terça-feira, 20 de julho de 2010

TIO MOA E O MARIDO DA CABELEIREIRA EXPLICAM O AMOR IDEAL

Uma amiga minha disse que é do século passado, que quer achar um cara bacana, casar, ter filhos... Eu também sou do século passado, só que eu tenho um probleminha adicional: idealizo demais o amor. Desde que percebi que “ô ô ô ô... eu gosto é de mulher”, sempre criei, aqui nesse treco cinza que tenho atrás dos meus olhos, mulheres ideais imaginárias, se é que existem mulheres ideais mesmo na imaginação. As mulheres também sonham com o homem perfeito, se é que existem outros homens perfeitos além deste que vos escreve. Perguntei ao Tio Môa se existe mulher ideal. Ele disse que sim e ainda me garantiu que ela sempre aparece, mas só quando estou de olhos fechados.


Esse que é o problema: quando fechamos os olhos não vemos a realidade e idealizamos o amor, achando que vai ser sempre maravilhoso, como o do marido da cabeleireira... Ahn... Você não conhece a fabulosa história do marido da cabeleireira? Absurdo. Mas fique tranqüilo, que cuidarei de saciar sua curiosidade. Depois então eu concluo a imperdível explicação sobre o amor ideal.

“O Marido da Cabeleireira” é um filme que meu amigo/irmão Pinchu, entusiasmadíssimo, um dia me indicou. É um filme francês de 1989, dirigido por Patrice Leconte, que acaba de ser lançado em DVD . É daqueles prá ter no quarto. Acabei de revê-lo por mais duas vezes. Na cena inicial, numa praia, um menino bem magrinho, com uma larga e horrível sunguinha de lã, dança esquisitamente ao som de uma música árabe. As cores da cena são antigas e francesas, se é que as cores têm idade e nacionalidade. O menino é de uma humilde família francesa, se é que existe francês humilde. Ele é totalmente fascinado pela cabeleireira do barro, uma gordinha erótica, se é que... bom deixa prá lá.


E num belo dia ele vai cortar o cabelo. A cabeleireira tem a blusa semi-aberta e quando se inclina o garoto fica paralisado, boquiaberto diante da fartura e da beleza daqueles seios. A cena é belíssima, suave (apesar do tamanho daqueles melões), de uma pureza impressionante, e dita o que será do resto do filme. Mais tarde, à mesa do jantar, o pai pergunta o que ele quer ser quando crescer e ele, sem pensar: quero casar com uma cabeleireira. Leva um tabefe dos grandes, mas incapaz de tirar seu torpor. Acabara de decidir seu futuro.


O resto do filme é todo poesia. Um filme para ser visto com a leveza dos que amam, com a pureza dos que sentem que há algo a mais nesta vida do que lógica e ação. Em alguns momentos da narração em off, vemos o próprio narrador, o marido, parado, com uma feição triste e contemplativa. Não entendemos exatamente o que está acontecendo, mas podemos supor.


O filme mistura lembranças da infância com a fase em que ele, já maduro, finalmente encontra uma cabeleireira. Não é uma cabeleireira, é A Cabeleireira. A facilidade com que ele consegue se casar com ela, fisicamente tão diferente dele, parece dizer que quando se tem foco e determinação, pode-se conseguir tudo. Nada disso: trata-se de uma fantasia, de uma poesia, de uma ode ao amor, ao amor ideal, sem concessões à realidade.

A vida no salão é totalmente dedicada à celebração do amor. O contraste entre eles é tão grande quanto belo. A cabeleireira é jovem, leve, sensual e transbordante de amor e beleza. Seu sorriso é nada menos que divino e praticamente constitui um personagem em si. Já o marido é um idílico romântico apaixonado de meia-idade, nada bonito, mas com uma expressão e um olhar cativantes. Amante da música árabe, sua dança, esquisita e magnética (que o diga o garoto que vai cortar o cabelo), é símbolo de sua constante celebração ao amor ideal e à felicidade.


Bem, até que a realidade surge. Uma “briga” diz aos dois que a tal da realidade, a da banalização da vida a dois, está ali, à espreita. O medo dessa realidade impõe um desfecho forte, mas que eterniza o amor ideal. Na delirante e inesquecível seqüência final, mais uma vez o marido dança, reafirmando seu apreço pela alegria, pelo amor, pela fantasia, e o seu desprezo pela realidade. Entretanto, no take final essa poderosa realidade surge, amarga, soberana, observando-o lá do alto, como a dizer: não adianta, no fim o que vale é a vida real. Trata-se de uma porrada em nosso estômago, que é, como se sabe, o órgão que sente o amor (quem nunca sentiu frio na barriga quando apaixonado?).


Apresentados o marido, a cabeleireira e a linda e tocante fantasia sobre o amor puro e ideal, voltemos ao tema. Tio Môa me disse:


“Para ter o amor ideal, jamais abra mão da fantasia, do romance, da entrega, da paixão. Mas não idealize demais, porque as pessoas são de carne e osso e a vida a dois é de osso e carne. Cozinhando direitinho, colocando os temperos certos, embrulhando com papel alumínio, a carne fica tão tenra e macia, que solta do osso e derrete na boca."
Tem uma música, das antigas, do Jorge Ben que diz que “quem ama quer casa, quem quer casa quer criança, quem quer criança quer jardim, quem quer jardim quer flor, e como já dizia Galileu, isso é que é amor!”. Acho que tem muito mais gente do século passado do que se supõe.

8 comentários:

Ana disse...

As coisas que você escreve são deliciosas de se ler!!! Com um conteúdo excelente, engraçado e verdadeiro... =)

bjs

fernanda_cm disse...

Poesia e estômago...

NEIA GUIMARAES disse...

Voltando as origens e se deliciando ao escrever,este é o Tio Moa!!!bjinhos

Gleice disse...

Perfeito esse post.. O melhor é que se mata 2 coelhos com uma cajadada só: se lê um ótimo texto e a sinopse de um bom filme..rs..

Aline disse...

É incrível o medo do encontro com a realidade, mas, de fato, ela é curta... Acho que vivo de sonho em sonho... E o filme é só PERFEITO.

Tiago do Valle disse...

Ainda não assisti. Ainda... Quando ver, vou te dizer o que achei.
Uma breve citação para o comentário da Aline: "Se a realidade não gerasse medo, a coragem para enfrentá-la não seria tão aplaudida" - Jacques Legrand Murrier de Le Grand Pinto, carpinteiro francês.
Abraços!
Ass: o marido da cabelereira

Victor disse...

Assisti a esse filme na sua casa, Tio Môa, hahaha. Gostei muito, tanto do filme, quanto da sua descrição dele e do blog. Parabéns!

HUMBERTO LARAIA disse...

Demorei para me lembrar!!! Mas lembrei!!! Apareça, em casa ou no blogui, que em breve voltará à atividade normal, ou paranormal.

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