terça-feira, 28 de junho de 2011

OS 10 MAIS - OS DOIS LADOS DO RAIMUNDO FAGNER

Ah, finalmente, recebi a primeira provocação sobre a minha lista dos dez melhores discos brasileiros de todos os tempos. O provocador foi o Panta, citando José Simão: “tudo na vida tem seu lado bom, exceto um disco do Fagner”. Evidentemente, os que riem com a piada, entre os quais eu me incluo, são aqueles do tempo em que os discos tinham dois lados, o “A”e o “B”. 


Aos filhos destes tempos de escuridão, que não viveram a gloriosa era dos discos de vinil, explico que, ao ouvirmos um disco recém comprado, quando não gostávamos das músicas do lado “A”, ou do lado que ouvíramos primeiro, sempre restava a esperança do outro lado, porque em muitos dos casos, os dois lados eram muito diferentes, os autores separavam as músicas por afinidade, e, quando não era assim, nossa sensibilidade se encarregava de se alinhar mais com esta ou aquela combinação de músicas, de modo que acontecia de adorarmos um lado e quase não ouvirmos o outro.

Vez por outra, quando compro um CD de um disco de vinil que eu tive e que há séculos não ouvia, me surpreendo com como ainda canto todas as músicas que eram de um lado e quase não reconheço as que eram de outro. Enfim, deu prá entender a piada do Zé Simão, não deu?



Dito isto, vamos ao Fagner e seu magnífico disco Raimundo Fagner, de 1976. Antes, no entanto, devo acrescentar que foram magníficos também todos os seus primeiros discos, como o Manera Fru Fru Manera (1973), Ave Noturna (1975), Orós (1977), e ainda os ótimos, mas irregulares 4 discos posteriores, que ainda traziam algumas músicas maravilhas, como nos discos de 78 (“Motivo” e “Revelação”) e de 79 (“Noturno”e “Ave Coração”).

Depois disso, com a entrada dos anos 80, Fagner foi caindo, ficando brega, até se transformar, mui justamente, em piada do Zé Simão. Um parêntese: nos anos 80 virou moda uns arranjos super bregas, que assolaram a música mundial, na onda na New Age, ou sei lá o nome. No Brasil teve um tal de Lincoln Olivetti, considerado por muitos um Deus, que fazia arranjos padronizados com um orgãozinho chatézimo. Fez arranjos prá todo mundo que queria vender bastante, de Fagner a Wando, de Gal Costa a Joanna, passando por Caetano, Gil, Rita e Roberto Carlos. Todos os discos que ele fazia os arranjos ficavam com jeito de disco dos Menudos, uma batida padrão que vocês, filhos dos atuais tempos de escuridão, felizmente não pegaram, livrando-se dos anos 80, os anos do rosa choque! Mas, como tudo na vida tem seu lado bom, exceto um disco com arranjos do Lincoln Olivetti, podemos considerá-lo importante para a popularizaçao da música independente e do Rock nacional, vinda do vácuo total e absoluto da MPB que chafurdava naqueles arranjos...


Quanto à escolha do "Raimundo Fagner", de 1976, eu bem que eu queria colocar entre os 10 mais um outro disco do Fagner, Orós, de 1977, que, com arranjos e participação de Hermeto Paschoal, é um dos discos mais belos e originais da música brasileira. Também poderia escolher o maravilhoso disco de estréia, Manera Fru Fru Manera. Mas acho este Raimundo Fagner ainda superior. Todas as 11 faixas são lindas na poesia, na melodia e nos arranjos (Fagner, Wagner Tiso e Robertinho do Recife). Fagner ainda não era popular, mas já era uma celebridade do meio musical. Atraiu músicos de primeiríssima: Robertinho do Recife, Robertinho Silva (que há pouco tempo vimos tocar com João Donato), Liminha (o “quinto Mutante”), Dominguinhos e Wagner Tiso. Sua voz especialíssima é anterior à sua fase de exageros vocais de doer os ouvidos. É um disco que nos inspira a cantar. Todas as músicas estão no mesmo nível, bem tocadas e bem cantadas. A ouvir com cuidado: “Conflito” (típica canção, cantada com voz límpida e sóbria); “Além do Cansaço”, um rockezinho com um embalo delicioso; a agreste “Matinada”, de poesia sertaneja simples e melancólica e a elíptica e insidiosa “Natureza Noturna”, feita sobre poesia de Capinam, que começa assim:
Eu tenho o mesmo segredo
Dos malditos solitários
Só a noite é minha amiga
A quem friamente confesso
A natureza noturna
Dos meus infernos diários
Fagner musicou grandes poesias de famosos poetas e sempre acertou em cheio, como com Cecília Meirelles, Florbela Espanca ou Fernando Pessoa. Neste disco ele investe em poetas menos conhecidos, mas maravilhosos, como Fausto Nilo, Abel Silva, Clodo e Capinam. Um disco belíssimo, dos dois lados, e quase perfeito. Ouça uma, duas, três vezes, e deixe que a música vá entrando em você. Não dói...Panta, favor fazer chegar este pôsti ao Zé Simão...

"Não guardo segredos mas sou bem secreto...
É que eu mesmo não acho a chave de mim”. (Abel Silva)


4 comentários:

Anônimo disse...

Móça
mandei teu post para o macaco simão. rezemos para que ele leia.
difícil mesmo é explicar aos leitores do teu blogui (jovens há muito menos tempo que nós) o que é um lp... muito menos o que é um bom Fagner... que de fato houve... até o manera frufru o cara era excelente. Depois foi engolido pela indústria fonográfica, como muitoa que vc. citou e muitos que vc. não citou. Num disco que gravou com o Zeca Baleiro ele lembra os bons tempos.
Vamos deixar clara uma coisa: concordo parcialmente com o Zé Simão: há 2 Fagners. Um que tem dois lados bons e outro que se vendeu ao capital internacianal.
Beijos
Panta
P.S.: minha lista de 10 melhores discos já está comn mais de 246 títulos e aumenta cada vez que baixo coisas desconhecidas no soulseek...

HUMBERTO LARAIA disse...

Grande Panta!!!
Uma dúvida: Se uma colher é uma colher, mas quando são duas, são "colheres", acaso mais de um Fagner não seria Fagneres???
Saudades eternas...

Anônimo disse...

Como cria dos anos 80, curti demais o blog e o texto. Não conheço este disco do Fagner, que fiquei muito afim de conhecer. Obrigdo pela dica. Ouço Manera Fru Fru Manera desde que sou adolescente. O ouço até hoje, com o mesmo maravilhamento. É um dos melhores - e mais tristes - discos lançados no Brasil. Também sou apaixonado por Motivo, a música que ele fez para a letra de Cecília Meireles, e que a família dela mandou tirar do disco Eu Canto. abs.

Tio Moa disse...

Realmente, Manera Fru Fru é tristíssimo. Tão triste quanto belo! Obrigado pela visita e pelo comentário!

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