosóficas. Veja isto:
Um motorista de ônibus do Bronx, certo dia, saiu à esmo com o ônibus vazio e só foi apanhado pela polícia dias depois, na Flórida. Explicou que, cansado de dirigir na mesma linha diariamente, decidira viajar. Enquanto o traziam de volta, a companhia em que trabalhava não sabia o que resolver a seu respeito – se devia ou não puni-lo. Quando chegou ao Bronx estava célebre. Uma multidão de pessoas, que jamais o vira, estava a sua espera. As pessoas se identificaram com o vazio do motorista do Bronx e vieram confirmar essa identificação formando um grupo solidário, cuja mensagem era nítida: Eu sinto a mesma coisa e sofro pelo mesmo motivo, mas você teve a coragem de dizer fazer alguma coisa diferente. Pronto! O motorista transformou-se em herói.
A angústia é de todos, mas raríssimos se rebelam. Aí que entra o Raul: sua mensagem era libertária, consistente e universal. Raul era um maldito, falava o que bem entendia, inclusive, e especialmente, coisas que eram agressivas ao sistema político e social. Falava de sua busca por si mesmo, da liberdade de ser quem é e não espelho dos outros.
Se você sente receio do inferno
Do fogo eterno, de deus, do mal
Eu sou estrela no abismo do espaço
O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço
Onde eu tô não há bicho-papão
Eu vou sempre avante no nada infinito
Flamejando meu rock, o meu grito
Minha espada é a guitarra na mão
Raul, com sua voz chata e renitente, deu um discurso para os angustiados, para os inconformados, para os tímidos, para os esquisitos, para os rebeldes, para quem não consegue ou não quer se enquadrar. Mas fez muito mais do que isso: como sua música era ao mesmo tempo popular e excepcionalmente criativa, enfim, de altíssima qualidade; como sua personalidade e sua figura era altamente performática e conectada com seu tempo, Raul acabou caindo nos braços da mídia. Ou seja: era ao mesmo  tempo um maldito e um queridinho da mídia.
Desde aquele tempo enquanto o resto da turma se juntava pra bater uma bola!
Eu pulava o muro, com Zézinho no fundo do quintal da escola
Com Raul na crista da onda, os deslocados em geral puderam responder às críticas: “enquanto você me critica eu tô no meu caminho”. A partir de Raul, os angustiados puderam pular o muro do fundo do quintal da escola. "Se o cara que todos gostam, o cara do chacrinha, o cara do Fantástico, fala que a gente tem que ser diferente, quem é você prá me criticar"? Duvidam que Raul era a glória, sobrinhos do Tio Moa? Pois saibam que por muitos anos as músicas novas do Raul eram anunciadas durante toda a semana para estrearem no Fantástico como a atração da semana.
Vai! Vai! Vai!
E grita ao mundo Que você está certo
Você aprendeu tudo Enquanto estava mudo
Agora é necessário Gritar e cantar Rock
E demonstrar o teorema da vida
Raul fez todos cantarem com ele sua busca por si mesmo, sua diferença. Raul deu sentido à vida de muita gente. Deu até uma oração, Ave Maria da Rua:
Não estou cantando só
Cantamos todos nós
Mas cada um nasceu
Com a sua voz,
Pra dizer, pra falar
De forma diferente
O que todo mundo sente
Para quase finalizar: considere-se um lixo se perder o filme, obrigatório para quem gosta de música, de arte, de mídia, de fenômenos sociais e de uma boa história. Não é um filme apenas para quem gosta de Raul. Para vocês, sobrinhos do Tio Moa, que não viveram os anos Raul Seixas e só conhecem algumas de suas músicas mais tocadas, o documentário dirigido por Walter Carvalho é uma diversão garantida; você vai conhecer um cara interessantíssimo, vai rir e, eventualmente, vai chorar. Além da diversão, vocês terão como bônus um tesouro, se sua curiosidade o levar a garimpar as jóias do baú do Raul. Raul, na tela, explode, lindíssimo e poético, em jorros de sons e imagens. Veja o trailer aí em baixo.
A escolha apresenta ao homem uma grande gama de possibilidades, que o leva a viver a angústia mais profunda de todas, a de escolher nas possibilidades. As possibilidades, não se sabendo o resultado de suas escolhas, levam ao desconhecido. Quando ocorre esta entrega real ao desconhecido o homem no final do processo encontra sua felicidade e passa então a viver sua existência feliz e com muito mais intensidade. (Rollo May)
Quer saber de uma coisa? Acho que vou deixar minha barba crescer e pegar no fundo do armário aquele jeans que não tinha mais coragem de usar. Mas sosseguem, que dificilmente usarei panos esvoaçantes e não tenho a mínima vontade de entrar no primeiro chafariz que encontrar.
Não pensa que a cabeça aguenta se você parar
Há uma voz que canta, uma voz que dança, uma voz que gira
Bailando no ar
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